Entrevista a Daniel Bessa: “O Diabo não veio, mas isto está por arames”| in Jornal “O Observador”

Entrevista conduzida Por Edgar Caetano | 21/01/2019 

Quando se diz que Portugal “dá lucro”, excluindo as responsabilidades com o pagamento da dívida — como fizeram recentemente Catarina Martins e Marisa Matias, do Bloco de Esquerda — isso mostra que somos governados por pessoas comparáveis a “alguém que vai pedir ajuda ao balcão de sobreendividados da DECO mas garante que ‘está tudo muito bem, só não consigo pagar a dívida´”. Em entrevista ao Observador, Daniel Bessa diz que este é um tipo de raciocínio que não vem só dos partidos mais à esquerda mas, também, de um Partido Socialista onde os “pedronunistas” têm cada vez mais influência, pese embora a “mestria” de António Costa a conter essa transformação do partido em algo “muito diferente do que era dantes”, do que era no tempo de Mário Soares e do tempo em que Daniel Bessa foi ministro da Economia (de Guterres).

Daniel Bessa acredita que Mário Centeno não irá fazer outro mandato como ministro das Finanças, até para não ter de ser ele a “gerir as consequências da política que tem sido seguida”. Depois de anos em que o Governo “não investiu nada”, agora estão a ser lançados “novos investimentos todos os dias, talvez para promover o ministro Pedro Marques”, mas já a partir do próximo ano “não vai haver dinheiro para esses investimentos todos”. “Vão ter de pagar às farmácias… Vão ter de recrutar os funcionários para resolver o problema das 35 horas. Não vão querer reduzir os salários ou aumentar os impostos… Têm os compromissos que foram agora anunciados em matéria de investimento… A maionese não prende, como se costuma dizer”, afirma Daniel Bessa, atirando que “o Diabo não chegou, mas isto está por arames”.

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Entrevista a Catarina Martins | “Extrema-esquerda está associada a totalitarismos, perseguição, ódio. Não encontra disso no BE” | in Jornal “O Observador”

“As pessoas precisam de saber que estamos a pagar a um sistema financeiro — que salvámos repetidas vezes e que nunca quer socialização de ganhos — tanto como gastamos no SNS.”

Em quase hora e meia de conversa, só por uma vez Catarina Martins hesitou a meio de uma resposta. Foi quando lhe pedimos um defeito que apontava a António Costa. Não porque não tenha críticas a fazer-lhe (tem várias, do ponto de vista político, a ele, ao governo e ao PS), mas porque estava à procura da melhor formulação para aquilo que queria dizer: “Tem esperança de que os problemas se resolvam mais depressa, quando eles precisavam de um pouco mais de olhar.” Que é como quem diz, fica à espera que as coisas se resolvam por si. De resto tinha frase pronta para quase todas as perguntas do Observador, naquela que é a primeira grande entrevista deste ano eleitoral para a dirigente bloquista.

A conversa começa na Lei de Bases da Saúde (a do governo seria “perfeita” se tivesse lá escritas as palavras da nova ministra da Saúde), segue pela legislação laboral, Europa, propinas. E quando chega ao tema professores, Catarina Martins ataca com palavras duras: “O governo está a fazer populismo. É absolutamente irresponsável”. Estabelece como uma das prioridades económicas do país e da Europa as alterações climáticas. Não traça metas nem cenários de governo para as próximas legislativas, diz apenas que a esquerda precisa de “mais força”. Até porque “o Partido Socialista é o Partido Socialista”.

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