A dívida e La Grand Bouffe | Carlos Matos Gomes

Acumulação de capital

Dinheiro fictício e dívida real — La Grande Bouffe

A “divida” — A dívida dos Estados — ou soberana — é “La Grande Bouffe” dos banqueiros. Todas a vezes que oiço falar na “Dívida” revejo o filme do Marco Ferreri. Uma história escatológica, em que quatro homens se reúnem numa mansão aristocrática durante um fim de semana com o único objectivo de cometerem os maiores excessos gastronómicos e sexuais. A Dívida é a grande farra dos sistema e dos seus ogres, a criatura mitológica do folclore ocidental, aparência grotesca e ameaçadora, que se alimenta de carne humana.

Sempre que surge uma crise financeira(e esta que vivemos é uma crise financeira), os cidadãos comuns são submersos por análises respeitadoras dos parâmetros da economia política e do marxismo tradicional, que lhes apresentam os mercados financeiros como os deuses (ou diabos) por detrás das crises, deuses que castigam os maus pagadores de dívidas, que exigem juros, que impõem cortes em serviços públicos, que despedem. Os deuses dos mercados financeiros encontram-se nas bolsas de valores, nos bancos centrais. Há que lhes obedecer.

Há títulos de dívida negociáveis, títulos estatais, ações e derivativos, mas ninguém assume que se trata de capital fictício, em que o valor futuro de uma mercadoria se transforma em capital tanto num dado momento, do ponto de vista individual dos credores, como também durante o tempo de vida dessas “mercadorias”, considerado então como capital adicional no balanço social total. Isto é, o sistema considera que pode existir uma acumulação de capital sem acumulação de valor! Este truque da multiplicação é utilizado no teatro e na ópera fazendo rodar os figurantes por detrás da cortina de fundo do palco. Os banqueiros vão ao teatro e à ópera e os endividados pagam!

Ninguém, ou muito poucos e com pouca audiência, entre políticos e analistas aborda a questão que julgo central da acumulação do capital sem correspondência material.

Apenas alguns analistas mais atrevidos e fora das normas ousaram designar este novo milagre de “multiplicação dos pães” como “inchaço dos mercados financeiros”. Para termos uma ideia da origem do inchaço que está a rebentar:

O início dos anos de 1980 marcou uma deslocação do processo de acumulação de capital da chamada economia real para a indústria financeira, que copiou as religiões, vendendo um produto que não garante existir, num caso o paraíso no Além e no outro o dinheiro. A partir daí a acumulação de capital significou principalmente um aumento exorbitante de títulos financeiros como ações, títulos de dívida ou derivados. Veja-se: Em 1980, os ativos financeiros mundiais rondavam ainda os 12 triliões de dólares (USA, trilião= mil biliões), apenas ligeiramente acima do produto interno bruto global (PIB) da época. Trinta anos depois o Global Wealth Report estimou os ativos financeiros acumulados em 231 triliões de dólares, quatro vezes o PIB global daquele momento! O volume total dos produtos do mercado de capitais cresceu entre 1998 e 2008 de 72 para 673 triliões de dólares — contabilizando sozinho, portanto, doze vezes o PIB global!

Estamos a sofrer do tal inchaço dos mercados financeiros: dinheiro virtual, ou fictício! A dívida devia ser, portanto, também virtual! Mas não, o que políticos, banqueiros e financeiros dizem aos cidadãos comuns, os tais inocentes que devem estar disponíveis para a matança, a tosquia, ou a ordenha, consoante a gravidade da crise, é que existe o garrote da divida, logo ela é real, que a dívida é insustentável, que o progresso e o bem-estar das pessoas e famílias dependem da diminuição da divida! O Eurogrupo esteve dois dias a discutir como enfrentar uma imagem holográfica (a divida imaterial) com energia humana e respetivos meios de produção!

Este é o ato essencial, garantem-nos, para manter vivas a economia e a sociedade: realizar uma transfusão de sangue para um monstro insaciável . Segundo os sugadores e os seus arautos não há alternativa.

É condição de sobrevivência que haja. E este é o tempo para que os políticos apresentem a cidadãos normais como eu, mediamente lidos e por isso razoavelmente céticos, outro modelo de sociedade, de acumulação do capital e de distribuição da riqueza. É tempo de os políticos nos explicaram o capital virtual e a divida real. É isso que espero que os intermediários da comunicação (jornalistas, comentadores, analistas) exijam aos políticos, que estes expliquem o que propõem e não as bisbilhotices sobre casamentos, batizados, se andam de carro ou a pé, se têm uma prima secretária de amigo, ou se passam as férias no campo ou na praia, ou até mesmo se pagam as contas no restaurante!

Além da demagogia da “transparência”, do politicamente correto, é também tempo de desmistificar o trabalho como elemento de recuperação da crise. De desmistificar a quantidade de trabalho e a sua qualidade como meio de recuperação da riqueza perdida, ou até de culpar a má gestão ou a organização do trabalho como essenciais à competitividade e, logo, ao aumento da riqueza e, logo ainda, da acumulação do capital, tudo concorrendo para atingir o fim que é o santo dos santos: o pagamento da sagrada dívida!

Em minha opinião não é a exploração do trabalho, por muito que custe aos trabalhistas e obreiristas, nem as boas práticas de organizar as linhas de produção, por muito que custe aos gestores, que permite a acumulação do capital, é a força, a força bruta das polícias, a força legal dos tribunais (com a polícia atrás), a força sofisticada da manipulação da opinião pública, é o domínio eficaz e por qualquer meio.

Foi esta desvalorização do trabalho a causa principal da divergência entre Paul Lafargue (cunhado de Marx e autor do Elogio da Preguiça) e Marx. O trabalho não é a atividade finalista do homem. O homem trabalha (apenas constrangido o ser humano despende energia para realizar uma tarefa em proveito de outrem ) constrangido, tal como os outros animais. Trabalha por ação de uma força impositora, um chicote verdadeiro ou simbólico! Não é trabalhando mais, quer em quantidade — tempo, quer em qualidade — melhor organização e melhor equipamento. que pagamos a dívida (o meio publicitado de saída da crise) e que evitamos a próxima (sempre houve uma próxima).

Esta crise não é financeira! Esta crise, como as anteriores, e as futuras, é fruto de relações de domínio. A sua superação implica a alteração das relações de domínio e não de reciclados conceitos de Deve e Haver, com nomes e siglas em inglês para épater le bourgeois.

É de políticos e de políticas que apresentem novas soluções para a acumulação de capital e distribuição de riqueza, e de promoção de novas e mais equilibradas (já não falo em justiça) relações de domínio que necessitamos para superar as crises.

É altura de relembrar a conhecida frase de Marx, nas «Teses sobre Feuerbach», que me parece apropriada neste tempo de peste e crise: “Até agora os filósofos (pode ler-se os políticos e os comunicadores situacionistas) preocuparam-se em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo.”

Nota: Este texto resultou da leitura de um artigo de Ernst Lohoff- “O caráter fetichista das mercadorias do mercado de capitais e o seu segredo” — na revista Krisis 1/2014, traduzido por Javier Blankm.

Disponível em: http://www.krisis.org/2014/kapitalakkumulation-ohne-wertakkumulation/

Born 1946; retired military, historian

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