António dos Santos Ramalho Eanes | primeiro Presidente da República democraticamente eleito após o 25 de Abril | por Gaspar Macedo

Caro General Ramalho Eanes, ultimamente o Portugal que serviu enquanto Presidente da República tem-se chocado com o aproveitamento que muitos membros da nossa classe política interpretam. Somos o país que consegue sentir o choque do ridículo mas que normaliza tais comportamento porque, como sabemos, “todos os políticos são iguais”.

Ficamos surpreendidos quando soubemos que em média, entre 2006 e 2013, os nossos governantes gastaram 295 euros por refeição. Ficamos admirados com a notícia de José Conde Rodrigues , ex-secretário de Estado da Justiça, que gastou 13.657 euros dos fundos públicos na compra de 729 livros para beneficio próprio.
Ficamos pasmados com o caso da ex-ministra da Saúde Ana Jorge, ao ter usado um cartão de crédito em nome do Estado (para despesas urgentes de trabalho) em lojas de roupa, ourivesarias ou no El Corte Inglés.
Ficamos boquiabertos com o ex-ministro da economia, Manuel Pinho, que recebeu 1 milhão de euros na sua Offshore depois de beneficiar a EDP em vários contratos de parceria.
Ficamos espantados, mais recentemente, com o ministro-adjunto deste executivo que embora advogado de elite disse desconhecer a lei que o impedia de acumular cargos públicos com outros cargos em empresas privadas.

Enquanto grande parte da nação ajoelha-se boquiaberta e volta a esquecer estes abusos, como se um anulasse o anterior, não consigo esquecer o Presidente da República que num período de grandes dificuldades financeiras, consta que vendeu a sua própria casa de férias para pagar os custos que a presidência não conseguia suportar. Não consigo deixar de relembrar o individuo que tinha apenas dois fatos e que recebia as visitas ao Palácio de Belém com um chá depois da hora de jantar, para evitar custos desnecessários. Esse foi o senhor.

Em julho de 2017 o país ficou a conhecer o caso dos três secretários de Estado que beneficiaram de viagens pagas pela empresa Galp, antes de ser aprovado um benefício fiscal em dezenas de milhões de euros à mesma empresa. José Sócrates defendeu que as críticas se tratavam de “um excesso de patriotismo”, considerando que as suspeitas sobre os governantes eram “estapafúrdias” e António Costa não hesitou em reforçar a “relevante e dedicada colaboração dos três Secretários de Estado nas funções desempenhadas no XXI Governo Constitucional”.

Em abril de 2018 chegou a público os milhares de euros de que vários deputados beneficiaram ao receber em duplicado o valor das viagens que faziam em “nome do interesse nacional”. Carlos César, líder parlamentar do partido socialista e parte desse grupo, logo declarou não se sentir culpado por não ter feito “nada de errado”, sendo que o “atual modelo vigora há décadas e foi utilizado por altos cargos do Estado”. Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da Republica, declarou a inocência dos parlamentares que nas suas palavras não tinham “cometido nenhuma e ilegalidade.

Não esqueço o homem que RECUSOU receber 1 milhão de euros do erário publico, com o acumular de dezenas de anos sem receber a subvenção que tinha direito, após o parecer do Provedor de Justiça em 2008 ter defendido que todos os Presidentes deviam ser tratados de igual forma

Deparamo-nos com um ex-primeiro ministro que fez da acção política o benefício dos seus interesses pessoais, onde até históricos como Arons de Carvalho defendeu não achar “reprovável uma pessoa viver com dinheiro emprestado”
Vivemos na realidade de vários governantes e parlamentares que acumulam os vencimentos com ajudas de custo e subvenções vitalícias, de dezenas de nomes da política que acabaram nas administrações de grandes Bancos e Grupos Económicos, uma Assembleia da Republica onde se misturam os escritórios de advogados e as grandes empresas com as leis que se aprovam e propostas, como a do grupo parlamentar do partido socialista a janeiro deste ano, para tornar o lobby, a representação dos interesses de particulares nos corredores do poder, numa profissão reconhecida pela lei.

Aqueles que fazem da desaprovação o consentimento, esquecem-se que Portugal já teve como líder máximo um individuo que promulgou a lei que o impediria de acumular o salário presidencial com as restantes pensões a que teria direito, abrindo mão da pensão choruda de General. Só serviu os interesses de quem o elegeu e não de quem o tentou financiar.

Por isso, tenho orgulho em afirmar que por muito chocante que possa parecer, António dos Santos Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República democraticamente eleito após o 25 de abril, é o anormal no meio de um panorama político podre que para muitos é a norma controladora.

Sei que o senhor não é perfeito e podemos até ter as nossas divergências ideológicas, mas pelo menos tenho a certeza de que nunca fez parte do grupo que se aproveita do poder para se apoderar dos recursos que pertencem apenas aos portugueses. É para mim uma honra recordar uma Nação inteira que se deprime com os muitos que a serve, de que nem “todos os políticos são iguais” e de que enquanto houver quem no senhor se inspire haverá sempre esperança. Ao contrário do alguns dirão, recordá-lo não é “estar preso ao passado” senão querer um futuro onde o mais simples português não tenha de voltar a justificar a miséria do país com os políticos que são “sempre iguais” e que insistem em “não mudar”.

Por muito mau que o presente possa parecer eu não o esqueço, senhor presidente.

Tenho dito.

Gaspar Macedo

Retirado do Facebook | Mural de Gaspar Macedo

“Gente Séria” | de Hugo Mezena | por António Ganhão no Acrítico

Memórias da infância vividas num mundo rural há muito perdido num tempo em que os miúdos iam à catequese e acreditavam no poder da confissão. O registo mental dos pecados, convenientemente reduzido a escrito a fim de facilitar a confissão e atestar a sua sinceridade facilitando o perdão.

A ruralidade portuguesa revisitada numa primeira obra, o condão de intuir esse mundo estranho e remoto, a começar pelo nome da aldeia, com a sua ponte sobre o riacho e a violência rude que resulta do desconhecimento da civilidade urbana, mas sábia em conhecimento concreto das coisas da terra, da vida e da morte. Uma ruralidade tão dada a crenças. O invocar de um tempo em que as passagens de nível ceifavam vidas. O culto sagrado da morte, momento a que ninguém falta, nenhum familiar, por mais distante, por mais ausente que fosse, todos reunidos para prestar homenagem ao falecido. Era o luxo a que tinha direito. A compensação por ter morrido. Imagem perfeita da hipocrisia familiar.

O homem do campo, trabalhador primitivo da matéria em bruto, deus sem rosto, criador do universo, separando as trevas da luz e a terra da água, abrindo um rego. E o homem fica satisfeito com o seu trabalho. Não se pode atingir maior pureza. E esse homem deu lugar a outro homem, e depois a outro até os problemas com o rego da água começarem disseminando a morte.

A prosa de Hugo Mezena é seca, limpa e direta como refere Yvette Centeno na contracapa, uma narrativa colada à realidade sem perder a capacidade de respirar. Uma atenção sóbria aos pormenores, como as espinhas na boca zangada do senhor Júlio que desaparecem, mastigadas no meio dos insultos. Momentos que a memória distante insiste em reter. Capítulos curtos, pequenos apontamentos, definem o ritmo do romance no qual a vida parece fluir com alguma lentidão e a enumeração dos pecados acentua a banalidade a que estamos presos. Assegurados os recursos de escrita, Hugo Mezena afirma-se como um autor a seguir.

Quando saiu do seminário, o padre Cláudio dava muita importância aos gestos: o de consagrar o pão e o vinho, o de benzer. Eram gestos que se dirigiam à alma das pessoas. Que tinham a capacidade de lá entrar e pôr as coisas em ordem.

António Ganhão, Acrítico

GENTE SÉRIA é hoje (16 abril) livro do dia, na TSF. A escolha é de Carlos Vaz Marques.

https://www.tsf.pt/i/9261959.html

Erudição e sensualidade na poesia de Ana Margarida Chora | por Adelto Gonçalves

                                                          I

O professor Massaud Moisés (1928-2018), em Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Cultrix, 2004), diz que “a poesia corresponderia à expressão do “eu” por intermédio de metáforas, ou vocábulos polivalentes: o “eu” do poeta, matriz do seu comportamento como artista da palavra, volta-se para si próprio, adota não só a categoria “sujeito” que lhe é inerente, mas também a de “objeto; portanto, introverte-se, auto-analisa-se, faz-se espetáculo e espectador ao mesmo tempo, como se perante um espelho” (pag. 360).

Pena que o professor, que foi orientador deste articulista em seu doutoramento em Letras, tenha resolvido subir para o andar de cima, antes de ter tido acesso a este Insónia Lúbrica – resposta a uma noite inacabada (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2017), terceiro livro de poesia da poeta portuguesa Ana Margarida Chora, em que a autora se expressa não apenas através de um “eu” feminino, mas também de um “tu” masculino. De fato, os poemas deste livro ajustam-se à medida ao que o crítico afirma em sua defesa teórica do que significa a poesia, ao observar que o “eu” vai ao encontro de si próprio ao buscar o “não-eu”, projetando-se para fora, fazendo uma “projeção”, inclusive no sentido freudiano.

No caso de Ana Margarida Chora, porém, como bem constatou a autora do prefácio, a professora Natália Maria Lopes Nunes, o sujeito poético constitui “uma figura ancestral que cruza todas as épocas, na busca de um interlocutor distante e, por vezes, ausente”. Diz mais: “(…) através do imaginário do “eu”, reflete-se um “tu”, a dualidade do ser, mulher/homem, feminino/masculino, procurando no amor uma harmonia cósmica que nem sempre é atingida através da fusão e da intimidade, criando, por vezes, uma certa ambiguidade de sentido”.

Continuar a ler

As balas | Fernando Assis Pacheco

São de ferro. Ou de aço?
Diz-se que fazem à entrada
um pequeno orifício,
seguido de uma grande
devastação de carnes
sangrentas. Por isso matam.
Li tudo sobre a morte.
Escrevi sobre a minha
e depois embebedei-me.
A bala vem pelo ar
(ruído onomatopaico) e
crava-se, cava, ceva-se
nessas carnes. Era a minha.
Tive uma bala marcada:
à última hora telefonei
a desistir. ‘da-se!
Pior para o Soares que entra
nestes versos já morto.
São de ferro. A tua era,
ó Soares, ou de aço,
e «agora choro contigo»
ausente uma vila
branca do Alentejo: tu.

Diz-se que fazem assim
um pequeníssimo estúpido
orifício (não quis ver)
como um botão mas
destroem tudo, devastam
tecidos, vísceras nobres,
e então trazem até nós
a morte sanguinolenta.
Se ainda as fabricam
como no meu tempo, creio
que matam num, ah pois,
infinitésimo de segundo.
É brutal. Eu ouvi-as:
perde-se a tesão por um século.

Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular, Assírio & Alvim

AUTO-RETRATO | Maria Teresa Horta

Eu sou outra em mim mesma
e sou aquela
Sou esta
dançando sobre as lágrimas
Sou o gozo
no gosto de ser espelho
e me faz multiplicar em todo o lado
Eu sou múltipla
veneno em minha veia
Estrangeira
rasgando o seu passado
Sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo
Eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato
E se na história desta me confirmo
na vida da outra não me traio
Feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em Maio”
Maria Teresa HortaPoesia Reunida, Lisboa, Publicações Dom Quixote,

Daniel Ribeiro | (Mas, quem disse que um dia houve uma Revolução em Portugal?)

Há uma notícia muito estranha (ou inquietante) no Expresso de hoje. Uma pessoa vai receber 167 mil euros de reforma/mês, além de mais uns milhares/mês com outras benesses. Conheço montes de portugueses, só na minha aldeia, a receberem menos de 300 euros/mês. É um banqueiro da nossa banca arruinada pelos negócios dos banqueiros e financiada, à força, pelos portugueses! INACREDITÁVEL? De facto, há algo de louco (e pouca vergonha) no país do eldorado à beira mar plantado! (Mas, quem disse que um dia houve uma Revolução em Portugal?)

Daniel Ribeiro

Retirado do Facebook | Mural de Daniel Ribeiro

A FLOR | ALMADA NEGREIROS

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase nâo resistiu.
Outras eram tâo delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar estas linhas às pessoas:
Uma flor !

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor.
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros

A lição de Saramago sobre a eutanásia | por Francisco Louçã in Jornal “Expresso”

José Saramago, entrevistado em televisão por Ana Sousa Dias como só ela sabia fazer, contava a história de um velho camponês que, à beira da morte, pediu aos familiares que o ajudassem a antecipar o fim porque não suportava mais o sofrimento irremediável. Ele sabia o que queria e eles, os familiares, ajudaram-no por amizade, explicava Saramago, porque respeitaram a sua decisão, mesmo se a choravam. Acrescenta Saramago: é isso que explica a escolha de Ramon Sampedro, o marinheiro tetraplégico que, em Espanha, lutou pelo direito a terminar a sua vida. As suas “Cartas do Inferno” mostravam como, não se podendo mover, achava que estava condenado a uma sobrevivência degradante e por isso pedia ajuda para morrer. Mais Saramago: “ninguém tem o direito de dizer a uma pessoa, você vai ficar aí, ligado a esses tubos e, por isso, devemos aceitar-lhe a morte se é isso que a pessoa quer”. “Não matamos”, continua, mas respeitamos quem nos diz “por favor ajudem-me”.

Saramago fala de bondade e de um direito que entende irrecusável. Percebo que a sua visão não seja aceite pelo Cardeal, por Cavaco Silva, por Assunção Cristas, por Jerónimo de Sousa, uns porque acreditam que a vida é um dom divino e outro porque pensa que a medicina vai a caminho de garantir a perpetuidade. São consciências e portanto respeitáveis. Ninguém deve questionar os seus motivos. Mas é bastante esta razão íntima que os leva a recusarem o pedido de alguém que não quer prolongar uma vida condenada e em sofrimento? Não deveria ela valer para si mesmos e não ser imposta a outros? Saramago respondia que cada pessoa sabe de si e esse é o princípio único da liberdade. A lição de Saramago é esta: respeita a liberdade das outras pessoas.

Tudo o resto, o ajuste de contas dentro do PSD contra Rui Rio e Balsemão, as homilias inflamadas em igrejas, as manifestações do PNR, a política que promete a vida eterna, isso não vale nada. Nada disso vale hoje, não existirá amanhã. Mas a lição de Saramago ficará sempre.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Quand les Musulmans fondèrent Madrid | Fernando Valdés Fernández

La capitale espagnole a été fondée par les musulmans et portait à l’origine un nom arabe. Plusieurs indices permettent de décrypter le passé islamique de la ville, comme l’architecture où le système d’acheminement de l’eau.

Peu de gens savent que la capitale espagnole est la seule ville de sa catégorie à avoir été fondée par les Arabes. Madrid commença par s’appeler Maˆyrit, en arabe, et ses origines furent pendant longtemps discutées. Jusqu’aux années 1930, nous manquions de précisions sur ses origines. En effet, depuis le XVe siècle au moins, les chroniqueurs castillans et espagnols n’acceptaient pas de bon gré que cette ville doive son existence à des musulmans infidèles. Ils déployèrent toute sorte d’arguments pour démontrer son origine romaine et chrétienne.

Romains vs musulmans

Cependant, ce phénomène de recherche de racines romaines, ou plutôt romano-chrétiennes, n’était pas propre à Madrid. La Renaissance et le goût pour les racines classiques de la culture occidentale affecta les autres villes et provoqua en Espagne une tentative généralisée de trouver des origines classiques à de nombreuses localités. Cette tendance générale s’accompagnait de propos politiques. La riche historiographie locale espagnole, dont une grande partie est due aux clercs, qui possédaient la plus vaste culture, atteste de cela. Et Madrid ne fut pas une exception, surtout à partir du moment où le roi Philippe II (1527- 1598) l’éleva de sa condition de ville de deuxième catégorie, dans le royaume de Castille, pour en faire le centre politique de son vaste domaine qui, à ce moment-là, s’étendait sur cinq continents.

L’acharnement fut vain. L’édition de la Chronique arabe d’Al Himayi, qui recueillait les témoignages d’auteurs andalous antérieurs, démontra que la ville devait sa fondation a l’émir omeyyade de Cordoue, Muhammad Ier Ibn Abd Al Rahman (852-886), et que cela avait eu lieu pendant le troisième tiers du IXe siècle. La date exacte est inconnue. A ce moment et depuis un certain nombre d’années, la dynastie omeyyade d’Occident menait à bien une politique de création de points fortifiés dans des lieux stratégiques, spécialement là où se croisaient des rivières. Dans le cas de Madrid, il s’agit de la rivière Manzanares, qui était à l’époque un peu plus importante que le triste ruisseau d’aujourd’hui.

La suite de l’article dans Zamane N°20

Par Fernando Valdés Fernández

Retirado do Facebook | Mural de Alexandre Noble

“A Chegada das Trevas” | Catherine Nixey in Jornal “Expresso”

O livro “A Chegada das Trevas”, agora publicado, começa com um relato da bárbara destruição de Palmira, em tudo semelhante à que foi feita pelos fundamentalistas do Daesh em 2015. Só que o livro da investigadora e jornalista Catherine Nixey descreve a conquista da cidade síria por guerreiros cristãos há 1700 anos. Essa página negra dos primeiros séculos do cristianismo inclui a queima de livros, perseguição de filósofos e destruição de templos. Um livro polémico em defesa da cultura grega e romana.

ENTREVISTA MANUELA GOUCHA SOARES

É jornalista de profissão mas a sua formação universitária é na área de Clássicas. Há quantos anos começou a reunir material para este livro?

Sou filha de um ex-monge e de uma ex-freira, o que faz com que em certo sentido esteja a preparar-me para escrever este livro desde que nasci. Cresci numa família católica, e a minha mãe ensinou-me que as obras [património] do mundo grego e romano chegaram até nós porque foram preservadas por monges católicos. Quando fui para a Universidade, escolhi a área de Estudos Clássicos; ao ler uma cópia de [um livro] Aristóteles na biblioteca da universidade, comecei a pensar que a mescla entre esses dois mundos não poderia ter sido tão perfeita [e pacífica], como aquela que minha mãe me transmitira. No fundo estou a trabalhar nesta pesquisa desde os tempos da universidade − e tenho 37 anos.

Ficou desapontada com essa descoberta?

Comecei a ler [mais], e descobri que os cristãos tinham destruído obras da filosofia [que chamaram] “pagã”, proibindo assim a leitura de muitas obras e atacando a aprendizagem sobre esse mundo “pagão”, que passou a ser considerado maligno e pecaminoso.

Também aprendi que, longe de proteger o mundo clássico, muitos cristãos desprezaram o ensino clássico. Nos séculos que se seguiram à cristianização, assistiu-se à destruição de cerca de 90% das obras da chamada literatura “pagã”.

Continuar a ler

A ARQUITETURA E A ENGENHARIA SÍSMICA | 7 de junho | Auditório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil | Lisboa

A necessidade de integrar medidas de melhoria da resistência sísmica dos edifícios, nomeadamente nas operações de reabilitação, contextualizadas na prática corrente da Arquitetura e da Engenharia, é uma realidade e uma necessidade reconhecida pelas mais variadas entidades competentes e pelo público em geral, no contexto atual da construção em Portugal.

O presente Seminário que se realizará no dia 7 de junho no LNEC, com a organização conjunta da Ordem dos Arquitetos, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica e Ordem dos Engenheiros, terá um enfoque especial nas questões técnicas em causa, desde a avaliação sísmica do edificado, aos casos práticos de aplicação de medidas de melhoria da resistência sísmica em edifícios novos ou para reabilitar. Procura-se desta forma promover o debate em torno das eventuais dificuldades de implementação no terreno de medidas de melhoria da resistência sísmica.

Reconhece-se ainda como fator fundamental para se atingir com sucesso soluções de referência neste campo, o desenvolvimento de um trabalho colaborativo desde a fase inicial do projeto entre o arquiteto e o engenheiro de estruturas, considerando ainda a articulação com as demais especialidades integrantes da intervenção.

Espera-se desta forma envolver todos os profissionais com interesse nesta temática, bem como os decisores, os gestores e os proprietários, na crescente sensibilização pela integração da sísmica como tema prioritário da atualidade da construção em Portugal.

O Captain! My Captain! | BY WALT WHITMAN

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
                         But O heart! heart! heart!
                            O the bleeding drops of red,
                               Where on the deck my Captain lies,
                                  Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths—for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
                         Here Captain! dear father!
                            This arm beneath your head!
                               It is some dream that on the deck,
                                 You’ve fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
                         Exult O shores, and ring O bells!
                            But I with mournful tread,
                               Walk the deck my Captain lies,
                                  Fallen cold and dead.
WALT WHITMAN | Source: Leaves of Grass (David McKay, 1891)

Federico García Lorca | ESTE É O PRÓLOGO

Deixaria neste livro 
toda a minha alma.
este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.

Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam!

Que tristeza tão funda
é olhar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta!

Ver passar os espectros
de vida que se apagam,
ver o homem desnudo
em Pégaso sem asas,

ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se olham e se abraçam.

Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
– entranháveis distâncias.

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chamas.

Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Nos livros de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristes
e eternas caravanas

que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.

Poesia é amargura,
mel celeste que emana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.

Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.

Livros doces de versos
sãos os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
suas estrofes de prata.

Oh! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam!

Deixaria neste livro
toda a minha alma…

Federico García Lorca | tradução: William Agel de Melo

Nómada | JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

A obra de João Luís Barreto Guimarães, especialmente depois da publicação do seu volume Poesia Reunida, conquistou tanto os leitores como a crítica especializada, universitária ou não. Recentemente, Mediterrâneo foi distinguido com o Prémio de Poesia António Ramos Rosa — e António Lobo Antunes (no semanário Expresso) escolheu João Luís Barreto Guimarães como «o mais importante dos autores portugueses para os próximos dez anos».

«O nome de João Luís Barreto Guimarães é absolutamente central no quadro da evolução da linguagem poética portuguesa, principalmente se pensarmos essa evolução em termos de rutura ou continuidade quanto ao que os últimos 30 anos nos ofereceram.» António Carlos Cortez, JL

«A verdade é que ele só sabe escrever “de dentro da vida” e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.» José Mário Silva, Expresso

CUIDADO, Trump descobriu o poder do dólar | Francisco Louçã in Jornal “Expresso”

Pela primeira vez desde 2001, no primeiro trimestre de 2018 a conta corrente da China está em défice. Em 2007, logo antes da crise financeira internacional, a China tinha um superávite de 10%; durante as últimas duas décadas, os seus produtos industriais baratos ajudaram a proteger o consumo nas economias mais desenvolvidas e impulsionaram o crescimento da economia mundial (e chinesa). Trata-se de uma situação excecional, em grande medida provocada por uma balança negativa de serviços (pelo aumento do turismo chinês), dado que a China continua a exportar mais mercadorias do que importa. Entretanto, a redução da poupança interna indica como a sua vida social se está a modificar. Xi Jinping está a proteger-se das tensões dentro de portas.
Este não é o único sinal de arrefecimento da economia mundial, que aliás só recuperou lentamente e de forma desigual desde a crise de 2007 e que, no caso da Europa, se prolongou durante oito anos. A China pode vir a crescer só 1% este ano, na Europa prevê-se 1,6%, no Japão antecipa-se nova recessão e nos Estados Unidos, de recuperação mais pujante, a projeção é 2,3%. Sempre menos do que se esperava há meses. São nuvens carregadas no horizonte. Só que nenhuma é mais ameaçadora do que Trump.

Armas apontadas para o Irão…

Continuar a ler

Federico García Lorca | Biografia

Biografía de Federico García Lorca

Nació el 5 de junio de 1898, en el Municipio de Fuente Vaqueros, en Granada (España).
Federico García Lorca
Era hijo del hacendado Federico García Rodríguez y de la maestra Vicenta Lorca.
De salud enfermiza y mal estudiante, se graduó luego de sortear varios obstáculos, en la Universidad de Granada, como abogado. Estudió música (piano) pero por influencia de su madre y de Don Fernando de los Ríos, comenzó a inclinarse por la poesía. Su primer artículo, data de 1917, y fue con motivo del aniversario de José Zorrilla.

Su obra muestra la influencia de autores como Benito Pérez Galdós, Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset, Lope de Vega, Juan Ramón Jiménez, Antonio y Manuel Machado, entre otros.

Su padre lo ayudó económicamente para que en 1918 apareciera su primer libro “Impresiones y Paisajes”. En teatro, estrenó en 1920 “El maleficio de la mariposa”. En 1921 “Libro de poemas” (Antología) y en 1923 “La niña que riega la albahaca y el príncipe preguntón” (Comedia de títeres). Publicó “Canciones” en 1927, y al año siguiente surgió la Revista Literaria “Gallo” de la cual solo dos números fueron editados. Aparece ese mismo año el libro “Primer romancero gitano”, donde expresa con grandes metáforas y abundancia de símbolos (La luna, los colores, los caballos, los peces) sentimientos sobre el amor y la muerte en una mítica Andalucía.

En 1929 viajó a Nueva York, donde publicó “Poeta en Nueva York” Un año más tarde se dirigió a La Habana, donde escribió “Así pasen cinco años” y “El público”. Ese mismo año regresó a España donde se estrenaba “La zapatera prodigiosa”, su farsa popular, que enfrenta realidad e imaginación.

Su producción siguió creciendo: “Bodas de sangre”, “Yerma” y “Doña Rosita la soltera” fueron escritas con el gran apoyo moral y financiero de su amigo Fernando de los Ríos, que se desempeñaba como Ministro de Instrucción Pública. Fue nombrado Director del teatro universitario La Barraca, y desde allí realizó una amplia labor de divulgación por toda España.

Viajó a Argentina y Uruguay entre 1933 y 1934, con gran éxito. En 1935, escribió “Llanto por Ignacio Sánchez Mejías”, en la línea del neopopulismo.
Luego, sobrevinieron, en 1936, “Diván del Tamarit” y “Sonetos del amor oscuro”. En “La casa de Bernarda Alba”, afronta el drama de la represión de lamujer y la intolerancia.

Federico García Lorca

En general, su obra, que puede agruparse en farsas, comedias, tragedias y dramas, se inscribe en el dramatismo y el realismo político, inspirado en temas como el amor, la esterilidad, la infancia y la muerte.
Con una gran capacidad de síntesis, armoniza formas, tonalidades y símbolos, como por ejemplo, la luna, que muchas veces representa la muerte, y en otras, la fecundidad, la esterilidad o la belleza. Sus metáforas relacionan elementos opuestos de la realidad y transmiten efectos sensoriales entremezclados.
La tradición está muy presente en su obra, a través de la música y los cantos tradicionales.

Tuvo la influencia del drama modernista, del teatro de Lope de Vega y de Calderón de la Barca.

Falleció fusilado en Granada, víctima del fascismo, durante la Guerra Civil española, a pesar de no haberse afiliado a ninguna fracción política, aproximadamente el 19 de agosto de 1936.

Luego de su muerte, se publicaron “Primeras canciones”, “Amor de Don Perlinplín con Belisa en su jardín” y “Odas y Suites”.

Federico Garcia Lorca declamando seu último poema frente ao pelotão de fuzilamento!

Walt Whitman | por Helena Vasconcelos

Foi poeta, ensaísta e jornalista e nasceu a 31 de Maio de 1819. Controverso, vital, poderoso, Walt Whitman é denominado o “bardo da democracia “, numa América que ele via como a terra da liberdade. da sensualidade e da esperança, tudo o que desejava transmitir nos seus versos que desafiavam a estética tradicional. Serviu como enfermeiro na Guerra Civil americana e escreveu sobre as suas terríveis experiências, sobre os corpos mutilados e feridos (em Drum Traps, 1865). É claro que a sua colecção de poemas mais conhecida é Leaves of Grass, que publicou numa edição de autor. (Alguns dos seus poemas foram liminarmente rejeitados pelo editor da Atlantic Monthly, por exemplo).

Fernando Pessoa amava-o e saudou-o, assim, pela voz de Álvaro de Campos:

SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN

Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze…
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras
observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
(….)

 

Arquitectura | OODA: eles querem promover a marca “Oporto made” in Jornal “Público” (P3)

Trabalham juntos há cinco anos, fazem projectos para todo o mundo e vão abrir escritórios no Dubai e em São Paulo. Francisco, Rodrigo e Diogo são os arquitectos do OODA, finalistas do prémio ArchDaily com uma reabilitação urbana.

Texto de Ana Maria Henriques • 18/02/2015


No início, era um escritório na Baixa do Porto, 100 metros quadrados no meio da confusão dos bares e dos turistas. Foi aí que o P3 conheceu os três jovens arquitectos, há mais de dois anos. Rodrigo Vilas-Boas, 33 anos, Diogo Brito e Francisco Lencastre, ambos com 31, são sócios no OODA — Oporto Office for Design and Architecture. Hoje ocupam um edifício que já foi uma fábrica de massas e restaurante italiano, em Matosinhos, e têm como objectivo, lá fora, “promover a arquitectura ‘Oporto made’, quase como o ‘Swiss made’”. Na calha, está um novo escritório no Dubai e um projecto de grande escala na China.

Continuar a ler

Sombras da infância na poesia de Moura Campos | por Adelto Gonçalves

 I

O poeta e crítico espanhol Carlos Bousoño (1923-2015), em Teoría de la Expresión Poética (Madri, Gredos, 1970), observa que a poesia deve passar ao leitor, por meio de palavras, um conhecimento de índole muito especial, ou seja, um conteúdo psíquico que na vida real se oferece como individual, como um todo particular, síntese intuitiva, única, daquilo que passa pela alma do autor. Isso não significa que a poesia deve ter rimas, ritmo, melopeia ou versos, pois nada disso a caracteriza. Caso contrário, sempre que estivéssemos diante de um texto em verso teríamos poesia, como observa o professor Massaud Moisés (1928-2018) em Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Cultrix, 2005). E não é assim.

Lembra-se isto a propósito do livro do poeta Francisco Moura Campos (1942-2017), Refúgios do Tempo (Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2016), que reúne reminiscências do autor, ou seja, lembranças de sua vida em duas cidades do Interior do Estado de São Paulo (Botucatu e São Carlos) e na capital paulista, que marcam as três partes em que está dividido o volume. O lançamento deste livro ocorreu em novembro de 2016 e, a 14 de outubro de 2017, Moura Campos faleceu, vitimado por leucemia.

Nos 40 poemas que compõem a primeira parte do livro estão presentes reminiscências da infância e adolescência do autor em sua cidade natal, Botucatu, como as ruas, a casa da avó, os bares, as pescarias, os footings aos domingos à noite, especialmente aqueles que se passavam na Rua Amando, os jogos de futebol, em especial os da Ferroviária, o armazém de secos e molhados, uma viagem a São Paulo a fim de ver um São Paulo x Corinthians no estádio do Pacaembu e até uma homenagem ao professor que lhe ensinou a escrever e despertou sua vocação para a literatura.

Continuar a ler

OS APARELHOS DA MORTE REIVINDICAM O SEU CONTROLO SOBRE AS NOSSAS MORTES | por José Gabriel Pereira Bastos in “Facebook”

OS APARELHOS DA MORTE REIVINDICAM O SEU CONTROLO SOBRE AS NOSSAS MORTES

O Aparelho Religioso e o Aparelho Médico têm uma longa tradição de contrôlo e de parasitação do CICLO VITAL, de antes do nascimento a depois da morte. Em vez de nos servirem, a pedido, pretendem decidir orientações gerais que ninguém lhes pediu, assumindo-se como APARELHOS DESPÓTICOS, GERADORES DE LEIS RESTRITIVAS. e ter direitos para permitir ou não permitir as decisões pessoais sobre a morte de cada um, que só a ele cabem

Com a sua velha VOCAÇÃO DESPÓTICA, a que chama “Colectiva” (embora nada exista de colectivo, algo que não passa de um conceito) ou “Comunista”, também o PCP se chega à frente para nos retirar Liberdade e para querer decidir sobre a morte de cada pessoa, reforçando os restantes APARELHOS DESPÓTICOS.

Medicina, Religião e PCP finalmente juntos para nos controlar, usar e tirar Liberdade pessoal, em vez de nos servir, visto que os pagamos para que nos oiçam e nos sirvam, a pedido nosso, e não que nos silenciem ou nos descartem humanamente, retirando-nos o poder de decisão sobre o que nos é mais íntimo – a Vida e a Morte.

Falam com um ar pomposo de ´Ética”, como se eles fossem Iluminados, soubessem pensar e nós não – e apenas produzem Jogos de Palavras, manejando “Princípios”, como se isso existisse no mundo do pensamento.

Não existem Princípios, existem Objectivos Orientadores, entre os quais A MAXIMIZAÇÃO DO BEM-ESTAR decorrente do Respeito pela Diversidade e pela Liberdade de Decisão pessoal, quando ela não afecta terceiros – isto é, a redução do Mal-Estar na Civilização, o mal-estar decorrente da acção dos APARELHOS DESPÓTICOS QUE ALIENAM A SUA FUNÇÃO DE SERVIÇO.

José Gabriel Pereira Bastos

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

OUVIDOS E ESQUECIDOS | Artur Jorge, por José Gabriel in “Facebook”

(aviso: isto parece, mas não é sobre futebol)

Passa hoje o 30º aniversário da vitória do F C Porto na Taça dos Campeões Europeus. As televisões e os meus amigos portistas narram de muitos modos esta efeméride. Reportagens, memórias, festejos, palavras de exaltação clubista e portista. Tudo isto se compreende. Mas, mais uma vez – com excepção das vozes dos jogadores do tempo ouvidos – a figura de Artur Jorge parece esfumar-se. Era interessante percebermos porquê. É que há muito penso que, a dar um exemplo de desportista profissional, escolheria, entre muito poucos, Artur Jorge. Então por que razão este país que tão depressa incensa gente da bola como se fossem exemplos de excelência nacional e vértice da magnificência humana, esquece tal figura? É que os atributos do Artur Jorge estão nos antípodas do perfil que a imprensa e a opinião publicada “desportivas” sacralizam. Quer dizer: as qualidades de um dos maiores jogadores e treinadores da história do desporto português são exactamente o que o desqualifica para ser ídolo nacional-futebolista.

Continuar a ler

Reza da Manhã de Maio | Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.
Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vasco Santos | Editor da Fenda | “O racismo contra os pobres é um dos trunfos do actual regime” (versão integral) | in Jornal “i”

Se passar na Rua Garrett e perguntar aos rapazes que estão ali a pedir moedas… Já o fiz. Uma vez a um que estava perto da Bertrand: “Epá, diga-me lá: porque é que tem aqui três cães?” E ele – que era húngaro – disse-me: “Se não tiver cães não me dão esmola.” É interessante, não é? Portanto, a quem damos a moeda é ao cão. Não damos a moeda ao sem-abrigo, ao mendigo.

——

Toda a gente fala mal do meio literário e editorial. Das costureirinhas, do muito que se corta na casaca. Mas, afinal, quantos podem encher a boca e, com autoridade, dizer o pior desse meio, pois deram a vida e tudo o que tinham pelo amor aos livros? Vasco Santos pode. E hoje está praticamente sozinho

Desta vez, não percamos tempo com preâmbulos nem grandes apresentações. Iríamos roubar espaço a Vasco Santos, editor da Fenda que depois de ter estourado uma fortuna para pôr de pé uma verdadeira quinta-coluna, com um catálogo de exigência fenomenal, teve de pôr fim à actividade pouco antes de esta fazer 40 anos. Regressa agora com a VS o também psicanalista que nos recebeu no consultório, convidando-nos a escolher entre o outro cadeirão ou o divã, enquanto preparava chá, que aceitámos.

Continuar a ler

Simone de Beauvoir | Pensamento

Não mais me deitar no feno perfumado ou deslizar na neve deserta.
Onde eu exatamente me encontro?
O que me surpreende é a impressão de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice.
O tempo é irrealizável.
Provisoriamente o tempo parou para mim.
Provisoriamente.
Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro.
O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.
Portanto, ao meu passado, eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minha necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo.
Hoje, que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.
O que eu sempre quis foi comunicar unicamente da maneira mais direta o sabor da minha vida. Unicamente o sabor da minha vida.
Acredito que eu consegui fazê-lo.
Vivi num mundo de homens, guardando em mim o melhor da minha feminilidade.
Não desejei e nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.

Simone de Beauvoir 

Poema | Carlos Drummond de Andrade

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto – é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para te ver?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

Carlos Drummond de Andrade

TALES DE MILETO (c. 623-546 a.C.) | António Galopim de Carvalho

Que ao ensinar aos alunos o teorema de Tales, se lhes diga quem foi este filósofo que está nos alicerces da nossa forma de pensar.
Diz-se que a filosofia ocidental nasceu na Grécia, entre os séculos VII e VI a. C., quando alguns dos seus habitantes mais letrados esboçaram as primeiras tentativas de explicar o mundo que os rodeava sem recorrerem à mitologia, recurso esse que era a prática comum da época. Só meio século, depois, Pitágoras (circa 570-495 a.C.) deu o nome de FILOSOFIA a essa atitude mental.
Nascido em Mileto, cidade da Jónia, na Ásia Menor (atual Turquia), então colónia grega, Thales terá sido o primeiro pensador a romper com o ponto de vista religioso e, como tal, o primeiro filósofo ocidental. As datas dos seus nascimento e morte são incertas, sabendo-se, porém, com segurança, que ele viveu no período compreendido entre o final do século VII e meados do século VI a.C.

Continuar a ler

Francisco Belard in Facebook | Museu dos Descobrimentos

Mais de cem “historiadores e cientistas sociais”, seguidos por mais de cem “agentes culturais” (que incluem “artistas, curadores/as, historiadores/as da arte e outros/as profissionais do sector cultural e científico”), têm publicado, na imprensa e na internet, documentos colectivos sobre um museu a criar em Lisboa, ideia que parece ter sido suscitada pelo programa eleitoral de Fernando Medina, hoje presidente da CML, que previa um “Museu da Descoberta”. À margem ou na sequência desse projecto autárquico e dos referidos textos colectivos, artigos individuais (de historiadores, museólogos e outros) têm também sido publicados. Não é difícil perceber que, entre as centenas de signatários dos textos, há pessoas de origens e formações muito diferentes. Tal como são diversos os projectos afirmados individualmente. Genericamente, parecem desenhar-se dois propósitos: um Museu da Escravatura praticada pelos portugueses (enquadrando-a nos “Descobrimentos” e na “Expansão” portugueses), e um Museu dos Descobrimentos (portugueses, contemplando a escravatura praticada pelos portugueses). Surgiu ainda a ideia de um museu da “Interculturalidade” (abreviando aqui a designação proposta). Não conheço a génese nem os contornos precisos (ou mesmo imprecisos) do projecto de Fernando Medina, do qual outros têm falado mais do que ele próprio, ainda que em muitos casos para o refutar ou para o encaminhar noutras perspectivas.

Os cidadãos/cidadãs (para usar uma fórmula do tipo frequente em alguns desses textos) estarão já convencidos/as da necessidade de um novo museu na Lisboa ribeirinha? Ou mesmo em Lisboa? Ou em Portugal? E sobre o quê? Questões que remetem para uma outra, a montante: devem os esforços do Estado (central e autárquico) incidir na criação de museus, antes de consolidar os já existentes, alguns em situação difícil?

Na sequência do já dito: havendo hoje um discurso insistente sobre o cosmopolitismo de Lisboa, no caso de mais um museu na Lisboa ribeirinha (de cuja urgência duvido, e cujo programa terá de ser muito bem discutido e definido), deverá ele limitar-se aos descobrimentos portugueses? E à escravatura feita por portugueses? Ah… não tenho lido nada sobre esses “pormenores”. Quem é que está interessado em ocultar o papel dos escravocratas de outras origens? Quem é que ignora o tráfico de escravos antes e depois do praticado por Portugal (e pelo Brasil)? Quem é que desconhece esse fenómeno noutras culturas, reduzindo-o a alguns países da Europa ocidental? E a África, e a Ásia (que são muitas e diversas), e as Américas, incluindo os EUA, onde trabalham alguns signatários dos documentos? O que resumidamente quero dizer, aqui e agora, é que Portugal não deve ser o único “mau da fita”. Em suma, nem a autoglorificação nem a autocrítica que ignorem os outros e o outro.

Francisco Belard 

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Belard 

Museu das Descobertas: Eduardo Lourenço não vê necessidade de “crucificar” passado. in Revista “Sábado”

“Uma parte desses senhores que subscrevem esse documento têm as suas razões (…)mas fomos os mais pacíficos, dos povos do sul da Europa”, considera o pensador.

O ensaísta Eduardo Lourenço afirma não compreender a necessidade de “crucificar” o país por causa do seu passado de colonizador, sublinhando que não houve maldade na génese e que o mal feito já não pode ser reparado.

Eduardo Lourenço comentava, em entrevista à agência Lusa, a polémica relacionada com um possível “Museu das Descobertas”, em Lisboa, que motivou uma carta aberta, publicada em Abril no jornal Expresso, de dezenas de historiadores que se opõem ao conceito por trás da designação, e teve já várias outras — a favor e contra — desde então.

“Não sei por que é que neste momento parece haver uma necessidade de crucificar este velho país em função de uma intenção louvável, mas que ainda não redime aqueles que querem realmente a redenção, aqueles que foram objecto de uma pressão forte como o do nosso domínio enquanto colonizadores, de uma certa época”, afirmou.

Continuar a ler

DO MUSEU PARA AS DESCOBERTAS | UM MUSEU DO IMPÉRIO? | André Gago in “bloginstavel”

A criação de um museu que espelhe aquela que foi a gesta marítima portuguesa, bem como todas as suas consequências, só faz sentido se esse espelho não for mentiroso. Nesse espelho da história, não importa glorificar à moda antiga uma passada e incerta glória nacional. Terá de ser um espelho não em que vejamos uma imagem idealizada nossa, mas através do qual sejamos capazes de ver a verdadeira imagem que imprimimos no mundo. O nosso espelho terá de ser o olhar do outro.

Nesse sentido, a polémica em relação à denominação desse projecto (que em meu entender faz todo o sentido), e que foi expressa na voz de académicos nacionais e estrangeiros, que se pronunciaram contra o seu eventual baptismo enquanto Museu das Descobertas, tem plena razão de ser. A semântica é delicada: não apenas o outro, o putativo “descoberto”, pode com legitimidade não se reconhecer nessa narrativa, como o próprio termo, historicamente datado, não abrange todo o arco temporal das expansões marítimas iniciadas no século XV e que serviram a um projecto imperial que, em rigor, só se conclui no séc. XX, com a descolonização completa das chamadas províncias ultramarinas.

Continuar a ler

Agentes culturais contra a designação e missão do “Museu da Descoberta” da C.M. de Lisboa

Neste momento é injustificável e extemporâneo que se crie o “Museu da Descoberta“ — se não se aproveitar esta oportunidade para refletir sobre o passado colonial português e as suas ramificações no presente; assim como as políticas de memória da cidade de Lisboa.

Nós, artistas, curadores/as, historiadores/as de arte e outros/as profissionais do sector cultural e científico, mas fundamentalmente cidadãos e cidadãs, juntamos as nossas vozes à recente carta pública sobre este tema assinada por mais de cem cientistas sociais.

O atual programa de governo da CML para um tal museu promove os seguintes objetivos: “uma reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspetos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura.” Tais objetivos só serão rigorosos se em diálogo com o crescente movimento de descolonização da memória histórica que tem vindo a ser operado a partir do sector cultural e científico e de movimentos anti-racistas, feministas, LGBTQI. Esta articulação requer compromissos estruturais no que concerne aos objetivos e modelo de gestão deste projeto que devem ser debatidos num fórum de alargada participação. Um projeto museológico inovador tem obrigatoriamente de passar pela construção e/ou pela ativação de redes de conhecimento e solidariedades institucionais, narrativas e contranarrativas em disputa, bem como memórias díspares, individuais e coletivas.
Em repúdio de uma história anacrónica que assuma um ponto de vista unívoco e glorificador, o qual tem vindo a ser contestado em fundamentadas reformulações por múltiplas investigações académicas nacionais e internacionais, apoiamos a urgência da revisão dos termos “descoberta”/“descobrimentos” e outros eufemismos (“primeira globalização”, “viagem”, “diáspora”, “interculturalidade”, “mar”, “lusofonia”) como o primeiro passo para uma discussão mais ampla e plural.

Continuar a ler

A controvérsia sobre um Museu que ainda não existe. Descobertas ou Expansão? (12.04.2018 ) in Jornal “Expresso”

Já vai em mais de cem o número de académicos que são contra a possibilidade de Lisboa vir a ter um “Museu das Descobertas”. Numa carta, que o Expresso publica abaixo, historiadores, especializados na história do império português , e cientistas sociais explicam porque é que um museu dedicado à expansão portuguesa nunca deverá ter esta designação. A ideia de criar na capital uma instituição como esta foi defendida no programa eleitoral de Fernando Medina, eleito presidente da câmara de Lisboa. Os signatários da carta consideram o nome “Museu das Descobertas” um erro de perspectiva. A lista de signatários não tem parado de aumentar desde que a carta foi tornada pública,na última quinta-feira. Aos portugueses juntaram-se desde então investigadores vinculados às universidades de Harvard, Yale, e UCLA, nos Estados Unidos, ao Collège de France, Sorbonne, EHESS, Paris e a EPHE, Paris, às principais universidades brasileiras, São Paulo, Universidade de Campinas, Universidade Federal da Baía, Universidade Federal Fluminense, o University College London, UK, ou a Universidad Complutense de Madrid.

Porque é que um museu dedicado à ‘Expansão’ portuguesa e aos processos que desencadeou não pode nem deve chamar-se ‘Museu das Descobertas’?

A ideia de construir um ‘Museu das Descobertas’ na cidade de Lisboa, incluída no programa eleitoral de Fernando Medina de 2017, não é nova, e tem sido objecto, nas últimas semanas, de algumas reflexões no espaço público. Num momento em que a capital está a viver um surto de turismo e interesse internacional nunca visto, criar um museu sobre este período histórico pode parecer tentador.

Se existem vantagens na criação de um espaço museológico deste tipo, porque é que ele não deve intitular-se ‘Museu das Descobertas’?

Continuar a ler

A vida e obra de Philip Roth por Eduardo Pitta in Revista “Sábado”

“Ao contrário de tantos dos seus pares, Roth nunca se preocupou em escrever para agradar. “A literatura não é um concurso de beleza moral”, disse em 1984 à Paris Review. Portanto, tinha por princípio desenvolver assuntos que inquietassem o senso comum.”

A morte de Philip Roth faz descer o pano sobre uma época prodigiosa da literatura de língua inglesa e, particular, da cultura americana. Os leitores que durante 50 anos fizeram dos seus livros motivo de júbilo, controvérsia ou mero prazer do texto, sabem que agora acabou. Para sermos exactos, tinha acabado em 2010, ano em que Némesis chegou às livrarias.
Para um homem que tanto escreveu sobre doença e morte, chegou a sua vez. Internado num hospital de Manhattan, Roth morreu a noite passada, vítima de insuficiência cardíaca congestiva. A notícia veio pela boca de Judith Thurman, amiga íntima. Conseguiu ser o último e mais prolífico sobrevivente dos escritores que formataram o século XX americano, sendo os outros Saul Bellow e John Updike.

Continuar a ler

O NEORREALISMO DE JÚLIO POMAR (1926-2018) | António Galopim de Carvalho

É percorrer o Facebook ver a quantidade de evocações do Cidadão que ontem nos deixou e tomar consciência do seu admirável legado. Considerado o mais destacado dos cultores do neorrealismo nacional, foi autor de uma vasta e diversificada obra, em termos de estilos ou correntes (expressionismo abstrato, surrealismo e outros), revelou-se na pintura, no desenho, na cerâmica na gravura e na escrita.

Na modesta homenagem que é meu impulso prestar-lhe, limito-me a lembrar algo de muito breve e simples sobre a sua fase dita neorrelista.

Continuar a ler

10 frases de D. António Marto, o próximo cardeal português

“Fátima é um oásis de misericórdia. Refere-se ao amor apaixonado, o amor de entranhas de Deus pela humanidade que aqui nos foi dado a conhecer pelo rosto materno de Maria”. Entrevista à Renascença, 5 dezembro 2015

“Quando acabei o curso, era um racionalista, éramos muito racionalistas. (…) Às vezes olhávamos até com desdém, com desprezo, para as expressões de piedade popular. (…) Depois, um dia, o meu pai deu-me uma lição grande. Disse-me: “Ó meu filho, eu queria-me confessar, tenho um padre em casa, porque é que hei de andar a procurar outro?” (…) Vi a delicadeza de consciência daquele homem. (…) Isso foi como cair as escamas dos olhos.” Entrevista ao Observador, 7 maio 2017

Continuar a ler

“Uma Viagem Sem Fim” 80cm x 100cm | Isabel Nunes

Pintora Isabel Nunes | Biografia

Isabel Maria Encarnação Jorge Nunes
Nasceu a 23 de Agosto de 1957 em Cascais. Licenciada em História, opção História de Arte, pela Universidade Nova de Lisboa, frequenta, entre 1991 e 1993 o Curso de Pintura da Academia de Artes Visuais de Macau, após anos de prática de pintura livre, tendo participado em workshops com os professores Nuno Barreto e Carlos Carreiro. Frequenta a International School of Art, em Montecastello di Vibio, Itália, e a Painting Masterclass na Slade School of Fine Art do University College of London, Reino Unido.

 

Continuar a ler

Antes é que era bom? | Michel Serres

Este é um livro delicioso. Não há ninguém que não se tenha interrogado, uma vez que seja, sobre a relação entre o presente e o passado. Quem é que, num arroubo de nostalgia, não tropeçou já na mais emotiva das declarações: «Ah, antes é que era bom!» Mas era? O passado seria mesmo tão dourado como às vezes o pintamos?

Permitam-me, caros leitores, que vos ponha a falar com Michel Serres. Apresento-o, primeiro: Michel Serres é filósofo e historiador das ciências. E atreve-se: membro da Academia francesa, Serres intervém publicamente arriscando oferecer uma visão do mundo em que a filosofia, as  ciências e a cultura se combinam. Neste seu pequeno livro, repleto de fina ironia, Michel Serres, dos seus 87 anos de idade, afirma com toda a clareza: não, o passado não era bom! O presente é bem melhor.

Cito algumas saborosas passagens do livro:

Continuar a ler

Os cem melhores poemas portugueses dos últimos 100 anos | Organização de José Mário Silva

Nem tudo são más notícias.

A segunda edição da antologia de poesia portuguesa que publiquei no final de 2017 já anda por aí. Foi revista de fio a pavio, atentamente, à caça de gralhas e erros de transcrição, além de se terem resolvido problemas gráficos e de paginação. Um trabalho exaustivo para o qual contei com a ajuda inestimável do Luis Queiros, um dos maiores amantes de poesia que conheço. Além de uma notável crítica ao livro, apontando-lhe desde logo alguns dos seus defeitos, o Luís dedicou horas e horas do seu escasso tempo livre a cotejar dezenas de poemas com as edições originais, identificando até os lapsos mais microscópicos (que, em certos casos, terão escapado aos próprios autores). Sem ele, a quem agradeço muitíssimo, fazendo questão de o afirmar publicamente, teria menos certezas ao dizer agora, e para que conste: a versão definitiva da antologia é esta e só esta.

Alcochete | Ferreira Fernandes in “Diário de Notícias”

Quando as estações televisivas fazem longos diretos com os borra-botas em coluna fascista atravessando a cidade à ida e vinda de um jogo de futebol. Quando se mandam polícias pastorear borra-botas pela cidade. Quando os líderes dos clubes são boquirrotos. Quando as capas de jornais desportivos privilegiam as palavras dos boquirrotos em vez do rasgo corrido de Gelson. Quando colunistas de jornais aceitam mostrar-se indigentes, já que o assunto é, julgam eles, só de camisola e emblema. Quando essa arte e ciência que encanta miúdos e velhos é comentada em prime time por tipos talvez de meia-idade e certamente com um terço de inteligência. Quando, com muito share, insultos recíprocos são trocados por gente paga, cara e cara separadas por um palmo mas nunca havendo um gesto honrado que desagrave os desaforos lançados nos perdigotos. Quando as assembleias gerais presididas por bombeiros incendiários têm mais destaque do que o ato luminoso do Perdigão, do Desportivo de Chaves, a cuidar de uma bola. Quando os talentosos Paulinho, do Braga, e o Rafa, do Portimonense, são menos conhecidos do que o Pedro Guerra e o Francisco J. Marques, cujas conversetas têm o dom de tornar a alma dos adeptos mais pequena. Quando se vandaliza em grupo uma estação de serviço e já nem se noticia porque o autocarro dos gatunos e brutos vai a caminho de um estádio… Então, quando tantos miseráveis quandos se acumulam, arriscamo-nos a ver um admirável, forte e grande Bas Dost ferido e com uma lágrima por nós todos.

Ferreira Fernandes in DN

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/alcochete-9345151.html

Também Nós Amamos a Vida | Mahmoud Darwish

Também nós amamos a vida quando podemos.
Dançamos entre dois mártires e no meio deles
erguemos um minarete de violetas ou uma
palmeira.

Citação | Gonçalo M. Tavares

Adquiri esta regra (ou nasci com ela) – e é talvez uma moral – mover-me apenas em direcção ao que gosto [Gonçalo M. Tavares]

J’ai acquis cette règle (ou je suis né avec) – et c’est peut-être une morale – de ne bouger que vers ce que j’aime [Gonçalo M. Tavares]

I acquired this rule (or I was born with it) – and it is perhaps a morality – to move only towards what I like [Gonçalo M. Tavares]

He adquirido esta regla (o nací con ella) – y es tal vez una moral – moverme sólo hacia lo que me gusta [Gonçalo M. Tavares]

Uma guitara perpetua o verão | Maria Isabel Fidalgo

Longínqua, uma guitarra perpetua o verão
na larga casa da saudade.
Abro as janelas do mar
e no clamor das ondas
o sol de agosto desce calmo
sobre os barcos.
Sou jovem em qualquer lado
onde há o brilho indomável
dos anos, antes destes,
e de outros, longe de ti.
Chegam pescadores do lado
dos búzios e dos limos
com os pés calçados de sargaço
e a tarde é um farol nas nossas mãos.
Cada palavra que dizes
é um rio junto à fonte,
uma claridade a abrir,
a subir a pique sobre o mundo.
Ouso pedir-te
que te escondas comigo
nesta ilusão de juventude
plasmada na minha varanda
aberta sobre o mar;
que não apresses a voz;
que me deixes cerzida num abraço,
e que a tarde caia sobre nós
fulgente de ouro e luz
alheia ao peso do cansaço.

maria isabel fidalgo

Gonçalo M. Tavares na Jornada Nacional da Pastoral da Cultura | Fátima | 2 de Junho de 2018

CAR7799 SÃO PAULO 22/06/2017 ALIAS GONÇALO M. TAVARES Gonçalo M. Tavares , escritor portugues durante palestra realizada na UNIBEs, rua Oscar Freire 2500 . FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

O escritor e professor universitário Gonçalo M. Tavares é um dos participantes na 14.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que a 2 de junho debate, em Fátima, o tema “Desporto – Virtudes e riscos”.

A extraordinária cartografia do humano de Gonçalo M. Tavares, o “Atlas do Corpo e da Imaginação” de 2013 – tributário da formação académica do autor nas Ciências da Motricidade e do Desporto –, assinala um entendimento fulgurante da saudade como «nostalgia de uma possibilidade» que pode valer esteticamente por todo um programa de resgate ético e metafísico.

O encontro, aberto a crentes e não crentes, centra-se no significado antropológico e nas atuais conexões socioculturais do Desporto – poética e ética do corpo e do espírito, poderes e desvios da irradiação social (negócio, corrupção, alienação, etc.).

Na Jornada os conferencistas, que continuarão a ser divulgados nos próximos dias, refletirão também sobre a possibilidade de atualização da perspetiva cristã do ideal humanista de “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são).

O tema foi escolhido na sequência das múltiplas intervenções do papa Francisco e dos seus antecessores sobre o Desporto, área que suscitou a criação de um departamento exclusivo por parte do Conselho Pontifício da Cultura.

Entre as numerosas iniciativas do Vaticano contam-se a primeira conferência global sobre fé e desporto, a organização de competições internacionais no campo do atletismo, futebol de salão e críquete, a participação de delegações da Santa Sé nos Jogos Olímpicos e a criação de equipas desportivas.

Durante a Jornada Nacional da Pastoral da Cultura será concedido o prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes ao ator Ruy de Carvalho.

Gonçalo M. Tavares

Entre prosa e verso, a figura que partilha com o poeta Tolentino Mendonça o topo do cânone literário português do século XXI é Gonçalo M. Tavares (n. 1970), com sua obra a um tempo construtivista e vertiginosa, com seu próprio mapa estrutural “in progress”, num persistente gesto de afirmação autoral: a delimitação de um território textual, a cartografia da sua constituição por programas de géneros e subgéneros e a distribuição de sinais de sua ligação a uma “enciclopédia” pessoal.

Num estilo inconfundível, de aparente normalidade vocabular e sintática a recobrir uma explosiva carga de antinomia semântica, lavra um jogo de ideias com fundo filosófico; e lavra sobretudo a ambiguidade de paradoxos morais a que conduz, com a emergência em humor surreal no quotidiano das grandes intuições suscitadas pelas pequenas coisas (por exemplo, o absinto em “O Senhor Henri”), o entrechoque dessas ideias com a experiência existencial.

Em Gonçalo M. Tavares imperam o paradoxo e a violência lógica nas personagens, no enredo e na imagística das prolíficas criações deste escritor, onde aliás tudo passa por uma espécie de fisiologia cognitiva, imaginativa e volitiva, mediada pelos recursos e ditames do corpo (a força e a compaixão, o desejo e a saciedade, a violência e a ternura, por exemplo).

SNPC 
Imagem: D.R. 
Publicado em 13.05.2018

«CARTA ABERTA PARA SAIR DA CRISE NO SECTOR DO LIVRO E DA LEITURA» | José Antunes Ribeiro, Assírio Bacelar e Daniel Melo in blog “A Vaca Voadora”

1. Diagnóstico da crise que afecta o sector do livro e da leitura

É hoje notório que a Cultura foi desvalorizada pelos últimos governos de Portugal. Investe-se pouco na área cultural e noutras afins, como a Ciência, para as quais o orçamento de Estado é sempre diminuto, não passando do zero vírgula qualquer coisa.
Tratada como um parente pobre, a Cultura tem vindo a ser subestimada como se nenhum valor pudesse trazer ao país, o que é falso. A Cultura tem um papel crucial no desenvolvimento e progresso de qualquer país, merecendo por isso maior investimento da parte do Estado e da sociedade civil, como em tempos já aconteceu e tem lugar na maioria dos nossos parceiros na União Europeia.
Não se trata de defender a tutela paternalista da Cultura pelo Estado. Trata-se, isso sim, de defender que ao Estado cabe um papel relevante na salvaguarda de condições mínimas para a actividade das pequenas e médias empresas independentes do ramo editorial (editoras, livrarias e distribuidoras) que, por serem tratadas do mesmo modo do que as grandes (ou seja, com a mesma carga de fiscalidade, impostos e imposições burocráticas, e rendas elevadas), vêm o seu impacto e o seu futuro sob ameaça permanente, perdendo espaço para os grandes grupos e os grandes centros comerciais onde a relação de proximidade leitor/livreiro se tornou inexistente e a principal preocupação é o lucro.

Continuar a ler

A social-democracia para além da “terceira via” | Pedro Nuno Santos in Jornal “Público”

I

Num momento em que social-democracia está em forte retrocesso político em toda a Europa, o Partido Socialista em Portugal é uma exceção. Sem pretender dar lições a outros partidos da família social-democrata – cada partido opera num contexto nacional com oportunidades e constrangimentos específicos –, precisamos compreender o que nos permite ter hoje níveis de apoio popular elevados.

Como venho defendendo, a decisão tomada em 2015 de procurarmos construir com a esquerda parlamentar uma solução de governo maioritária, alternativa à viabilização de um governo de direita, pode ter salvo o PS do destino de outros partidos europeus da mesma família política.

A solução traduziu-se num programa político que restituiu a esperança de uma vida melhor a muitos portugueses. A configuração inédita da nova maioria enriqueceu a democracia, trazendo para a esfera governativa partidos que representam cerca de um milhão de portugueses. Mas foi o seu programa, que promoveu a recuperação de rendimentos e direitos, o crescimento económico e a criação de emprego, por um lado, e o respeito por quem trabalha ou trabalhou uma vida inteira, por outro, que gerou o nível de apoio de que o PS dispõe atualmente.

Teria sido bem diferente se tivéssemos feito o que alguns, mesmo dentro do PS, consideravam natural: a viabilização de um governo minoritário do PSD/CDS. Nesse caso, estaríamos hoje, certamente, na posição de outros partidos social-democratas europeus e incapacitados de disputar a liderança governativa em Portugal. Sobretudo, nunca teria sido possível construir com o PSD e o CDS o programa de mudança económica e social e de comprometimento com o Estado social público e universal, base de uma comunidade decente, que foi possível – apesar das diferenças com estes partidos – com o apoio do PCP, BE e PEV.

Continuar a ler

Da Síria à Coreia, o mesmo princípio: em Washington a paz é péssima para os negócios! | Carlos Matos Gomes in MOVER A MONTANHA

A intervenção na II Guerra Mundial deu origem a um regime de oligarquia nos Estados Unidos, ou foi fruto dela. Uma oligarquia que o presidente Eisenhower designou como “complexo-militar industrial”, que integra também o complexo financeiro de Wall Street. A partir daí o slogan “o que é bom para a General Motors é bom para a América” passou a ser o que é bom para o complexo militar-industrial é bom para a América e todas as ações gizadas em Washington devem ser analisadas à luz dos interesses da oligarquia que o controla.

A oligarquia americana instituiu-se como ”perturbador mundial” e desde o final da IIGM desenvolveu a sua manobra de domínio planetário através da criação de pontos quentes e situações de conflito permanente em zonas chave. Um pouco a estratégia de domínio de estreitos que Afonso de Albuquerque utilizou para dominar o Índico com forças reduzidas, em que os EUA criam os estreitos para depois induzirem a necessidade de os defender.

São os interesses desta oligarquia que estão em jogo na atual fase de aproximação das duas Coreias e de desestabilização da Síria e do Médio Oriente, em geral.

A estratégia do regime de Washington de aumentar as tensões nos pontos quentes que são a península da Coreia e o Médio Oriente sofreu recentemente dois sérios contratempos, um com o encontro dos presidentes das duas Coreias, o outro com a derrota na Síria dos exércitos islâmicos que os EUA apoiaram.

Na Síria, a desestabilização provocada pelos Estados Unidos trouxe a Rússia para zonas no Médio Oriente e nas margens do Mediterrâneo que a esta lhe interessava ocupar, deixaram desamparados e na expetativa os seus peões na região, Israel e a Arábia Saudita, e fê-los perder a Turquia como aliado incondicional. O tiro saiu pela culatra.

Continuar a ler

O Bem, o Mal e o Ponto Final | Santana-Maia Leonardo in “Rede Regional”

(…) os portugueses não criticam os outros porque discordam dos seus métodos. Pelo contrário, criticam-nos por inveja porque, se tiverem a oportunidade, fazem precisamente o mesmo (ou pior). E não só fazem o mesmo como não concebem sequer que alguém pense ou aja de outra forma. (…) 

Desde 1972 que escrevo ininterruptamente e militantemente em jornais locais, regionais e nacionais, acreditando que é possível contribuir para mudar Portugal através da palavra e do exemplo. Eça de Queirós, Antero de Quental e a Geração de 70, “a primeira em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição”, como a definiu Antero de Quental, sempre foram as minhas referências, desde a adolescência, neste meu militante combate político pela mudança das mentalidades.

Mas bastaria constatar como, cem anos depois, Portugal mantinha os mesmos vícios criticados por Eça, Antero e a Geração de 70 para ter chegado à conclusão da inutilidade da minha luta. Não é impossível corrigir defeitos. Só que o problema português não é uma questão de defeito, mas de feitio.

Fernando Pessoa, no último poema da Mensagem, retrata Portugal de forma esclarecedora: “Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / (…) Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro…/” E, noventa anos depois, quando olhamos para Portugal, o nevoeiro não só não há meio de levantar como se adensa cada vez mais…

Continuar a ler

Régis Debray, le monde expliqué à mon fils | in France Culture

Régis Debray, philosophe et écrivain, inventeur de la médiologie, revient avec nous sur les mutations de notre histoire politique qu’il a observées ces 50 dernières années à l’occasion de la sortie de son “Bilan de faillite” (Gallimard, mai 2018).

Il y a une bascule qui s’est faite de l’intellectuel vers l’émotif, du projet vers l’optique, de la réflexion aux images. L’heure est aux publicitaires, aux spin doctors, aux photographes et aux cinéastes, plus aux écrivains ou aux philosophes.” Régis Debray

La faillite dont il fait le bilan est à la fois collective et personnelle. Après un demi-siècle de combats révolutionnaires pour changer le monde, que reste-t-il de sa génération et ses espoirs? Croire en qui et en quoi? Croire encore?

Appelons-le « figure de la vie intellectuelle française », un pedigree dont il se moque avec humour…  Dans cette lettre à son fils, celle d’un homme de 76 ans à un garçon de 16 ans, il dit renoncer « à toute ambition d’influence». «Entre le tout-économie et le tout-image, les gens de mon espèce ne peuvent plus faire, avec leurs gribouillis, que des ronds de fumée.»

Dans Civilisation, Comment nous sommes devenus américains, (Gallimard, 2017) qui reparaît ce mois-ci en Folio,  il avait décrit le « changement de civilisation » qu’a connu la France sous l’influence de l’hégémonie culturelle américaine. Dans Le nouveau Pouvoir (Cerf, Septembre 2017) il montrait comment l’apparent changement politique que constitue l’arrivée au pouvoir de Macron marque une profonde mutation culturelle inscrivant la France, pourtant catholique et républicaine, dans l’avènement planétaire de la civilisation issue du néo-protestantisme. Des réflexions qui ont aussi produit une série d’émission l’été dernier sur France Culture devenue livre avec les éditions Autrement : «France-Amérique : un échange de bons procédés» est paru en février dernier.

La disparition de l’avenir est une chose notable. Il n’y a plus de parti idéologiquement structuré avec une vision de l’avenir, avec une vision de ce qui est à accomplir. Nous vivons dans le marketing de l’instant, dans le ‘présentisme’ du chiffre. »

Régis Debray, in France Culture

Lao Zi, in Tao Te Ching

Só temos consciência do belo, quando conhecemos o feio.
Só temos consciência do bom, quando conhecemos o mau.

Porquanto, o Ser e o Existir, se engendram mutuamente.
O fácil e o difícil se complementam. o grande e o pequeno são complementares.
O alto e o baixo formam um todo.

O som e o silêncio formam a harmonia.
O passado e o futuro geram o tempo.
Eis porque o sábio age pelo não agir, e ensina sem falar.
Aceita tudo que lhe acontece, produz tudo e não fica com nada.
O sábio tudo realiza e nada considera seu.
Tudo faz – e não se apega à sua obra.

Não se prende aos frutos da sua atividade
Termina a sua obra
E está sempre no princípio
E por isto a sua obra prospera.

Lao Zi, in Tao Te Ching

Carlos Vale Ferraz | Nó Cego

“A Porto Editora publica a 17 de maio uma nova edição do livro Nó Cego, primeiro romance de Carlos Vale Ferraz e livro de culto de uma geração que esteve envolvida na guerra colonial e que, a partir dela, entrou em rutura com o regime português da ditadura.

Nó Cego é hoje reconhecido como um livro essencial para compreender esse período crucial da nossa História que foram os anos da guerra colonial e o fim do regime de ditadura, bem como para conhecer os dramas, as angústias, as alegrias e as tristezas da geração que fez a guerra e que a terminou, abrindo Portugal à modernidade.

A nova edição deste romance serve de pretexto à conversa que Carlos Vale Ferraz, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo terão na sessão de lançamento que se realiza a 19 de junho, pelas 18:30, na livraria Ferin, em Lisboa.”

DA GRATIDÃO | André Gago

A 2 de Maio de 1945, as tropas soviéticas tomam Berlim e hasteiam a bandeira soviética no Reichstag Alemão. A guerra custou aos russos 27 milhões de vidas. Nos primeiros minutos do dia 9 de Maio (hora de Moscovo, na última hora do dia 8 em Berlim), o alto comando alemão assina a rendição. O acto decorreu na Administração Militar Soviética em Berlin-Karlshorst.

Representantes:
União Soviética: Marechal Georgy Zhukov;
Reino Unido: Marechal Chefe da Força Aérea Arthur Tedder;
Estados Unidos: General Carl Spaatz, como testemunha;
França: General Jean de Lattre de Tassigny, como testemunha;
Alemanha: Marechal de Campo Wilhelm Keitel; General Almirante Hans-Georg von Friedeburg; Coronel-General Hans-Jürgen Stumpff.

Retirado do Facebook | Mural de André Gago

Quem manda na sombra | Mariana Mortágua in “Jornal de Notícias”

É uma pedra no sapato do Banco de Portugal. A empresa de investimentos BlackRock faz parte de um consórcio da mais alta finança mundial que ameaça boicotar o país por conta da transferência de 2000 milhões de euros de dívida que vinha do antigo BES e que passou do Novo Banco para o “banco mau”. Mas, como relata o jornalista Paulo Pena em dois artigos recentes no “Público”, esta não é a única ligação do BlackRock ao banco de Ricardo Salgado e à economia portuguesa.

A BlackRock comprou quase 5% do BES apenas seis meses antes da sua resolução. Essas ações foram depois misteriosamente vendidas quando já não tinham qualquer valor. Porquê e a quem? Ninguém sabe, nem mesmo o Governo da altura ou os supervisores.

Para além do BES, a BlackRock é ainda acionista de 14 outras empresas, da EDP ao BCP, passando pela Jerónimo Martins, detendo quase 2000 milhões de euros de ações de empresas cotadas em Portugal.

Continuar a ler

DiEM25

No DiEM25, a nossa visão não é só soundbites e slogans – inclui propostas políticas concretas e credíveis. A nossa plataforma política mostra que existe uma alternativa antisistema. Mostra também que estamos aptos a levar a Europa para um mundo melhor.

É por isto que vamos redobrar os esforços para expandir a nossa Agenda Progressista para a Europa – e pedimos por isso as vossas contribuições.

Como podes ver pelo nosso novo site, estamos no caminho certo para concluir todos os documentos dos pilares até ao Outono deste ano.
Em Abril, lançamos oficialmente o nosso  Pilar do Trabalho – coordenado pelo Jacques Terrenoire – que vai entregar o nosso primeiro Green Paper até ao final de Junho.

É uma semana preenchida!

Os outros pilares também estão a avançar. Estamos a avançar com o paper da Constituição Europeia e com o trabalho sobre Tecnologia e a Internet das Pessoas. Vamos manter-te a par de todos os desenvolvimentos, por isso mantenham-se atentos.

Nos próximos meses vamos agrupar as nossas políticas num programa político para a nossa lista transnacional – a Primavera Europeia. Juntamente com os nossos parceiros estamos a construir uma plataforma para encaminhar a ala eleitoral do DiEM25 para as eleições parlamentares de Maio de 2019. Em Junho teremos um rascunho que enviaremos para todos membros para poder ser consultado.

Apesar de estarmos muito contentes com o nosso progresso na nossa plataforma, não podemos cumprir o nosso trabalho sem as vossas ideias, contribuições e comentários. Portanto por favor entrem na discussão  dos processos de desenvolvimento político e façam parte da Agenda Progressiva que vai tornar a Europa muito melhor!

Carpe DiEM!

Paola Pietrandrea e David Adler da Coordenação do Conteúdo Político

>> Queres fazer mais?

Junta-te ao grupo local do DiEM25 mais próximo e põe mãos à obra! 

>> Podes ajudar nas atividade e expansão do DiEM25’s?

Faz um donativo hoje!

Estamos a caminho da autodestruição | Mohamed El Baradei in “Notícias ao Minuto”

O diplomata egípcio Mohamed El Baradei, ex-diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), alertou hoje para o facto de, com o tipo de armamento que existe, mais tarde ou mais cedo, o mundo vai “autodestruir-se”.

Mais tarde ou mais cedo, intencionalmente, por engano ou acidentalmente, vamos autodestruirmo-nos”, afirmou à agência Lusa, em Cascais, arredores de Lisboa, o Prémio Nobel da Paz de 2005, em conjunto com a AIEA, e antigo vice-presidente do Egito (2013), que participa nos trabalhos da Horasis Global Meeting.

À Lusa, El Baradei saudou o acordo entre as duas Coreias e criticou implicitamente as declarações do primeiro-ministro israelita, Benjamim Netanyahu, sobre o Irão — disse ter provas de que Teerão nunca abandonou o programa nuclear -, salientando que, se há novas informações, devem ser partilhadas, antes de anunciadas publicamente, com a entidade fiscalizadora, precisamente a AIEA.

Continuar a ler

LIVROS | OS NOVOS | por Isabel Rio Novo | Mário Cláudio

Uma literatura é tanto mais rica, parece-me, quanto houver homens e mulheres de todas as idades e gerações a escreverem e a publicarem. Fico contente com os novos livros de novos autores, ou de autores novos (sobre os quais costumam recair as perguntas que me fazem durante as entrevistas), mas confesso que também fico contente por escritores que já nada têm a provar, como Mário CláudioJoão de Melo, Luísa Costa Gomes, António Lobo Antunes ou Mário de Carvalho, continuarem a manter um ritmo de publicação assinalável e a oferecer-nos livros extraordinários. No caso de Mário Cláudio e João de Melo (não conheço tão bem os outros), temos, além do mais, dois escritores generosos, que se interessam por acompanhar e encorajar a literatura que os mais novos produzem.
Aceitem, pois, a minha mais recente sugestão de leitura. O livro mais novo de um grande escritor.

Isabel Rio Novo

Retirado do Facebook | Mural de Isabel Rio Novo

José Gabriel Pereira Bastos | HOJE É DIA DA MÃE, um dia que é todos os dias.

Eis o que eu escrevi, até agora, sobre as Mães, no meu Livro em construção, A POLÍTICA DOS CORPOS.

Aceito sugestões sobre como ir mais longe. Posso apagar asserções, modificar asserções ou intercalar novas asserções. Estou ainda no início, com cerca de 200 asserções, da Idade da Pedra à actualidade.

“””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””
ENTRE OS CORPOS E O MUNDO

1. As Mães e as Mentes situam-se entre o Desejo Cego dos Corpos e o Mundo.

2. Os Corpos buscam na Acção o Prazer e a Satisfação, aprendem a Dependência e a Manipulação, e buscam no Sono e nas drogas tanto a Imortalidade como o Eterno Descanso, culturalmente garantido.

3. Os corpos, nas fases iniciais e terminais, dependem das Mães. A passagem do desprazer ao prazer, a Satisfação, a Felicidade, o Sono e a Imortalidade dos Corpos dependem real e imaginariamente das Mães.

4. Os corpos buscam a expansão vital e a imortalidade, a saudade das Mães busca, como um Sonho, a Proteção e o Cuidado, o Retorno Uterino e o Eterno Descanso.

A GUERRA DOS CORPOS COM O MUNDO

5. A Guerra dos Corpos com o Mundo depende da Organização do Mundo.

6. A diversidade dos Corpos fundamenta a forma básica de Transformação, Diversificação e Organização do Mundo.

6 (a) – A Mãe é um corpo diversificado, um corpo mediador no cruzamento da confrontação dos sexos, das gerações e da confrontação interétnica.

6 (b) – O Corpo das Mães pede Paz, Segurança, Fecundidade e Amor. A Guerra Eternizada não vem do Corpo das Mães mas dos que invejam a Fecundidade Materna e se especializam na produção da devastação e da Morte.

6 (c) – Uns Filhos aderem à Filosofia Familialista do Corpo das Mães, outros não, constroem-se contra o Corpo das Mães e contra as Famílias Reprodutivas e chamam a isso Globalização.

7. A Guerra dos Corpos com o Mundo começa numa Guerra dos Corpos com os Corpos, uma Guerra dos Sexos, Intergeracional e Interétnica.

9. A gratidão amorosa, a idealização pacifista fundada na amamentação lúdica inicial, e as artes atenuam a Guerra dos Corpos com os Corpos, criando os Jogos que sublimam a Guerra dos Corpos.

O TRABALHO DA MENTE

10. A Guerra dos Corpos com o Mundo é mediada pela Mente.

11. A Mente codifica a Mãe e o Mundo em termos de Prazer, Desprazer e Dependência (Freud 1895).

12. A Mente estilhaça a Mãe em Fada Boa (objecto de prazer), Bruxa má (objecto de desprazer) e Objecto Auxiliar (Freud 1895).

13. A Fome leva o bébé a manifestar o mal-estar mental, através da descarga da tensão associada à insatisfação e à frustração primária.

14. A primeira aprendizagem associa a satisfação da fome à aparição do Seio, um acontecimento mágico.

15. A Mente aprende a obter a cooperação da Mãe e a manipular a Mãe para a forçar a desempenhar o papel de Objecto auxiliar, na satisfação da Fome, na redução do Desprazer e na passagem ao Prazer. (Freud 1895)

180. A Mente vai aprender a usar a Figura Fálica para criar uma Triangulação com a Mãe e dar um primeiro passo para distanciar-se da Mãe.

181. Distanciar-se da Mãe e das Origens é uma condição essencial para construir Futuros.

182, A Mente vai aprender a distanciar-se da Mãe tornando-se Mãe ou tornando desconhecidas em Mães dos seus Filhos.

183. Os Filhos representam a Mãe, o futuro da Mãe e a Mãe no Futuro.

184. O processo de distanciação das Mães e da projeção das Mães no futuro, sob a forma de tornar-se Mãe ou de dar Filhos a Mães, é um processo inconsciente.

185. As Mães eternizam-se através dos Filhos e dos Filhos dos Filhos.

186. O Mundo é uma enorme Matrioska.

“””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””
Como pensei nas Mães, escrevi mais uma dezena de asserções.

José Gabriel Pereira Bastos | 06-05/2018

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

Depois de amanhã | Álvaro de Campos

 

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã… 
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, 
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

Álvaro de Campos

Almada Negreiros | Retrato de Fernando Pessoa