Spinoza | Machado de Assis

Arte – Baruch de Spinoza, attributed to Barend Graat, 1666. Wikimedia

Gosto de ver-te, grave e solitário,

Sob o fumo de esquálida candeia,

Nas mãos a ferramenta de operário,

E na cabeça a coruscante idéia.

E enquanto o pensamento delineia

Uma filosofia, o pão diário

A tua mão a labutar granjeia

E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,

Sibile o bafo aspérrimo do inverno,

Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,

A lei comum, e morres, e transmutas

O suado labor no prêmio eterno.

Machado de Assis

Fiodor Dostoievski | Anna Dostoievskaia

Carta de 1876, de Fiodor Dostoievski (11 de Novembro de 1821 — 9 de Fevereiro de 1881) a Anna Dostoievskaia ou Anna Grigórievna Snítkina (12 de Setembro de 1846 – 9 de Junho de 1918).

”Minha Anuska, onde foste buscar a ideia de que és uma mulher como outra qualquer? Tu és uma mulher rara, e, além do mais, a melhor de todas as mulheres. Tu própria não sonhas as qualidades que tens. Não só diriges a casa e as minhas coisas, como a nós todos, caprichosos e enervantes, a começar por mim e a acabar no Aléxis. Nos meus trabalhos desces ao mais pequeno pormenor, não dormes o suficiente, ocupada com a venda dos meus livros e com a administração do jornal. Contudo, conseguimos apenas economizar alguns copeques — quanto aos rublos, onde estão eles? 

Mas a teu lado nada disso tem importância. Devias ser coroada rainha, e teres um reino para governar: juro-te que o farias melhor que ninguém. Não te falta inteligência, bom senso, sentido da ordem e, até… coração. Perguntas como posso eu amar uma mulher tão velha e feia como tu. Aí, sim, mentes. Para mim és um encanto, não tens igual, e qualquer homem de sentimentos e bom gosto to dirá, se atentar em ti. Por isso é que às vezes sinto ciúmes. Tu própria nem sabes a maravilha que são os teus olhos, o sorriso e a animação que pões na conversa. O mal é saíres poucas vezes, se não ficarias admirada com o teu êxito. Para mim é melhor assim — no entanto, Anuska, minha rainha, sacrificaria tudo, até os meus ataques de ciúmes, se quisesses sair e distraíres-te. Sim, muito gostaria que te divertisses. E se tivesse ciúmes, vingava-me querendo-te ainda mais. 

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Sidónio Muralha | Luar de Lua cheia

É luar de lua cheia

tocando as casas e a rua,

são conchas, búzios na areia,

a paz é minha e é tua.

É o povo todo unido,

no mundo, de norte a sul,

e é um balão colorido

subindo no céu azul

A paz é o oposto da guerra,

é o sol, são as madrugadas,

e todas as crianças da terra

de mãos dadas, de mãos dadas,

de mãos dadas.

Versão da Revista Tintin comemorativa dos 60 anos l Tintin. As Jóias de Castafiori, de Hergé já nas livrarias.

ASA BD – 27 novembro 2023 | Novidade Editorial BD

Versão da Revista Tintin comemorativa dos 60 anos  l Tintin. As Jóias de Castafiori, de Hergé já nas livrarias.

No início dos anos sessenta, Hergé é um homem realizado. As Aventuras de Tintin são agora distribuídas em muitos países e a notoriedade do seu autor é crescente. Nessa época, Hergé começa a distanciar-se da banda desenhada, para se interessar pela arte contemporânea. Além disso, quando mergulha na criação de uma nova aventura de Tintin, é pelo prazer de subverter os códigos que ele próprio estabelecera. É assim que, com As Joias de Castafiore, ele entrega o seu trabalho mais inesperado. Antes de projetar a edição definitiva, conhecida no mundo inteiro, o desenhador tinha elaborado uma primeira versão, publicada na revista Tintin, e cujos originais estavam adormecidos nos seus arquivos, há 60 anos. Restaurados com cuidado e minúcia, esses documentos permitem-nos hoje oferecer As Joias de Castafiore, da mesma forma que apareceu, na íntegra, na revista para jovens dos 7 aos 77 anos, entre 1961 e 1962.

Nascido a 22 de maio de 1907 em Etterbeek, Georges Remi assinou inúmeras ilustrações para revistas de escuteiros durante a sua juventude sob o nome de Hergé. Foi em 10 de janeiro de 1929 que “deu à luz” o repórter Tintim nas páginas do Petit Vingtième, suplemento juvenil de um jornal diário católico belga. O seu herói rapidamente se tornou a personagem mais emblemático da BD Francófona. Curioso por tudo o que compõe o seu século, Hergé colecionou imagens e signos míticos e históricos. Através da sua arte de desenhar e da sua ciência de contar histórias, ele deu à BD europeia o reconhecimento mundial inquestionável. Morreu em 3 de março de 1983 em Woluwe-SaintLambert.

Livro da Dança | Gonçalo M. Tavares

«O plano desse primeiro livro de Gonçalo M. Tavares (…) tem a ver com o que ele parece desenvolver como política de escrita: a literatura como um corpo-dançarino que oscila entre a ficção, o ensaio e a anotação e, principalmente, como um pensamento sucessivo que vem de um passado reminiscente e se lança no presente. Um método de escavação arqueológica do texto que se dá através de repetições incessantes, de ideias sobre o corpo e de resistências no mundo agora – quando a literatura também vem como um movimento arqueológico.

Data de lançamento

31/10/2018 | Relógio d’ Água Editores

Victor Hugo | Les Misérables

“Les Misérables” é um romance do escritor francês Victor Hugo, publicado em 1862. Este monumental romance conta as histórias de vários personagens icónicos e explora temas como a justiça social, o amor, a redenção e a desigualdade social.

O personagem principal do romance é Jean Valjean, um ex-presidiário que tenta se redimir e encontrar redenção após ser libertado da prisão. Através da jornada de Valjean, Victor Hugo aborda as questões da pobreza, injustiça social e os efeitos da Revolução Industrial na sociedade.

Outros personagens-chave incluem Fantine, uma jovem mãe solteira, Cosette, sua filha adotiva, Marius, um estudante comprometido com ideais revolucionários, e o inspetor Javert, determinado a capturar e punir Valjean.

“Les Misérables” apresenta um quadro marcante da sociedade francesa do século 19 e expõe as desigualdades gritantes entre as classes sociais. Victor Hugo retrata a miséria das classes trabalhadoras, a dureza do sistema prisional e a luta pela sobrevivência num mundo atormentado pela injustiça social.

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Um romance sobre a fragilidade do amor | Marta Barbosa Stephens | por Adelto Gonçalves 

Com “As viúvas passam bem”, Marta Barbosa Stephens se reafirma como uma das principais romancistas do Brasil de hoje.


            Depois de fazer sua estreia como romancista com Desamores da portuguesa (Rio de Janeiro, Imã Editorial, 2018), obra que conta a história de vida de uma rapariga lusitana, de 41 anos, sem nome, que vive um triplo autoexílio do país, da língua e do passado, Marta Barbosa Stephens volta a exercitar o gênero com As viúvas passam bem (São Paulo, Folhas de Relva Edições/São Paulo Review Produções, 2023), livro finalista do Prêmio Leya de 2021, de Portugal, em que torna a exibir um texto fluente, sóbrio, em vários momentos poético e com passagens bem-humoradas.
A obra traz também algumas “cenas muy calientes de êxtase amoroso, em linguagem direta, sem metáforas”, como bem salienta o jornalista e escritor Hugo Almeida no texto de apresentação. Enfim, trata-se de um romance sobre a fragilidade de um amor que, aparentemente, mostra-se perfeito e que, de repente, em razão dos inesperados movimentos da vida, perde-se, embora seja sempre possível um recomeço, ainda que com outro(a) parceiro(a).

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Vem aí a primeira FLESF | Festa Literária Escolar do Subúrbio Ferroviário de Salvador

FLESF – Festa Literária Escolar do Subúrbio Ferroviário de Salvador promete agitar bairros periféricos com literatura, arte e cultura.

Entre os dias 29 de novembro e 02 de dezembro, as escolas públicas de Alto de Coutos, na região suburbana de Salvador, serão palco da primeira FLESF – Festa Literária Escolar do Subúrbio Ferroviário. O evento, organizado pelo Sarau do Agdá e pela Biblioteca Social Afro-indígena Meninas do Subúrbio, conta com o apoio do Coletivo Água da Fonte, da UBESC – União Baiana de Escritores e da Revista Òmnira.

A FLESF tem como objetivo trazer alegria e promover o acesso à literatura, à arte e à cultura nas comunidades periféricas, dando destaque à diversidade e à riqueza cultural existentes nesses locais.

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A Prisão Dourada | Fiodor Dostoievski, in “O Movimento de Liberação | 11-11-2023

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Moscou, 11 de novembro de 1821 – São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881) foi um escritorfilósofo e jornalista do Império Russo. É considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores “psicólogos” que já existiram (na acepção mais ampla do termo, como investigadores da psiquê).

Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas… e entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. Talvez, de facto, nunca mais saisses de lá. Está lá tudo! “Estou muito bem aqui sozinho!”. Mas, de repente – uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros, e é-te dito: ‘Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!”. Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu paraíso e pular por cima do muro. Mais! Tudo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo… Sim, apenas uma coisa te falta… um pouco de liberdade.

A cruzada das crianças | Afonso Cruz

«Neste livro, Afonso Cruz parte da realidade histórica da Cruzada das Crianças e da pureza ética e moral destas para, como é seu hábito, operar uma revisão na história e proceder a uma atualização das reivindicações infantis segundo o desejo de criação de um outro mundo, moralmente impoluto e socialmente harmónico. Um mundo mais puro porque profundamente humano. É, assim, um livro a ser lido em conjunto por pais e filhos, educadores e crianças.»

Miguel Real

A Cruzada das Crianças (ed. Fábula), de Afonso Cruz, regressa às livrarias a 20 de novembro. Excerto para leitura aqui.

Seffrin, um analista de fina imaginação | Novo livro do crítico literário reúne produção dos últimos trinta anos | por Adelto Gonçalves

                                                          I
            Crítico e ensaísta que segue as pegadas de autores renomados como Massaud Moisés (1928-2018) e Wilson Martins (1921-2010), André Seffrin (1965) reuniu em O demônio da inquietude (Santarém, Portugal, Rosmaninho Editora de Arte, 2023) resenhas, memórias, apresentações de livros, crônicas, pequenos ensaios e prefácios publicados em três décadas de atividade literária, que inclui não só textos que saíram à luz em jornais impressos, revistas e sites como a organização de antologias e obras completas de grandes poetas e pensadores brasileiros.
            Analista de fina imaginação e estilo em que se sobressai uma “linguagem limpa, clara, concisa, direta, rica de timbres e tonalidades”, como observou o poeta, memorialista, historiador, ensaísta e diplomata Alberto da Costa e Silva (1931), ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-embaixador do Brasil em Portugal, Seffrin oferece ao leitor um panorama da Literatura Brasileira e das artes visuais dos dois últimos séculos que equivale a um curso de Letras completo.

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Portugal na História – Uma Identidade, de João Paulo Oliveira e Costa | Prémio Gulbenkian

É com muita alegria que a Temas e Debates informa que Portugal na História – Uma Identidade, de João Paulo Oliveira e Costa, acaba de ser distinguido pela Academia Portuguesa da História com o Prémio da Fundação Calouste Gulbenkian, História da Europa.

Baseada numa experiência académica de décadas, bem como nas viagens de João Paulo Oliveira e Costa pelos cinco continentes, a obra, que também venceu o Prémio John dos Passos 2023, é uma notável reflexão sobre o País. Privilegiando um olhar que apreende um sentido global, apresenta um enquadramento da história de Portugal no mundo, demonstrando também como a História está à vista de todos e não apenas na inacessibilidade da erudição académica.

A cerimónia de entrega do prémio terá lugar na Academia Portuguesa da História, no próximo dia 6 de dezembro, às 15h00.

Prémio Médicis Étranger | Lídia Jorge

É a notícia do dia e talvez dos próximos dias.

O Médicis Étranger, criado em 1970, é pela primeira vez atribuído a um autor de língua portuguesa, depois de em edições anteriores ter distinguido escritores como Milan Kundera, Julio Cortázar, Doris Lessing, Umberto Eco, Elsa Morante, Antonio Tabucchi, Philip Roth, Orhan Pamuk, ao lado dos quais passa a estar, a partir de agora, Lídia Jorge.

O Médico da Humanidade e a Cura da Corrupção Autor: Augusto Cury

Napoleão Alcântara, um líder poderoso e carismático, é levado pelo misterioso H numa viagem através dos tempos, para conhecer alguns dos episódios mais negros da história da humanidade.

Ao mostrar-lhe como se deu a ascenção de Hitler e do Partido Nazi, a invenção da guilhotina, a negação de Pedro a Cristo ou o julgamento de Sócrates, H quer revelar-lhe o poder dos «vampiros mentais» – o orgulho, a ira, o ciúme, a dissimulação, a ambição ou o egocentrismo – e como estes podem «asfixiar» até o mais honesto dos homens.

Caminhando ao longo dos séculos, com H ao seu lado, Napoleão Alcântara reconhece a força dos «vampiros mentais» e como é importante fazer-lhes frente para que possa no futuro tornar-se num líder exemplar, verdadeiramente ao serviço da população.

Uma viagem pela história e pela psique humana, O Médico da Humanidade e a Cura da Corrupção, do escritor, psiquiatra e psicoterapeuta brasileiro Augusto Cury, um dos autores de língua portuguesa mais lidos da atualidade, é um romance que explora como é que a corrupção se instala na mente humana.

O livro chega às livrarias dia 9 de novembro, pela Pergaminho.

Rita Cipriano | Grupo Bertrand Círculo

A Velhice | Simone de Beauvoir

O ensaio de Simone de Beauvoir publicado em 1970 e intitulado “A velhice” é simétrico ao “Segundo sexo” em ambos os casos. Simone de Beauvoir passa de um questionamento de si mesma para a questão mais geral sobre o que significa “ser velho” e o lugar da velhice na nossas sociedades. Ela analisa, abre debates, explora a história e dá exemplos. Para ela, a situação desigual dos idosos advém das desigualdades sociais e econômicas. “Antes de cair sobre nós, a velhice é algo que só diz respeito aos outros”, escreve também.

No outono de 1974, Simone de Beauvoir também participou do filme de Marianne Ahrne, Promenade au Pays de la Vieillesse.

Uma reflexão sobre o ensino e o futuro das gerações | novo livro de Silas Corrêa Leite | por Adelto Gonçalves (*)

                                                           I
            “Gente, passei muitos anos sentado em cadeiras chatas, de salas de aulas de escolas públicas periféricas, sendo eterno apaixonado por minhas mestras, para então, e só então, sonhar em poder ser alguém na vida, já que, para o pobre, a única escada para a ascensão social é mesmo a escola. Portanto, um lugar sagrado, camaradas, uma catedral. Acreditem nisso”.
Estas palavras constam do segundo dos 29 artigos, mais uma introdução, que compõem Vivências Educacionais: de educador para educador (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023), novo livro de Silas Corrêa Leite, professor, poeta, contista, romancista, letrista, bibliotecário, desenhista, jornalista comunitário, ensaísta, membro da União Brasileira de Escritores (UBE) e blogueiro premiado, autor de vasta obra publicada.
Exemplo perfeito do que argumenta, o articulista faz aqui a defesa da importância do professor presente fisicamente numa sala de aula e seu livro constitui, desde já, uma arma de defesa contra a proliferação do ensino a distância que está ajudando a enriquecer grupos econômicos, mas que tem causado prejuízos notórios não só para a educação infantil como para o ensino universitário. Enfim, o que há é uma pobreza de aprendizagem que vai impedir ou dificultar para crianças e jovens a busca de oportunidades que os preparem para uma vida com qualidade e dignidade.

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Valdeck Almeida de Jesus Lança Poesia Abrasiva e Reflexiva em seu Novo Livro na Flica 2023

A Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica) será o cenário de um evento imperdível para os amantes da poesia, marcado para o dia 28 de outubro de 2023, às 16hs, no auditório da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O renomado escritor Valdeck Almeida de Jesus revelará seu mais novo livro de poemas, Poemário aos meus Deuses – ou Cate-Cisma, durante um encontro que promete ser um marco na literatura brasileira, com mediação da professora, poeta e escritora Sandra Liss.

Valdeck Almeida de Jesus é conhecido por sua poesia crua e impactante, e este livro não é exceção. Poemário aos meus Deuses – ou Cate-Cisma reúne 40 poemas que mergulham na diversidade da experiência humana, explorando temas que variam desde família, religião, até questões sociais contemporâneas e dilemas existenciais profundos. O autor constrói uma narrativa poderosa e crítica que toca o leitor em vários níveis.

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Beijo, de todos o mais casto | por Manuel S. Fonseca

Bem sei que já estamos em Outubro, a derrapar para Novembro, mas foi Setembro e são estes versos do brasileiríssimo Carlos Drummond de Andrade que acicatam a minha lamentável cabecinha: “Era manhã de Setem­bro e ela me bei­java o membro. Aviões e nuvens pas­savam, coros negros rebramiam, ela me bei­java o membro.”

Eis o beijo que faz explodir em fogo de artificio o imaginário masculino – mesmo o mais empedernido e tóxico representante da masculinidade. Sim, mesmo um ultra cis, hiper hétero tem vontade de fechar os olhos e entoar com voz lírica e num requebro de mariquíssima doçura o verso de Drummond: “e ela me beijava o membro.”  É como ter asas e voar.

Num filme, “Betty Blue, 37,2º le matin”, Béatrice Dalle, talvez a boca mais sensual do mundo nos anos 80, agracia o amado com essa dádiva divina. Béatrice tinha 21 anos e era na vida o contrário do vulcão de sexualidade e aquecimento global que exibe no ecrã: ingénua e pura. E é assim, pura e rebelde, que beija o que beija.

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Considerações sobre a poesia de Érico Nogueira | Ou “a palavra desocultante” da Poesia | por Adalberto de Queiroz

Esta crônica não tem compromisso com o presente, nem com uma ou outra circunstância que possa sitiar o cronista enquanto a escreve ou a você, leitor, quando estiver a lê-la – e o tempo já terá consumido a ânsia de escrevê-la. O tempo se estará consumindo agora que você a lê, similarmente a quando foi composta.
Ora, sabemos através de Santo Agostinho que “o tempo é a imagem móvel da Eternidade”. Nada haverá, pois, que possa resistir à memória fugaz da crônica que não seja o olhar do Eterno e para o Eterno. Tudo flui, ensinava Heráclito de Éfeso, retomado pelo filósofo (e bom cronista) Vicente Ferreira da Silva[1]. E tudo flui porque “existir é coexistir”. Tudo flui porque “uma só coisa é em nós o vivo e o morto, o desperto e o adormecido, o jovem e o velho; unicamente que ao inverter-se umas resultam as outras e, ao inverter-se estas, resultam aquelas.

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Águas sem retorno | Maria Isabel Fidalgo

Amo cada minuto onde o teu coração respira longe do meu e tão perto.

Anda o sol desvairado a encher os espaços e são barcos o que procuro para navegar numa praia impossível.

Amo – te com o pensamento colado ao coração e são quentes as memórias onde vives.

Não ouço aves. Tudo no silêncio que abrasa são beijos quentes que nunca te darei em mais nenhum verão, que a juventude escondeu-se de nós, em águas indomáveis de lonjura.

História de Portugal de Cor e Salteada | Maria João Lopo de Carvalho (Autora)

“O que faziam os nossos antepassados? Andavam, basicamente, à paulada. E faziam-no sobretudo entre eles. De resto, fizeram-no em datas tantas que o melhor é esquecermos aqui as que não nos brindaram com feriados. Não que lhes faltassem inimigos externos e ameaças naturais, mas a preferência pela pequena intriga caseira, pela pancadaria de proximidade, parece acompanhar-nos desde os primórdios.” Assim começa esta História de Portugal de Cor e Salteada: a toque de caixa. Só termina a 25 de Novembro de 1975, quando um general sisudo, de “cabelo bem lambido”, decide pôr ordem na casa. Entre um momento e outro, Maria João Lopo de Carvalho brinda-nos com os acontecimentos-chave que fizeram de Portugal o país com as fronteiras mais antigas da Europa. A autora passa célere da pré-história aos árabes, leva-nos de caravela à descoberta do mundo, relembra Alcácer Quibir, narra o fim do império. E ela própria se junta à festa, e não poupa um ou outro açoite, sobretudo aos espanhóis. Versão plena de humor e ironia, mas rigorosa também, não perde tempo com datas maçudas ou dinastias completas. Fica-nos o crème de la crème, estrangeirismo “franciú” aqui regado com picante nacional. É ler, saborear, e chorar por mais.

Sophia de Mello Breyner Andresen | OBRA POÉTICA

Toda a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, em nova edição, com inéditos da autora.

A presente edição reúne toda a obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, seguindo e atualizando os critérios de fixação de texto adotados nas edições anteriores, graças ao notável trabalho de Maria Andresen de Sousa Tavares e Carlos Mendes de Sousa, que assinam, respetivamente, o prefácio a esta edição, e a Nota de Edição. O presente volume inclui alguns poemas inéditos que integram o espólio da autora, em depósito na Biblioteca Nacional.
Como nos diz Maria Andresen Sousa Tavares, no Prefácio a esta edição, há «poetas mais peritos, mais cultistas, mais destros e liricamente sofisticados, mais modernos, mais anti-modernos e pós-modernos, melhores pensadores. Mas aqui há uma força. Uma força muito raramente atingida. Há o vislumbre de um excesso não muito cauteloso, umas vezes iluminado, outras vezes rouco (“às vezes luminoso outras vezes tosco”). Mas há, sobretudo, o poder de uma simplicidade difícil de enfrentar, por vezes inconfortável, não pela dificuldade conceptual, mas porque a simplicidade é a coisa mais complexa e, neste caso, a mais difícil, porque nem sempre oferece o flanco ao diálogo, quando busca o “dicível” do esplendor e do terror, e só esse, sem literatura, onde “as Ménades dançam”.»

Deus, nos poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen | Frederico Lourenço

Para Sophia, Deus não está ausente do mundo: está dentro dele, em cada milímetro quadrado do mundo. Basta estarmos atentos para captarmos a presença de «esse deus que se oferece, como um beijo, nas paisagens» (Dia do Mar).

Hoje de manhã, ao acordar, o pensamento levou-me à lembrança de seis anos atrás, quando tive o grato prazer de participar numa conversa íntima (só que diante de 400 pessoas) sobre a obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os meus interlocutores eram Ana Luisa Amaral e Miguel Sousa Tavares. Fomos admiravelmente moderados por Anabela Mota Ribeiro. O auditório da Biblioteca Almeida Garrett (Porto) encheu-se para nos ouvir – e tanto a Ana Luísa como o Miguel deram pistas extraordinárias para a compreensão da poesia de uma autora que, cada vez mais, se revela aos falantes de língua portuguesa como criadora de uma obra que, na sua aparente e desarmante simplicidade, está, como a de Mozart, ao nível do maior conseguimento artístico em termos absolutos. 

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IRENE LISBOA | in Facebook

Mulher inteligente, de extrema sensibilidade, entusiasta do trabalho educativo, autora de vasta obra que se reparte entre a ficção intimista e autobiográfica, a crónica, o conto (para crianças e adultos), a poesia, a tradução, a pedagogia e a crítica literária, Irene Lisboa não teve porém uma vida pessoal e, até de certa forma, uma atividade literária que possamos considerar bafejada pela sorte. E é pena, porque Irene Lisboa foi não só uma escritora de grandessíssimo valor e uma pedagoga com um trabalho inovador, como uma pessoa generosa e amável que merecia ter conquistado um pouco de felicidade. 

Talvez a sua modéstia, o facto de ter sido pouco ambiciosa, porventura a recusa por parte do público de uma literatura feminina sentimentalista, o ter adotado um tipo de escrita realista e intimista (tão nua e crua que incomodava) a contracorrente do que ao longo da sua vida se foi editando, não se tendo sujeitado ao gosto comum do seu tempo, tivessem concorrido para que sofresse o insucesso, por assim dizer, comercial. 

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A Grande Inteligência é Sobreviver | Gonçalo M. Tavares

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Crítica Desjardim | Muito além do farol do fim do mundo, o terceiro romance de uma trilogia estupenda de Silas Corrêa Leite

Desjardim, Muito além do farol do fim do mundo – é um dos primeiros livros escritos por Silas Corrêa Leite, romance que compõe uma trilogia depois de O marceneiro — A última tentativa de Cristo e Ele está no meio de nós. Um crime grave cometido, e o meliante fugindo como se querendo voltar ao começo da louca jornada da vida que fez e levou, e fazer tudo diferente. Quando não há uma saída, nada faz a volta ser pacífica. No meio do caminho do desespero há um palhaço negro vestindo um macacão amarelo, com um botijão de gás nos ombros largos, como um acusador e modificador de roteiro, feito um juiz e salvador no limbo das circunstâncias. Um livro sobre medo, fuga, arrependimento, culpa e castigo, crime e acusação. O que vem para salvar, também pode cobrar seu preço. Voltar para casa, num caminho feito errado, pode ser só um pedido de mãe, e, como diz Henfil, quem tem mãe não tem medo. Essa é aventura de Desjardim.


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NOTAS SOLTAS DE UM DOMINGO DE OUTUBRO Fernando Couto e Santos | Facebook 01/10/2023

1-A Livraria Leya na Buchholz – que reabriu após obras de remodelação – promoveu esta semana uma série de conferências e outras iniciativas para assinalar os oitenta anos da famosa Livraria lisboeta. Sejamos claros: apesar dos esforços louváveis do grupo Leya que reergueu em 2010 a Livraria das cinzas da antiga Buchholz que havia encerrado em 2009, a vida nem sempre é um eterno recomeço e com o encerramento da velha Buchholz perdeu-se toda uma filosofia de livraria que durante décadas foi um símbolo de um certo cosmopolitismo literário que Lisboa em boa verdade não tinha ou tinha tão – só à guisa de ilhas muito dispersas – quiçá pequenas aldeias gaulesas -aqui ou acolá.

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O Outono | Maria Helena Manaia

Porque o Outono é todo ele devagar. Associo-o à palavra melancolia, com beleza por dentro, uma tristeza misturada com doçura, tudo só intimidade e lentidão. E gosto do regresso do frio a atravessar-nos a pele, das cores quentes e dos cheiros próprios da época, das roupas macias e de quanto sabe bem ficar em casa

em noites que começam cedo e parecem enormes.

Blues da morte de amor | Vasco Graça Moura

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
 
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
 
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.  

Ensaio sobre a Cegueira | José Saramago

Porto Editora | 2021 (Edição comemorativa do Centenário de Nascimento)

«Ensaio sobre a Cegueira é uma espécie de imago mundi, uma imagem do mundo em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Mas dirão: “Também há gente.” Pois há, mas o mundo não vai nessa direção. Há pessoas humanizáveis, pessoas que se vão humanizando por um esforço de supressão de egoísmos. Mas o mundo no seu conjunto não vai nessa direção.»
José Saramago


As Ideias Políticas e Sociais de Jesus Cristo | Diogo Freitas do Amaral | Bertrand Editora

Neste breve mas claríssimo ensaio, o autor, católico praticante de uma vida, Professor de Direito e autor de manuais sobre pensamento político do Ocidente, analisa as mensagens políticas e sociais de Jesus Cristo apresentadas nos quatro evangelhos que formam o Novo Testamento, no seu contexto histórico, e reflete sobre a sua continuada pertinência nos nossos dias.

«Não tenho credenciais para escrever sobre problemas teológicos, exegéticos ou hermenêuticos. Mas, tendo redigido, ao longo de vários anos de estudo e reflexão, uma História do Pensamento Político Ocidental, gostaria de aplicar os métodos que utilizei nesse trabalho ao estudo e comentário das ideias políticas, económicas e sociais de Jesus Cristo. (…) Penso que este breve opúsculo poderá ter uma dupla utilidade: para os cristãos, chamar de novo a sua atenção para o facto de que, como Jesus avisou, “nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino do céu.

Só aí entrará quem ouve [as] minhas palavras e as põe em prática” (Mateus 7, 21 e 24); para os não cristãos, para os que seguem outras religiões e para os não crentes, sublinhar que Jesus Cristo não tinha a intenção de pregar aos convertidos, mas sim aos que se sentiam perdidos ou incompletos na sua vida (…). Mesmo que não acreditem na divindade de Jesus, sei que há muitos agnósticos e ateus que reconhecem como excepcionalmente boas as suas ideias políticas e, sobretudo, as sociais e que em larga medida as seguem.» (da Introdução)

Silas Corrêa Leite | “VIVÊNCIAS EDUCACIONAIS”

De Educador para Educador, o Especialista e Teórico em Educação, Silas Corrêa Leite, Premiado como Escritor e Professor, e seu livro “VIVÊNCIAS EDUCACIONAIS”

“Não ensine ninguém a ser como você/Já pensou o perigo?

Ensine o aluno a ser ele mesmo/Que isso dói menos

Ensine o aluno a se procurar/Dê os sinais…

Seja o referencial; procure-o/Nele – sendo ele

Então ele tendo essa ajuda-você/Pode se achar no Ele

Ensine o aluno a ser o que Ele/Precisa ser: um não-você

Já pensou que LIBERDADE?”

(Ensinança, Professor Silas Corrêa Leite

Poema escrito em Reunião Pedagógica)

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PORQUE | Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo, 1958

A castidade com que abria as coxas | Carlos Drummond de Andrade

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados.

Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘O Amor Natural’

BASTASTE TU | Maria Eugénia Cunhal 

Bastou aquele gesto

Da tua mão tocar tão docemente a minha

Pra nascerem raízes

Que me prendem à terra e me alimentam

Nas horas mais vazias

Bastou aquele olhar

O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu

Para iluminar as noites em que a lua se esconde

E a escuridão envolve um mundo sem sentido.

Bastou esse teu jeito de sorrir,

Um sorriso em que vejo despontar a confiança

Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,

Nos passos que ressoam noutros passos

Bastaste tu.

Maria Eugénia Cunhal | In “Silêncio de Vidro”

Festa do Livro em Belém | Programa 2023

De 31 de Agosto a 3 de Setembro

A Festa do Livro em Belém é uma iniciativa do Presidente da República para promover obras e autores de língua portuguesa. A edição deste ano conta novamente com a organização da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e a parceria das Bibliotecas Municipais de Lisboa. Participam 68 editoras com 122 bancas, que representam um total de 253 marcas editoriais.

ENTRADA LIVRE pelo Museu da Presidência da República ou pelo Jardim Botânico Tropical.

Descarregue aqui o Folheto com a Programação Completa dos 4 dias (PDF – 1MB)

Descarregue aqui os Horários completos das Sessões de Autógrafos (PDF – 458KB)
Quinta-feira, 31 de agosto

18:00 – Abertura oficial da Festa do Livro em Belém 2023

22:00 – Encerramento das editoras e das entradas do público

22:00 – CINEMA | “Autografia”, de Miguel Gonçalves Mendes

23:30 – Fim da sessão de cinema, saída do público

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Baruch Spinoza | Jorge Luis Borges

Bruma de oro, el Occidente alumbra
La ventana. El asiduo manuscrito
Aguarda, ya cargado de infinito.
Alguien construye a Dios en la penumbra.
Un hombre engendra a Dios. Es un judío
De tristes ojos y de piel cetrina;
Lo lleva el tiempo como lleva el río
Una hoja en el agua declina.
No importa. El hechicero insiste y labra
A Dios con geometría delicada;
Desde su enfermedad, desde su nada,
Sigue erigiendo Dios con la palabra.
El mas pródigo amor le fue otorgado,
El amor que no espera ser amado.

Jorge Luis Borges | “Poesía Completa”, pág. 461 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986 foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino. Nasceu a 24 Agosto 1899 (Buenos Aires, Argentina), Morreu em 14 Junho 1986 (Genebra, Suíça)

Portugal: porquê o país do salário de mil euros?

O QUE ANDO A LER | Pedro Lima, Adjunto de Economia do Jornal Expresso.

Assume-se como “o novo livro do desassossego” e acaba de ser lançado: “Portugal: porquê o país do salário de mil euros?”, parte de um primeiro diagnóstico, feito em 2002 e organizado por Luís Valadares Tavares, Abel Mateus e Francisco Sarsfield Cabral, com o título “Reformar Portugal. 17 estratégias de mudança”. O mesmo Luís Valadares Tavares juntou-se agora a um seu ex-aluno, o também professor universitário João César das Neves, para analisar os avanços e recuos dos últimos 20 anos, sob o mote de “seis grandes ambições”: o rendimento dos trabalhadores, a desigualdade social, o planeamento das infraestruturas, a saúde, a educação e as finanças públicas.

A ideia foi identificar “seis bloqueios ao desenvolvimento”, que passam pelo Estado, pela produtividade, pela lei laboral, pela saúde, pela educação e pelo mercado de capitais, o que fazem numa conversa em que vão alternando os papéis de entrevistador e de entrevistado. É na qualidade de entrevistado que César das Neves nos recorda, logo no início, que “Portugal é um país indiscutivelmente rico” mas apesar disso “a nossa economia ainda está assolada por graves contrastes, sendo o nível de salários um dos mais gritantes”. “Assim que chegámos ao grupo de cima, apagámos a chama, danificando fortemente as nossas ambições”. Eis o ponto de partida para esta análise à economia portuguesa.

A Morte de Jesus | J. M. Coetzee

Em Estrella, David cresceu, tornando-se um rapaz de dez anos com um talento inato para o futebol e que adora jogar à bola com os amigos. O seu pai, Simón, e Bolívar, o cão, assistem habitualmente aos jogos, enquanto a mãe, Inés, trabalha numa boutique. David continua a fazer muitas perguntas, desafiando os pais e qualquer figura de autoridade que surja na sua vida. Nas aulas de dança da Academia de Música, David dança a seu bel-prazer. Recusa-se a fazer somas e não lê livro algum a não ser o Dom Quixote. Um dia, Julio Fabricante, o diretor de um orfanato, convida David e os amigos para formarem uma equipa de futebol a sério. David decide deixar Simón e Inés para ir viver com Julio no orfanato, mas passado pouco tempo sucumbe a uma misteriosa doença.

Depois de A Infância de Jesus e Jesus na Escola, J. M. Coetzee completa a sua inquietante trilogia com uma nova obra-prima, A Morte de Jesus, onde continua a explorar o significado de um mundo destituído de memória mas transbordante de perguntas.
As traduções são assinadas por J. Teixeira de Aguilar.

 

Guillaume Apollinaire | Biographie et Poème

Guillaume Apollinaire de Kostrowitzky nait à Rome le 26 août 1880 de père inconnu. Il est probablement le fils d’un noble officier italien dont sa jeune mère d’origine polonaise, Angelica Kostrowitzky, est la maitresse et avec qui elle aura aussi un autre enfant.

En 1887, Angelica, accro aux jeux de hasard, déménage à Monaco avec ses deux enfants. Mère négligente, elle ne s’occupe pas du tout de l’éducation de ses enfants. Guillaume, enfant à l’intelligence très vive et passionné de lecture, est placé en pension au Collège Saint Charles de Monaco. Il étudie ensuite au lycée Stanislas de Cannes et puis au lycée Masséna de Nice. C’est un élève brillant, mais pourtant il échoue au bac.

En 1900, la famille déménage à Paris. La situation économique précaire de son foyer le pousse à trouver un emploi. Il devient le précepteur d’une jeune aristocrate. Cet emploi l’amène à voyager beaucoup dans une ambiance cultivée et cosmopolite.  Il commence à se consacrer à l’écriture. Il tombe amoureux de la gouvernante anglaise de la famille où il est précepteur, mais la jeune fille le rejette.

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Simone de Beauvoir | as mulheres e o feminismo

Não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade.

Para Maria Matias, minha avó | José Tolentino de Mendonça

É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

Eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece
e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor.

Obras completas II | A Casa do Mundo | Tiago Salazar | Prefácio de Miguel Sousa Tavares

Chamar hoje Velho Continente à Europa é um anacronismo. As transformações verificadas nos últimos anos originaram um admirável mundo novo, com mil encantos ainda por descobrir. Da luxuosa Riviera Basca à nova-rica Moscovo da era pós-soviética, dos históricos portos mediterrânicos da Côte D’Azur às montanhas búlgaras ou às capitais do Báltico, o viajante contemporâneo depara-se com a elegância e o charme de lugares históricos, mas descobre também novas tendências e novos mundos, onde palavras como hip, trendy ou cool são termos que caucionam a modernidade. A Casa do Mundo é um livro de apaixonadas narrativas de viagens de um escritor e repórter pasmado com o que o admirável mundo velho tem de novo . 

“”Neste livro, o Tiago Salazar mostra de que matéria é feito o seu sonho de viajante. Um homem sozinho na Casa do Mundo, sem nenhuma outra profissão de fé que não a de conhecer o mundo e nele se sentir em casa.”

Miguel Sousa Tavares

Simone de Beauvoir | Pensamentos

1 – Não se pode escrever nada com indiferença.

2 – Querer ser livre é também querer livres os outros.

3 – O homem é livre; mas ele encontra a lei na sua própria liberdade.

4 – É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente.

5 – A mulher é tão necessária à alegria do homem e ao seu triunfo, que se pode dizer que, se ela não existisse, os homens a teriam inventado.

Deixa-me lembrar de ti | Maria Isabel Fidalgo

Deixa- me lembrar de ti. Sei que nunca virás, por isso vai devagar onde houver sombras , a mão na minha e uma lua alta a escorrer de sedução para que possa morrer nos teus braços ou morrermos os dois na dança de todos os sonhos.

A noite é a sede  do teu nome no meu pensamento, por isso danço, canto, deslizo no porto do destino onde nunca desembarcámos.

Estou a olhar o calor noturno e uma leve luz ilumina os meus pensamentos.

Vens então devagar para que nunca chegues e eu possa continuar a  rodar na valsa quimérica da meia noite envolta nos teus braços de neblina.

Maria Isabel Fidalgo

Águas sem retorno | Maria Isabel Fidalgo

Amo cada minuto onde o teu coração respira longe do meu e tão perto.

Anda o sol desvairado a encher os espaços e são barcos o que procuro para navegar numa praia impossível.

Amo – te com o pensamento colado ao coração e são quentes as memórias onde vives.

Não ouço aves. Tudo no silêncio que abrasa são beijos quentes que nunca te darei em mais nenhum verão, que a juventude escondeu-se de nós, em águas indomáveis de lonjura.

Até sempre, Portugal | Vítor Burity da Silva

Portugal é um país que me marcou profundamente. Desde a primeira vez que o visitei, fiquei encantado com a sua beleza, diversidade, cultura e história. Portugal é um país que tem de tudo: praias, montanhas, rios, cidades, aldeias, castelos, monumentos, gastronomia, vinhos, música, arte e literatura. Portugal é um país que sabe acolher os visitantes com simpatia, hospitalidade e generosidade. Portugal é um país que me fez sentir em casa.

Mas agora chegou a hora de me despedir. Depois de vários anos a viver e a trabalhar neste país maravilhoso, tenho de regressar ao meu país de origem. Não foi uma decisão fácil, mas foi necessária por motivos pessoais e profissionais. Sinto uma mistura de emoções: tristeza por deixar um lugar que me deu tantas alegrias e aprendizagens, gratidão por todas as pessoas que conheci e que me ajudaram, saudade por tudo o que vivi e que vou recordar para sempre, esperança por um futuro melhor para mim e para Portugal.

Não sei se algum dia voltarei a Portugal. Talvez como turista, talvez como residente, talvez como amigo. Mas sei que Portugal ficará para sempre no meu coração. Portugal é mais do que um país, é uma parte de mim. Por isso, não digo adeus, mas até sempre. Até sempre, Portugal.

Retirado do Facebook | Mural de Vítor Burity da Silva

A casa da mãe | Daniela Matos Leite

 A casa da mãe tinha toda a luz do mundo e era cálida quando a hora assim pedia. Quente no inverno e fresca no verão, assim era a casa. Entrada a primavera, revivia. Renascia. Chegávamos como se nunca tivéssemos partido. Qual vara de condão, o tempo parava a respiração. Na casa da mãe não havia dor ou morte, só trevos entrelaçados, alguns de quatro folhas, de mãos dadas com a música suspensa no ar coalhado de pássaros. Na casa da mãe havia euforia. Mãos e pés de danças nas tranças da cozinha e sestas e lanches à tardinha. Na casa não havia noite. Havia a luz, pássaros que bicavam ninhos nos beirais e não partiam. A grande casa continua a habitar o coração, mas a ausência esvaziou-a de mistério. 

Hoje está cheia de silêncio. Escura. Fechada. 

Sou essa casa.

Daniela Matos Leite, 

Palavras de Luz e Sombra, Poética Edições 

Considerações sobre a Lírica poética de Sônia Elisabeth | por Adalberto de Queiroz  

Tendo em mente um conselho do crítico paranaense Temístocles Linhares, e depois de ler (e reler) várias vezes os versos do premiado livro da goiana Sônia Elisabeth, sigo refletindo sobre os versos de “A Lírica Poética da Manhã que chega2” – porque, de fato, aqui o benévolo leitor encontrar-se-á diante de Poesia que exige reflexão de quem lê para que bem entenda e desfrute os poemas.  

Linhares dizia que um analista não pode submeter a poesia a uma doutrina e a um método que não sejam os do(a) Autor(a), e que só pertençam ao comentador.  
Concordo e entendo que devemos fazer o contrário – que o comentador tenha a paixão pela leitura e se deixe empolgar pela poesia e não tente submetê-la à canga de suas teorias ou pontos de vista. Isso na prática, não é algo fácil de se alcançar.

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Atlas do Corpo e da Imaginação | Teoria, fragmentos e imagens | Gonçalo M. Tavares 

Atlas do Corpo e da Imaginação é um livro de Gonçalo M. Tavares que atravessa a literatura, o pensamento e as artes, passando pela imagem e por temas como os da identidade, tecnologia; morte e ligações amorosas; cidade, racionalidade e loucura, alimentação e desejo, etc. Centenas de fragmentos que definem um itinerário no meio da confusão do mundo, discurso acompanhado por imagens d’Os Espacialistas, colectivo de artistas plásticos.

É um livro para ler e para ser visto e é também, de certa maneira, uma narrativa — com imagens que cruzam, com o texto, os temas centrais da modernidade. Neste Atlas do Corpo e da Imaginação, Gonçalo M. Tavares revisita ainda a obra de alguns dos mais importantes pensadores contemporâneos, partindo de Bachelard e Wittgenstein, passando depois por Foucault, Hannah Arendt, Roland Barthes, mas também por escritores como Vergílio Ferreira, Llansol ou Lispector, entre muitos outros.

Arquitectura, arte, pensamento, dança, teatro, cinema e literatura são disciplinas que atravessam, de forma directa e oblíqua, o livro. Com o seu espírito claro e lúcido, Gonçalo M. Tavares conduz-nos com precisão e entusiasmo através do labirinto que é o mundo em que vivemos.

PRÉMIOS

Prémio Belas Artes de Tradução Literária, Prémio Tabula Rasa, Prémio Fundação Inês de Castro, Grande Prémio Romance e Novela da APE, Prémio Fernando Namora/Casino Estoril, Prémio Portugal Telecom (Brasil), Melhor Livro Estrangeiro (França), Prémio Melhor Narrativa Ficcional da SPA, Prémio Belgrado Poesia (Sérvia), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Portugal Telecom (Brasil), Prémio Literário José Saramago

Aglaia Souza: poesia que resgata o sentido da vida | por Adelto Gonçalves

Novo livro da poeta de Brasília denota influência de José Régio e Fernando Pessoa                 

I
            Desde o seu primeiro livro, Gota de barro (São Paulo, Poeco Editora, 1982), nunca faltaram a Aglaia Souza (1943) leitores encantados e admirados com a simplicidade e a beleza de sua poesia. E, mais de 40 anos depois, ainda é esse mesmo sentimento de admiração com o seu discurso poético que essa musicista, professora e diretora de escola de música desperta, ao publicar Canto marinho (Brasília, Observatório do Texto, 2022), novo livro em que exercita sua arte, exibindo uma poesia de caráter marcadamente musical, como assinalou o poeta Anderson Braga Horta no prefácio que escreveu para esta obra.
Além disso, a autora deixa explícita a influência que recebeu de poetas portugueses consagrados, especialmente de José Régio (1901-1969), a quem o grande ensaísta, professor filósofo luso Eduardo Lourenço (1923-2020) definiu como “o último dos grandes solitários”.

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‘Vaca profana’: um mundo lúdico e divertido | Silas Corrêa Leite | por Adelto Gonçalves

Nova obra de Silas Corrêa Leite reúne breves narrativas que devem ser lidas “de uma assentada     

                                                           I

             Escritor polifacetado e autor de vasta obra, Silas Corrêa Leite (1952) acaba de lançar mais um livro, desta vez, uma reunião de contos que leva por título Vaca profana: microcontos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023), breves narrativas e poemas em prosa em que o autor procura colocar para fora “o consciente e o inconsciente também”, como reconhece no “quase prefácio: outras palavras” que escreveu à guisa de apresentação de sua própria obra. E que devem ser lidos “de uma assentada”, ou seja, de uma só vez, como recomendava o escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849).

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“CHARNECA EM FLOR” | FLORBELA ESPANCA 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 

A essa hora dos mágicos cansaços, 

Quando a noite de manso se avizinha, 

E me prendesses toda nos teus braços… 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 

A tua boca… o eco dos teus passos… 

O teu riso de fonte… os teus abraços… 

Os teus beijos… a tua mão na minha… 

Se tu viesses quando, linda e louca, 

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 

E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca… 

Quando os olhos se me cerram de desejo… 

E os meus braços se estendem para ti… 

A poesia como viagem ao inferno | Com um estilo despudorado, obra de estreia de Marcelo Theo mistura realidade e fantasia | Adelto Gonçalves

                                                     I
            Em nenhum dos poetas brasileiros, antigos ou modernos, a sombra da morte é tão presente como neste livro de estreia de Marcelo Theo (1969), Peccatum Sum (que, em latim, quer dizer “Eu sou o pecado” ou simplesmente “Eu pequei”), que acaba de ser publicado pela Editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP. A obra reúne poemas que foram escritos durante os anos em que o autor se assinava como Teteco dos Anjos e vivia chafurdado no vício em narcóticos e no alcoolismo, em meio a hordas de rejeitados que viviam nas ruas e vielas de tradicionais cidades da Europa, como Roma, Paris, Lisboa e Amsterdam.

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De Educador para Educador, o Especialista e Teórico em Educação, Silas Corrêa Leite, Premiado como Escritor e Professor, e seu livro “VIVÊNCIAS EDUCACIONAIS” 

“Não ensine ninguém a ser como você/Já pensou o perigo? 

Ensine o aluno a ser ele mesmo/Que isso dói menos 

Ensine o aluno a se procurar/Dê os sinais… 

Seja o referencial; procure-o/Nele – sendo ele 

Então ele tendo essa ajuda-você/Pode se achar no Ele 

Ensine o aluno a ser o que Ele/Precisa ser: um não-você 

Já pensou que LIBERDADE?”  

(Ensinança, Professor Silas Corrêa Leite  

Poema escrito em Reunião Pedagógica) 

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O drama de Anne Frank reconstituído | Silas Corrêa Leite | por Adelto Gonçalves

Obra recupera a trágica história vivida pela jovem judia durante a Segunda Guerra Mundial  

I 

Nascido em Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, no Paraná, mas tendo vivido até a juventude em Itararé, Silas Corrêa Leite (1952) descende, por parte de pai, de judeus da Ilha da Madeira, convertidos como cristãos novos, e, por parte de mãe, de índios guaranis e de negros de Angola. Por isso, ao acumular, com todas essas ascendências, as cotas de dores de tantas gerações que viveram as angústias e vicissitudes da diáspora, do genocídio e da escravatura, sentiu-se no dever de tentar reconstituir a história da adolescente alemã de origem judia Annelies Marie  Frank (1929-1945), Anne Frank, nascida em Frankfurt, que, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), escondida num abrigo em Amsterdã para fugir das atrocidades que eram cometidas por soldados nazistas, escreveu um diário que, mais tarde, tornaria o seu drama conhecido em todo o mundo. 

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Uma obra de amor ao Rio de Janeiro | “Rio, da Glória à Piedade” reúne textos de 11 autores em homenagem à cidade | Adelto Gonçalves

I 

Carioca não é só um termo que define quem nasceu na cidade do Rio de Janeiro, pois pode ser estendido também a quem vive (ou viveu) por muitos anos naquela cidade, ou seja, é, antes de tudo, um estado de espírito. É o que se pode comprovar em Rio, da Glória à Piedade (Rio de Janeiro/Santarém-Portugal, 2023), obra que, organizada pelo arquiteto, romancista e contista Hélio Brasil (1931), reúne textos do próprio organizador e de outros dez autores que, embora alguns deles nascidos em outros Estados e um deles em Portugal, têm uma paixão única: o amor pela antiga capital da República do Brasil.   

Nascida espontaneamente de conversas entre amigos, todos ligados às letras, esta obra reúne gêneros variados, desde crônicas e poemas a textos sobre história, memórias pessoais e urbanas, escritos às instâncias do organizador, que pediu a cada amigo que comparecesse com três textos e, se possível, com alguns poemas.  

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Poemas de Amor de Florbela Espanca | Li um dia, não sei onde | Amar!

Li um dia, não sei onde

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado…
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?…

Florbela Espanca

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

Uma obra com sabor de conversa descontraída | de Edmar Monteiro Filho | por Adelto Gonçalves

                                                                               I
                O conto é um autêntico paradigma da “arte do implícito”, como preconizava o saudoso professor Massaud Moisés (1928-2018) em suas memoráveis aulas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), pois, como observa também em A criação literária. Prosa II (São Paulo, Editora Cultrix, 2005, p. 33), isto pressupõe que o “eu” do narrador esteja presente, ainda quando a narrativa está situada na terceira pessoa. Afinal, como ensinava o mestre, “o implícito consiste na recusa do realismo fotográfico, em favor de notações sutis em que a superfície das coisas, das palavras e dos acontecimentos, é a dimensão visível de uma esfera íntima, inacessível ao olhar e ao registro positivo”.
            Este introito vem a propósito do conto que abre o livro O acorde insensível de Deus (São Paulo, Editora Laranja Original, 2022), de Edmar Monteiro Filho, e dá título à obra. Trata-se de um texto extenso, de 60 páginas, que poderia ser definido também como uma novela, mas que, acima de tudo, serve para mostrar a maturidade literária a que o seu autor chegou, depois de publicar vários livros de contos e um romance, além de ganhar vários prêmios literários e alcançar o doutoramento em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2018.

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Viriato Soromenho Marques | O melhor da condição humana | in DN/Opinião, 22 Abril 2023 

Quando a política entra demasiado nas nossas vidas, causando guerra e sofrimento, em vez de paz e justiça, isso significa, quase sempre, que aqueles a quem foram entregues os destinos dos povos estão a trair, por motivos diversos, a confiança que lhes foi depositada.

Hoje quero sair desse pior da humanidade – a má política feita por gente que sem ela seria invisível – para dar lugar ao melhor da humanidade, aquela que se transcende pela arte, pela poesia, pelo pensamento.

Noite de estreia da peça de Florian Zeller, O Filho, no Teatro Aberto em Lisboa. Quando o pano caiu na última cena, o público permaneceu num silêncio hirto e comovido, apenas quebrado por um longo e reiterado aplauso, quando os atores se apresentaram, finalmente, perante os espectadores. Depois do imenso sucesso de A Mãe (2010) e de O Pai (2012), O Filho (2018) é claramente a obra mais trágica da trilogia de Zeller. Um enredo simples: um pai (Paulo Pires) separa-se da sua mulher (Cleia Almeida) para começar uma nova relação (Sara Matos). Um filho adolescente (Rui Pedro Silva), vivendo com a mãe, afasta-se da escola e dá sinais de desinteresse pela vida. O pai e a nova companheira recebem o filho, empenhando-se para o apoiar. Só falta o coro para declarar o império do destino… Numa entrevista, Florian Zeller explica como o pai é o agente maior desse processo. Ele está de tal modo convicto da sua culpa que descarta outros apoios, nomeadamente médicos, para o mal do filho, tomando decisões erradas. Diz Zeller: “é ao lutar [o pai] com todas as forças contra o seu destino que o cumpre inescusavelmente.” O excelente desempenho dos atores é servido por uma versão, cenografia e encenação de grande qualidade da responsabilidade de João Lourenço e Vera San Payo de Lemos.

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VACA PROFANA – Microcontos assustadores pra boi não dormir, de Silas Corrêa Leite

A “vaca profana” da barbárie da civilização/Da sociedade hipócrita, pântano da condição humana/Planeta terra, vaca profana no aterro sanitário do espaço/Onde estão depositados todos os vermes/Vaca profana em palavras, atos, consumos e pertencimentos/Estátuas, cofres, palácios, igrejas, de um lado/miséria, fome, guetos, becos, cortiços, palafitas e miseráveis de outro lado/E a sagrada vaca profana do “lucro-fóssil” e do consumo-ração/Com o “medo-rabo” sociedade anônima/Que veio das cavernas e para as cavernas do futuro de infovias efêmeras/E singrará/Assim na terra como no céu de todas as vacas profanas/entre sóis, luas e agonias em verso e prosa. SCL, in, Feridos Venceremos, Berrar é Humano.

Os textos diferenciados de Silas Corrêa Leite, professor premiado, blogueiro premiado, e escritor premiado em verso e prosa, agora de novo e sequencialmente apronta seu mais emergente rebento, um livro de dezenas de seus melhores microcontos assustadores, nanonarrativas insurgentes, pondo os cornos pra fora da manada, afinal, viver não é só abanar o rabo.

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O Pequeno Príncipe | Antoine de Saint-Exupéry | por António Jorge

Em 1943, Antoine de Saint-Exupéry escreveu o seu livro mais importante, O Pequeno Príncipe (1943), uma fábula infantil para adultos, cuja obra é rica em simbolismo.

O personagem principal do livro vivia sozinho num pequeno planeta, onde existiam três vulcões, dois activos e um já extinto.

Outro personagem representativo é a rosa, cujo orgulho, levou o pequeno príncipe a uma viagem pela terra.

Na viagem, encontrou outros personagens que o levaram ao desvendamento… do sentido da vida. A obra está traduzida e repetidamente reeditada no mundo inteiro.

Antoine de Saint-Exupéry, foi um escritor e ilustrador e piloto francês, nascido em 1900, e autor da famosa obra universal para crianças… que todas deveriam ler… O Pequeno Príncipe.

Morreu na guerra no Mar Mediterrâneo em 1944… aos 44 anos de idade, abatido por um caça da força aérea da Alemanha Hitlariana.

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Adelto Gonçalves, escritor sem violon d´Ingres? | por Maria Estela Guedes

Escritor e pesquisador brasileiro é homenageado por revista literária eletrônica em Portugal

A minha pergunta sobre a possível falta de um hobby vem de ver Adelto Gonçalves sempre ocupado. Ele é o único co-autor do Triplov cujos textos não tenho publicado na totalidade, porque me falta capacidade de trabalho igual à dele.

É um intelectual atento, amigo dos seus colegas, em quem se revela claramente um espírito de missão: a de dar a língua portuguesa ao mundo, na sua forma escrita e nos seus tão diversos registos, visto que ele não se ocupa apenas do português do Brasil e do português de Portugal, mas ainda de registos praticados em outros países lusófonos. Ousa comentar estas variantes, e realmente é preciso coragem, não s& oacute; por serem muito diferentes, como por a diferença desembocar por vezes ou na fraca inteligibilidade dos textos ou em campos diplomática ou politicamente delicados.

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“O rio incontornável” de Adalberto de Queiroz | o erudito na moderna poesia goiana | por Simone Athayde


A poesia, após a libertação das amarras formais pelo movimento Modernista, é hoje uma das expressões artísticas mais livres e ecléticas, que tanto pode retomar o clássico, quanto flertar com o popular, com o coloquial. De uma forma ou outra, o sucesso na composição de uma obra dependerá do talento do poeta e de como ele utiliza o tradicional ou o popular com nova roupagem. O poeta goiano Adalberto de Queiroz, ao buscar no clássico e no erudito sustentação para a sua escrita, é um bom exemplo de como, na era da pós-modernidade, o artista pode trilhar diferentes vertentes e encontrar validade em suas estratégias a partir de um trabalho bem elaborado.

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POEMA | Sandra Ramos

Derramo os meus ‘ais’,
nem sei tão pouco porque o faço,
simplesmente esvazio as intempéries da alma,
lanço fogos de artifício sem espetáculo,
declamo na surdez vivida,
pinto na tela vazia e…
timbro sílabas, palavras e frases em forma de poesia.

Perguntam porque o faço,
afinal estão desprovidas de vida…dizem…,
meras palavras soltas numa profunda desordem gramatical…,
talvez seja eu, um caso perdido;
num caos corrompido,
atracado num cais desencardido.

Sou, sim…um caso inexplicável,
um turbilhão de sentimentos desordenados,
uma mulher que esvazia a alma perdida,
que toca – de mansinho – o seu DIZER,
E..que pouco lhe importa que a consigam entender.

Sandra Ramos

Um romance que desvenda a utopia soviética | Tchevengur, de Andrei Platônov

Tchevengur, de Andrei Platônov, tradução de Maria Vragova e Graziela Schneider, com ilustrações da artista russa Svetlana Filippova, texto de apresentação de Irineu Franco Perpetuo, prefácio de Maria Vragova e posfácio de Francisco de Araújo. Belo Horizonte

I
O comunismo – talvez os nazifascistas bolsonaristas não saibam disso, já que ainda sonham pegar em armas para combatê-lo (risos) – é uma teoria louvável, que imagina um mundo ideal, semelhante ao celestial. Por isso mesmo, não é aplicável ao mundo dos vivos, idealizado talvez para uma geração extraterrestre, nunca para a espécie humana. Mais ideal ainda é o anarquismo, igualmente inaplicável, mas que, ao longo dos anos, atraiu muitas pessoas de bom coração, que imaginavam que seria aceitável sacrificar-se para garantir um futuro melhor para as gerações vindouras.
Quem visita a Rússia de hoje lamenta que o regime que se autointitulava comunista tenha deixado como herança apenas prédios velhos, com os encanamentos de fora, escadas rolantes do metrô que não funcionam, como se vê largamente em Moscou, ou trens de segunda classe que mais se assemelham aos que se veem em filmes sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), enquanto a beleza arquitetônica que se admira é aquela deixada pelos czares em São Petersburgo. Em Moscou, não são muitos os locais que merecem ser vistos: a Praça Vermelha, o Teatro Bolshoi e mais um ou outro edifício.

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Célia Moura, in”No hálito de Afrodite” | Jean Claude Sanchez Photography

Invades-me

Nessa tesão

Que as searas

Silenciam

E me delicias

Na tua pele molhada

Dessa orgia de veludo

Em ti

Plena de incenso,

Jasmim

Rubras rosas

E nossos corpos

Finalmente libertos

Entre as papoilas

E o canto dos pardais.

Célia Moura, in”No hálito de Afrodite”

Jean Claude Sanchez Photography

Abril | João Gomes

Abril, Abril, Abril,

Mês de flores, aromas a sentir,

Nas causas que se reconhecem vir,

De valores de quem é gentil…

Abril, Abril, Abril,

Pai dos já fartos de sofrer,

Mãe dos que esperavam o nascer,

De um tempo novo, primaveril…

Abril, Abril, Abril,

Mês de cinco letras bem abertas,

Para ser gritado pelas gargantas,

Que não querem viver em redil…

Abril, Abril, Abril,

Foste tu que deste sangue novo,

Que deste alento a este povo,

Que vivia escravo e servil.

João Gomes

Nuno Júdice | As mulheres que envelhecem

Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.

Correspondência – Eduardo Lourenço e Jorge de Sena

Uma edição publicada no âmbito das comemorações do Centenário do nascimento de Eduardo Lourenço que decorrerão em 2023.

«O que não hesito chamar amizade, ainda que apenas epistolar, destes dois camaradas de letras iniciou-se, creio, com o envio, por Jorge de Sena, do inquérito sobre André Gide que se destinava e foi publicado em Unicórnio, em Maio de 1951. Quando ou como se conheceram pessoalmente não sei exactamente, mas sei que se dedicaram amizade, respeito e admiração mútua por cerca de 28 anos. Para mim, Eduardo Lourenço começou por ser o ‘Faria’, ainda meu contemporâneo na Faculdade de Letras de Coimbra, finalista quando eu, tardiamente ‘caloira’, começava a minha via-sacra de aluna ‘voluntária’, enquanto ele se desenhava já como diferente dos demais.»

Mécia de Sena, «Acerca desta correspondência»

Quem foi Jesus? | Frederico Lourenço

Quem foi o homem cujo nascimento hoje celebramos? Desde o século XIX, o estudo crítico do Novo Testamento e do primeiro cristianismo tem tentado reconstituir quem terá sido o «Jesus histórico». Em que ponto estamos desta investigação?  Vou dar-vos uma proposta de biografia do Jesus real.

Jesus nasceu em Nazaré, na fase final do reinado de Herodes, o Grande (rei que morreu em 4 a.C.). Era filho de um construtor chamado José e da sua mulher, Maria.

Jesus era o mais velho de vários irmãos e irmãs. Em casa, falava-se aramaico; mas Jesus beneficiou do facto de Nazaré estar perto de cidades gregas, como Séforis, cuja distância de Nazaré corresponde à que medeia, na nossa cidade do Porto, entre o Estádio do Dragão e a rotunda da Boavista. Em toda a volta de Nazaré, falava-se grego. De Gádara, uma das dez cidades gregas da zona, era originário o maior poeta grego do século I a.C., Meleagro. A helénica Séforis tinha um teatro; e Jesus sabia o que era o conceito grego de «actor», pois usou a palavra grega «hipócrita» numa acepção sem qualquer equivalente no aramaico falado em casa ou no hebraico da Escritura.

Jesus recebeu uma educação judaica baseada nessa Escritura e foi certamente o rapaz intelectualmente sobredotado de que vemos reflexo em Lucas 2:47. As pessoas não lhe chamaram «mestre» à toa.

Nos anos 20 do século I, Jesus contactou com o movimento de João Baptista, que apelava aos israelitas que «mudassem de mentalidade» e que, por meio do baptismo no rio Jordão, obtivessem o cadastro limpo perante Deus que, oficialmente, só podia ser obtido por meio do sacrifício de animais no templo. João Baptista atraiu a má vontade da elite sacerdotal de Jerusalém; o mesmo aconteceria com Jesus.

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Coisas de Valentina | Ercilia Pollice

“Soltar, entregar, deixar ir
Deixar partir, fluir…”

Viver no presente, sem o peso do passado
Sem expectativas para o futuro…
Saber da nossa finitude.
Sem posses, sem medo, sem culpa,
Saber que somos passageiros de uma vida passageira.

Valentina tem consciência claríssima da vida. E é engraçado como essa
lucidez não rouba seus sonhos, sua alegria, seu fazer, seu ser, seu
estar.Ela está pro mundo assim como o ar está pra vida.

Relaciona-se bem com o que perdeu, embora sinta saudades… Mas, não é
uma saudade doída, é uma saudade cheia de lembranças boas; as más
parecem que nunca existiram, ou então sua memória as deletou no tempo.
Nisto somos parecidas, sempre digo que no tempo da memória, mando eu.

Não sei dizer como Valentina ficou assim, tão desencanada com tudo.
Valentina também não consegue estabelecer um ponto de partida para
este seu devir no mundo. Quer saber? Isto não tem a mínima
importância. Esta história de ficar querendo entender tudo, saber o
profundo de todos os eus que nos habitam, já não faz parte das
necessidades de Valentina.

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Evangelhos Apócrifos | de Frederico Lourenço 

Editor: Quetzal Editores | Edição: outubro de 2022

SINOPSE

A par dos evangelhos canónicos, existem outros (combatidos a partir do século IV e excluídos no século XVI) que mostram a figura e as ideias de Jesus Cristo sob um prisma muito diferente.

Antes da imposição de uma doutrina única no século iv, o cristianismo caracterizou-se pela diversidade de pensamento. A par dos evangelhos tornados canónicos, circulavam também outros, atribuídos a nomes como Pedro, Tomé e Filipe, que davam a ver a figura de Jesus Cristo sob prismas diferenciados.

O Evangelho de Pedro emprega uma palavra que nunca ocorre nos evangelhos canónicos: «discípula». No único evangelho cuja autoria é atribuída a uma mulher (o Evangelho de Maria), a pessoa a quem Jesus confia a sua doutrina não é Pedro nem João, mas sim Maria Madalena.

Muitos destes textos permaneceram desconhecidos até à segunda metade do século xx e o seu conteúdo ainda suscita controvérsia. No entanto, os evangelhos apócrifos constituem um estímulo para repensarmos, hoje, o cristianismo de forma menos dogmática e com mais espírito de inclusão.

A finalidade deste livro é dar a ler o material greco-latino em edição bilingue, com um comentário crítico-histórico tão imparcial quanto possível, trazendo esses textos de regresso em toda a sua plenitude, traduzidos das suas fontes originais.

Evangelhos de Tiago, Tomé, Filipe, Maria, Pseudo-Mateus, Pedro, Nicodemos, Natividade de Maria, Relatos da Paixão de Cristo, Narrativa de José de Arimateia, Evangelho dos Egípcios, Místico de Marcos, Evangelho copta de Maria, Relatório de Pilatos, Descida de Cristo aos Infernos, Evangelho de José o Carpinteiro, etc.


Biografia de Frederico Lourenço

Ensaísta, tradutor, ficcionista e poeta, Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, em 1963, e é atualmente professor associado com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e membro do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma instituição.

Foi docente, entre 1989 e 2009, da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Línguas e Literaturas Clássicas (1988) e se doutorou em Literatura Grega (1999) com uma tese sobre Eurípides, orientada por Victor Jabouille (Lisboa) e James Diggle (Cambridge). Publicou artigos sobre Filologia Grega nas mais prestigiadas revistas internacionais (Classical Quarterly e Journal of Hellenic Studies) e, além da Ilíada, traduziu também a Odisseia de Homero, tragédias de Sófocles e de Eurípides, e peças de GoetheSchiller e Arthur Schnitzler.

No domínio da ficção, é autor de Pode Um Desejo Imenso (2002). Na poesia, é autor de Santo Asinha e Outros Poemas e de Clara Suspeita de Luz. Publicou ensaios como O Livro Aberto: Leituras da BíbliaGrécia RevisitadaEstética da Dança Clássica e Novos Ensaios Helénicos e Alemães (Prémio PEN Clube de Ensaio 2008). Recebeu ainda os prémios PEN Clube Primeira Obra (2002), Prémio D. Diniz da Casa de Mateus (2003), Grande Prémio de Tradução (2003), Prémio Europa David Mourão-Ferreira (2006).
Em 2016 iniciou na Quetzal a publicação dos seis volumes da sua tradução da Bíblia (que lhe valeu o Prémio Pessoa); em 2019 publicou uma Nova Gramática do Latim; em 2020, Latim do Zero a Vergílio em 50 Lições e Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito (edição bilingue em grego e português); e, em 2021, as Bucólicas de Vergílio (em latim e português).

Dia Internacional De La Mujer

𝙀𝙡 𝙩𝙞𝙚𝙢𝙥𝙤 𝙚𝙨 𝙨𝙤́𝙡𝙤 𝙪𝙣𝙖 𝙖𝙡𝙚𝙜𝙤𝙧𝙞́𝙖
𝙇𝙤𝙨 𝙖𝙣̃𝙤𝙨 𝙥𝙚𝙧𝙙𝙞𝙙𝙤𝙨 𝙤 𝙜𝙖𝙣𝙖𝙙𝙤𝙨 𝙮𝙖 𝙣𝙤 𝙚𝙭𝙞𝙨𝙩𝙚𝙣
𝙎𝙚 𝙙𝙚𝙨𝙣𝙪𝙙𝙖 𝙖𝙗𝙧𝙞𝙡 𝙚𝙣𝙩𝙧𝙚 𝙩𝙪𝙨 𝙢𝙖𝙣𝙤𝙨
𝙔 𝙩𝙪 𝙘𝙪𝙚𝙧𝙥𝙤 𝙚𝙨 𝙪𝙣 𝙙𝙚𝙥𝙤́𝙨𝙞𝙩𝙤 𝙙𝙚 𝙖𝙢𝙖𝙣𝙚𝙘𝙚𝙧𝙚𝙨
𝘿𝙚𝙨𝙥𝙞𝙚𝙧𝙩𝙖 𝙡𝙖 𝙢𝙪𝙟𝙚𝙧 𝙦𝙪𝙚 𝙖𝙪́𝙣 𝙣𝙤 𝙝𝙖𝙗𝙞𝙩𝙖𝙨
𝙔 𝙥𝙧𝙤𝙫𝙚𝙚𝙡𝙖 𝙙𝙚 𝙣𝙪𝙚𝙫𝙤𝙨 𝙥𝙡𝙖𝙘𝙚𝙧𝙚𝙨
𝙄𝙣𝙨𝙩𝙧𝙪́𝙮𝙚𝙡𝙖 𝙚𝙣 𝙡𝙖𝙨 𝙥𝙖𝙨𝙞𝙤𝙣𝙚𝙨
𝙔 𝙙𝙖𝙡𝙚 𝙖 𝙘𝙤𝙣𝙤𝙘𝙚𝙧 𝙡𝙖 𝙨𝙖𝙗𝙞𝙙𝙪𝙧𝙞́𝙖 𝙙𝙚 𝙡𝙖𝙨 𝙥𝙞𝙩𝙤𝙣𝙞𝙨𝙖𝙨
𝘾𝙤𝙣𝙫𝙞𝙚́𝙧𝙩𝙚𝙡𝙖 𝙚𝙣 𝙢𝙖𝙚𝙨𝙩𝙧𝙖
𝙋𝙖𝙧𝙖 𝙖𝙥𝙧𝙤𝙫𝙚𝙘𝙝𝙖𝙧 𝙘𝙖𝙙𝙖 𝙨𝙚𝙜𝙪𝙣𝙙𝙤 𝙦𝙪𝙚 𝙧𝙚𝙨𝙥𝙞𝙧𝙖𝙨
𝙔 𝙖𝙡 𝙩𝙚𝙧𝙢𝙞𝙣𝙖𝙧 𝙙𝙚 𝙡𝙖 𝙟𝙤𝙧𝙣𝙖𝙙𝙖 𝙘𝙖𝙙𝙖 𝙙𝙞́𝙖
𝙋𝙪𝙚𝙙𝙖𝙨 𝙙𝙚𝙘𝙞𝙧 𝙨𝙖𝙩𝙞𝙨𝙛𝙖𝙘𝙩𝙤𝙧𝙞𝙖𝙢𝙚𝙣𝙩𝙚
𝙉𝙤 𝙝𝙚 𝙙𝙚𝙨𝙥𝙚𝙧𝙙𝙞𝙘𝙞𝙖𝙙𝙤 𝙢𝙞 𝙩𝙞𝙚𝙢𝙥𝙤 𝙣𝙞 𝙢𝙞 𝙫𝙞𝙙𝙖.

𝙑𝙞𝙚𝙣𝙩𝙤

Retirado do Facebook | Mural de Viento