Querido Frederico Duarte Carvalho | O Amor é uma coisa rara | Tiago Salazar

Querido Frederico Duarte Carvalho

Voltamos sempre ao amor (e à paz e a justiça, como as Misses Mundo). Um dia li esta frase, da Hélia Correia, e guardei a sua fala para sempre. “O Amor é uma coisa rara. Tão rara como um homem evolar-se pelos ares ou um analfabeto citar Cícero em correcto latim”. A Hélia (e o Jaime Rocha), duas almas antigas e floridas, vivem um amor raro. Um amor onde assenta a poesia é do domínio da raridade. Na rua chamam-me “o poeta” ou, por vezes, “fadista”. É um equívoco perdoável. Logo eu, que tenho uma obra completa de três poesias e nada sei de decassílabos, sextilhas ou sonetos.

Gosto de ler alto aos turistas a poesia gravada nas paredes, como o poema da Florbela gravado em caligrafia infantil no muro da R. Damasceno Monteiro, sobre isso de ser poeta, que é ser maior entre os homens. Leio-o primeiro na nossa língua e depois em inglês, francês, castelhano e italiano, as línguas que conheço vagamente e me permitem manter uma conversação. Que sei do amor para falar do amor? Posso dizer que vivi dois amores e vivo hoje um terceiro, e não há duas sem três. Todos eles nasceram de acasos felizes, daqueles que nos fazem acreditar na possibilidade do eterno retorno.

Agora que a escrita do dia me trouxe aqui – e nunca planeio o tema do dia -, dou por mim a pensar-sentir como tudo aconteceu. Podia recuar a dois amores anteriores a estes três, ditos da adolescência, mas sentindo-os bem, foram apenas laivos de paixão marcados pela carnalidade de um pénis irrequieto. A antecâmara para chegar aos seguintes, onde os imperativos da satisfação do falo passaram a uma experiência de corpo inteiro, até chegar à união do corpo e espírito. Não se pode confundir o ímpeto de entrar numa mulher com a vontade de a ter até ao fim.

A primeira mulher que amei conheci-a numa redacção. Bastou-me olhar os seus olhos verdes espertos e brilhantes, por detrás de uns óculos de massa que lhe davam uma patine sensual, para saber estar ali algo mais do que um coup de foudre. Vivemos esse amor dez anos, e durante a sua vigência, fruto da imaturidade e de uma incomunicabilidade aterradora, dei por mim a ceder às tentações, não sabendo explicar-lhe que era a ela, e sempre a ela, que queria voltar. O meu egoísmo matou esse amor.

E chegou então o amor do meio, na forma de uma entrevista. Essa entrevista não me estava destinada, pois quem a devia ter feito era a minha futura ex-mulher jornalista. À última hora passou-me a entrevista, e lá fui, intrigado por esta circunstância que te vou agora contar. A entrevistada era uma cantora portuguesa que desconhecia, de quem se diziam maravilhas. Ao ouvir o seu disco (Ulisses) dei por mim a chorar. Lembro-me de estar no meu mini Cooper a ouvir o seu canto e a saírem-me lágrima em catadupa. Não sei o que me comoveu, nunca saberei, mas um dia alguém disse que o seu canto era o de uma mãe. A mãe negra que canta para mitigar a fome dos seus filhos. Quando a vi, enfiada numa gabardina, vi uma mulher com ar de criança frágil, pálida, tímida e assustada.

Conversámos uma manhã inteira quando o tempo destinado para a entrevista era de uma hora. Não me apaixonei, não senti nenhuma espécie de apelo carnal, mas fiquei enleado a ouvi-la falar das suas dores, numa inconfidência chorosa e imprópria para uma entrevista. Despedimo-nos trocando números de telefone com o pressuposto de lhe mostrar o texto que lhe escreveria onde denunciava um enamoramento pelo seu ser belo e sofrido. Ficaríamos para sempre por aqui não fora a circunstância de estar um dia em Veneza e receber uma mensagem sua onde perguntava “onde anda o Willy Fog?”. Era nessa altura um escritor-viajante no activo e a pergunta fazia sentido. Respondi que estava sentado à janela do meu quarto de hotel sobre a ponte do Rialto, e disse-lhe que se o destino assim o quisesse haveríamos de continuar a nossa conversa. Durante as próximas semanas não voltei a pensar nela mais do que um par de vezes, e no facto de me comover sempre que voltava a ouvir a sua voz a cantar. Não tinha por essa altura nenhuma espécie de apelo libidinoso de a seduzir com missivas apelativas.

Um dia, de passagem por Lisboa, onde raramente me encontrava, passando os meus dias largado pelo mundo, recebi uma mensagem. “Estou na tua cidade”, dizia. “Vim experimentar um vestido aos Manéis”. Ora, o destino por vezes prega-nos partidas e recebi a mensagem a poucos metros de distância. Lá fui ao seu encontro, sem a avisar, e quando me viu, sem saber que a tinha visto semi-nua em cima de um paralelepípedo, a experimentar vestidos uns atrás dos outros, ficou siderada. Demos um abraço (o dela rígido) e saímos até ao Vertigo. Dali até 2013 foi uma história de amor e paixão imaculada que resultou, ano antes, na constelação perfeita que é um filho estelar, feito na confluência de todas as forças que pode o amor. Seguiram-se anos de infortúnios, dramas, traições, fados. O amor conjugal não resistiu ao sistema, à vida como ela pode ser quando o Estado pune o indivíduo e o sufoca de endividamentos. Voltou a incomunicabilidade aterradora, o lento esvair do desejo, as pontes cada vez mais distantes e o fim. Todos os fins são começos.

Um dia, escrevia um romance e fui à pastelaria O Careca. Preparava-me para começar o trabalho quando reparei que não tinha bateria no computador. Olhei em frente e vi uma mulher lindíssima. Tinha ido sentar-me a curta distância sem nenhuma vontade racional de a observar mais de perto. Os nossos olhares cruzaram-se, e assim ficámos, a sorrir, a rir, longos segundos, minutos, e todo eu tremia com a emoção daquele olhar tão cúmplice vindo de uma estranha. Ligaram-lhe e ela perguntou como se dizia olá em crioulo. Ouvi-a e socorri-me dos meus contactos em Cabo-Verde para saber a resposta. Antes de sair aproximei-me dela e disse “oi”. Podia ter continuado assim. “Kel é bu nóm?” (como te chamas?), seguido de “bu é sábi” (és boa, és uma gata) e “n`cre bu tche” (AMO-TE), e se o tivesse feito era a mais pura das verdades, aquela que só pode o sentimento sem que o pensamento interfira.

Hoje, minha “nha cretcheu” (amada/o,querida/o,namorada/o), mil anos depois, basta não estarmos juntos umas horas para te dizer que sinto “sodade” e jurar-te a pés juntos e sem figas que entre nós só haverá “hora di bai” (despedida, partida, hora de partida) quando um de nós tiver que desta Terra se ir.

Quanto a ti meu velho Fred “ti na vólta”, que é como quem diz até ao teu regresso

Tiago Salazar

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