A propósito das comemorações do 25 de Abril e das hipocrisias | Carlos Matos Gomes

Uma pequena história sobre locais de reunião. Estamos no Verão de 1973. Na Guiné, um grupo de militares, quase todos capitães, reúne-se regularmente para conspirar. A conspiração tem dois níveis, o da contestação a um decreto sobre carreiras e o da contestação à política colonial da guerra eterna até ao desastre final de uma nova Índia. O comandante militar, brigadeiro Alberto Banazol, soube da contestação e pediu uma reunião com a comissão de contestatários. O brigadeiro Banazol cedia-nos as instalações da biblioteca do Quartel-general para nos reunirmos, para que não andássemos de Anás para Caifás, e nós comprometíamo-nos a informá-lo do essencial tratado nas nossas reuniões. Assim foi. Até que o brigadeiro Banazol convida a comissão e os capitães mais antigos para um beberete informal, em sua casa (onde é hoje a embaixada de Portugal em Bissau), fora das horas de serviço, para nos comunicar com toda a lealdade que, dado o teor das matérias tratadas nas reuniões e dadas também das orientações recebidas superiormente (referiu o ministério da Defesa), a autorização para nos reunirmos na biblioteca do Quartel-general era revogada. Não mais nos poderíamos ali reunir. Avançou o capitão mais antigo: o já falecido e digníssimo capitão Simões Vagos para agradecer a franqueza e a lealdade do oficial general e para lhe dizer, recordo as palavras: “Meu brigadeiro, continuaremos a reunir-nos mesmo que seja debaixo de um cajueiro!”

Hoje, ao ler e ouvir o “discurso do vazio”, típico da propaganda e do marketing de “tantos e tantas”, que dizem o sim e o seu contrário, o mas, eu estou do seu lado, defendo o mesmo, mas… sempre o mas dos rasteirantes, ao ouvir o discurso que os anglo-saxónicos definem pela palavra hoax (“embuste” ou farsa, numa tradução literal), relembro com saudade essa oportunidade histórica (mas sobretudo de enriquecimento pessoal) que tive de participar nesse ato de dignidade, de verdade, de lealdade.

Para dar um fim à história, o brigadeiro Banazol não participou no 25 de Abril, nem arranjou desculpas para não ter participado. Os que participaram trataram-no com toda a dignidade e respeito. Eu continuo a pertencer aos que não arranjam subterfúgios para se desculparem. E lembro aqui o “velho” capitão Simões Vagos, de uma geração mais velha que a minha, mas que esteve connosco, como lembro já agora e porque é Abril, os nomes de outros “capitães” dessa geração, o Faia Correia, o Almeida Coimbra, o Batista da Silva, o Branco, o Simões da Silva, o Mensurado, o Chaves, o Afonso, o Coutinho… hoje apenas nomes, alguns, tantos, já falecidos, que seguiram os seus caminhos e tomaram as suas opções, mas são nomes que correspondem a pessoas — gente — que não arranjaria desculpas para não fazerem o que não queriam fazer, que assumiriam, como assumiram, os seus atos.

Contada a história,

sendo eu pouco “celebrativo”, entendo e apoio as celebrações do 25 de Abril na Assembleia da República, onde nunca participei em nenhuma cerimónia, a não ser a da abertura da Constituinte.

A Assembleia da República é o Local, a Sede, a Torre de Menagem do castelo da soberania popular. Em termos militares, é a posse da Assembleia da Republica que materializa a vitória da soberania popular. Portanto, para mim, aquele é o lugar. E é ali que devem comemorar o regime em que vivemos aqueles que representam a soberania popular. Foi ali que os representantes da soberania aprovaram a Constituição da República. E foi ali que, há uns dias, os nossos representantes aprovaram o Estado de Emergência que definiu regras para limitar uma pandemia.

Se os deputados da nação se reuniram para esse efeito com toda legitimidade e em condições de segurança física (ninguém os quer heróis, nem mártires!), porque carga de água não se podem eles reunir, com os magistrados e os generais e os “capitães” da memória para celebrar o acontecimento que lhes permitiu decidirem em nome do povo e de acordo com normas que eles têm legitimidade delegada para definir?

Carlos de Matos Gomes

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