IMIGRAÇÃO – A BUSCA DO PARAÍSO NA RAIZ DO INFERNO, in Mural de João Gomes, Facebook

Há temas que atravessam o debate público com a facilidade de uma palavra simples e a complexidade de um mundo inteiro. “Imigração” é um deles. E talvez o erro mais comum seja tratá-la como um fenómeno isolado, desligado da longa história de decisões políticas, económicas e militares que moldaram o mapa das fragilidades contemporâneas.

Quando hoje se fala dos fluxos migratórios que atravessam continentes em direção à Europa, raramente se recua o suficiente para olhar a arquitetura de fundo. O discurso tende a oscilar entre dois extremos: o moralismo absoluto da fronteira aberta ou o encerramento defensivo do território. Mas entre essas duas posições há uma história mais longa, mais desconfortável e menos linear.

As intervenções no Iraque, a desestruturação do Estado líbio, os conflitos prolongados na Síria e noutros teatros do Médio Oriente e do Norte de África são frequentemente analisados como episódios separados, como se não pertencessem a uma mesma continuidade histórica. No entanto, para muitos observadores, estes processos contribuíram para a fragilização de Estados inteiros, criando vazios de poder, guerras prolongadas e economias colapsadas. E é nesse tipo de terreno – instável, inseguro, sem horizonte previsível – que a migração deixa de ser escolha e passa a ser sobrevivência.

Não se trata de uma narrativa simplista de causa e efeito, como se tudo pudesse ser reduzido a decisões externas ou a uma única responsabilidade histórica. As dinâmicas internas destes países são complexas, muitas vezes atravessadas por tensões próprias, instituições frágeis e conflitos enraizados. Mas também é difícil ignorar que o sistema internacional não é neutro e que as decisões tomadas pelas grandes potências têm consequências prolongadas, mesmo quando já não ocupam o centro do debate mediático.

O resultado é um mundo em que a mobilidade humana se torna assimétrica: alguns viajam por oportunidade, outros por necessidade extrema. E, nesse movimento, os antigos percursos da história acabam por se inverter. As regiões que em tempos enviaram populações para a Europa, sobretudo no pós-Segunda Guerra Mundial, tornam-se agora destino de populações que procuram precisamente aquilo que falta nos seus países de origem: estabilidade, segurança e perspetiva de futuro.

A Europa, nesse contexto, não é apenas um espaço geográfico; é também uma construção histórica que concentra riqueza, instituições e previsibilidade – em parte fruto do seu próprio percurso, em parte fruto da relação assimétrica que manteve com outras regiões do mundo ao longo de séculos. E é essa mesma Europa que hoje se vê confrontada com a chegada de pessoas que procuram, muitas vezes, escapar a contextos que resultam de um longo encadeamento histórico em que o Ocidente também participou.

Mas há aqui um segundo plano que não deve ser ignorado. O discurso público sobre imigração tende a esquecer a dimensão humana concreta do fenómeno. Por detrás de cada fluxo estatístico há histórias individuais de perda, deslocação e reconstrução. E é aqui que qualquer resposta política se mede não apenas pela sua eficácia, mas pela sua dignidade.

É por isso que apelos como os recentemente reiterados em contextos institucionais religiosos – de defesa de vias legais, de integração e de respeito pela dignidade humana – não são irrelevantes, mesmo quando atravessam tradições culturais e religiosas distintas. Eles recordam uma dimensão frequentemente esquecida: a de que a política migratória não é apenas gestão de fronteiras, mas também gestão de vidas.

O desafio contemporâneo não é, portanto, escolher entre abertura total ou fechamento absoluto. É reconhecer que a mobilidade humana atual resulta de uma combinação de fatores históricos, económicos e políticos que não desaparecerão por decreto. E que a resposta a esse movimento não pode ser apenas reativa.

Talvez o verdadeiro dilema esteja aqui: como construir políticas que reconheçam tanto a responsabilidade histórica quanto a limitação presente, sem cair nem na negação do problema nem na negação da humanidade de quem o vive.

A imigração não é apenas a busca de pobres por um “paraíso imaginado”. É, demasiadas vezes, a tentativa de escapar à raiz de um inferno que não foi escolhido – mas que também não surgiu do nada e foi provocado – no passado – pelas nações que agora limitam essa imigração.

João Gomes

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