Discurso do índio Evo Morales Presidente da Bolívia aos Chefes de Estados da Europa colonizadora

EVO MORALES:
CARA A CARA COM OS COLONIZADORES ANTIGOS E ATUAIS DA AMÉRICA DO SUL em 22/12/2016

Discurso do Presidente da Bolivia
aos Chefes de Estados da Europa

“Aqui eu, Evo Morales, vim encontrar aqueles que participam da reunião. Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos. Aqui, pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa.

O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei a vender-me.

O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens, ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. Também posso reclamar pagamento e também posso reclamar juros.

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Citando Mil Ghent

Um dia, tudo acaba. Sem motivos e sem explicações. Como um namoro, uma aula, um contrato de aluguer. E, pouco depois, isso que acaba já não faz parte das conversas quotidianas. Entra no esquecimento. Porque outra coisa surgirá em seu lugar. Em cima de memórias e confusões que fizeram a soma de todas as horas. De todos os imprevistos. E os lamentos não valem a pena. Porque nada voltará atrás. Em frente, haverá outro dia, surgirão outros caminhos, que hão de trazer novas conversas às vidas. Novos momentos e novas maneiras de ver. Até que tudo acabe, outra vez.

Retirado do Facebook | Mural de Mil Ghent

Citando Pablo Neruda

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo…
Morre lentamente quem se torna escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma nova cor, quem não conversa com quem não conhece… Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com seu trabalho ou amor, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos…

Pablo Neruda

Citando […] | Inês Salvador

Corriam nuvens no céu como se levassem a boa nova. Ou talvez fosse só a terra a andar mais depressa por ali. Entre o tudo e o nada, uma árvore de fruto era a pérola numa ostra. Não havia pérola na ostra, foram outros os tesouros que a língua encontrou. Eva não comeu a maçã. Adão comeu uma pêra. Outra e outra vez, havia uma pêra no céu onde corriam as nuvens. Ou talvez fosse só a terra a andar mais depressa rumo ao paraíso da pequena morte que se gritou a seguir.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

PSEUDO-COISO | Rui Bebiano

Percebo, mas não aceito. Refiro-me à tendência de muitas pessoas para se desculparem por ter ideias, por falar de livros ou de filósofos, por usar conceitos um pouco maios complexos: «não quero parecer intelectual, nem pretensioso». Um dos males do nosso tempo é justamente a tendência para simplificar o conhecimento, ou evitar certo tipo de prática ou de discurso sustentado pela leitura, pelo debate, pelo pensamento, pelo exercício da língua, só para não parecer «intelectual». Ou, como dizem alguns, «pseudo-intelectual». É a ditadura do pragmatismo e da eficiência, para os quais pensar, especular, é pura perda de tempo. Quem não desenvolve o intelecto – o instrumento mais básico do esforço intelectual – pensa e fala com os pés. Partilhar conhecimento, debater as coisas com substância, nada tem a ver com exibicionismo ou arrogância, que são matéria de outro departamento, matéria partilhada por sábios e por asnos. Mas mal vão os tempos em que é preciso escrever isto.

Rui Bebiano

Retirado do Facebook | Mural de Rui Bebiano

How our lives will change dramatically in 20 years | Udo Gollub

I just went to the Singularity University summit and here are the key learnings.

In 1998, Kodak had 170,000 employees and sold 85% of all photo paper worldwide.
Within just a few years, their business model disappeared and they got bankrupt.
What happened to Kodak will happen in a lot of industries in the next 10 year – and most people don’t see it coming. Did you think in 1998 that 3 years later you would never take pictures on paper film again?
Yet digital cameras were invented in 1975. The first ones only had 10,000 pixels, but followed Moore’s law. So as with all exponential technologies, it was a disappointment for a long time, before it became way superiour and got mainstream in only a few short years. It will now happen with Artificial Intelligence, health, autonomous and electric cars, education, 3D printing, agriculture and jobs. Welcome to the 4th Industrial Revolution.
Welcome to the Exponential Age.

Software will disrupt most traditional industries in the next 5-10 years.
Uber is just a software tool, they don’t own any cars, and are now the biggest taxi company in the world. Airbnb is now the biggest hotel company in the world, although they don’t own any properties.

Artificial Intelligence: Computers become exponentially better in understanding the world. This year, a computer beat the best Go player in the world, 10 years earlier than expected. In the US, young lawyers already don’t get jobs. Because of IBM Watson, you can get legal advice (so far for more or less basic stuff) within seconds, with 90% accuracy compared with 70% accuracy when done by humans. So if you study law, stop immediately. There will be 90% less laywyers in the future, only specialists will remain.
Watson already helps nurses diagnosing cancer, 4 time more accurate than human nurses. Facebook now has a pattern recognition software that can recognize faces better than humans. In 2030, computers will become more intelligent than humans.

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Citação | José Manuel Candeias

Não suporto a pesporrência de certa gente que se considera tão à esquerda da esquerda, tão imaculdamente à esquerda, tão devoto da melhor esquerda, que não nota que nenhuma esquerda dos homens é perfeita, que a auto-crítica da esquerda é indispensável e que a fé cega e exacerbada na sua esquerda, afasta da esquerda muito boa gente que lá poderia/deveria estar!

Retirado do Facebook | Mural de José Manuel Candeias

“Deus-Dará” | Alexandra Lucas Coelho | por André Barata

“Deus-Dará”, da Alexandra Lucas Coelho, é um grande romance, dos melhores que li em alguns anos entre autores de Portugal, tão bom que demorará a entrar, muito além da boa prosa jornalística que imediatamente nos conta uma boa história, muito além da imediatidade, e do circo todo ele cheio de pressa, do reconhecimento, das críticas, dos prémios.

Há grandes romances de várias espécies. O da Alexandra exemplifica aquela espécie de romance que consegue capturar a singularidade de um tempo que foi vivido por muitos de uma geração. Evitarei as comparações, mas o próprio romance trá-las nos seus intertextos. Esta geração, que é bastante a minha, em que tantos se acharam a viajar oportunidades fora, teve muitos no Brasil que se surpreenderam a experiência de não serem aí verdadeiramente estrangeiros, mas aí conhecerem em muitos aspectos a experiência do que trazemos de estrangeiros em nós mesmos, desde logo como portugueses, imperialistas escravistas que pouca memória guardam de o ter sido, como falantes a reencontrarem-se na sua própria língua apesar de quase emigrados nela, e como testemunhas de um país continental de tantas maneiras e a tantas escalas vertiginoso.

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Citação | Virginia Woolf

virginia-woolf-facebook

Les femmes doivent toujours se souvenir de qui je suis, et de quoi ils sont capables. Ne doivent pas avoir peur de traverser les exterminés champs de l’irrationalité est, ni même de rester suspendues sur les étoiles, la nuit, appuyées au balcon du ciel. Ne doivent pas avoir peur du noir qui engloutit les choses, parce que ce noir libre une multitude de trésors. Ce sombre qui eux, libres, scarmigliate et foires, connaissent comme aucun homme ne saura jamais.
Virginia Woolf

Citação | Professor João Lobo Antunes

joao-lobo-antunes(…) Pela impureza das palavras que se dizem. O desrespeito pela verdade, a violência dos termos, o estarmos longe daquilo que alguém chamou de “democracia humilde”, aquela que aceita o ponto de vista do outro, ouvindo-o. Fernando Gil falava muito da má-fé, que é um sentimento relacional e significa que a nossa posição está tomada antes de ouvirmos o argumento do outro. Passados os 70 anos tenho pena de estar a viver este tempo.
– Um tempo de má-fé? – sim, um tempo de má-fé.

(Professor João Lobo Antunes)

Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes in “Os Anos da Guerra Colonial” | Continuação

fotocarlosmatosgomesAinda a propósito das efervescências patrioteiras a despropósito das responsabilidades do dr Mário Soares na descolonização.
Em primeiro lugar não foi o doutor Mário Soares que decidiu derrubar o a ditadura, nem terminar com o sistema colonial que após 13 anos de guerra não tinha outra solução que não fosse continuar a guerra.
Não foi o dr Mario Soares que decidiu o cessar fogo na Guiné, nem o estabelecimento de conversações com o PAIGC.
Não foi o dri Mário Soares que decidiu estabelecer ligações com a Frelimo, nem com os 3 movimentos em Angola. Foram alguns militares, entre os quais me orgulho de estar incluído.
Antes desses militares, os do 25 de Abril, já o professor Marcelo Caetano estabelecera conversações com o PAIGC em Londres, com o MPLA através de Paris e Roma, com a Frelimo através do engenheiro Jardim e de Keneth Kaunda.da Zambia (planos Lusaka).
Já vários generais conspiravam para derrubar Marcelo Caetano, Spinola, Kaulza de Arriaga, entre outros.
Mas, antes de tudo, já o doutor Salazar se tinha comportado com a estranha inação perante os massacres de Março de 1961, para se manter no poder e mais tarde, em Dezembro, deixaria os militares portugueses . abandonados na Índia.
Isto é, quanto a “traidores”, traidores a sério, chefes que traem os seus militares estamos conversados.

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ANGOLA | OS MASSACRES DE MARÇO DE 1961 | Os sinais que Salazar não quis receber | Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes in “Os Anos da Guerra Colonial”

carlosdematosgomesSoares e a descolonização. Circula por aí um texto de propaganda negra de pretensas afirmações de Mário Soares sobre a descolonização com o título de uma frase referente aos colonos: “Atirem-nos ao mar”, ou qq coisa do género, que há uns anos aparecia atribuída a Rosa Coutinho. O texto é uma manifestação de estupidez de quem os publica. Acreditar que algum dirigente político faça uma afirmação daquelas em público é estupidez, ninguem faz. Tive divergências políticas sérias com a forma como as opções políticas do doutor Mário Soares após o 25 de abril, mas há a verdade, a descolonização tem outro responsável.  Tentar que alguém acredite é tomar os outros por estúpidos. Agora o que é verdade é que Salazar sabia que os massacres de Março de 1961 iam ocorrer naquela data e nada fez. E isso sim é verdadeiramente criminoso. Eu e o Aniceto Afonso publicámos o seguinte texto na obra “Os Anos da Guerra Colonial” – Edição QuidNovi Porto 2010 com 9 (Nove) notícias do que ia acontecer e que eram do conhecimento do governo de Salazar, que não agiu.

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1 de Dezembro de 1640 | António Pina

antonio-pina-200Nesta data que marca a restauração da independência nacional, perdida em 1580 para Espanha, depois do desaire militar em Alcácer-Quibir e da destruição das forças militares portuguesas, Portugal iniciou um período de 28 anos de lutas e guerras que levaram à assinatura do Tratado de Lisboa, em 1668, no qual Espanha reconhece a nossa independência.
Este facto apenas foi possível, não só pelo reencontrar da nação, mas também porque a Espanha teve de fazer frente a revoltas na Catalunha e Andaluzia, ao mesmo tempo que enfrentava guerras com a Inglaterra, Holanda e França, países que ajudaram o país na sua luta, ainda que de forma dúbia, já que se na Europa apoiavam a luta pela independência, no resto do mundo continuavam a conquistar-nos territórios, como foi o caso de Malaca, Ormuz, Ceilão, Japão, algumas ilhas na atual Indonésia, a maioria das cidades indianas, para a além da maioria das feitorias / cidades africanas (nomeadamente S. Jorge da Mina). Ceuta perdeu-se para os espanhóis.
Esta realidade levou os revoltosos a optar pelo abandono do império do Oriente e a concentrar os seus esforço na recuperação da parte atlântica do mesmo, tendo conseguido recuperar o Brasil, Angola e S Tomé e Príncipe. A opção assumida, decorria da consciência das elites nacionais, que a independência do país apenas seria possível, suportando-se na exploração de territórios coloniais, o que se confirmou nos séculos seguintes. Realidade que implicou a adesão formal à CEE (1986), após a perda das colónias, a última das quais perdida formalmente em 2002.
A luta pela independência deveu-se em grande parte aos prejuízos causados à nobreza e burguesia, pela política implementada por Espanha a partir de 1610 que, prejudicava profundamente as elites económicas, as mesmas que em 1580 permitiram a ocupação espanhola, pelos benefícios que poderiam retirar dessa união. Para além dos prejuízos causados à burguesia, dos cargos e benesses retirados à nobreza, o aumento de impostos (sobre o linho, da sisa, do real da água) sobre a restante população provocou a revolta generalizada.

Retirado do Facebook | Mural de António Pina

1640

Che Guevara | aforismos e excertos

che02-200É preciso endurecer, sem perder a ternura, jamais. 
— Che Guevara, no livro “Sem perder a ternura: pequeno livro de pensamentos de Che Guevara”. Rio de Janeiro: Record, 1999

§

Se você é capaz de tremer de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros. 
— Che Guevara, no livro “Sem perder a ternura: pequeno livro de pensamentos de Che Guevara”. Rio de Janeiro: Record, 1999

§

O caminho é longo e em parte desconhecido; conhecemos nossas limitações. Faremos, nós mesmos, o homem do século XXI. 
— Che Guevara, no livro “Sem perder a ternura: pequeno livro de pensamentos de Che Guevara”. Rio de Janeiro: Record, 1999

§

Deixe-me lhe dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é feito de grandes sentimentos de amor. 
— Che Guevara, no livro “Sem perder a ternura: pequeno livro de pensamentos de Che Guevara”. Rio de Janeiro: Record, 1999

§

A universidade deve ser flexível, pintar-se de negro, de mulato, de operário, de camponês ou então ficar sem portas, e o povo invadirá a Universidade e a pintará com as cores que quiser. 
— Che Guevara, no livro “Sem perder a ternura: pequeno livro de pensamentos de Che Guevara”. Rio de Janeiro: Record, 1999

Direitos Universais da Carneirada | in “mural de Facebook” de José Filipe da Silva

Olhai os poderosos do mundo e reflictam. É necessário estabelecer, desde já, os Direitos Universais da Carneirada.

1 – A carneirada deverá ter direito a pasto suficiente, para que não morra de fome;
2 – A carneirada deverá ter direito a um redil, de escolha do seu pastor;
3 – A carneirada tem direito a manter a cabeça sobre o corpo, independentemente do uso que lhe dá;
4 – A carneirada pode ser tosquiada, desde que lhe seja mantida lã suficiente para que não morra de frio;
5 – Ninguém poderá inibir o balir da carneirada, mesmo que haja total indiferença aos “més-més” e à interpretação dos mesmos;
6 – Mais do que um dever, é um direito do carneiro ser escolhido para imolação;
7 – Cada grupo de carneiros deverá ter direito a um cão pastor e “perceber” que ele está presente para sua protecção e segurança;
8 – Se o pastor tiver “patrões” ocultos a carneirada pode adorar esses “patrões” como se de o pastor se tratasse;
9 – A carneirada tem direito à procriação e à multiplicação do rebanho, desde que eduque os carneirinhos nos são princípios enunciados pelos pastores e de que não faça deles coisa sua;
10 – Sempre que a carneirada julgue ter razão poderá dar um “mês-més” mais altos, sem que nunca questione as soluções do pastor;
11 – A carneirada tem direito a um cantinho de pasto, desde que pague taxa de relva, taxa de ocupação de terra, taxa de rega, taxa de sol sobre a eira e taxa de ventilação de ar puro;
12 – É livre a circulação da carneirada, dentro dos limites do arame farpado definido pelos pastores;
13 – A carneirada tem o direito de escolher periodicamente o menos mau dos pastores e a fazer ensaios entre os mais improváveis para essa tarefa.

carneirada

Adonis [Ali Ahmad Said Esber] | Poeta Sírio | in revista do jornal “Expresso”

adonisTambém escreveu muita poesia das ruínas. Poemas sobre Beirute, sobre a cidade como inferno. Cidades onde a guerra e a violência são uma constante.

Isso está ligado também ao monoteísmo. A visão monoteísta do mundo deformou as relações do homem com o homem, do homem com a natureza, do homem com o além da natureza. Deformou tudo. O monoteísmo colonizou o nosso cérebri e não podemos ver a realidade do universo se não nos libertarmos desse fechamento do mono teísmo. É esse actualmente o nosso grande problema, não apenas no mundo árabe mas também no mundo ocidental.

A certa altura diz que o nosso tempo “não sabe ler senão o livro do assassínio”.

Não posso imaginar que o ser humano, que foi criado à imagem de Deus, seja selvagem, e mais selvagem do que os animais selvagens. Mesmo o animal selvagem só mata os outros animais para se alimentar, mas um ser humano mata outro ser humano por maldade.

Essa desumanidade não o desencorajou?

Não, eu acredito no ser humano, acredito no Homem. Mas as culturas monoteístas tornaram-se prisões contra a alegria, contra o corpo, contra a criatividade, contra tudo. O grande combate intelectual do mundo é saber como ultrapassar o monoteísmo e a sua cultura. É esse o nosso problema comum.

http://expresso.sapo.pt

Citação | Mariana Mortágua

“A primeira coisa que acho que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro. Quando estamos a apresentar taxas sobre grandes patrimónios ou grandes rendimentos estamos a fazê-lo porque queremos diminuir as desigualdades mas também porque dizemos que uma sociedade estável não é uma sociedade que permite uma acumulação brutal de capital nos 1% do topo”. [Mariana Mortágua]

a felicidade e a inocência | Luís Pedro Nunes

pode-se fotografar a felicidade e a inocência? sim. estava o Alfredo e eu a abrigar-nos de uma chuva quente na ilha de Bolama, Guiné, quando ele tirou esta foto. Das milhares de imagens que trouxe das nossas viagens há uma pureza encantada nesta coreografia que não me cansa e me atrai o olhar quase diariamente (tenho a foto numa parede em casa) . estes miúdos jogam à bola, à chuva, numa liberdade feliz. Riem com um riso tão solto e habituado a sair que sabemos que eles têm qualquer coisa que perdemos há muito. esta é a foto que capturou a felicidade a ser.

felicidade

Retirado do Facebook | Mural de Luís Pedro Nunes

Citação | Francisco Seixas da Costa

FranciscoSeixasdaCosta

A mim, preocupa-me apenas o futuro e, dentro deste, a triste constatação de que estamos perante um sistema bancário frágil, que reflete uma economia frágil, de um país muito frágil. O qual, sendo o nosso, merece que essa nossa preocupação e angústia nos levem à exigência máxima – de rigor, probidade e transparência – sobre aqueles que voluntariamente se oferecem para o gerir, no governo, parlamento e outras instituições do Estado.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

“união” de muros de vergonha | Tomás Vasques

tomas vasques - 200A Europa transformou-se, pela mão da Alemanha, numa “união” de muros de vergonha, de punições e sanções. Uma “união” dirigida por gente ao serviço do mundo financeiro, dos goldman-sachs, durante e depois de ocuparem os cargos da nomenclatura europeia; carreiristas que detestam os povos, os pobres, a democracia, a solidariedade. Para que serve uma Europa assim?

Retirado do Facebook | Mural de Tomás Vasques

Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma? | Oscar Wilde

AVT_Oscar-Wilde_4268Quem Poderá Calcular a Órbita da sua Própria Alma?As pessoas cujo desejo é unicamente a auto-realização, nunca sabem para onde se dirigem. Não podem saber. Numa das acepções da palavra, é obviamente necessário, como o oráculo grego afirmava, conhecermo-nos a nós próprios. É a primeira realização do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?

Oscar Wilde, in ‘De Profundis’

Citações (3) | Inês Salvador

Ines Salvador -200citação 1 – A propósito de não ter ido à inauguração do Túnel do Marão, Pedro Passos Coelho disse que “nunca” esteve numa obra de inauguração enquanto liderou o Governo. Sobre isto quero dizer que nunca estreei um par de sapatos, não uso maquilhagem, nunca fui para os copos e nunca falhei uma ida ao ginásio.

citação 2 – Informação | José Sócrates e o Túnel do Marão

Nas televisões estão a inaugurar o túnel do Marão ou estão a inaugurar o José Sócrates? É que cada vez que tento ver o túnel do Marão, o que me mostram é o José Sócrates, que sendo um homem que uma moça gosta de ver, e não sabendo e não sendo da minha conta, mas pensando eu de que, não é exatamente o túnel do Marão e já se terá inaugurado no que achou que se devia inaugurar.

Televisões, só hoje já vi o José Sócrates vinte vezes, é possível mostrarem também o túnel do Marão?

citação 3 – Da semana que passou

“Sem o “oval” do meu sócio não decido nada… Nãaaa, nem pensar, sem o “oval” do meu sócio não avanço”, um senhor sobre tomar uma decisão.

“Obrigada, foi muito “explícida”, p’ra mim está “explícido”, ficou tudo muito explícido”, um senhor a quem dei uma informação.

“Isso não tem “anexo” nenhum, não faz sentido, são coisas sem “anexo”, não pode ser”, um senhor ao tomar conhecimento de um procedimento.

“Eu meto sempre no segundo buraco, também gosto no primeiro, mas meto sempre no segundo, dantes metia no primeiro, mas agora aleija-me, até faz ferida”, uma moça sobre colocar um brinco na orelha que tem três furos.

No IKEA há almôndegas vegetarianas, 4,99€/kg

O Amor continua lindo, a vida é bela, embora esteja de chuva.

Bom fim-de-semana!

 

07.05.2016 | Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

 

LES RÊVES | Jean Cocteau

” Les rêves sont la littérature du sommeil. Même les plus étranges composent avec des souvenirs. Le meilleur d’un rêve s’évapore le matin. Il reste le sentiment d’un volume, le fantôme d’une péripétie, le souvenir d’un souvenir, l’ombre d’une ombre.”

(Le Mystère laïc – Jean Cocteau)

reve

Citação | Bertrand Russell

bertrand-russell“Moralistas são pessoas que renunciam às alegrias corriqueiras para poder, sem culpa e recriminação, estragar a alegria dos outros.”

Biografia: Bertrand Arthur William Russell, 3º Conde Russell foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Político liberal, activista e um popularizador da filosofia, Russell foi respeitado por inúmeras pessoas como uma espécie de profeta da vida racional e da criatividade. A sua postura em vários temas foi controversa.
18 de Maio de 1872 | 2 de Fevereiro de 1970

 

Victor Hugo | J’ai donc dit qu’il fallait aimer le peuple.

Victor_Hugo - 150Victor Hugo (26 février 1802 – 22 mai 1885) est un homme aux multiples facettes : écrivain, féministe, socialiste etc. Mais l’auteur des Misérables est surtout un humaniste. Chacun de ses combats ont été avant tout motivés par le besoin de remettre l’homme au centre de la vie politique et sociale. Dans cette lettre qu’il adresse au rédacteur de La Ruche populaire et ouvrier, l’homme de Lettres clame haut et fort l’importance d’adopter un regard universel sur l’essence de l’homme, peu importe son origine sociale.

 

 

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Charles Baudelaire | Citação

Charles_Baudelaire 598

É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: ‘É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira.

Orson Welles | O verdadeiro jornalismo relata um facto, o jornalismo depravado alimenta-se dele.

orson welles 250«( …) o cinema não é um meio de informação mas de divertimento. Isto é verdade. Mas é igualmente verdade que o jornalismo entra em estreita concorrência com o cinema no domínio do entretenimento popular. O verdadeiro jornalismo relata um facto, o jornalismo depravado alimenta-se dele. De qualquer forma, nunca pode ir além da observação e do comentário. Se tenta ultrapassá-los encontramo-nos, nós cineastas, perante uma tentativa de concorrência no domínio, não apenas do entretenimento, mas também da ficção. “Tentativa” apenas pois não tem possibilidade de fabricar mesmo má ficção com a matéria bruta dos factos. Pois a ficção não é uma versão do que aconteceu. É o que teria podido acontecer, e não a versão de seja o que for. A ficção pede a invenção. O jornalismo impede-a»

Da experiência nas esplanadas | Inês Salvador in Facebook

InesAcredito pouco na qualidade do silêncio. Quem não diz nada é porque não tem nada para dizer. É ver o desembaraço a falar dos sapatos da zara e das almofadas do ikea, do Benfica e da cor do carro. Sobre política, religião e sexo não se fala, porque disso não se fala. Está tudo dito. Nos Estados Unidos é tudo bom, a religião islâmica é toda má e só não vimos de Paris no bico de uma cegonha, porque as pessoas agora já fazem o que querem. Mas das pessoas também não se fala, não vá isso descambar para a política, religião ou sexo. Dos outros é que já se fala com o mesmo desembaraço com que se fala das almofadas do ikea, “essa gaja anda desaparecida, deve andar metida com algum”. E nisto continuam todos de acordo. Sobre o que suscite opinião diversa é que não se fala. Se não estiverem todos de acordo estraga-se a tarde. Este país, Portugal, é uma vergonha, só neste país é que isto acontece. “Isto” é uma abstração que serve para tudo neste Portugal que é de outros portugueses, nunca dos portugueses intervenientes na conversa. Ser português parece ter a fatalidade de uma visita de estudo da lição que não se estuda. Uma espécie de turismo conformado em que os outros é que sabem. Os outros, os políticos, que eles é que quiseram ir para lá. Os caracóis é que não estão maus. E a gaja que não atende o telefone, deve andar mesmo metida com algum. Chegam os cafés que se tomam em separado. Mulheres para um lado, homens para o outro, sentados à mesma mesa, porque a conversa tem género e fora do género não há nada para dizer.

Caiu o homem da cadeira, mas pouco.

Citando Woody Allen

Woody-Allen-Workout-Routine-and-Diet-PlanNa minha próxima vida, quero viver de trás para frente. Começar morto, para despachar logo o assunto.

Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num spa de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois:  Voilà!  – desapareço num orgasmo.

Herberto Helder ( 1930 – 2015 ) – por Cristina Carvalho

HerbeHerberto Heder AlfredoCunharto Helder foi, é considerado um dos poetas maiores da segunda metade do século XX em Portugal. Personalidade misteriosa, aparentemente misantropo, seguramente avesso a prémios, aplausos e encontros, viveu e trabalhou por essa Europa fora, sempre desenhando a sua literatura poderosa em numerosas obras, livros de poesia e prosa.

Nos verdes anos frequentou o Café Gelo, onde paravam os poetas surrealistas e artistas de variados contornos. Que se saiba, frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e na Faculdade de Letras, o curso de Filologia Românica, sem ter terminado nenhum destes propósitos.

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Estabelecimento Prisional de Caxias – sessão de leitura com Cristina Carvalho

GradesO que é que eu posso dizer sobre uma experiência tão marcante na vida de uma pessoa? Uma experiência que se alonga por aqueles corredores absolutamente inóspitos, despidos e secos de vida, sem tonalidades de nenhuma espécie, lisos e frios, compridos, sem fim.


O nosso encontro foi na Biblioteca. Havias umas mesas dispostas em rectângulo e à volta, sentados, os homens que me aguardavam. Cumprimentámo-nos. Sentei-me num dos topos da mesa. Fiquei, pois, de frente para todos. Foi assim que o meu olhar os encontrou, de frente, olhos nos olhos, sem sombra e sem barreiras de qualquer espécie. Naquele momento, eu senti-os totalmente, um por um. E percebi que, à minha frente, estavam sentados vários homens a cumprir penas umas mais longas que outras, uns preventivos a aguardar julgamento e outros já condenados a vários anos, muitos anos com muitos dias de muitos sóis a brilhar, com muitas luas de luar, com filhos a crescer, a idade sempre a avançar. Encontrei-me com homens uns novos, outros muito mais velhos punidos por variados cometimentos e incumprimentos sociais. Todos sentados ouvindo o Concerto nº 1 para piano e orquestra, 1º andamento, de Frédéric Chopin; todos aguardando sinal para começarmos a conversar sobre o livro. E conversámos muito. Muitos quiseram saber sobre Fryc, quem foi realmente, quem amou, que vida teve, como foi o seu génio, o que é o génio, o que é uma vida, como foi viver no século XIX, o que foi o século XIX, como foi viajar, como foi morrer, como é viver, ontem, hoje, como será, como será, como será?

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Citando Pedro Almeida Vieira

Pedro_PAVJamais compreendi como um povo tão sagaz, tão valoroso e tão engenhoso nunca, até então, conseguira matar a sua sede, sobrevivendo à míngua, em imutável crise. Enquanto vivi, defendi que uma Nação para almejar a glória, em lutas e conquistas pelos quatro cantos do Mundo, deveria também vencer a carestia da água para a sua própria capital.

Francisco d’Ollanda, personagem de Nove Mil Passos, de Pedro Almeida Vieira.

O romance histórico, quando estruturado com rigor factual e histórico, tem este efeito desmistificador sobre a nossa memória coletiva. Aqui cai o mito de que já fomos grandes. A grandeza do nosso império ficou-se pela sua extensão e a riqueza nos bolsos de muitos poucos. O povo, esse, sempre entregue à sua sede.

Sobre esta edição da Planeta, comemorativa do décimo aniversário do lançamento deste romance, leia mais aqui.

Os Pés na Grande Guerra

Imagens de treino da Cavalaria Portuguesa na Primeira Guerra Mundial – British Pathé.

Em agosto de 1914, os pés (categoria na qual se incluíam as patas dos cavalos) eram tão importantes como os comboios, de tal maneira que, depois do desembarque em zonas de concentração, cavalaria e infantaria se deslocavam sobre a linha de marcha. Para os alemães, era o presságio de dias infindáveis a caminharem para oeste e para sul, nos quais os pés humanos iriam sangrar e as ferraduras dos cavalos perder-se. O tilintar revelador de um prego solto era o sinal para o cavaleiro procurar um ferrador, se quisesse seguir a coluna no dia seguinte. Para o condutor de uma carruagem, semelhante som ameaçava comprometer a mobilidade dos seis animais aparelhados.

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Citando Rubem Fonseca

Quando terminei o curso primário, arranjei um emprego para ajudar a minha mãe. De bicicleta eu fazia a entrega de produtos de beleza de uma firma que não tinha loja, só anunciava pela internet. O nome era Slim Beauty, acho que é assim que se escreve, é inglês, creio que significa beleza e magreza. Mas quando eu tocava a campainha das casas para entregar os pacotes, as mulheres que abriam a porta estavam cada vez mais gordas.

Amalgama

Amálgama, de Rubem Fonseca – Sextante.

Leia a nota de imprensa aqui.

Citando Giuseppe Tomasi di Lampedusa

O Leopardo

Não somos cegos, caro padre, somos apenas homens. Vivemos numa realidade movediça a que tentamos adaptar-nos tal como as algas se vergam sob os empurrões do mar. À Santa Madre Igreja foi explicitamente prometida a imortalidade; a nós, enquanto classe social, não. Para nós, um paliativo que prometa durar cem anos equivale à eternidade. Poderemos talvez preocupar-nos pelos nossos filhos, ou até pelos netinhos; mas para além do que possamos ter a esperança de acariciar com estas mãos não temos obrigações; e eu não posso preocupar-me com o que serão os meus eventuais descendentes no ano de 1960.

A Igreja, sim, tem de tratar disso, porque está destinada a não morrer. No seu desespero está implícito o conforto. E julgais que, se pudesse agora ou se puder no futuro salvar-se com o nosso sacrifício, ela não o faria? É claro que o faria, e faria bem.

O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, D. Quixote.

(diálogo entre o príncipe de Salina e o seu confessor, o padre Pirrone, na expectativa do desembarque na Sicília das tropas piemontesas lideradas pelo general Garibaldi, em 1860).

Leia mais em Acrítico, leituras dispersas.

A mansa revolta da dor | José António Barreiros in Blog “A Revolta das Palavras”

Hugo_Simberg_-_The_Wounded_Angel_-_Google_Art_Project
Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta não é mansa e gera o mal que se faz sofrer a partir do mal que se sofreu. E há sempre as vítimas sem razão.
Mas há um momento em que a violência brutal, que nos chega como quotidiana, já está para além da capacidade de a suportar.

Quando era miúdo não conseguia ver filmes que se diziam para a minha idade porque havia um nó na garganta, de dor, que me sufocava e as lágrimas contidas a tal ponto que os olhos pareciam implodir. Era uma forma, ouvia dizer, de, por esse meio, nos educarem a sensibilidade, gerando na nossa afectividade em formação, os bons sentimentos. E havia o cão que, morrendo, deixava o menino sozinho e o rapaz que, porque órfão, nunca seria menino. E a vida era um Natal gélido e faminto vivido do lado de cá da vidraça.

E depois era a mágoa dos amores quando ainda eram apenas ternuras inconsequentes, o medo dos adultos e da sua violência castigadora, os remorsos pelo tanto que se poderia ter feito ou por outra forma. E o pecado. E o dia em que as coisas de que gostávamos e as pessoas que amávamos começavam a morrer.
Hoje já não há muito disso que aleijou a alma. Torná-mo-nos adultos. Atentos ao mundo, há, porém, o que nos chega pelas notícias: a selvajaria das guerras entre povos e o mesmo povo, a cruel violência no seio da própria família. E, na dança macabra dos fins de festa, há a estupidez acéfala dos embriagados pela futilidade, a indiferença que nasce pela banalização do horror. Que não magoa menos.

Confesso que sinto de novo a surgir essa até agora longínqua incapacidade de suportar.
Quando, porque nascido em Malanje, me chegaram, tinha eu doze anos, os primeiros sinais da violência feroz que se tornou em guerra, vinda da revolta indígena na Baixa de Cassanje, mais a violência feroz da retaliação e a ferocidade angustiante do medo, quando, tudo tornado pavor e insónia, a ingenuidade infantil quebrou estilhaçada em cacos, senti que se me franqueara do mundo o horrível e o feio. E tentei encontrar então uma razão que ao menos me desse a paz de uma explicação.

Hoje, como insecto estonteado ante a luz, dói-me só de ouvir e dói também constatar que evito saber. Não nasce aí o regresso à inocência, sim o enfrentar o espelho acusador da má consciência.
É que foi este, afinal, o mundo que criámos e deixámos que surgisse.
Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta é connosco mesmo por causa daquilo em que nos tornámos.

José António Barreiros

http://revoltadaspalavras.blogspot.pt/2014/08/a-mansa-revolta-da-dor.html … (FONTE)

Foto: Hugo Simberg | The Wounded Angel | Google Art Project

Citando Mário Cláudio

Retrato de Rapaz

Se se curava de afeiçoar os lábios de uma excelsa cortesã, uma dessas que retinham o direito de se sentar à mesa ducal, pelando uma laranja com as unhas rebrilhantes de óleo de amêndoas doces, o impulso de Salai tendia a representá-los carnudos de incontida sensualidade. E quando se tratava de suspender sobre uma paisagem de montanhas longínquas um inconsútil véu de neblina, logo ele o transformava numa nuvem pardacenta, e ameaçadora de borrasca. Cabia pois ao pintor mitigar-lhe os deletérios ímpetos da juventude, significados na busca do que se afirma intenso em prejuízo do que se mostra ameno, coisa que tão-só os génios desprovidos de idade, sobrepondo-se às contingências do tempo, são capazes de contrariar. E um tal extravio dos sentidos, ou um afogadilho assim da vontade, revelava-se na selecção das cores que o jovem empregava, investindo nesse apetite dos extremos que orienta a conduta dos adolescentes de sempre.

Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio, D. Quixote

leia a recensão no Acrítico – leituras dispersas.

Citando Thomas Jefferson

1) “Os bancos são mais perigosos para a nossa liberdade que os exércitos com armas.”
Thomas Jefferson

2) Quando as pessoas temem o governo, isso é tirania. Quando o governo teme as pessoas, isso é liberdade.
Thomas Jefferson

3) A árvore da liberdade deve ser regada de quando em quando com o sangue dos patriotas e dos tiranos. É o seu adubo natural.
Thomas Jefferson

Thomas_Jefferson_by_Rembrandt_Peale,_1800

Uma experiência | Fiodor Dostoievski

Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas… e entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. Talvez, de facto, nunca mais saísses de lá. Está lá tudo! “Estou muito bem aqui sozinho!”. Mas, de repente – uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros, e é-te dito: ‘Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!”. Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu paraíso e pular por cima do muro. Mais! Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo… Sim, apenas uma coisa te falta… um pouco de liberdade.

Fiodor Dostoievski 

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Citando Gabriela Ruivo Trindade

Uma Outra Voz

Um completo estranho, o meu corpo. Às vezes parece-me que tenta falar comigo, mas não entendo patavina do que diz. Chego a acreditar que me roubaram o antigo corpo ou o deitei fora. Talvez o tenha despido, como quem arranca o pijama de manhã, e me tenha enfiado noutro. Usado, ainda por cima. Gasto, velho e com defeito.

O ventre é o meu pólo sul. Para lá não existe nada. Ou talvez devesse dizer: o ventre é uma espécie de fim do mundo. Uma falha geológica gigantesca que separasse uma península do continente e a lançasse, errante, no coração do oceano. Eu sou o que sobra desse continente desmembrado; o resto partiu, levado na corrente marítima, não sei para onde.

O resto. As pernas, os pés e o baixo-ventre; tudo o que fica abaixo do umbigo. Aliás, se não visse todos os dias as minhas pernas, pensaria que mas tinham amputado. Se não visse o tubo da algália, a sua extremidade a desembocar naquele saco em que se vai acumulando o líquido amarelo que (dizem) é a minha urina; se a enfermeira não viesse todos os dias baixar-me as calças em movimentos lentos e pacientes, abrir-me a fralda, retirar cuidadosamente o tubo de borracha em volta do pénis, depois virar-me de lado com a ajuda de dois auxiliares e lavar-me o rabo como se fosse um bebé, juraria que não tenho sexo, nem cu; que nem sequer cago, pois nem sinto a merda agarrada às nádegas, aos pêlos; eu deitado em cima da minha própria merda, um bebé de vinte e quatro anos. Queria ao menos vomitar o nojo. Mas nem isso. Arrancaram-me as tripas, os pulmões, o coração. Talvez só me reste o cérebro.

Uma Outra Voz, Gabriela Ruivo Trindade, prémio Leya 2013.

Citando Woody Allen

Woody_Allen2Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente. Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num “spa” de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois – “Voilà!” – desapareço num orgasmo.

As três sílabas do nosso remorso | BAPTISTA-BASTOS

BaptistaBastos2013Vivemos de felicidades pequeninas, e inventamos esses instantes com a intuição secreta de que são precários e fugazes. Pouco temos a que nos pegar. Os amigos ou aqueles que estimamos vão-se embora, para outros sítios ou para sempre, encerrando o anel que parecia ligar-nos. Agarramo-nos, com o desespero de quem nada tem a perder e nada tem a ganhar, ao gosto de uma palavra, a um sonho ou, até, a um jogo de futebol, criando a ilusão de que somos felizes. Mas é sempre uma felicidade pequenina, e nós sabemo-lo com a noção dessa fatalidade irrevogável. Fomos alguma vez grandes? Inculcam-nos a ideia de que sim. Mas grandes para quem? Fomos nas caravelas, criámos um leito de nações deitando-nos com tudo o que era mulher. Talvez a nossa grandeza resida aí: no gosto e no apreço pela mulher.

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