Guterres avisa superpotências para os limites do seu poder, in Observador

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que as superpotências estão a ver o seu poder limitado e garante que, apesar das dificuldades, a ONU mantém-se relevante.

“Chegou a hora de as superpotências entenderem os limites do seu poder”, afirma em entrevista ao Financial Times, dando os exemplos da Rússia com a Ucrânia e dos Estados Unidos com o Irão, em que ambas as potências planeavam vencer as respetivas guerras em pouco tempo. “Se analisarmos o que aconteceu recentemente, a capacidade das superpotências de impor a sua vontade, a sua força ou o seu poder em diversas situações foi severamente limitada”, acrescenta.

Porém, o secretário-geral das Nações Unidas avisa para os riscos de um mundo multipolar, em que outras potências, como a Índia e os estados do Golfo, estão a assumir um papel maior no sistema internacional. Guterres teme que a multipolaridade se traduza em “mais competição e, eventualmente, em mais confrontos”. “Não nos esqueçamos de que a Europa antes da Primeira Guerra Mundial era multipolar“, avisa.

Em relação a críticas sobre uma ONU “mais silenciosa”, Guterres esclarece que tem sido audível contra a guerra da Ucrânia, os ataques do 7 de outubro e o genocídio em Gaza, e que a organização não “entrou em colapso”.

“Nada entrou em colapso. Claro que fomos reduzidos. As agências estão perto do colapso? Não, porque estávamos organizados de uma forma que nos permitiu ajustar-nos rapidamente”, sublinha. No entanto, admite que é necessária uma reforma na composição do Conselho de Segurança e que a existência de três membros permanentes europeus é “insustentável”.

“A realidade no terreno terá de prevalecer no final. Será inevitável que o Conselho de Segurança tenha de se adaptar ao peso relativo das diferentes potências mundiais”, sublinha, afirmando que o consenso sobre novos membros terá de ser feito através de consenso.

Guterres também admitiu que o secretário-geral das Nações Unidas tem “voz”, mas não tem poder e recusa inação em relação aos conflitos globais, sublinhando a visita que fez ao Chipre, dividido desde 1974 entre a comunidade turca, no norte, e a grega, no sul.

“O secretário-geral não tem poderes. O secretário-geral tem voz e alguma capacidade de convocação. Poder é outra coisa, e isso não temos. Mas a voz não será silenciada”, conclui.

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