Querido Tiago | Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas | Frederico Duarte Carvalho

Querido Tiago,

Hoje é dia 23 de Abril, uma quinta-feira – isto para quem ainda faz sentido saber em que dia da semana estamos. Se a revolução de 25 de Abril tivesse de acontecer nos dias de hoje, então era hoje, a 23 de Abril, que ela deveria ter lugar. Seria hoje que os tanques viriam para a rua, tomariam de assalto os pontos nevrálgicos de comunicações e emitiram as suas recomendações para que a população permanecesse fechada em casa. Sem sair à rua:

“Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma”.

Essa parte do confinamento, hoje, estaria assegurada. O comunicado prosseguiria com o apelo à unidade entre os militares e que “a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal” ou “quaisquer confrontos com as Forças Armadas”, porque, “além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo”. Nisso, sem dúvida, também estamos muito unidos e empenhados. Tudo pela Nação, nada contra a Nação! De qualquer modo, “não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária”.

Aqui, como bem sabemos, os médicos, enfermeiras e todo o pessoal médico andam já há muito a fazer um esforço extraordinário, sobre-humano, a tentar gerir os cuidados médicos possíveis que, em grande parte, resultam da mera gestão económica e política levada a cabo por pessoas que, muitas vezes, desconhecem a realidade da vida dentro de um hospital. Hoje, como disse, é que deveria ser a revolução. Porque hoje é quinta-feira. O 25 de Abril, em 1974, foi bem sucedido do ponto de vista militar porque foi a uma quinta-feira. É verdade. Este detalhe, que muita gente poderá desconhecer, não é o resultado de uma especulação ou mera opinião sustentada. Não.

É um facto militar que me foi, aliás, relatado e explicado directamente pela pessoa que planeou toda a operação, o próprio Otelo Saraiva de Carvalho. Lembro-me perfeitamente de estar a falar com ele ao telefone, a descer a Avenida Fontes Pereira de Melo, quando me explicou que os golpes militares, para terem sucesso, teriam de ocorrer na madrugada de uma terça-feira para quarta-feira ou de quarta-feira para quinta-feira. E porquê? Para haver tropa! Segundas-feiras e sextas-feiras são dias em que muitos soldados ou ainda estão a regressar do fim-de-semana ou a sair em fim-de-semana. Sábados e domingos, então, nem pensar. Estão os quartéis praticamente vazios. E Otelo ainda acrescentou como é que o seu génio militar fora capaz de ter essa consciência estratégica: o golpe falhado das Caldas da Rainha, a “intentona das Caldas”, a 16 de Março de 1974, falhara porque fora precisamente de uma sexta-feira para sábado. Aliás, Otelo estava fora de Lisboa, a plantar batatas, quando teve lugar a intentona das Caldas. E foi isso mesmo que disse quando, depois, durante o inquérito levado a cabo pelos elementos fiéis ao regime, justificou a sua inocência e desprendimento em relação aos acontecimentos.

Foi, portanto, baseado nesta experiência, que Otelo preparou o golpe militar. A escolha da data tinha ainda de obedecer a uma segunda condicionante: era preciso que acontecesse antes do dia 1 de Maio para se evitar uma conotação com a esquerda radical que preparava acções bombistas na capital para a data do Dia do Trabalhador. E, ao olhar para o calendário de 1974, podemos então constatar que, de acordo com o critério das acções militares definido por Otelo, o dia 25 de Abril era o último dia possível para que a revolução tivesse hipóteses de ter sucesso. Dia 26 seria uma sexta-feira, 27 e 28 eram sábado e domingo e fazer isso entre segunda-feira e terça-feira, de 29 para 30, era arriscado e demasiado próximo do dia 1. Por isso, Tiago, é que eu digo que o golpe tinha de ser hoje. Amanhã é sexta. Os dias 25 e 26 serão fim-de-semana e não o vais querer fazer entre segunda-feira e terça-feira, dias 27 e 28. Poderias tentar os dias 29 e 30, mas, desde 1974 que é impossível garantir tropa nesses dias porque são agora véspera de feriado!

Infelizmente, querido amigo e companheiro e destinatário destas missivas, não podemos fazer a revolução este ano! Ou era hoje, ou então, só para o ano! Por mim, podem fazer as festas privadas, com ou sem máscaras, na Assembleia da República. Têm a Liberdade para isso e é preciso que a exerçam. No fundo, a Liberdade é algo que não sentimos que temos até que nos a tiram. É como o frio. Não existe o frio. O que existe é a ausência de calor. E também não existe a noite, há é uma ausência de luz solar. E a ditadura, também é algo que não me preocupa, porque não existe ditadura. O que existe é a ausência de Liberdade. Hoje, é o dia do livro. Isto que eu aqui escrevi, já o fui publicando em alguns livros que tenho escrito. Num deles, explico como, com este planeamento militar em relação ao 25 de Abril possivelmente a circular junto de assessores militares ligados aos meios diplomáticos, o embaixador dos EUA anunciou, muito convenientemente, numa pequena notícia publicada a 7 de Abril no “Diário de Notícias”, que iria estar ausente de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Abril. Não sei se o embaixador sabia que estava a ser afastado a conselho de um qualquer adido militar mais conhecedor do que se estaria a preparar, mas evitou ficar associado ao golpe. Era importante parecer que os norte-americanos não estavam a apoiar o derrube de um governo de um país membro da NATO.

Sim porque, Portugal, apesar da ausência de Liberdade, era membro dessa “benemérita” associação militar desde a sua fundação, a 4 de Abril de 1949. E, há ainda aquela anedota: Sabes por que nunca houve um golpe militar nos EUA? Porque lá não existe uma embaixada dos EUA para o planear! Nos EUA, eles são é bons a matar presidentes em acções militares ao ar livre, à frente de toda a gente, como nos truques de ilusionismo. Aqui, também tivemos um bom “filme” a 25 de Abril de 1974. O povo, que deveria ter ficado em casa, veio para rua apoiar as tropas. Porque os patrões disseram que nesse dia não se trabalhava. Hoje, ninguém quer sair para a rua gritar. E ajuntamentos com mais de cinco amigos estão proibidos. Viva a Liberdade, Tiago! Que nunca nos falte!

Abraço

Até amanhã

Frederico Duarte Carvalho

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