Pensar e Criar em tempos de desafio/difíceis/árduos …
Debates do PEN
18.02.2013, 19h00
Goethe-Institut
Biblioteca
Campo dos Mártires da Pátria, 37
1169-016 Lisboa 00351-2188245-10 info@lissabon.goethe.org
André Teodósio à conversa com André Barata e Maria João Cantinho. Na ordem do dia estão o pessimismo e a angústia. André Teodósio é o nosso convidado para debater formas e modos de intervenção possíveis, na nossa cultura actual. Como pensar, como agir e intervir socialmente neste contexto é o desafio que propomos neste debate, como modo de ensaiar o salto do pensamento.Maria João Cantinho é professora no Iade e no secundário. Doutorada em Filosofia Contemporânea, é também escritora, crítica e ensaísta. Publicou A Garça (ed. Diferença, 2001), O Anjo Melancólico (Ed. Angelus Novus, 2002), Sílabas de Água (ver-o-Verso, 2005), Caligrafia da Solidão (Ed. Escrituras, 2006), O Traço do Anjo (Edium, 2011). Colabora regularmente com várias revistas literárias e de Filosofia, como a Colóquio-Letras, a Ler, entre outras publicações. É membro da Direcção do Pen e da Associação portuguesa de Críticos.André Barata é Doutor em Filosofia Contemporânea pela Universidade de Lisboa. É professor na Universidade da Beira Interior, onde dirige o mestrado de Ciência Política. Nessa universidade, é ainda investigador e membro da direcção do Instituto de Filosofia Prática. É Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Filosofia Fenomenológica. Dirigiu a revista Análise (2005/06). Publicou em 2000 Metáforas da Consciência (Porto, Campo das Letras), em 2007 Sentidos de Liberdade (Covilhã, Ta pragmata) e, em co-autoria com Rita Taborda Duarte, Experiências Descritivas(Lisboa, Caminho), em 2010 Mente e Consciência (Lisboa, Phainomenon). Co-editou em 2011 Representações da Portugalidade(Lisboa, Caminho). Publicou em 2012 uma colectânea de ensaios de teoria política intitulado Primeiras Vontades (Lisboa, Documenta).
André Teodósio, n. 1977, é um actor e encenador português de teatro. É membro fundador do Teatro Praga, tendo também integrado a companhia de teatro Casa Conveniente, e colabora assiduamente com a companhia de teatro Cão Solteiro. Para além dos trabalhos desenvolvidos com o Teatro Praga encenou a solo os espectáculos Três mulheres, de Sylvia Plath, Diário de um louco, de Nikolai Gogol, Super-Gorila e Supernova, co-criados com José Maria Vieira Mendes e André Godinho. Encenou as óperas Metanoite, de João Madureira, Outro Fim, de António Pinho Vargas, Blue Monday, de George Gershwin e Gianni Schicchi, de Giacomo Puccini . Escreve regularmente para diversas publicações sendo autor do textoCenofobia editado pela Fundação Culturgest e autor do ciclo Top Models que inclui Susana Pomba (um mito urbano) e Paula Sá Nogueira (um bestiário). É ainda co-autor do bailado Perda Preciosana Companhia Nacional de Bailado. Tem apresentado os seus trabalhos em inúmeros teatros portugueses e estrangeiros. Foi nomeado pelo jornal Expresso como um dos 100 portugueses mais influentes de 2012.
Por mero acaso li, nos últimos meses, várias publicações em que erradamente, sendo o erro grosseiro, se atribui a forma das chaminés cilíndricas de Santa Maria a hipotéticos povoadores algarvios. Uma fantasia nascida a meados do século XX. O erro é por demais grosseiro, até porque, para além de não ter fundamento histórico, as chaminés de Santa Maria raramente se assemelham às do Algarve, ou do Alentejo, como também há quem diga, chaminés estas em que a finalidade estética se sobrepõe normalmente à funcional. Em Santa Maria, porém, as chaminés cilíndricas generalizaram-se por ter sido provada a excelência do seu funcionamento. Uma razão é suficiente para se perceber que se trata de engano – ao contrário do que é comum dizer-se, do Algarve não vieram povoadores para esta ilha. Para a Madeira, sim, conforme registou Frutuoso. A este respeito, num dos mais bem documentados estudos sobre o descobrimento e povoamento dos Açores, Viriato Campos escreveu: “Tem-se admitido que os primeiros povoadores vieram do Algarve, mas não se conhece nenhum documento que o prove. Vemos aqui um caso dedutivo ou de imaginação, certamente porque o Infante D. Henrique vivia grandes épocas no Oeste algarvio, esquecendo-nos que ele era Duque de Viseu e Senhor da Covilhã, e que o Infante D. Pedro, Regente do Reino, tinha a sua casa em Coimbra. Veja-se que Gaspar Frutuoso, ao tratar da ilha de Santa Maria, nem uma só pessoa indica como vindo do Algarve. Vieram, sim, de Moura, Chamusca, Vila do Conde, Santarém, Santar, Tonda, Silgueiros, Besteiros, Guarda, Covilhã, Recardães, Estremoz, Trofa, Góis, Oliveira do Conde… e Viseu //”.
Mais ainda. A maior parte das casas rurais da época do povoamento não tinha chaminé. O fumo escoava-se por entre as telhas ou por um buraco feito no telhado. Isto acontecia não apenas em Portugal, mas por toda a Europa. No livro “Comme vivaient-ils?”, de Claude Quoniam e Étienne Sergery, é dito das casas dos camponeses prussianos do tempo de Frederico II: “A única lareira que há serve para a cozinha. Acesa no chão, é com grande dificuldade que faz ferver a água do caldeirão de ferro, que está permanentemente ao lume. O fumo e os cheiros escoam-se mal pela única janela, raramente aberta, pela porta baixa ou pelas tábuas do sótão//”. Em Portugal ainda subsistem muitas casas assim. Num estudo sobre o concelho de Nelas no final do século XX, José Manuel Sobral descreve-as do seguinte modo: “casas de dois e mesmo de três andares que utilizavam o granito e com paredes interiores de taipa, material por vezes usado nas paredes exteriores; casas sem chaminé ou com chaminé bastante primitiva, com o fumo a escoar-se pelas telhas; casas escuras, as mais pobres sem vidraças, com poucas divisões – a cozinha e um ou dois quartos”.
À abertura no telhado para a saída do fumo chama-se “bueira”, em Castelo Branco. O Dicionário da Porto Editora regista este termo como “furo no fundo da embarcação para escoar as águas, quando em seco”. E, para “bueiro”, o dicionário de Roquete, de 1848, regista o seguinte significado: “Cano de fornalha; respiradouro”.
Facilmente se percebe que as casas com chaminé cilíndrica são mais recentes do que as outras, com chaminé de “mãos-postas”. Ricardo Freitas, um mariense que tem estudado o assunto, atribui este tipo de chaminé cilíndrica à influência dos emigrantes de torna-viagem do Brasil, na passagem do século XIX para o XX, os quais se teriam inspirado nas chaminés dos navios a vapor. A semelhança é notória, sendo as marienses também ditas chaminés de vapor. Daniel de Sá
“Ei, peixe fresco! Ei, chicharro grado!” “Ó Meia-Leca, a como é o chicharro?” – Perguntou o senhor da janela do primeiro andar. “A vinte por dois e meio.” “Não tens vergonha de só dar vinte chicharros por dois escudos e meio? Ainda ontem o Caramujo vendeu a trinta.” “Se o senhor quer os chicharros, é vinte por dois e meio, e acabou-se.” “Dás vinte e cinco?” “Não, senhor. Vinte. Nem mais um.” O senhor mandou a empregada ir buscar os chicharros. Ela pegou num prato fundo e foi. Depois o senhor atirou só duas moedas de um escudo para o meio da rua. O Meia-Leca baixou-se para pôr os cestos às costas novamente. Nem olhou para o dinheiro caído no chão. “Estás muito rico, que duas patacas já não te fazem falta!…” O Meia-Leca parou, fixou o senhor lá no alto mas como se estivesse a olhar de cima para baixo, e disse: “O senhor que fique com as patacas. E guarde-as para lhe fecharem os olhos com elas quando morrer.”
Yo escribí sobre el tiempo y sobre el agua,
describí el luto y su metal morado,
yo escribí sobre el cielo y la manzana,
ahora escribo sobre Stalingrado.
Ya la novia guardó con su pañuelo
el rayo de mi amor enamorado,
ahora mi corazón está en el suelo,
en el humo y la luz de Stalingrado.
Yo toqué con mis manos la camisa
del crepúsculo azul y derrotado:
ahora toco el alba de la vida
naciendo con el sol de Stalingrado.
Honor a ti por lo que el aire trae,
o que se ha de cantar y lo cantado,
honor para tus madres y tus hijos
y tus nietos, Stalingrado.
Honor al combatiente de la bruma,
onor al Comisario y al soldado,
honor al cielo detrás de tu luna,
honor al sol de Stalingrado.
Yo sé que el viejo joven transitorio
de pluma, como un cisne encuadernado,
desencuaderna su dolor notorio
por mi grito de amor a Stalingrado.
Yo pongo el alma mía donde quiero.
Y no me nutro de papel cansado
adobado de tinta y de tintero.
Nací para cantar a Stalingrado.
Mi voz estuvo con tus grandes muertos
contra tus propios muros machacados,
mi voz sonó como campana y viento
mirándote morir, Stalingrado.
Ahora americanos combatientes
blancos y oscuros como los granados,
matan en el desierto a la serpiente.
Ya no estás sola, Stalingrado.
Francia vuelve a las viejas barricadas
con pabellón de furia enarbolado
sobre las lágrimas recién secadas.
Ya no estás sola, Stalingrado.
Y los grandes leones de Inglaterra
rolando sobre el mar huracanado
clavan las garras en la parda tierra.
Ya no estás sola, Stalingrado.
Hoy bajo tus montañas de escarmiento
no sólo están los tuyos enterrados:
temblando está la carne de los muertos
que tocaron tu frente, Stalingrado.
Tu acero azul de orgullo construido,
tu pelo de planetas coronados,
tu baluarte de panes divididos,
tu frontera sombría, Stalingrado.
Tu Patria de martillos y laureles,
la sangre sobre tu esplendor nevado,
la mirada de Stalin a la nieve
tejida con tu sangre, Stalingrado.
Las condecoraciones que tus muertos
han puesto sobre el pecho traspasado
de la tierra, y el estremecimiento
de la muerte y la vida, Stalingrado
La sal profunda que de nuevo traes
al corazón del hombre acongojado
con la rama de rojos capitanes
salidos de tu sangre, Stalingrado.
La esperanza que rompe en los jardines
como la flor del árbol esperado,
la página grabada de fusiles,
as letras de la luz, Stalingrado.
La torre que concibes en la altura,
los altares de piedra ensangrentados,
los defensores de tu edad madura,
los hijos de tu piel, Stalingrado.
Las águilas ardientes de tus piedras,
los metales por tu alma amamantados,
los adioses de lágrimas inmensas
y las olas de amor, Stalingrado.
Los huesos de asesinos malheridos,
los invasores párpados cerrados,
y los conquistadores fugitivos
detrás de tu centella, Stalingrado.
Los que humillaron la curva del Arco
y las aguas del Sena han taladrado
con el consentimiento del esclavo,
e detuvieron en Stalingrado.
Los que Praga la Bella sobre lágrimas,
sobre lo enmudecido y traicionado,
pasaron pisoteando sus heridas,
murieron en Stalingrado.
Los que en la gruta griega han escupido,
la estalactita de cristal truncado
y su clásico azul enrarecido,
ahora dónde están, Stalingrado?
Los que España quemaron y rompieron
dejando el corazón encadenado
de esa madre de encinos y guerreros,
se pudren a tus pies, Stalingrado.
Los que en Holanda, tulipanes y agua
salpicaron de lodo ensangrentado
y esparcieron el látigo y la espada,
ahora duermen en Stalingrado.
Los que en la noche blanca de Noruega
con un aullido de chacal soltado
quemaron esa helada primavera,
enmudecieron en Stalingrado.
Guárdame un trozo de violenta espuma,
guárdame un rifle, guárdame un arado,
y que lo pongan en mi sepultura
con una espiga roja de tu estado,
para que sepan, si hay alguna duda,
que he muerto amándote y que me has amado,
y si no he combatido en tu cintura
dejo en tu honor esta granada oscura,
este canto de amor a Stalingrado.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…
Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.
Maria Gabriela Llansol
in O começo de um livro é precioso
ANA MARIA PEREIRINHA, editora – Planeta Manuscrito, Portugal
Nasceu em Lisboa, no outono de 1965. Aprendeu o prazer de comer com os livros dos Cinco e foi asmática como o Proust (o que lhe proporcionou longos dias de leitura, inclusive de Proust). Tem um mestrado em Literatura Portuguesa Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa, onde trabalhou a obra de Maria Gabriela Llansol. Fez teatro e ativismo cultural, o que lhe deu uma superior formação sobre modos de fazer coisas. Trabalhou no Instituto Português do Livro e das Bibliotecas antes de entrar para o mundo da edição, onde passou pela Temas e Debates, QuidNovi e, desde 2010, Planeta. É editora. Gosta de árvores, de ervas e de coisas aromáticas e com folhas.
Uma miúda desce à rua para se dirigir à estação de metro. É a rua onde mora. Desce os dez degraus de pedra entre a porta do seu prédio e o empedrado do passeio. “Não ia com pressa.” Tal como este relato.
Numa paisagem urbana que lhe é familiar, a de todos os dias, a que conhece daquele percurso, demora-se a menina atenta a todos os pormenores, as ervas entre o empedrado, ali uma bolinha, umas folhas, é o seu olhar introduzindo mistérios na monotonia do seu dia.
No percurso do seu olhar uma mancha negra, uma mancha negra que se estende, que se prende à sua atenção. É então que, como num flashback, a menina inicia o processo inverso, o caminho de regresso a casa. Sobe os dez degraus de pedra entre o empedrado do passeio e a porta do seu prédio. Apanha um saco de plástico. Faz o percurso até à sua descoberta, apanha algo e volta novamente a casa. O ritmo acelera, sobe a escada, entra em casa, vai ao quarto. Momentos soletrados, sendo cada um deles uma fotografia, uma rápida sucessão de fotografias.
As nossas memórias são assim. Momentos de emoção, momentos guardados em fotografias. Podemos passá-las mais depressa ou mais lentamente. O seu mistério dita-nos o ritmo.
Uma miúda desce à rua para se dirigir à estação de metro. Não ia com pressa. Tal como eu, ainda nas primeiras páginas deste Marginal da Cristina Carvalho; desço sobre as suas páginas, leio-as sem pressa, prendo-me aos pormenores, uma erva aqui, uma bola ali, encho de mistério a minha vida.
A comemoração dos 500 anos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) vai ser uma oportunidade para a instituição valorizar o seu papel na afirmação da língua e no reforço da lusofonia.
Com fundos bibliográficos e documentais distribuídos por sete pisos, a BGUC “é a biblioteca central do mundo lusófono”, o que confere à Universidade de Coimbra “uma responsabilidade e uma oportunidade”, disse à agência Lusa o reitor João Gabriel Silva.
Herdeira da Casa da Livraria, mencionada numa ata de 12 de Fevereiro de 1513, quando a Universidade portuguesa funcionava em Lisboa, a Biblioteca Geral promove, a partir de terça-feira, um programa comemorativo que termina com um congresso internacional, em Janeiro de 2014.
“Somos a universidade do mundo que tem mais estudantes brasileiros fora do Brasil”, realçou o reitor, ao confirmar que a BGUC “é a mais rica biblioteca da lusofonia”.
Foi na Universidade de Coimbra (UC) que “a língua portuguesa nasceu, onde foi estudada e desenvolvida”, sublinhou.
“Os tesouros guardados na Biblioteca são um excelente ponto de referência para a estratégia que temos de seguir”, acrescentou João Gabriel Silva.
No último ano lectivo (2011-2012), os brasileiros constituíram o grupo mais numeroso dos alunos estrangeiros da UC, totalizando 1.806 inscritos nas diferentes faculdades.
Com um acervo de 1,5 milhões de livros, disponíveis em 28 quilómetros de estantes, a BGUC quer aproveitar as comemorações como contributo para reforçar as afinidades históricas, linguísticas e culturais dos oito países lusófonos: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
“Temos este conhecimento acumulado, que nos permite encontrar um lugar neste mundo globalizado”, disse João Gabriel Silva, associando a afirmação de Portugal no plano internacional ao papel da UC entre as principais universidades dos vários continentes.
Na UC, uma das mais antigas universidades da Europa, criada em Lisboa, em 1290, e transferida definitivamente para Coimbra em 1537, estudaram “praticamente todas as pessoas que fizeram a construção do Brasil”, salientou.
É o caso de José Bonifácio de Andrada e Silva, que, tendo frequentado a Faculdade de Filosofia, seria um dos seus mais destacados professores, após a Reforma Pombalina da Universidade, no século XVIII.
De regresso ao Brasil, o futuro “Patriarca da Independência” acabaria por assumir papel determinante na emancipação do Brasil face à coroa portuguesa, em 1822.
O primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto, também estudou em Coimbra, na Faculdade de Medicina, em meados do século passado, antes de se envolver, em Lisboa, nas actividades anticoloniais.
Vários presidentes do Brasil foram distinguidos com o título de doutor “honoris causa” pela UC, os últimos dos quais foram Lula da Silva (2011) e Fernando Henrique Cardoso (1995).
O ex-presidente e actual primeiro ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, foi outro dos estadistas de países lusófonos agraciados com esse grau académico, em 2011.
Óscar Niemeyer disse um dia: «não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein». Disse-o nas suas memórias, «As Curvas do Tempo» (Revan, 1998), um fascinante percurso autobiográfico, no qual encontramos as raízes da inspiração do artífice de Brasília e os elos entre a modernidade e o barroco original brasileiro.
ENTENDER A ORIGINALIDADE DE NIEMEYER
A imersão em Minas Gerais levou-nos a compreender a originalidade de Óscar Niemeyer, que agora nos deixou, e a dizer que o barroco une o Brasil de ontem ao Brasil de sempre, e continua no domínio da curvatura, marca do génio de Niemeyer, da «liberdade plástica e da invenção arquitetural». Regressemos ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, iniciativa de um português abastado, Feliciano Mendes, que fez uma promessa para a cura de uma enfermidade. Livre da doença, em 1757, começou a erguer a basílica. A invenção está na arte do Aleijadinho, António Francisco Lisboa. No dia em que lá estivemos, havia multidão, altifalantes e mercancias, que impediram um gozo completo da originalidade. Em torno do santuário, os Passos da Paixão dominam. São sete cenas com um total de 64 figuras esculpidas em cedro pelo artista e seus discípulos. São, porém, os doze profetas representados em pedra-sabão no adro do templo que concitam as atenções, pela sua força e pelo carisma (usemos a palavra sem receios). Amos, Abdias, Isaías, Jeremias, Habacuc e Naum; entre a escadaria Baruc e Ezequiel; e na amurada: Jonas, Daniel, Oseías e Joel. «Estamos, diz-nos Nemésio (com cuja palavra contámos nesta peregrinação inesquecível), em presença de uma autêntica escultura sinfónica, gesticular e polimórfica, que procura vencer a sábia variedade de atributos pela conceção atrevida e móbil do gesto, que vai da imprecação à perplexidade através da concentração e do êxtase, e que, dos bucres de cabeço aos esguichos do golfinho de Jonas feitos alamaras da indumentária assume na estase de Daniel um dos melhores conseguimentos da imaginária barroca». Vistos de longe, como o escritor verificou, os Profetas do adro de Congonhas ganham um estranho aspeto de conciliábulo, que ultrapassa em intensidade a observação pormenorizada das figuras. É, de facto, um verdadeiro «ballet» do Aleijadinho que presenciamos, num exemplo singular que dá a este barroco um sentido de intemporalidade. E o mais curioso é ver como é a marca do mestre que se nota como elemento unificador, uma vez que as diferenças não deixam despercebido o gesto comum.
O VELHO ARRAIAL DA PONTA DO MORRO «Serranias ermas e fausto no povoado». V. Nemésio marca desse modo a identidade das cidades mineiras. Sentimo-lo, de novo, em Tiradentes, nascida em 1702, a partir do Arraial da Ponta do Morro, que em 1718 passou a chamar-se Vila de S. José d’El-Rei, em homenagem ao Príncipe D. José – adquirindo a atual designação depois do fim do Império e da proclamação da República. Hoje é uma atração turística, com o seu centro preservado. Muitas das antigas casas acomodam agradáveis pousadas, restaurantes de comida mineira e lojas de artesanato. Poderíamos dizer que depois de tudo o que vimos desde Diamantina, haverá já poucas surpresas. Puro engano! Não nos surpreende talvez o Chafariz de S. José de Botas, até a Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas sim a extraordinária Matriz de Santo António, construída entre 1710 e 1750, uma das igrejas mais belas do barroco mineiro. O altar-mor singulariza-se por um paradoxal equilíbrio e pela teatralidade barroca, que nos prende e atrai. Colunas torsas, atlantes, anjos, cornucópias, volutas, conchas e folhas. Será por certo das mais requintadas igrejas do original barroco mineiro. O entalhador João Ferreira de Sampaio exprime aqui o seu enorme talento, percebendo-se que conhecia bem a arte italiana e admirava Bernini. O altar-mor domina pelos elementos e singularidade, a imagem da Virgem da Conceição do lado do Evangelho é extremamente bela. As representações da última ceia e das bodas de Caná não passam despercebidas, esta é, aliás, o testemunho de uma festa setecentista. Na igreja da confraria de Nossa Senhora do Rosário, a talha dourada domina o altar-mor, com retábulos laterais representando os padroeiros da comunidade negra – S. Benedito e S. António de Cartagerona.
MÚSICA EM S. JOÃO D’EL-REI
Compreendemos bem as invocações de Nemésio sobre o modo como retemperava forças nestas paragens. A feijoada mineira e os acepipes enchem-nos a alma. Depois, seguiu-se a visita ao Museu de Liturgia, recém-inaugurado, muito pedagógico e com moderno rigor museológico. O movimento da cidade é intenso, motivado pelo fim de semana alargado. No dia seguinte, em S. João d’el Rei, domingo, na Igreja de S. Francisco, a irmandade da Ordem Terceira saúda-nos com inexcedível simpatia. Anna Maria Parsons vem ao nosso encontro. O coro e a orquestra que acompanham a cerimónia litúrgica são de primeiríssima qualidade. A cidade tem uma antiga tradição, de mais de um século na música clássica, coral e sinfónica, que António Pinto da França já nos tinha justamente enaltecido. Ao ouvirmos o Kirie, o Hossana e o Glória, somos transportados à espiritualidade suprema, com autores mineiros celebrados. É um trabalho continuado que foi reforçado, nos últimos anos, pela formação de dotadíssimos cantores e instrumentistas. De novo encontramos António Francisco Lisboa, e vemos que aqui o diminutivo é considerado pejorativo. A professora Parsons chama-nos a especial atenção para as imagens dos altares laterais representando S. João Evangelista e S. Gonçalo de Amarante. Aqui está o mestre de Congonhas em todo o seu esplendor, ficando demonstrada a sua elevadíssima formação e grande conhecimento. Foi aluno da escola franciscana do Hospício da Misericórdia, tendo aprendido grego, latim e história, tomando contacto com a melhor arte europeia. E o barroco transfigura-se. Há em S. João Evangelista algo que encontramos no Profeta Daniel de Congonhas. A teatralidade, o movimento, o domínio da curvatura, a compreensão do corpo. Seguimos pelas ruas de S. João. Recordamos a memória do Presidente Tancredo Neves – e sentimos a esperança existente em torno de seu neto Aécio. Descobrimos o templo mais antigo da urbe, da confraria dos homens pretos (1719), continuamos em Nossa Senhora do Pilar, a matriz, com celebradas talhas douradas, e as referências continuam: Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Carmo. Recordamos as gárgulas em forma de canhão, já encontradas em Ouro Preto. E fica-nos na retina a exuberância e ao mesmo tempo o equilíbrio da fachada de S. Francisco de Assis, desenhada por António Francisco Lisboa. As dúvidas desvanecem-se, tão nítida é a marca indelével do artista e da sua oficina. A cidade pequena está conservada pelo tempo… E terminamos o dia no Solar da Ponte em Tiradentes. A receção é esmerada e cuidadosa, com um chá às cinco em ponto, como mandam todas as regras. Anna Maria Parsons explica-nos com minúcia por que motivo é errado falar-se de uma decadência de Minas Gerais, entre 1730 e 1789, já que é o tempo do desenvolvimento da agricultura e da pecuária e de um novo impulso económico equilibrado e preparatório da fase pós-colonial. E Suelly de Campos Franco explica-nos como o Minho e Minas Gerais estão intimamente ligados pelas tradições religiosas.
ele caminha na rua como um homem pai de família, atravessa quando o bonequinho indica, acena ao chaveiro, bate na porta do vizinho para tomar emprestado as ferramentas e as devolve a tempo sem cobranças necessárias. conquanto não goste de igreja pendura no cabide de madeira o terno domingueiro de um azul acinzentado e na intimidade, talvez na hora de barbear-se, o francisco pede proteção divina e se recorda do pai nosso rezado pela mãe numa infância.
DANNY McBRIDEwas born in 1951 in Toronto, and has spent all of his working years in the arts as a musician, composer, singer and artist.
First as a musician, composer and songwriter, Danny made world tours with the likes of David Hasselhoff, Chris de Burgh and Joe Cocker. His illustrious music career has netted him several gold and platinum records and a profile that still keeps him newsworthy. In 1996 he wrapped up a US and Taiwan concert tour and began to slow his pace.
Danny, now a painter, moved to British Columbia and began a new phase in his life. He is a self-taught artist whose unique figurative style soon emerged. His acrylic images come alive on canvas in textured still-lifes and smoothly finished ladies in hats. His art is always exciting as he creates scenes that are light-hearted and fun. His images are frequently sculptural in form, with layers of paint built up on the canvas, creating a very textured and bold composition.
His paintings have made a large impact with collectors across North America and Europe.
I now know the true reason van Gogh cut off his ear for the Clampitts recently faced similar circumstances.
A well-intentioned van Gogh signed on to a group tour of the South of France in order to divine inspiration from the picturesque surroundings. Upon arrival he discovered the only way to enjoy the bucolic setting without having to listen to the woman next to him complain about her hemorrhoids was to cut off his ear. After the removing the ear, he was still able to hear the screaming of the kids forced to participate but too young to be without an afternoon nap and a bottle as the listening part of the ear was still in tact. He then stuffed his ear canal with cotton and covered it with gauze. This was not enough to drown out the prattle of the tour guide determined to impart 1500 years worth of…
Ora, pergunto eu, porque não renegociar a dívida e baixar a fatura altíssima de juros? Se a Irlanda e a Grécia já o fizeram, porque não o faz Portugal? E, já agora, que sentido faz cortar 4 mil milhões de euros em despesas sociais quando se gastam quase 14 mil milhões nos nossos bancos? A austeridade não se aplica à banca e aos banqueiros?
Paulo Tavares (Lisboa, 1977), poeta e professor de Português e de Inglês, é, actualmente, investigador do CETAPS (Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies) e do CECL (Centro de Estudos de Comunicações e Linguagens) da Universidade Nova de Lisboa, estando a desenvolver, como bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, uma tese de doutoramento na área dos Estudos Literários. Publicou os livros de poesia Pêndulo (Quasi, 2007), Minimal Existencial(Artefacto, 2010) e Linhas de Hartmann (&etc, 2011). É editor da Artefacto e director da revista Agio, ambas integrantes do Departamento Literário da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.
Mantém, com alguma intermitência, o blogue Atravessando o Inverno (atravessandooinverno.blogspot.com)
L’Europe, première économie mondiale, peut encore changer le cours des choses. À condition que ses dirigeants, la gauche française en particulier, décident enfin “d’arrêter les rustines”. Cela suppose de prendre conscience des causes réelles de la crise financière : la déformation du partage de la valeur ajoutée depuis l’arrivée au pouvoir de Ronald Reagan aux États-Unis et de Margaret Thatcher en Grande-Bretagne.
Pedro Tiago nasceu em Óbidos, em 1983. Vai mantendo o seu percurso existencial. Lê livros. Vê filmes. Ouve música. Vai a concertos. Gosta de ir ao cinema. Passeia. Vai a cafés. Bebe cafés. Fuma muito. Pedro Tiago ainda insiste em acabar uma licenciatura naquilo a que, em tempos, se chamou de “Línguas e Literaturas Modernas” e que, hoje em dia, possui uma imensidão de nomenclaturas. Em 2011 publicou o seu primeiro livro, por intermédio das Edições Artefacto, sob o nome de O Comportamento das Paisagens. Pedro Tiago mantém blogs vários, ou, pelo menos, nunca se deu ao trabalho de os apagar e, de quando em vez, ainda vai lá deixando coisas. Uma vez que o mais frequentemente actualizado é o blog lonely gigolo, fica a referência apenas a esse, teimosamente alojado no servidor blogdrive. Leva para todo o lado o seu caderno de capa preta, à espera de uma epifania joyciana, e escreve sempre, sempre muito, sempre muito tempo.
Como enumera Elaine Sciolino enThe New York Times, en Los 120 días en Sodoma el Marqués de Sade describe “orgías y abusos […], actos de pedofilia, necrofilia, incesto, tortura, violación, asesinato, infanticidio, zoofilia…”.En algunos países esto bastaría para ordenar su retirada de las bibliotecas públicas, pero no en Francia, donde consideran que la obra es un tesoro nacional. No puede decirse lo mismo de obra fotográfica del poeta Allen Ginsberg, un álbum de recuerdos beat que ahora se expone en Nueva York, pero sí deJane Austen: ni un solo periódico/suplemento cultural se ha olvidado del cumpleaños de Orgullo y prejuicio y, además, según un reciente estudio, ella ySir Walter Scott son los escritores más influyentes del siglo XIX. Empezamos.
FRANCIA
Los 120 días de Sodoma era, según su autor, el Marqués de Sade, “la historia más impura jamás contada desde que el mundo es mundo”. Bruno Racine, director de la Biblioteca Nacional de Francia, considera que es una obra “depravada”, sin duda. Pero también un tesoro nacional y por ello está dispuesto a pagar en torno a cuatro millones de euros por el manuscrito de la obra escrita por Sade mientras se encontraba preso al coleccionista suizo Gérard Nordmann. “El documento de Sade es una obra atroz, extrema y radical. Pero no la juzgamos moralmente”, insiste Racine. Éste dirige la institución francesa desde 2007 y entre sus objetivos siempre estuvo el de recuperar importantes manuscritos clasificados como “tesoros nacionales”. En 2010 se hizo con las memorias de Casanova, y también ha comprado los archivos de Michel Foucault o Guy Debord. (vía The New York Times)
Los artistas belgas Auriae Harvey y Michaël Samyn han creado un videojuego basado en la novela Moderato cantabile de Margerite Duras. (víaLe Nouvel Observateur)
«Velhinho,
Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.
Há uma série de coisas que são um problema:
1. A tua pessoa;
2. A tua pessoa nunca estar cá;
3. Não termos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
4. Não termos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
5. Andarmos totalmente putas da vida porque não temos orgamos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
6. Não falarmos porque não temos as nossas conversas depois dos orgasmos que não temos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá.
Por mais que tentemos, não conseguimos perceber porque é que continuas em Armação a fazer turistas por vinte e cinco euros, em vez de estares aqui a cumprir o teu dever com a cabeça entalada no meio das nossas pernas.
Vamos abrir outra garrafa e cheirar o que ainda aí houver, para clarear as ideias. Esperamos que não tenhas tomado tudo, como fazes sempre. E essa é a outra coisa que nos deixa ainda mais fodidas. Nós às vezes também fumamos os restos do chocolate ou damos o último tirinho. Mas sentimo-nos mal. Sabemos que não o devíamos fazer. Tu não. Tu nem pensas nisso. Quando vês uma carreirinha de sobra, se for preciso até vais para a cozinha só para não teres de a dividir, como aconteceu no mês passado.
qué que tás a fazer?
tava a cheirar o restinho
vieste cheirar e não me chamaste?
era o meu resto
e não podias dividir?
já tínhamos dividido, tu ficaste com quase tudo e sobrou meia linha pra mim
metade dessa meia dava na boa pra mim
tu fizeste as outras três cavia
isso foi antes
era só um tirinho, nem deu pra nada
deu pra ti, podia ter dado pra mim
mas tu já tinhas dado, dama
tu não me dames
amanhã há mais, prometo, era só uma miséria
é bom caja, pobre
não me chames pobre
preto
mulato, se fosse preto matava-me.»
[in Maria dos Canos Serrados, de Ricardo Adolfo, Alfaguara, 2013]
Ella, junto a uma multidão de gente exasperada, perante uma viagem que aparenta não querer ser boa ideia. Ansiedade alcatifada pelos corredores onde a sinalética para a casa de banho, Damen e Herren, é o único vestígio de uma humanidade que outrora tivemos antes de aprendermos a voar. Ella duvida, se calhar o melhor era deixar-se colada ao chão, segura:
»Cagar e mijar e nunca ambicionar ser mais que um animal rastejante«
As paredes de vidro junto às quais aguarda contemplam a pista de aterragem donde avião nenhum descola há mais de três dias. Está sozinha e traz consigo apenas uma bagagem de mão. Não se permite ter medo, mas nota que o seu corpo não sossega dentro dos limites da sua pele.
Uma voz mecânica e altifalada tenta sobrepor-se ao descontentamento das pessoas, visivelmente exaustas e indignadas. Anuncia mais dois voos que, todos pelo mesmo motivo, vêem-se forçados a ficar em terra. Muitas pessoas vão e voltam para suas casas, para casas de amigos, ou para hotéis, mas Ella deixa-se ficar no aeroporto. Há já quem monte tendas, estenda roupa, e se prepare para fazer do aeroporto morada. Há quem planeie um dia chegar ali a ser feliz.
Não tarda alguém irá encontrar uma forma de cozinhar algo, vai cheirar a comida, os miúdos farão dos cinzeiros de pé balizas de futebol, e lentamente surgirá neste aeroporto uma pequena maqueta social. As pessoas começarão a distinguir-se pelo que nelas é diferente e não pelo que as une, e surgirá dentro de cada grupo o primeiro casal. O enamoramento deles terá um efeito contagiante, e por escassos momentos reinará a harmonia. As pessoas especularão, incrédulas:
– Como não nos lembrámos antes de vir viver para o aeroporto?
Até alguém começar a cobiçar um terceiro:
Alguém do grupo do átrio B do pavilhão das partidas cobiçará porventura alguém da zona de chegadas. Os diferentes grupos começarão também a cobiçar espaço, mais território, invejosos das espaçosas casas de banho a que têm acesso os da zona do pessoal de voo. Surgirão os primeiros conflitos. A guerra virá logo atrás da cobiça, mas por ora tudo isto se reduz ao barulho que faz um homem no arrastar de vários bancos, motivado que está em construir uma cama mais confortável para si e para a companheira. Alguém que por isso terá de ficar a dormir no chão – protesta.
Resolve então vaguear por outros terminais. Dirige-se para o pavilhão das chegadas, onde ninguém chega há três dias, pelo mesmo motivo que ninguém parte. Imagina-o por esse motivo mais vazio, mas quando lá chega constata que não. Pelo contrário. Junto ao corrimão das chegadas depara-se com um grupo obstinado de pessoas que ali aguardam, ainda, ou já, segurando ao peito folhas com tipografias variadas, apelidos de distantes proveniências, e alguém até que insiste numa pequena bandeirola, escrito nela um hispânico e colorido:Bienvenida ! Duvidando de si mesma, procura um painel electrónico para confirmar aquilo que já sabe – não estão a chegar voos. Observa a resiliência destas pessoas e não percebe como podem conseguir enganar-se assim, e manter o desengano ao longo dos dias.
Mobilizada por tudo aquilo, atravessa por uma porta sem fechadura e trancada apenas pela convenção social de um símbolo vermelho e as palavras: Kein Zutritt. Infiltra-se pelos corredores da recolha de bagagens, rasteja por passadeiras rolantes paradas, olha directamente para uma câmara de vigilância que deve estar neste momento a denunciar a sua entrada furtiva. Mas ninguém virá a tempo de a impedir de fazer nada arrojado, pois tudo o que ela quer fazer é atravessar as portas de abertura automática:
Como alguém que chega.
Ainda incorre é certo num furto ligeiro, ao agarrar de uma das passadeiras uma bagagem de porão esquecida, ou extraviada, uma mala que ali está e que ela sabe que ninguém virá tão cedo reclamar. Respira fundo e espera um sinal vindo do outro lado da porta de abertura automática que lhe sirva de deixa de entrada. Os focos todos virados a ela, um palco só seu.
Abrem-se a par as portas automáticas. Uma dezena de rostos iluminam-se ao vê-la, mal ocultando o seu espanto. As pessoas reordenam-se e agitam mais alto as suas folhas contendo nomes tipografados à mão ou impressos a computador. Alguns logótipos. Certas folhas dentro de capas de plástico outras coladas a um suporte rígido. Todos querem ser o eleito.
Ella desfruta da sensação de ser quem todos eles esperavam. Já tinha seleccionado de antemão, e por intuição, um senhor baixinho e careca na extrema ponta esquerda, com ar cabisbaixo e cansado, segurando desesperançado um papel nele escrito: MMELLE. FRANKA ALLONTANT. Ella Bouheart dirige-se a ele em passo determinado, e sorri.
O rosto do homenzinho descobre-se de esperança – percebe que é ele o escolhido. Fala-lhe em francês, ela não entende, mas ouve o seu nome, o seu novo nome, e sabe que tem de dizer: Oué Oué; e por veracidade adiciona um: Bonjour; mas não se arrisca a mais. Sorri, cala-se, e segue-o.
Ele já lhe tomou ambas as bagagens e já a conduz ao exterior do enorme edifício. Atravessam juntos o enorme parque de estacionamento, onde se podem contar o número de viaturas pelos dedos, e o dedo mindinho é o dele, um carro à proporção do seu condutor. Ele coloca as malas na bagageira traseira, e Ella sorri, mas permanece calada. O homem transpira entusiasmo, fala por ele e por ela. Ella entretém-se todo o percurso com a sua chanson française, maravilhada pela cidade lá fora. A mesma onde vive faz mais de duas décadas.
O homem coloca então uma pergunta que soa importante pelo tom e pela posição das pausas. Olha-a e espera resposta. Ella sorri-lhe, ele aguarda-a, e enche-se o carro de um silêncio incómodo. Por sorte, cruzam nesse preciso momento uma enorme rotunda, centreada por uma colunata com uma cúpula impressionante ao topo, decorada a filigrana dourada, e Ella encavalita-se para fora da janela, fascinada pelo monumento que na realidade já está cansada de ver. Mesmo assim, desta vez, olha-o como se nunca o tivesse visto antes. Sem fingimentos:
»Como é belo !…«
Pensa. E quando recolhe de novo ao interior do carro a pergunta parece ter sido esquecida. O homem parece consolado pelo entusiasmo infantil dela perante os tesouros arquitectónicos da sua cidade natal. Sente-se orgulhoso de ter nascido e crescido ali, como se ela admirasse um membro do seu próprio corpo, é tanto o quanto ele se confunde com a sua cidade.
excerto de “O Lago Avesso” (romance) publicação prevista 2013, editorial Caminho
Não sendo uma virtude como tradicionalmente são consideradas a justiça, a coragem, tolerância, etc., a vergonha é um sentimento que desempenha uma função indispensável na vida ética de qualquer sociedade. Aristóteles dedicou-lhe breves linhas nas suas obras de filosofia moral e descreve-a como “o temor da desonra que produz um efeito semelhante ao medo perante o perigo” (Ética a Nicómaco, iv). Acrescenta que a vergonha não é boa nem má em si mesma, mas que inibe o comportamento maldoso, voluntariamente praticado. Na literatura actual é cada vez mais estudado o papel da vergonha na chamada ética aplicada e muitos autores defendem que o impacto na consciência colectiva da exposição pública de comportamentos vergonhosos é bastante maior do que a mera aplicação da sanção jurídica.
Vem isto a propósito da total falta de vergonha manifestada com cada vez maior frequência por uma parte substancial de alguns dos principais actores da nossa vida política e económica. Agora mesmo a televisão e os jornais dão-nos conta de um banqueiro, Fernando Ulrich, que em conferência de imprensa, ao mesmo tempo que apresentava lucros do seu banco da ordem de centenas de milhões de euros (ainda por cima com origem, em grande parte, nos bolsos dos contribuintes), defendia a austeridade com o argumento que até os sem-abrigo aguentavam a dita e se qualquer dos presentes, ele incluído, caísse nessa situação a vida continuava, que remédio…Poucos dias depois, o primeiro-ministro e o ministro da economia defendiam publicamente, até com indisfarçável orgulho, a nomeação para o governo de um antigo administrador do BPN, como se sabe a fachada para a maior fraude financeira que o país conheceu até hoje.
Johanna Selhorst “Josie” Maran é um actriz e modelo norte-americana. Josie Maran iniciou carreira jovem, aos 17 anos. Modelo e atriz já participou de várias campanhas publicitárias para empresas como Maybelline, Guees e Marie Clarie. Wikipedia
Alfreda ou a Quimera é a história de uma obsessão, de uma paixão por uma bela e misteriosa mulher com quem o protagonista deste romance – um bibliófilo portuense – se relaciona intima e fugazmente. Essa paixão passa a reger a sua vida, os seus interesses, os seus actos, os seus pensamentos, enquanto ele tenta reencontrá-la. Quando a reencontra, ou quando a verdade sobre ela é revelada, apesar do desapontamento que o atinge e do seu desinteresse em reencontrá-la carnalmente, João de Melo renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado que entretanto encontrara com outra mulher, para se entregar à quimera de Alfreda. As histórias que acabam bem não fazem história; mas alguns episódios obscuros e mal resolvidos marcam-nos para sempre. Além da história central do livro, destaquem-se ainda a relação do protagonista com Pips, o seu amigo homossexual inglês, e a relação apaixonada que mantém com o mundo dos livros e com a sua cidade do Porto.
No mês em que se comemora o Dia de São Valentim, o Teatro Rápido oferece-lhe quatro peças de 15 minutos para ser apaixonar. Sob o tema de Por Amor, tudo aqui vai ser permitido. Porque ninguém gosta de estar sozinho, porque todos sonham em encontrar a outra metade da laranja. O problema é quando os sonhos se tornam realidade. Sim! Porque às vezes os sonhos concretizados revelam ser o maior problema…
Tiago Torres da Silva volta a escrever e encenar no TR, desta vez com os atores Fernanda Neves e João Passos. Assinalamos também o regresso de Ana Saragoça enquanto autora do texto que Rosa Villa encena e interpreta ao lado de Hugo Costa Ramos. O TR recebe em estreia Cristina Areia com encenação de João Ricardo e Lídia Muñoz pela mão de Miguel Graça. Um leque de nomes a não perder!
Sebastião Ribeiro Salgado Júnior é um fotógrafo brasileiro reconhecido mundialmente por seu estilo único de fotografar. Nascido em Minas Gerais, é um dos mais respeitados fotojornalistas da atualidade. Wikipedia
Em homenagem a Fabi, Renata, Desireé, Bianca, Camila e Sueli
Leontina ― eis o verdadeiro nome da empregada Filomena. Pobre Leontina… Infeliz a hora em que foste franca! Infeliz, Leontina, é o mundo em que vivemos.
Pobre Leontina… Que é feito de ti? Imagino-te noutra casa: novo emprego, nova família. Imagino-te quieta, soturna talvez, sabendo a rotina de teus novos patrões, entreouvindo a conversa de tua nova patroa. Mas calada. Sem dar um pio.
Pobre Leontina… Teu destino não é mais triste que o de Perséfone, nem mais inesperado que o de Eva.
ICS-Instituto de Ciências Sociais – Sala Polivalente – Av. Professor Aníbal de Bettencourt, 9 – 1600-189 Lisboa – Portugal
Entrada livre.
Inscrição obrigatória através do mail comfuturo.economia@gmail.com.
O “Assunto/Subject” da mensagem deve referir ACÇÃO DE FORMAÇÃO PARA JORNALISTAS.
O mail deve conter:
– Nome profissional
– Órgão de comunicação para onde trabalha
– Área profissional / Secção
– Mail
– Telefone
– Um parágrafo especificando as razões por que esta formação lhe interessa.
Esta acção de formação destina-se não apenas a jornalistas de Economia mas a todos os jornalistas que sentem necessidade de reforçar os seus conhecimentos de Economia para compreender melhor o contexto social, político e económico onde se movem.
FORMADORES
Carlos Farinha Rodrigues – ISEG-UTL
Ricardo Paes Mamede – ISCTE-IUL
Eugénia Pires – Universidade de Londres
A formação está limitada a DOZE formandos. A selecção será feita com base no perfil dos formandos.
Ricardo Cabral é economista e professor na Universidade da Madeira. Na segunda-feira, deu uma entrevista ao Público. Vale a pena ler o que ele diz. Quando já se acha que está tudo dito, quando até parece que o clima económico está a virar, Cabral destrói a narrativa do Governo: a de que a recuperação se fará pelas exportações e que isso bastará para que o Sol volte a brilhar. Os argumentos de Cabral são simples. A receita da troika implica um ajustamento externo inconcebível. Tradução: “Um país que nos últimos 236 anos teve apenas sete anos com superavits comerciais – vendeu ao exterior mais do que comprou – se torne um país com um desempenho no sector externo superior à média histórica da Alemanha.”
Alguém acredita nesta coisa? É bom notar que este triplo salto teria de acontecer numa altura em que a Zona Euro vem de uma recessão, pode até não conseguir sair dela neste trimestre (o ritmo de crescimento nominal das exportações portuguesas está a cair desde março de 2011). Além de que o nosso principal parceiro comercial – Espanha – está a arder financeira e politicamente.
Ricardo Cabral vai mais longe. Diz ele: embora exportar seja fundamental, as empresas que exportam não vivem no limbo. Elas estão ligadas ao mercado interno: ou porque também vendem para ele – e, portanto, sofrem com o colapso da procura -, ou porque têm relações com fornecedores internos, sujeitos a impostos draconianos, ou ainda porque são confrontados com uma força de trabalho esmagada pela violência fiscal. Ou seja: a economia não é compartimentada. Embora quem exporte sobreviva melhor, não deixa de tornar-se menos competitivo por causa do contexto.
E qual é o contexto? Além do que já se conhece, o Governo admite que a retoma prevista para 2014 será pouco ou nada sentida pelas famílias. O contributo do consumo privado para a taxa prevista de crescimento (0,8% ) será de apenas 0,1 pontos percentuais, o valor mais baixo de todos os episódios de recuperação registados desde 1961. O mesmo acontecerá com a procura interna, que oferecerá uma ajuda de apenas 0,2 pontos percentuais, o valor mais baixo nos 53 anos de observações. É bom perceber que estamos a falar de uma previsão e que as previsões são sempre otimistas.
No fundo, a coisa está assim: o ajustamento era inevitável, a herança uma tragédia, mas a recessão está a ser tão profunda que: 1) o desemprego vai a caminho dos 17%; 2) em proporção do PIB, as empresas devem hoje mais do que quando começou a crise; 3) a dívida pública está nos 123% e não está estabilizada; 4) não há crédito e os bancos (em cartel?) continuam a cobrar juros de usura, apesar de o comprarem barato ao BCE. Acreditar que o crescimento surgirá de geração espontânea é não apenas otimista – tem tudo para dar errado. Veremos.
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS – ÁLVARO DE CAMPOS, in POESIAS DE ÁLVARO DE CAMPOS. FERNANDO PESSOA.[ Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993)
O palimpsesto de Arquimedes é o nome pelo qual se conhece habitualmente um palimpsesto – texto antigo escrito sobre outro anterior empergaminho – formando um códice, que originariamente foi uma cópia em grego de diversas obras de Arquimedes, antigo matemático, físico eengenheiro de Siracusa e de outros autores. Posteriormente foi apagado rudimentarmente e usado para escrever salmos e orações de um convento.
O Palimpsesto de Arquimedes inclui cópias de diversas obras do matemático grego:
‘‘Sobre o equilíbrio dos planos’’
‘‘Sobre as espirais’’
‘‘Medida de um círculo’’
‘‘Sobre a esfera e o cilindro’’
‘‘Sobre os corpos aboiantes’’ (única cópia conhecida em grego)
‘‘Stomachion’’ (a cópia mais completa de todas as conhecidas)
Arquimedes viveu no século III a.C., mas o palimpsesto não foi escrito até o século X por um escriba anônimo. Em algum momento do século XII o manuscrito foi desatado, rascado e lavado, com outros seis manuscritos em pergaminho, entre os que se incluía um com obras de Hipérides. As folhas de pergaminho foram dobradas pela metade e reutilizadas para copiar um texto de caráter litúrgico de 177 páginas, de maneira que cada página do escrito antigo se converteu em duas páginas do texto litúrgico. Contudo, o apagado não foi completo, e a obra de Arquimedes está agora acessível graças a que o trabalho científico e acadêmico realizado entre 1998 e 2008 usando métodos de processamento digital de imagens obtidas usando diversas frequências de radiação, incluindo radiação infravermelha, luz ultravioleta, e raios X.[2][3] O acadêmico Constantine Tischendorf visitou Constantinopla (a atual Istambul) na década de 1840, e intrigado pelo escrito matemático grego visível no palimpsesto, levou com ele uma das suas páginas. Esta página atualmente encontra-se na Biblioteca da Universidade de Cambridge. Contudo, seria o filólogodinamarquêsJohan Ludvig Heiberg (1854-1928) que se daria conta, quando inspecionou o palimpsesto em 1906, que se tratava de um texto de Arquimedes, e que continha obras que se acreditavam perdidas.
’’Stomachion’’ é um quebra-cabeça de dissecção cuja descrição aparece no palimpsesto de Arquimedes.
Após realizar um tratamento das páginas do palimpsesto, o texto original de Arquimedes pode ser lido com claridade.
Johan Ludvig Heiberg tomou fotografias da obra, a partir das quais obteve transcrições que publicou entre 1910 e 1915. Contudo, o seu trabalho ficou interrompido pelo começo da primeira guerra mundial. Pouco depois, a obra foi traduzida para o inglês por Thomas Heath, momento em que começou a ser mais acessível e conhecida pelos coletivos de historiadores, físicos e matemáticos. O texto ficou em posse da biblioteca de Constantinopla e cedo desapareceu. Desconhece-se como reapareceu na França após a Primeira Guerra Mundial como propriedade de um colecionador particular que assegura que foi comprado em Istambul pelo seu avô.[4]
Desde a década de 1920 o manuscrito permaneceu em Paris, na posse de um colecionador de manuscritos e dos seus herdeiros. Em 1998 a discussão sobre a propriedade do manuscrito chegou à Corte Federal do Estado de Nova Iorque, no caso que enfrentava o Patriarcado de Jerusalémcontra Christie’s, Inc. Segundo o Patriarcado, o manuscrito pertencia à biblioteca do mosteiro de Mar Saba, que o adquirira em 1625, sendo roubado de um dos seus mosteiros na década de 1920. Porém, o juiz determinou em favor da casa Christie’s, considerando que a ação reivindicatória do Patriarcado de Jerusalém estava prescrita. Após a sentença, Christie’s subastou o palimpsesto, que se vendeu por dois milhões de dólares a um comprador anônimo. Simon Finch, o representante do comprador, indicou que se tratava de um americano que trabalhava na indústria da alta tecnologia, e matizou que não se tratava de Bill Gates.[5] A revista alemã ‘‘Der Spiegel’’ informou de que o comprador provavelmente poderia ser Jeff Bezos.[6]
O Palimpsesto de Arquimedes foi submetido entre 1999 e 2008 a um intenso estudo no Museu Walters, em Baltimore, Maryland, bem como a um processo de restauração (o pergaminho sofrera deterioro por efeito do mofo). Os trabalhos foram dirigidos pelo Dr. Will Noel, curador de manuscritos do Museu, e sob a gestão de Michael B. Toth, com a Dra. Abigail Quandt encarregue dos trabalhos de conservação do manuscrito.
Por outro lado, uma equipa de cientistas usou um sistema de processamento computacional das imagens digitais de várias faixas espectrais, entre as que se incluíam a luz ultravioleta e a visível, para revelar a maior parte do texto oculto, incluindo a obra de Arquimedes. Após processar e digitalizar o palimpsesto completo em três faixas espectrais até 2006, em 2007 redigitalizaram a imagem do palimpsesto em 12 faixas espectrais.[7] A equipa processou digitalmente as imagens para revelar a maior parte do texto oculto. Também digitalizaram as imagens originais de Heidberg. Finalmente, Reviel Netz, da Universidade de Stanford, e Nigel Wilson criaram uma transcrição do texto, recheando os vazios da transcrição de Heiberg com as novas imagens. [8].
Adicionalmente, em algum momento posterior a 1938, algum proprietário do manuscrito falsificou quatro imagens religiosas de estilo bizantino incluídas no manuscrito com a finalidade de incrementar o seu valor. Acreditava-se que estas imagens tornaram completamente ilegível o texto que havia debaixo, mas em maio de 2005 um sistema de raios X de alta definição foi empregue para tentar revelar aquelas partes do pergaminho. A fluorescência produzida com os raios X permitiu aceder também a essa parte do texto oculto.[9]
Em abril de 2007 foi anunciada a descoberta de um novo texto no palimpsesto, consistente num comentário à obra de Aristóteles atribuído a Alexandre de Afrodisias. Anteriormente tinha-se descoberto um texto de Hipérides, um político ateniense do século IV a.C.,[1] e em particular do seu discurso ‘‘Contra Diondas’’, que foi publicado em 2008 na revista acadêmica alemã ‘‘Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik’’, vol. 165.[10]
Em 29 de outubro de 2008, coincidindo com o décimo aniversário da aquisição do palimpsesto por leilão, toda a informação derivada do documento, incluindo imagens e transcrições, foram publicadas na Internet para o seu uso sob Licenças Creative Commons, e as imagens processadas do palimpsesto foram publicadas em Google Livros.[11]
O tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os sentimentos momentaneamente incontroláveis vivem acesos no íntimo do humano Bloom, mas podem ser aplacadas. Bloom espera conseguir manter-se sempre em controlo delas. Mas reproduzem-se até à exaustão do auto-controlo, o limite, que é o regresso. Esse percurso é acompanhado da moral, ou da procura dela: e a procura de uma ética é um itinerário que pode paradoxalmente, matar. Não é, por isso, paradoxal que as regras de substituição da ética individual, como a moral religiosa, matem uma vida de experiências limites. Isso já é sabido, pois a sociedade também as criou como mecanismo de auto-regulação. Mas é paradoxal que depois de se terem construído, descoberto, analisado, melhorado as religiões do mundo, o séc. XIX ainda esteja consumido pela questão da moral. Ela parece ter de acompanhar-nos.
“We need an imaginative approach to redesigning a more complete travel experience.” Alain de Botton, Lufthansa Magazin (12/10). Embora o autor se refira à experiência física e real da viagem, a ficção de Tavares vai-lhe ao encontro: o tema da Índia, o guru e a meditação, o desapego e a procura de desidentificação com o ego na procura de si fazem parte da epopeia. E que parte desempenham nesse percurso o tédio e a forte melancolia? Que mais é a vida de um contemporâneo senão um pouco de tudo isto?
Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks.
Parecia um dia como outro qualquer, 1 de Dezembro de 1955. Uma costureira de 42 anos sentou-se no autocarro nos lugares disponíveis para “gente de cor”. Na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, a lei dizia explicitamente que quando os brancos não tivessem lugares sentados podiam obrigar os negros a levantar-se, e se o veículo estivesse muito cheio os negros podiam ser despejados para a rua.
Nesse dia vários brancos entraram no autocarro e muitos negros levantaram–se dos seus lugares. Mas não todos. Rosa Parks recusou fazê-lo. “Estou cansada de ser tratada como uma pessoa de segunda classe”, disse ao condutor.
O funcionário chamou a polícia. A mulher foi presa por não aceitar ser tratada como escrava.
Nesse mesmo dia, os habitantes negros da cidade de Montgomery deixaram de andar de autocarro. São os pobres que viajam nos transportes públicos. São os pobres que trabalham por salários de miséria. São eles que criam a riqueza de cidades como Montgomery. E aí, no estado do Alabama, os pobres são quase todos negros. O boicote durou 381 dias. 75% dos passageiros dos autocarros, os negros, não cederam. No fim do seu protesto, o Supremo Tribunal dos EUA considerou ilegais as leis racistas do estado do Alabama que discriminavam os negros nos espaços públicos. No dia 21 de Dezembro de 1956, o Reverendo Martin Luther King e outros activistas dos direitos cívicos foram os primeiros negros a viajar, como cidadãos iguais de direito, num autocarro da cidade de Montgomery.
Um acto que mudou a história. Rosa recusou-se a levantar-se do banco do autocarro para dar lugar aos brancos. Foi presa, mas a sua recusa atiçou a revolta pelos direitos iguais. As coisas nunca mais foram as mesmas. Um só gesto fez toda a diferença.
Vivemos hoje em Portugal em condições cada vez piores para a maioria da população.
Ao contrário dos contos de fadas ou dos filmes em que se come pipocas, nada obriga a que depois de uma tragédia haja um final feliz. Mas na nossa liberdade está inscrita a possibilidade de mudar as coisas. Por vezes basta um gesto corajoso.
Porque temos de viver num país em que em tempos de vacas gordas os banqueiros distribuem dividendos à conta dos nossos depósitos e em tempo de vacas magras esses mesmos banqueiros distribuem dividendos à conta dos nossos impostos?
Porque somos obrigados a aturar os governos do grande centrão que foram cúmplices das negociatas do BPN e das parcerias público-privadas?
Porque estamos condenados a aceitar um país que vai ao fundo enquanto os do costume enriquecem?
Numa das tragédias clássicas do teatro grego, “Antígona” opõe-se às leis da cidade que a impedem de enterrar o irmão. Para ela as leis da cidade não estão acima do dever. O seu sofrimento vai derrubar a tirania. Há milhares de anos, como agora, a liberdade vale mais que os repressores de turno. Basta um gesto para o perceber.
Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks. Um acto de contágio que sirva para inocular a recusa de qualquer submissão.
Joana Bértholo
nasceu em Lisboa em 1982 e passou boa metade desse entretanto no estrangeiro.
Em Lisboa formou-se em Design de Comunicação, em Buenos Aires mestrou-se em praticas artísticas de intervenção social e em Berlim doutora-se (ainda, e demoradamente) em Estudos Culturais. A sua tese fala muito de sombras.
Publicados tem pela editorial Caminho o romanceDiálogos para o Fim do Mundo (2010) e Havia – histórias de coisas que havia e de outras que vai havendo (2012) que saiu antes em versão mais curta pela editora Primeiro Exemplar (2006); e ainda pela Baleiazul o argumento banda-desenhado Ausência de Cor (1999).
Premiados tem vários contos, o projeto Boa-Nova(Prémio Jovens Criadores – Literatura, Clube Português de Artes e Ideias, 2005) e o romanceDiálogos para o Fim do Mundo (Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, 2009).
A mencionar ainda o 1.º lugar no Concurso Literário Persona (2006), ou o Prémio Escrevendo a Partir da Pintura (Fundação Calouste Gulbenkian, 2000); a menção honrosa no Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (1998); o Melhor Argumento para BD (SOSracismo e editora Baleiazul, 1999); Melhor Ensaio sobre o Movimento Olímpico (Comité Olímpico Português, 2000); e a menção honrosa no Prémio UP-Utopia (Universidade de Letras do Porto, 2005); entre outros.
Acredita no coletivo e faz parte de bastantes, a mencionar a plataforma Xerem e a plataforma editorial Amor-Livro. Há até livros-coletivos para os quais contribuiu com um capítulo, como é o caso d’O Caso do Cadáver Esquisito (edição Prado, 2011)
O último romance tem por título O Lago Avesso, e deve estar a sair.
Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem”(1 ).
Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de deus e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta.
Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio pelo sagrado resida nesse jogo – por mais sofisticado que seja – entre bastidores e boca de cena. O sagrado não é, pois, apenas uma forma dramatúrgica de conforto.
O que nos atrai ao sagrado é o mesmo que faz o homem pensar. Nós pensamos com imagens que se reproduzem como cerejas (Damásio, em O Sentimento de Si, prefere falar de um fluxo de imagens que se move “para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada e, algumas vezes, avança não apenas numa sequência mas em várias” (2 ). Apesar de não nos podermos comparar a um catavento, andamos, por vezes, lá perto: passeamo-nos na rua, entramos num café, guiamos um carro e, ao lado da concentração, a nossa cabeça é um moinho sempre a rodar, sempre em movimento.
O que é que esta turbulência da nossa mente tem a ver com o sagrado? É simples: o sagrado baseia-se no mistério. E há uma vantagem no mistério que é, ao mesmo tempo, também, a sua essência. É que o mistério é como uma sombra em torno da qual é possível construir ilimitados percursos. Não se trata de explicar por que razão essa sombra existe, mas de a contornar, de a percorrer, de a envolver, porventura de a amar. Grande parte da existência e do discurso dos homens faz-se a partir dessa circum-navegação que nunca mais acaba. Um ritual de imagens, ritos, palavras segredadas e gestos que se reproduz, ao longo do tempo, apenas para sublinhar a importância da sombra. Uma circularidade interior que move e faz mover a mesma intensidade com que a poesia nos conquista no centro da sua afirmação muito específica e intemporal.
No fundo, o labirinto do culto é muito semelhante ao labirinto com que as imagens encenam a consciência, ou com que as palavras encontram as suas cenografias a bordo dos poemas que as fazem aparecer e ser.
O cinema, quando foi inventado, também trouxe para o lado de fora da nossa cabeça esta luta livre entre a montagem e o modo desabrido com que as imagens se podem conotar ou reproduzir, na nossa frente, sem cessar. O cinema é, sob o ponto de vista físico, como substância, uma verdadeira sombra. Melhor: sombra e luz que se alternam. E que, com o seu movimento, nos mobilizam a pulsação mais vital. O mesmo se pode dizer da literatura, a maior produtora de imagens da nossa experiência milenar.
O sagrado é, ao fim e ao cabo, um modo confortável de imitar e plagiar a nossa mente, mas é também a radiografia permanente do seu funcionamento. É por isso que o sagrado e o homem se confundem. Ao lado do sagrado, o cinema e a literatura têm sido uma ilustração fantástica e fantasmática deste desejo profundo de brindarmos ao universo com uma máscara de nós próprios. É por isso que ainda aqui continuamos: a respirar a faúlha incerta de que é feita a literatura e a sua permanente e silenciosa celebração.
Luís Carmelo
(1 ) – Enunciação em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984/II, pp. 387.
(2 ) – O Sentimento de Si – O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000, p.362.
A esmagadora maioria dos eBooks, no Brasil, ainda vendem pouco. Não importa quem os publica, se autores independentes ou grandes editoras – as vendas são fracas. Os “culpados” pelas vendas fracas costumam ser vários: a falta de uma base consistente de dispositivos (ereaders ou tablets) no país; o preço dos eBooks, que seria muito alto; a dificuldade para se comprar e baixar um ebook nas lojas brasileiras; e a quantidade pequena de ebooks em português à venda.
“Deve-se ter muito medo de escrever. Não é um ato natural como comer ou fazer amor, é de certa forma, um ato contra a natureza. É dizer à natureza que não se basta a si própria, que precisa de outra realidade, da imaginação literária.”
(Declaração do escritor na ocasião de seu aniversário de 80 anos)
Antes de mais nada, impressionava pelo seu físico. Homem muito bonito, de extraordinário porte, distinto, educado, um dos maiores escritores do século XX mas também adequado modelo do “perfeito diplomata de carreira” que também foi, tendo chegado a embaixador do México na França, de de 1972 a 1976 – juntando às duas carreiras também a de professor em algumas das mais renomadas universidades , como Princeton, Harvard e Cambridge.
E assim se conservou o até sua morte,em 15 de maio de 2012, aos 83 anos, atuante, cheio de energia – deixou-nos 43 livros publicados, de ficção e de ensaios. Em suas últimas entrevistas, poucos meses antes de morrer, comentava um livro que acabara de escrever, Federico en su balcón, no qual ressuscitara Nietzsche para manter uma conversa com ele, e, incansável, declarava ter começado a escrever mais um de seus alentados romances de fundo histórico, El baile del centenario.
Caracteriza sua obra de ficcionista tomar como tema a história do seu país , criando, porém, uma série de personagens de primeiro plano, em sua integralidade e em suas particularidades existenciais ( “personagens redondos”, como preconizava Flaubert), situados contra o grande cenário histórico – uma integração perfeita, como realizou em La muerte de Artemio Cruz (1962), Terra nostra (1975) e Los años con Laura Diaz (1999) . No primeiro, o personagem, em seu leito de morte, no ano de 1959, recorda episódios de sua vida pessoal e de seu envolvimento em lutas políticas subsequentes à Revolução Mexicana de 1910, remontando depois até a data do seu nascimento, 1889.É um livro complexo, não-linear, e Fuentes vale-se de recursos estilísticos imprevisíveis, no entrelaçamento dos diversos períodos históricos retratados. Ainda mais extenso, e de estrutura complexa e desafiadora é Terra Nostra, em que abrange a história mexicana desde os primórdios da conquista espanhola. Laura Diaz, em plena maturidade criativa, é mais simples e linear. Exige menos conhecimentos do leitor e cria uma personagem calcada em uma pessoa real, a fotógrafa e ativista comunista Tina Modotti – que pertenceu ao circuito famoso de Diego Rivera e Frida Khalo – e através das circunstâncias de sua vida descreve um painel histórico que abrange o contexto conturbado do México, durante todo o século XX.
Pela sua imensa erudição, seu aprofundamento em história e disciplinas afins como sociologia e ciências políticas, por ser um dos raros ficcionistas-pensadores que a América Latina conta, Fuentes tem sofrido em maior gráu com a ignorância, a mediocridade, a falta de iniciativa dos editores, entre nós (falo pelo Brasil, pois desconheço o que se passa em Portugal) – ocupados em correr atrás das insignificâncias de escritores que visam somente o lucro fácil, a alta vendagem para um público cada vez mais imbecilizado.Muito poucos são os editores conscientes, bem informados, que ainda se lembram de que a literatura tem sido, com as outras artes, e antes de todas, o sustentáculo de qualquer tipo de civilização. Não-traduzida para o português permanecem, portanto, não somente uma grande parte da obra de Fuentes (como o colossal romance Terra Nostra ), mas um grande número de outros escritores “sérios”, significativos, do mundo – enquanto na enxurrada diária dos lançamentos, passam desvairados cinquenta, cem, milhão de “tons de cinza” que vão encabeçar a coluna dos “mais lidos”.
Seu primeiro romance de sucesso foi La región más transparente, de 1958 – ele tinha 29 anos, então. Um sucesso estrondoso, saudado pela crítica como “o primeiro grande mural da modernidade urbana”, pois descrevia a complexa realidade da vida na capital mexicana, desvelando uma série de circunstâncias e de personagens das mais variadas classes sociais. Não perdeu até hoje sua atualidade, no mundo hispânico, mas também permanece sem tradução em português.
Carlos Fuentes mereceria, sem dúvida, o Prêmio Nobel – pela qualidade, pelo volume da obra, pelo vigor do seu empenho na transformação cultural e social do seu país e da América Latina. Não o obteve, mas foi muito reconhecido no mundo hispânico e recebeu importantes prêmios, como o Miguel de Cervantes em 1987 e o Príncipe de Astúrias em 1994.
Como sempre acontece após a morte de um artista importante, há uma revalorização imediata de sua obra por parte de críticos, editores e professores universitários. Em minha próxima crônica pretendo continuar a examinar alguns aspectos da obra de ficção de Fuentes, mas termino esta reproduzindo apenas duas manifestações de críticos que julgo fundamentais para que meus leitores possam avaliar o que ele representa.
O crítico mexicano Christopher Dominguez disse, de sua obra: “É o conjunto mais complexo e variado da narrativa mexicana e reúne todas as conquistas e tendências da literatura contemporânea”. E o escritor argentino Tomás Eloy Martinez, em artigo publicado no jornal La Nación , disse: “El siglo XX está poblado de intelectuales emblemáticos. Ninguno de ellos ha reflejado tan bien como Carlos Fuentes las atmósferas, los humores, las obsesiones y los cambios de piel de América Latina”.
Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor deO Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.
Filho do operário Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo, pouco mais se conhecendo de sua infância e início da adolescência. Foi criado no morro do Livramento. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde e, em 1854, com 15 anos incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres, número datado de 3 de outubro de 1854. Em 1856, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor. Em 1858, era revisor e colaborador no Correio Mercantil e, em 60, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a pertencer à redação do Diário do Rio de Janeiro. Escrevia regularmente também para a revista O Espelho, onde estreou como crítico teatral, a Semana Ilustrada e o Jornal das Famílias, no qual publicou de preferência contos.
O primeiro livro publicado por Machado de Assis foi a tradução deQueda que as mulheres têm para os tolos (1861), impresso na tipografia de Paula Brito. Em 1862, era censor teatral, cargo não remunerado, mas que lhe dava ingresso livre nos teatros. Começou também a colaborar em O Futuro, órgão dirigido por Faustino Xavier de Novais, irmão de sua futura esposa. Seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, saiu em 1864. Em 1867, foi nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. Em agosto de 69, morreu Faustino Xavier de Novais e, menos de três meses depois (12 de novembro de 1869), Machado de Assis se casou com a irmã do amigo, Carolina Augusta Xavier de Novais. Foi companheira perfeita durante 35 anos. O primeiro romance de Machado,Ressurreição, saiu em 1872. No ano seguinte, o escritor foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, iniciando assim a carreira de burocrata que lhe seria até o fim o meio principal de sobrevivência. Em 1874, O Globo (jornal de Quintino Bocaiúva), em folhetins, o romance A mão e a luva. Intensificou a colaboração em jornais e revistas, como O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira (ainda na fase Midosi), escrevendo crônicas, contos, poesia, romances, que iam saindo em folhetins e depois eram publicados em livros. Uma de suas peças, Tu, só tu, puro amor, foi levada à cena no Imperial Teatro Dom Pedro II (junho de 1880), por ocasião das festas organizadas pelo Real Gabinete Português de Leitura para comemorar o tricentenário de Camões, e para essa celebração especialmente escrita. De 1881 a 1897, publicou naGazeta de Notícias as suas melhores crônicas. Em 1880, o poeta Pedro Luís Pereira de Sousa assumiu o cargo de ministro interino da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e convidou Machado de Assis para seu oficial de gabinete (ele já estivera no posto, antes, no gabinete de Manuel Buarque de Macedo). Em 1881 saiu o livro que daria uma nova direção à carreira literária de Machado de Assis –Memórias póstumas de Brás Cubas, que ele publicara em folhetins na Revista Brasileira de 15 de março a 15 de dezembro de 1880. Revelou-se também extraordinário contista em Papéis avulsos(1882) e nas várias coletâneas de contos que se seguiram. Em 1889, foi promovido a diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia.
Grande amigo de José Veríssimo, continuou colaborando naRevista Brasileira também na fase dirigida pelo escritor paraense. Do grupo de intelectuais que se reunia na Redação da Revista, e principalmente de Lúcio de Mendonça, partiu a idéia da criação da Academia Brasileira de Letras, projeto que Machado de Assis apoiou desde o início. Comparecia às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, à qual ele se devotou até o fim da vida.
A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os gêneros literários. Na poesia, inicia com o romantismo deCrisálidas (1864) e Falenas (1870), passando pelo Indianismo emAmericanas (1875), e o parnasianismo em Ocidentais (1901). Paralelamente, apareciam as coletâneas de Contos fluminenses(1870) e Histórias da meia-noite (1873); os romances Ressurreição(1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), considerados como pertencentes ao seu período romântico. A partir daí, Machado de Assis entrou na grande fase das obras-primas, que fogem a qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa.
A obra de Machado de Assis foi, em vida do Autor, editada pela Livraria Garnier, desde 1869; em 1937, W. M. Jackson, do Rio de Janeiro, publicou as Obras completas, em 31 volumes. Raimundo Magalhães Júnior organizou e publicou, pela Civilização Brasileira, os seguintes volumes de Machado de Assis: Contos e crônicas(1958); Contos esparsos (1956); Contos esquecidos (1956); Contos recolhidos (1956); Contos avulsos (1956); Contos sem data (1956);Crônicas de Lélio (1958); Diálogos e reflexões de um relojoeiro(1956). Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura e encabeçada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, organizou e publicou, também pela Civilização Brasileira, as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes, reunindo contos, romances e poesias desse escritor máximo da literatura brasileira.
Há um pequeno problema no futebol político: se olhassem para as bancadas apercebiam-se de duas coisas. Uma, a de que ninguém os está a ver; a outra, de quem os está a ver prepara-se para saltar para o campo e linchar as equipas. Isto assim não vai longe.
No Pop Literário de hoje, Patti Smith, também conhecida como “madrinha do punk”, lê um pequeno trecho do romance “As ondas”, de Virginia Woolf – e improvisa mais do que lê – ao som do piano e do violão tocados por seus filhos Jesse e Jackson numa performance de 2008. O clima amadorístico-familiar da apresentação da cantora-compositora-poeta-fotógrafa-ativista consegue, de alguma forma periclitante, combinar com a pretendida homenagem à grande escritora inglesa cujo suicídio, em 28 de março de 1941, fazia aniversário naquele dia em que se inaugurava uma retrospectiva de fotografias e desenhos de Patti em Paris. Vale lembrar que depois disso ela se revelou uma prosadora de talento com a autobiografia “Só garotos”, que saiu aqui pela Companhia das Letras no fim de 2010. Consta que tem ainda um romance policial no forno. (ViaOpen Culture, onde se pode ouvir também a única gravação remanescente da voz de Virginia Woolf, lendo o trecho de um ensaio de sua autoria para um programa da BBC em 1937.)