Raquel Varela | Sobre o Fascismo

A característica fundamental do fascismo é a violência contra quem trabalha, a outra é o irracionalismo. Chegámos ao ponto de aceitar discutir esta semana se houve mais presos durante a revolução ou durante a ditadura, e tudo apresentado como “factos”. Poucos debates, mesmo com a tentativa de resposta por parte de historiadores rigorosos, foram tão ligeiros. Entrámos na armadilha do irracionalismo, ou, como diz um dizer popular não discutas com um porco, acabas sujo.

Primeiro e acima de tudo, a história não são só factos nem eles falam por si. Se fosse, podia ser escrita pela IA. A história é um ofício complexo de relação entre evidência e conceito, teoria e investigação de factos. Não há simetria bilateral entre mortos e presos do fascismo e socialistas, na revolução dos cravos – é de longe a coisa mais absurda que ouvi na minha vida como historiadora e demonstrativa do estado obscurantista que vivemos, e de que a comunicação social é, muito mais do que as redes sociais, o palco principal. A prisão de um fascista não é equiparada à prisão de um resistente anti fascista. Da mesma forma que não se equipara o fuzilamento de nazis na II Guerra ao fuzilamento de comunistas que resistiam ao nazismo. Uns lutavam pela supremacia da raça, por uma sociedade de escravidão de campos de trabalho e morte, outros lutavam contra isso. Todas as ideologias têm gente que perde a noção do poder, e comete crimes, veja-se o que fazem as democracias liberais a este respeito quando se trata de lutar pelas suas matérias primas. Mas nada, nada, compara comunismo, ideologia de bem comum (que pode ser pervertida) a uma ideologia nazi (ideologia da morte e da segregação, do pesssimismo e do irracionalismo). 

A ditadura do Estado Novo tem certamente mais de cem mil mortos nas suas mãos, centenas de milhar de prisioneiros; e trabalho forçado, entre 1884 e 1974, à escala de 2 milhões de pessoas (centenas de milhar durante a parte do Estado Novo).

A ditadura de Salazar e Caetano matou só nas colónias e apenas durante 13 anos 100 mil pessoas (segundo a historiografia militar norte americana). Não contando as guerras de “pacificação” anteriores a 1961, para escravizar em regime de trabalho forçado os camponeses locais. A revolução dos cravos libertou o país. Falta-nos mais revolução dos cravos e não debate com fascistas.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.