RELATÓRIO DA CIA MINA PLANOS DE TRUMP DE BLOQUEIO AO IRÃO, in DN

Relatório da CIA mina planos de bloqueio aos portos iranianos

Documento dos serviços de informações dos EUA aponta capacidade de resistência ao bloqueio de, no mínimo, 90 a 120 dias sem causar graves problemas económicos ao Irão.

O presidente dos Estados Unidos tem repetido a ideia de que o tempo joga a seu favor e de dispor de todas as cartas. A abrupta suspensão do ‘Projeto Liberdade’ para a passagem dos navios bloqueados no Golfo Pérsico, horas depois de ter sido anunciado pelo próprio, dá indicações contrárias. A revelação de um relatório da agência de segurança e de informações CIA de que o regime iraniano pode resistir ao choque do bloqueio aos seus portos por mais de três meses são mais más notícias para Donald Trump, tendo em conta a perspetiva da continuidade da alta de preços da energia e o calendário eleitoral doméstico. O documento também demonstra que o Irão mantém intactas as suas capacidades letais.

A notícia, do Washington Post, levanta mais dúvidas sobre como podem os Estados Unidos terminarem os “confrontos” – como Trump descreveu a guerra – com o Irão de uma maneira satisfatória. Uma análise realizada pelos diferentes serviços de informações norte-americanos para a CIA e entregue à administração Trump conclui que o Irão tem capacidade para se manter à tona sem graves problemas económicos pelo menos durante três a quatro meses, apesar do bloqueio naval dos Estados Unidos aos seus portos. Teerão terá tomado medidas para impedir que os poços de petróleo se mantenham funcionais, ao reduzir os fluxos de extração, por um lado, e ao armazenar parte da produção em petroleiros, por outro.

A proposta norte-americana para pôr fim ao conflito terá só uma página, mas os dirigentes iranianos continuam a analisá-la.

EUA e Irão contrariam notícias de acordo com críticas e ameaças

Uma das fontes disse ao Post que é de esperar que o Irão canalize algum petróleo através de camiões e de comboios para a Ásia central – o seu principal cliente é a China. “Não é de maneira nenhuma tão grave como alguns têm afirmado,” disse a fonte sobre a situação económica do Irão. A Casa Branca disse que Teerão está a perder 500 milhões de dólares por dia.

O documento também se debruça sobre as capacidades militares do Irão e, também neste ponto, não há motivos para otimismo do lado de Washington. Na véspera, Donald Trump disse: “Os seus mísseis estão na sua maioria dizimados, provavelmente têm 18, 19%, mas não muitos em comparação com o que tinham.” Mas, na quinta-feira, soube-se que o relatório da CIA apontava para o oposto: o Irão mantém cerca de 75 % dos lançadores móveis de mísseis e cerca de 70% dos stocks de mísseis antes da guerra ter iniciado no último dia de fevereiro. O Irão tinha cerca de 2500 mísseis balísticos antes do início da guerra. Além disso, uma das quatro fontes consultadas pelo jornal norte-americano disse que o calendário para a teocracia xiita voltar a produzir mísseis balísticos em quantidades substanciais encurtou-se, havendo ainda evidências de que o complexo militar-industrial iraniano conseguiu recuperar e reabrir a maioria das instalações subterrâneas, reparar alguns mísseis danificados e inclusive montar novos mísseis.

Na quarta-feira, o Washington Post havia revelado que os danos causados pelos mísseis e drones iranianos às bases militares dos EUA na região foram muito mais extensos do que até agora a administração Trump admitiu. Um silêncio alimentado em parte pelas empresas fornecedoras de imagens de satélite que, a pedido do Pentágono, deixaram de prestar o serviço no que toca a imagens da região. Mas o Irão continuou a fazê-lo e o jornal confirmou que os ataques aéreos iranianos danificaram ou destruíram no mínimo 228 estruturas ou equipamentos em bases militares dos EUA no Médio Oriente.

“A liderança tornou-se mais radical, determinada e cada vez mais confiante de que pode resistir à vontade política dos EUA e sustentar a repressão interna para conter qualquer resistência” no interior do Irão, comentou uma das fontes ao Post.

À análise reunida pela CIA junta-se a suspensão da iniciativa ‘Projeto Liberdade’ para retirar os 1500 navios e mais de 20 mil marítimos do Golfo Pérsico. Segundo a NBC News, tal deveu-se à liderança saudita que, apanhada de surpresa, não deu autorização para os EUA usarem as bases aéreas. Na terça-feira, o chefe do Estado-Maior conjunto dos EUA Dan Caine detalhava em conferência de imprensa que parte essencial do ‘Projeto Liberdade’ era ter “mais de 100 caças, aeronaves de ataque e outras aeronaves tripuladas e não tripuladas”, no ar “24 horas por dia fornecendo vigilância defensiva”. Segundo o Wall Street Journal, a proibição saudita – que se estendeu ao Koweit – foi entretanto levantada.

Do lado de Teerão, os sinais transmitidos são de que não há qualquer urgência no processo negocial. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Esmaeil Baghaei disse na quinta-feira que as últimas propostas norte-americanas para pôr fim formal às hostilidades estão ainda em exame. E, assim que a avaliação for concluída, as conclusões serão transmitidas ao mediador paquistanês, acrescentou. Dois responsáveis norte-americanos e duas outras fontes, citadas pelo Axios, referiram “um protocolo de acordo de uma página destinado a pôr fim à guerra e a estabelecer um quadro para negociações nucleares mais detalhadas”.

Em mínimos de popularidade históricos e com as eleições intercalares de novembro a aproximar-se, será Donald Trump quem, em comparação com os dirigentes iranianos, estará mais pressionado a encontrar uma saída. “O que começou como uma guerra supostamente destinada a derrubar o regime e desmantelar as suas capacidades nucleares e de mísseis balísticos pode, em vez disso, deixar o regime do Irão mais forte do que antes – reforçado pelo alívio das sanções, ainda mantendo capacidades significativas de mísseis, continuando a apoiar os seus representantes na região, e quase certamente preservando a enriquecimento de urânio no seu próprio território”, comentou no X Danny Citrinowicz, investigador no Instituto de Estudos de Segurança Nacional, em Telavive.

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