Querido Frederico, Frederico Duarte Carvalho | Tiago Salazar

Estas partilhas, que vamos fazendo públicas, e suscitam comentários imediatos, alerto-o, por mim, e creio por ti, são a narrativa das mais puras das verdades. Por outro lado, não as considero tempo perdido ou uma forma de gastar o tédio dos dias confinado, e nunca, mas nunca, escrevê-las à pressa, descarregando-as sem as rever, cortar, limar, polir e aperfeiçoar com todos os detalhes. Prefiro espaçá-las, sem nenhum imperativo de as escrever, ou de que me respondas forçado, como se houvera um compromisso com os leitores (a não ser que estes nos digam, queremos contribuir para a vossa causa, queremos cartas diárias, e mais tarde, umas vez compiladas por um editor generoso, nos enviem uns trocos para casa).

Eis um tema na ordem de todos os dias: o custo e a paga. Isto, por exemplo, é uma troca de correspondência, mas sem pretensões agostinianas, falo de Agostinho da Silva, e as suas míticas Sete Cartas a um Jovem Filósofo, rilkianas, de Rainer Maria Rilke, autor máximo do género com as suas Cartas a um Jovem Poeta, ou mesmo do teu conhecido Christopher Hitchens, polemista autor das Letters to a young contrarian, nomeado por Gore Vidal como o seu sucessor, e em quem Susan Sontag viu brilhantismo epistolar, género onde outros tendem a praticar o cliché.

Temos um método e um objetivo: chegar às 40, número bíblico do sofrimento cristão, jornada iniciática, providencial. Porventura este falso cativeiro irá prolongar-se além desta quarentena, e aí, por mais vividos e aventureiros, teremos esgotado os superlativos temas das nossas autobiografias prematuras (somos jovens de 48 anos, tu ainda por completar).

Notemos aos que nos lêem que nunca combinamos o tema do dia. A magia de escrever, realista ou surrealista, é como tudo nasce de onde nos venham as ganas.

Atraem-me histórias de bandidos, como a ti de espiões. Na aclamada série Narcos recria-se o modus operandi de Pablo Escobar e dos caciques de cartéis. Escobar, um homem de família (la famiglia e molto importante, o mote siciliano), a quem chamaram de o Robin Wood paisano, ainda hoje é devotado como um mártir de um sistema corrompido e de castas (como os há por toda a parte), e tu foste quase testemunha do seu assassinato.

É-me impossível repudiar as figuras de Escobar, como a de Totò Riina, Lucky Luciano, Jesse James, Al Capone, John Dillinger, os haiduks búlgaros, ou os meus eleitos Pancho Villa e Che Guevara. Na balança do bem e do mal, os bandidos funcionam como contrapeso justiceiro numa sociedade corrompida. Devemos, em consciência, questionar os seus métodos, mas nunca desviar o olhar da sua mensagem.

I will be the meanest bastard you ever saw when I get out of here, proferiu Dillinger quando o encarceram. Isto, para dizer que os parlamentos, as casas brancas, os assentos dos CEOs, as cátedras, não fazem dos homens melhores. O paradoxo humano está em toda a parte. No limite, é na consciência de todos os dias que nos fazemos melhores ou piores, e momentos privilegiados como este que estamos a viver, embora de clausura são propensos à reflexão. A mulher de Escobar, pouco antes de o matarem, ter-lhe-á sugerido que se entregasse, e fizesse da prisão um eco da sua mensagem como o fez Mandela.

Por ser dia de Páscoa deixo-te esta reflexão.

O paradoxo humano

O paradoxo fundamental de que a Bíblia está irresoluvelmente ferida – paradoxo esse que é extensivo ao próprio Cristianismo, que toma a Bíblia como Escritura Sagrada – encontra-se bem sintetizado na frase do livro de Ester, que nos diz: “Deus preparou dois destinos: um para o seu povo e outro para todas as nações” (Ester 10F: 7). Antigo e Novo Testamento contraditam-se mutuamente a cada passo, porque a ideia, tantas vezes vincada no Antigo Testamento, de que a Humanidade se divide em (1) judeus numa relação exclusiva com Deus e (2) não-judeus permanentemente divorciados d’Ele dá lugar no Novo Testamento à noção revolucionária de que a Humanidade é constituída por uma só categoria de gente: seres humanos.

Portanto judeus e não-judeus, tudo a mesma gente? Paremos um pouco para tomarmos o pulso a esta noção imensamente ousada, que nos chega (graças ao atrevimento de um judeu chamado Jesus) através da pena de quatro evangelistas que, tal como Jesus, o herói da sua história, foram homens circuncidados e criados na religião judaica. Se pensarmos que até o sábio autor do livro de Sabedoria não vê mal em falar de um qualquer povo não-judaico como “raça maldita desde a sua origem” (Sabedoria 12: 11), percebemos o alcance da viragem trazida pelos evangelhos.

O Antigo Testamento dá-nos uma história do povo judaico, história cheia de afirmação e de rebaixamento. O povo eleito é alvo das bênçãos, mas também dos castigos do seu Deus, Jeová, que não tolera qualquer gesto de tolerância religiosa. Aquilo a que nós chamamos hoje o respeito pela religião alheia (o respeito mostrado, por exemplo, pelos judeus no exílio pela religião dos babilónios) é visto pelos profetas de Jeová como “prostituição” merecedora dos castigos cruéis dados às prostitutas. Os livros de Ezequiel e de Oseias estão cheios desta equivalência entre respeito pela religião alheia e prostituição: só há uma religião, só há um Deus – e ai dos judeus que se esqueçam disso. Como judia descendente de deportados na capital da Pérsia, Ester sabe bem identificar a razão pela qual Deus castiga o seu povo com deportações e rebaixamentos: “entregaste-nos nas mãos dos nossos inimigos, por termos adorado os seus deuses” (Ester 4C: 17-18).

Ester tem nojo dos homens incircuncisos que a rodeiam (Ester 4C: 26): o mesmo nojo e horror adscrito pelo profeta Ezequiel ao soldado judeu tombado no campo de batalha no meio de inimigos não circuncidados (Ezequiel 31: 18). O convencimento da justeza incontestável da identidade judaica – com a sua marca fundamental, a circuncisão – nunca é posta em causa no Antigo Testamento. Ainda os judeus não chegaram à Terra Prometida durante o seu êxodo do Egipto, já está Jeová a exigir que fabriquem facas de pedra para circuncidarem quem dentre eles não o tinha sido ainda (Josué 5: 2).

O Novo Testamento vem pôr tudo isto em causa. Em primeiro lugar, a mundividência do Antigo Testamento, que divide o mundo em judeus e seus inimigos, é totalmente desarmadilhada pelo estilhaçamento da própria noção de inimigo na boca de Jesus. “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam” (Lucas 6: 27). Claro que haveria aqui uma abundância enorme de frases equivalentes para citar, atribuídas a Jesus pelos evangelistas; mas para pormos em relevo o paradoxo que aqui consideramos, basta esta que acabámos de citar: “amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam”.

Dos dois grupos em que o Antigo Testamento dividira o mundo – judeus e seus inimigos – Jesus anula à partida um deles. Em vez de exortar o povo judaico a resistir aos seus inimigos, Jesus afirma “quem se apoderar do que é teu, não lho reclames” (Lucas 6: 30). “Fazei o bem sem nada esperar em troca” (Lucas 6: 35). “Quem te bater numa das faces, oferece-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, não impeças de levar também a túnica” (Lucas 6: 29). O que Jesus está aqui a dizer aos judeus é: parem de olhar para os vossos inimigos como vossos inimigos; que não parta mais de vós a mundividência “nós e eles”.

Diluída por Jesus a necessidade de olhar para os outros como inimigos, o movimento que ganha ímpeto a partir da morte de Jesus vai diluir a própria identidade judaica. Pedro é alvo da censura dos judeus em Jerusalém por confraternizar com não-judeus. Usando uma terminologia que não deixa lugar para dúvidas, Lucas escreve no seu livro Actos dos Apóstolos “os circuncisos começaram a censurá-lo, dizendo-lhe: Tu entraste em casa de incircuncisos e comeste com eles” (Actos 11: 2-3).

Paulo vai ter o mesmo problema, ao ser acusado de relativizar a importância da circuncisão para a definição da identidade judaica: “ensinas a todos os judeus espalhados entre os pagãos a apostasia em relação a Moisés, aconselhando-os a não circuncidarem os filhos e a não seguir a Lei” (Actos 21: 21). Compreensivelmente, este novo movimento – o cristianismo – é visto por muitos judeus como visando a anulação da identidade judaica; e por isso o rejeitam. Os judeus desistem de tentar compreender os cristãos; e os primeiros cristãos desistem dos judeus.

O momento simbólico acontece na cidade grega de Corinto, em que Paulo se exaspera de uma vez por todas com os seus interlocutores judaicos. A partir daí, tudo será diferente. “Paulo entregou-se à pregação, afirmando e provando aos judeus que Jesus era o Messias. Mas, perante a oposição e as blasfémias deles, sacudiu as suas vestes e disse-lhes: Que o vosso sangue recaia sobre as vossas cabeças. Eu não sou responsável por isso. De futuro, dirigir-me-ei aos pagãos” (Actos 18: 5-6).

Voltando ao paradoxo. Por que razão terá Deus feito nascer o seu Filho no seio de uma religião que seria contraditada pela nova religião a que esse Filho deu origem? O paradoxo da Bíblia é esse.

Independentemente, porém, deste paradoxo irredutível: reconheçamos que o conjunto dos quatro evangelhos nos convida a repensar a Humanidade (ao contrário do que nos diz o Antigo Testamento) como um conjunto não de raças, mas de seres humanos. No meio dos quais – contraditando agora o que nos diz o livro de Sabedoria – nenhuma raça há da qual se possa dizer que seja “desde a sua origem maldita”.

um abraço

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

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