Querido Fred, Frederico Duarte Carvalho | Tiago Salazar … Querido Tiago Salazar | Frederico Duarte Carvalho

Querido Fred,
Frederico Duarte Carvalho

Se eu morresse agora isto seria o meu cartão de farewell:

Tiago Salazar nasceu em Lisboa, em 1972 (a 21 de fevereiro)
Formou-se em Relações Internacionais e estudou Guionismo e Dramaturgia em Londres
É (era) doutorando no Instituto de Geografia onde prepara(va) uma tese sobre A Volta ao Mundo de Ferreira de Castro
Trabalhou como jornalista desde 1991
Venceu o prémio Jovem Repórter do Centro Nacional de Cultura, em 1995
Foi formador de Escrita e Literatura de Viagens
Idealizou, escreveu e apresentou o programa Endereço Desconhecido, da RTP2
Foi Bolseiro da Fundação Luso Americana em Washington, em 2010
Foi vencedor do prémio Literatura na XVII Gala dos prémios da revista Mais Alentejo, em 2018

Enquanto autor publicou:

Viagens Sentimentais (2007, Oficina do Livro, Leya), Viagens
A Casa do Mundo (2008, Oficina do Livro, Leya), Viagens
As Rotas do Sonho (2010, Oficina do Livro, Leva), Viagens
Endereço Desconhecido (2011, Oficina do Livro, Leya), Viagens
Crónica da Selva (2014, A23), Crónica
Hei-de Amar-te Mais (2013, Oficina do Livro, Leya), Diário
O Baú Contador de Histórias (2014, Nova Delphi), Infantil
Quo Vadis, Salazar? Escritos do Exílio (2015, Escritório), Crónica
A Escada de Istambul, (2016, Oficina do Livro), Romance *
(representante português no Festival du Premier Romains, Chambéry, 2018)
O Moturista Acidental (2017, A23), Crónica
A Orelha Negra (2020, A23), Teatro
A Fala-Barata (2020, A23), Infantil

* traduzido para o hebraico e publicado pela Kinneret

Deixou no prelo o romance histórico (Por Estes Vos Darei um Magriço, Leya, 2020); um volume de amistosas cartas em curso com o seu bom amigo Frederico Duarte de Carvalho (um autor do caraças); a primeira frase de um livro chamado O Pai.

“Pai, perdoou-te, porque não sabias o que fazias”.

*

Deram com ele (comigo) morto no seu quarto da Rua Actriz Virgínia, 32, 5Esq, ao Areeiro, deitado de esguelha num colchão assente no chão sem estrado, oculto numa manta peruana. Tinha um sorriso nos lábios e uma beata de charuto na mesa de cabeceira, ao lado de a Carta ao Pai, de Franz Kafka.

As autoridades fizeram o levantamento do seu espólio.

Cerca de 500 livros de autores respeitáveis (alguns geniais, como Walt Whitman, Dino Buzatti, W.G.Sebald, Joseph Conrad, Rabindranath Tagore e Manuel da Silva Ramos, de quem lia O Tanatoperador) arrumados em caixas de fruta; meia-dúzia de quadros encostados a paredes do corredor, entre eles uma réplica da fotografia emoldurada de Che Guevara de Alberto Korda; uma carta de amor da sua muy amada Maia de Ornelas escrita à mão numa caixa de bolos e um xaile vermelho; diversos objectos de viagens, entre eles uma lança de um chefe Maasai e um oratório budista; fotos de familiares, em particular das suas duas filhas Carolina e Margarida (que muito amou) e a quem deixou a sua fortuna segundo um testamento escrito à mão encontrado num envelope; uma máquina de escrever Remington do seu avô Vítor Garcia; uma mala de viagem com todos os seus escritos de juventude e obra pictórica; um desenho de Arshile Gorky; desenhos de Tiago Taron (um prodigioso artista e amigo); óleos e desenhos do seu irmão Salvador (um promissor artista) e um tríptico de Marta Ubach (uma devota amiga); uma edição rara do Kamasutra traduzida por Richard Burton (o viajante, escritor e orientalista); folhas dispersas com os seguintes apontamentos:

TRABALHO

“Sempre que tiverdes de empreender uma actividade, cumprir um dever, esforçai-vos por fazê-lo com amor, ou então não o façais! Aquilo que fazeis sem amor consome-vos, e não fiqueis surpreendidos se depois ficardes sem energia. Trabalhar (ou amar) sem amor é como introduzir um veneno em vós. Direis que há tarefas que vos desgostam, que vos aborrecem (só de pensar nelas, ficais logo cansados!), mas não conseguis escapar a elas. Então, procurai encontrar pelo menos uma razão para as realizar com amor, e esses trabalhos parecer-vos-ão mais suportáveis. Constatareis que ficais menos fatigados, o amor vencerá a vossa fadiga.”

Omraam Mikhaël Aïvanhov

*

A ARTE DE ESCUTAR

“A forma mais eficaz de mostrar compaixão para com outro é ouvir, mais do que falar. Tens a oportunidade de praticar uma escuta profunda e compassiva. Se conseguires escutar a outra pessoa com compaixão, a tua escuta será como um curativo para a sua ferida. Na prática de escuta compassiva, ouves com apenas um propósito, que é o de dar à outra pessoa uma possibilidade de ser ouvida e de sofrer menos.

Esta prática requer concentração estável e atenção à respiração, para te absteres de interromper ou tentar corrigir o que estás a ouvir. Enquanto a outra pessoa fala, podes ouvir muita amargura, percepções erradas e acusações no seu discurso. Se deixares que estas coisas toquem na tua própria raiva, perderás a capacidade de ouvir profundamente.

Quando tiveres compreendido o seu sofrimento e estiveres pronto para falar, a tua voz conterá compaixão. Podes usar um discurso amoroso, sem julgamento ou culpa. Podes dizer algo como, “Não é minha intenção fazer-te sofrer. Eu não compreendia o teu sofrimento. Peço desculpa. Por favor, ajuda-me ao contar-me as tuas lutas e dificuldades. Preciso de ajuda para te compreender.” Ou poderás dizer. “Sei que sofreste muito estes últimos anos. Não fui capaz de te ajudar a sofrer menos. Em vez disso, piorei a situação. Reagi com fúria e teimosia, e em vez de te ajudar, fiz-te sofrer mais. Peço-te muita desculpa.” Muitos de nós já não conseguem utilizar este tipo de linguagem com a outra pessoa, porque sofremos tanto. Mas quando praticamos conscientemente a escuta profunda e o discurso amoroso, tanta cura e felicidade são possíveis.”

Thich Nhat Hanh – No Mud, No Lotus, The Art of Transforming Suffering

*

Seres de Luz

(tratamento de Julio Verne a Tiago Salazar, 03/10/13)

Depois deste tratamento, do nada aparente, surge um convite para escrever sobre a obra de Verne…

“Será no trabalho que irá ver os resultados. Se a mente não estiver serena nada funcionará. A questão principal é a não reacção. Reagir só está ligado à mente, aos medos, memórias, ao receio do amanhã. A mente reage em defesa disso tudo.

Este é o homem normal, que habita a Terra densa, do que é possível. Nós queremos homens que visitam a Terra do impossível, onde não reagir acontece, onde ser feliz é possível escolher.

Todos funcionam na base das suas necessidades mais básicas, todos reagem à falta das suas realizações. A vida é o existir e o não existir, o bom e o mau, o sim e o não.

O homem evolutivo movimenta-se reagindo descontraidamente a qualquer uma destas energias, porque entende que reagir é vibrar, é criar um campo magnético onde tudo de errado é possível acontecer. As sucessivas reações levam a automatismos impossíveis de controlar. Porquê que o não, o não ter as condições que se deseja, poderá alguma vez alterar o nosso equilíbrio? Nós devemos evoluir, crescer, dentro de uma energia que só pode depender de nós, que não permite a sua alteração em função dos outros, do exterior.

A completa consciência, de que tudo o que a vida nos acontece tem um determinado propósito: o evolutivo. Este é o único propósito dos acontecimentos. A reacção tudo atrapalhará, a compreensão, aceitar, irá mudar a energia para a chegada de uma vida nova. Não é o Universo que nos dá as situações, os outros também não. Elas vêm colmatar uma necessidade nossa, como o fim de experienciar e mudar a nossa energia.

As quedas são as grandes aprendizagens. Reagir é perder toda a possibilidade de reunir condições para algo entender. A compreensão de tudo e a aceitação de que tudo pode acontecer, faz mudar a energia; depois de mudada a energia, novos acontecimentos virão, diferentes. Reagir e nada entender é chafurdar na energia pesada e criar a bola de neve.

Primeiro propósito serenar. Serenar, ficar com energia tranquila, perceber que tudo vem com objetivo evolutivo e esquecer o dia de amanhã, a continuação deste tipo de vida. Em jogo está primeiro a tua energia. Não conseguirás o outro tratar, sem o teu objetivo compreendido e resolvido. Não há objetivo final, há o dia-a-dia para gerir a energia de forma a apaziguar tudo. Não permitir por um único momento a reação a qualquer coisa. Tudo é possível acontecer e tudo terás que provar, que em carinho serás. Esta é a tua prancha de salto para o escritor novo. Esquece por agora, onde, com quem. Não te concentres no final. O final é só o homem perfeitamente tranquilo, a acarinhar tudo à sua volta.

Muitos pensam que escrevem com a mente, com a mente deles. Talvez os regulares, mas eu quero-te com a energia do especial. Não trabalhes o dia-a-dia para ser amanhã, tens que ser hoje o melhor possível. Não te culpes quando reagires, pede desculpa à tua energia e a ela, e tem a certeza absoluta de que na próxima melhor será. Não tenhas opiniões nos relacionamentos. O teu trabalho é de ganhar a tranquilidade total, que os nãos de alguém te irão grandemente ajudar. Vê-a como irmã de Luz mostrando onde erras.

Desejar não é errado, não perceber que não se tem a energia certa, é que é o problema. Mas a energia própria cria-se, não para realizar o nosso desejo, mas para recebermos unicamente o que temos direito, num determinado momento. Faz o teu trabalho, há tantos escritores, energias, que desejam passar tanta sabedoria, conhecimentos. Cria energia para eles descerem através das tuas capacidades. Neste momento falta a energia que permite a descida, longe claro, das reações aos nãos e aos sins.

Tudo o que acontece tem carácter evolutivo, acerto kármico e aprendizagem, tudo levará à nova energia. Não experimentes forçar qualquer situação com o desejo da mente. O que tens que ganhar é o carinho do coração compreensivo. Dizem que quando não percebemos com as perdas de bens e as recusas, outras virão. Não enfrentes a vida reagindo, aproveita toda a queda para começar a reagir diferente, começar a não reagir. A fazer com que a energia de compreensão, seja sempre maior que qualquer desejo.

A vida é enorme, ainda agora começaste, não a queiras utilizar como se fosse acabar. Transforma-te, renasce e acredita que o impossível é já amanhã. Que o possível é para os regulares. Os especiais, Nós queremo-los a fazer o impossível. Tem toda a consciência de que outra vida melhor chegará, só após a total aceitação de que chegou para mudar o homem e a mulher.

Cria a energia solene no teu interior, para aventuras cá de cima te passarmos. Aventuras da Terra do impossível, onde tudo é possível acontecer. O regular escreve com a mente, prepara a energia para escrevermos através dela.”

Nota: sessão conduzida por José Bonança, um médium

*

Qualquer romance digno de si indaga o que é ser humano ou o ser humano.

*

May you climb the inner stairs, wherever you are

um abraço

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

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Querido Tiago Salazar,

Não vou cair nessa (e digo isto com um enorme sorriso). Está muito linda a tua carta, mas, infelizmente, conto estar vivo amanhã. É como no amor: não quero pensar se vai ser para sempre, porque não é assim que se ama. O Amar e o Viver não são eternos, mas amanhã ainda quero amar e estar aqui. Todos os dias, que são os meus, até chegar o momento em que colocam os dígitos a seguir ao travessão antecedido por 1972. Agosto. 27. E, nesse dia, não vou ler o que, eventualmente, escreverem sobre mim. Feliz de quem ama e vive assim, pois dele é a Eternidade na Terra.

Abraço

Até amanhã

Frederico Duarte Carvalho

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Duarte Carvalho

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