Como a erosão social está a abrir caminho ao autoritarismo, Domingos Caeiro, in Expresso

Onde a insegurança se instala, o desejo de liberdade pode ser substituído pelo desejo de ordem; onde o futuro se fecha, a complexidade democrática passa a parecer fraqueza; onde o compromisso é visto como paralisia, a concentração de poder apresenta-se como solução

Quando as democracias começam a falhar, raramente colapsam de forma súbita. Antes disso, degradam-se por dentro: perdem autoridade moral, deixam de inspirar confiança, tornam-se incapazes de proteger os seus cidadãos e passam a administrar a insegurança em vez de a reduzir. O que se quebra primeiro não é o regime formal, mas o pacto invisível que o sustenta. É nesse ponto que a democracia deixa de ser vivida como promessa credível e começa a ser percebida como ritual esvaziado. A ascensão das autocracias não nasce, por isso, apenas da força dos seus líderes ou da eficácia dos seus aparelhos repressivos; alimenta-se, antes de mais, do enfraquecimento das democracias, da erosão do Estado Social e da sensação, cada vez mais disseminada, de que as instituições já não conseguem ordenar a vida coletiva com justiça, previsibilidade e sentido de futuro.

É esse o nervo do nosso tempo. O problema central não está apenas na existência de regimes autoritários robustos, mas na crescente dificuldade das democracias em justificarem a sua superioridade prática perante sociedades cansadas, desiguais e vulneráveis. Durante décadas, a legitimidade democrática assentou em dois pilares complementares: liberdade política e progresso material. Não bastava votar; era preciso que a democracia produzisse segurança, mobilidade social, serviços públicos eficazes, oportunidades de vida digna e a convicção de que cada geração viveria melhor do que a anterior. Ora, quando esse segundo pilar vacila, o primeiro deixa de bastar. Uma democracia que preserva procedimentos, mas falha na proteção social, abre espaço a uma pergunta perigosa: para que serve a liberdade política se ela já não consegue travar a precariedade, a desigualdade e o declínio?

É aqui que o definhamento do Estado Social se torna decisivo, sobretudo no caso europeu. A Europa não é apenas um espaço geográfico ou uma construção institucional; é, historicamente, a grande experiência política de civilização social do pós-guerra. O prestígio das democracias europeias não decorreu unicamente das suas constituições, dos seus parlamentos ou dos seus tribunais. Resultou também da criação de sistemas públicos de saúde, educação, segurança social, proteção no desemprego, direitos laborais e mecanismos de redistribuição que transformaram cidadania formal em pertença concreta. A promessa europeia foi, durante muito tempo, esta: a liberdade não seria um privilégio dos fortes, mas uma condição partilhada, garantida por instituições capazes de amortecer o risco, conter os excessos do mercado e proteger a dignidade humana. Se a Europa se tornou referência democrática, foi porque conseguiu ligar representação política a coesão social.

Por isso, a crise do Estado Social na Europa não é um problema setorial nem uma simples dificuldade orçamental: é uma crise de identidade política. Quando os sistemas públicos perdem capacidade de resposta, quando o trabalho deixa de garantir estabilidade, quando os jovens acumulam qualificações sem conseguirem autonomia, quando a habitação se torna incomportável e quando a velhice volta a ser sentida como ameaça em vez de etapa protegida, o que se corrói não é apenas a eficiência do Estado – é a credibilidade do modelo democrático europeu. O Estado Social não é um adorno benevolente do regime; é uma das suas principais infraestruturas de legitimidade. Sem ele, a democracia liberal fica exposta a uma contradição devastadora: proclama igualdade política enquanto tolera desigualdades materiais tão profundas que tornam essa igualdade cada vez mais abstrata.

É precisamente nesse vazio que prosperam as forças autocráticas. Elas compreendem algo que muitos democratas tardam em admitir: o medo social é uma energia política extraordinária. Onde a insegurança se instala, o desejo de liberdade pode ser substituído pelo desejo de ordem; onde o futuro se fecha, a complexidade democrática passa a parecer fraqueza; onde o compromisso é visto como paralisia, a concentração de poder apresenta-se como solução. As autocracias avançam não apenas porque reprimem, mas porque simplificam; oferecem culpados nítidos, respostas bruscas e uma ilusão de direção num tempo de fragmentação. O seu discurso cresce onde a democracia já não protege, onde o Estado já não compensa, onde a política deixou de assegurar continuidade social.

A Europa encontra-se, por isso, num ponto particularmente delicado. Sendo o paradigma histórico do Estado Social, é também o espaço onde o seu desgaste tem efeitos políticos mais profundos. Se falhar aqui, falha no seu próprio laboratório original. Durante anos, uma parte significativa das elites europeias tratou a proteção social como custo, a regulação como obstáculo e a solidariedade como luxo de tempos prósperos. Em nome da disciplina financeira, aceitou-se por vezes uma compressão persistente da capacidade pública, como se a solidez das contas pudesse substituir a solidez do contrato social. O resultado está à vista: sociedades mais fatigadas, classes médias mais frágeis, periferias mais ressentidas, jovens mais distantes das instituições e uma paisagem política crescentemente permeável a discursos iliberais. O que parecia prudência económica revelou-se, em muitos casos, imprudência democrática.

A questão é tanto mais séria quanto coincide com uma alteração profunda do contexto geopolítico. Num mundo mais fragmentado, mais competitivo e menos regulado por consensos liberais, as democracias deixaram de poder contar com a inércia da história. A convicção, tão dominante após o fim da Guerra Fria, de que a democracia liberal representava o destino natural das sociedades modernas perdeu força. Hoje, regimes autoritários apresentam-se não como anomalias transitórias, mas como modelos alternativos de eficácia, estabilidade e afirmação nacional. A rivalidade entre grandes potências, a guerra na vizinhança europeia, a instrumentalização da energia, das migrações, da tecnologia e da informação transformaram o ambiente externo num fator adicional de pressão sobre democracias já internamente desgastadas. E, quando o medo geopolítico se soma à frustração social, a tentação autocrática deixa de ser marginal.

Também por isso o problema europeu não pode ser lido apenas com chave económica ou institucional. Trata-se de uma disputa sobre a própria definição de civilização política. Se a democracia deixar de significar capacidade de proteger, incluir e projetar futuro, ficará reduzida a um conjunto de procedimentos defensivos, facilmente caricaturados pelos seus adversários como lentos, elitistas e impotentes. A erosão das instituições começa muitas vezes quando estas continuam formalmente intactas, mas já perderam espessura social. Tribunais, parlamentos, governos e imprensa não se esvaziam apenas por ataque direto; esvaziam-se também quando vastos setores da população deixam de ver neles instrumentos de amparo, equidade e voz efetiva. É nesse momento que a legalidade permanece, mas a legitimidade começa a fugir.

O avanço das autocracias resulta, assim, de uma convergência inquietante: democracias mais divididas, Estados sociais mais frágeis e um ambiente internacional mais hostil à moderação liberal. Nenhum destes fatores, isoladamente, explica a totalidade do fenómeno; juntos, porém, compõem uma dinâmica de corrosão de grande alcance. A dívida excessiva, a estagnação, a desigualdade persistente e a incapacidade de reformar com justiça criam o terreno da exaustão social. Sobre esse terreno cresce a desconfiança nas mediações institucionais, o desprezo pelo pluralismo e a procura de lideranças que prometem restaurar controlo sem os incómodos da deliberação democrática. A autocracia deixa então de aparecer como rutura e começa a vender-se como correção.

Há, no entanto, um ponto que importa sublinhar: o destino não está fechado. A história mostra que as democracias não sobrevivem por automatismo, mas também não desaparecem inevitavelmente. O que as salva não é a repetição abstrata dos seus valores, mas a capacidade de os tornar tangíveis na vida comum. Isso significa, no caso europeu, perceber que defender o Estado Social não é um gesto nostálgico nem uma relíquia ideológica do século XX. É uma necessidade estratégica, institucional e civilizacional. Reforçar a escola pública, garantir acesso à saúde, proteger o trabalho, regular os excessos de concentração económica, responder à crise da habitação e reconstruir horizontes de mobilidade social não são apenas políticas sociais: são políticas de defesa da democracia.

Se a Europa quiser resistir ao ciclo de erosão em curso, terá de recuperar a consciência de que o seu maior trunfo histórico nunca foi apenas o mercado, a moeda ou a arquitetura jurídica, mas a promessa exigente de compatibilizar liberdade com proteção, pluralismo com coesão, competição com dignidade. Quando essa síntese enfraquece, não é só o modelo social que entra em crise: é a própria ideia democrática que perde chão. E quando a democracia perde chão, as autocracias não precisam sequer de vencer pela força; basta-lhes esperar que o vazio faça o seu trabalho.

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