Há trezentos e setenta e nove anos, no dia 1 de Dezembro de 1640, Portugal recuperou a independência nacional, após sessenta anos de integração no império espanhol. Felipe II, filho de uma princesa portuguesa e neto de D. Manuel, fora reconhecido como rei de Portugal pelas Cortes de Tomar, em 1581, comprometendo-se a respeitar a autonomia do seu novo reino patrimonial. Após o falecimento do cardeal-rei D. Henrique, os exércitos do Duque de Alba tinham ocupado militarmente Portugal e Cristóvão de Moura conseguira, com a sua astúcia e a corrupção dos dinheiros de Castela, vencer a resistência de grande parte da nobreza, do clero e da alta burguesia.
O regime liberal oitocentista, a 1.ª República e o Estado Novo celebraram com fervor patriótico a Restauração da Independência. A inauguração, no dia 28 de Abril de 1886, do obelisco dos Restauradores, na praça do mesmo nome, no centro de Lisboa, foi a expressão do sentimento geral do povo português. A Comissão Central do 1.º de Dezembro de 1640 materializava no obelisco dos Restauradores o simbolismo da ressurreição de uma nação submetida durante seis séculos ao jugo estrangeiro. Após o restabelecimento da democracia em Portugal e em Espanha e a adesão dos dois países ibéricos à Comunidade europeia, a comemoração em Portugal do evento histórico do 1.º de Dezembro de 1640 tornou-se compreensivelmente mais discreta.
Naquela manhã do dia 1 de Dezembro de 1640 – um dia que amanheceu claro, sem rigores invernais –, um pequeno número de conjurados, pertencentes à nobreza mas com ligações importantes ao clero e à burguesia, alterou radicalmente a situação política em Portugal, modificou significativamente os factores geopolíticos da Espanha e contribuiu decisivamente, como hoje, séculos volvidos, podemos entender, para o futuro histórico do Brasil e de Angola, que conheceriam futuros bem diferentes se tivessem caído sob o domínio duradouro de outras potências colonizadoras europeias.
Após a morte, em 1598, de Filipe II, tornara-se cada vez mais grave a decadência multiforme de Espanha: as guerras europeias em que esteve envolvida durante o século XVI, em particular na Flandres e na Itália, tinham arruinado as finanças do reino, obrigando o poder político a aumentos sucessivos dos impostos; a recessão económica e a crise demográfica provocaram o despovoamento de grandes áreas do território; a criminalidade e o banditismo aumentaram dramaticamente; as epidemias assolaram as populações desesperadas e famintas.
“Olhar de mil anos”, lápis-aguarela sobre cartolina. Corpo de poucas primaveras, mas um olhar de quem já viu muito. Olhar de angústia, olhar torturado de um rapaz que decerto nunca foi menino.
Passam hoje 44 anos sobre o 25 de Novembro. Para mim, é uma data a comemorar. O 25 de Abril permitiu a Revolução, o 25 de Novembro trouxe-nos a Democracia. Pena é que esta data não tenha, para muitos, a dignidade que deveria ter. Não fosse a acção firme de homens corajosos, capitaneados pelo general Eanes, devidamente escudado, é bom dizê-lo, por Mário Soares, Francisco de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e a própria Igreja Católica, Portugal seria hoje a Cuba da Europa.
Da minha parte, uma palavra de apreço, porque merecida, para o Regimento de Comandos, então comandado pelo coronel Jaime Neves, quantas vezes vilipendiado mas verdadeiro ponta-de-lança para travar de vez os radicais que pretendiam transformar este País numa bandalheira, sob a batuta de Otelo.
Uma palavra de homenagem aos comandos caídos no Regimento da Polícia Militar, na Ajuda, vítimas das balas assassinas que dali foram disparadas. Na sequência dessa acção cobarde, só a voz firme do general Eanes, secundado por Jaime Neves, que se viu obrigado a distribuir bofetadas a alguns dos seus homens, impediu que os comandos fizessem ali uma chacina, na pretensão de vingar os camaradas mortos.
Uma última palavra de apreço para Álvaro Cunhal, que a pedido do general Costa Gomes recusou pegar em armas e deu provas de elevado sentido de patriotismo, evitando assim que este País caísse numa guerra civil que seria trágica.
Pessoalmente, em especial ao meu querido general Eanes, o meu muito obrigado por ter evitado que o meu País caísse numa nova ditadura.
La 44ª edición del Premio Cervantes, el más relevante de las letras en español que concede el Ministerio de Cultura y dotado con 125.000 euros, ha alzado este año a Joan Margarit (Lleida, 1938). El poeta catalán toma el relevo a la uruguaya Ida Vitale, la quinta mujer ganadora desde que se inauguró el Cervantes en 1976.
El ministro de Cultura y Deporte en funciones, José Guirao, ha sido el encargado de revelar el nombre del galardonado en esta edición, cuyos candidatos son propuestos por la Real Academia de la Lengua Española (RAE). La lectura ha tenido lugar como cada año en el Paraninfo de la Universidad de Alcalá de Henares, cuna del autor del Quijote.
Guirao, como ya hizo el año pasado con Vitale, ha adelantado el fallo del Cervantes leyendo el poema No tires las cartas de amor, del libro El primer frío (1975-1995). El jurado ha destacado su “obra poética de honda trascendencia y lúcido lenguaje siempre innovador. Ha enriquecido tanto la lengua española como la lengua catalana y representa la pluralidad de la cultura peninsular en una dimensión universal de gran maestría”.
A Academia Portuguesa de História anunciou esta quarta-feira que Fernando Rosas estava entre os nove autores que decidiu galardoar. O livro “Salazar e os Fascismos. Ensaio breve de história comparada” venceu o prémio da Fundação Calouste Gulbenkian na categoria “História da Europa”.
“Salazar e os Fascismos. Ensaio breve de história comparada”, livro editado pela Tinta-da-China, valeu a Fernando Rosas o prémio Fundação Calouste Gulbenkian, na categoria História da Europa, atribuído pela Academia Portuguesa da História Lisboa.
O anúncio da distinção aconteceu esta quarta-feira. No livro, Rosas aborda a comparação entre a ditadura que se instalou em Portugal a partir dos anos 20 do século passado e os outros regimes autoritários de direita que terão o seu auge na Europa nos anos 30.
O caso da jovem de 22 anos que terá abandonado o filho recém-nascido num caixote de lixo é um horror? Claro que sim! Que se pode fazer? A nossa sociedade moralista e inquisitorial – em tudo o que não diga respeito às tradições e chamadas causas fraturantes – tem uma resposta: prender a mãe!
Sinceramente, não esperava que se chegasse a tamanha desumanidade. Recapitulemos: alguém com 17 anos, natural de Cabo Verde, tenta fugir da miséria vindo para Portugal (também li o seu nome, mas não o publico; haja recato). Cinco anos depois está a viver em condições desumanas numa tenda, ao pé de restaurantes, discotecas de luxo e cais de embarque de cruzeiros. Nestes cinco anos que esteve em Portugal quem lhe estendeu a mão? Quem se preocupou? Era uma miúda e nada lhe correu bem, o que se passou?
Quase ninguém se interroga e, quando chega o minuto de as autoridades se pronunciarem – depois de um outro sem abrigo ter alertado para o facto de estar um bebé num contentor –, é para lhe apontar o destino: a cadeia. A acusação é fácil: qualquer coisa como tentativa de homicídio qualificado na forma tentada. A prisão é preventiva, não houve julgamento. Mas as condições da prisão preventiva são mais do que duvidosas: não se prevê a continuação da atividade criminosa, nem prejuízo para o processo nem alarme social. Mesmo os mais alarves dos nossos concidadãos (e concidadãs), que também os há, além de felizmente não saberem exatamente quem é a rapariga de 22 anos, não me parece que a quisessem perseguir ou matar.
A campanha da Festa Literária “Eu giro para onde gira o sol” criada pela Publicar News prestigia o sertão de Jequié, seus escritores, personagens e poetas. O cineasta Glauber Rocha também será homenageado
Um dos mais esperados eventos literários do Sudoeste da Bahia, a Festa Literária Internacional do Sertão de Jequié, inicia a sua quarta edição no dia 28 de novembro de 2019, quinta-feira, na Câmara de Vereadores em Jequié e terá a “Leitura”, como tema principal. Os escritores Luís Cotrim, Pacífico Ribeiro, Wilson Novais, Heleusa Câmara e o cineasta Glauber Rocha serão os principais homenageados. Com o tema “A formação de leitores como desafio do Brasil atual”, o evento vai reunir uma programação variada, conduzida por autores da literatura nacional e internacional, com conferências, mesas-redondas, palestras e lançamento de livros.
As cantoras Ana Vitória e Flaviane vão abrilhantar a primeira noite da Felisquié interpretando as canções mais belas da MPB. O jornalista, professor, escritor e curador da Festa Literária Internacional do Sertão de Jequié, Domingos Ailton fará o pronunciamento de abertura: “A Felisquié representa o universo encantador do sertão de Jequié, além de promover uma interface entre a literatura e outras linguagens artísticas”, define o autor do romance “Anésia Cauaçu”. Em seguida, a educadora jequieense e Embaixadora da Paz, Maribel Barreto dará início a primeira conferência intitulada “Leitura e consciência: um diálogo transformador”.
Escrevi em 2010 este resumo. Acho que ainda vale, mas falta tanta gente e tantas emoções.
Sei que tenho uma dívida. Estive uns breves dias preso em Caxias com alguns amigos, por causa de um protesto contra a guerra na passagem do ano de 1972. Desses camaradas, um deles, que já morreu, Francisco Pereira de Moura, só o voltei a encontrar muito mais tarde, quando regressei à faculdade. Tinha sido convicto católico conservador, membro da Câmara Corporativa, mas olhou para o seu país e fez frente à ditadura. Foi por isso o primeiro candidato da oposição, foi preso, voltou a ser preso. Foi demitido de professor universitário. Chegou ao 25 de Abril, foi libertado e foi ministro, e saiu quando achou que o seu tempo tinha chegado, para voltar a dedicar-se à sua paixão, o ensino. Ele sabia da dívida que tinha para com o país, o trabalhador explorado, o pobre, a mulher sem direitos, as pessoas sem dignidade. E sabia que essa dívida se paga sempre, de todas as formas. Eu sei que todos temos essa dívida.
Honesta, vibrante e com um extraordinário sentido de humor
No dia 14 de novembro, a Porto Editora faz chegar às livrarias a primeira e única autobiografia de uma das grandes lendas vivas do mundo da música: Eu, Elton John.
Nada indicava que Reginald Dwight, um Tiny Dancer residente em Pinner, cinzento subúrbio de Londres, se transformaria em Elton John, nome incontornável da música pop e rock n’roll. Excêntrico, personagem maior do que os grandes palcos que pisou, resultado do seu carisma e de performances eletrizantes, Elton John é um verdadeiro Rocket Man: no ativo há quase 50 anos (o seu primeiro concerto em nome próprio foi aos 23 anos) é um dos artistas com maior número de álbuns vendidos, vencedor de múltiplos prémios (como um Oscar e 6 Grammy) e cantor-compositor de músicas intemporais.
Agora, a par com a sua tournée final, Sir Elton John decide contar a história da sua vida. Ao longo de 360 páginas, estão descritas sete décadas de altos e baixos. Da infância e da relação conturbada com os pais às mais recentes revelações sobre o seu estado de saúde, Eu, Elton John não deixa nenhum assunto de fora. Num registo polvilhado com um fino humor britânico, o cantor-compositor desvenda como nasceram canções que fazem parte da vida de milhões de fãs, as amizades com outras lendas da música (como John Lennon, George Michael ou Freddie Mercury), e revelações sobre as noites loucas e as festas espampanantes que o afundaram numa espiral de dependência. Brutalmente honesto, o autor não poupa palavras para descrever os seus maus momentos, tentativas de suicídio e a viagem emocional para a reabilitação. Nada ficou fora deste livro, nem a amizade com a Princesa Diana e Gianni Versace, nem o amor e a paternidade com David Furnish. É uma vida inteira, de luz e sombra, agora em livro.
Com 72 anos e a meio da sua última digressão (que durará três anos), este é um testemunho imperdível de um artista que não deixa de dizer I’m still standing.
SOBRE O LIVRO
Elton John é o cantor-compositor de sucesso com a carreira mais longa de todos os tempos. São sete décadas – até agora – de uma vida extraordinária pautada por constantes altos e baixos. Agora, na primeira pessoa e com a habitual frontalidade e bom humor, Elton John partilha a sua história – todos os momentos, dos mais hilariantes aos mais comoventes.
Reginald Dwight era um miúdo tímido, de Pinner, nos subúrbios de Londres, com uma relação conturbada com os pais, que adorava música e sonhava ser uma estrela pop. Tinha 23 anos quando deu o primeiro concerto nos EUA: com umas jardineiras amarelas, uma T-shirt às estrelas e botas com asas deixou uma imensa plateia absolutamente deslumbrada. Elton John tinha chegado e o mundo da música nunca mais seria o mesmo.
À imagem da vida de Elton, não falta drama nesta autobiografia: desde as rejeições iniciais das editoras a ser considerado o artista pop mais famoso do mundo; das amizades com Jonh Lennon, Freddie Mercury e George Michael às noites loucas no Studio 54; das tentativas de suicídio à dependência que escondeu até de si próprio durante anos e que quase o destruiu.
Elton descreve de forma emocionada o processo de reabilitação, a criação da Elton John AIDS Foundation, como encontrou o verdadeiro amor ao lado de David Furnish, as férias com Versace e a participação no funeral da princesa Diana. E ficamos também a saber como e quando percebeu que queria ser pai e como isso acabou por mudar novamente toda a sua vida.
Excentricamente divertido, mas também profundamente emocionante, Eu, Elton John levá-lo-á numa viagem inesquecível pela intimidade de uma lenda viva.
SOBRE O AUTOR
Elton John
Os êxitos alcançados por Sir Elton John ao longo da sua carreira são insuperáveis. É um dos artistas a solo mais vendidos de todos os tempos com 26 álbuns de ouro e 38 de platina ou multi-platina e um álbum de diamante. Elton John conta também no seu currículo com 6 Grammys, 13 Ivor Novellos e um BRITT Award. Em 2018 foi nomeado o artista masculino a solo de maior sucesso pela Billboard Hot 100. A sua Fundação já angariou mais de 450 milhões de dólares para a luta contra o VIH. É casado com David Furnish com quem tem dois filhos.
Se arte e criatividade são, entre outras coisas, a inteligência e a imaginação se divertindo, segundo Albert Einstein, e, como diz Nelson Oliveira (Prêmio casa de las Américas), o maior mérito de uma obra literária é ser, acima de tudo, uma festa para a inteligência, em O LIXEIRO E O PRESIDENTE, romance social, o escritor, poeta e ficcionista premiado, Silas Corrêa Leite, mostra nesse novo trabalho e de novo polêmico e diferenciado, a face da personagem principal do livro, o Presidente Fernando 2, o néscio, como rotula ele, bem a propósito do que preconiza Sigmund Freud, de que cada pessoa é um abismo, e dá vertigem olhar dentro delas. Bem isso.
O livro criativo, ousado, e ainda assim cativante, finca o palco nas narrativas todas em diálogos, entre causos, humores políticos, contações e abobrinhas afins, no Palácio do Planalto, as redondezas e quadradezas, entornos e antros, na Era D.c (Depois de Collor), em que um Fernando 2 – e de Fernando em Fernando o Brasil vai se ferrando – deita e rola no mesmo funesto modus operandi de maracutaias de carteis e propinas da anterior era civil e mesmo do militarismo incompetente e corrupto no processo histórico que o antecedeu, e que nasceu nas hediondas capitanias hereditárias até hoje nos podres poderes do planalto central.
A obra, entre uma comédia escondida e uma tragédia camuflada – corja blindada pela justiça e pela mídia abutre corruptas – resgata desvão de almas corrompidas nos flancos dos poderes executivo, legislativo e judiciário, mais o quarto poder, a imprensa blindando uma elite pústula em nome de neoescravistas neoliberais e agiotas do capital emboaba.
O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo
SÃO PAULO – Foram raros os livros de História do Brasil que chegaram às livrarias tão bem recomendados quanto O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, publicado ao final de 2019 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp). Afinal, o prefácio foi escrito pelo historiador britânico Kenneth Maxwell, professor (aposentado) da Universidade de Harvard e autor de A Devassa da Devassa: a Inconfidência Mineira: Brasil e Portugal – 1750-1808 (1977), enquanto o texto de apresentação coube ao historiad or Carlos Guilherme Mota, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP).
Adelto Gonçalves, 68 anos, é jornalista desde 1972, quando começou a trabalhar no extinto jornal Cidade de Santos, do grupo Folhas. Tem passagens pelos jornais A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e pelas editoras Abril e Globo.
A primeira Festa Literária de São José do Jacuípe – FLIZÉ, vai acontecer nos dias 18 e 19 de novembro de 2019, no plenário da Câmara Municipal de Vereadores. A FLIZÉ integra uma maratona de eventos do I Festival de Cultura, Arte e Cidadania, organizado pela Diretoria Municipal de Cultura em parceria com as secretarias do município. A Flizé tem curadoria do escritor jacuipense Pablo Rios.
As festas literárias estão se espalhando pela Bahia e Brasil. A FLICA (Cachoeira), FLIPELÔ (Salvador), FELISQUIÉ (Jequié), FLIJA (Jacobina), FLIPI (Piritiba), FLICAP (Capela do Alto Alegre) e FLIP (Parati-RJ), são exemplos das inúmeras que têm sido realizadas. A pequena cidade de São José do Jacuípe-BA não poderia ficar de fora.
A FLIZÉ será uma celebração à leitura e literatura e reunirá apresentações das culminâncias de projetos das escolas e colégios locais. Serão montadas mesas de debates com poetas, escritores e pesquisadores.
A mesa de abertura será sobre Clubes e Espaços de Leitura, com discussões sobre a importância e transformações resultantes da leitura, e tem presença confirmada da Professora Amanda Teixeira, representando a Ser Tão, Livraria e Café (Jacobina-BA). A mediação será do escritor, editor e pesquisador João Vanderlei de Moraes Filho, que também vai falar sobre Bibliodiversidade. A mesa 2, com o tema Memória: vivências da leitura e escrita, tem mediação do Professor Danilo Araújo Guimarães, será composta pela poeta Geovana Rios, natural de Várzea da Roça, que apresentará seu livro de estreia, “Madrugada Poética” e do renomado escritor, poeta e jornalista Valdeck Almeida de Jesus, autor de mais de 20 livros e com vasta atuação na militância e ativismo cultural.
Defende o fim do celibato obrigatório e a ordenação de mulheres e viu sinais de mudança no Sínodo da Amazónia. Se a Igreja não for por aí, vaticina, será um “suicídio”.
Assume que em miúdo já era um pouco rebelde, mas defende que a sua visão sobre uma Igreja onde os padres deveriam ter vidas “normais” – incluindo serem casados e as mulheres o mesmo lugar que os homens – não é heterodoxa. Seria um regresso à fundação do cristianismo, o caminho que diz estar a ser feito pelo Papa Francisco. Anselmo Borges publicou uma antologia de entrevistas dos últimos 12 anos, Conversas com Anselmo Borges (Gradiva), pretexto para uma nova conversa sobre a fé e os ventos de mudança do Sínodo para a Amazónia, que termina este fim de semana. Acredita que é uma questão de tempo até as mulheres poderem celebrar missas e os padres constituir família e não poupa nos termos: se isso não acontecer, será o suicídio.Reúne neste livro um conjunto de entrevistas. Foram os 75 anos a pedir uma síntese?É possível que inconscientemente seja uma espécie de balanço destes últimos 12 anos. Queria rever-me um pouco. São entrevistas em que falei da Igreja mas também dos problemas do mundo.Sempre quis que o seu lugar fosse numa Igreja sensível ao mundo, o que tem sido uma marca do pontificado de Francisco. Foi a grande mudança na vida da Igreja nos últimos 12 anos? Continuar a ler →
Há duas formas de olhar para isto. Uma é analisar a linha de raciocínio (é uma ideia lógica?); a outra é olhar para os factos (o que sustenta a ideia?). Vamos por partes.
«Na sua estreia como deputado na Assembleia da República, João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, disse coisas extraordinárias.
Uma delas foi esta: “O PS sabe que mantendo um país amorfo e resignado tem um grupo de pobres, desesperados e dependentes do Estado que lhe irão dar o voto. A pobreza de muitos é o que segura o PS ao poder.”
A seguir, seguindo as boas práticas aristotélicas, apresentou a moral da história: como o PS só “existe para estar no poder, nunca irá resolver o problema da pobreza”, pois são os pobres que permitem ao PS “manter-se lá”.
Foi o tom de acinte com que a frase foi dita que despertou a minha curiosidade. Há duas formas de olhar para isto. Uma é analisar a linha de raciocínio (é uma ideia lógica?); a outra é olhar para os factos (o que sustenta a ideia?). Vamos por partes.
Cotrim de Figueiredo diz que “os pobres” votam no PS como se fosse um axioma, uma verdade tão óbvia e consensual que dispensa demonstração. Tão inquestionável como dizer “penso, logo existo”. Só um louco tem dúvidas sobre isso.
A seguir, o deputado apresenta as consequências da sua evidência: o PS produz pobres para se manter no poder e por isso que não os quer tirar da pobreza. Favorecer os pobres seria suicídio político. Levada a tese ao extremo, fiquei à espera que Cotrim de Figueiredo aconselhasse o PS a favorecer os ricos. Afinal, seria a melhor forma de manter os pobres na pobreza.
“Mientras la población general sea pasiva, apática y desviada hacia el consumismo o el odio de los vulnerables, los poderosos podrán hacer lo que quieran, y los que sobrevivan se quedarán a contemplar el resultado”.
Consumidores esclavos
Noam Chomsky es filósofo, escritor, controvertido activista y uno de los lingüistas más brillantes y reconocidos de la actualidad. Su trabajo es estudiado en las universidades de todo el mundo, desde facultades de psicología hasta titulaciones lingüísticas, pasando por muchas otras disciplinas. En este post os explicaremos brevemente lo que él considera la estrategia más común en la manipulación mediática. Os dejamos una de sus últimas reflexiones sobre un tema que nos afecta a todos: la industria de la publicidad.
“La industria de las relaciones públicas, la industria de la publicidad es la que se dedica a la creación de consumidores. Este es un fenómeno que se desarrolló en los países más libres, en Gran Bretaña y los Estados Unidos. Y la razón está muy clara. Se volvió clara hace aproximadamente un siglo, cuando esta industria se dió cuenta de que no iba a ser fácil controlar a una población con el uso de la fuerza. Habían ganado demasiada libertad: sindicatos, parlamentos con partidos para los trabajadores en muchos países, el derecho al voto de la mujer… Por lo tanto, tenían que encontrar otros medios para controlar a la gente.
Há uma canção do cantautor Lluis Llach, um dos expoentes máximos da música catalã e um confesso independentista, chamada «Corrandes d´exili» (que se poderia traduzir por «Estrofes do exílio»), que acaba assim: «Una esperança desfeta/ una recança infinita/ i una pàtria tan petita/que la somio completa (Uma esperança desfeita/um remorso imenso/e uma pátria tão pequena/que até a posso sonhar de uma só vez).
Lluis Llach, hoje com 71 anos, esteve exilado em França no início da idade adulta, numa época em que o catalão não era bem visto pelo franquismo e era uma língua falada sobretudo em casa. Durante o período franquista, os catalães, os bascos, os galegos e os espanhóis em geral que ousassem dissentir eram obviamente reprimidos. Muitos viam a independência como uma saída – data do estertor do franquismo o atentado mais espectacular perpetrado pelo movimento terrorista basco ETA, com o assassinato do almirante Luis Carrero Blanco, então presidente do governo de Espanha, no final de 1973 -, mas a transição pacífica para a democracia, apesar dos sobressaltos iniciais – e à custa, é um facto, da amnésia –, aplacou ou amainou esses ímpetos, com a excepção dos atentados do citado grupo terrorista basco, movimento que só há poucos anos abandonou a luta armada. A constituição de 1978, com a criação das regiões autónomas, deu a possibilidade à Catalunha, ao País Basco, à Galiza e a outras comunidades de se auto-governarem, com um parlamento próprio e ampla autonomia em vários domínios, nomeadamente na educação, com a possibilidade da aprendizagem sem entraves das outras línguas do país que não o castelhano (vulgo espanhol).
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!
Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Desmistificar e compreender | uma perturbação da fluência partilhada por aproximadamente 1% da população
Nas últimas semanas, a gaguez ganhou uma rara exposição pública e mediática. Joacine Katar-Moreira surgiu aos microfones de rádios e em debates televisivos, como muito raramente uma pessoa que gagueja ousa fazer em Portugal. Entrevistadores e candidatos – dos mais distintos quadrantes políticos – concentraram-se nas suas ideias e não na forma como as transmitia. Souberam não interromper, nem completar palavras ou frases, demonstrando uma saudável cultura cívica.
Nas redes sociais, milhares de portugueses manifestam o seu apoio. Alguns, mais conhecedores do que consiste a gaguez, tentam combater os muitos estereótipos e mitos que lhe estão associados. Carlos Guimarães Pinto, candidato de outro partido, também ele uma pessoa que gagueja, assumiu esse papel, explicando, por exemplo, que a variabilidade dos momentos de gaguez é absolutamente normal. Afinal, o que qualquer pessoa que gagueja enfrenta diariamente são momentos em que a fala flui de forma natural, intercalados com outros, onde a gaguez se intromete, dificultando a comunicação.
Joacine Katar Moreira pode vir a fazer muito bem ao arejamento das cabeças deste país. Eu, apesar de tudo, acredito sempre na vitória das luzes sobre as trevas.
Francisco Seixas da Costa
O tempo está para temas quentes. Começou com a gaguez da nova deputada do Livre, agora é tempo de se falar da bandeira da Guiné-Bissau que, para escândalo de alguns, surgiu nas comemorações da sua eleição. Vamos a isso, sem receios. Não vou utilizar o léxico do politicamente correto, vou dizer as coisas com a linguagem da conversa comum, que é a minha.
Começo por notar que, se Portugal estivesse em conflito político aberto com um qualquer país, eu sentir-me-ia chocado que surgisse uma bandeira desse Estado num ato público português. Era, no mínimo, um gesto agressivo, por muito que preze a liberdade de expressão. E indignar-me-ia.
A Guiné-Bissau, porém, é um país amigo, de onde tem vindo para Portugal muita e boa gente, que aqui ajuda à nossa diversidade, que aqui honestamente trabalha, que aqui continua a habituar os portugueses a viverem com a diferença, o que muito contribui para a nossa riqueza cultural – embora, pelos vistos, ainda não o suficiente para convocar a tolerância em muitas cabeças.
Que uma cidadã oriunda da Guiné-Bissau consiga singrar na sociedade portuguesa e, para além de uma carreira académica de relevo, tenha conseguido ser uma das 230 pessoas que os portugueses escolheram para os representar, isso deveria, na minha modesta opinião, constituir um orgulho nacional, um preito à nossa política de integração. Um país que andou pelo mundo tem obrigação de ficar contente que esse mundo, onde também se fala a sua língua, aqui se acolha e viva.
A UBESC – União Baiana de Escritores promove na sexta-feira (11/10/2019), das 18:30 às 21:30 horas, na Livraria Saraiva – Espaço Glauber Rocha, no Shopping da Bahia (Av. Tancredo Neves 148, Caminho das Árvores – Iguatemi Salvador/BAHIA-Brasil), encontro com o objetivo de comemorar o “Dia Mundial do Escritor”, com a temática abrangente da Literatura negra e da periferia, do Brasil e de África. É 0 que promete o seminário “Literatura Negra – Laços literários entre Brasil & África”.
O evento será mediado pelo jornalista e escritor Carlos Souza Yeshua (idealizador do Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia), terá a participação da professora, crítica literária e escritora Jovina Souza, autora do livro de poesias negras “O amor não está” que trabalhará na abordagem de um dia de aprendizado no Quilombo mais antigo das Américas, o Quilombo que nunca foi vencido.
Os primeiros dias do Festival Materiais Diversos em Minde e Alcanena
Festival realiza-se de 27 de Setembro a 5 de Outubro e celebra 10 edições com mais de 60 actividades, 17 espectáculos, 5 em estreia absoluta e 4 em estreia nacional, envolvendo cerca de 150 artistas.
(1) L’existence de Dieu peut être démontrée : I. A priori. 1° Tout ce que nous concevons clairement et distinctement appartenir à la nature d’une chose 1 , peut être, avec vérité, affirmé de cette chose. Or l’existence appartient à la nature de Dieu. Donc –
(2) 2° Les essences des choses sont de toute éternité et demeureront immuables pendant toute éternité. Or l’existence de Dieu est son essence. Donc –
(3) II. A posteriori. Si l’homme a l’idée de Dieu, Dieu doit exister formellement. Or l’homme a l’idée de Dieu. Donc 2 –
Letras del Ecuador, revista de literatura lançada pela Casa de la Cultura Ecuatoriana Benjamín Carrión (CCE), de Quito, em abril de 1945, criou fama em toda a América Latina pela excepcional qualidade de seus artigos e ensaios. Em 74 anos de existência, a publicação, que teve anunciada sua última aparição em meados de 2012, com edição comemorativa por ter chegado ao seu número 200, ressurgiu em abril de 2015, em seu formato original, tablóide, para seguir ideia pioneira de seu fundador, Benjamin Carrión (1897-1979), escritor, diplomata, político, professor da Universidade Central do Equador, ex-ministro da Educação e promotor cultural, considerado o grande suscitador da cultura de seu país. Trata-se de uma revista que continua a brindar os seus refinados leitores com textos que surpreendem por suas reflexões no campo das Ciências Humanas, com temáticas que nunca envelhecem.
Para marcar essa trajetória que segue firme, a Casa de la Cultura Ecuatoriana Benjamín Carrión vem lançando também volumes que resgatam a presença da publicação em mais de sete décadas de produção literária e reúnem obras publicadas nos cem primeiros números da revista Letras del Ecuador. Em 2010, saiu o volume de número 3 que traz ensaios que vieram à luz entre dezembro de 1948 e maio de 1951 nos números de 39 a 67 da revista.
O Poeta com P de Preto (Rilton Junior) apresenta a primeira temporada do monólogo “Vitimistas Não, Vitimizados”, nos dias 17, 18, 24, 25 e 31 (sábados e domingos de Agosto de 2019), sempre às 18hs, em parceria com o Espaço Cultural Sobrado da Mouraria, Rua do Castanheda, 222, Nazaré, em Salvador-BA. A entrada é pague quanto puder +1kg de alimento não perecível. Os alimentos serão entregues a famílias que necessitem.
“E chega a hora do compartilhamento de nossas vivências, e por que não a partir da arte, né?”
*Vitimistas Não, Vitimizados* traz textos de Rilton Junior e um de Lucas Silva. Foi idealizado e escrito por Rilton Junior, a partir de uma vivência com a Organização Dandara Gusmão, que tem a proposta do Teatro Preto Anti-Racista na escola de Teatro da UFBA.
A peça fala sobre o embranquecimento forçado e a negação da humanidade da população negra e tenciona, através da veia teatral, uma releitura dos estereótipos impostos e a revalorização do negro na sociedade brasileira.
Direção de Gisele Soares e Rilton Junior.
*Poeta com P de Preto*
Além de Poeta, Rilton Junior também é Escritor, produtor cultural, Militante Anti-Racista, fazedor da Arte Negra e Ator.
Serviço
O quê: 1ª Temporada do monólogo “Vitimistas, Não. Vitimizados”
Quando: 17, 18, 24, 25 e 31 (sábados e domingos de Agosto de 2019), às 18hs
Onde: Rua do Castanheda, 222, Nazaré, em Salvador-BA (Espaço Cultural Sobrado da Mouraria)
Quanto: Pague quanto puder + 01kg de alimento não perecível
Em entrevista ao Expresso, Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, diz que é preciso recriar a Igreja, nomeadamente com a ordenação de mulheres e de padres casados.
Polémico, desassombrado, Anselmo Borges não se cansa de defender a ideia de uma Igreja mais próxima das origens e aberta a todos. Confrontado com a partida dos monges da Cartuxa de Évora, lamenta o desaparecimento de um espaço de silêncio em Portugal.
Num texto, afirmou que a Igreja tem dupla identidade e foi capaz de gerar Francisco de Assis e Torquemada. Atualmente está mais próxima de Assis ou da Inquisição?
Essa pergunta nem deveria sequer poder ser feita. Se a Igreja quiser ser de Jesus, só pode ser de Assis. A Igreja deve ser o sentido último da existência: Deus enquanto amor. O evangelho é uma notícia boa e a inquisição não é uma boa notícia.
Esta semana foi divulgado que os monges Cartuxos vão sair de Portugal. Saem porque são poucos. É um reflexo da falta de vocações? Com eles parte um espaço de silêncio?
É uma das crises maiores do nosso tempo, marcado pelo ruído, a pressa e por uma razão instrumental. Temos uma profunda crise de valores porque no meio do tsunami de informações vivemos cada vez mais na exterioridade de nós. Corremos o risco da alienação. Já não vamos ao mais íntimo nem apreciamos o silêncio nem o encontro com o mistério a que chamamos Deus, e que está no mais profundo de nós, a voz da consciência. A Cartuxa era um apelo ao silêncio. Com a partida deles fica um vazio, próprio do nosso modo de estar no mundo.
Deixamos de perceber aquela missão de recolhimento?
Não compreendemos mais a utilidade do inútil. O ser humano ascendeu a ser homem, de forma distinta de todos os animais, quando pela primeira vez um rapaz foi à procura de uma flor — que dá perfume sem porquê — para oferecer a quem amava. Para que serve este gesto? Quanto custa? Mas isso é que é o melhor da humanidade: o gratuito. Hoje tudo se vende. É preciso voltar ao Evangelho: não podeis servir a Deus e ao dinheiro, compreendido como um ídolo. E a saída dos monges é sinal desta profunda crise de humanidade.
Lançada em novembro de 2013 para tentar encurtar a distância que separa a literatura brasileira da do Equador (e, por extensão, dos demais países de hispano-americanos), a ViceVersa Revista Literária, mantida pela Embaixada do Brasil em Quito, com o apoio do Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), chegou ao seu terceiro número em agosto de 2018, com uma edição dedicada ao escritor brasileiro Dalton Trevisan (1925), hoje o maior contista vivo da Língua Portuguesa, Prêmio Camões de 2012 e Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras de 2012.
Como observou o diplomata Carlos Alfredo Lazary Teixeira, embaixador em Quito à época, na apresentação que escreveu para este número, tanto o Brasil publica poucos autores equatorianos como são raros os escritores brasileiros publicados no Equador. Por isso, ViceVersa surgiu como uma iniciativa que procura fomentar esse diálogo, pois, com os 13 autores publicados nesta edição, já são 37 os escritores conhecidos ou revisitados pelos leitores do Brasil e do Equador nas três edições: 18 equatorianos e 19 brasileiros, todos contistas.
Quand une femme devient indifférente, vous saurez que vous l’avez perdue. Là, il n’y a ni colère, ni haine, ni amour surtout. Quand l’indifférence s’installe, plus de retour, pas de regrets. Le contraire de l’amour n’est pas la haine, mais l’indifférence.
No “Livro I da Ética e no Tratado sobre a Religião e o Estado”, o filósofo holandês Baruch Spinoza delineia a sua concepção de um Deus despersonalizado e geométrico, contrária a todas as formas de se conceber Deus como uma espécie de entidade, oculta e transcendente, que age conforme os seus desígnios e a sua vontade suprema. De uma teoria que não compartilha da ideia de um Deus autocrático, que controla a tudo e a todos, e que se refugia em algum ponto distante da abóbada celeste — segundo a crença comumente aceita e bastante difundida, sobretudo entre os povos e as civilizações de origem indo-europeia. Motivo pelo qual, o filósofo Spinoza expôs, assim, em sua obra, a sua definição — considerada por ele a mais adequada —, de Deus, em contraposição a todas as doutrinas e dogmas religiosos até então existentes. E é Spinoza quem diz que as massas “supõem, mesmo, que Deus esteja inativo desde que a natureza aja em sua ordem costumeira; e vice-versa, que o poder da natureza, e as causas naturais, ficam inativas desde que Deus esteja agindo; assim, elas imaginam dois poderes distintos um do outro, o poder de Deus e o poder da natureza”. Spinoza ainda nos faz o alerta para o fato de que: “Deus fez todas as coisas em consideração do homem, e que criou o homem para que este lhe prestasse culto. (…) [Isto acontece porque toda] gente nasce ignorante das causas das coisas e que todos desejam alcançar o que lhes é útil e de que são cônscios”. Com efeito, a crença de Spinoza era em um Deus baseado no seguinte princípio: Deus e Natureza são a mesma coisa — Deus sive Natura (Deus ou Natureza).
A Vida
——— Baruch de Espinosa nasceu em Amesterdão, filho de pais judeus, oriundos de Espanha, que se mudaram para Portugal e daí para a Holanda, por causa das perseguições religiosas. Educado na comunidade hebraica de Amesterdão, começou por receber os ensinamentos tradicionais do talmudismo. O pai era um próspero negociante que via, com alguma desconfiança, a preferência que o filho dava aos estudos filosóficos e teológicos. Espinosa era um estudante notável que preferia passar o tempo na biblioteca da Sinagoga do que no escritório do pai. Começou por estudar a Bíblia e o Talmud, ainda muito jovem. Ainda adolescente, estudou as obras de Maimónides, Levi Bem Gerson, Ibn Ezra e Hesdai Crescas. Impressionou-o a identificação de Deus com o Cosmos, a eternidade do Mundo, e a ideia de que a matéria do Universo seria o corpo de Deus. Em Maiomónides, tomou contacto com a teoria averroístas da impessoalidade da alma e da unidade do intelecto. A leitura atenta de todos os grandes filósofos judaicos levou-o a descobrir contradições no Antigo Testamento e a duvidar da interpretação que dele fazia o judaísmo ortodoxo.
A sua curiosidade levou-o a aprender latim, com o mestre holandês, Van den Ende, de forma a poder ler os filósofos cristãos da Idade Média. Do encontro com o mestre Van den Ende resultou a grande paixão de Espinosa pela filha que, no entanto, não se sentiu atraída pela grandeza intelectual do filósofo. Apesar de não Ter sido capaz de atrair as atenções da jovem filha do seu mestre de latim, Espinosa ficou equipado para poder penetrar na leitura de Platão, Aristóteles, Demócrito, Epicuro e Lucrécio. Foram, sobretudo, os filósofos atomistas, principalmente Demócrito, que conquistaram o seu coração. Mas a insaciável curiosidade de Espinosa não o fez ficar por aqui. Estudou os escolásticos, apreciou Giordano Bruno e fixou-se no seu contemporâneo Descartes. Em 1656 foi expulso da sinagoga de Amesterdão, acusado de blasfémia, após o que viveu em várias cidades holandesas, dedicando-se ao ofício de polidor de lentes. Sobre o episódio da excomunhão, Will Durant, na História da Filosofia, diz o seguinte: “Foram estes antecedentes mentais do jovem (nascera em 1632) cuja aparência tranquila dissimulava uma profunda agitação interior e que se viu intimidado a comparecer perante os velhos da sinagoga para se defender das heresias. Seria certo – perguntaram-lhe – que andava a propalar que o corpo de Deus era o mundo da matéria, que os anjos eram alucinações, que a alma não passava da vida e que o Velho testamento nada dizia sobre a imortalidade? Ignoramos a sua resposta.
Para se conhecer a alma do Rio de Janeiro do final do século XIX e início do XX, é fundamental ler a obra de Machado de Assis (1839-1908). Mas, com certeza, daqui a um século, para se conhecer a alma de Brasília, imprescindível será conhecer a obra do escritor João Almino (1950), que acaba de dar à luz Entre facas, algodão (Rio de Janeiro, Editora Record, 2018), o seu sétimo romance que tem a nova capital federal como um de seus cenários.
Com quase 60 anos de existência, Brasília precisava de um romancista que a explicasse, expondo sua vulgaridade e os sonhos e frustrações de seus moradores. E João Almino assumiu-se como seu intérprete, construindo um painel romanesco contemporâneo que colocou a capital do País no mapa da prosa literária brasileira, como bem observou o romancista, contista e ensaísta Cristóvão Tezza na apresentação que escreveu para este livro.
Escrito em forma de diário, este romance conta as vicissitudes da vida de um advogado, de 70 anos, que, vivendo em Taguatinga, região administrativa do distrito federal, onde fez a sua vida, separa-se da mulher e decide reencontrar as suas raízes, retornando a uma pequena fazenda nas proximidades de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde passara a infância.
Decidido a plantar algodão e viver dessa atividade, o retorno ao passado carrega também uma frustração – uma história de amor mal resolvida e simbolizada por um fio de cabelo guardado há muitos anos numa caixa de fósforo – e um sentimento de vingança, já que, quando menino, soubera que aquele que então supunha ser seu pai havia sido assassinado. Volta, então, com a intenção de acertar contas e honrar o nome do pai.
O significado de uma obra literária não corresponde à intenção do criador, pois ela tem vida própria e seu sentido pode ser acrescido à medida que é avaliada por leitores de diferentes épocas. Essa definição consta de “Conceito e divisão da Teoria da Literatura”, primeiro capítulo do livro Teoria da Literatura “Revisitada” (Petrópolis-RJ, Editora Vozes, 2005), das professoras Magaly Trindade Gonçalves (1941-2015) e Zina C. Bellodi, e constitui um exemplo perfeito da qualidade das ideias que o estudioso de Literatura irá encontrar nesta obra, fundamental desde a sua publicação para quem quer se aventurar na arte (pouco compensatória em termos financeiros) de escrever resenhas e ensaios.
Na verdade, o livro traça, de modo geral, o percurso das ideias sobre a Literatura ao longo da História, trazendo à tona as mais diversas concepções do literário, que, embora distantes no tempo e no espaço, vivem quase sempre em permanente diálogo, já que não só as ideias sobre o literário mudam, mas mudam também as marcas essenciais da própria criação literária.
Discípulas do poeta, crítico, tradutor e novelista português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), perseguido pelo salazarismo (1933-1974) e exilado no Brasil a partir de 1954, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), campus de Araraquara, interior de São Paulo, a partir de 1962, as professoras Magaly e Zina mostram neste trabalho já considerado clássico como o Realismo do século XIX e, mais particularmente, o Naturalismo trazem a marca do interesse científico em explicitar o mundo e o homem. E acrescentam: “E o romance prestava-se magnificamente ao trabalho com as novas descobertas científicas, já que ele se volta, normalmente, para tramas que ocorrem em grupos humanos, de maneira aparentemente natural”.
Em Quito, pesquisador Adelto Gonçalves discorre sobre a vida e a obra dos poetas em conferências para estudantes e acadêmicos
QUITO – A convite da Embaixada do Brasil no Equador, o jornalista e escritor Adelto Gonçalves fez na segunda semana de junho duas apresentações de sua obra literária em palestras dirigidas ao público estudantil e acadêmico de Quito. Sábado, dia 8, no Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), o pesquisador apresentou a um público formado por mais de 50 estudantes equatorianos de Português um alentado trabalho sobre sua trajetória literária que inclui nove livros publicados e uma nova obra a sair ainda neste ano pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
Na segunda-feira, à noite, dia 11, participou, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrión, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. Os dois encontros contaram com a presença e a participação do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa (1888-1935), Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.
De Fernando Pessoa, Gonçalves destacou que o ensaio “O ideal político de Fernando Pessoa”, que consta de seu livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória internacional interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.
Há um país que se sente mal neste país. Há um país que acha que o país o não segue ou, quando acaso episodicamente o faz, não consegue pôr o país a seu jeito. Há um país com uma infindável raiva, que acha que o país o não compreende, que vive num mal-estar endémico, em “blues” eternos. Há um país que acha que tem uma ideia salvífica para o país, a mezinha mágica para pôr isto direito, mas que o país, pateta, não consegue nunca entender. Há um país sobranceiro, arrogante, feito de gente que, afinal, apenas gostava que o país fosse aquilo que eles acham que o país devia ser. E que, talvez não por acaso, não é.
Esse país, que agora por aí anda com a bílis à solta, não gosta do país que tem, não gosta afinal do país que lhe deu a liberdade de não gostar do país. É o país tremendista do “nós” e do “eles”, em que estes últimos são o sujeito de todos os males, que só não são curados porque a “nós” não é dada a possibilidade de os corrigir. Esse país que agora anda muito vocal, mas que nunca fez nada pelo país, é filho incógnito daqueles a quem, em todas as épocas da nossa História, sempre desagradou o país que tinham. Para esses melancólicos iluminados pelas luzes da outra verdade, isto sempre foi uma “choldra”, uma “seca” feita país, a que urge abrir as portas e as janelas, deixando entrar o ar do tempo. O deles.
No passado, esse país indisposto com o país, era então o estrangeirado. Lá fora estavam todas as soluções, só era necessário importá-las para que a modernidade das ideias, afinal tão óbvia, pudesse aqui frutificar e dar-lhes, finalmente, a glória dos profetas. Com Abril, desembarcaram em Santa Apolónia, com livros e ambições de reconhecimento. O país, que tem da generosidade o sentido da medida, deu-lhes o que era devido. Não mais.
Mas a semente, qual OGM, mudou de qualidade, transmutou-se. O país do despeito mudou entretanto de geração, ilustrou-se nas Américas, leu Popper e, enterrando o latino, anglo-saxonizou o seu projeto. Andou os últimos anos a fazer livrinhos, acolhido em universidades da receita segura, colunizando-se pelas plataformas da moda. Nos partidos, onde se muda a política com a legitimidade do voto, entram e saem, nervosos, à medida das ambições, falhos de votos e reconhecimento. Cavalgando as inseguranças de muitos, as dúvidas de uns tantos, os temores de alguns, ei-los agora a adubar de populismo os seus dias, os seus discursos, tentando que os dias do país se confundam com os da sua raça.
Quem os topava bem era o O’Neill, que os citava, definitivos e, no entanto, tão tristemente provisórios: “Não, não é para mim este país!”. E era um poeta, imaginem!, de Portalegre, Régio de seu nome mas republicano de gema, quem lhes respondia, quem lhes responde, em nome do país: “Não vou por aí!”
Francisco Seixas da Costa
Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa
Depois de 22 anos, Politica e Profezia: Appunti e frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pellicani Editore, 1996), que reúne textos políticos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), traduzidos e anotados por Brunello Natale De Cusatis, professor de Língua Portuguesa e Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia, hoje aposentado, ganhou em 2018 pela Edizioni Bietti, de Milão, uma segunda edição, revista e aumentada, constituindo o 26º volume da coleção l´Archeometro. Na introdução que preparou para esta edição, entre outras argutas observações, De Cusatis recupera a polêmica travada à época da primeira edição com o escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), autor de Afirma Pereira (1994), na qual também teve participação (involuntária) este articulista.
Como se sabe, à época, o fato de ter mostrado que o pensamento político de Fernando Pessoa passava longe dos hostes esquerdistas, embora não se pudesse qualifica-lo de fascista, aparentemente, desagradou Tabucchi, antigo professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, diretor do Instituto Italiano de Cultura em Lisboa e tradutor de obras de Fernando Pessoa para o italiano. E o que se seguiu foi uma série de ataques pela imprensa, especialmente um artigo publicado no jornal Corriere dellaSera, de Milão, em 31 de maio de 2001.
Como escreveu o crítico José Almeida, no periódico impresso O Diabo, de Lisboa, na edição de 15 de janeiro de 2019, a polêmica mostrou, “de um lado, as calúnias, as mentiras e as infâmias de Tabucchi e respectivo séquito, de outro a verdade assente sobre os fatos, a honestidade intelectual e o profundo conhecimento de De Cusatis em relação à obra do modernista português”.
Depois de uma carreira de três décadas em grandes veículos de comunicação de São Paulo, como O Estado de S.Paulo, revista Placar (Editora Abril), Diário Popular e ESPN Brasil, entre outros, o jornalista Nelson Urt, 65 anos, voltou em 2004 para a sua Ladário natal, antigo distrito e hoje cidade vizinha a Corumbá, no Pantanal do Estado do Mato Grosso do Sul, onde continuou a exercer sua profissão nas redações do Diário Corumbaense e do Correio deCorumbá e como autônomo, além de dedicar-se aos estudos acadêmicos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
A par disso, em fevereiro de 2019, decidiu criar uma editora, a Maria Preta Cartonera, pela qual acaba de lançar Amor e Morte em Tempos de Chumbo, que reúne um conto inédito e crônicas, além de poesias e artigos escritos ao longo dos últimos dez anos. Juntamente com o livro de Urt, a Maria Preta Cartonera lançou Paixão e Morte no Bordel, com contos dos jornalistas e historiadores Luiz Fernando Licetti, Silas de Almeida e Nelson Urt.
O mergulho de Urt na ficção, porém, não deixa de ser um retrato bem acabado de uma realidade vivida por jornalistas e outros intelectuais, de modo geral, na cidade de São Paulo nos anos 60 e 70, durante os tempos de chumbo provocados pelo regime militar (1964-1985). Com um texto enxuto e pacientemente elaborado de quem dedicou os seus melhores anos à escrita de reportagens na área esportiva, o jornalista, agora ficcionista, reconstitui no conto que dá título ao livro as peripécias de Marcus, uma espécie de alter ego, fotógrafo do Diário da Noite, periódico do empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), dono do conglomerado Diários Associados, magnata das comunicações entre o final de 1930 e o começo da década de 1960.
A exemplo do que já fizera em Dicionário de personagens da obra de José Saramago (Blumenau-SC: Editora da Fundação Universidade Regional de Blumenau – EdiFurb, 2012), levantamento de 354 protagonistas que perpassam os romances e peças teatrais do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, feito a partir de pesquisa que durou 15 anos e contou com a colaboração de mais de oito dezenas de seus alunos, a professora, contista, ensaísta e crítica Salma Ferraz acaba de lançar Dicionário de personagens da obra de Paulina Chiziane (São Paulo: Todas as Musas, 2019), publicado com recursos do Ministério da Cultura, através da Lei de Incentivo à Cultura.
A obra é resultado de um trabalho coletivo que durou cinco anos e foi realizado por uma equipe coordenada pela professora Salma Ferraz, incluindo 53 alunos de graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o auxílio de duas alunas da Pós-Graduação em Literatura Brasileira da mesma UFSC, Patrícia Leonor Martins e Márcia Mendonça Alves Vieira. Como diz na apresentação que escreveu para este livro Tania Macedo, professora titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e diretora do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (USP), este trabalho constitui uma espécie de “mapa” da escrita da autora moçambicana Paulina Chiziane (1955) que vai muito além daquilo que o título da obra deixa entrever.
Além de relacionar personagens que aparecem em vários livros de Paulina, o Dicionário traz uma fortuna crítica e uma biografia da autora, bem como duas entrevistas concedidas por ela para órgãos de imprensa do Brasil e do exterior e dois ensaios de especialistas. Um dos responsáveis por um desses ensaios é este articulista, autor de “O feminismo negro de Paulina Chiziane”, originalmente publicado em Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macedo, organizadoras (Maputo: Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012, pp. 33-41). O outro ensaio é “Adão e Eva na obra de Paulina Chiziane”, de António Manuel Ferreira, professor associado com agregação do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Ao final, o livro traz ainda uma fortuna crítica de textos acadêmicos dedicados à obra da autora moçambicana.
Le Caire, 2011. Alors que la mobilisation populaire est à son comble sur la place Tahrir, Asma et Mazen, qui se sont connus dans une réunion politique, vivent leurs premiers instants en amoureux au sein d’une foule immense. Il y a là Khaled et Dania, étudiants en médecine, occupés à soigner les blessés de la manifestation. Lui est le fi ls d’un simple chauffeur, elle est la fille du général Alouani, chef de la Sécurité d’État, qui a des yeux partout, notamment sur eux. Il y a là Achraf, grand bourgeois copte, acteur cantonné aux seconds rôles, dont l’amertume n’est dissipée que par ses moments de passion avec Akram, sa domestique. Achraf dont les fenêtres donnent sur la place Tahrir et qui, à la suite d’une rencontre inattendue avec Asma, a été gagné par la ferveur révolutionnaire. Un peu plus loin, il y a Issam, ancien communiste désabusé, victime de l’ambition de sa femme, Nourhane, présentatrice télé, prête à tout pour gravir les échelons et s’ériger en icône musulmane, qu’il s’agisse de mode ou de mœurs sexuelles.
Chacun incarne une facette de cette révolution qui marque un point de rupture, dans leur destinée et dans celle de leur pays. Espoir, désir, hypocrisie, répression, El Aswany assemble ici les pièces de l’histoire égyptienne récente, frappée au coin de la dictature, et convoque le souffle d’une révolution qui est aussi la sienne. À ce jour, ce roman est interdit de publication en Égypte.
Umas das livrarias de que mais gosto em Lisboa é a Palavra de Viajante. Situada no nº 34 da Rua de São Bento, é especializada em livros de viagens, mas viagens no sentido lato, pelo que temos à nossa disposição uma ampla gama de literatura de primeira água em várias línguas: para além do português, há livros em inglês, francês, espanhol e, em menor quantidade, em italiano. Ou seja, em todas as línguas que tenho o privilégio de dominar (umas um pouco melhor do que outras, naturalmente). Nesta livraria, descobri, graças ao profissionalismo das suas proprietárias, Ana Coelho e Dulce Gomes, vários livros e autores que desconhecia. Uma das minhas últimas descobertas foi a tradução espanhola de um livro de um escritor albanês de que ouvira vagamente falar, de nome Bashkim Shehu. Da literatura albanesa, lera sobretudo inúmeros livros de Ismail Kadaré, mas também em tempos um de Fatos Kongoli e tenho memória de ter folheado algures – talvez na própria Palavra de Viajante ou numa outra livraria de culto para mim, a Nouvelle Librairie Française, dirigida pelo meu grande amigo Frédéric Strainchamps Duarte – um romance de Dritëro Agolli. Ultimamente, nalguma imprensa europeia, fala-se da escritora e artista plástica Ornela Vorpsi, nascida em Tirana e com livros escritos em três línguas: o albanês, a sua língua materna, o italiano, língua do país onde começou os estudos universitários e, mais recentemente, o francês, língua do país onde vive atualmente.
Sou o Yanis Varoufakis e tenho uma mensagem para ti. Escrevo isto porque estamos num momento decisivo. Uma encruzilhada.
Há alturas em que nos encontramos exaustos e desanimados à beira do desespero. Pode ser extremamente frustrante ver oestablishment da UE implementar políticas de austeridade que dão força aos movimentos misantropos e os fazem ganhar terreno, ver a nova extrema-direita espanhola, aliada à direita tradicional, chamar “feminazis” ao movimento feminista, ver Itália ser governada por homens autoritários de outros tempos, dispostos a deixar morrer pessoas no mar para ganharem as suas credenciais xenófobas, ou ainda ver a Europa numa corrida em direcção à próxima catástrofe económica – quando a maioria dos europeus ainda não recuperou da anterior.
Mas são pessoas como tu que trazem de volta a esperança. Dirijo-me a ti porque tu pertences a um número crescente de pessoas que compreendem verdadeiramente a necessidade de políticas de transformação na Europa.
Somos muitos mais do que pensas e em breve atingiremos a massa crítica. Se nos esforçarmos ainda mais e se avançarmos ainda antes das eleições europeias, poderemos talvez mover suficientemente a agulha para inverter o jogo. Mas para o conseguirmos precisamos de ser uma força coesa.Ninguém nos vai dar apoio financeiro para pagar os custos do nosso trabalho nesta encruzilhada – excepto tu e eu.
Dmitri Khvorostovski
Cantor de ópera
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DescriçãoDmitri Aleksandrovitch Khvorostovski foi um barítono russo. Hvorostovsky nasceu em Krasnoiarsk, na Sibéria. Estudou na Escola de Artes de Krasnoiarsk sob os ensinamentos de Ekaterina Yofel e fez sua estreia na Casa de Ópera de Krasnoiarsk no papel de Marullo, Rigoletto. Wikipédia
Nascimento: 16 de outubro de 1962, Krasnoyarsk, Rússia
Falecimento: 22 de novembro de 2017, Londres, Reino Unido
Filhos: Nina Hvorostovskaya, Daniel Hvorostovsky, Aleksandra Hvorostovskaya, Maxim Hvorostovsky
Cônjuge: Florence Illi (de 2001 a 2017), Svetlana Hvorostovskaya (de 1989 a 2001)
Filmes e programas de TV: Tchaikovsky: Eugene Onegin: The Metropolitan Opera, MAIS
«Leonardo da Vinci e as Mulheres», de Kia Vahland: Um novo olhar sobre a vida e obra do grande génio no 500.º aniversário da sua morte.
Em Leonardo da Vinci e as Mulheres, que chegará amanhã às livrarias portuguesas, a autora e historiadora da arte Kia Vahland dá-nos a conhecer que, séculos antes dos movimentos de emancipação femininos, Leonardo da Vinci desenvolveu na sua pintura a imagem da mulher moderna.
Este génio universal, e criador da lendária Mona Lisa, celebra nos seus quadros e desenhos a persistência, o intelecto, as emoções e a sensualidade femininas – e, com os seus modelos, revela a mulher moderna como a contrapartida do homem, em plena igualdade. Na realidade, Leonardo retratou as mulheres como o mundo ainda não as conhecia, inventando a imagem da mulher autónoma com ideias próprias, a mulher bela e autoconfiante mas também vulnerável que encara diretamente o homem a partir da tela.
Segundo Nicola Kuhn, do Der Tagesspiegel, «A linguagem de Kia Vahland é clara e direta. Recusando perder-se em formulações egocêntricas, trata as coisas pelos nomes, amiúde com um toque de ironia.»
Já Niklas Maak, do Frankfurter Allgemeine Zeitung, diz que «Kia Vahland movimenta-se no mundo académico e jornalístico e escreve sobre a história da arte como se de um romance policial se tratasse. Trabalha com a linguagem como um pintor com as tintas.»
Um livro de leitura obrigatória que chega até nós no ano em que se assinala o 500.º aniversário da morte deste artista.
VAMOS CURAR A TERRA, de Julian Lennon e Bart Davis e ilustrado por Smiljana Coh chega esta semana às livrarias
No seguimento de Vamos Ajudar a Terra publicado o ano passado pela ASA, Vamos Curar a Terra é uma nova história inspiradora e enraizada na vida e obra de Julian Lennon, filantropo, fotógrafo, músico e produtor musical.
Elogiado neste projeto por figuras como Bono ouLaurie Berkner, Julian Lennon, filho do lendário líder dos The Beatles, leva os jovens leitores numa viagem que os desafia a fazerem da Terra um sítio melhor para toda a Humanidade, protegendo o meio ambiente e ensinando todos a amar o nosso planeta.
Sobre o Livro
Coloca-te de novo aos comandos do Avião da Pena Branca, um avião mágico que pode levar-te até onde quiseres, e faz parte desta aventura para curares a Terra! Basta carregares nos botões das várias páginas e inclinares o livro nas direções indicadas.
O Avião da Pena Branca tem como missão transportar os leitores numa viagem pelo mundo fora e mostrar-lhes como podem fazer da Terra um sítio melhor para toda a Humanidade, protegendo o meio ambiente e ensinando todos a amar o nosso planeta.
JULIAN LENNON é cantor, compositor e músico (com uma nomeação para os Grammy Awards e outra para os MTV Video Music Awards), produtor musical, fotógrafo e filantropo. Nasceu em Liverpool, Reino Unido, e desde sempre se afirmou como um observador da vida em todas as suas vertentes, razão pela qual necessita de se expressar através das mais variadas formas de arte. Em 2007 fundou a organização The White Feather Foundation, que leva a cabo iniciativas ambientais e humanitárias, atuando nas áreas da preservação da natureza, educação, saúde pública e proteção das culturas indígenas.
BART DAVIS é autor tanto de romances ficcionados como de livros de não-ficção, em especial biografias, tendo obras suas sido traduzidas para múltiplas línguas. No seu currículo conta ainda com a escrita de dois filmes e também de múltiplos artigos de opinião, no âmbito da sua colaboração regular com a imprensa. Vive em Nova Iorque.
SMILJANA COH estudou animação para filmes e, no seu trabalho, combina técnicas de ilustração mais tradicionais com técnicas de ilustração digital. A sua criatividade emerge da atenção que dá a cada detalhe das suas ilustrações. Além de já ter ilustrado alguns livros infantis, também já se aventurou, ela própria, na escrita. Vive na Croácia.
Ficha do Livro: Título: Vamos Curar a Terra – Nº págs: 48 – ISBN: 9789892344850 – PVP C/ IVA: 11,90€
(Tese de doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e pela Universidade de Brasília)
Resumo
Apesar da língua e de um fundo histórico e cultural comuns, as relações entre Portugal e o Brasil têm sido reconhecidamente permeadas por um sentimento de estranhamento ou desconforto mútuo, mesmo quando no plano estatal – sobretudo em períodos de coincidência ideológica e política dos regimes que os governam – se registam avanços em termos de acordos e tratados celebrados em diversas áreas.
Esse estranhamento opera como fator inibitório do aprofundamento das relações, que estão aquém da intensidade registada noutros casos de relacionamento entre a ex-potência colonial e as ex-colónias, designadamente os Estados Unidos com a Inglaterra e a Espanha com os países latino-americanos. Essa situação de latência não inteiramente realizada entre Portugal e o Brasil já foi caracterizada como “parceria inconclusa”.
Paralelamente, regista-se entre os dois países um défice de comunicação, que tanto pode derivar desse sentimento de desajustamento mútuo como estar, até, na sua origem. Em qualquer caso, essa (in)comunicação tende a reforçar o estranhamento e vice-versa, num perpetuum mobile em que ambos mutuamente se alimentam.
Investigar as origens dessa realidade, sondar na História do passado comum as razões desse estranhamento e dessa (in)comunicação – este o objetivo do presente estudo.
Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais.
Provocado por desleixo ou acidente, o incêndio que destruiu pelo menos o pináculo e o teto da catedral de Notre-Dame é um choque civilizacional que emociona e magoa quem reconheça a cultura como ela é, uma expressão da História. História e cultura são isso mesmo, a diversidade dos olhares: alguns verão a catedral como um lugar de religião, outros recordarão Lutécia, alguns descobrirão a ousadia arquitetónica do gótico nascente, outros ainda a entrada para o Quartier Latin do outro lado da ponte, alguns lembrarão Joana d’Arc ou Napoleão Bonaparte, outros ainda evocarão Victor Hugo ou até a versão Disney da paixão de Quasimodo e de Esmeralda. Mas todos reconhecerão a solenidade do tempo, os vitrais e as torres desta nossa Notre-Dame.
Notava de manhã Sena Santos, na Antena Um, que outras catedrais foram feridas pelo desastre: a de Reims, glória gótica, bombardeada pelo exército alemão em 1917, a de Coventry, bombardeada em 1940 pela aviação hitleriana, a de Dresden, arrasada pelos Aliados em 1945, todas durante as tormentas das guerras europeias. Esta, a maior, terá ardido pela incúria. Mas a perda é a mesma, o fogo roubou-nos uma parte da memória da humanidade.
Não é de hoje mas continua hoje, a tragédia persegue a nossa História. Como os generais que nas guerras europeias escolheram aqueles alvos ou aceitaram que as bombas os atingissem, os talibãs dinamitaram no Afeganistão os Budas de Bamyan e o ISIS demoliu parte das ruínas de Palmira, na Síria. Em todos os casos, foram heranças comuns da humanidade que foram destroçadas. Estes não eram patrimónios caucasianos ou árabes, africanos ou asiáticos, eram e são de toda a humanidade. Por isso, perante a desgraça, evocar particularismos proprietários seria uma forma de racismo que nega a raiz universalista de toda a cultura.
Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais. Reconhecê-lo é o imenso ponto de convergência de quem se comove com estas perdas e quer defender e reconstruir o que é de toda a gente.
Pode-se por isso ceder à tentação de fazer desta tragédia um jogo (um candidato às eleições europeias não resistiu a exibir a sua mesquinhez alegando que a tristeza perante o incêndio comprova o seu discurso), ou pode-se tratar a perda como ela é: um desafio aos de hoje sobre como vivemos, respeitamos e preservamos o nosso passado comum. Um desafio a toda a gente, porque é de toda a gente.
Artigo publicado em expresso.pt a 16 de abril de 2019
Teólogo e biblista, Frei Fernando Ventura foi professor de Ciências Religiosas no ISCRA em Aveiro. É intérprete na Comissão Teológica Internacional da Santa Sé. Colabora, como tradutor, com diversos organismos internacionais. Pertence ao quadro de redatores da revista Bíblica, onde assina artigos de aprofundamento teológico. Autor do primeiro estudo sobre Maria no Islamismo, lançou o livro Roteiro de Leitura da Bíblia. Ministra cursos e retiros, percorre o mundo, de convite em convite ou de conferência em conferência, como tradutor. É assíduo comentador de atualidade social e religiosa em diversos canais de comunicação social em Portugal.
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Como é possível? Esta é a pergunta recorrente que qualquer pessoa de bem e de bom senso faz, sempre que as notícias chegam carregadas de sangue, injustiça, revolta, ódio… e sustentadas em supostas crenças religiosas. Frei Fernando Ventura é franciscano capuchinho. Foi a ele que recorremos para tentar entender o que nos parece inexplicável – como é possível alguém matar em nome de Deus?
Frei Fernando Ventura – O Prof. Agostinho da Silva dizia “eu não tenho religião, há uma religião que me tem a mim”. A pior coisa que pode acontecer a alguém é ter uma religião. Seja uma religião religiosa, seja uma religião política, seja uma religião futebolística, seja tudo aquilo que faz de mim o centro do mundo e não me permite passar para além de mim, em relação ao outro. Eu só sou capaz de encontrar Deus se for capaz de me desinquietar a mim. Eu digo sempre que há um momento zero de toda a revelação da Bíblia – quando Moisés ouve uma voz que o chama e ao mesmo tempo lhe diz tira as sandálias porque o espaço que pisas é sagrado. É a grande declaração formal da sacralidade do espaço do outro, da sacralidade do espaço de Deus e da sacralidade do meu espaço. É este o desafio. E é aqui que falham as pessoas que são gente da religião, mas não são gente de fé. São pessoas incapazes de perceber que a construção do “nós” se faz com a interseção dos dois “eu’s”
M.S. – O que me está a dizer é que devemos separar, de uma forma muito objetiva, a religião da fé.
F.F.V. – Sim. E quantas vezes são as religiões que incomodam a fé, vemos pessoas obrigadas a determinado tipo de comportamento, em nome de Deus, deixando de lado o outro. Dou sempre o exemplo do samaritano – está um homem caído na estrada a precisar de ajuda, passa o sacerdote, passa um levita e quem pára é o samaritano. Mas o sacerdote e o levita não param por serem maus, eles não param porque têm uma religião. Porque se eles tivessem tocado no cadáver ou no sangue ficavam impuros para entrar no templo. A religião tribalizada, o fanatismo religioso é isto, é quando eu sou o centro de mim próprio.
M.S. – E é o fanatismo que leva ao extremismo…
F.F.V. – Por isso é que todas as religiões têm as mãos manchadas de sangue. E a culpa não é das religiões, a culpa é de gente que não sabe ser gente com outra gente. Tenho dito tanto isto em tantos sítios… a nossa missão, independentemente da opção futebolística, sexual, clubística, gastronómica, política, seja o que for…, enquanto seres humanos a única missão que nos toca é ser gente com gente, para que cada vez mais gente seja gente e nunca ninguém deixe de ser pessoa. Na eternidade não há religiões. Deus não tem religião.
M.S. – Porque Deus será o mesmo para todas as religiões, não é?
F.F.V. – É o Deus que acima de tudo tem uma relação pessoal com cada um de nós. O drama é quando as religiões entendidas como articulações de comportamentos e normas de relações interpessoais não são momentos nem espaços de celebração da fé, mas são momentos de celebração da minha tribo. Isto acontece no futebol, acontece na política, acontece na vida social – a tribalização do eu. Nós vivemos numa sociedade, como eu costumo dizer, solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos. De relações fluídas, de utilidade… O que está em crise hoje em dia não é a fé. O que está em crise é a vida.
M.S. – As relações entre as pessoas…
F.F.V. – Entre os estados, entre os países. Temos muitos conflitos no mundo que não são mais do que conflitos políticos, geopolíticos e económicos mascarados de religião.
M. S. – Quando se fala desta temática – religião – usa-se muito um conceito que, eu sei, o Frei Fernando Ventura não gosta mesmo nada, que é a Tolerância.
F.F.V. –Tenho uma raiva danada à tolerância…
M.S. – Porque isto de tolerar alguém pode querer dizer que estamos a menosprezá-lo, não é?
F.F.V. – Completamente! Eu posso tolerar uma dor de cabeça, uma dor de dentes enfim, mas eu não tenho que tolerar ninguém. Eu não tenho o direito de dizer a ninguém “eu tolero-te”. Nós só temos o direito de olhar alguém de cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se. E há um outro mito que é preciso desconstruir – nós estamos todos convencidos, e ensinamos isso aos nossos filhos, nas escolas, nas catequeses…, que a minha liberdade termina quando começa a liberdade do outro – isto é uma estupidez.
M.S. – É?
F.F.V. – É, porque se o outro é o limite da minha liberdade eu tenho que o matar para ser livre. Os conflitos estão aqui também. Quando percebermos que na relação eu/tu a minha liberdade aumenta, na medida em que encontra a tua liberdade. Se eu for capaz de abrir o meu metro quadrado ao metro quadrado do outro, nós ficamos com dois metros quadrados. A minha liberdade alargou. O outro não é o limite.
M. S. – Mas quando se diz a minha liberdade termina quando começa a do outro é sinal de respeito pelo outro, pelo metro quadrado do outro…
M.S. – A propósito de dizer “nossos amigos muçulmanos”… eu sei que o Frei Fernando Ventura convive muito bem com outras religiões. O que poderemos fazer para haver cada vez mais pessoas assim… a olhar para os outros como iguais e respeitá-los na sua diferença?
F.F.V. – É perceber que o meu irmão judeu precisa que eu seja um bom cristão para ele ser um bom judeu. O meu irmão muçulmano precisa que seja um bom cristão para ele ser um bom muçulmano… e por adiante. A diferença do outro é aquilo que me completa. Se não eu morro sozinho.
M. S. – A religião hoje em dia é geradora de enormíssimas fortunas.
F.F.V. – São autênticos impérios.
M. S. – E isso, desde tempos imemoriais tem provocado guerra.
F.F.V. – E, desculpem a vulgaridade, sempre que o poder político e o poder religioso foram para a cama juntos, nasceram monstros. E o mundo de hoje continua com monstros destes. Com casamentos de conveniência. Por trás da geopolítica está sempre o calendário das guerras atuais e das guerras futuras, se quiser perceber onde vão acontecer os próximos conflitos tem que ver onde está o gás, o petróleo… ali vai ser montado um conflito. Ali vai ser montada uma guerra. Que vai ser uma guerra mascarada de religião, que de religião não tem nada.
M.S. – Como já teve oportunidade de dizer todas as religiões têm as mãos manchadas de sangue. E isso gera ódios. O que podem fazer hoje os líderes religiosos, as pessoas de bem, para resolver esta situação?
F.F.V. – É preciso que as pessoas de bem não se calem, independentemente da sua opção religiosa. A frase não é minha, mas “o que me assusta não é a voz dos maus, mas o silêncio dos bons”. Este é o tempo de passar da religião à fé, nas comunidades católicas, por exemplo, temos demasiadas missas e pouquíssimas eucaristias, temos demasiada gente que vai à missa, mas não vai à vida, temos gente “casada” com um Deus tirano que esmaga, mas que é gente que na vida real olha os outros de cima para baixo. A urgência é passar da religião à fé, da lógica do poder à lógica do serviço. Por aqui transformamos o mundo. Se não, não faremos mais do que construir muros e vamos morrer orgulhosamente sós. Agarrados a mitos. O Deus da violência não existe. E um homem ou uma mulher que diz que tem uma relação com Deus e não tem uma relação de horizontalidade com a vida, é só um fanático. É só um doente.
O recente Congresso Internacional da Língua Espanhola – que se realizou no final do passado mês de março na Argentina – ficou marcado pelo discurso inaugural do rei Felipe VI. Por lapso, o monarca espanhol, ao referir-se ao mais conhecido e universal dos escritores argentinos de todos os tempos, nascido em 1899 e falecido em 1986, trocou-lhe o nome e, em vez de o identificar como Jorge Luis Borges, chamou-lhe José Luis Borges. Muitos observadores glosaram sobre este equívoco de sua majestade, se seria sinónimo de desinteresse pela literatura ou resultado de uma mera distração. Afinal – afirmaram alguns – embora Jorge seja um nome comum, José é-o ainda mais e José Luis é no mundo hispânico – tal como no lusófono, aliás – mais corrente do que Jorge Luis (em castelhano Luis não leva acento na letra «i»). Em tempos, conversando com alguém que conheci e que, não sendo particularmente erudito, tinha a pretensão de saber alguma coisa de literatura, tive a surpresa de verificar que o dito cujo parecia nunca ter ouvido falar de Jorge Luis Borges, visto que me respondeu, perante uma citação que lhe fiz do génio argentino, que desconhecia que o padre José Luís Borga escrevesse livros, pois pensou que eu me referia a um tal padre cantor que, por acaso, entretanto, até já publicou um livro. Por conseguinte, a confusão entre Jorge Luís e José Luís é deveras vulgar. Que eu saiba, não existe nenhuma figura pública chamada Jorge Luís Gomes de Sá, pois correria o risco de ser confundido com uma reencarnação ou um descendente do famoso negociante de bacalhau e comerciante portuense José Luís Gomes de Sá Júnior (1851-1926) que deu origem à célebre receita de Bacalhau à Gomes de Sá.
Minhas amigas e meus amigos. Teria o maior prazer na vossa presença na apresentação do novo romance, que será feita pelo José Pacheco Pereira. Pela minha parte responderia `pergunta:
O livro é sobre quê?
Assim:
É sobre um homem a quem impuseram um destino que o ultrapassava e que, no fundo, ele não estava disposto a cumprir.
É um romance sobre a vaidade de ser um herói.
Sobre a ficção das histórias oficiais. Eu escrevi (tentei) uma história verdadeira sob a forma de ficção.
É sobre os salvadores das pátrias e dos povos.
É sobre a falsidade, a perversidade e a mentira
É sobre o clássico herói e salvador vencido pela história.
É um romance sobre mim.
O discurso histórico oficial é sempre uma conveniência.
Este romance é contra as conveniências do discurso oficial sobre um período recente e marcante da nossa história: o 25 de Abril, o 25 de Novembro e a violência revolucionária e contra revolucionária.
A ficção é a minha forma de transmitir a minha verdade.
Eu tenho uma verdade sobre o 25 de abril, sobre o 25 de novembro, sobre a nossa história. Este romance é o romance da minha verdade.
Os leitores poderão ver aqui quem quiserem, Otelo e Calvão, Eanes, Jaime Neves, o cónego Melo ou o Carlos Antunes, o ELP e as FP, mas o que está neste romance sou eu e a minha verdade sobre um período da nossa história.
É um romance sobre o outro que todos os sensatos têm de reserva.
Este é também um romance sobre loucos. Sobre os loucos que ocupam os marcos da História.
O que é um ex-revolucionário?
Como perdemos os ideais?
Ser generoso, dar a sua vida por uma causa é prova de quê? De inteligência? De estupidez! Só temos uma vida.
“Une femme libre est exactement le contraire d’une femme légère.”
“Personne n’est plus arrogant envers les femmes, plus agressif ou méprisant, qu’un homme inquiet pour sa virilité.” Le Deuxième Sexe (1949)
“On ne naît pas femme : on le devient.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Entre deux individus, l’harmonie n’est jamais donnée, elle doit indéfiniment se conquérir.” La Force de l’âge (1960)
“Je suis un intellectuel. Ça m’agace qu’on fasse de ce mot une insulte : les gens ont l’air de croire que le vide de leur cerveau leur meuble les couilles.” Les Mandarins (1954)
“Si l’on vit assez longtemps, on voit que toute victoire se change un jour en défaite.”
“Le principe du mariage est obscène parce qu’il transforme en droits et devoirs un échange qui doit être fondé sur un élan spontané :
il donne aux corps en les vouant à se saisir dans leur généralité un caractère instrumental, donc dégradant ; le mari est souvent glacé par l’idée qu’il accomplit un devoir, et la femme a honte de se sentir livrée à quelqu’un qui exerce sur elle un droit.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Une femme qui n’a pas peur des hommes leur fait peur, me disait un jeune homme.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Si l’œuvre de Dieu est tout entière bonne, c’est qu’elle est tout entière utile au salut de l’homme ; elle n’est donc pas en soi une fin, mais un moyen qui tire sa justification de l’usage que nous en faisons.” Pyrrhus et Cinéas (1944)
“La beauté se raconte encore moins que le bonheur.” La Force de l’âge (1960)
“La femme n’est victime d’aucune mystérieuse fatalité : il ne faut pas conclure que ses ovaires la condamnent à vivre éternellement à genoux.”
“Ça ne rapproche pas, le téléphone, ça confirme les distances.” La Femme rompue (1967)
“L’amour maternel n’a rien de naturel.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Le principal fléau de l’humanité n’est pas l’ignorance, mais le refus de savoir.”
“Autour de moi on réprouvait le mensonge, mais on fuyait soigneusement la vérité.” Mémoires d’une jeune fille rangée (1958)
“La femme est tout ce que l’homme appelle et tout ce qu’il n’atteint pas.”
“Vivre, c’était vieillir, rien de plus.” L’Invitée (1943)
“Le secret du bonheur et le comble de l’art, c’est de vivre comme tout le monde, en n’étant comme personne.” Mémoires d’une jeune fille rangée (1958)
“La femme est vouée à l’immoralité parce que la morale consiste pour elle à incarner une inhumaine entité : la femme forte, la mère admirable, l’honnête femme etc.” Le Deuxième Sexe (1949)
“N’oubliez jamais qu’il suffira d’une crise politique, économique ou religieuse pour que les droits des femmes soient remis en question.
Ces droits ne sont jamais acquis. Vous devrez rester vigilantes votre vie durant.”
Creio que um fator crítico do sucesso das redes sociais é alimentar como nunca o ego dos que nelas participam. Quais amizades, quais colegas de escola, quais reencontros e futuros encontros, as redes sociais são, essencialmente, uma desvairada feira de egos. De pequenos egos a rebentar pelas costuras alinhavadas ao correr dos dias, de indignação em indignação, de heroísmo em heroísmo, rebenta-se um ponto, alinhava-se outro. Demagogos e pequenos pides, caçam likes como os políticos caçam votos, censuram a oposição, abatem-na por bloqueio. Nunca se lhes insinue uma ideia diversa, nunca se divirja do bem que os enaltece. Populistas atrasados da atrasada sociedade digital, publicam por “likes”, e, finalmente, pelo advento do “free wi-fi”, são populares. Geniais, eruditos, melómanos, cinéfilos, justiceiros para tudo o que de errado se passa no mundo, violentamente contra a violência, insultuosos contra o insulto, estúpidos contra a estupidez, têm a sua matilha e o seu rebanho. Os que enchem de likes o insulto contra o insulto e os que rejubilam em êxtase de aleluia a cada nova publicação. E belos, giros, com uma vida interessantíssima, super-heróis na projeção digital com sonhos de ramificação à vida real. Da compensação primitiva do sonho, à esperança da materialização do que projetam ser. Mais acessível do que a hipocrisia, só ter uma página numa rede social.
Sim, e depois há as excepções.
O futuro da democracia e da União Europeia reside na capacidade de os seus dirigentes estarem atentos aos ventos de mudança, de aceitarem que a Europa não é apenas um espaço para as velhas correntes da democracia-cristã e da social-democracia.
Se o “Brexit” foi a primeira grande vitória dos nacionais-populistas, as dificuldades para levarem a cabo o seu “Brexit”, apesar das concessões de Theresa May ao populista Boris Johnson, são um sinal de mudança.
A decisão de Theresa May de procurar um consenso com o líder dos trabalhistas é sinal de que começa a compreender o perigo de ficar refém dos nacionais-populistas.
Depois de anos de recessão democrática, surgem indícios de que emerge não apenas uma contracorrente progressista e social, que recusa o nacional-populismo de direita, mas também o nacionalismo da esquerda conservadora. São liberais nos valores e sociais nas políticas económicas, intransigentes na defesa dos direitos humanos, do ambiente e da hospitalidade. São uma força indispensável para a derrota dos Trumps, Jonhsons e Bolsonaros deste mundo.
Je me souviens que lorsque j’étais petit, ma mère m’a demandé si je savais quelle partie de mon corps était la plus importante.
Au fil des ans j’ai essayé de deviner et de trouver la bonne réponse.
Je me souviens de la première fois où je lui ai répondu ce qui me semblait à l’époque le membre le plus important : « mes oreilles, maman ? »
Elle me répondit « Beaucoup de gens sont sourds. Mais persévère, continue à y réfléchir. On en reparlera plus tard. »
Quelques années passèrent. Je n’avais pas oublié sa question, j’y avais réfléchi. Je pensais avoir une bonne réponse quand elle me reposa cette question. C’est alors qu’avec fierté je lui dis : « les yeux maman ! La vue est très importante ! »
Elle me regarda avec tendresse et me dit : « Je vois que tu as pris de la maturité. Mais ce n’est pas la bonne réponse. Il y a beaucoup de gens qui sont aveugles. »
J’étais déçu… Cependant, intrigué, j’ai continué à chercher. Je lui donnais mes réponses au fil des ans qui passèrent. Et à chaque fois sa réponse était la même : « Non…, tu progresses, mais ce n’est pas ça, continue à chercher. »
Puis, quelques années plus tard, mon grand-père nous a quittés. Nous étions tous très affectés par sa disparition. Tout le monde était en pleurs. Même mon père pleurait. C’était la deuxième fois de ma vie que je voyais mon père pleurer.
Amo-te porque sou dependente do teu odor.
Amo-te porque balanças nos ventos futuros.
Porque sou uma árvore que se abriga à tua sombra.
Amo-te porque só sei respirar na cidade de Eros.
Amo as marcas indecifráveis de todas as etnias
que produzem a beleza do teu rosto.
Bebo nas tuas coxas o linho molhado da minha infância.
Amo-te porque és alucinação e mulher real
no mesmo corpo volátil. Amo-te
porque também de noite és o meu sol quotidiano.
Amando-te não preciso de correr por montes e vales
em busca da mais antiga das mães. Tu, a irmã
da minha vagabundagem sempre inaugural. Amo-te
porque deixei de ter pressa. Um poema infinito,
uma cascata em cada sílaba. Uma lua que me engole
quando começo a ser sábio. A vegetação
no jardim que foi de pedra. Conheci na tua carne
a lama do meu reino luminoso. Amo-te
porque me fazes saltar o coração e lá vai ele
a caminho do país dos cedros. E assim renasço
no enigma da tua carne que no chão deitada, voa.
Amo-te porque dependo da tua cor do teu odor.
Amo-te porque me acolhes à tua sombra de árvore
para sempre iluminada. Amo-te
porque não tenho pressa e também as tuas águas
parecem um ribeiro por entre as colinas
da manhã. Amo-te mistura de linho e do mármore
macio da manhã. Amo-te porque os teus caracóis
se transformaram em carícia onde sou mais só.
Amo-te porque te vejo arder
como se desejasses que também eu ardesse
a teu lado.
Ao ler o novo – e de novo polêmico e de novo diferenciado – romance (místico, ecumênico, religioso?) “O MARCENEIRO, A última Tentativa de Cristo”, Editora Viseu, 2018, de Silas Corrêa Leite, a primeira coisa que nos vem à mente é uma frase de Friedrich Nietzche: “A verdadeira questão é: quanta verdade consigo suportar?”. Simples assim. O livro, segundo o autor, é do final do ano 2.000, com aquela história do tal bug do milênio, o mundo iria acabar, coisa assim, e ele escreveu este despojo para não dizer que não era capaz de escrever um romance, principalmente se mirando o livro Memorial de Maria Moura, de Raquel de Queiroz, quando então se decidiu que, se aquele era um romance contemporâneo, atual, também poderia bolar um. Deu nisso. Um desafio? Um braço quebrado, engessado, outro com problema, pois pegou uma velha maquina remington, botou papel de formulário contínuo, e, feito um surto-circuito – psicografado? Jorro neural? – por quinze dias, a média de doze horas por dia, de licença médica, macetou o começo, meio e fim do projeto então se formalizando. Às vezes, confessa, aqui e ali, numa parte emocionante e elevadora, do registro que punha para fora, sentia que, madrugada a dentro, a sala do apartamento da Alameda Barros onde morava no bairro de Santa Cecilia como se iluminava, e ele, que tem medo de fantasma, de espírito, feito um bobo, parava assustado e chamando a esposa, acendia todas as lâmpadas do lugar, quando ela assustada, mas já o conhecendo, perguntava:
-O que você está fazendo?
-Estava escrevendo sobre Jesus, dizia ele.
Ela então entendia, e respondia:
– E você quer escrever sobre Jesus sem iluminação de algum lugar? Quem procura, acha…
Entre les « masses » sinistres observées par Freud ou Canetti et le « peuple » objet de revendications démocratiques de nos jours, la notion de « multitude » offre une précieuse ressource à la pensée. (Christian RUBY)
« Multitudes » est désormais le titre d’une revue qui, justement, ne confond pas masses et multitudes. Mais c’est aussi un terme évoqué par beaucoup pour parler des explosions d’individus en foules dans le contexte de la mondialisation. Encore une chose n’est-elle jamais claire dans l’usage de cette notion : parle-t-on simplement de multitudes empiriques (et comptabilisables) ou de multitude au sens de la philosophie politique, celle qui veut parler de révoltes, d’affirmations critiques au sein de la politique ? Et que fait-on du vocabulaire des « masses », hérité du XXesiècle dans un sens positif (par les partis de gauche) ou négatif (par la police) ? D’autant que la différence entre les termes n’est pas sans nous laisser devant une question décisive : comment les actions de la multitude (foule, masse ou peuple) deviennent-elles politiques ?
Il fallait donc bien s’attacher à préciser que « multitude » de nos jours peut encore s’opposer à d’autres usages et références notoirement classiques. Pourquoi ? Sans doute parce que, durant longtemps, foules et masses semblaient désirer le fascisme, si l’on se réfère à ces débats du XXe siècle et aux grandes théories qui en ont proposé l’étude (Freud, Canetti). Reste la question de la notion de « peuple », qui ne peut s’utiliser avec moins de difficultés. Entre ceux pour qui le peuple renvoie à une ethnicité ou à une opération identitaire et ceux pour qui le peuple se définit comme l’institution de base de la démocratie, voire ceux pour qui le peuple ne saurait être autre chose qu’une promesse d’avenir, les partisans de telle ou telle politique se distribuent assez bien.
Pourtant, l’intérêt du nom de « peuple » n’est-il pas tout autre ? C’est ce qu’il fallait aussi vérifier, tout en prenant soin de penser la relation potentielle entre multitude et peuple. Or, là encore, les positions sont délicates à cerner, sinon en saisissant les deux logiques suivantes : pour les uns, le « peuple » est supérieur à la « multitude » en ce qu’il est organisé dans le but de dégager des choix collectifs, alors que la « multitude » est amorphe et manipulée ; mais pour d’autres, le « peuple » est au contraire l’objet de fantasmes d’unité dangereux, qui justifient de valoriser plutôt la « multitude » dans son irréductible diversité. Les phobies des premiers et des seconds ne se recoupent pas.
Com o fim da cultura religiosa aprendemos a pensar que os erros não são nossos, que são dos grupos, das sociedades ou das estruturas. O inferno são os outros.
Foi um dos inventos mais extraordinários que os manuais não registram: isso costuma acontecer com os inventos mais extraordinários. Antes dele, aqueles homens e mulheres viviam mais ou menos felizes. Ou preocupados, irritados, apavorados, mas sem o peso da culpa. Naqueles dias as coisas aconteciam e ninguém sabia por quê: a vida era assim ou, no máximo, eram assim caprichosos esses deusinhos que pululavam na árvore, na água, na lua distante ou no poderoso sol.
E então aconteceu. Não se sabe quando, quem, como, mas em algum momento, há quatro ou cinco mil anos, alguns homens e mulheres no Iraque, no Irã ou na Síria começaram a acreditar que a culpa era deles. Que se a sua colheita estava ferrada ou o quinto filho morresse ou o jumento estivesse mancando, não era por causa desses acasos da vida, mas porque tinham feito algo para merecer isso. E tudo, então, começou a mudar: tinha surgido, escreveu Bottéro, a ideia do pecado.
(Jean Bottéro nasceu pobre e provençal em 1914, estudou com os padres, foi ordenado dominicano, se dedicou a ensinar e foi demitido por não querer dizer que o Gênesis era um fato histórico. Então, dedicou-se à Mesopotâmia, aprendeu seus idiomas, casou-se, traduziu o Código de Hamurabi, foi sábio e, ainda assim, publicou vários livros).
Os primeiros deuses morais aparecem no antigo Egito, na Mesopotâmia, na Anatólia e na China.
Os deuses de astecas, maias ou incas não intervêm na moral das relações humanas.
FOTOGRAFIA | Uma menina às portas do santuário de Chak Chak, no Irã, lugar de peregrinação para os zoroastristas.KAVEH KAZEMIGETTY IMAGES
A ideia de um deus todo-poderoso que vigia os humanos a partir de cima e pune os que se desviam da norma surgiu depois que estes trocaram a tribo pela sociedade. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo que revê o surgimento das sociedades complexas e a ideia do deus moral. Dos antigos egípcios até o Império Romano, passando pelos hititas, os deuses morais só entram em cena quando as sociedades se tornam realmente grandes.
A crença no sobrenatural é tão antiga como os humanos. Mas a ideia de um ser onisciente vigilante da moral é mais recente. Antes das revoluções neolíticas, do surgimento da agricultura e das primeiras sociedades, os humanos viviam em grupos relativamente pequenos, baseados no parentesco. Na tribo, todos se conheciam e devia ser difícil ter uma conduta antissocial sem ser flagrado. O risco de ser apontado, castigado ou expulso do grupo bastava para controlar o indivíduo. Mas, à medida que as sociedades foram se tornando mais complexas, as relações com estranhos ao clã cresciam e, ao mesmo tempo, as possibilidades de escapar à sanção. Para muitos estudiosos das religiões, a aparição de um deus moral que tudo vê serviu como cola para a coesão social, facilitando a emergência de sociedades cada vez maiores.
“Mas o que vimos é que os deuses moralizantes não são nada necessários para que se estabeleçam sociedades em grande escala”, diz Harvey Whitehouse, diretor do Centro para o Estudo da Coesão Social da Universidade de Oxford (Reino Unido) e coautor do estudo. “De fato, só aparecem depois do forte aumento inicial da complexidade social, uma vez que as sociedades alcançam uma população de aproximadamente um milhão de pessoas”, acrescenta.