FILOSOFIA POLÍTICA | Um gesto que abalou o mundo | “Gostaria de ser lembrada como alguém que quis ser livre, para que os outros pudessem também ser livres” Rosa Parks | por Nuno Ramos de Almeida in “Jornal i”

Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks.

Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks.

Parecia um dia como outro qualquer, 1 de Dezembro de 1955. Uma costureira de 42 anos sentou-se no autocarro nos lugares disponíveis para “gente de cor”. Na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, a lei dizia explicitamente que quando os brancos não tivessem lugares sentados podiam obrigar os negros a levantar-se, e se o veículo estivesse muito cheio os negros podiam ser despejados para a rua.

Nesse dia vários brancos entraram no autocarro e muitos negros levantaram–se dos seus lugares. Mas não todos. Rosa Parks recusou fazê-lo. “Estou cansada de ser tratada como uma pessoa de segunda classe”, disse ao condutor.

O funcionário chamou a polícia. A mulher foi presa por não aceitar ser tratada como escrava.

Nesse mesmo dia, os habitantes negros da cidade de Montgomery deixaram de andar de autocarro. São os pobres que viajam nos transportes públicos. São os pobres que trabalham por salários de miséria. São eles que criam a riqueza de cidades como Montgomery. E aí, no estado do Alabama, os pobres são quase todos negros. O boicote durou 381 dias. 75% dos passageiros dos autocarros, os negros, não cederam. No fim do seu protesto, o Supremo Tribunal dos EUA considerou ilegais as leis racistas do estado do Alabama que discriminavam os negros nos espaços públicos. No dia 21 de Dezembro de 1956, o Reverendo Martin Luther King e outros activistas dos direitos cívicos foram os primeiros negros a viajar, como cidadãos iguais de direito, num autocarro da cidade de Montgomery.

Um acto que mudou a história. Rosa recusou-se a levantar-se do banco do autocarro para dar lugar aos brancos. Foi presa, mas a sua recusa atiçou a revolta pelos direitos iguais. As coisas nunca mais foram as mesmas. Um só gesto fez toda a diferença.

Vivemos hoje em Portugal em condições cada vez piores para a maioria da população.

Ao contrário dos contos de fadas ou dos filmes em que se come pipocas, nada obriga a que depois de uma tragédia haja um final feliz. Mas na nossa liberdade está inscrita a possibilidade de mudar as coisas. Por vezes basta um gesto corajoso.

Porque temos de viver num país em que em tempos de vacas gordas os banqueiros distribuem dividendos à conta dos nossos depósitos e em tempo de vacas magras esses mesmos banqueiros distribuem dividendos à conta dos nossos impostos?

Porque somos obrigados a aturar os governos do grande centrão que foram cúmplices das negociatas do BPN e das parcerias público-privadas?

Porque estamos condenados a aceitar um país que vai ao fundo enquanto os do costume enriquecem?

Numa das tragédias clássicas do teatro grego, “Antígona” opõe-se às leis da cidade que a impedem de enterrar o irmão. Para ela as leis da cidade não estão acima do dever. O seu sofrimento vai derrubar a tirania. Há milhares de anos, como agora, a liberdade vale mais que os repressores de turno. Basta um gesto para o perceber.

Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks. Um acto de contágio que sirva para inocular a recusa de qualquer submissão.

Editor-executivo

Escreve à terça-feira

http://www.ionline.pt/opiniao/gesto-abalou-mundo … (FONTE)

Joana Bértholo

BERTHOLO-by-luis-de-barrosJoana Bértholo
nasceu em Lisboa em 1982 e passou boa metade desse entretanto no estrangeiro.

Em Lisboa formou-se em Design de Comunicação, em Buenos Aires mestrou-se em praticas artísticas de intervenção social e em Berlim doutora-se (ainda, e demoradamente) em Estudos Culturais. A sua tese fala muito de sombras.

Publicados tem pela editorial Caminho o romanceDiálogos para o Fim do Mundo (2010) e Havia – histórias de coisas que havia e de outras que vai havendo (2012) que saiu antes em versão mais curta pela editora Primeiro Exemplar (2006); e ainda pela Baleiazul o argumento banda-desenhado Ausência de Cor (1999).

Premiados tem vários contos, o projeto Boa-Nova(Prémio Jovens Criadores – Literatura, Clube Português de Artes e Ideias, 2005) e o romanceDiálogos para o Fim do Mundo (Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, 2009).

A mencionar ainda o 1.º lugar no Concurso Literário Persona (2006), ou o Prémio Escrevendo a Partir da Pintura (Fundação Calouste Gulbenkian, 2000); a menção honrosa no Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (1998); o Melhor Argumento para BD (SOSracismo e editora Baleiazul, 1999); Melhor Ensaio sobre o Movimento Olímpico (Comité Olímpico Português, 2000); e a menção honrosa no Prémio UP-Utopia (Universidade de Letras do Porto, 2005); entre outros.

Acredita no coletivo e faz parte de bastantes, a mencionar a plataforma Xerem e a plataforma editorial Amor-Livro. Há até livros-coletivos para os quais contribuiu com um capítulo, como é o caso d’O Caso do Cadáver Esquisito (edição Prado, 2011)

O último romance tem por título O Lago Avesso, e deve estar a sair.

mais?
http://www.unscratchable.info
http://cargocollective.com/amorlivro

A celebração interior da literatura | Luís Carmelo

Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem” (1 ).

Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de deus e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta.

Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio pelo sagrado resida nesse jogo – por mais sofisticado que seja – entre bastidores e boca de cena. O sagrado não é, pois, apenas uma forma dramatúrgica de conforto.

O que nos atrai ao sagrado é o mesmo que faz o homem pensar. Nós pensamos com imagens que se reproduzem como cerejas (Damásio, em O Sentimento de Si, prefere falar de um fluxo de imagens que se move “para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada e, algumas vezes, avança não apenas numa sequência mas em várias” (2 ). Apesar de não nos podermos comparar a um catavento, andamos, por vezes, lá perto: passeamo-nos na rua, entramos num café, guiamos um carro e, ao lado da concentração, a nossa cabeça é um moinho sempre a rodar, sempre em movimento.

O que é que esta turbulência da nossa mente tem a ver com o sagrado? É simples: o sagrado baseia-se no mistério. E há uma vantagem no mistério que é, ao mesmo tempo, também, a sua essência. É que o mistério é como uma sombra em torno da qual é possível construir ilimitados percursos. Não se trata de explicar por que razão essa sombra existe, mas de a contornar, de a percorrer, de a envolver, porventura de a amar. Grande parte da existência e do discurso dos homens faz-se a partir dessa circum-navegação que nunca mais acaba. Um ritual de imagens, ritos, palavras segredadas e gestos que se reproduz, ao longo do tempo, apenas para sublinhar a importância da sombra. Uma circularidade interior que move e faz mover a mesma intensidade com que a poesia nos conquista no centro da sua afirmação muito específica e intemporal.

No fundo, o labirinto do culto é muito semelhante ao labirinto com que as imagens encenam a consciência, ou com que as palavras encontram as suas cenografias a bordo dos poemas que as fazem aparecer e ser.

O cinema, quando foi inventado, também trouxe para o lado de fora da nossa cabeça esta luta livre entre a montagem e o modo desabrido com que as imagens se podem conotar ou reproduzir, na nossa frente, sem cessar. O cinema é, sob o ponto de vista físico, como substância, uma verdadeira sombra. Melhor: sombra e luz que se alternam. E que, com o seu movimento, nos mobilizam a pulsação mais vital. O mesmo se pode dizer da literatura, a maior produtora de imagens da nossa experiência milenar.

O sagrado é, ao fim e ao cabo, um modo confortável de imitar e plagiar a nossa mente, mas é também a radiografia permanente do seu funcionamento. É por isso que o sagrado e o homem se confundem. Ao lado do sagrado, o cinema e a literatura têm sido uma ilustração fantástica e fantasmática deste desejo profundo de brindarmos ao universo com uma máscara de nós próprios. É por isso que ainda aqui continuamos: a respirar a faúlha incerta de que é feita a literatura e a sua permanente e silenciosa celebração.

Luís Carmelo

(1 ) – Enunciação em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984/II, pp. 387.

(2 )  – O Sentimento de Si – O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000, p.362.

 

A esmagadora maioria dos eBooks, no Brasil, ainda vendem pouco.

A esmagadora maioria dos eBooks, no Brasil, ainda vendem pouco. Não importa quem os publica, se autores independentes ou grandes editoras – as vendas são fracas. Os “culpados” pelas vendas fracas costumam ser vários: a falta de uma base consistente de dispositivos (ereaders ou tablets) no país; o preço dos eBooks, que seria muito alto; a dificuldade para se comprar e baixar um ebook nas lojas brasileiras; e a quantidade pequena de ebooks em português à venda.

http://revolucaoebook.com.br/vendas-baixas-culpa-nao-peixe/ … (FONTE)

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Citando Carlos Fuentes

“Deve-se ter muito medo de escrever. Não é um ato natural como comer ou fazer amor, é de certa forma, um ato contra a natureza. É dizer à natureza que não se basta a si própria, que precisa de outra realidade, da imaginação literária.”

(Declaração do escritor na ocasião de seu aniversário de 80 anos)

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PAIXÕES LITERÁRIAS: Carlos Fuentes (1928-2012) | Cecília Prada

Carlos-FuentesDe madrugada, acesa,  

Apascento meus livros. 

É um gigante – não há dúvida.

Antes de mais nada, impressionava pelo seu físico. Homem muito bonito, de extraordinário porte, distinto, educado, um dos maiores escritores do século XX mas também adequado modelo  do “perfeito diplomata de carreira” que também foi, tendo chegado a embaixador do México na França, de de 1972 a 1976 – juntando às duas carreiras também a de professor em algumas  das mais renomadas universidades , como Princeton, Harvard e Cambridge.

E assim se conservou o até sua morte,em 15 de maio de 2012,  aos 83 anos, atuante, cheio de energia – deixou-nos 43 livros publicados, de ficção e de ensaios. Em suas últimas entrevistas, poucos meses antes de morrer, comentava um livro que acabara de escrever, Federico en su balcón, no qual ressuscitara Nietzsche para manter uma conversa com ele, e, incansável, declarava ter começado a escrever mais um de seus alentados romances de fundo histórico, El baile del centenario.

Caracteriza sua obra de ficcionista tomar como tema a história do seu país , criando, porém, uma série de personagens de primeiro plano, em sua integralidade e em suas particularidades existenciais ( “personagens redondos”, como preconizava Flaubert), situados contra o grande cenário histórico  – uma integração perfeita, como realizou em La muerte de Artemio Cruz (1962), Terra nostra (1975) e Los años con Laura Diaz (1999) .  No primeiro, o personagem, em seu leito de morte, no ano de 1959, recorda episódios de sua vida pessoal e de seu envolvimento em lutas políticas subsequentes à Revolução Mexicana de 1910, remontando depois até a data do seu nascimento, 1889.É um livro complexo, não-linear, e Fuentes vale-se de recursos estilísticos imprevisíveis, no entrelaçamento dos diversos períodos históricos retratados. Ainda mais extenso, e de estrutura complexa  e desafiadora é Terra Nostra, em que abrange a história mexicana desde os primórdios da conquista espanhola. Laura Diaz, em plena maturidade criativa, é mais simples e linear. Exige menos conhecimentos do leitor e cria uma personagem calcada em uma pessoa real, a fotógrafa e ativista comunista Tina Modotti – que pertenceu ao circuito famoso de Diego Rivera e Frida Khalo –  e através das circunstâncias de sua vida descreve um painel histórico que abrange o contexto conturbado do México, durante todo o século XX.

Pela sua imensa erudição, seu aprofundamento em história e disciplinas afins como sociologia e ciências políticas, por ser um dos raros ficcionistas-pensadores que a América Latina conta, Fuentes tem sofrido em maior gráu com a ignorância, a mediocridade, a falta de iniciativa dos editores, entre nós (falo pelo Brasil, pois desconheço o que se passa em Portugal) – ocupados em correr atrás das insignificâncias de escritores que visam somente o lucro fácil, a alta vendagem para um público cada vez mais imbecilizado.Muito poucos são os editores conscientes, bem informados, que ainda se lembram de que a literatura tem sido, com as outras artes, e antes de todas, o sustentáculo de qualquer tipo de civilização. Não-traduzida para o português permanecem, portanto, não somente uma grande parte da obra de Fuentes (como o colossal romance  Terra Nostra ), mas um grande número de outros escritores “sérios”, significativos, do mundo – enquanto na enxurrada diária dos lançamentos, passam desvairados cinquenta, cem,  milhão de “tons de cinza” que vão encabeçar a coluna dos “mais lidos”.

Seu primeiro romance de sucesso foi La región más transparente, de 1958 – ele tinha 29 anos, então. Um sucesso estrondoso, saudado pela crítica como “o primeiro grande mural da modernidade urbana”, pois descrevia a complexa realidade da vida na capital mexicana, desvelando uma série de circunstâncias e de personagens das mais variadas classes sociais. Não perdeu até hoje sua atualidade, no mundo hispânico, mas também permanece sem tradução em português.

Carlos Fuentes mereceria, sem dúvida, o Prêmio Nobel – pela qualidade, pelo volume da obra, pelo vigor do seu empenho na transformação cultural e social do seu país e da América Latina. Não o obteve, mas foi muito reconhecido no mundo hispânico e recebeu importantes prêmios, como o Miguel de Cervantes em 1987 e o Príncipe de Astúrias em 1994.

Como sempre acontece após a morte de um artista importante,  há uma revalorização imediata de sua obra  por parte de críticos, editores e professores universitários. Em minha próxima crônica pretendo continuar a examinar alguns aspectos da obra de ficção de Fuentes, mas termino esta reproduzindo apenas duas manifestações de críticos que julgo fundamentais para que meus leitores possam avaliar o que ele representa.

O crítico mexicano Christopher Dominguez disse, de sua obra: “É o conjunto mais complexo e variado da narrativa mexicana e reúne todas as conquistas e tendências da literatura contemporânea”. E o escritor argentino Tomás Eloy Martinez, em artigo publicado no jornal La Nación , disse: “El siglo XX está poblado de intelectuales emblemáticos. Ninguno de ellos ha reflejado tan bien como Carlos Fuentes las atmósferas, los humores, las obsesiones y los cambios de piel de América Latina”.

Cecília Prada 

http://pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=5464 … (FONTE)

Machado de Assis | Biografia

machado_dados_biográficosMachado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor deO Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Filho do operário Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo, pouco mais se conhecendo de sua infância e início da adolescência. Foi criado no morro do Livramento. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde e, em 1854, com 15 anos incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres, número datado de 3 de outubro de 1854. Em 1856, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor. Em 1858, era revisor e colaborador no Correio Mercantil e, em 60, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a pertencer à redação do Diário do Rio de Janeiro. Escrevia regularmente também para a revista O Espelho, onde estreou como crítico teatral, a Semana Ilustrada e o Jornal das Famílias, no qual publicou de preferência contos.

O primeiro livro publicado por Machado de Assis foi a tradução deQueda que as mulheres têm para os tolos (1861), impresso na tipografia de Paula Brito. Em 1862, era censor teatral, cargo não remunerado, mas que lhe dava ingresso livre nos teatros. Começou também a colaborar em O Futuro, órgão dirigido por Faustino Xavier de Novais, irmão de sua futura esposa. Seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, saiu em 1864. Em 1867, foi nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. Em agosto de 69, morreu Faustino Xavier de Novais e, menos de três meses depois (12 de novembro de 1869), Machado de Assis se casou com a irmã do amigo, Carolina Augusta Xavier de Novais. Foi companheira perfeita durante 35 anos. O primeiro romance de Machado,Ressurreição, saiu em 1872. No ano seguinte, o escritor foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, iniciando assim a carreira de burocrata que lhe seria até o fim o meio principal de sobrevivência. Em 1874, O Globo (jornal de Quintino Bocaiúva), em folhetins, o romance A mão e a luva. Intensificou a colaboração em jornais e revistas, como O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira (ainda na fase Midosi), escrevendo crônicas, contos, poesia, romances, que iam saindo em folhetins e depois eram publicados em livros. Uma de suas peças, Tu, só tu, puro amor, foi levada à cena no Imperial Teatro Dom Pedro II (junho de 1880), por ocasião das festas organizadas pelo Real Gabinete Português de Leitura para comemorar o tricentenário de Camões, e para essa celebração especialmente escrita. De 1881 a 1897, publicou naGazeta de Notícias as suas melhores crônicas. Em 1880, o poeta Pedro Luís Pereira de Sousa assumiu o cargo de ministro interino da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e convidou Machado de Assis para seu oficial de gabinete (ele já estivera no posto, antes, no gabinete de Manuel Buarque de Macedo). Em 1881 saiu o livro que daria uma nova direção à carreira literária de Machado de Assis –Memórias póstumas de Brás Cubas, que ele publicara em folhetins na Revista Brasileira de 15 de março a 15 de dezembro de 1880. Revelou-se também extraordinário contista em Papéis avulsos(1882) e nas várias coletâneas de contos que se seguiram. Em 1889, foi promovido a diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia.

Grande amigo de José Veríssimo, continuou colaborando naRevista Brasileira também na fase dirigida pelo escritor paraense. Do grupo de intelectuais que se reunia na Redação da Revista, e principalmente de Lúcio de Mendonça, partiu a idéia da criação da Academia Brasileira de Letras, projeto que Machado de Assis apoiou desde o início. Comparecia às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, à qual ele se devotou até o fim da vida.

A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os gêneros literários. Na poesia, inicia com o romantismo deCrisálidas (1864) e Falenas (1870), passando pelo Indianismo emAmericanas (1875), e o parnasianismo em Ocidentais (1901). Paralelamente, apareciam as coletâneas de Contos fluminenses(1870) e Histórias da meia-noite (1873); os romances Ressurreição(1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), considerados como pertencentes ao seu período romântico. A partir daí, Machado de Assis entrou na grande fase das obras-primas, que fogem a qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa.

A obra de Machado de Assis foi, em vida do Autor, editada pela Livraria Garnier, desde 1869; em 1937, W. M. Jackson, do Rio de Janeiro, publicou as Obras completas, em 31 volumes. Raimundo Magalhães Júnior organizou e publicou, pela Civilização Brasileira, os seguintes volumes de Machado de Assis: Contos e crônicas(1958); Contos esparsos (1956); Contos esquecidos (1956); Contos recolhidos (1956); Contos avulsos (1956); Contos sem data (1956);Crônicas de Lélio (1958); Diálogos e reflexões de um relojoeiro(1956). Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura e encabeçada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, organizou e publicou, também pela Civilização Brasileira, as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes, reunindo contos, romances e poesias desse escritor máximo da literatura brasileira.

http://www.machadodeassis.org.br/ … (FONTE)

FUTEBOL POLÍTICO | José Pacheco Pereira in “Abrupto”

Há um pequeno problema no futebol político: se olhassem para as bancadas apercebiam-se de duas coisas. Uma, a de que ninguém os está a ver; a outra, de quem os está a ver prepara-se para saltar para o campo e linchar as equipas. Isto assim não vai longe.

http://abrupto.blogspot.pt/2013/02/futebol-politico-vivemos-nos-ultimos.html … (FONTE)

MARGINAL | Cristina Carvalho | Lançamento nas Correntes d’ Escritas

cc

Vai para as livrarias no próximo dia 18 de Fevereiro

Lançamento em CORRENTES D’ESCRITAS, Póvoa de Varzim

Lançamento em Lisboa em 6 de Março.

Lançamento em Setúbal em 8 de Março.

Lançamento em Sines em 9 de Março

Apresentação deste livro e de toda a minha obra no KING’S COLLEGE em LONDRES no dia 14 de Março (a convite do Instituto Camões)

Capa de JOSÉ TEÓFILO DUARTE

CRISTINA CARVALHO

O dia em que Patti Smith encontrou Virginia Wolf

No Pop Literário de hoje, Patti Smith, também conhecida como “madrinha do punk”, lê um pequeno trecho do romance “As ondas”, de Virginia Woolf – e improvisa mais do que lê – ao som do piano e do violão tocados por seus filhos Jesse e Jackson numa performance de 2008. O clima amadorístico-familiar da apresentação da cantora-compositora-poeta-fotógrafa-ativista consegue, de alguma forma periclitante, combinar com a pretendida homenagem à grande escritora inglesa cujo suicídio, em 28 de março de 1941, fazia aniversário naquele dia em que se inaugurava uma retrospectiva de fotografias e desenhos de Patti em Paris. Vale lembrar que depois disso ela se revelou uma prosadora de talento com a autobiografia “Só garotos”, que saiu aqui pela Companhia das Letras no fim de 2010. Consta que tem ainda um romance policial no forno. (ViaOpen Culture, onde se pode ouvir também a única gravação remanescente da voz de Virginia Woolf, lendo o trecho de um ensaio de sua autoria para um programa da BBC em 1937.)

http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/ … (FONTE)

OS SIGLOS DE UN CLÁSICO DE LA LITERATURA | Qué es lo que más te gusta de ‘Orgullo y prejuicio’, de Austen? | Por: Winston Manrique Saboga in “Papeles Perdidos”

pride“Es una verdad universalmente aceptada que un hombre soltero en posesión de una notable fortuna necesita una esposa”. Así empieza Orgullo y prejuicio, de Jane Austen (1775-1817), a la sazón uno de los comienzos más populares y memorables de la literatura. Una obra que hoy cumple 200 años (en la imagen primera página de la edición del 28 de enero de 1813), con muchos seguidores y unos cuantos detractores, y a la que EL PAÍS le dedica hoy un especial que puedes ver AQUÍ. Pero sin duda, Austen es una escritora que con sus pocas novelas contribuyó a fomentar la lectura en su época, a popularizar la novela como género en el siglo XIX y a crear las pautas de la comedia romántica moderna.

Ciertos sectores han infravalorado o subestimado a la escritora británica y la han acusado, entre otras cosas, de banal, intrascendente y de falta de hondura o compromiso con su entorno. Sin embargo, creo que las obras de Austen relatan y describen historias cotidianas y personales que solo en apariencia son triviales; su mirada es certera y fotográfica y sus palabras aceradas dando como resultado un buen retrato, como pocos, de la sociedad de la época y los sentimientos, aspiraciones, sueños y emociones. Me gusta Austen y también Tólstoi y Stendhal y Nabokov y Faulkner y Dickens y Victor Hugo y Woolf y Mann y Brontë y García Márquez, por citar novelistas clásicos, sin establecer ahora un ranking. Y todos conviven felices en mi imaginación y memoria.

http://blogs.elpais.com/papeles-perdidos/2013/01/dos-siglos-de-orgullo-y-prejuicio-de-jane-austen-que-e-slo-que-mas-te-gusta-de-la-novela.html … (FONTE)

A História de Che Guevara | Lucía Álvarez Toledo

cheBiografia de Che Guevara retrata o “sofrimento” do homem que escolheu a guerrilha

Lucía Álvarez Toledo, autora do livro “A História de Che Guevara”, que vai ser publicado na Argentina defende que, ao contrário da imagem que se popularizou, o revolucionário argentino viveu “um profundo sofrimento”.

A autora do livro que se publica na altura em que se assinalam os 45 anos sobre a morte de Che Guevara afirma ter dados da infância e da juventude do revolucionário sul-americano que lhe permitiram escrever uma biografia que “oferece uma imagem mais aproximada e mais íntima”.

“Este personagem é muito conhecido pela sua gesta guerrilheira mas eu queria dar a conhecer outros aspetos da personalidade dele que nunca foram destacados porque ficamos sempre presos aos assuntos relacionados com a guerrilha, o marxismo e a luta armada”, explica a autora argentina, residente em Londres, em entrevista à agência EFE.

“Descobri o sofrimento deste homem. Ele tinha uma missão, tinha uma ideia do que tinha que fazer. Fez uma escolha e escolheu a luta armada”, diz Lucía Toledo.

Apesar de na juventude Ernesto Guevara ter lido Gandhi, “compreendeu muito cedo que o problema dos latino-americanos só podia ser resolvido através da luta armada”, afirma a escritora.

“Toda a gente acredita que quando tomou a decisão passou a usar uma boina e partiu pelos caminhos do mundo, mas não foi assim: sofreu muito por ter feito essa escolha, mas o sofrimento não foi registado nem compreendido”, sublinha a biógrafa de Che Guevara.

Para se aproximar da figura do guerrilheiro e oferecer, segundo as suas próprias palavras, uma “visão mais íntima”, Lucía Toledo recorreu à própria memória, falou com amigos de infância de Ernesto Guevara, consultou documentos e deslocou-se a Cuba para conhecer a viúva, Aleida March, os filhos e percorreu os caminhos do revolucionário na Bolívia.

“Há uma carta dirigida à mulher em que Che escreve que o que toda a gente pensa que ele não passa de um robot que tem de lutar, mas que, na verdade, tem sentimentos, e que sofre muito por não ver crescer os filhos”, conta Lucía Alvarez.

“Guevara esperava que os filhos o pudessem recordar caso fosse morto, e por isso escrevia-lhes cartas e contos. Nunca vi essa faceta exposta de uma forma clara e que complementa o retrato total do homem”, disse.

A autora não esconde uma espécie de “paixão” juvenil pela figura de Che Guevara cuja participação na revolução cubana chegaram muito cedo aos ouvidos dos jovens burgueses do Bairro Norte de Buenos Aires, na Argentina.

“Eu tinha 18 anos quando os jornais publicavam e escreviam títulos de primeira página sobre ele”, recorda a escritora, que acrescenta que o Exército Argentino não o chamou para cumprir serviço militar porque “não tinha boa saúde”, mas que acabou por ser comandante em Cuba numa “gesta impressionante”.

“Era um homem carismático, bonito, simpático, na linha de Carlos Gardel”, continua a autora, que durante a preparação do livro encontrou um velho bilhete de entrada para um jogo de rugby em que participou Ernesto Guevara.

“Dei-me conta de que o tinha visto durante um jogo no clube San Isidro, mas ainda não era o Che, era o Ernesto Guevara. E nada podia prever que eu ia passar parte da minha vida a investigar a vida dele”, diz.

Ernesto Guevara foi morto no dia 09 de outubro de 1967 pelo Exército boliviano, mas para a autora desta nova biografia Che “continua entre nós”.

Brasil(is) América(s) do Sul: fronteiras e comarcas do frio e do úmido | Vicente Franz Cecim

Ligia Chiappini

– uma dimensão simbólica para a Amazônia, como em Viagem a Andara oO livro invisível
– lugar da desmesura, a floresta inspira o poético e o fantástico, aproximando a literatura brasileira da hispanoamericana
– para Vicente Franz Cecim é preciso sonhar mais para ser digno do mundo mágico que os escritores amazônicos querem expressar. Por isso, Andara, que designa o lugar onde se encena uma viagem interminável pela Amazônia e pela vida: Andara, é um nome inventado, como Macondo, de Gabriel García Marques. Esse lugar, sendo a Amazônia, é, simultaneamente, como o sertão de João Guimarães Rosa, o mundo. Metáfora da vida sonhada, que corrige pelo mito as mazelas da vida real, o Livro Invisível quer repor o mistério da natureza, nos convidando a melhor respeitá-la.

[fragmentos do texto integral]

Vicente

Do Rato e dos homens por FERNANDA CÂNCIO in “Diário de Notícias”

Não fossem os portugueses ainda com emprego ficar mesmerizados com os recibos do ordenado de janeiro, o PS encenou, esta terça-feira, um grandioso espetáculo no Rato. Coisa shakespeariana: um rei fraco rodeado de lugares-tenentes aos gritos de deslealdade e conspiração ante o anúncio de uma pretensão ao trono, uma reunião à porta fechada e um final em que o monarca, depois de chamar e deixar chamar tudo a quem possa pô-lo em causa, abraça o concorrente que não chega a sê-lo e assume o compromisso de com ele trabalhar em prol da união do reino.

Em Shakespeare, como em geral, o pano nunca cai depois de uma cena destas. É só o princípio da intriga e de sangrentas congeminações que inevitavelmente nos revelam a natureza das personagens e da sua relação com o poder. E que sabemos nós das personagens? Comecemos pelo rei. Há um ano e meio no trono, não só tarda em mostrar o seu projeto e valor no campo de batalha como se rodeia de uma corte apagada e sem chama que, na noite de terça, mostrou também (com raras exceções, como a de Zorrinho) ser vil. É um monarca que não hesita em recorrer ao insulto, à ameaça e a insinuações de conspiração – chama desleais aos que com ele não concordam e que o consideram inadequado, fala ou deixa que por ele falem de “limpar o partido e o grupo parlamentar” (atribuído pela SIC, na noite de terça, à direção socialista), acusa quem o defronta de “querer regressar ao passado”, dando alento aos boatos que dizem ser o rei anterior a comandar, do exílio, a sublevação. Para, numa entrevista na noite seguinte, fazer de magnânimo e amnésico, cumulando de elogios o adversário da noite transata.

Quanto a este, alcaide valoroso e respeitado, com legítimas aspirações ao trono, renunciou a bater-se por ele quando ficou livre. Desde a coroação, porém, não perde uma ocasião de demonstrar o seu desagrado e até desprezo pelo ora rei. Era, pois, previsível que aglutinasse a esperança dos que consideram estar o reino mal dirigido e veem nele a esperança da vitória contra o inimigo e a salvação do povo. Como explicar, pois, que na famosa noite, quando todos esperavam que se perfilasse como candidato ao trono – o que só pode decorrer do facto de o ter confirmado aos próximos – se tenha ficado? Faltou-lhe a coragem, as ganas? Percebeu que não estava garantida a vitória e só quer arriscar não arriscando? Habituou-se ao conforto de criticar, na sua cátedra da SIC, sem correr o risco de provar que sabe e quer fazer melhor? Sentiu-se traído, na hora H, por aqueles de quem esperava apoio? Ou, como alguns aventam, recuou para tomar balanço, fazendo do recuo (o acordo da união) repto? Seja qual for a resposta certa (senão todas), sabemos, como sabem os protagonistas, isto: que na noite de terça algo se partiu no PS, e não há pantomina de união que o disfarce. O trono pode ter sido segurado, mas o reino está longe de seguro.

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3028285&seccao=Fernanda+C%E2ncio&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco … (FONTE)

Gonçalo M. Tavares nomeado para o Prémio Literário Europeu na Holanda | com Aprender a Rezar na Era da Técnica

aprender-a-rezar-na-era-da-tecnicaO escritor Gonçalo M. Tavares foi nomeado para o Prémio Literário Europeu 2013 para o melhor romance europeu traduzido para holandês no ano transacto, com Aprender a Rezar na Era da Técnica, editado em Portugal pela Caminho, anunciou a Fundação Holandesa para a Literatura.

Publicado na Holanda pela Querido, Aprender a Rezar na Era da Técnica (Leren bidden in het tijdperk van de techniek ) foi traduzido por Harrie Lemmens.

Entre os vinte finalistas contam-se nomes como Martin Amis (com Lionel Asbo), Javier Marías (com Os Enamoramentos), Emmanuel Carrère (com Limonov), Hilary Mantel (com Bring Up the Bodies) e Ian McEwan (com Sweet Tooth).

O Prémio Literário Europeu é uma iniciativa do Centro Académico Cultural SPUI25, da Fundação Holandesa para a Literatura.

Este galardão literário vai já na sua terceira edição, tendo distinguido Marie NDiaye, com Três Mulheres Poderosas (Teorema), e Julian Barnes, com O Sentido do Fim (Porto Editora), em 2011 e 2012, respetivamente.

O autor da obra vencedora receberá 10 mil euros e o tradutor 2,5 mil euros.

A obra Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. tavares, que tem sido aclamada internacionalmente, está também nomeada para o IMPAC Dublin Literary Award 2013 e já venceu o Prémio para Melhor Romance Estrangeiro em França em 2010, tendo sido finalista, nesse mesmo ano, do Médicis e do Femina.

Nova Teoria do Mal

Este livro, segundo o seu autor, tem origem numa revolta: “a revolta moral contra o estado de vida degradado, autenticamente terceiro-mundista, de mais de 2 milhões de habitantes de Portugal; Não podia encarar grande parte da classe política que nos governa desde meados da década de 1980 sem encontrar nos seus olhos, na sobranceria das suas atitudes, na prepotência das suas leis (extorquindo dinheiro à população, favorecendo os que mais o têm), no ar enfastiado e enfatuado com que no estrangeiro se referem ao povo português, culpando-o de um atraso cuja responsabilidade só às elites pertence, sem detectar neste conjunto de atitudes uma visível tendência para o mal, um genuíno prazer no mal que iam cometendo lei a lei.” (pág. 13)

Tal como a vida “não nasceu contra o caos, mas sobre o caos” (pág. 109), é natural que esta revolta também nasça sobre a desagregação da nossa sociedade, sobre este amortecimento português sem um aparente desígnio de maldade.

Homens normais, sem aleijões psíquicos, entorses sociais de infância ou traumas psicanalíticos, subscrevem políticas que lançam populações inteiras na miséria ou limitam o tratamento a doentes que se podiam salvar e dessa forma vão morrer porque o país está em dificuldades económicas. Como entender esta “banalidade do mal”?

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Carlos Matos Gomes comenta in “Facebook” | Ulrich: “Se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?”

Mussolini and Pavelic |1941

Mussolini and Pavelic |1941

O aguenta-aguenta anda a brincar com o fogo! Mesmo os grandes criminosos da História tinham consciência de que as suas falhas de caráter, de sentido de pertença à humanidade, as suas filhas da putice, em suma, deviam ser embaladas ou disfarçadas. Umas vezes justificavam os seus crimes com a religião, de outras com a pátria. Raramente ousavam afirmar que era a cupidez que os fazia matar, que se deleitavam com a miséria do seu povo. O sadismo foi sempre considerado uma aberração. Este aguenta-aguenta é um doente mental. Começa por ter a pesporrência dos ignorantes: o sofrimento individual é, por natureza, diferente do sofrimento de uma sociedade. O facto de, numa dada sociedade, existirem seres com capacidade para suportar elevados níveis de provação, de dor, não faz dessa sociedade uma sociedade de estóicos, como o aguenta aguenta julga. Faz, quase sempre, dessa sociedade, uma sociedade de revoltados. Os neo-liberais, que deixaram de considerar as sociedade constituídas por seres humanos, para os incluirem na categoria de clientes, de consumidores, de “targets”, dão aberrações como este aguenta aguenta quando, fiados na impunidade de meninos da mamã, decidem dizer em voz alta o que ouvem em casa. A maezinha do aguenta-aguenta devia dizer às criadas que também deviam aguentar o trabalho sem regras nem horários, que deviam aguentar-se com os restos das refeições dos patrões, com a vida no tugúrio da cave ou do sótao. É disto que este aguenta-aguenta está a falar: de desprezo!

Carlos Matos Gomes in “Facebook” 

Federico Patellani

(b Monza, 1911; d Milan, 1977). Italian photographer and painter. He studied law before becoming a painter, and he was associated with various artistic movements in Lombardy, in particular the Chiaristi group, which was close to the avant-garde critic Edoardo Persico. Patellani took up photography in 1935, the same year in which he served in the war in East Africa. His first photographs were published in the Milanese newspaper L’Ambrosiano. In 1939 he became part of the team of photographers on the weekly magazine Tempo, which was inspired by the first great international illustrated magazines, in particular Life. Here, he devised the fototesta, an innovative way of presenting news stories using a large number of photographs with a few brief captions, the story thus being told mainly through images, with the photographer as narrator. This was the first time in Italy that the photographer was considered as an intellectual in his own right and not simply a subordinate craftsman.

http://www.answers.com/topic/federico-patellani-2#ixzz2JZxVcFG9 … (FONTE)

silvana mangano

silvana mangano

É da torre mais alta | José Carlos Ary dos Santos

É da torre mais alta
Que eu canto este meu pranto
Que eu canto este meu sangue,
Este meu povo
Dessa torre maior
Em que apenas sou grande
Por me cantar de novo,
Por me cantar de novo.

Cantar como quem despe
A ganga da tristeza
Como quem bebe
A água da saudade,
Chama que nasce e cresce
E vive e morre acesa
Chama que nasce e cresce
Em plena liberdade.

Mas nunca se dói só
Quem a cantar magoa
Dói-me o Tejo vencido
Dói-me a secura
Dói-me o tempo perdido
Dói-me o mal da lonjura
Dói-me o povo esquecido
E morro de ternura
Dói-me o tempo perdido
E morro de ternura.

torre-da-liberdade

Trecho do livro | A Casa das Belas Adormecidas | Yasunari Kawabata

– Mamãe! – chamou a garota, como num grito contido. – Oh! Oh! A senhora vai embora? Por favor, perdoe-me, perdoe…

– Com o que está sonhando? É um sonho, é um sonho! – diante das palavras da garota que dormia, o velho Eguchi apertou-a ainda com mais força, tentando acordá-la. A tristeza contida na voz dela chamando pela mãe penetrou em seu coração. Seus seios estavam tão comprimidos contra o peito dele que estavam achatados. Ela estendeu os braços na direção dele. O teria confundido no sonho com sua mãe que desejava abraçar? Não. Embora adormecida, embora virgem, não havia a menor dúvida de que era uma coquete. Parecia que o velho Eguchi, em 67 anos de vida, nunca tivera a oportunidade de tocar com tamanha plenitude a pele de uma jovem. Se havia uma mitologia sensual, esta seria sua jovem heroína.

Começou a lhe parecer que não era apenas uma coquete, mas uma garota vítima de encantamento. Por isso, ela estava “viva mesmo adormecida”, ou seja, sua alma adormecia profundamente, mas seu corpo, ao contrário, mantinha-se acordado em toda a sua feminilidade. Não havia nela uma alma humana, apenas um corpo de mulher. Estaria tão bem treinada para servir de companhia aos velhos a ponto de a mulher da casa anunciá-la como “experiente”?

Eguchi afrouxou o braço que apertava a garota com força, abraçou-a com carinho e ajeitou seus braços nus de modo que ela o enlaçasse. E ela o abraçou docilmente. O velho manteve-se nessa posição e permaneceu quieto. Fechou os olhos. Aquecido, sentia-se num deleite. Era quase um êxtase inconsciente. Parecia compreender o bem-estar e a felicidade sentidos pelos velhotes que freqüentavam a casa. Ali eles não sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam se sentindo repletos de dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo corpo da jovem mulher. No entanto, estariam os velhotes pensando que compraram sem pecado as garotas adormecidas como oferenda para satisfazê-los? Ou, então, que por causa do sentimento secreto de pecado teriam um prazer ainda maior? Completamente fora de si, o velho Eguchi esquecera que a garota era a oferenda ao sacrifício, e procurou com o pé as pontas dos pés dela. Somente ali ele ainda não havia tocado. Os dedos eram longos e moviam-se gracio-sos. As articulações, de modo semelhante às dos dedos das mãos, ora se dobravam ora se desdobravam, o que já bastava para exer-cer em Eguchi a forte sedução de mulher misteriosa. Mesmo durante o sono, ela era capaz de trocar palavras de carinho com ele por meio dos pés. Entretanto, o velho contentou-se, interpretando os movimentos dos dedos dela como os de uma música hesitante e inocente, embora sensual. E continuou por algum tempo a acompanhá-la.

Parecia que a garota estava sonhando, mas teria o sonho acabado? Talvez tenha adquirido o hábito de falar e reclamar enquanto dormia em protesto aos toques insistentes dos velhotes. Eguchi pensou nessa possibilidade. Talvez fosse apenas isso. Mesmo sem falar nada e adormecida, a garota era plenamente sensual e apta a manter um diálogo com o velho apenas por meio do seu corpo. Porém, mesmo que fossem palavras desconexas em sonho, ele queria estabelecer um diálogo com ela em viva voz. Era provável que por não estar acostumado ainda com os segredos da casa, Eguchi não conseguisse desvencilhar-se dessa esperança. Perguntando a si mesmo, perplexo, o que dizer ou que parte do corpo pressionar para que a garota lhe respondesse, ele disse:

– Não está sonhando mais? Um sonho em que a sua mãe foi embora para algum lugar? – deslizou a mão ao longo da coluna, acariciando cada vértebra. Ela sacudiu os ombros e virou de bruços. Parecia ser a posição preferida dessa garota para dormir. Seu rosto continuava voltado para o lado do velho, com a mão direita abraçando de leve o travesseiro. Ela então pousou o braço esquerdo sobre o rosto dele. No entanto, não falava mais nada. O sopro suave da sua respiração chegava-lhe quente. Mas o braço sobre o rosto de Eguchi se mexia, procurando o equilíbrio. Então, com ambas as mãos, ele colocou-o sobre os seus olhos. As pontas das unhas compridas da garota arranharam de leve o lóbulo da orelha dele. A articulação do pulso dobrava-se sobre a pálpebra direita de Eguchi, de forma que a mesma ficou coberta com a parte mais fina do antebraço. Desejando conservar a posição, o velho apertou a mão da garota sobre seus olhos. O cheiro da pele dela penetrava-lhe os globos oculares e lhe proporcionava novas e fartas fantasias. Era bem nessa época do ano que duas ou três flores de peônia de inverno, banhadas pelo sol tépido como de um dia de primavera, floresciam ao pé do alto muro de pedras do velho templo da região de Yamato, e que sazanka* brancos cobriam amplamente o jardim até a beira do corredor externo do pavilhão Shisendo, onde homenageiam-se os poe-tas. Também, mais tarde, na primavera em Nara, as flores de ashibi* * e as glicínias, além das camélias despetaladas, estariam em pleno florescimento no Templo das Camélias.

* Arbusto nativo do Japão, da família das teáceas, a mesma das camélias. Enquanto estas florescem no início da primavera, os sazanka, o fazem no outono. (N.T.)
* *Arbusto da família da azálea, com flores brancas miúdas em cachos. (N.T.)

belas

Citando Eduardo Pitta in “Da Literatura”

ANTÓNIO COSTA E O FUTURO DO PS

O PS reúne hoje a Comissão Política e, no próximo 10 de Fevereiro, a Comissão Nacional que decidirá a data das directas e do congresso do partido. Tudo aponta para o fim de Março. Gostava de ver António Costa avançar nas directas. O PS precisa de alguém com fibra, e um passado de provas dadas, para surgir como alternativa à direita. Só não percebo a parte dos que defendem que eleições internas em Março constituem óbice às autárquicas de Setembro ou Outubro. Não sou militante do partido, mas a liderança do PS é um assunto demasiado sério para ficar entregue a uma clique. António José Seguro assegurou o período de nojo, mas chegou a altura de começar a construir o futuro.

http://daliteratura.blogspot.pt/2013/01/antonio-costa-e-o-futuro-do-ps.html … (FONTE)

António Costa

António Costa

O Economista Português julga que só um governo de união sagrada estará em condições de proceder às reformas de que Portugal necessita para sobreviver. | Luís Salgado de Matos in “O Economista Português”

O governo beneficia de condições políticas que lhe permitam aplicar uma eventual reforma e cortes na despesa da magnitude acima referida (4 mil milhões de Euros)?  O governador do Banco de Portugal, Dr. Carlos Costa, defendeu acordos sociais para pôr os parceiros sociais de acordo quanto a receitas e despesas estatais – o que é uma excelente ideia, mas o governo terá vontade e força para proceder a essa concertação social? O Economista Português julga que só um governo de união sagrada estará em condições de proceder às reformas de que Portugal necessita para sobreviver.

Do autor deste post (Vítor Coelho da Silva):  

Entregar a liderança do PS ao Dr. António Costa e a liderança do PSD ao Dr. Rui Rio, e ambos, com o acordo dos seus Partidos e do Sr. Presidente da República, formarem um Governo Estratégico de União para sair da crise, talvez seja a solução.  Será pedir muito?

Ler mais aqui:

http://oeconomistaport.wordpress.com/2013/01/29/nova-conferencia-dos-4-bilioes-de-euros/ … (FONTE)

Rui Rio

Rui Rio

António Costa

António Costa

Teatro Rápido | Comunicado

Por decisão do projeto, totalmente alheia ao Teatro Rápido, Sofia Sá da Bandeira será substituída por Cristina Areia no espetáculo “GOODBYE” de João Ricardo que estará em cena no TR durante todo o mês de Fevereiro.

SALA 3 – Goodbye
Horário das sessões: 18h15 | 18h45 | 19h15 | 19h45 | 20h15
quinta a segunda | M/16 | 3€

Texto: José Pinto Carneiro
Dramaturgia e Encenação: João Ricardo
Interpretação: Cristina Areia
Instalação Cenográfica: João Ricardo / SP Televisão
Design Gráfico: Inês Gois
Execução de Figurinos: José Graça

Uma mulher, mãe de dois filhos, que na sua última noite de férias no Algarve se deixa levar por um perspicaz jogo de sedução de um jovem rapaz, que a leva a reviver emoções adormecidas.

Sítios, de Licínia Quitério

“Terra e mar são sítios que dizemos.

Outros há sem nome e sem morada – desertos”

Começa assim o livro de Licínia Quitério, um livro de sítios, de todo os sítios, dos que se alcançam pelo trabalho da palavra. Em cada poema existe uma “paisagem absurda” e nessa paisagem se inscrevem palavras; não nomeiam, não descrevem, são palavras obreiras de outras realidades. E a realidade de hoje corresponde aos “dias do cerco”, à “pele atormentada do pântano”, onde a voz do poeta se destaca como construtor da nova metrópole, a que se avizinha, procurando ir sempre “Mais alto, que a terra é pouca e o céu é vasto”.

Os poemas nascem, “Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor, chicote a chicote…”, porque os sítios permanecem para além da memória do nome que lhe demos.

versão integral no PNet

FILOSOFIA POLÍTICA | Divirtam-se enquanto podem | Jorge Nascimento Rodrigues in “Facebook”

Recapitulando o “regresso aos mercados” — continua a haver mais marketing politico e espuma dos opinadores do que factos

1- Na realidade, o processo de regresso ao mercado obrigacionista começou em outubro de 2012 com uma troca parcial de dívida da OT que vence em setembro deste ano; o termo “processo” foi usado pela secretária do Tesouro e é adequado, secretárua que, aliás, teve uma intervenção pública sóbria;

2- O que ocorreu esta semana não foi um “leilão” de dívida de médio e longo prazo típico, mas uma emissão sindicada (por 4 entidades), ou seja havia uma rede por baixo do fio de arame; O IGCP ainda não realizou nenhum leilão típico de dívida obrigacionista; só tem realizado leilões de bilhetes do Tesouro (ainda que neste caso tenha estendido o prazo até 18 meses numa linha de fronteira com as obrigações); para muitos analistas, o verdadeiro “teste” é uma linha de leilões de obrigações (Irlanda, por exemplo, já falou em emitir a 9 anos, o máximo que o NTMA costumava fazer antes do resgate);

3- A ideia de spin que estas operações têm um efeito imediato no mercado secundário não é suportável na evidência empírica. Não por acaso a agência Fitch realizou o balanço sobre a operação e apontou os “desafios”. Além disso, o mercado secundário da dívida (tal como o primário) está sujeito à influência de diversos factores exógenos ao país (andamento da zona euro, factos políticos relevantes na zona, atuação do BCE), endógenos de ordem política (Fitch volta a sublinhar o risco político, por exemplo) e de avaliação de sustentabilidade do ajustamento em curso ou da dívida, etc. Nenhuma agência de rating manifestou intenção de alterar a avaliação de dívida especulativa, regraduando o país. É um complexo de variáveis que tanto podem surpreender o Governo como a Oposição. A International Finance Review levantou o problema do papel dos hedge funds (24% nesta operação; 4% apenas na operação sindicada espanhola a 10 anos);

4- A “convicção” de que as reformas estruturais (o que Paul Krugman chama de novo “estruturalismo” mais arreigado na Europa) na sua maioria viradas à desvalorização do factor trabalho conduzem à retoma económica, ao reequilíbrio das contas públicas e ao regresso do IDE nem mesmo nos mais convictos austeristas é inabalável. Os factos da vida já levam a chanceler Merkel a explicar que isso “leva tempo”, e que o “tempo” é crítico. Pelo que o austerismo e a “condicionalidade” (reformista estruturalista) que impera nas mentes europeias de Bruxelas e Frankfurt começa a mostrar o seu prazo de validade. O que os obriga a golpes de rins, mesmo continuando o discurso inicial para consumo do eleitorado indefectível;

5- É esse “tempo” que conduziu a troika a aguentar a Grécia desse o que desse; um tempo onde a geopolítica começa a surgir como factor (o posicionamento estratégico da Grécia é mais do que evidente; só o não é para néscios ou integristas do austerismo). Na Grécia, a “troika” já experimentou de tudo o que à partida era tabu e caluniado como “imoral”. Os europeus deveriam beijar o chão que pisam Venizelos (que negociou a reestruturação de dívida) e Samaras (que segurou o regime depois de duas eleições). Em vez de continuarem a política de achincalhamento da Grécia — o que só revela como o estilhaçar da UE é cada vez mais evidente (se não for travado por novos líderes políticos ou se os atuais não derem um golpe de rins);

6- É esse “tempo” que leva a troika a cada vez mais querer definir com urgência um plano para o day after, ou seja de continuação dos programas de resgate por outros meios. Os planos de resgate, apesar da evolução que tiveram, falharam no essencial — na ideia de matar no ovo a crise da dívida, eliminar os tail risks, e colocar as economias em austeridade expansionista. Na Grécia, a troika traçou uma primeira empreitada até 2016 (e mesmo assim há um buraco que pode ir até 9,5 mil milhões de euros que está por resolver), na espera que Samaras aguente a situação e que o Syriza não consiga dar a volta. Na Irlanda e em Portugal quer estender o tapete para uma intervenção “preventiva” do MEE (precautionary financial assistance) e paralela do BCE (que inventou o OMT) e para um envolvimento do sector oficial europeu (FEEF e MEEF) amaciando o perfil da dívida “oficial” dos dois países. Para que estes dois países não sejam vencidos pela “fadiga” política e social. Ainda que Irlanda e Portugal sejam filmes completamente diferentes;

7- “Colar” à Irlanda em matéria de tática no seio do Eurogrupo é um bom passo, ainda que tardio; mas mais vale tarde do que nunca. Mas em matéria de estratégia estamos muito longe. O governo irlandês e a sua agência de dívida (NTMA) têm uma estratégia clara nos seus pontos de conflito/negociação com o BCE e Bruxelas, e não arredam um milímetro mobilizando publicamente a vontade nacional de ter coluna vertebral dos irlandeses, e uma linha transparente em matéria de “regresso aos mercados”. A ideia de que estamos “intervencionados” e que nada podemos fazer a não ser que a troika nos abra a porta para ir fazer chichi, no momento em que entende abrir (“we appreciate”), é o contrário da estratégia. É contrária ao pouco que temos no nosso ADN de 900 anos. A ideia de que se dobra a espinha publicamente, sendo grandes estrategos nos bastidores, é novela. Só acredita quem quer. Só tendo uma grand strategy, como dizem os especialistas, se pode manobrar, discretamente, nos bastidores, mantendo o apoio popular do seu próprio povo.

Divirtam-se enquanto podem.

FILOSOFIA POLÍTICA | “Critiquemos os “mercados” e as suas nefastas consequências para as populações do mundo” | António Pinho Vargas in “Facebook”

Este governo consegue realizar golpes de propaganda que nem o ilustre antecessor nessa matéria, Joseph Goebbels, conseguiria imaginar com tamanha facilidade. De facto, como escreve hoje Miguel Sousa Tavares, e cito de memória: “o país inteiro celebra o facto de poder continuar a endividar-se”.
Com a preciosa ajuda dos seus aliados nos poderes e nos media – tvs, apoiantes oficiais, não-oficiais e de jornais vencidos pelas ditaduras da actualidade e da publicidade – nem precisa de fazer grande esforço. Todos alinham na manobra de propaganda com alegria patriótica e uns poucos tentam dizer, lá pelo meio, que “não mudou nada”, que “a austeridade, os cortes nos salários e nas pensões, que a recessão continua”, que “o ataque ao ensino e às universidades prossegue”, etc.
Tudo isso deixou de interessar, aparentemente. “O país inteiro celebra”. Sendo assim, podemos acrescentar: o país inteiro merece o que lhe cai em cima, porque não prima pela menor lucidez. Só que sabemos que não é o país inteiro, de modo nenhum. Será, talvez, o pequeno grupo que lê jornais, os propagandistas ao serviço do governo e a aquela clic de “intelligentsia” auto-nomeada que julga ter o destino do mundo na ponta da sua caneta todas as semanas.
Recusemos o golpe demagógico e prenhe de mentira. Critiquemos os “mercados” e as suas nefastas consequências para as populações do mundo e tentemos não ser estúpidos ao ponto de acreditar em tudo o que nos dizem.
António Pinho Vargas

apv

Lanzarote homenageia José Saramago com uma oliveira de aço numa rotunda

saramago rotonda 1

Lanzarote vai homenagear o filho adotivo José Saramago com uma escultura de quase cinco metros em aço, a colocar na rotunda que dá acesso ao complexo da Casa e da Biblioteca do escritor, em Tías, no dia 18 de março, segundo aniversário da abertura deste espaço ao público.

A escultura, da autoria de José Perdomo a partir de um desenho de Esther Viña, ambos de Lanzarote, representa uma oliveira feita com as letras iniciais de José Saramago – o tronco é um jota, os ramos são esses. Foi apresentada publicamente no dia 25, numa sessão em que estiveram presentes a conselheira de Cultura doHoverno das Canárias, Inés Rojas, o presidente do Cabildo de Lanzarote, Pedro san Ginés, o presidente da câmara municipal de Tías, Francisco Hernández, e a presidenta da Fundação José Saramago, Pilar del Río.

A conselheira da Cultura sublinhou que a iniciativa tem o objetivo de deixar um testemunho da permanência de José Saramago em Lanzarote, onde se instalou em 1993, repartindo a presença na ilha com as sucessivas estadas em Lisboa. Foi em Lanzarote que escreveu o Ensaio sobre a Cegueira (1995) e todas as obras que se seguiram.

O presidente do Cabildo reconheceu que Lanzarote “nunca poderá pagar” a Saramago o facto de se ter apaixonado pela ilha e de ter decidido ali viver. “Mas podemos agradecer-lhe e esta é uma maneira de fazê-lo”.

Os representantes das instituições que se juntaram nesta homenagem a Saramago pertencem a diferentes partidos, como sublinhou na ocasião Pilar del Río que destacou que o facto de se terem sentado à mesma mesa pela cultura “integra-se no espírito de Saramago”.

Pilar del Río recordou a influência que Lanzarote e a sua paisagem tiveram na obra do escritor português, como é possível verificar no texto A estátua e a pedra – que a Fundação José Saramago publicará nos próximos meses. Nesse texto, Saramago explica que o contacto com a ilha o levou a alterar o seu estilo e a forma de ver as coisas – passou a interessar-lhe mais a pedra e a sua matéria do que a estátua.

Sandro William Junqueira

Sandro William Junqueira

Sandro William Junqueira

Nasceu na Rodésia em 1974.
Escreve ao computador de forma lenta: usa apenas quatro dedos dos dez possíveis.
Designer gráfico de formação.
Trabalha regularmente no teatro como encenador e actor.
Publicou em 2009, o romance O Caderno do Algoz, na Editorial Caminho.
E em 2011, a novela policial O Caso do Cadáver Esquisito, em colaboração com outros dez escritores, Edição Prado.

http://pnetliteratura.pt/membro.asp?id=1072 … (FONTE)

Fado das vidas imperfeitas | Manuela Degerine

bookMarta é atropelada por um homem que a conduz ao hospital, lhe prodiga prendas e proteção; um self made man, como ele se apresenta. Quando, desfeitos os mal-entendidos, Marta pretende afastar-se, compreende que, embora nunca se interessasse pelos negócios de Albertino Barreira, não pode fazer a mala e ir-se embora. Uma herança inesperada permite-lhe fugir para Tomar. Projeta esconder-se, não ser vista: desaparecer. E começar uma vida nova. Esta personagem confronta-se com o medo, a violência, os imprevistos, os segredos de família, interroga-se sobre o trabalho, o consumo, a liberdade, a responsabilidade… os limites. Deseja esculpir a vida como uma obra de arte. Qual será o resultado?

http://www.tertuliadeebooks.com/book/I03DY5 … (FONTE)

Sonia Coutinho | Brasil

Sónia Coutinho

Sónia Coutinho

Sonia Coutinho nasceu em Itabuna, Bahia, mas mudou-se muito jovem para o Rio de Janeiro, onde atualmente reside. Participou do International Writing Program, em Iowa e foi escritora residente em Austin, Texas.
Foi jornalista em alguns dos principais jornais do Rio. Tornou-se tradutora de livros, já tendo traduzido quase cem títulos, entre eles obras de Gertrude Stein, Carson McCullers, E.M. Forster, Joyce Carol Oates, Doris Lessing.
Entre romances e contos, tem dez volumes publicados. Alguns deles: “Os venenos de Lucrécia,” “O último verão de Copacabana”, “Atire em Sofia” e “Ovelha negra e amiga loura”.
Seus contos figuram em inúmeras antologias, no Brasil e no exterior. Ganhou dois prêmios Jabuti e um Prêmio Clarice Lispector de Conto.

http://pnetliteratura.pt/membro.asp?id=1061 … (FONTE)

Centro de Arte Contemporânea Graça Morais

Situado no centro histórico de Bragança, com vista privilegiada para a centenária praça da Sé, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais resulta da requalificação e ampliação de um edifício solarengo do século XVII pela mão do arquiteto Eduardo Souto Moura. Inaugurado em 2008, o projeto recebeu em 2009 o prémio internacional de arquitetura, atribuído pelo Chicago Athenaeum Museum of Architecture and Design, dos EUA e pelo European Centre for Architecture and Urban Studies. Para além da obra da pintora transmontana Graça Morais, coleção renovada duas vezes por ano, a dinâmica deste Centro de Arte Contemporânea assenta num programa de exposições temporárias, representativas de movimentos e de artistas nacionais e internacionais, entre os quais Paula Rego, Júlio Pomar, Santiago Ydáñez, João Cutileiro, João Louro, Pedro Calapez, Alberto Carneiro ou, entre outros, Julião Sarmento.
Site
http://centroartegracamorais.cm-braganca.pt www.cm-braganca.pt 
Email
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Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra comemora 500 anos de atividade in “Diário Digital”

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), considerada «a mais rica biblioteca universitária» do mundo lusófono, vai assinalar 500 anos de existência com um programa a divulgar na segunda-feira, anunciou hoje a instituição.

«Apesar de não se conhecer nenhum documento oficial atestando a fundação da biblioteca, a existência da Casa da Livraria é expressamente referida numa ata de 12 de fevereiro de 1513», refere uma nota da assessoria da Universidade de Coimbra.

Essa ata inclui «uma determinação do reitor para que se fizessem obras no respetivo edifício», adianta, concluindo que, «nesse sentido, pode afirmar-se que a BGUC se situa numa linha de continuidade que tem, pelo menos, cinco séculos».

Diário Digital / Lusa

Joanina Library, Coimbra

Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt

(Piedade, ilha do Pico, Açores, 1949).

Licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. Desde 1990, tem leccionado na Universidade dos Açores as disciplinas de Literatura Portuguesa, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa e Literatura Açoriana, entre outras. Têm-lhe merecido particular atenção as literaturas insulares, sobre as quais já proferiu conferências em Cabo Verde, Madeira, Canárias e Açores.
Colaborador da imprensa desde muito jovem, ficou ligado ao suplemento «Glacial», de A União, jornal terceirense em que viria a alargar a sua participação através dos suplementos «Juvenil» e «Cartaz», nos anos de 1972-1974, altura em que cumpria serviço militar obrigatório na Guiné.
No final dos anos 70 dirigiu em Lisboa, juntamente com o poeta J. H. Santos Barros, A Memória da Água-Viva (revista de cultura açoriana).
Colaborou na rádio e na televisão – para esta última colaborou com José Medeiros na adaptação do romance Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, e no documentário «Djutta Ben-David, Voz & Alma».
Tem colaboração frequente em revistas da especialidade, no país e no estrangeiro e participou na edição das seguintes antologias de poesia açoriana:
Caminhos do Mar. Antologia Poética Açoriano-Catarinense (com Lauro Junkes e Osmar Pisani); Florianópolis, Santa Catarina, 2005.
Pontos Luminosos. Açores e Madeira, Antologia Poética do Século XX (com Maria Aurora Homem e Diana Pimentel). Campo das Letras, 2006.
Azoru. Dzejas antologija (com Leons Briedis). Riga Letónia, 2009.

Obra
Poesia e narrativa: Raiz de mágoa (1972); Ilhas (1976, de parceria com J. H. Santos Barros);Marinheiro com residência fixa (1980); Naufrágios Inscrições (1987); Algumas das Cidades(1995); Lugares sombras e afectos (2005 com desenhos de Seixas Peixoto); Santo Amaro Sobre o Mar (2005, com desenhos de Alberto Péssimo; 2.ª ed. 2009); Antero (2006, com desenhos de Alberto Péssimo); Que paisagem apagarás (2010).
Ensaio: O Gosto das Palavras, 3 vols. (1983, 1995, 1999); Emigração e Literatura (1989); De Cabo Verde aos Açores – à luz da «Claridade (1998); Ilhas conforme as circunstâncias (2003).

http://pnetliteratura.pt/membro.asp?id=1002 … (FONTE)

GUILHERME CENTAZZI: O PRIMEIRO ROMANCE MODERNO PORTUGUÊS | por Miguel Real in “inComunidade”

1. – Introdução
Uma recente descoberta de Pedro Almeida Vieira, conhecido autor de romances históricos, teorizada por Maria de Fátima Marinho, professora da Faculdade de Letras do Porto, veio revolucionar a historiografia da literatura portuguesa. Referimo-nos à publicação de O Estudante de Coimbra. Relâmpago da História Portuguesa desde 1826 até 1838, de Guilherme Centazzi, apresentado como “o primeiro romance moderno português”, editado em 1840 – 41 (3 volumes), anterior, portanto, à publicação dos dois textos considerados até hoje como os pais do romance português moderno, Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, publicado em 1845, e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, publicado em 1846 (cf. “Nota Prévia” de Pedro Almeida Vieira” e “Posfácio” de Maria de Fátima Marinho). Chama-se, assim, a atenção dos professores de Português e dos diretores de bibliotecas municipais para a necessidade de um novo enquadramento cronológico das origens do romance moderno português, com evidente futura alteração dos manuais e das histórias de literatura.

2. – Morrer na praia
Lido o romance ora ressuscitado de Guilherme Centazzi, um médico de origem italiana nascido em Faro, político tão entusiasmadamente liberal quando estudante quanto cético na maturidade, à imagem de Herculano e Garrett, de prática literária polivalente, inventor dos rebuçados medicinais “Centazzi”, emerge o sentimento paradoxal de incompletude, tanto no sentido de anunciação ou de precursão de correntes literárias posteriormente dominantes, quanto no sentido da ausência de um trabalho estético mais apurado por parte do autor. De facto, O Estudante de Coimbra estatui-se como um texto em bruto, redigido intuitivamente, sob o ardor político e literário da juventude, necessitado, porém, de ser laminado, sintetizado e, sobretudo, de sofrer o efeito de uma profunda revisão estética. Porém, o seu alto valor para a história da literatura portuguesa reside, independentemente das qualidades específicas da obra em si, no modo “amalgamado” como cruza três correntes estéticas que se tornarão, posteriormente, dominantes em Portugal até ao advento do naturalismo-realismo, no último quartel do século XIX. Referimo-nos ao romantismo, como é evidente, mas também à inspiração do romance de “capa e espada” (o folhetim jornalístico e o livro) e ao romance gótico. Com efeito, Centazzi possui o poder intuitivo de cruzar estas três correntes europeias, ainda virgens em Portugal no campo da narrativa, escrevendo um romance que, de certo modo, se singulariza por as evidenciar a todas e a nenhuma em particular.

De facto, o sentimento literário de Centazzi é idêntico ao da escrita de Garrett em Viagens na Minha Terra, que, desprezando o convencionalismo retórico clássico (os protocolos da escrita arcádica) declara, “isto tinha na alma, isto vai no papel”, abrindo caminho a uma escrita revelada pelo sentimento individual do autor (o “eu) e a um léxico burguês de caráter jornalístico, duas das premissas do romantismo presentes em O Estudante de Coimbra. Por outro lado, como Fátima Marinho salienta, Centazzi une, ao modo de Walpone, do romance gótico do século XVIII, aspetos aterrorizantes da realidade humana (guerra, grutas, fome, “fantasmas”, posteriormente desmascarados, criaturas grotescas e perversas como frei Barnabé) com a expressão de sentimentos de inocência e ternura (Maria) e de honestidade enganada (Rodolfo). Nesta vertente estética se enquadrará, porventura, a dedicatória de Centazzi a António Feliciano de Castilho, que acabara de publicar A Noite do Castelo (1836). Detetam-se igualmente em O Estudante de Coimbra traços pertinentes ao romance de capa e espada, do século XVII, que tão grande ventura popular terá ao longo do século XIX com Ponson du Terrail (Rocambole) e Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, O Homem da Máscara de Ferro), praticado em Portugal por Carlos Pinto de Almeida (O Corsário Português, 1875) e Pinheiro Chagas (As Duas Flores de Sangue, 1875). O romance de Centazzi pratica com abundância algumas das características deste género narrativo, sobretudo a transformação involuntária de uma vida normal (o estudante) numa vida aventurosa, repleta de mil e uma peripécias (prisões, raptos, duelos, viagens por mar, por carruagem, assaltos, até uma tentativa de suicídio…), auxiliada por criados ou companheiros (Careo, criados de Rodolfo, amigas de Maria), desenvolvendo um enredo complicadíssimo, sempre com um final inesperado, como justamente acontece neste romance.

Existe, assim, uma tripla inspiração em O Estudante de Coimbra, o primeiro romance moderno, no dizer de Pedro Almeida Vieira. Em primeiro lugar, a inspiração na vida própria, o que confere um fortíssimo grau de romantismo ao romance, e, neste sentido, é correto designar-se como um texto integrado no movimento romântico português; em segundo lugar, porventura efeito das leituras do autor em Coimbra, existe uma nítida inspiração do romance gótico, aliando o jogo sentimental a cenas e situações macabras e aterrorizantes e/ou a personagens grotescas; em terceiro lugar, a inspiração no romance de capa e espada, repleto de peripécias e aventuras, de obstáculos à realização do amor, de ajudas e impedimentos por parte de criados ou de inferiores.

Dito de outro modo, Centazzi, como autor, possuiu o instinto estético dos precursores, compondo um romance prenunciador da quase totalidade da literatura portuguesa do século XIX. Porem, como todos os pioneiros, venceu o mar mas acabou por morrer na praia, à vista da terra salvadora, desenhadora do futuro.

Parabéns ao trabalho incansável de Pedro Almeida Vieira, que ressuscitou o romance de Centazzi, o introduziu e lhe fixou o texto.

Romance de leitura absolutamente indispensável a professores de Português, diretores de bibliotecas e estudiosos de literatura portuguesa contemporânea.

O Estudante de Coimbra,
Fixação do texto e notas de Pedro Almeida Vieira,
Posfácio de Maria de Fátima Marinho
Editora Planeta, 317 pp.

“REGRESSAR AOS MERCADOS EM 2013” | José Pacheco Pereira in “Sábado”

mercados

(Escrito em 14 de Janeiro de 2013, publicado a 17. E estava já no discurso para 2013, escrito ainda em 2012:  “Vamos fazer duas ou três emissões com sucesso em 2013, pequenas, a vários prazos, prudentes, e depois os alemães vão colocar-nos a mão por baixo e defender-nos dos mercados, porque com esse sucesso, já podemos ser apoiados pelo BCE. Foi o que nos prometeram, para podermos apresentar a saída da troika como um grande trunfo político.” Há alturas em que não custa nada prever.)
“REGRESSAR AOS MERCADOS EM 2013”
 Vamos admitir que Portugal “regressa aos mercados” em 2013, cumprindo aquilo que já é o único objectivo da política governamental que os seus responsáveis pensam que é realisticamente atingível antes de eleições. O défice, a dívida, a recessão ou um crescimento larvar resultado apenas de que não se pode estar sempre a descer, o desemprego, a crise social em todo o seu esplendor, as falências, o aumento da pobreza, tudo isto parece estar para continuar e durar muito para além do actual ciclo eleitoral. Mas, com o abaixamento dos juros nos mercados, que favorecem Portugal, a Irlanda e mesmo a Grécia, pode ser possível fazer algumas pequenas emissões com sucesso para dar pretexto a que a mão protectora do BCE se estenda sobre Portugal. O que conta é a mão do BCE e não o sucesso das emissões, mas será sempre dito o contrário. É mau? Não é, é bom, mais vale isso do que nada. Mas vale muito menos do que o governo quer dar a entender. É verdadeiramente “voltar aos mercados”? Não é, porque sem o aval do BCE seria impossível. É sustentável? Não é de todo, mas o governo pensa apenas até 2015, porque o “que se lixem as eleições” foi dito em ingsoc e doublespeak, a linguagem orwelliana em que uma coisa significa exactamente o seu contrário