Resta como maior desgraça a realidade dos milhões de refugiados e dos mortos, ucranianos e russos. Até ver não há outros. | por António Pinho Vargas

Zelenskii percebeu muito bem que no ocidente se comunica no Facebook, no YouTube e se governa por tweets desde Trump.

Tudo no modo de expressão ou na estética do video-clip. 
Frases curtas, fáceis de reproduzir e memorizar. Palavras de ordem como soundbytes.

No cenário real da terrivel guerra na Ucrânia, a “estética” que adoptou permite que venha à memória todo o cinema-catástrofe de Hollywood.

Diz-se que há uma enorme quantidade de pessoas na Ucrânia a trabalhar na produção de videos e na sua disseminação nas redes.

Comparada com esta sofisticação, a comunicação de Putin ou Xi Jinping parece pré-moderna. Putin usa parcialmente idênticos quase-tweets, alguns slogans tão fáceis de enunciar como fáceis de desprezar nos media ocidentais. No entanto a encenação kitsch das cenas do Kremlin foi patente. A grande distância entre o czar e os seus súbditos parece inspirada mais pela mesa de jantar do palácio de Citizen Kane de Orson Welles do que por Ivan, o terrível de Eisenstein.

Do lado americano – o vulto escondido por trás do arbusto, como disse o outro – há igualmente uma redução do discurso político aos tweets.

A frase “we’ll defend every inch of our alliance” dita por Biden, repetida por Kamala Harris, por Blinken e pelo secretário geral da NATO inúmeras vezes tornou-se insuportável pela sua rígida fixidez e pela articulação mal disfarçada entre todos. 

E contrasta de modo espetacular com o herói no teatro da guerra, no teatro das operações. Há muitas décadas que não havia no imaginário ocidental nenhum “actor” no terreno de guerra tão convincente como Zelenskii.

Sabemos, para além de toda a propaganda, que arrisca a vida.

Ouvi-lo e vê-lo com farda ou camisa verde a falar online no Congresso dos EUA para uma quantidade de gente de fato e gravata ou vestidos coloridos, é um retrato da ausência de heróis que o ocidente talvez sinta, o vazio que Zelenskii veio preencher.

Tudo isto mostra um vídeo-mundo, um audio-mundo que as televisões tornaram global. Existe um certo grau de desconforto perceptivo entre a retórica bélica das palavras dos dirigentes ocidentais e o carácter ao mesmo tempo autêntico e manipulado, simultaneamente real e Hollywoodesco, dos clips de Zelenskii. Há uma guerra e nas guerras a propaganda tem sempre um papel crucial pelo menos desde Hitler e Churchill (na rádio).

Tudo nos é dado a ver num pacote comunicacional produzido com fragmentos do real, sendo que o real e a sua mediação comunicacional se misturam e confundem de forma difícil de descortinar: há o real e uma representação do real praticamente no mesmo plano. Talvez se esteja a assistir a uma transformação radical das regras e da realidade política do mundo.

Resta como maior desgraça a realidade dos milhões de refugiados e dos mortos, ucranianos e russos. Até ver não há outros.

Retirado do Facebook | Mural de  António Pinho Vargas

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