Querido Tiago | “era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto” | Frederico Duarte Carvalho

Querido Tiago,

Como diria o pai da Ana Margarida de Carvalho, a tua “madrinha” do PCP, “era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. Se estas cartas fossem como um bar, então não poderíamos falar de política, religião e futebol. Como os dois últimos temas já foram abordados, só nos faltava mesmo entrarmos no campo da política. São os ventos de Abril, claro. As portas que nos abriram, sobretudo agora, quando temos as portas que o vírus nos fechou. No que diz respeito a escolhas políticas, poderia comparar isso a escolhas clubísticas e até a escolhas de amores: não se explicam. Sentem-se. Só que a minha mente gosta de encontrar lógica até nos sentimentos.

Vê lá o infeliz que sou. Escrevi há dias no livro de Alda que não preciso que um austríaco me explique que somos o produto do meio em que somos criados. No meu caso, dificilmente seria um comunista convencional, do povo. Não que me considere acima do povo ou abaixo dele – existe algo abaixo do povo, já agora? Nem acima, nem abaixo. Nem sequer estou ao lado do povo. Eu sou povo! Somos todos povo, até os patrões são homens do povo e pelo povo, pá! Sabes aquele sítio da Rua da Madalena onde gostas de ir comer as bifanas e usas o marco de correio como mesa? Ao lado tem o Largo do Caldas, mas que, oficialmente, é o Largo Adelino Amaro da Costa. É onde está a sede do CDS e, em frente, no chão, tens lá escrita uma frase do antigo ministro da Defesa do CDS que diz o seguinte: “Contra a exploração do Homem pelo Homem e do Homem pelo Estado”.

Ora, bem. Vale o que vale como doutrina partidária. De certeza que há outras frases lindíssimas da parte de outros grandes estadistas. Palavras que nos inspiram a continuar a segui-los e a prol do povo. Como estas, por exemplo: “A Revolução continua. E eu pergunto se, enquanto houver uma nuvem de perigo externo, um germe de desagregação interior, um português sem trabalho ou sem pão, a Revolução não há-de continuar”. Não foi o doutor Cunhal quem a disse em pleno Verão Quente de 1975, mas sim, o doutor Salazar – o “original”, o “fascista” – que a proferiu a 28 de Maio de 1936, no discurso do Parque Eduardo VII durante a celebração dos 10 anos da revolução de Gomes da Costa. Cada época, cada líder de revoluções. Entretanto, há sempre um português que insiste em não ter pão – no meu caso ando a ver se consumo menos pão, pois engorda imenso.

Tu aderiste ao PCP porque te identificaste com o João Ferreira na candidatura a Lisboa. Bem, eu estava na lista da candidatura da Assunção Cristas, do CDS. Estava porque fazia parte do MPT e o partido realizou uma coligação com o CDS nas autárquicas para Lisboa. Ela elegeu quatro vereadores e o representante do MPT era o quinto da lista. Quase que chegávamos a ter uma vereação. Depois de fazer parte do MPT, participei na fundação do Aliança e, antes disso, também tinha participado no Livre, onde fui dos primeiros a chegar e dos primeiros a sair. Antes de estar no Livre, estive no PPM. Estava uma vez a olhar Lisboa na Graça quando me perguntaram por que raio escolhera o PPM e não soube responder. Se a mesma pessoa me tivesse perguntado por que é que eu estava ali com ela, também não saberia responder.

Mas, sentia que havia algo que me fazia querer algo que não sabia explicar bem o que era. E se saí, foi porque continuava a acreditar no mesmo. Há amigos que dizem que já estive em todos os partidos e que agora só me falta ir para o PCP! Não, Tiago, não estou a pedir que me entregues uma folha de inscrição com a foice e o martelo e digas que eles tomam conta dos seus. Confesso, porém, que houve umas eleições em que votei no PCP. Nas Europeias de 2004, para ver se elegia a Odete Santos, a terceira da lista. Calhou o lugar dela como eurodeputada ir para o Miguel Portas, irmão do antigo líder do CDS, Paulo Portas, então eleito pelo BE.

Como vês, isto da política é demasiado complexo quando até na mesma família pode haver dois irmãos em partidos muito diferentes. Tu e eu, mano, não somos diferentes um do outro, pois queremos o melhor para todos e a justa retribuição pelo trabalho prestado. Apenas tendemos a divergir pontualmente nos métodos. Ou na impetuosidade da luta. Vou ainda contar-te uma história da minha infância que nunca mais me esqueci. Um dia, estava na sala cá de casa a fazer os trabalhos da escola e, por acaso, encontrava-se comigo um amigo da mesma turma. Nesse dia, como o pai dele não teve tempo de ir buscar à escola, acabou por ficar em minha casa, que estava localizada perto do estabelecimento escolar. Era o Sérgio, que tinha um pai “cool”, com mochila a tiracolo. Um sindicalista. A dada altura do nosso trabalho, perguntei ao Sérgio se ele queria lanchar. Disse que sim e então, sentado na minha mesa de trabalho, chamei a minha avó materna, Adelina: “Ó Vó!” Ela apareceu à porta da sala e pedi-lhe se poderia fazer o nosso lanche. Sim, claro e retirou-se para a cozinha a fim de o preparar.

Assim que a minha avó desapareceu de vista, o Sérgio, fitou-me com os seus olhos verdes em face morena, com um olhar que eu nunca mais me esqueci e disse apenas uma palavra, num tom sereno, pausado e grave: “Burguês”. Sabes, Tiago, fiquei calado. Por uma razão muito simples: desconhecia ainda por completo o significado da palavra “burguês”! À noite, sentado à mesa do jantar, contei aos meus pais o que se passara. A minha mãe deu uma gargalhada, virou-se para o meu pai e comentou: “Estás a ver a educação que andas a dar ao nosso filho?”. Na realidade, se a minha avó, mãe da minha mãe, não me mandou interromper os meus trabalhos de casa para que eu fosse à cozinha preparar o meu próprio lanche, o que poderia eu fazer? Muita gente vai dizer que nunca deveria ter chamado a minha avó e que deveria ter-me levantado e ir à cozinha preparar o meu próprio lanche, pois é realmente uma prepotência burguesa e um vício egoísta e machista de carregar tudo nas costas da mulher operária.

Ora bem, acaso sabem essas pessoas o que acontecia quando eu, por vezes, decidia tomar a iniciativa de ir à cozinha preparar o meu próprio lanche e não sobrecarregar a mulher operária? A mulher ordenava-me que saísse da cozinha porque eu estava a incomodar e a sujar tudo e que ainda me cortava com a faca e depois era uma carga de trabalhos porque era preciso ir para o hospital e que também desarrumava as coisas do sítio e depois perdiam mais tempo à procura e que ainda partia alguma loiça ou estragava o electrodoméstico. Por isso, preferia estar caladinho e quietinho a fazer as minhas tarefas da escola e confiava que os outros estivesse também a fazer o seu trabalho. A cada um, a sua contribuição para a sociedade e a devida recompensa. A minha recompensa não era um salário, mas sim ter o lanche trazido à mesa. Sempre evitava ficar mal nutrido e acabar doente e depois era mais uma carga de trabalhos.

Acho muita piada às tiras da Mafalda pelo Quino, mas tive no Sérgio a minha “Mafalda” da vida real em versão masculina. Depois, não preciso imaginar uma conversa com o doutor Cunhal porque, na realidade, tive uma vez a oportunidade de lhe fazer uma pergunta. Aconteceu uma noite na Cooperativa Árvore, aqui no Porto. Perguntei-lhe o que tinha a dizer sobre um ex-agente do KGB que relatou que tivera uma vez um encontro com ele e a conversa decorreu através de uma troca de bilhetes escritos porque estavam com receio de serem escutados. Isso constava de num livro, então publicado em Inglaterra, chamado “O Arquivo Mitrokhin”. O líder do PCP respondeu-me que não se podia confiar num ex-agente secreto que publicava um livro no país do inimigo. Sorri. Dentro daquela lógica, nunca se poderia confiar num agente secreto.

Ele, quando está ao serviço do seu País, defende o seu País e não se pode confiar nele como fonte independente. Quando deserta para o País inimigo e fala do que sabe, também não podemos confiar no que diz. Aliás, o maior perigo das Democracias é ter serviços secretos, quando há mecanismos mais transparentes para a recolha e tratamento de informações de Estado a nível internacional que podem passar perfeitamente pela rede consular e diplomática. Há uma citação de Salazar, o “original”, novamente, que diz: “Não se pode ser liberal e socialista ao mesmo tempo; não se pode ser monárquico e republicano; não se pode ser católico e comunista – de onde deve concluir-se que as oposições não podiam em caso algum constituir uma alternativa e que a sua impossível vitória devia significar aos olhos dos próprios que nela intervinham cair-se no caos, abrindo novo capítulo de desordem nacional”.

Salazar estava enganado. Vivesse ele hoje e veria como há socialistas e liberais. E monárquicos muito contentes com a república. Um deles, por exemplo, é o presidente vitalício da Fundação Casa de Bragança, a instituição que gere o património dos bens pessoais do senhor Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Saxe-Coburgo-Gotha e Bragança, mais conhecido como D. Manuel II, o último rei de Portugal. Entre os bens, temos o Paço Ducal de Vila Viçosa e várias propriedades nos concelhos de Vila Viçosa, Estremoz, Portel, Vendas Novas, Ourém e Lisboa. E sabes quem é o presidente do conselho de Administração desta Nobre instituição de origem monárquica? Um senhor chamado Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa. O mesmo Marcelo que é Presidente da República – suspendeu o mandato na Fundação, mas poderá retomar o cargo de forma vitalícia, se assim o desejar, depois de cumprir as suas funções em Belém.

Quanto a ser-se católico ou comunista, posso dizer-te que uma vez também falei com o sucessor de Álvaro Cunhal, o Carlos Carvalhas, num intervalo de uma entrevista que me fizeram na TSF, em 2009, quando fui candidato pelo PPM ao Parlamento Europeu. Não lhe perguntei se era verdade que ele tivesse, um dia, aconselhado o pai a guardar o dinheiro na Suíça como ouvira contar, em certo restaurante em S. Pedro do Sul, Viseu, de onde ele era natural. Quis foi esclarecer se uma pessoa poderia ser católico e comunista ao mesmo tempo e ele confirmou-me que o PCP não colocava qualquer entrave aos católicos. Aquilo fez-me ainda lembrar uma notícia que uma vez li sobre um episódio no Verão Quente de 1975, quando os radicalismos se revelaram em Portugal. Havia um padre que se recusava a fazer um funeral a uma pessoa que queria ser enterrada com a bandeira do PCP. Na minha cabeça só me questionava que tipo de padre era aquele que recusava um funeral a um católico e que tipo de comunista era aquele que não se importava em ter uma cerimónia fúnebre conduzida pelo “ópio do povo”.

Só se fosse como a velhinha numa aldeia da União Soviética que, prostrada no seu leito de morte, ainda teve forças para pedir a presença do representante local do partido comunista para que pudesse ser filiada antes de morrer. Quando o representante saiu depois de lhe preencher a ficha – e deve ter recebido a primeira quota – os filhos perguntaram à mãe o porquê daquele gesto. Ela sempre fora contra o partido. E a senhora respondeu: “Filho, se alguém tiver que morrer, então que seja um deles!”

Piadas sobre comunistas e fascistas há muitas. Não sou contra comunistas nem fascistas. Também não sou contra nacionalismos. Sou é a favor daquilo que impede os “ismos”. Tenho a certeza ainda, Tiago, que Cunhal diria aos fascistas: “Vocês pensam nos vossos filhos, eu penso nos filhos de todos vós”. Só que esta frase, se a fores pesquisar, surge atribuída a Salazar, o “original”, mais uma vez. Pois eu penso naqueles em que devo pensar: nos meus. E cada um deve pensar nos seus, pois, se todos nós o fizermos, então não estaremos dependentes de quem quer dizer aos nossos filhos como devem pensar. Eu tive uma boa educação: a que se arranjou. Como democrata que sou, sou a favor da unidade pela concórdia de vontades do que pela unicidade de um pensamento único. E tu também, que eu sei, ó Salazar!

Abraço

Até amanhã

Frederico Duarte Carvalho

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