IRÃO ANTECIPA A JOGADA GEOPOLÍTICA E GANHA ALIADOS, por João Gomes, in Facebook

Durante anos, a narrativa dominante no Ocidente apresentou o Irão como um ator cada vez mais isolado no Médio Oriente, cercado por adversários regionais, sujeito a sanções internacionais e confrontado com uma pressão diplomática permanente liderada pelos Estados Unidos. Ora esta posição entre Teerão e Mascate do compromisso com a navegação segura e livre no Estreito de Ormuz diz-nos que a realidade geopolítica da região está longe de ser tão linear. Este acordo alcançado entre o ministro Araghchi, e o seu homólogo omanita, Badr al-Busaidi, pode parecer, à primeira vista, uma simples declaração de princípios. Mas, analisado com maior atenção, “fala-nos” de uma manobra diplomática cuidadosamente calculada por Teerão.

O Estreito de Ormuz continua a ser um dos pontos mais sensíveis do planeta. Por ali passa uma parcela significativa do comércio energético mundial. Sempre que a tensão aumenta entre o Irão e os Estados Unidos, a possibilidade de restrições à navegação naquela rota surge imediatamente como uma das principais preocupações dos mercados internacionais. 

É precisamente aqui que surge a importância da iniciativa iraniana pois, ao reafirmar, juntamente com Omã, o respeito pelas normas internacionais relativas à livre circulação marítima, Teerão antecipa-se a uma das exigências nas negociações com Washington. Em vez de esperar que a liberdade de navegação seja apresentada como uma concessão a arrancar ao Irão numa futura mesa de negociações, o regime iraniano toma a iniciativa e enquadra a questão como um compromisso regional assumido voluntariamente.

A consequência política acho que é relevante. Se a liberdade de navegação já se encontra reafirmada num entendimento entre os dois países que controlam as margens do estreito, os Estados Unidos perdem parte da capacidade de apresentar essa matéria como um objetivo diplomático exclusivo das suas negociações com Teerão. O tema deixa de ser apenas uma reivindicação ocidental para passar a integrar um compromisso regional envolvendo diretamente os atores mais afetados pela estabilidade daquela rota marítima.

Mas o ganho iraniano não se limita a essa dimensão. Ao envolver Omã, Teerão reforça a sua legitimidade diplomática numa região onde, durante muito tempo, procurou combater a imagem de isolamento. Mascate desempenha historicamente um papel de ponte entre diferentes blocos regionais e internacionais. Ao associar-se a Omã numa matéria tão sensível, o Irão demonstra que continua a possuir interlocutores credíveis e capacidade de construir consensos para além dos seus aliados tradicionais. Esta estratégia permite igualmente ao regime iraniano apresentar-se como garante da estabilidade regional em vez de mero fator de risco. É uma mudança politicamente significativa. Em vez de ser visto apenas como o país que pode ameaçar o Estreito de Ormuz, o Irão procura agora ser reconhecido como um dos países que contribuem para a sua segurança.

Isto não deverá significar que o Irão abdica de todos os instrumentos de pressão que possui. O que se observa é uma alteração do enquadramento político: o Irão prefere, neste momento, colher dividendos diplomáticos da estabilidade em vez de benefícios estratégicos da confrontação. É por isso que este entendimento com Omã deve ser visto como mais do que uma simples declaração sobre navegação marítima. Trata-se de uma peça inserida numa estratégia mais ampla de reposicionamento regional.

Numa altura em que muitos observadores davam como adquirido o enfraquecimento da influência iraniana, Teerão demonstra capacidade para ocupar o terreno diplomático antes dos seus adversários, molda a agenda das negociações futuras e recupera parte da iniciativa política que parecia estar perdida.

Esta estratégia produzirá resultados duradouros? Ainda é cedo para afirmar. Mas uma conclusão já parece evidente: longe de se limitar a reagir aos acontecimentos, o Irão procura voltar a ser um dos protagonistas da arquitetura política do Médio Oriente. E, ao fazê-lo, mostra que a influência regional não se mede apenas pela força militar ou económica, mas também pela capacidade de antecipar movimentos, criar consensos e redefinir os termos do debate internacional.

João Gomes

Bom dia!

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