MOÇAMBIQUE A URGÊNCIA DE AGIR Paulo Sande

Há alguns meses escrevi e partilhei um texto sobre Moçambique, mais particularmente sobre o norte de Moçambique, a pedir ao governo – e a quem tem poder para isso, neste Mundo de poderes múltiplos em que o mais poderoso, quiçá, é o do dinheiro – que interviesse com urgência para proteger e mitigar o sofrimento dos nossos amigos. Dos nossos irmãos moçambicanos.

Desde então, piorou a situação e nada de intervenção (a cacofonia, para os menos sensíveis à sinestesia, é propositada). Só notícias, mais notícias, sobre crianças decapitadas e outras bonomias.

O horror é o horror é o horror. Claro que à distância e praticado sobre gente miserável que nada tinha e a quem, imagine-se, até esse nada foi tirado, é tudo mais confortável e choramos, com denodo e sinceridade, lágrimas de crocodilo. “Coitados”, e segue a dança.

Conheço bem os argumentos que se opõem a uma ação mais firme por parte de Portugal ou os dos que a consideram impossível ou inútil. Eis alguns deles e a resposta possível.

1. Não temos capacidade militar para intervir, mesmo a pedido do governo de Moçambique, que é um país soberano. R. Ninguém exige uma intervenção militar, mas pede-se pelo menos o que abaixo refiro.

2. Já encetámos muitas diligências, estamos a tentar, Portugal tem-se multiplicado em contactos e iniciativas. R. Tentar, tentar, tentar. Por isso escrevi – e escrevo – ação mais firme. Lembram-se de Timor-leste?

3. O governo de Moçambique não pediu. R. A verdade é que não é verdade. Em setembro de 2020, o Alto Representante da União Europeia recebeu uma carta do Ministério dos Negócios Estrangeiros moçambicano a pedir apoio logístico, formação militar, capacitação técnica, equipamentos médicos, para combater os grupos terroristas a Norte.

4. Há membros do exército moçambicano envolvidos em abusos, violência e ações bárbaras contra a população. R. Vêem como é mesmo urgente?

5. O al-Shabaab é um grupo regional, que não se limita a barbarificar Moçambique. R. Vêem como é mesmo urgente?

6. Há interesses ocultos, riquezas (gás, petróleo, minerais) cobiçadas por grupos de muitas proveniências, incluindo ocidentais. R. Claro que há. Há sempre. Mas isso não é razão para não lutarmos pelo que é justo e pelo que é nosso – e Moçambique, e o seu povo gentil, onde e com quem vivi (como já escrevi) alguns anos (incluindo em Nampula), com quem trabalhei outros tantos, estará sempre no coração dos portugueses (no meu está). E, já agora, vêem como é mesmo urgente?

7. E há grupos armados privados (por ex., o DAG?) a intervir em Cabo-Delgado, responsáveis também por crimes de guerra e de violência exercida sobre as populações, como alega a Amnistia Internacional? R. As riquezas atraem os predadores, como as presas indefesas atraem as hienas. Por isso é mesmo urgente a intervenção de poderes públicos e organizações internacionais cujo único fito não seja locupletarem-se com a riqueza alheia. Vêem?

8. Está em discussão um acordo sobre um quadro de cooperação reforçada europeia para enfrentar o terrorismo na província de Cabo Delgado, informou o MNE português, Santos Silva: “a minha expectativa é que possamos chegar a um quadro de cooperação reforçada com Moçambique (…)” para “apoiar o norte de Moçambique na sua luta contra o terrorismo e insurgência, em cooperação e em coordenação com as autoridades regionais, os países da região e a sua organização multilateral”. R. Excelente. E a declaração é de quando? 25 de janeiro. Há quase dois meses. De excelente a nota baixa para medíocre. É difícil? É. Se fosse fácil também eu seria ministro.

9. Já estamos a intervir, está toda a gente a intervir, fala-se em comandos franceses no terreno, os americanos estão a treinar fuzileiros moçambicanos, a União Europeia prepara um acordo… R. Digam isso às crianças decapitadas, aos homens torturados e chacinados, às mulheres violadas antes de serem por sua vez “terminadas”.

10. Não temos (Portugal) nem recursos nem vontade de pôr botas em terra e voltar à luta num território que os velhos e bravos combatentes do exército português tão bem conhecem. R. Ninguém pede tanto, embora chegar a tanto, por exemplo no contexto da tal cooperação reforçada europeia que tarda, fosse provavelmente muito mais eficaz. E afinal, a União Europeia tem seis operações militares em curso no âmbito da política comum de segurança e defesa (ver quadro).

11. Portugal pouco pode fazer, é um país pequeno e sem recursos. Dependemos dos outros e os outros são difíceis de convencer. Não temos capacidade para mais. R. Presidimos ao Conselho da União Europeia. O secretário-geral da ONU é português. Temos uma diplomacia de excelência, reconhecida intra-muros e fora de portas. Convencemos, durante longos anos quase sós, o Mundo a aceitar a independência de Timor-leste. Somos leais e somos portugueses. Não temos o quê?

Adulterando a frase célebre de Bernard Shaw, alguns vêem as coisas como são e perguntam “porquê?” eu sonho coisas que foram e podem voltar a ser (a paz em Moçambique, a felicidade das crianças e a tranquilidade dos homens e das mulheres macuas) e grito “Por que não?”!

Vêem como é urgente?

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Sande | 18 de Março de 2021

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.