Aleluia ou Hossana! | Um novo mundo — uma nova ordem financeira | Carlos Matos Gomes

Sofremos um tremor de terra que está a derrubar (ou já derrubou) o que havia sido construído com base na ideia da economia como ciência, do corte feito entre ação humana e a ética, em que tudo tem um preço, inclusive a terra e o trabalho. A pretensão de a economia ser uma ciência e, principalmente, a de se situar fora da ética, tem de ser questionada. Não estamos perante uma ventania que arrastará uns telhados que com mais ou menos esforço acabarão por ser repostos.

A pandemia vai obrigar-nos a voltar às origens, a ressuscitar o conceito que vigorou desde a Grécia Antiga até à Revolução Industrial de tratar a economia como um ramo da filosofia. Vamos ter de questionar a propriedade e o uso da propriedade, a produção e a acumulação da riqueza, a “arte da troca” e a “arte do uso”. O conceito de dinheiro, que para Aristóteles, tinha o único propósito de ser um meio de troca, o que significava para ele que era inútil. “ …não é útil como um meio para qualquer das necessidades da vida”. Um instrumento. A sua acumulação era, além de inútil, desonrosa: “a troca no comércio pela simples acumulação é justamente censurada, pois é desonrosa”. Aristóteles também desaprovava a usura e o lucro através do monopólio, instituídos como mandamentos pela civilização que se tornou dominante.

Não sou economista (apenas um pensionista com tempo e disponibilidade para ler e pensar), nem crente em ressurreições. O que morreu, está morto. Sou um tipo comum que aprendeu muito novo, antes de qualquer catequese, nos Açores, a distinguir uma tempestade de um tremor de terra.

Já agora, nem Adam Smith nem David Ricardo eram economistas. Nem Sófocles que, sendo autor teatral, foi o tesoureiro de Atenas (o que corresponderia hoje a um ministro das finanças e do comércio) que na época de grande crise de falta de prata para cunhar moeda, dracmas, indispensáveis à compra de trigo nos territórios férteis do que é hoje a Ucrânia, teve a ideia de adicionar uma percentagem de chumbo à moeda, mantendo-lhe o valor do dracma de prata. Emitir moeda com um valor facial sem correspondência com o valor real, mas aceite pelo mercado, tem sido o bêaba dos financeiros desde há milénios. Nada de novo criar uma nova moeda, eliminar dívida, criar crédito a partir de expetativas.

A questão é que o “sistema” em que vivemos não só cria dinheiro com moedas sem valor facial — o que Sófocles já fizera há mais de dois mil anos — como impôs a condição de escravos a todos os seus elementos através das grilhetas da dívida soberana impagável. Uma artimanha inicialmente utilizada pela família Rothschild, no século dezoito, para financiar as guerras dos soberanos e que ainda se mantém em vigor. O conjunto doutrinário que serve de base a esta forma de acumulação de riqueza e consequente poder, e aos grandes sacerdotes que o impõem ao mundo como dogma, é vulgarmente designado por “sistema”, “o sistema” que não pode ser posto em causa. Pode e tem de ser!

O “sistema” impôs aos Estados mais fracos e aos seus cidadãos a condenação a devedores eternos, num processo de domínio idêntico, no essencial, ao que nas colónias os donos de cantinas e de fazendas impunham aos trabalhadores negros, obrigados a comprar os seus bens essenciais a crédito, na cantina, criando uma dívida de que jamais se libertariam e que os obrigava a trabalhar para o mesmo senhor durante toda a vida. O “sistema” financeiro mundial assenta neste estratagema de cantineiro. Os países mais pobres têm de oferecer a sua liberdade para pagar as prestações da dívida aos juros impostos pelos detentores do capital. É este “sistema” que está em causa — porque o vírus interrompeu as cadeias de produção e, logo de pagamentos. É este sistema que os “cientistas da economia”, as instituições de emissão de moeda e de dívida e os seus dirigentes querem recuperar.

O “sistema” criou o banquete da dívida soberana maioritariamente externa, os banqueiros centrais do G-20, ou do G-7 reuniam-se como os patrícios nos banquetes romanos. Empanturravam-se e debochavam em orgias. O que o coronavírus fez em 2020 consistiu apenas numa repetição da ritual e fisiológica ida dos patrícios romanos ao “vomitorium”, palavra que também significa portão de saída dos anfiteatros e estádios. A recuperação do “sistema” mais não seria do que trazer de volta os patrícios que saíram para vomitar, com os mesmos vícios e acrescentados apetites! Hoje, é vital que saiam, vomitem lá fora e não voltem!

O “sistema” financeiro que resultou das instituições reguladoras saídas da conferência de Bretton Woods, o Banco Mundial e o FMI, ainda têm escritórios e burocratas, mas já não funciona, ou está a desmantelar-se, sujeito a um terramoto. O “sistema” está moribundo porque o império vencedor da Segunda Guerra agonia como um doente terminal.

Os Estados Unidos comportaram-se desde que instituíram o Plano Marshall, no final dos anos quarenta, anos cinquenta, até ao presente, como o grande império de referência do Ocidente, o romano. Tal como Roma, os EUA impuseram uma moeda, respetivo sistema de troca e de referência, o dólar, uma língua e uma ordem jurídica apoiada na força das suas legiões. Mas esse império está tão visivelmente em decomposição como o de Roma no seu final. Luta de forma tão evidente já só para manter o essencial do centro do poder (os dedos), que os imperadores de Washington passaram a designá-lo por CONUS, o acrónimo de Continental United States, a Metrópole dos sistemas imperiais e coloniais. O último reduto.

O CONUS já não emite moeda credível, confiável. Não havendo ressurreição (apesar da Páscoa cristã), a realidade que se seguirá terá de ser de natureza diferente da de antes da crise, assente em distintos pressupostos civilizacionais, o que quer dizer com nova moeda, novas regras de troca, isto é, novo mercado, com novos centros de decisão. Manter-se-á no Ocidente a língua, como o latim no anterior império.

Esta crise do vírus revelou que o rei ia nu. O império deixou de o ser, ou está em vias de resolução, com as respetivas consequências: o dólar já não é a moeda única do império e o império, como os impérios da História, está a arruinar-se pelas contradições internas. Um simples e, pelo que se sabe, pouco agressivo vírus, revelou a podridão que mina as estruturas do império da desigualdade e da combustão acelerada de recursos. O último cônsul do império chamou-se Kissinger. Os que se sucederam não passaram de meros prestadores de cuidados paliativos, o que inclui Obama, que foi um bom maquilhador e disfarçou a gangrena. Agora o império está nas mãos de um cangalheiro que se julga o doutor Mabuse, a personagem do filme que dirige um regime de terror e crime, a partir do hospital onde está internado.

Há quem ainda acredite no milagre do doutor Mabuse se metamorfosear e sair dali um César, ou um rei Leão, mas até a Disney está perdida e Trump lembra, isso sim, o Pato Donald. Quem sobrevive (e bem) no “sistema” são os Rothschild, os banqueiros do mundo, não só os inventores das dívidas soberanas, como os manipuladores de todos os bancos centrais do mundo com exceção de sete, segundo dados de 2003: Sudão, Líbia, Irão, Cuba, Coreia do Norte, Síria e Venezuela. É curioso, mas há intervenções americanas em todos os países cujos bancos centrais não são controlados pelos Rothschild. Sair da crise implica sair do quadro das instituições do pós-Segunda Guerra, da sua principal criação, o dólar mundial libertarmo-nos das grilhetas das dívidas soberanas e dos negreiros que as impõem.

A China e a Rússia já utilizam o rublo e o yuan nas suas transações, uma nova moeda está em desenvolvimento entre a Rússia e a China, que terá a possível, embora reticente associação da Índia. Nesses países existe uma nova capacidade de desenvolvimento de tecnologias da informação, de investigação avançada e autónoma em todos os domínios, do aeroespacial à biotecnologia, da inteligência artificial ao domínio do ambiente.

É desses dois grandes espaços que virá o essencial da energia para a superação desta crise. Gostemos ou não, a nova realidade, o novo mundo, emergirá com novos paradigmas culturais, com novas formas de gerir o comércio mundial. É uma questão de sobrevivência da humanidade encontrar novos equilíbrios entre o homem e a natureza (o trabalho e a terra) e é neste campo que se levantam as maiores dúvidas sobre o comportamento das potências emergentes.

Seria sábio, ou no mínimo prudente, que a União Europeia reimplantasse na Europa as suas capacidades de produção deslocalizadas pelos neoliberais e se orientasse para alianças baseadas na igualdade com os novos atores do futuro do planeta e lhes levasse o melhor da sua civilização, dos seus valores. Seria importante que a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu em particular, pensassem em termos estratégicos. Mas Cristina Lagarde é apenas uma carreirista, uma funcionária de quem jamais se conhecerá uma ideia que não seja um lugar-comum ao nível qualquer dono de mercearia com a escolaridade obrigatória e a senhora alemã que está em Bruxelas a atender os recados da chanceler Merkel, a presidente da Comissão Europeia, anda, como até se nota pelas expressões corporais, completamente perdida. Sem patrioteirismos, seria bom para todos os europeus que Elisa Ferreira conseguisse fazer-se ouvir. Seria uma esperança de derradeira instância.

Que nível de autonomia entendem estas senhoras da Comissão Europeia, do BCE e do FMI que a União Europeia deve avocar para sobreviver no pós crise? Que alianças preferenciais? Que fim para as dívidas ditas soberanas? Que moeda criar para as trocas a partir de uma base zero?

Portugal é um caso curioso, tem num extremo o primeiro-ministro com a mais consistente e alargada ideia de uma União Europeia que possa ser um ator de primeiro plano no futuro, entre o velho império decadente dos EUA e o que está a surgir a Oriente, ao centro um ministro das finanças presidente do Eurogrupo a representar a rábula da saudosa Ivone Silva da Maria Patroa-Maria Empregada, tentando conciliar a sobranceria e o egoísmo dos países do Norte com as necessidades dos países do Sul e manter a União unida num momento em que são iniludíveis as transferências de riqueza do Sul para o Norte, proporcionadas pelo Euro e, por fim, à direita um ministro dos negócios estrangeiros de horizontes limitados e subserviente aos velhos senhores.

A superação da crise passa, a meu ver, por um mundo transitório com três emissores de moeda mundial, os Estados Unidos com o seu dólar, a União Europeia com o Euro e o conjunto Rússia-China com uma outra moeda a que falta um nome de batismo.

As nossas (da União Europeia) futuras trocas de bens e serviços serão, ou deverão ser realizadas com uma moeda formada pelo conjunto do euro e da divisa russo-chinesa. A zona do dólar fará o que os seus dirigentes melhor entenderem, já que entraram em perda fatal e em espiral, que os aviadores designam por vrille, sendo certo que Trump não oferece garantias de mínima credibilidade a quem quer que seja, exceto ao ministro português Santos Silva (a quem seria prudente remeter ao silêncio) e ao governo holandês, que ficou como encarregado dos negócios do Reino Unido e, através deste, dos EUA, ao neofascista Orban da Hungria, ao governo polaco, sempre na corda bamba entre a Rússia e a Alemanha.

Os tempos do pós-crise na Europa podem ser catastróficos, se a União Europeia preferir ser o cão cego dos EUA (o António já fez uma caricatura alusiva e tão assertiva que os democráticos media americanos a censuraram), ou ser estimulantes, se a Europa aceitar os desafios de uma nova era da História em que, definitivamente deixou de ser o centro do mundo, uma ilusão que ainda manteve como pajem dos EUA na NATO no pós Segunda Guerra.

Uma nota final de ceticismo: estes tempos de crise são historicamente propícios à cólera das multidões, à irracionalidade dos dirigentes que lançam os povos em guerras e ao aparecimento de hienas com discurso de salvadores. Todos os vírus (cólera, irracionalidade, demagogia) andam por aí. As hienas rondam à espera da sua oportunidade. Basta ver na televisão a inversão do discurso que elas realizam, acentuando a imagem de caos, promovendo o desespero e atribuindo as culpas do mal à falta da solidariedade entre os membros do bando, leia-se a UE, ao bando de que de que fazem parte como um todo, e não às responsabilidades de cada um dos membros, ou às mal conformações genéticas do “sistema”..

Eles e elas, as hienas da política e da comunicação apelam aos instintos primários, aos nacionalismos do salve-se quem puder. É um canto da sereia, mas atrativo para as massas, até ao grande desastre…

A mudança é fácil e garantida com um clique? Não, mas é menos incerta e dolorosa que a morte de um cego que avança para a fogueira penitencial onde será imolado, porque dali vem calor e cheiro a carne assada.

WRITTEN BY

Born 1946; retired military, historian

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