GUERRA (14) | MR. PUTIN, I PRESUME? | “For God’s Sake, This Man Cannot Remain in Power” (Joe Biden) por Paulo Sande

Não é uma frase habitual no léxico das relações entre Estados, nos nossos dias feitos de conciliação e cedências. É um passo em frente do Presidente Biden. É linguagem de guerra fria. É a pedra que, lançada, não pode mais ser retirada.

E afinal, para entender a guerra na Ucrânia, é fundamental (tentar) entender o “man” que não pode continuar no poder. É preciso escutar o próprio Vladimir Putin.

• No último dia de 1999, Boris Ieltsin apresentou de surpresa a demissão de Presidente da Federação Russa. No discurso derradeiro pediu perdão por “não terem conseguido “saltar do cinzento, estagnado e totalitário passado, para um futuro brilhante e civilizado”. Com baixa popularidade, numa Rússia tomada por oligarcas cuja fonte de riqueza assentava na extração da riqueza do Estado (ie, dos russos) e não em negócios legítimos, Ieltsin desistiu. E deu lugar a uma nova geração de líderes “capazes de fazer mais e melhor”. No seu lugar, ficou o primeiro-ministro desde agosto desse ano, antigo oficial do KGB, Vladimir Vladimirovich Putin.

• Ao velho líder que sonhara a messiânica missão de tirar o povo russo da servidão comunista, sucedeu um jovem líder traumatizado pela experiência como espião russo em Dresden, única cidade da RDA que não recebia a televisão do ocidente, para quem a queda do Muro foi “a maior catástrofe geopolítica do século XX”, como viria a confessar.

• Presidente interino em 31 de dezembro 1999, confirmado em eleições três meses depois, Putin iniciou o caminho para o poder absoluto, que pode chegar a 36 anos como o líder de facto do maior país do mundo (já vai em 22 anos). Mais tempo do que a maioria dos autocratas e ditadores dos tempos modernos e certamente muito mais do que qualquer líder democrático. Mas se isto não chegar para convencer os nossos “putinistas” de trazer por casa, que continuam a relativizar a guerra e a tentar arranjar explicações (e, às vezes, justificações) para o injustificável, eis o meu segundo ponto: ouvir, ler, escutar o próprio.

• Putin, à cabeça de um sistema extrativista de que passou a ser o fiel garante, começou por fazer o que fazem os ambiciosos: fez de conta. Fez de conta que era democrático (não muito bem sucedido, diga-se na verdade), que era liberal e defensor do mercado, que não governaria com mão de ferro e não suprimiria as liberdades – de expressão, movimento, acção política.

• Em 2001, perante um Bundestag extático, garantiu que a Rússia era uma nação europeia amistosa a caminho da democracia e da liberdade. Três grãos de areia para os olhos do mundo: a Rússia não é (nunca foi) verdadeiramente europeia, de amistosa, como se vê, tem pouco, a democracia foi sonho que depressa se fez pesadelo e a liberdade fenece paulatinamente.

• A guerra foi, para Putin, um meio para um fim. E, desde o princípio, a afirmação da sua popularidade e poder: a da Chechénia (a segunda) começou em agosto de 1999, sob a sua batuta como primeiro-ministro. A 1ª, em 1995 e 96, fora um fiasco, esta, com novas tácticas militares – Grozny praticamente demolida – um sucesso. Putin ganhou facilmente as eleições de abril de 2000. E começou a devolver aos russos um precioso bem perdido: o sentimento da grandeza e de Império, a herança histórica da Grande Rússia. Ao contrário de Gorbachev e Ieltsin, que se esforçaram por superar o passado comunista e transformar a antiga URSS num país democrático, Putin tinha e tem um objectivo, quase uma obsessão: restaurar a glória da Rússia.

• Hoje isso é claro. Já o é, provavelmente, pelo menos desde 2006, quando em Munique, perante Merkel e centenas de alemães estupefactos, atacou a suposta superioridade moral do Ocidente, referiu a guerra fria como um tempo de estabilidade e prometeu uma Rússia, de novo, independente e forte nas relações externas.

De então para cá o seu entendimento sobre os interesses vitais da Rússia, tornou-se cada vez mais claro e assumido. De então para cá, consolidou com paciência e persistência o seu poder, será presidente até 2036 se a Ucrânia e a natureza não lhe trocarem as voltas. De então para cá, tomou, inflexível, a via da autocracia e da repressão, de regresso ao Império da Grande Rússia de Pedro e Catarina, ao controlo férreo da sua zona de influência geoestratégica. De então para cá, desencadeou três guerras, Geórgia, Crimeia e de novo a Ucrânia, e com cada uma delas ganhou popularidade, eleições e vontade de ir mais longe. De então para cá, cresceu em agressividade rude contra o Ocidente, os EUA, a Nato, a Europa.  E depois de Berlim, e depois de Munique, as suas palavras fizeram-se cada vez mais claras e agressivas.

• Há duas fases na retórica – e nos avisos – de Putin: até à invasão da Ucrânia (sim, houve uma, em 2014) e à anexação da Crimeia, e desde então. O fundo – dos ataques ao Ocidente à negação da identidade ucraniana – é mais ou menos o mesmo, o tom foi-se alterando até ao célebre discurso de 21 de fevereiro, três dias antes da invasão, a reconhecer a independência de Donetsk e Lugansk: “A Ucrânia é uma criação da Rússia”, “um nacionalismo extremo, sob a forma de russofobia agressiva e neo-nazismo”, “toda a questão da escolha civilizacional chamada de pró-Ocidente, não foi nem é para criar melhores condições de bem-estar para o seu povo, mas para servir obsequiosamente os rivais geopolíticos da Rússia””. E o pior estava para vir. E o pior veio.

Talvez a tímida reação ocidental o tenha encorajado, a par com a saída de Trump, primeiro, mas sobretudo de Merkel, por quem o presidente russo tem um indiscutível respeito. Talvez a admiração egocêntrica pelo seu próprio poder o tenha ofuscado a ponto de se convencer de que seria fácil. Talvez.

No dia 24 de fevereiro, Putin anunciou a operação militar especial na Ucrânia. Pretextou a contínua expansão “da máquina de guerra” da Nato, disse tratar-se de uma questão de vida ou de morte para a Rússia, falou no genocídio “contra milhões de pessoas” no Donbas, lembrou os ataques da “coligação militar Ocidental” a Belgrado, Iraque, Líbia e Sérvia, referiu-se ao Ocidente como “império global de mentiras”, constituído pelos Estados-Unidos e pelos seus  obedientes satélites. E salientou que a responsabilidade pelo possível banho de sangue seria do regime reinante na Ucrânia.

Não foi nesse dia. Há muito que Putin desvendara a sua agenda.

Mas as campainhas de alarme não soaram a Ocidente. E as sirenes de alarme dispararam nas grandes cidades da velha Ucrânia.

Putin é o responsável. Não o único, mas de longe o mais relevante. Sem ele não haveria guerra e morticínio. Resta saber se, com ele, guerra e morticínio poderão acabar.

Ou se, como disse Biden, só quando “the man” sair, cessarão.

Retirado do Facebook | Mural de  Paulo Sande

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