Guerra | Informação | Propaganda | por António Conceição

Na guerra, evidentemente, a informação tem de ser controlada e substituída pela propaganda.

Uma das vertentes essenciais de qualquer guerra é o controle da sua dimensão psicológica (Alberto João Jardim que o diga, porque esteve não sei quantos anos no poder, eleito sempre democraticamente, com o que aprendeu na tropa).

A eficácia da guerra psicológica pressupõe o controle da informação.

Os mecanismos são básicos e há muito conhecidos:

a) multiplicar as representações do inimigo, como animal, para o desumanizar (o lobo, se o inimigo tiver um exército ou um porco, se inimigo for um povo desarmado, como sucedeu com as representações dos judeus no regime nacional socialista);

b) publicar muitas fotografias de crianças a sofrer por causa das bombas do inimigo;

c) publicar outras tantas fotografias dos actos heróicos do amigo, da sua generosidade no tratamento do adversário capturado e do arrependimento deste depois de descobrir a verdade, pedindo muito perdão e apelando aos seus para descobrirem, como ele, que a sua guerra é injusta. E, claro está, proclamar todos os dias em grandes manchetes que os nossos ganham as batalhas todas e o inimigo está de rastos, prestes a render-se incondicionalmente.

Tudo isto é assim, pelo menos, desde que a populaça começou a ter opinião nos assuntos da guerra, isto é, desde que começou a ler jornais. Foi assim desde a guerra da Crimeia, no século XIX, até à ultima invasão do Afeganistão, passando pelo Vietname e pela guerra colonial portuguesa.

E é assim dos dois lado. Cada um dos contendores só quer a paz e a felicidade do mundo, tendo, desgraçadamente, de eliminar o monstro sem alma que está do outro lado, para o conseguir.

Neste contexto, quem quiser ter alguma remota noção da realidade tem de presumir que toda a informação a que tem acesso é desinformação e que a realidade só aparece nas entrelinhas.

Dois exemplos, um do uso da guerra psicológica para demonizar o inimigo, outro da verdade parcial que só se pode descobrir nas entrelinhas:

1- qual é o conceito jurídico de “oligarca russo”? Não existe. O conceito não se destina a produzir efeitos jurídicos. Destina-se a produzir efeitos psicológicos. Eu posso praticar qualquer acto ilícito contra qualquer pessoa, desde que diga que o faço contra um “oligarca russo”. Tenho a cobertura e o apoio de toda a gente, até daqui a 4 ou 5 anos o Tribunal de Justiça ou o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos virem declarar que o meu acto foi ilegal.

2 – todos os dias, desde o início da guerra, a UE anuncia novas sanções à Rússia que a vão deixar de rastos e fazer colapsar a respectiva economia. Ora, se assim é, por que razão têm de ser anunciadas todos os dias novas sanções? As anteriores já não acabaram de vez com Putin?

Falo do ponto de vista ocidental, naturalmente, o meu. Do lado russo, as coisas são exactamente iguais, ou melhor, simétricas. Com uma diferença, talvez: do lado de lá, eu era capaz de não poder escrever este post.

Retirado do Facebook | Mural de  António Conceição

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