PORQUE | Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo, 1958

A castidade com que abria as coxas | Carlos Drummond de Andrade

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados.

Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘O Amor Natural’

BASTASTE TU | Maria Eugénia Cunhal 

Bastou aquele gesto

Da tua mão tocar tão docemente a minha

Pra nascerem raízes

Que me prendem à terra e me alimentam

Nas horas mais vazias

Bastou aquele olhar

O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu

Para iluminar as noites em que a lua se esconde

E a escuridão envolve um mundo sem sentido.

Bastou esse teu jeito de sorrir,

Um sorriso em que vejo despontar a confiança

Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,

Nos passos que ressoam noutros passos

Bastaste tu.

Maria Eugénia Cunhal | In “Silêncio de Vidro”

Baruch Spinoza | Jorge Luis Borges

Bruma de oro, el Occidente alumbra
La ventana. El asiduo manuscrito
Aguarda, ya cargado de infinito.
Alguien construye a Dios en la penumbra.
Un hombre engendra a Dios. Es un judío
De tristes ojos y de piel cetrina;
Lo lleva el tiempo como lleva el río
Una hoja en el agua declina.
No importa. El hechicero insiste y labra
A Dios con geometría delicada;
Desde su enfermedad, desde su nada,
Sigue erigiendo Dios con la palabra.
El mas pródigo amor le fue otorgado,
El amor que no espera ser amado.

Jorge Luis Borges | “Poesía Completa”, pág. 461 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986 foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino. Nasceu a 24 Agosto 1899 (Buenos Aires, Argentina), Morreu em 14 Junho 1986 (Genebra, Suíça)

Guillaume Apollinaire | Biographie et Poème

Guillaume Apollinaire de Kostrowitzky nait à Rome le 26 août 1880 de père inconnu. Il est probablement le fils d’un noble officier italien dont sa jeune mère d’origine polonaise, Angelica Kostrowitzky, est la maitresse et avec qui elle aura aussi un autre enfant.

En 1887, Angelica, accro aux jeux de hasard, déménage à Monaco avec ses deux enfants. Mère négligente, elle ne s’occupe pas du tout de l’éducation de ses enfants. Guillaume, enfant à l’intelligence très vive et passionné de lecture, est placé en pension au Collège Saint Charles de Monaco. Il étudie ensuite au lycée Stanislas de Cannes et puis au lycée Masséna de Nice. C’est un élève brillant, mais pourtant il échoue au bac.

En 1900, la famille déménage à Paris. La situation économique précaire de son foyer le pousse à trouver un emploi. Il devient le précepteur d’une jeune aristocrate. Cet emploi l’amène à voyager beaucoup dans une ambiance cultivée et cosmopolite.  Il commence à se consacrer à l’écriture. Il tombe amoureux de la gouvernante anglaise de la famille où il est précepteur, mais la jeune fille le rejette.

Continuar a ler

Para Maria Matias, minha avó | José Tolentino de Mendonça

É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

Eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece
e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor.

Deixa-me lembrar de ti | Maria Isabel Fidalgo

Deixa- me lembrar de ti. Sei que nunca virás, por isso vai devagar onde houver sombras , a mão na minha e uma lua alta a escorrer de sedução para que possa morrer nos teus braços ou morrermos os dois na dança de todos os sonhos.

A noite é a sede  do teu nome no meu pensamento, por isso danço, canto, deslizo no porto do destino onde nunca desembarcámos.

Estou a olhar o calor noturno e uma leve luz ilumina os meus pensamentos.

Vens então devagar para que nunca chegues e eu possa continuar a  rodar na valsa quimérica da meia noite envolta nos teus braços de neblina.

Maria Isabel Fidalgo

Águas sem retorno | Maria Isabel Fidalgo

Amo cada minuto onde o teu coração respira longe do meu e tão perto.

Anda o sol desvairado a encher os espaços e são barcos o que procuro para navegar numa praia impossível.

Amo – te com o pensamento colado ao coração e são quentes as memórias onde vives.

Não ouço aves. Tudo no silêncio que abrasa são beijos quentes que nunca te darei em mais nenhum verão, que a juventude escondeu-se de nós, em águas indomáveis de lonjura.

Aglaia Souza: poesia que resgata o sentido da vida | por Adelto Gonçalves

Novo livro da poeta de Brasília denota influência de José Régio e Fernando Pessoa                 

I
            Desde o seu primeiro livro, Gota de barro (São Paulo, Poeco Editora, 1982), nunca faltaram a Aglaia Souza (1943) leitores encantados e admirados com a simplicidade e a beleza de sua poesia. E, mais de 40 anos depois, ainda é esse mesmo sentimento de admiração com o seu discurso poético que essa musicista, professora e diretora de escola de música desperta, ao publicar Canto marinho (Brasília, Observatório do Texto, 2022), novo livro em que exercita sua arte, exibindo uma poesia de caráter marcadamente musical, como assinalou o poeta Anderson Braga Horta no prefácio que escreveu para esta obra.
Além disso, a autora deixa explícita a influência que recebeu de poetas portugueses consagrados, especialmente de José Régio (1901-1969), a quem o grande ensaísta, professor filósofo luso Eduardo Lourenço (1923-2020) definiu como “o último dos grandes solitários”.

Continuar a ler

“CHARNECA EM FLOR” | FLORBELA ESPANCA 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 

A essa hora dos mágicos cansaços, 

Quando a noite de manso se avizinha, 

E me prendesses toda nos teus braços… 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 

A tua boca… o eco dos teus passos… 

O teu riso de fonte… os teus abraços… 

Os teus beijos… a tua mão na minha… 

Se tu viesses quando, linda e louca, 

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 

E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca… 

Quando os olhos se me cerram de desejo… 

E os meus braços se estendem para ti… 

Poemas de Amor de Florbela Espanca | Li um dia, não sei onde | Amar!

Li um dia, não sei onde

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado…
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?…

Florbela Espanca

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

“O rio incontornável” de Adalberto de Queiroz | o erudito na moderna poesia goiana | por Simone Athayde


A poesia, após a libertação das amarras formais pelo movimento Modernista, é hoje uma das expressões artísticas mais livres e ecléticas, que tanto pode retomar o clássico, quanto flertar com o popular, com o coloquial. De uma forma ou outra, o sucesso na composição de uma obra dependerá do talento do poeta e de como ele utiliza o tradicional ou o popular com nova roupagem. O poeta goiano Adalberto de Queiroz, ao buscar no clássico e no erudito sustentação para a sua escrita, é um bom exemplo de como, na era da pós-modernidade, o artista pode trilhar diferentes vertentes e encontrar validade em suas estratégias a partir de um trabalho bem elaborado.

Continuar a ler

POEMA | Sandra Ramos

Derramo os meus ‘ais’,
nem sei tão pouco porque o faço,
simplesmente esvazio as intempéries da alma,
lanço fogos de artifício sem espetáculo,
declamo na surdez vivida,
pinto na tela vazia e…
timbro sílabas, palavras e frases em forma de poesia.

Perguntam porque o faço,
afinal estão desprovidas de vida…dizem…,
meras palavras soltas numa profunda desordem gramatical…,
talvez seja eu, um caso perdido;
num caos corrompido,
atracado num cais desencardido.

Sou, sim…um caso inexplicável,
um turbilhão de sentimentos desordenados,
uma mulher que esvazia a alma perdida,
que toca – de mansinho – o seu DIZER,
E..que pouco lhe importa que a consigam entender.

Sandra Ramos

Célia Moura, in”No hálito de Afrodite” | Jean Claude Sanchez Photography

Invades-me

Nessa tesão

Que as searas

Silenciam

E me delicias

Na tua pele molhada

Dessa orgia de veludo

Em ti

Plena de incenso,

Jasmim

Rubras rosas

E nossos corpos

Finalmente libertos

Entre as papoilas

E o canto dos pardais.

Célia Moura, in”No hálito de Afrodite”

Jean Claude Sanchez Photography

Abril | João Gomes

Abril, Abril, Abril,

Mês de flores, aromas a sentir,

Nas causas que se reconhecem vir,

De valores de quem é gentil…

Abril, Abril, Abril,

Pai dos já fartos de sofrer,

Mãe dos que esperavam o nascer,

De um tempo novo, primaveril…

Abril, Abril, Abril,

Mês de cinco letras bem abertas,

Para ser gritado pelas gargantas,

Que não querem viver em redil…

Abril, Abril, Abril,

Foste tu que deste sangue novo,

Que deste alento a este povo,

Que vivia escravo e servil.

João Gomes

Nuno Júdice | As mulheres que envelhecem

Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.

Coisas de Valentina | Ercilia Pollice

“Soltar, entregar, deixar ir
Deixar partir, fluir…”

Viver no presente, sem o peso do passado
Sem expectativas para o futuro…
Saber da nossa finitude.
Sem posses, sem medo, sem culpa,
Saber que somos passageiros de uma vida passageira.

Valentina tem consciência claríssima da vida. E é engraçado como essa
lucidez não rouba seus sonhos, sua alegria, seu fazer, seu ser, seu
estar.Ela está pro mundo assim como o ar está pra vida.

Relaciona-se bem com o que perdeu, embora sinta saudades… Mas, não é
uma saudade doída, é uma saudade cheia de lembranças boas; as más
parecem que nunca existiram, ou então sua memória as deletou no tempo.
Nisto somos parecidas, sempre digo que no tempo da memória, mando eu.

Não sei dizer como Valentina ficou assim, tão desencanada com tudo.
Valentina também não consegue estabelecer um ponto de partida para
este seu devir no mundo. Quer saber? Isto não tem a mínima
importância. Esta história de ficar querendo entender tudo, saber o
profundo de todos os eus que nos habitam, já não faz parte das
necessidades de Valentina.

Continuar a ler

Dia Internacional De La Mujer

𝙀𝙡 𝙩𝙞𝙚𝙢𝙥𝙤 𝙚𝙨 𝙨𝙤́𝙡𝙤 𝙪𝙣𝙖 𝙖𝙡𝙚𝙜𝙤𝙧𝙞́𝙖
𝙇𝙤𝙨 𝙖𝙣̃𝙤𝙨 𝙥𝙚𝙧𝙙𝙞𝙙𝙤𝙨 𝙤 𝙜𝙖𝙣𝙖𝙙𝙤𝙨 𝙮𝙖 𝙣𝙤 𝙚𝙭𝙞𝙨𝙩𝙚𝙣
𝙎𝙚 𝙙𝙚𝙨𝙣𝙪𝙙𝙖 𝙖𝙗𝙧𝙞𝙡 𝙚𝙣𝙩𝙧𝙚 𝙩𝙪𝙨 𝙢𝙖𝙣𝙤𝙨
𝙔 𝙩𝙪 𝙘𝙪𝙚𝙧𝙥𝙤 𝙚𝙨 𝙪𝙣 𝙙𝙚𝙥𝙤́𝙨𝙞𝙩𝙤 𝙙𝙚 𝙖𝙢𝙖𝙣𝙚𝙘𝙚𝙧𝙚𝙨
𝘿𝙚𝙨𝙥𝙞𝙚𝙧𝙩𝙖 𝙡𝙖 𝙢𝙪𝙟𝙚𝙧 𝙦𝙪𝙚 𝙖𝙪́𝙣 𝙣𝙤 𝙝𝙖𝙗𝙞𝙩𝙖𝙨
𝙔 𝙥𝙧𝙤𝙫𝙚𝙚𝙡𝙖 𝙙𝙚 𝙣𝙪𝙚𝙫𝙤𝙨 𝙥𝙡𝙖𝙘𝙚𝙧𝙚𝙨
𝙄𝙣𝙨𝙩𝙧𝙪́𝙮𝙚𝙡𝙖 𝙚𝙣 𝙡𝙖𝙨 𝙥𝙖𝙨𝙞𝙤𝙣𝙚𝙨
𝙔 𝙙𝙖𝙡𝙚 𝙖 𝙘𝙤𝙣𝙤𝙘𝙚𝙧 𝙡𝙖 𝙨𝙖𝙗𝙞𝙙𝙪𝙧𝙞́𝙖 𝙙𝙚 𝙡𝙖𝙨 𝙥𝙞𝙩𝙤𝙣𝙞𝙨𝙖𝙨
𝘾𝙤𝙣𝙫𝙞𝙚́𝙧𝙩𝙚𝙡𝙖 𝙚𝙣 𝙢𝙖𝙚𝙨𝙩𝙧𝙖
𝙋𝙖𝙧𝙖 𝙖𝙥𝙧𝙤𝙫𝙚𝙘𝙝𝙖𝙧 𝙘𝙖𝙙𝙖 𝙨𝙚𝙜𝙪𝙣𝙙𝙤 𝙦𝙪𝙚 𝙧𝙚𝙨𝙥𝙞𝙧𝙖𝙨
𝙔 𝙖𝙡 𝙩𝙚𝙧𝙢𝙞𝙣𝙖𝙧 𝙙𝙚 𝙡𝙖 𝙟𝙤𝙧𝙣𝙖𝙙𝙖 𝙘𝙖𝙙𝙖 𝙙𝙞́𝙖
𝙋𝙪𝙚𝙙𝙖𝙨 𝙙𝙚𝙘𝙞𝙧 𝙨𝙖𝙩𝙞𝙨𝙛𝙖𝙘𝙩𝙤𝙧𝙞𝙖𝙢𝙚𝙣𝙩𝙚
𝙉𝙤 𝙝𝙚 𝙙𝙚𝙨𝙥𝙚𝙧𝙙𝙞𝙘𝙞𝙖𝙙𝙤 𝙢𝙞 𝙩𝙞𝙚𝙢𝙥𝙤 𝙣𝙞 𝙢𝙞 𝙫𝙞𝙙𝙖.

𝙑𝙞𝙚𝙣𝙩𝙤

Retirado do Facebook | Mural de Viento

Dia internacional das Mulheres | Jack Kerouac

Brindemos pelas loucas,

pelas desajustadas,

pelas rebeldes e arruaceiras,

pelas que não se encaixam,

pelas que veem as coisas de um modo diferente,

pelas que não gostam de regras e não respeitam o status quo.

Podem denunciá-las, não estar de acordo,

glorificá-las ou vilipendiá-las,

mas o que não podem fazer é ignorá-las.

Porque elas mudam as coisas,

empurram para a frente a condição humana.

Enquanto alguns as veem como loucas,

Nós vemos o génio delas,

porque as mulheres que se acreditam tão loucas,

como para pensar que podem mudar o mundo, são as que o fazem.

Jack Kerouac

Abro as janelas a Março | João Gomes

Abro as janelas a Março, deixo entrar a brisa fria.

E as aves veem do mar, procurando esta calmaria…

São gaivotas ansiosas, pela paz que não tem mar,

voam por entre as colinas, onde ervas são um lar.

Fico a vê-las na janela, onde as horas já não passam,

O corpo cubro dos sonhos que de noite extravasam,

Faço ninhos nas orelhas para o cabelo descansar,

Nos olhos a sensação do não querer acordar.

Faço força, forço a mente a deixar-me partir,

Para a frente dessa força, que no voo posso sentir.

E sou gaivota na mente, sou uma ave ilusória,

Voo por entre as colinas, faço parte dessa história.

Vou com elas, companheiras, conhecer o lado forte,

De quem voa o dia inteiro e não teme nem a morte,

Vou voando para a costa, vou voando enquanto estou,

Nesta janela aberta, deste Março que acordou.

João Gomes

Bom dia!

Arte de Sigismunds Vidbergs “Dançando com os Pássaros”, 1913

Timidez | Cecília Meireles, em ‘Viagem’ (1973)

BASTA-ME um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

Poema | Ercília Pollice

O encontro foi marcado numa cafeteria qualquer …

Eu entrei  como alguém que não quer nada, levemente interessada …

Mas seu olhar profundo e seu sorriso quente, me fizeram derreter. Preciso ir, já é hora …

Não se vá agora, tirei a tarde pra ti. Carreguei você  comigo, um amigo …

Eu querendo que visse o meu direito, mas você queria e perscrutava o avesso.

E dessa tarde pra frente, sempre estive transparente pra você.

Ninguém nunca me olhou como você me olha

Ninguém nunca me amou como você me ama,

Ninguém sabe o meu jeito de ser, como você.

E, desde então,

Ninguém mais teve graça …

Só vejo graça em você.

Ercília Pollice

À minha mãe | poema de Maria Isabel Fidalgo

Sempre do chão me levantaste

e nas tuas mãos de oração

o terço por mim tanto gastaste

ó minha rosa de linho e de brancura!

Deste-me asas de tule e eu voei

libelinha das brisas inseguras

nos recantos dos frutos e do mar.

Chamo por ti no silêncio desta bruma

e o teu sorriso vem ainda quente

no silêncio do ventre inicial.

Peço-te o aperto dos teus braços

e tu as asas abres das Alturas

  • não chego lá, mãe!

Então, por um milagre qualquer

que desconheço,

me tomas do chão

nas tuas mãos de berço.

————————————–

Mif | Antes de mim um verso, Poética Edições

POEMA DE MARIA EUGÉNIA CUNHAL, DEDICADA A SEU IRMÃO, ÁLVARO CUNHAL

QUANDO VIERES

Encontrarás tudo como quando partiste.

A mãe bordará a um canto da sala

Apenas os cabelos mais brancos

E o olhar mais cansado.

O pai fumará o cigarro depois do jantar

E lerá o jornal.

Quando vieres

Só não encontrarás aquela menina de saias curtas

E cabelos entrançados

Que deixaste um dia.

Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos

Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres

nenhum de nós dirá nada

mas a mãe largará o bordado

o pai largará o jornal

as crianças os brinquedos

e abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando tu vieres

Não és só tu que vens

É todo um mundo novo que despontará lá fora

Quando vieres.

Maria Eugénia Cunhal, in “Silêncio de Vidro”

Vaginas | Tiago Salazar

Dado o sucesso lúdico do último assunto – o pénis – por justiça antónima trago hoje à liça o cunos, também conhecido por cona, ou ainda fenda, vulva ou greta, que tem o seu garbo. Há um autor inultrapassável que discreteou com elegância e humor de uma estirpe clássica sobre vários tipos de conas imaginárias, de sua graça Juan Manuel de Prada. Perante ele me vergo apondo somente uma breve reflexão sobre a íntima unidade da mulher.

A meio das suas reflexões inauditas (por exemplo, o capítulo sobre as conas das mulheres sonâmbulas) entendeu Juan (justamente) descrever a cona da sua namorada. Não o farei exaustivamente, como o fez o autor basco, por respeito à sua dona, dizendo apenas que quem vê caras poderá ver conas, se tiver olho para isso. É como o tamanho e espessura do polegar masculino, que dita a envergadura e formato do dito.

Interessam-me as redundâncias das conas e as suas infinitas possibilidades. A cona, a quem os exegetas das mulheres chamam o mais belo dos moluscos, sendo o clitóris o berbigão, é um mundo aquático. Talvez aqui resida a sua maior dádiva, permitindo, como a natação, inúmeras variantes encorpadas. Entre o boiar e a mariposa, o mergulho encarpado e a remada de bruços, há todo um manancial de formas de a abordar.

O pénis e a cona juntos, na justa e devida medida do encaixe habilitado, são como a harmonia dos corpos celestes. Não se pode ser demasiado macho a abordar uma cona, tal como não deve uma mulher (resumindo este micro ensaio ao campo heterossexual) tratar o pénis com ímpetos de lenhadora. Para asseverar da importância da cona no território da felicidade conta-se a história de um anão adulto que gritou alto a palavra CONA no meio de uma tribuna de crianças a quem pediam um vocábulo sinónimo de alegria, celebrando assim o seu entusiasmo pela felicidade de estar vivo, apesar da sua baixa condição. O anão tinha-se escapado para o meio do coro infantil durante uma visita presidencial e face à interrogação requerida ditou o que lhe ia na alma. Como um amante feliz.

Moacir Amâncio: poemas que captam sensações | por Adelto Gonçalves

   “Câmara Escuro” reúne 65 peças que reafirmam a maturidade poética do autor


                                                           I
            Depois de alguns anos sem publicar livros de poesia, Moacir Amâncio reaparece com Câmara Escuro (São Paulo, Editora Hedra, 2022), que reúne 65 poemas que reafirmam a sua maturidade poética e mostram que, “às vezes, precisamos baixar os olhos para ver, e de pequenos deslocamentos para achar um outro modo de estar onde estamos”, como observa Roberto Zular, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), no texto de capa que escreveu para este livro. E acrescenta: “Um livro que, enfim, faz das sombras um mote para redimensionar o caminho da iluminação”.
            De fato, o leitor não vai encontrar aqui poemas que possam servir de exemplo perfeito para o conceito estabelecido pelo professor Massaud Moisés (1928-2018) segundo o qual a poesia é a expressão do “eu” por meio de metáforas, como aquela famosa frase de Fernando Pessoa (1888-1935) em que o poeta contempla o silêncio feminino e nele descortina uma nau: “o teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas”.  Nestes poemas curtos, que não se confundem com haicais, a metáfora literária tem objetivo estético, procurando reproduzir beleza ou emoção estética.
Ou seja, as palavras procuram reproduzir, através de uma figura de linguagem, fenômenos provocados por uma condição neurológica, estabelecendo uma experiência sinestésica, que se dá por via sensorial ou cognitiva.

Continuar a ler

AMIGA | Florbela Espanca

Deixa-me ser a tua amiga, Amor;
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.
Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!… Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei pra minha boca!…

Florbela Espanca

AMAR | Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui… além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca, em “Charneca em Flor”

SER POETA | Florbela Espanca

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda gente!

Florbela Espanca, em “Charneca em Flor”

A vida de Bocage: sátira, censura, pobreza | Autor: Adelto Gonçalves | por Ademir Demarchi

Para investigar a vida de Bocage em suas minúcias, Adelto Gonçalves percorreu todas as biografias e estudos importantes sobre o autor.

I

“Bocage, alistado na Marinha, cursou a respectiva Academia, embarcou para a Índia, foi boêmio no Rio de Janeiro, passou três anos em Goa e Damão, desertou fugindo para Macau, regressou a Lisboa, onde a vida livre e as sátiras o atiraram para a prisão e o hospício. Morreu doente e pobre, traduzindo nos seus versos a sua vida e o seu tempo”.
Essa síntese da vida de Bocage (1765-1805), feita no prefácio de Bocage, o Perfil Perdido pelo professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, Fernando  Cristóvão, bem caberia em similaridade àquela feita por Nabokov sobre um personagem no início de seu romance Gargalhada na escuridão, em relação à qual o escritor russo acrescenta: “Eis aí toda a história, e bem poderíamos abandoná-la neste ponto, se não houvesse vantagem e prazer em contá-la. Embora haja espaço mais do que suficiente numa pedra tumular para conter, encadernada em musgo, a versão re sumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem recebidos”.
É o que faz o professor e escritor Adelto Gonçalves ao investigar a vida de Bocage em suas minúcias, percorrendo todas as biografias e estudos importantes sobre o autor, cotejando e contrapondo-os às suas novas descobertas e correções oriundas de exaustivas pesquisas em arquivos e fontes primárias como trabalho de pós-doutoramento na Universidade de São Paulo (USP), que teve sua primeira edição em 2003, em Portugal, pela Editorial Caminho, de Lisboa, e que agora sai em nova edição, com excelente projeto gráfico e ilustrações, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
A vida do poeta português, propagandeada pelo senso comum como “agitada e de boemia” em geral para promover seleções mais vendáveis de sua poética, se decompõe nessa biografia quando a acompanhamos inserida em detalhes na sociedade da sua época histórica e cultural que, agitada e contraditória, se expressa na obra de Bocage transitando do neoclassicismo das Arcádias aos primeiros momentos do romantismo.

Continuar a ler

A CANÇÃO DA VIDA | Mário Quintana

A vida é louca

a vida é uma sarabanda

é um corrupio…

A vida múltipla dá-se as mãos como um bando

de raparigas em flor

e está cantando

em torno a ti:

Como eu sou bela

amor!

Entra em mim, como em uma tela

de Renoir

enquanto é primavera,

enquanto o mundo

não poluir

o azul do ar!

Não vás ficar

não vás ficar

aí…

como um salso chorando

na beira do rio…

(Como a vida é bela! )

2 | Poesia | Zeca Afonso

Amigo

Maior que o pensamento

Por essa estrada amigo vem

Não percas tempo que o vento

É meu amigo também

Em terras

Em todas as fronteiras

Seja bem-vindo quem vier por bem

Se alguém houver que não queira

Trá-lo contigo também

Aqueles

Aqueles que ficaram

(Em toda a parte

todo o mundo tem)

Em sonhos me visitaram

Traz outro amigo também

1 | Poesia | Luís Vaz de Camões

Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Os Lusíadas, (Canto IX, 83)

Luís Vaz de Camões

 Eduardo Fontes | a poesia como evocação da infância | por Adelto Gonçalves 

Poeta faz com versos nada herméticos uma viagem ao tempo da inocência

     I
            Para comemorar o centenário de seus pais, os poetas Humberto Pinheiro Fontes e Maria do Carmo Alencar Oliveira Fontes, ambos nascidos em 1917, o poeta cearense Eduardo Fontes lançou Devaneios (Fortaleza, Editora Expressão Gráfica, 2017), seu 17º livro, que traz prefácio de Anderson Braga Horta, da Associação Nacional de Escritores (ANE), de Brasília, e ilustrações do artista plástico Descartes Gadelha. Poeta bastante conhecido no Nordeste, talvez porque em seus versos nada herméticos e extremamente líricos sempre se mostrou muito preocupado em exaltar suas origens, Fontes, mais uma vez, confirm a sua opção por uma simplicidade que faz evocar nos leitores os anônimos menestréis de tempos mais amenos.

Continuar a ler

Heterónima e outras demonstrações | Amélia Vieira – 28 Jul 2016 (publicado em Macau Hoje)

VII-1

«A heterónima Pessoana não nasce apenas da multiplicidade do carácter ou de uma forma de fugir a uma Lisboa enfadonha no início do século vinte que, por acaso, até nem o era, dado o clima efervescente da Primeira República onde todas as viragens sociais e culturais se davam à velocidade do vapor. Essa tese cai por terra de tão inexacta que é. Em nós, não cabem, não -todos os sonhos do mundo – muito menos temos a elasticidade mimética de ser conforme a circunstância. Há, sem dúvida, componentes que fazem um homem mais vibrátil na multiplicação de si mesmo. Mas o que a uns parece do efeito da quimera e do desdobramento da personalidade, pode neste caso ter outras origens bem mais profundas.

Pessoa é originário da Covilhã e de um ramo bastante circunscrito. Sabendo-se da sua descendência familiar que partia de cristãos-novos referenciados, ora existe ainda um ramo remoto que vem das duas filhas de António José da Silva, judeu relapso: uma fugida para os Países Baixos de onde não mais regressaria e outra que vivera escondida dentro de casa para o resto da sua vida. É desta que o ramo é descendente. Para se viver, para se ter subsistido, foram precisas muito mais que análises vãs e, para se ter desembocado em Pessoa, foi preciso também muito mais que uma imaginação torrencial, inspiração, génio e “jeito”. Foi ainda preciso ter nas veias aquela plasticidade de saber que mudar de nome, ter vários nomes, até formas de expressão, fazia parte de uma camuflagem em prol da resistência e do salvar a vida. Aqui chegados, e caso os inimigos sejam só fantasmas, a memória nem por isso se torna um elo morto. E foi nesta imensa componente toldada de segredos que ele se deslinda, acrescentando à necessidade a arte de transformar o medo, a arte pura. Aliás, grandes obras nascem destes caminhos que, depois de aparentemente solucionados, libertam para outra área elevando os mesmos argumentos.

Continuar a ler

Adalberto de Queiroz: vozes do passado em versos | por Adelto Gonçalves (*)

Poeta faz da evocação da mãe que não teve a música inominável de sua poesia

                                                         I
            Em poucos poetas antigos ou modernos brasileiros (para não se dizer nenhum), a evocação da mãe é tão presente e tão luminosa como em Adalberto de Queiroz (1955), que foi educado como órfão em abrigo de Anápolis, no interior de Goiás, de onde saiu só em 1973 para cursar Física na Universidade Federal de Goiás (UFG). Poeta, jornalista e ensaísta, Queiroz, em 2021, lançou a segunda edição, revista e repensada, de Cadernos de Sizenando, publicado em 2014, livro de poemas que “saem da angústia para o enfrentamento da realidade”, como definiu no pref&a acute;cio o escritor Iúri Rincon Godinho, membro da Academia Goiana de Letras.
            Godinho explica que, a pedido do autor, para a segunda edição da obra, retirou os textos em prosa poética da primeira, deixando apenas os poemas, garantindo que o material que ficou de fora “merece outro livro”. Tanto os textos em prosa poética quanto os poemas haviam sido publicados inicialmente em um blog (http://www.betoqueiroz.com) que Adalberto de Queiroz ainda mantém na internet. Como diz Godinho com percuciência, se ele, como editor do texto, tivesse tirado também todos os poemas e deixasse apenas aquele que tem por título “É a Mãe” o livro já valer ia a pena ser lido.

Continuar a ler

O Que Há Em Mim É Sobretudo Cansaço | Poema de Fernando Pessoa com narração de Mundo Dos Poemas

Fernando António Nogueira Pessoa (1888 — 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.

A PAZ | SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN | por Casimiro de Brito

AQUI HÁ UNS ANOS FOMOS CONVIDADOS, EU E A SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, PARA FAZER UM RECITAL NO KING’S COLLEGE (LONDRES). EIS UM DOS POEMAS QUE LI E A SUA TRADUÇÃO POR JONATHAN GRIFFIN, E QUE DEPOIS FOI INCLUÍDO NA BELÍSSIMA ANTOLOGIA “CONTEMPORARY PORTUGUESE POETRY”. VOU ILUSTRÁ-LO COM A GUERNICA, DE PICASSO.

A PAZ

Se eu te pedisse a paz, o que me darias

pequeno insecto da memória de quem sou

ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,

a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,

a voz limpa dos frutos, o que me darias

respiração pausada de outro corpo

sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda

do meu exílio. Perdoa-me se não te peço

a paz. Apenas pergunto: o que me darias

em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?

Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha

para nele gravar o teu nome junto ao meu?

Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,

no centro do coração?

Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,

o teu corpo de cinza. Falo de mim,

entrego-te o meu destino. E a morte vivo

só de perguntar-te: o que me darias

se te pedisses a paz

e soubesses de como a quero construída

com as matérias vivas da liberdade?

(in Jardins de Guerra, 1966)

Continuar a ler

John Donne | Poema “O êxtase” | Tradução de Augusto de Campos

“The ecstasy”

Where, like a pillow on a bed,
A pregnant bank swell’d up, to rest
The violet’s reclining head,
Sat we two, one another’s best.

Our hands were firmly cemented
By a fast balm, which thence did spring ;
Our eye-beams twisted, and did thread
Our eyes upon one double string.

So to engraft our hands, as yet
Was all the means to make us one ;
And pictures in our eyes to get
Was all our propagation.

Continuar a ler

DESPEDIDA | Cecília Meireles

Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,

deixo o mar bravo e o céu tranquilo:

quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.

E como o conheces? – me perguntarão.

– Por não ter palavras, por não ter imagens.

Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação…

Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.

(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!

Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.

Adeus Senhor António | Texto de Fernando Pessoa com narração de Mundo Dos Poemas

Ouve-se, encantamo-nos … e choramos. É impossível não chorar! [vcs]

Único texto conhecido do heterónimo esquecido de Fernando Pessoa “Maria José”, cujo nome conhecido é “Carta Da Corcunda Para o Serralheiro”.

Fernando Pessoa criou 46 pseudónimos e autores fictícios mas só um era mulher, Maria José, corcunda e patética, figura nada atraente, imagem que o poeta também tinha de si. Fernando António Nogueira Pessoa (1888 — 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.

Carolina | A Esposa de Machado de Assis | in Brazil Imperial

A Portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes (1835-1904) foi esposa do escritor Brasileiro Machado de Assis de 1869 a 1904, ano da morte de Carolina.

Eles se conheceram por intermédio do irmão de Carolina, o poeta Faustino Xavier de Novaes, após ela se mudar de Portugal para o Rio de Janeiro, aos 32 anos, cinco a mais do que Machado. No período, era incomum uma mulher solteira com essa idade, mas a decisão, nesse caso, era da própria Carolina, a quem sobravam pretendes. A portuguesa é descrita por Miguel-Pereira como “mulher feita, inteligente, desembaraçada, senhora de si, habituada, na casa paterna, ao trato dos intelectuais”.

O namoro foi reprovado pela família de Carolina, pertencente à elite intelectual, enquanto Machado ainda não tinha grande reconhecimento social – na época, escrevia para jornais e trabalhava no Diário Oficial – e, mais importante, era mulato.

“Na hierarquia social, Carolina se uniu, por escolha própria, a alguém de nível abaixo. Ela foi determinante para que ele tivesse estabilidade emocional e também transitasse entre intelectuais”, diz Luís Augusto Fischer, professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor do livro Machado e Borges (Arquipélago).

Continuar a ler

Roberto Manzano Hernandez, “Balance”, 2010, white marble sculpture, private collection.

“LEAVE MY hands free

and the heart, set me free!

let my fingers run

through the pathways of your body.

The passion —blood, fire, kisses—

It burns me with tremulous flames.

Oh, you do not know what this is!

It is the storm of my senses

bending the sensitive jungle of my nerves.

It is the meat that screams with its fiery tongues!

It’s the fire!

Continuar a ler

Arquitectura | Óscar Niemeyer

Na folha branca de papel faço o meu risco.

Retas e curvas entrelaçadas.

E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.

São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.

Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,

os encantos da mulher.

Deixo de lado o sonho que sonhava.

A miséria do mundo me revolta.

Quero pouco, muito pouco, quase nada.

A arquitetura que faço não importa.

O que eu quero é a pobreza superada,

a vida mais feliz, a pátria mais amada

Poema | Verão sobre o corpo | Maria Isabel Fidalgo

O verão há de durar sobre o meu corpo

sobrepor-se ao inverno e aos temporais

porque o amor abrasa a água,

incendeia de sol os meus olhos de outono,

revigora de verde as vinhas de setembro

a sonharem com a espuma do vinho

nas vestes das parras.

Será verão quando escreveres versos no mar da salvação

para que Romeu e Julieta renasçam do inefável silêncio

e  repitam as palavras salvíficas:

“Não sei como vieste, mas deve haver um caminho para regressar da morte”

A Noite na Ilha | Pablo Neruda

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

0 teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
— pão, vinho, amor e cólera —
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

Continuar a ler

Maria Isabel Fidalgo | Poema dos sete beijos

Dá- me sete beijos de papel em folha de papiro com laço de seda que bem mereço.

Não perguntes deste meu desejo irreal a que chamarás absurdo.

Sabes que vivo de ilusões

e de sonhos de impossibilidade ilimitada.

Só por isso sobrevivo na grande nave do mundo sem precisar de ir ao espaço.

Sete beijos em papel de papiro

e uma taça de champanhe para comemorar a audácia de os ler

com o estrondo da garrafa que embebede de espuma a fita de seda

e a boca que houver.

Poema | Maria Isabel Fidalgo

Não me firas com o teu silêncio.

Enche com os teus  olhos de  ausência os meus olhos de pássaro.

Traz- me a leveza das tuas mãos que tão breves partiram sem aceno.

Clama pelo meu nome como se a primeira estrela fosse a noite com o teu rosto.

Não me castigues de catos.

Traz- me rosas sobre os lábios e pica-me de beijos que sangrem.

Afasta a solidão e traz o teu silêncio.

Pousa-o sobre  a leveza do meu corpo e seremos um oásis manso de paixão.

Vem e faz- me acreditar que o sol ainda arde na labareda da fome.

MIF

Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca… o eco dos teus passos…

O teu riso de fonte… os teus abraços…

Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…

Quando os olhos se me cerram de desejo…

E os meus braços se estendem para ti…

——

Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”

Florbela Espanca (Vila Viçosa8 de dezembro de 1894 — Matosinhos8 de dezembro de 1930), batizada como Flor Bela Lobo, e que opta por se autonomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca, foi uma poeta portuguesa. A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos, que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotizaçãofeminilidade e panteísmo. Há uma biblioteca com o seu nome em Matosinhos.

Bocage, a vida passada a limpo | Adelto Gonçalves | por Hugo Almeida

Bocage, a vida passada a limpo

Em pesquisa de grande fôlego, o escritor e pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves recuperou dados da vida e obra, muitos antes inéditos, de Manuel Maria Barbosa du Bocage, o poeta que sonhava ser um novo Camões

Por Hugo Almeida

                                                 I

Com outras palavras, Jorge Luis Borges disse na apresentação de Vidas imaginárias, de Marcel Schwob, que a trajetória de uma pessoa está contida naquele tracinho que liga a data de nascimento à de morte. Ou, como escreveu Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.De certa forma, é isso que o escritor e pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),mostra na biografia de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805),Bocage, o perfil perdido (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2021).

Em pesquisade impressionante fôlego, paciente,minuciosa,riquíssima em documentação inédita,Gonçalves recompôs em 520 páginasos 40 anos da vida intensa, agitada e contraditória do poeta que não realizou o sonho megalomaníaco de ser um novo Camões, mas entrou para a história da literatura portuguesa. O livro já havia sido publicado em Portugal em 2003 e foi aplaudido pela crítica especializada.

No prefácio da edição brasileira, Fernando Cristóvão, professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, resume em um parágrafo quem foi o poeta: “Bocage, alistado na Marinha, cursou a respectiva Academia, embarcou para a Índia, foi boêmio no Rio de Janeiro, passou três anos em Goa e Damão, desertou fugindo para Macau, regressou a Lisboa, onde a vida livre e as sátiras o atiraram para a prisão e o hospício. Morreu doente e pobre, traduzindo nos seus versos a sua vida e o seu tempo”. Cristóvão ressalta a importância de Bocage, o perfil perdido: “Foi para historiar e elucidar as contradições e lances da biografia do poeta que Adelto Gonçalves se abalançou a uma pesquisa aturada e sistemática, de que esta publicação dá conta”. E completa: “O excelente trabalho de agora vai desde o traçado da árvore genealógica da família de Bocage até ao final dos seus dias, facultando-nos abundante documentação”.

Continuar a ler

Adieu | Poèsie – Ines Hayouni | SILA 2022

Contempler ton cortège funèbre un beau jour d’été

J’attendais impatiemment ta belle arrivée

Les nobles soldats portaient ton tombeau fleurdelisé

Quel rêve fantasmagorique de voir ton corps endormi

Enveloppé dans ce beau linceul

De ta gentillesse, le monde s’est appauvri

L’odeur de camphre caresse mes narines

Et apaise mon cœur affaibli

Les anges t’ont bercé jusqu’à la méridienne

J’appréhendais notre rencontre

Mais notre séparation m’a laissée sereine

Un contentement trompeur a pris le relais de ma peine

Prologue d’une douleur à en perdre haleine

Solha: a história da Humanidade num poema | por Adelto Gonçalves

I 

Depois de publicar, em 2019, Vida Aberta (São Paulo, Editora Penalux), o romancista, poeta, cordelista e ator de teatro e cinema W. J. Solha (1941) chega com 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite (Cajazeiras-Paraíba, Arribaçã Editora, 2021), ao quinto volume de seu Tratado Poético-Filosófico, de seis que pretende publicar. Trata-se da continuação de um longo poema em versos livres, um discurso utópico, em que procura reconstituir a história da Humanidade e seus muitos saberes e numerosos fracassos.  

Poeta que sempre operou a anarquia nos gêneros, espécies e formas literárias como maneira de se libertar do peso da tradição que sempre impediu que se fizessem voos mais altos e abertos para a intuição, Solha volta a fazer a junção do popular com o erudito, exigindo de seu leitor um conhecimento profundo não só de Literatura e Filosofia como de fatos que marcaram a vida no planeta, com citações que vão desde o Evangelho de João até Machado de Assis, passando por Descartes, Santos Dumont, Frida Khalo, Salvador Dali, Mozart, Caravaggio, Bela Bartok, Shakespeare, Charlie Chaplin, Freud, Stendhal, Tolstoi, Darwin, Gilberto Gil, Gal Costa, Ivete Sangalo e muitos outros nomes representativos da cultura mundial e nacional. 

Continuar a ler

Veuve | Ines Hayouni

Ils se sont dits oui
Pour le meilleur et pour le pire
Elle a passé des décennies à pleurer
C’est dans leur lit conjugal
Qu’elle se verra croupir
Elle maudit le jour
Où elle avait accepté
De vivre avec l’homme
Qu’elle avait tant aimé
Elle n’avait qu’une idée en tête
Celle de déguerpir
Mais les bons moments l’en empêchaient
Il ne passe pas un jour
Sans qu’elle pousse de fourbus soupirs
Elle en avait gros sur le cœur
Personne ne pouvait le nier
Elle se plaignait tous les jours à son seigneur
Il a fini par être fatigué de l’écouter
Alors pour mettre fin à son malheur Il tua son mari

Casimiro de Brito | DOZE FRAGMENTOS DO MEU “LIVRO DE EROS OU AS TEIAS DO DESEJO”, TÃO MÍNIMOS QUANTO POSSÍVEL E A IMAGEM DA CAPA DO MEU LIVRO (UM FRESCO DE POMPEIA)

1

A morte não existe. Tudo é sexo e canto.
7

Razão? A razão? Que razão? Estou apaixonado.
27

O sexo é um festim; amar, uma cerimónia.
30

Amor, que amor o de quem o vive sem a lâmpada da loucura?
37

Eros, um deus? Com saudáveis pés de barro.
57

Ela nunca se lavava depois de fazermos amor. Levo-te comigo, dizia.
62

A separação é um deserto quando um só grão de areia já seria dor bastante.
64

A arte de amar, sem ti, não me serve para nada.
86

A paixão (essa que tanto dói) é o golpe de graça do amor.
102

As mil e uma noites – a noite que passei contigo.
108

Amando, separo o bem do mal. Ainda não aprendi a amar.
125

Dói. Dói muito. Mas temos ainda espaço para a dor maior, a do amor.

Poema à Mãe, de Eugénio de Andrade

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Continuar a ler

Solitude | Ines Hayouni

 Ne compte sur personne 

Tu es seul

Du matin à la nuit 

Des voisins aux amis

Ne compte sur personne

Tu es seul

Tu es né seul et tu mourras seul

Du sein nourrissant à l’inévitable linceul

Ne compte sur personne

Tu es seul 

Profite des présents de la vie 

Ne donne pas d’importance aux moments un peu moins jolis

Tu es le seul responsable de ta survie

Fumoir | Ines HAYOUNI

Il était là Sous la trochée de la lanterne

Cette rue lugubre et apatride

Devenue le fumoir de la morose baderne

La gorge nouée

Un amalgame d’angoisses et de regrets macramés

Un regard mouillé

Lorsqu’il repense à son desiderata assassiné

Ses cernes couleurs de lilas

Apportent un peu de vie

À la vie qui n’est plus là

Une vie partie en fumée

Tout le monde le désertera

De toutes les cigarettes qu’il a allumées

Il pense que la dernière le consolera

“Não esqueças o meu nome” | Maria Isabel Fidalgo | Poética Edições

Um nome é uma eternidade mesmo no silêncio,

quando as aves não regressam à árvore e a noite se fecha.

Digo o teu nome, uma sílaba, e uma cascata de luz consubstancia a verdade.

Sal de lume, se te chamo, mais alto que os voos, o teu nome.

Maria Isabel Fidalgo, in “Não esqueças o meu nome”, Poética Edições.

Adelto Gonçalves | Bocage: uma história agora contada com primor | por Silas Corrêa Leite

Lançado em Portugal em 2003, o livro ganhou a sua edição brasileira em 2021 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

                                                           I

            Pelo que me lembro, na minha chamada memória recorrente desde priscas eras de atiçado buscador e ledor voraz, Bocage era e ficava entre um Pedro Malasartes  (figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, tido como burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes, de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos) e um Casanova (Giacomo Girolamo Casanova, escritor e aventureiro italiano, tendo interrompido as carreiras profissionais que iniciou — a militar e a eclesiástica — e que passou a levar uma vida aventurada), em terras de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, muito antes ainda de José Saramago, portanto. Tinha-o como um boêmio aprontador em terras lusas de Cabral e de Pero Vaz Caminha.

            Lendo agora Bocage, o perfil perdido, que virou clássico da obra-pesquisa-documentário do mestre e doutor Adelto Gonçalves, depois de levar tempo para lê-lo, tal o peso do livraço e a densidade do historial enquanto pesquisa e documentário também, posso dizer que tive uma universidade de mais de ano inteiro sobre o poeta. Afinal, um curso e tanto, um livro precioso, com aulas magnas desse que já é escritor esmerado de tantos outros portentosos livros, que tive o prazer de ler, curtir e gostar, e até me mesmo fazer aqui e ali breves resenhas.

Continuar a ler

Maria João Cantinho e a arte de esculpir poemas | por Adelto Gonçalves

                                                 I

       Autora consagrada na área ensaística, especialmente com livros sobre o filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin (1892-1940), Maria João Cantinho (1963) chega ao seu quinto livro de poemas com Escopro e Luz (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2021), afirmando-se como uma das maiores poetisas (e por que não poetas?) da Língua Portuguesa dos séculos XX e XXI. Mas isto não significa que atue de maneira independente numa e noutra área do pensamento.

            Pelo contrário. Em sua poesia, percebe-se o desencanto da poetisa com o mundo em que lhe coube viver, como se visse a História pelas lentes de Walter Benjamin que, em sua crítica ao progresso, prognosticara períodos de crescimento seguidos de outros de barbárie e selvageria, antevendo o retrocesso europeu e norte-americano dos tempos atuais, o que inclui também a época de desconstrução e desagregação social por que passa o Brasil de hoje.   

            Como já anteviu o professor José Cândido de Oliveira Martins, da Universidade Católica Portuguesa, em alentado e percuciente ensaio-introdutório de 12 páginas escrito à guisa de prefácio, a palavra poética de Maria João Cantinho “tem o misterioso poder de ajudar a cicatrizar a ferida aberta, regenerando e revitalizando o corpo sofrido, assim plasmado no corpo do poema ou da poesia”. Afinal de contas, diz o professor, são estas vozes (da poesia, das lembranças da infância ou de outras proveniências) que nos resgatam da iminência do naufrágio – “São as vozes que nos salvam”.

Continuar a ler

POEMA 128 DO LIVRO INÉDITO “NA FLORESTA DO MÍNIMO” | Casimiro de Brito

Amo as mulheres: são belas

e sangram. Foram feridas por deuses

que já não existem. Sim,

elas descendem dos deuses cantados por Hesíodo!

Sal, espuma, resinas! E por igual

as amo

quando já não sangram: porque têm

do sangue

a suave memória. E então a sua ferida

é mais doce ainda: mel, perfumes,

especiarias!

Borges, Cristina e a poesia cotidiana Beth Soares

A poesia já me salvou muitas vezes. Salvou-me, inclusive, da vontade de não escrever, sintoma que sempre indica coisa ruim, já que esta é a tarefa que mais me aproxima do que entendo por Deus. Falo de todo tipo de poesia. Daquela da vida cotidiana, que se esconde nos pormenores do mundo. Disfarçada de seu prato predileto, feito por uma amiga num dia despretensioso. Revelada na foto de um amigo, de tirar o fôlego pela beleza. Embalada pela prosa num comentário sensível ou numa mensagem de voz emocionada sobre algo que a gente escreveu. Ela está também na sabedoria de um pai que, do outro lado do oceano, diz a uma filha: “Não se preocupe. O Bem sempre encontra um jeito de chegar aos justos”.

A poesia sempre me pega de surpresa nas madrugadas. Acho que é nestas horas que ela anda por aí a nos espreitar pelos silêncios, pelas reflexões que chegam abraçadas à insônia. Quando o sono não vem – seja pela ansiedade por algo bom, seja pela preocupação com algo ruim – torno-me mais sensível aos sons, cores e acontecimentos comuns. E foi justo num desses dias pós-insônia que recebi o texto do escritor angolano José Eduardo Agualusa das mãos da professora Cristina. Nele, Agualusa dá voz ao escritor argentino José Luis Borges, falecido em 1986, tornando-se uma espécie de ‘médium’ e permitindo que Borges relate-nos como tem sido sua experiência no paraíso: “O Paraíso é pensar”, diz. O texto nos leva a uma reflexão sobre o mundo dos livros hoje e sobre a importância das pequenas editoras, com sua luta ingrata para que a literatura seja preservada. E termina: “A beleza é ingrata. E, contudo, é a beleza”. Diante daquele presente-poesia no meu primeiro dia de aulas em terras estrangeiras, deixei correr uma emoção aliviada. Aquela manifestação poética, para mim, era a confirmação de que eu estava há milhares de quilômetros da minha casa, da minha família, dos meus amigos e dos meus gatos, mas era exatamente onde eu deveria estar.

Continuar a ler

“Apelo” | Carlos Drummond de Andrade

Em 1965, a jovem Nara Leão, então com 23 anos, dá uma entrevista por telefone a um jornal brasileiro em que critica duramente o regime militar ditatorial acabado de instalar: “Sou contra militar no poder. Considero os exércitos, no plural, desnecessários e prepotentes.” A censura ainda não tinha sido instaurada no país e a musa da Bossa Nova, que deve conhecer do clássico “João e Maria”, enfrentava a ameaça de prisão e tortura. Mas não vacilava: “Não mudo de opinião.” O poeta modernista Carlos Drummond de Andrade, que nem a conhecia pessoalmente, escreveu então um poema ao marechal-ditador Castelo Branco que mandou publicar nos jornais.

É assim: 

Continuar a ler