As três sílabas do nosso remorso | BAPTISTA-BASTOS

BaptistaBastos2013Vivemos de felicidades pequeninas, e inventamos esses instantes com a intuição secreta de que são precários e fugazes. Pouco temos a que nos pegar. Os amigos ou aqueles que estimamos vão-se embora, para outros sítios ou para sempre, encerrando o anel que parecia ligar-nos. Agarramo-nos, com o desespero de quem nada tem a perder e nada tem a ganhar, ao gosto de uma palavra, a um sonho ou, até, a um jogo de futebol, criando a ilusão de que somos felizes. Mas é sempre uma felicidade pequenina, e nós sabemo-lo com a noção dessa fatalidade irrevogável. Fomos alguma vez grandes? Inculcam-nos a ideia de que sim. Mas grandes para quem? Fomos nas caravelas, criámos um leito de nações deitando-nos com tudo o que era mulher. Talvez a nossa grandeza resida aí: no gosto e no apreço pela mulher.

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Baptista-Bastos editado na Bulgária

BB

A prestigiosa editora Ferrago Print, de Sófia, Bulgária, vai publicar o romance de Baptista-Bastos Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura, em tradução de Sidónia Poljarieva, professora e investigadora de literatura portuguesa.
Esta obra é a quarta do autor editada naquele país, depois de As Palavras dos Outros, Cão Velho entre Flores e O Cavalo a Tinta-da-China.
De salientar, igualmente, que o romance Cão Velho entre Flores foi, há anos, o livro mais requisitado na Biblioteca Municipal de Sófia.

 

O homem está em grande forma | por BAPTISTA-BASTOS in “Diário de Notícias”

Notoriamente, os dois jornalistas destacados para entrevistar José Sócrates estavam impreparados, ou não tomaram em consideração a aptidão dialéctica do ex-primeiro-ministro, ou, pior, não estavam ali para esclarecer, sim, acaso, para baralhar e entrar em chicana, colocando-se como protagonistas, quando deviam ser mediadores. Chegou a ser pungente a evidência com que o entrevistado repôs a natureza dos factos, perante a turva propriedade das enunciações. O esclarecimento das manobras e das conspiratas com origem em Belém, e as inclinações ideológicas do dr. Cavaco, que põem em causa a sua tão apregoada “independência”, foram pontos fulcrais da entrevista. Ficou-se a saber o que se suspeitava: o manobrismo unilateral de quem começa a ser cúmplice consciente do desastre para que nos encaminham. Um a um, ponto a ponto, Sócrates rebateu as alegações de “desincorporação” que ambos os jornalistas se aplicavam em expor, recorrendo às instâncias que estabeleciam as relações marcantes na época. Aí, a sua intervenção foi arrasadora. Claro que Sócrates e o seu governo não podem ser responsáveis de todas as malfeitorias, apesar das estruturas de contra-informação utilizadas, da negligência propositada de alguma comunicação social, e que ele denunciou com denodo. A entrevista foi extremamente interessante porque o reconhecido talento de José Sócrates voltou a impor-se em grande estilo. Ficámos esclarecidos? Não; porque os entrevistadores, além das deficiências apontadas, foram intimidados pelo “animal feroz”. O homem está em grande forma.

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3134586 (FONTE)

Citando Baptista Bastos

“A distanciação é uma obscenidade que me põe fora de mim! Como se o jornalista não tivesse nada a ver com aquilo que está a escrever! Então, o jornalista é uma caneta? O jornalista é um microfone? O jornalismo é aproximação. O jornalismo é até amizade!
Depois, temos uma escola anglo-saxónica que fez um certo êxito junto daqueles que não têm criatividade, que esquecem que, quando se olha, já se começa a seleccionar e que, quando se escreve, se selecciona ainda mais. As próprias palavras escolhidas são diferentes de umas pessoas para as outras. O olhar é selectivo, como os sentimentos, como as emoções, como a memória. Tudo é selectivo na condição humana. Além disso, quando se começa a olhar, começa-se logo a interpretar.
Fala-se na imparcialidade e na neutralidade… Não há jornalismo neutro – o jornalismo é o lado humano das coisas. E expliquem-me como é que um locutor de futebol pode ser imparcial. Não pode! A emoção que transparece quando ele relata é a que passa para os ouvintes.
Expliquem-me como é possível afastarmo-nos. Então um tipo vê uma desgraça, escreve um artigo e depois vai beber um uísque? Não me venham com essa conversa. Eu sei que há pessoas assim, mas essas não deixam marca no jornalismo.”

Baptista Bastos in Jornalismo & Jornalistas