A Informação e a Guerra na Ucrânia | por Vasco Lourenço, Presidente da Associação 25 de Abril

«A guerra na Ucrânia, resultado da agressão da Rússia a esse país – não entro aqui em considerações, sobre as razões e justificações que levaram a um conflito que, como todos os demais deve ser evitado, mas que é mais frequente do que às vezes se pretende fazer crer – tem dado lugar a inevitáveis reacções das várias partes envolvidas.

Em Portugal, os meios de comunicação social, nomeadamente os audiovisuais TV e Rádio, entraram numa calorosa e animada discussão sobre a guerra. 

Mais do que informação, lançam para a via pública catadupas de “informação”, mais próprias de acção psicológica, seja sobre o inimigo, seja sobre as nossas tropas, do que aquilo que os cidadãos esperariam de órgãos de comunicação social. Assim se transformando, também eles, em autênticos combatentes.

Como temos visto, porque a “outra parte” se tem encarregado de o desmascarar, de um e outro lugar, isto é, de uma e outra parte, o recurso à criação e utilização de notícias falsas (hoje conhecidas por fake news) atingiu tal intensidade que torna difícil a um cidadão ficar devidamente elucidado. O que, pelo que se tem visto, pouco interessa à maioria das pessoas. Lamentavelmente, nesta como em muitas  outras situações, cada um acredita no que quer acreditar. E quando a “informação ” recebida vai ao encontro disso …

Esta guerra veio encontrar o panorama da “informação” no nosso país numa situação deveras “interessante”: os ditos comentadores – que substituíram os antigos paineleiros, sem ganhos visíveis – autênticas enciclopédias, pois de tudo percebem e são especialistas, muitas vezes não passando de verdadeiros ignorantes encartados – peroram diariamente nos audiovisuais, tentando formatar a opinião de quem ainda tem pachorra para os ouvir.

E, de repente, os que falavam de vírus e pandemia, como se fossem eminentes cientistas, passaram a falar de guerra, como se fossem extraordinariamente conhecedores dessa área, quando a maioria dos mesmos sabe o que terá lido – se é que leu – pois nunca terá ouvido um tiro…

Convidados para esses meios audiovisuais, alguns militares, com experiência e conhecimento do fenómeno guerra, aceitaram o convite para participar, enquanto analistas – e não comentadores – e apareceram ao público, imbuídos do tradicional sentimento de servir, procurando dar as suas opiniões técnicas sobre o assunto. Não se aperceberam, de início, da enorme armadilha em que os enredaram: ao juntá-los com comentadores, que aparecem a defender “as suas damas”, criaram-lhes condições para serem insultados, porque não defendem o “nosso lado “, pelo contrário, defendem o lado do inimigo.

Quero afirmar publicamente que, enquanto militar, me tenho sentido orgulhoso, pela maneira como os meus camaradas se têm comportado. Considero que têm prestigiado as Forças Armadas portuguesas, na missão de esclarecimento público que vêm realizando!

É nas situações extremas, como é o caso de uma guerra, e esta não foge à regra, que se revelam os mais genuínos sentimentos, para o bem e para o mal.

Lamentavelmente, assistimos ao expressar de mesquinhos sentimentos escondidos, de que realço a onda de defesa de limitação do direito de expressão, do direito de imprensa, por parte de quem não pensa como eles, os “donos da Verdade”; e a onda de defesa de que”os militares não podem entrar no campo da análise política, pois essa é coutada dos “políticos”, por mais asneiras que tenham feito na sua actividade, enquanto tal.

Como para grandes males, grandes remédios, aqui deixo uma sugestão aos meus camaradas que sejam convidados para procederem a análises em órgãos de comunicação social (sem quaisquer proveitos, pois o fazem em regime pró bono. A propósito, não sei se o mesmo se passa com os comentadores): recusem esses convites, nomeadamente se os pretenderem misturar com comentadores.

Vieram estas considerações pessoais, a propósito de um texto que o Coronel Carlos Matos Gomes, com a qualidade a que este Capitão de Abril já nos habituou, escreveu e que aqui vos deixamos. 

Com os votos de que o macarthismo em marcha não vingue, com a nossa condenação a esta guerra de agressão e aos seus diversos responsáveis, com os votos de que a guerra termine e aconteça a Paz, 

Cordiais saudações 

Vasco Lourenço

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«Os militares e a análise da guerra no espaço público.» CMG.

«Esta guerra na Ucrânia é como todas a outras. É um facto político recorrente. Pode ser analisado recorrendo a métodos racionais ou emocionais. Para os militares esta guerra é analisada recorrendo à racionalidade. Qual é o objetivo da guerra: «Destruir o inimigo ou retirar-lhe a vontade de combater» (Clausewitz — A Guerra).

Quando uma parte destrói o inimigo a guerra termina com uma rendição; quando uma parte entende que é mais ruinoso jogar no tudo ou nada, que perdeu o ânimo para combater a guerra termina por negociação.

Os militares reconhecem a ineficácia de insultar os contendores, exceto para os implicados no fragor do combate e da batalha, como escape das ansiedades. Os militares também sabem que a análise de uma guerra não depende da bondade e ou maldade dos propósitos dos contendores, mas do seu potencial, o que inclui equipamento, treino, comando e combatividade. Os militares sabem que resultado das guerras entre Atenas e Esparta, das invasões romanas, napoleónicas e nazis, a batalha de Trafalgar, ou de Lepanto, a ocupação das Américas e de África não foi determinado pela moral, nem pelos princípios da guerra justa, já de si um conceito bastante difuso, que hoje surge associado a um outro que é o do Direito Internacional, aplicado segundo as conveniências e os preconceitos, de forma amoral, porque hipócrita.

A análise que os militares portugueses têm em geral feito nos órgãos de comunicação vem sendo contestada pelos maximalistas e pelos belicistas por colocarem em causa o facto de eles utilizarem os instrumentos de estudo da guerra e não os slogans e as palavras de ordem estabelecidas pelos que estão por detrás deste conflito, disfarçados de defensores de princípios morais e éticos!

Os militares da craveira intelectual da maioria dos que mais têm aparecido nos órgãos de comunicação social e com a sua experiência nos conflitos europeus — Kosovo, Bósnia, Sérvia, Iraque, Afeganistão — em organizações militares e políticas internacionais, sabem que a moral — O Bem e o Mal; e a ética, o que deve ser feito — nunca são elementos levados em consideração na decisão de desencadear uma guerra, nem no planeamento e na condução de operações.

Sabem, isso sim, que os argumentos morais e éticos constrangem as pessoas, que são munições de ação psicológica para ganhar as opiniões públicas, fortalecer as forças amigas e desmoralizar as inimigas.

Os militares sabem que os argumentos morais podem ser e são quase sempre utilizados retoricamente como propaganda para mascarar motivos menos nobres e os que detêm maior poder militar, económico e comunicacional utilizam-nos sem considerações de ordem moral.

A maioria dos militares que vêm analisando esta guerra no espaço público têm colocado os argumentos de ordem moral no campo das ações de propaganda e das ações de guerra psicológica, utilizadas por ambos os beligerantes.

Este desmascaramento dos «Bons» choca com a narrativa pré-estabelecida pelos manipuladores oficiais, incluindo jornalistas.

Daí a acusar os militares de “putinistas”, isto é, de vendidos ao inimigo, aos «Maus», foi um passo. A falsa moral é como a falsa virtude: tenta acusar os outros antes de ser desmascarada.

Os militares convidados pelas TVs e rádios são dos que leram Tucídides e a sua Guerra do Peloponeso (uma excelente tradução do coronel David Martelo). Conhecem o episódio em que os atenienses navegaram até à ilha de Melos para sufocarem uma revolta (416 ac) e quando os Mélios lhes disseram que estavam a lutar pela liberdade (um argumento moral), o general de Atenas respondeu que podiam combater e morrer ou render-se, adiantando que: « os fortes fazem o que têm poder para fazer e os fracos aceitam o que têm de aceitar.» (um argumento realista).

A análise militar não parte da interrogação se sou dos bons ou dos maus. O bom e o mau depende do lado em que se encontram os contendores, dos seus interesses e objetivos.

Os militares partem das perguntas: Sou suficientemente forte para lutar (de que meios disponho)? Que hipóteses tenho de vencer (que meios dispõe o meu inimigo, qual a relação de forças? Que perdas me são aceitáveis?

O que os militares têm feito é equacionar o mais realisticamente possível com as informações disponíveis as opções dos contendores.

Do outro lado, do lado dos seus detratores, encontram-se os pontas de lança de bancada, cada um com as suas razões para defender a sua dama, mas de facto sem nada ajudarem as verdadeiras vítimas da agressão, cujo sofrimento é utilizado em nome da moral, mas sem moral, e sem nada contribuir para deter os agressores, antes pelo contrário, criando condições para estes justificarem a escalada de violência.

Carlos Matos Gomes

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