As chaminés de Santa Maria | Daniel de Sá

Por mero acaso li, nos últimos meses, várias publicações em que erradamente, sendo o erro grosseiro, se atribui a forma das chaminés cilíndricas de Santa Maria a hipotéticos povoadores algarvios. Uma fantasia nascida a meados do século XX. O erro é por demais grosseiro, até porque, para além de não ter fundamento histórico, as chaminés de Santa Maria raramente se assemelham às do Algarve, ou do Alentejo, como também há quem diga, chaminés estas em que a finalidade estética se sobrepõe normalmente à funcional. Em Santa Maria, porém, as chaminés cilíndricas generalizaram-se por ter sido provada a excelência do seu funcionamento. Uma razão é suficiente para se perceber que se trata de engano – ao contrário do que é comum dizer-se, do Algarve não vieram povoadores para esta ilha. Para a Madeira, sim, conforme registou Frutuoso. A este respeito, num dos mais bem documentados estudos sobre o descobrimento e povoamento dos Açores, Viriato Campos escreveu: “Tem-se admitido que os primeiros povoadores vieram do Algarve, mas não se conhece nenhum documento que o prove. Vemos aqui um caso dedutivo ou de imaginação, certamente porque o Infante D. Henrique vivia grandes épocas no Oeste algarvio, esquecendo-nos que ele era Duque de Viseu e Senhor da Covilhã, e que o Infante D. Pedro, Regente do Reino, tinha a sua casa em Coimbra. Veja-se que Gaspar Frutuoso, ao tratar da ilha de Santa Maria, nem uma só pessoa indica como vindo do Algarve. Vieram, sim, de Moura, Chamusca, Vila do Conde, Santarém, Santar, Tonda, Silgueiros, Besteiros, Guarda, Covilhã, Recardães, Estremoz, Trofa, Góis, Oliveira do Conde… e Viseu //”.
Mais ainda. A maior parte das casas rurais da época do povoamento não tinha chaminé. O fumo escoava-se por entre as telhas ou por um buraco feito no telhado. Isto acontecia não apenas em Portugal, mas por toda a Europa. No livro “Comme vivaient-ils?”, de Claude Quoniam e Étienne Sergery, é dito das casas dos camponeses prussianos do tempo de Frederico II: “A única lareira que há serve para a cozinha. Acesa no chão, é com grande dificuldade que faz ferver a água do caldeirão de ferro, que está permanentemente ao lume. O fumo e os cheiros escoam-se mal pela única janela, raramente aberta, pela porta baixa ou pelas tábuas do sótão//”. Em Portugal ainda subsistem muitas casas assim. Num estudo sobre o concelho de Nelas no final do século XX, José Manuel Sobral descreve-as do seguinte modo: “casas de dois e mesmo de três andares que utilizavam o granito e com paredes interiores de taipa, material por vezes usado nas paredes exteriores; casas sem chaminé ou com chaminé bastante primitiva, com o fumo a escoar-se pelas telhas; casas escuras, as mais pobres sem vidraças, com poucas divisões – a cozinha e um ou dois quartos”.
À abertura no telhado para a saída do fumo chama-se “bueira”, em Castelo Branco. O Dicionário da Porto Editora regista este termo como “furo no fundo da embarcação para escoar as águas, quando em seco”. E, para “bueiro”, o dicionário de Roquete, de 1848, regista o seguinte significado: “Cano de fornalha; respiradouro”.
Facilmente se percebe que as casas com chaminé cilíndrica são mais recentes do que as outras, com chaminé de “mãos-postas”. Ricardo Freitas, um mariense que tem estudado o assunto, atribui este tipo de chaminé cilíndrica à influência dos emigrantes de torna-viagem do Brasil, na passagem do século XIX para o XX, os quais se teriam inspirado nas chaminés dos navios a vapor. A semelhança é notória, sendo as marienses também ditas chaminés de vapor.
Daniel de Sá

Foto  de Fernando Resendes

Foto de Fernando Resendes

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