Os Intelectuais de Direita Estão a Sair do Armárioé o título de uma reportagem de Paulo Moura publicada na revista 2, do PÚBLICO, no passado domingo. Tal título veicula a suposição de que o pensamento de direita foi reprimido ou levado a um regime de auto-limitação, tendo finalmente chegado o momento da sua libertação e afirmação pública. Pensar assim é um equívoco. A direita apresentada na reportagem não coincide com a direita dura, tradicional, que se sucedeu sob várias formas ao longo do século XX (essa nem precisou de se esconder no armário porque morreu de morte natural). Trata-se de uma nova direita, que emergiu publicamente em Portugal apenas um pouco mais tarde do que noutros sítios, como acontece geralmente com muitas outras coisas, mas sem ter de transpor quaisquer obstáculos. A sua emergência dá-se sobre as ruínas da esquerda, quando todo o Ocidente virou à direita e se tornou óbvio que a maior parte dos objetivos da esquerda não se conseguiram impor e muitas das suas laboriosas conquistas recuam a grande velocidade, como mostrou um dos primeiros analisadores desta Neodestra, o italiano Raffaele Simone, num livro que teve um enorme eco, mesmo fora de Itália: Il mostro mite. Perché l’Occidente non va a sinistra (“O monstro brando. Porque é que o Ocidente não segue para a esquerda”). A tese de Raffaele Simone — retomando, aliás, ideias que vêm de longe — é a de que o mundo é naturalmente de direita e, por isso, esta, para existir, só precisa de preservar uma posição “naturalista”, enquanto a esquerda é um artifício, uma construção abstracta. As esperanças que ela anuncia representam um resultado contra natura, por isso têm de ser objeto de laboriosa construção política e teórica, projectando-se num horizonte utópico. A esquerda está sempre do lado do devir, da criação de um direito; a direita naturalista preserva direitos constituídos e responde a determinações realistas. Esta nova direita é, pura e simplesmente, um realismo. Por isso é que não precisa de grandes elaborações teóricas e a sua afirmação, como mostra muito bem a reportagem de Paulo Moura e os depoimentos que recolhe (nomeadamente, os de António Araújo), faz-se privilegiadamente nos media. Esse é o seu ambiente “natural”: o da comunicação, o do divertimento, o da burguesia como classe universal. Ela não precisa de construir um pensamento, só precisa de seguir uma cultura difusa e dispersa, de não interromper o entretenimento, de alimentar o conformismo dos media, de seguir com eficácia a estratégia da sedução, de aproveitar a onda de desculturalização da política que a esquerda superlight decidiu surfar. Em suma, esta nova direita é a subjectividade desse “monstro brando” (como lhe chama Simone), tal como a soberania era, para Hobbes, a alma do Leviathan. Esta nova direita confunde-se de tal modo com um realismo que um dos seus representantes com grande destaque na reportagem de Paulo Moura é alguém como Henrique Raposo. Ele é mais do que realista, é hiperrealista; é mais do que naturalista, é a ausência de qualquer pensamento para não impedir o naturalismo; não precisa de ter um discurso, basta-lhe exibir um estilo, uma caricatura. Hoje, a questão verdadeiramente pertinente não é verificar, com algum equívoco, que os intelectuais de direita saíram do armário; é perceber que muito dos intelectuais que se afirmam de esquerda e falam em nome dela se converteram a essa cultura difusa da nova direita e aceitaram preencher as quotas de mediatização que esta lhe concede, aceitando um papel protocolar de “representação”. Também eles glorificam o novo realismo.
António Guerreiro in Jornal Público: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-nova-direita-1659581
Em 1985 publiquei um livro sobre o risco de guerra nuclear limitada na Europa (Europa: o Risco do Futuro). A decisão de o escrever foi tomada na Alemanha, no verão de 1983. Assisti a um país determinado a defender a paz. Lembro–me de Oskar Lafontaine, presidente do governo SPD do Sarre, propor que Bona saísse da NATO para quebrar o que ficou conhecido como a “crise dos euromísseis”. Todos os especialistas que consultei me confessavam, em privado, ser inevitável, mais tarde ou mais cedo, uma guerra central com armas nucleares. O argumento era simples: a história ensina-nos que todos os impérios caem de espada na mão. Duas semanas depois da saída do livro, Gorbachev assumiu o comando da URSS. Então, aconteceu um milagre: Gorbachev preferiu salvar a paz, mesmo arriscando sacrificar o império soviético. Não só a Alemanha se reunificou, como a Rússia deixou, pacificamente, partir os seus aliados e fragmentar a sua federação. Gorbachev esteve em Berlim, para comemorar os 25 anos da queda do Muro. Mas ninguém o escutou quando este acusou o Ocidente de ter traído a Rússia, cercando-a com a NATO. A UE, ao patrocinar a insurreição de rua contra o governo legítimo de Ianukovich, violou uma regra básica das relações internacionais: não se humilha um potencial inimigo, se não o queremos enfrentar. As vozes ensandecidas no Ocidente que querem combater Moscovo, até ao último soldado ucraniano, não percebem que é a atual fragilidade da Rússia que faz aumentar a probabilidade de uma escalada bélica poder conduzir, no limite, a uma guerra nuclear na Europa. Na verdade, a mesma liderança medíocre que vai arruinar a zona euro, talvez acabe por deixar mergulhar a Europa num mar de ferro e fogo. O milagre soviético não terá uma segunda edição russa.
Miguel Real afirma que Portugal é governado por uma classe política “relativamente medíocre”, numa União Europeia que se transformou “numa empresa de negócios” dominada por burocratas que esqueceram o sonho. Acredita que o futuro da Europa está na sua singularidade: a classe média, cujo “esteio” e “grande baluarte” do futuro é a Alemanha.
Aos 61 anos, o filósofo, ensaísta e romancista Miguel Real lança mais um romance. Agora, em vez de ficcionar sobre a actualidade ou sobre a história, constrói uma utopia ficcional em que projecta o futuro: O Último Europeu, Edições D. Quixote.
Olhando para o que poderá ser o mundo em 2284, Miguel Real questiona e reflecte sobre o presente, as opções, as tendências, as divergências, as diferenças, os conflitos, as contradições. É um retrato duro das sociedades modernas e dos riscos que elas comportam, em especial a Europa, sobre cujo presente este pensador tem um olhar crítico.
A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o mau começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos!
Quem ainda está vivo não diga: nunca!
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí algo que o retenha, liberte-se!
E nunca será: ainda hoje.
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
«A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista. A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará
os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!
Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente.
Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica. Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão.
Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores? As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir.»
As ùltimas noticias que mostram uma acção de politica externa, determinada e consistente, dos novos dirigentes gregos, indiciam também que elas começam a dar frutos e parecem influenciar as relações de força na UE.
É necessário afirmar que essa politica externa, aparece como o instrumento fundamental da defesa dos interesses do Povo grego , e no caso do programa do governo de coligação.
Temos assim na Grécia uma geração de governantes, jovens mas mostrando uma invejável maturidade . Académicos de bases sólidas , demostram um inesperado patriotismo e um enorme sentido de solidariedade social.
Podemos então dizer que , neste inusitado caso, a prática democrática tradicional ( eleição de lideres por eleições tradicionais) coincide com a ascenção ao poder de gente de mérito.
É possivel pois atingir a Meritocracia através da prática da Democracia.
O contraste que esta situação mostra com a incompetência imaturidade e submissão sem regras ao estrangeiro da actual classe dirigente portuguesa é deprimente.
Os governantes actuais, a maior parte jovens impreparados e até imaturos, com cursos académicos de baixo valor tirados em escolas de reputação duvidosa, com carreiras partidárias e para partidárias fulltime, sem sentido patriotico e com maneirismos estranjeirados no pior sentido do termo , refugiam-se em justificações de natureza meramente ideológica para minimizarem a derrota da sua destruidora acção politica.
Esperar-se-ia , ao menos, que os dirigentes socialistas, particularmente ACosta, um veterano politico, tivessem uma atitude inteligente face ao que está a ocorrer.
A frase ” o PS não é o Syriza ” revela tanta imaturidade, como a anedótica observação do imaturo Passos Coelho ao referir-se ao programa de governo dum estado soberano com um enorme peso Histórico como é a Grécia.
A crise financeira que começou em 2008 nos Estados Unidos com o subprime e que o sistema financeiro americano fez alastrar como um cancro para as dívidas soberanas da Europa, atacou principalmente aquilo que se designa por classe média e, em particular, as mais vulneráveis, as do sul da Europa, dos países que menos parcelas de produtos transaccionáveis de alto valor acrescentado colocavam (e colocam) no mercado global, os menos industrializados. Era pois natural que fosse esta “classe média” desprotegida e frágil a pagar as favas.
Classe média é um conceito pouco rigoroso, mas contém a ambiguidade que acabou por ser o fermento da revolta que teve a sua expressão nas eleições da Grécia e na vitória do Syriza. Classe média inclui os que têm rendimentos que lhe permitem aceder a um “certo” estatuto, ou que ganharam hábitos de consumo que os fazem julgar que pertencem a essa classe, ou que se sentem com direito a viver como se pertencessem. É um conceito diferente de ser rico, ou pobre, porque para a classe média não existe grande distinção entre o ter e o parecer. A crise destruiu essa ilusão. Quem deixou de ter, deixou de poder parecer que tinha. Passou da classe média à pobreza indisfarçável.
A propósito de civilizações e barbárie, nunca é demais recordar um passado europeu não tão remoto quanto isso. É que houve um tempo em que se morria no decorrer de espectáculos públicos, muito festivos e altamente concorridos, sob a acusação de cultuar outro deus. Ou de ironizar a seu respeito, pois a sátira levava gente à fogueira. Aqui. Em espaço europeu. Na Península Ibérica. Em Portugal. Quase que se pode dizer que foi anteontem. Ou ontem. Afinal, dois séculos, um século e meio, são pouca coisa na história dos povos com muita história escrita.
Recorde-se.
De 1480 a 1834 (Espanha) 1534 a 1821 (Portugal) funcionou uma instituição tida por modelar, responsável pela morte ritualizada de milhares e milhares de pessoas, pelo desaparecimento de muitas outras e pela conversão forçada ou expulsão dos reinos ibéricos de povos em massa. Mouros judeus ou gentios, estes sobretudo nos territórios ultramarinos, ou praticantes de outras fés, como os protestantes. Chamava-se Inquisição e com o tempo veio a tornar-se num verdadeiro Estado dentro do Estado, na asserção de que cumpriria desígnios divinos, utilizando todas as armas ao seu alcance para maior glória de Deus. Desde a oratória, à tortura nos cárceres ao público auto-de-fé. Mas sobre os procedimentos, todos os intervenientes eram compelidos a jurar segredo, dos réus aos executantes, passando por médicos, carpinteiros, parteiras, e todos os que tinham acesso aos cárceres, aos presos, aos processos. Quebrar tal segredo, pronunciado sobre os Evangelhos equivalia a cair sob a alçada do Santo Oficio.
O funcionamento da máquina era minuciosamente concebido. Exemplo: a primeira sessão, de genealogia, não elucida em nada o réu, posto que este não sabe de que é acusado, nem por quem. Pede-se-lhe que esquadrinhe a consciência e encontre as razões que o levaram aquela situação. É-lhe feito saber que o tribunal tem contra si provas eloquentes. Segue-se o total isolamento – o réu não fala com ninguém nem ninguém lhe dirige a palavra. E este indizível tormento moral e psicológico em breve dá lugar a outros procedimentos. A tortura física, que quebra corpos e consciências, e que nos cárceres do Santo Ofício complementa, com frequência, as sessões de interrogatório.
Mariana Mortágua |
7:00 Sexta feira, 17 de outubro de 2014
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A anatomia do estrondoso declínio da PT é, também, a reconstituição de uma das mais longas e perniciosas mentiras que condicionaram o debate público em Portugal. A ideia que um pequeno país, sem liquidez e músculo financeiro, conseguiria manter os centros estratégicos sem o papel do Estado. Foi isso que nos “venderam” desde a primeira vaga das privatizações. O Estado é ineficaz a gerir empresas e, como tal, devia afastar-se da economia como o diabo foge da cruz.
O que importava, diziam-nos, era que os centros estratégicos ficassem em mãos portuguesas. Foi assim que o Estado vendeu por tuta e meia sectores inteiros da economia nacional, apenas para os vermos escassas semanas depois a serem transacionados a capitais estrangeiros com avultadíssimos lucros. O Totta e Açores, vendido a Champalimaud que logo se encarregou de o despachar para um dos maiores bancos do país vizinho, é apenas o exemplo mais falado, mas está longe de esgotar a lista.
As “golden share”, ou ações preferenciais que mantinham o poder de veto e de influência do Estado nas opções estratégicas das empresas, foram o passo seguinte. Mas até isso era demasiado, veio dizer-nos Pedro Passos Coelho e o seu liberalismo de pacotilha. O resultado está à vista.
Bombardeiro B-52 equipado com armas atômicas. Para Boaventura, “várias agências de segurança [norte-americanas] fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear”
Washington provoca Moscou em três frentes, atiça possível conflito nuclear e ignora opinião da sociedade norte-americana. Em nome da “democracia”?
Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da UE. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 a Resolução 758, que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação da Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.
Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela e Irã). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.
O segundo componente é controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em Fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland, “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagámos para isso”. O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitima a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo midiático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em Fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?
Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando uma discrepância semelhante ou maior separa os cidadãos dos seus governos e da Comissão da UE, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?
No próximo dia 3 de dezembro, quarta-feira, pelas 18:30, realiza-se na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto, a sessão de lançamento do livro Rui Rio – de corpo inteiro, da autoria de Mário Jorge Carvalho. Com a presença de Rui Rio, a apresentação do livro ficará a cargo de Daniel Bessa.
Prefaciado por Nuno Morais Sarmento e com posfácio de Fernando Neves de Almeida, Rui Rio – de corpo inteiro apresenta o retrato do homem e as ideias do político através de inúmeras conversas que Mário Jorge Carvalho manteve com Rui Rio ao longo do ano de 2014 e de testemunhos de quase meia centena de pessoas (desde amigos, colegas e apoiantes a críticos e opositores políticos), procurando o autor responder às muitas perguntas que se colocam sobre Rui Rio e as suas ideias.
O conflito sino-soviético, iniciado nos anos 60 do século passado, está ao rubro em Portugal. O partido comunista da China, com a ajuda de Passos Coelho e Paulo Portas, está a invadir o nosso país. Em rigor, nacionaliza o que o governo português quer privatizar. E ainda compra os latifúndios no Alentejo para os membros mais qualificados do partido passarem férias. Os russos, incomodados, respondem. Enviam a aviação e a marinha para a nossa costa. O nosso ministro da defesa não tem mãos a medir. Envia F-16 contra os Tupolev que nos sobrevoam diariamente e corvetas da marinha contra os navios russos. Todos os dias há notícias deste conflito sino-soviético em terras lusas. Como é natural, o nosso governo está ao lado do partido comunista da China contra a ameaça russa. Os russos já não têm no poder o partido comunista, mas são russos. E agora, isto é diferente. Aguiar-Branco disse, na Lituânia, onde os nossos aviões F-16 controlam o espaço aéreo daquele país contra os russos, que isso de aviões e navios russos comemos nós ao pequeno almoço.
Privatizar ou estatizar? Mais estado ou mais mercado? Protecionismo ou abertura? Os pontos e contrapontos do discurso econômico desta eleição nos deram um toque de nostalgia. De um lado, parecíamos estar no ambiente do final da Segunda Guerra, no qual os economias da Fiesp, Roberto Simonsen à frente, defendiam proteção à indústria nascente e investimento público. De outro, parecíamos estar no final dos anos 1980, com o Consenso de Washington e suas propostas liberalizantes.
O debate moderno sobre política industrial passou longe dos programas de governo, mesmo de Marina Silva. Iniciado com o paperIndustrial policy for the 21st century, a conversa não está mais no nível do Privatizar x Estatizar. Ela opera em uma contraposição entre reformas pro-business e pro-market (Peço desculpas pelas palavras em inglês, algumas delas tem o sentido fortemente alterado em português). Enquanto as reformas pro-business consistiriam em investimentos estatais para desenvolvimento de empresas e empreendedores, as reformaspro-market seriam aquelas que afetam a economia como um todo.
1. Os portugueses trabalham pouco. Os alemães trabalham muito. Mentira. A jornada de trabalho em Portugal é uma das maiores da Europa desenvolvida. Comparados com os alemães, os portugueses trabalham mais 324 horas todos os anos, mas levam para casa menos 7484 euros.
2. Os portugueses andaram a viver da mama da Europa, paga pelos alemães. Mentira. Com a entrada na UE, Portugal ganhou apenas 0,4% do PIB (fim da lista). Já a Alemanha encabeça o ranking com um aumento de 2,3%.
3. Os portugueses têm demasiados feriados. Mentira. Em Portugal há 10 feridos (antes havia 14). A Finlândia tem 15, a Espanha 14, a Eslováquia 13, a Áustria 12, enquanto a Suécia, a Itália, a França e a Dinamarca têm 11. Na Alemanha há entre 10 a 13 feriados, conforme os estados (länders).
4.Há demasiados portugueses que são funcionários públicos. Mentira. Temos, 575 mil e têm vindo a diminuir. Em 2008 (quando eram mais do que agora), eram 12,1% da população ativa. A média dos 32 países da OCDE é de 15%. A Dinamarca e a Noruega têm cerca 30%. O peso dos vencimentos dos funcionários públicos, em Portugal, em relação ao PIB, é inferior à média da UE e da zona euro: 10,5% em Portugal, 10,6% na zona euro, 10,8% na UE, mais de 18% em países como a Dinamarca ou a Noruega.
(…) trouxe-me à memória o que um amigo, normalmente navegando na área do PSD, me costuma enunciar como um dos mais graves problemas do “Ocidente”: diz ele, “o Ocidente viciou-se em viver na mentira”.
O que esta semana se escreveu e disse sobre o Orçamento do Estado (OE), analisado por especialistas ou explicado pela ministra das Finanças e pelo primeiro-ministro, trouxe-me à memória o que um amigo, normalmente navegando na área do PSD, me costuma enunciar como um dos mais graves problemas do “Ocidente”: diz ele, “o Ocidente viciou-se em viver na mentira”. E explica: não é capaz de respeitar novas realidades do Mundo, nomeadamente geoestratégicas; mente ao afirmar a possibilidade de universalização do estilo de vida que propagandeia como modelo; intervém unilateralmente e na base de pressupostos feitos de mentira e agredindo brutalmente milhões de pessoas. Também o Governo PSD/CDS se foi apurando como viciado compulsivo da dissimulação, da manipulação e da mentira.
«Que reste-t-il de nos amours?» É a indagação nostálgica de uma bela canção de Charles Trenet, dos tempos da grande música europeia. É, também, de algum modo, o fio interrogativo de um livro em que se questiona a forma como foi possível passar de uma construção europeia destinada a assegurar a solidariedade e a prosperidade de um continente devastado – criando estruturas jurídicas de organização social e económica que se impuseram ao Mundo –, para um continente cada vez mais irrelevante, cujos valores fundadores se desvaneceram quase por completo.
Como se passou de um projecto comum, em que todas as vozes e vontades se juntavam, a um (des)agregado de países, alguns unidos por pouco mais do que uma moeda comum, em que os interesses nacionais a tudo se sobrepõem, e os conflitos e ódios florescem? Onde errámos? Nos termos da própria criação do Mercado Comum? No Tratado de Maastricht e nas suas revisões? Nos poderes não controlados, outorgados a um grupo de políticos com legitimação frágil e a uma massa anónima de eurocratas insensíveis? Ou teremos errado ao criar o ambiente que levou à passagem de uma Alemanha Europeia a uma Europa Alemã?
Num livro pontuado pela decepção, mas em que persiste a ilusão do grande sonho europeu, há ainda espaço para a apresentação de um programa geral de acção para a Europa: democratizar, desenvolver e “desgermanizar”. Existirá uma Europa capaz de responder a este programa?
An Indian army camp on the “world’s highest battlefield,” the Siachen Glacier. Long the site of brutal battles between India and Pakistan, the glacier is now melting as the result of climate change. (Annirudha Mookerjee/Getty Images)
It is not pleasant to contemplate the thoughts that must be passing through the mind of the Owl of Minerva as the dusk falls and she undertakes the task of interpreting the era of human civilization, which may now be approaching its inglorious end.
… como no Inferno quando se entra pela porta maldita e se deixa a dita esperança à entrada. Agosto é um bom mês para percebermos tudo. Milhares e milhares de jovens que não lêem um livro, passam o mês em festivais no meio do lixo, do pó, da cerveja e dos charros. Milhares e milhares de adultos vão meter o corpo na água e na areia, sem verdadeira alegria nem descanso. Outros muitos milhares de jovens e adultos nem isto podem fazer porque não tem dinheiro. No interior, já que não há correios, nem centros médicos, nem tribunais, proliferam as capitais, da chanfana, do caracol, do marisco, do bacalhau, dos enchidos, da açorda, as “feiras medievais” de chave na mão, as feiras de tudo e mais alguma coisa desde que não sejam muito sofisticadas. Não é uma Feira da Ciência, nem Silicon Valley.
As televisões, RTP, SIC e TVI “descentralizam-se” e fazem arraiais com umas estrelas pimba aos saltos no palco, mais umas “bailarinas”, nem sequer para um grande público. Incêndios este ano há pouco, pelo que não há imagens fortes, ficamos pelo balde de água. Crimes violentos “aterrorizam” umas aldeias de nomes entre o ridículo e o muito antigo, que os jornalistas que apresentam telejornais com tudo isto gostam de repetir mil vezes. Felizmente que já começa outra vez a haver futebol, cada vez mais cedo. O governo, com excepção das finanças e dos cortes contra os do costume, não governa, mas isso é o habitual.
A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social. No tempo de Salazar falava-se do embrutecimento dos três f: futebol, Fátima e fado. Se houvesse Internet acrescentar-se-ia o Facebook como o quarto f. Agora não se pode falar disso porque parece elitismo. Áreas decisivas do nosso quotidiano hoje não são sujeitas à crítica, porque se convencionou que em democracia não se critica o “povo”.
Agosto é um grande revelador e um balde de água fria em cima da cabeça para aparecer na televisão ou no You Tube. Participar num rebanho, mesmo que por uma boa causa, podia pelo menos despertar alguma coisa. Nem isso, passará a moda e esquecer-se-á a doença. Pode ser que para o ano a moda seja meter a cabeça numa fossa séptica, a favor da cura do Ebola.
Assim não vamos a lado nenhum. Como muito bem sabem os que não querem que vamos a qualquer lado.
Quando oiço dizer que vivemos, em Portugal e nesta complicada Europa que nos cabe, «pior que no tempo do fascismo», ocorrem-me três argumentos contra uma afirmação tão imperfeita e perigosa. Em primeiro lugar, ninguém que tenha vivido ou conheça de forma cabal o tempo e a experiência dos fascismos que envenenaram o século passado, fazendo dos Estados aparelhos de coação e não de garantia dos direitos fundamentais, é incapaz de proferir em consciência uma afirmação dessa natureza. Em segundo lugar, estabelecer uma comparação que incide de forma particularmente negativa sobre o presente é prova de um claro desconhecimento da História, pois nenhum dos conflitos e formas de opressão pelos quais passamos hoje, sobretudo no mundo industrializado e nas suas contíguas periferias, se compara, em escala e na brutalidade, com aqueles que cruzaram as décadas em que os fascismos se impuseram. Em terceiro lugar, quem o diz vive provavelmente no terreno nebuloso de um wishful thinking feito de enormes simplificações, com recurso às quais pensa agudizar contradições e desta forma prover as «condições objetivas» para impor mudanças julgadas redentoras, necessariamente ilusórias. No fundo, quem de tudo isto beneficia são de facto os novos fascismos, agora mais insidiosos e apurados nos seus métodos, que pelo efeito de banalização que uma tal afirmação provoca vão podendo desbravar caminho. Desta maneira, em vez de se baterem pela defesa dos direitos alcançados em décadas de lutas pela democracia e pelo bem-estar, muitos cidadãos desenvolvem uma consciência política feita essencialmente de ressentimento, que acaba por isolá-los, desmobilizando-os de facto e colocando-os à mercê dos algozes. À noite, nas suas casas, adormecem narcotizados, tentando esquecer um mundo que os atemoriza e não compreendem.
Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta não é mansa e gera o mal que se faz sofrer a partir do mal que se sofreu. E há sempre as vítimas sem razão.
Mas há um momento em que a violência brutal, que nos chega como quotidiana, já está para além da capacidade de a suportar.
Quando era miúdo não conseguia ver filmes que se diziam para a minha idade porque havia um nó na garganta, de dor, que me sufocava e as lágrimas contidas a tal ponto que os olhos pareciam implodir. Era uma forma, ouvia dizer, de, por esse meio, nos educarem a sensibilidade, gerando na nossa afectividade em formação, os bons sentimentos. E havia o cão que, morrendo, deixava o menino sozinho e o rapaz que, porque órfão, nunca seria menino. E a vida era um Natal gélido e faminto vivido do lado de cá da vidraça.
E depois era a mágoa dos amores quando ainda eram apenas ternuras inconsequentes, o medo dos adultos e da sua violência castigadora, os remorsos pelo tanto que se poderia ter feito ou por outra forma. E o pecado. E o dia em que as coisas de que gostávamos e as pessoas que amávamos começavam a morrer.
Hoje já não há muito disso que aleijou a alma. Torná-mo-nos adultos. Atentos ao mundo, há, porém, o que nos chega pelas notícias: a selvajaria das guerras entre povos e o mesmo povo, a cruel violência no seio da própria família. E, na dança macabra dos fins de festa, há a estupidez acéfala dos embriagados pela futilidade, a indiferença que nasce pela banalização do horror. Que não magoa menos.
Confesso que sinto de novo a surgir essa até agora longínqua incapacidade de suportar.
Quando, porque nascido em Malanje, me chegaram, tinha eu doze anos, os primeiros sinais da violência feroz que se tornou em guerra, vinda da revolta indígena na Baixa de Cassanje, mais a violência feroz da retaliação e a ferocidade angustiante do medo, quando, tudo tornado pavor e insónia, a ingenuidade infantil quebrou estilhaçada em cacos, senti que se me franqueara do mundo o horrível e o feio. E tentei encontrar então uma razão que ao menos me desse a paz de uma explicação.
Hoje, como insecto estonteado ante a luz, dói-me só de ouvir e dói também constatar que evito saber. Não nasce aí o regresso à inocência, sim o enfrentar o espelho acusador da má consciência.
É que foi este, afinal, o mundo que criámos e deixámos que surgisse.
Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta é connosco mesmo por causa daquilo em que nos tornámos.
O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos.
O espírito popular desapareceu”, escreveu Pasolini num dos seus textos de crítica e resistência ao presente. Quarenta anos depois, esta proposição tornou-se um axioma, mas de onde se ausentou o sentido que tinha para Pasolini: o de uma catástrofe. Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco. O povo construído pela televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. E os seus criminosos construtores têm nomes publicamente conhecidos e sucesso alargado: são as Júlias, as Luísas, os Joões, os Manueis e os seus directores de programas, produtores, chefes, empresários, até ao topo da hierarquia. Há o “povo” que vem aos estúdios dos programas da televisão (quase sempre um “povo” suburbano que já conhece bem os códigos da televisão e sabe imitá-los); e há o povo que a televisão visita no seuhabitat natural, geralmente os recantos profundos do país onde se vai em busca de arquétipos. Um e outro são descaradas mentiras, falsas construções que deformam até à degradação. Qualquer que seja o sentido da palavra, tenha ela um sentido sociológico e político ou aponte na direcção utópica da criação artística para a qual há sempre “um povo que falta”, existe mais “povo” em qualquer filme de Pedro Costa (um povo que vem, isto é, venturo, como o nome de Ventura) do que em todos os programas de televisão. O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos. Quantas vezes não assistimos já às câmaras a fazerem um zoom sobre as mãos encarquilhadas, ou qualquer outra parte do corpo, do indivíduo do “povo” que se queixa de uma qualquer decisão — ou da ausência dela — dos governantes? Nesse momento, a pessoa é espoliada do seu estatuto político e ganha uma espécie de qualidade étnica. Já alguém deu por a televisão fazer um grande plano das mãos de um ministro? Já alguém viu, na televisão, as mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a não ser como instrumentos de gesticulação expressivo-didáctica? O povo da televisão não é representado como sujeito minoritário do populus, do corpo de todos os cidadãos. É visto, antes, como espécie castiça de um parque natural que fica longe, muito longe, da Comporta. Deste modo, este povo que a televisão reconstrói e deforma à medida das suas exigências tem alguns pontos de coincidência com o povo do populismo. Mas há uma diferença fundamental: o populismo dirige-se à classe geralmente excluída da política e que, por isso, não tem privilégios de sujeito político constitutivo, reclamando que essa classe é o único poder legítimo, é uma parte do populus, do povo como categoria política, detentor da soberania, que deve funcionar como a totalidade da comunidade. A televisão, pelo contrário, quer tudo muito bem arrumado nos seus lugares e que não se quebre a harmonia estabelecida no parque natural do povo.
Vítor Gaspar sentiu-se atingido por Lobo Xavier e Pacheco Pereira terem reconhecido, com honestidade, que a verdadeira razão que levou Portugal a ter de pedir ajuda externa foi o assalto ao poder lançado pela direita com a rejeição do PEC IV, que tinha recebido o apoio do BCE e dos nossos parceiros europeus.
A resposta de Gaspar insiste na falsificação da história.
Para a esquerda ser alternativa, é indispensável vontades políticas alcançarem uma convergência e imprescindível constituírem-se veículo de um programa político.
A recomposição da esquerda portuguesa está na ordem do dia. Uma esquerda antiausteritária que se queira consequente não pode satisfazer-se com o papel de protesto. Por bem que cumpra esta função, se ao protesto não se seguir nenhuma mudança, se dele nada se esperar além da catarse da rua, então é justo concluir que o protesto serve sobretudo de válvula de escape ao descontentamento social, com benefício exclusivo, na ressaca do dia, para a própria política de austeridade, cuja continuidade se vê assim mais bem assegurada.
Também não basta a desmontagem argumentativa da austeridade, dos três ângulos, social, político e económico, por que tem sido feita: a) Fazer a demonstração, do ponto de vista social, de como a austeridade naturaliza a desigualdade, impinge a precariedade como normalidade social e instala no quotidiano das pessoas o medo da incerteza sobre o futuro próximo, recusando-lhes a capacidade de projectarem as suas vidas. b) Deixar claro, do ponto de vista político, como a dívida se substitui de facto ao soberano e como a precariedade restitui ao poder político atributos de um absolutismo que não conceberíamos há alguns anos atrás. c) Fazer evidência de como, do ponto de vista económico, a austeridade não resulta, em nada diminui a dívida soberana, antes transforma-a em dívida eterna, que nos subjugará social, política e economicamente por décadas.
Tornar consequentes estas vocações de protesto e de desmontagem argumentativa, exige à esquerda antiausteritária que encontre uma terceira vocação: mostrar-se alternativa credível de poder face à austeridade que nos governa. Sem esta vocação, a esquerda portuguesa, por empenhada e brilhante que seja, nulifica todos os seus esforços. E para a esquerda antiausteritária ser alternativa, é tão indispensável vontades políticas alcançarem uma convergência real como é imprescindível constituírem-se veículo de um programa político. Em poucas palavras: uma alternativa política para uma política alternativa.
Se a recomposição da esquerda for mais do que um espectro e servir para fechar este triângulo – protesto, argumentação, alternativa – far-se-á um pouco de história, pois desde que há democracia em Portugal nunca a esquerda à esquerda do PS teve ambições de governar. Mas, outra governação valerá a pena se, além disso, consumar a oportunidade histórica para uma recomposição da própria ideia de esquerda. Não deve preocupar à esquerda apenas as suas dificuldades em convergir, mas também de se renovar ideologicamente a sua capacidade propositiva. Não é certamente esse o caso de uma esquerda refugiada no patriotismo em extremidade peninsular ou, ainda, na nostalgia do regresso ao passado do escudo. Propor é fundamentalmente projectar, com linhas de futuro como horizonte. E pelo menos dois eixos merecem futuro:
1. Quando nos citam pela enésima vez a espirituosa frase de Churchill sobre a que considerou ser a pior forma de governo à excepção de todas as outras, fica bem explicado por que a democracia liberal é inaceitavelmente tímida, com eleitores postos à margem sempre que não há eleições, a democracia europeia resumida a um clube de chefes de governo, a democracia nacional a um clube de partidos, a democracia partidária a um clube de dirigentes. É preciso a esquerda reivindicar-se mais radicalmente democrata e bater-se pela inclusão plena das comunidades no processo político.
2. Hoje não restam dúvidas que a social-democracia, assente no Estado social e na função redistributiva das transferências sociais está a falhar maciçamente. As desigualdades aumentam por toda a parte, a concentração de riqueza também, mau grado as transferências sociais tradicionais. Pior ainda: mau grado o empobrecimento da sociedade. É preciso a esquerda propor-se a mais do que remediar, a jusante do ciclo económico, a desigualdade. Assumindo que as sociedades mais iguais fazem melhor, é preciso complementar as políticas redistributivas, radicalizando-as com políticas de pré-distribuição, que façam da igualdade força geradora de prosperidade económica.
O caso GES-BES tem suscitado uma pergunta simples: como foi possível que gravíssimas práticas fraudulentas tivessem escapado durante anos à vigilância das autoridades de regulação, incluindo à vigilância da troika sobre o setor bancário? A resposta é tão dura quanto simples: nos últimos 30 anos muitos governos (de direita e de esquerda) foram responsáveis pela criação dos alçapões e das opacidades que transformaram o sistema financeiro europeu (e mundial) num campo minado onde aventureiros põem em perigo a segurança de milhões de pessoas. Em 1933, em plena Grande Depressão, o Congresso dos EUA produziu uma lei (Glass-Steagall Act) que restaurou a confiança no sistema financeiro: separou e protegeu os bancos comerciais, face aos bancos de investimento. Por outras palavras: os bancos que recebiam as poupanças dos depositantes e que emprestavam às empresas na economia real não podiam fazer operações especulativas com produtos financeiros. Durante décadas essa higiénica distância permitiu prosperidade económica, a par de visibilidade e eficácia no trabalho dos reguladores. Contudo, o lóbi financista, embalado pelo mantra do neoliberalismo, não descansou enquanto não meteu no bolso os governos e os parlamentos necessários para misturar tudo de novo. Em 1999, o Congresso americano revogou a lei de 1933, regressando à promiscuidade especulativa. Por todo o lado, incluindo a UE, as leis “liberalizaram-se”, no sentido de criar obscuridade, onde antes havia transparência. Criaram-se condições para mascarar a exposição da poupança das famílias, no labirinto arriscado das ações, das obrigações e de uma miríade de derivados toxicamente imaginativos. Os políticos que se queixam dos banqueiros deveriam ter vergonha. O caos habita nas leis que eles próprios assinaram. Seria interessante saber como e porquê…
No início do século passado havia um homem chamado Ivar Kreuger, sueco de nacionalidade, que se especializou inicialmente em produzir fósforos.
Na raiz da sua fortuna havia uma inovação: os fósforos de segurança vermelhos, que conhecemos hoje, superiores aos anteriores de fósforo amarelo que podiam acender-se sozinhos acidentalmente. A procura e utilização de fósforos era naqueles tempos praticamente fixa, o que tornava aquele mercado muito apetecível como monopólio.
A outra parte da história é que, após a I Guerra Mundial, havia países para reconstruir e alguns que eram independentes pela primeira vez. Ivar Kreuger viu aí uma oportunidade. Era fácil para ele fazer um empréstimo soberano à Polónia, por exemplo, em troca do monopólio dos fósforos naquele país. E depois era fácil usar esse monopólio para subir o preço dos fósforos, uma vez que toda a gente precisava deles e não havia como substituí-los de maneira prática. Kreuger seria reembolsado duas vezes: pelos estados e pelos consumidores.
Para onde quer que nos voltemos, os sinais de que Portugal é hoje um país à deriva são manifestos.
Com a saída da troika tornou-se ainda mais evidente que o Governo não tinha qualquer agenda que não fosse fazer a dobragem para português, por vezes com erros dolosos de tradução, das exigências dos nossos credores. Confundindo os efeitos com as causas, a austeridade falhou. Depois de três anos de destruição da economia, do emprego, dos direitos sociais, depois de a própria troika, através do FMI e da Comissão Europeia, ter admitido erros de conceção no memorando (algo que o Governo nunca fez com seriedade e de forma escrita), o País mergulha em cheio num novo turbilhão, que destrói ainda mais a confiança no sistema financeiro.
As causas da doença prevalecem sempre sobre os seus sintomas. Se o Governo emudece, deixando-se humilhar (e ao País) no processo da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, ou sacudindo os ombros perante o que parecem ser graves erros de gestão na TAP, do lado da oposição, o debate interno no PS desnuda um abismo entre o excesso de pompa retórica e a escassez de ideias alternativas operacionais. Ser oposição de esquerda não dispensa, antes exige o esforço de pensar. É verdade que ainda não temos petardos a rebentar nas ruas, como na I República, mas há algo de profundamente violento no modo como o improviso, a ausência de conhecimento e reflexão, ou a pura sanha destruidora (veja-se a “política de ciência”, desenhada com bazuca), tomaram conta dos destinos do País. Estamos no deserto, sem bússola. As nações também podem morrer de sede. Quando lhes falta a promessa líquida do futuro.
Os estudos que li nos anos 90 sobre a reputação de Portugal no mundo – sobretudo na Europa e mundo anglo-saxónico, o mundo dos mercados – indicavam que o país era simpático, tradicional e hospitaleiro; características potenciadoras de estima mas não de respeito.
Nos estudos que mais tarde fiz na BBDO, em 2004/5, explorando a reputação de Portugal em dimensões geradoras de respeito, as conclusões foram mais ou menos as esperadas: Portugal continuava a ser um país patusco e estimado mas nada de suficientemente relevante e gerador de respeito por cá se fazia ou produzia. Nas dimensões que alimentam sentimentos de respeito por marcas, instituições ou nações, como a inovação, a competência, a produtividade, a riqueza, o poder, a influência, Portugal não aparecia considerado.
Com estas crises, apesar de termos mais notoriedade no mundo (até Obama disse que os Estados Unidos não eram Portugal), temos vindo a acentuar as mesmas características. Não vislumbro, no horizonte da minha vida, nada que possa voltar a fazer Portugal crescer nesse eixo. Até porque a nossa principal contribuição para o mundo, à parte de jogadores de futebol, é irrelevância.
O que aconteceu foi que os valores instrumentais foram, a pouco e pouco, substituindo na hierarquia os valores fundamentais. O êxito passou a ser a recompensa, o credo do mercado passou a substituir o credo dos valores, com a filosofia de que a iniciativa privada em liberdade é responsável pelo progresso e pela abundância, quando uma coisa não é incompatível com a outra. A crise que vivemos, que é ocidental e geral, mostra que o credo do mercado passou a ter uma vida independente do credo dos valores, e essa é a correcção que deve ser feita.
O líder histórico do CDS acredita que Portugal tem duas saídas: uma é a CPLP, a outra é o mar e a plataforma continental estendida
Histórico do CDS, faz 92 anos em Setembro e mantém a genica e as ideias como se a idade não pesasse. Adriano Moreira, estadista, ex-deputado e antigo ministro do Ultramar, recebeu o i no seu gabinete na Academia das Ciências de Lisboa, no dia em que a Guiné Equatorial entrou para a CPLP. Um erro, na sua opinião. Uma conversa que deu a volta ao mundo.
Uma saída progressista para a crise que estamos a viver requer um apertado controlo dos capitais de curto prazo, como há pouco fez a Islândia e, quando a zona euro tiver sido desmantelada, a criação de um arranjo cooperativo do tipo “moeda comum”, com taxas de câmbio flexíveis e domesticação da banca, como defendia Keynes na conferência de Bretton Woods.
Em 25 de novembro de 2011 o Centro de Estudos Sociais (CES) da universidade de Coimbra organizou um colóquio sobre João Martins Pereira (JMP), um dos mais argutos pensadores políticos da esquerda portuguesa. Participei nesse colóquio com um texto sobre as esquerdas, intitulado “A esquerda e o poder”, que me parece ainda servir para dizer o que penso sobre a crise do BE, que é, para mim, um sintoma da crise da esquerda europeia, mais do que um caso de habitual guerrilha de fações dentro de um grupúsculo, ou de vaidades pessoais, como alguns o apresentam.
A grande questão no centro da crise do BE é, para mim, o seu posicionamento relativamente ao poder. Dizia JMP na nota inicial de um artigo que citei, na Revista Critica de Ciências Sociais de Maio de 1985: “entendo que um projeto político tem de comportar uma concepção de organização da sociedade, a expressão mais ou menos coerente de uma ideologia de classe, ou de grupo de interesses sociais homogéneo e uma intenção/projeto de luta pela conquista e pelo exercício do poder, a fim de dar corpo à organização social proposta.”
Tal como a João Martins Pereira, o poder, a sua conquista e o seu exercício parece-me ser o centro da acção politica.Há quem pense assim no BE e o afirme e quem não pense e não o diga, refugiando-se num discurso maximalista de poder total e de classe – ditadura do proletariado, ou perto disso, ou de açãocentrada na denúncia e de protesto. Estas duas visões deixaram de ser compatíveis dentro do BE.
Numa entrevista à Agência Bloomberg, o presidente do Instituto alemão IFO considera que o alívio da dívida é essencial para retomar o crescimento económico.
Dá como exemplo a crise financeira asiática de 1997, que foi resolvida com recurso a perdão de parte da dívida.
O prestigiado economista diz que o alívio parcial é um assunto que deve ser discutido e negociado em conjunto com os vários países, numa altura em que o peso da dívida está em níveis quase insuportáveis.
Voici donc la paix signée. Il reste à la faire exécuter par l’ennemi, car tel que nous le connaissons, il ne fera rien, il ne cédera rien, il ne paiera rien, qu’on ne le contraigne à faire, à céder, à payer, et non pas seulement au moyen de la force, mais bien par la dernière brutalité. C’est le seul procédé à employer à son égard. Ses engagements sont une fumée, sa signature une mauvaise plaisanterie. Heureusement nous tenons, et il nous faut absolument garder, la rive gauche du Rhin. Les motifs d’y demeurer ne manqueront certes pas, car je ne crois pas une seconde à des paiements sérieux d’indemnités de la part de l’Allemagne. Non pas certes qu’elle ne puisse payer, mais parce qu’elle ne le veut pas. Nous allons donc nous heurter de suite à toute cette science de chicanes gémissantes, de délais prolongés, d’entêtements sournois, qui est la plus claire aptitude de cette race. Nous avons éprouvé cette science à mainte occasion, et notamment à propos de chacun des articles du traité d’armistice qu’il fallut plusieurs interventions impatientées du maréchal Foch pour faire exécuter à peu près.
Seulement nous n’allons plus avoir à brandir d’épée flamboyante, avec nos troupes démobilisées, et celles de nos alliés rentrées chez elle. Au fur et à mesure des années, l’Allemagne se redressant deviendra plus arrogante, et finalement ne nous paiera pas à beaucoup près ce qu’elle nous doit. Il faut craindre du reste que nos alliés ne soient d’ici à très peu de temps nos rivaux et ne se désintéressent de notre sort. La rive gauche du Rhin devra donc nous rester.
Francisco Bethencourt faz uma história do racismo no mundo ocidental. É uma obra surpreendente, publicada em inglês, e que traz à historiografia portuguesa uma ambição temática a que não estamos habituados.
O historiador português Francisco Bethencourt, que publicou o livro Racisms: from the crusades to the twentieth century (Princeton University Press), não é, definitivamente, um saudosista do luso-tropicalismo do sociólogo e ensaísta brasileiro Gilberto Freyre. Não defende que o império colonial português tenha sido menos racista do que impérios como o britânico.
O seu livro, ao convocar um tema como o racismo e ao fazer uma história comparativa, vai ao coração das sociedades coloniais e à gestão dessas populações. Como é que se deve lidar com a intensa miscigenação no Brasil dos portugueses com a população indígena e com os escravos africanos, consequência de uma reduzida emigração de mulheres portuguesas logo desde o início da colonização? Porque é que esta população de raça mista ganhou muito mais privilégios sociais e políticos do que no império britânico? Porque é que na América do Norte no século XIX a raça mista desapareceu das classificações raciais e posteriormente passou a ser possível ser apenas branco ou preto? Por que razão, ao contrário, no fim do período colonial no Brasil a nomenclatura racial chegou a ter 150 categorias?
Laissez-moi dire sans modestie que je suis le seul capable de commander ce corps qui sera notre suprême ressource.
Quelques jours avant l’appel du 18 juin, et d’écrire l’une des plus glorieuses pages de l’histoire de France, le général de Gaulle s’adressait une dernière fois au Président du Conseil, Paul Reynaud. Dernière tentative avant l’inéluctable ou mise au clair de ses idées, voici l’une des dernières lettres du général de Gaulle avant de devenir le sauveur de la France et le héros de la seconde guerre mondiale.
Monsieur le Président,
Nous sommes au bord de l’abîme et vous portez la France sur votre dos. Je vous demande de considérer ceci :
1. Notre première défaite provient de l’application par l’ennemi de conceptions qui sont les miennes et du refus de notre commandement d’appliquer les mêmes conceptions.
2. Après cette terrible leçon, vous qui, seul, m’aviez suivi, vous êtes trouvé le maître, en partie parce que vous m’aviez suivi et qu’on le savait.
3. Mais une fois devenu le maître, vous nous abandonnez aux hommes d’autrefois. Je ne méconnais ni leur gloire passée ni leurs mérites de jadis. Mais je dis que ces hommes d’autrefois – si on les laisse faire – perdront cette guerre nouvelle.
4. Les hommes d’autrefois me redoutent parce qu’ils savent que j’ai raison et que je possède le dynamisme pour leur forcer la main. Ils vont donc tout faire aujourd’hui comme hier – et peut-être de très bonne foi – , pour m’empêcher d’accéder au poste où je pourrais agir avec vous.
5. Le pays sent qu’il faut nous renouveler d’urgence. Il saluerait avec espoir l’avènement d’un homme nouveau, de l’homme de la guerre nouvelle.
6. Sortez du conformisme, des situations « acquises », des influences d’académie. Soyez Carnot, ou nous périrons. Carnot fit Hoche, Marceau, Poreau.
7. Venir près de vous comme irresponsable ? Chef de cabinet. Chef d’un bureau d’étude ? Non ! J’entends agir avec vous, mais par moi-même. Ou alors, c’est inutile et je préfère commander !
8. Si vous renoncez à me prendre comme sous-secrétaire d’Etat, faites tout au moins de moi le chef – non point seulement d’une de vos quatre divisions cuirassées – mais bien du corps cuirassé groupant tous ces éléments.
Laissez-moi dire sans modestie, mais après expérience faite sous le feu depuis vingt jours, que je suis le seul capable de commander ce corps qui sera notre suprême ressource. L’ayant inventé, je prétends le conduire.
Como é que não há bloqueio se numa sondagem a sério, as eleições, apenas 27% votou nos dois partidos do governo, nos dois sublinhe-se, e em sondagens mais precárias, mas todas coincidentes, mais de 60% dos portugueses querem Costa à frente do PS e pouco mais de 18% querem Seguro? Com este estado de opinião e voto, como é que a maioria dos portugueses se pode sentir representada pelos partidos que se reivindicam do “arco da governação”?
(…)
Se a vida fosse a ideal, o PSD mudaria de liderança, mas, mais importante que tudo, deixaria para trás esta continuada traição ao seu programa, à sua génese, ao seu papel histórico (…)
O PS, as primárias e o País (Artigo Publicado hoje no Jornal Expresso)
O tempo é um dos principais ingredientes da dinâmica política. Sobretudo em democracia os ciclos políticos tendem a ser fundamentais nas lógicas de alternância e de alternativa. O Partido Socialista estava a viver até 27 de Maio um ciclo político natural. Um Secretário-geral eleito e reconfirmado em Congresso, conduziu o Partido à vitória nas eleições autárquicas e nas eleições europeias e preparava-se para fechar o ciclo, disputando a liderança do Governo.
Os ciclos políticos, como praticamente tudo em política, são passíveis de alteração e disruptura. A partir da análise dos resultados das eleições europeias, reconhecidos militantes socialistas colocaram nos órgãos de Partido e fora deles a questão de saber se a incapacidade do PS em captar à abstenção uma significativa parte dos descontentes com a governação, obtendo um resultado abaixo das expetativas, deveria ser motivo para forçar a quebra dum ciclo político natural de liderança, pela primeira vez na história do PS.
Do meu ponto de vista, os fatos alegados são importantes, merecem reflexão, mas não são suficientes para interromper um ciclo natural de liderança. Por isso votarei no Secretário-geral em exercício nas primárias de 28 de Setembro.
Dito isto, imposta olhar em frente. A arte da política também é transformar dificuldades em oportunidades. Se o PS tem um problema de mobilização dos eleitores então está chegado o momento de contribuir para o resolver e as eleições primárias podem dar um forte impulso no reforço da ligação do partido à sociedade.
Para isso as candidaturas têm que respeitar a grandeza e a importância do PS na sociedade portuguesa. Devem competir por ideias e por propostas e não devem ceder a nenhuma tentação de menosprezar a história do partido ou de lavar “roupa suja” enquanto as pessoas esperam ver soluções concretas para os seus problemas.
O desafio à liderança do PS escancarou o partido perante a sociedade. Se as pessoas gostarem do que lhe for mostrado podemos estar perante a abertura de um novo ciclo de reforço da participação política e da democracia em Portugal.
Neste contexto a responsabilidade dos potenciais candidatos a Primeiro-Ministro é enorme, e qualquer eventual excesso de um dos lados não justifica a resposta nos mesmos termos da outra parte.
Olho por olho, dente por dente será neste caso uma tática suicida em que todos perderão, dentro e fora do PS.
Com naturalidade, quem souber manter uma postura de Estado e combater pela elevação das propostas é quem levará a melhor e retomará o caminho da disputa pela governação do País, espero que com um exército ainda mais forte e motivado.
O território da vingança e do ressabiamento é pura areia movediça. Quem lá entrar suicida-se politicamente e com isso enfraquece um dos principais esteios da democracia portuguesa. Comigo ninguém contará para isso.
O PCP enquadra as mobilizações e acaba por esgotá-las num ponto em que nada mais resta senão a indignação contida.
A subida de votação nas europeias e uma aparente coerência do discurso de tom crítico em relação ao euro estão a dar ao PCP uma oxigenação política que há muito não sentia. Observadores de vários quadrantes não se cansam de elogiar o desempenho da CDU.
O caso não é para menos, considerando o acréscimo de mais de 35000 votos em relação a 2009, num contexto marcado pela abstenção e pelas ameaças populistas, e considerando que o PCP não costuma tirar partido da volatilidade eleitoral e das transferências interpartidárias, uma vez que a sua arma principal reside no efeito fidelidade de uma base de votantes fixa.
There is, between you and us continental Europeans, a disagreement which is turning ugly. Your immense history justifies a limitless admiration for you. You were the inventors of democracy and of human rights, you dominated the world for centuries, first ruling the oceans and after that the world of finance. And when apocalypse threatened, your courage and tenacity – you held on long, American and Russian help arriving late in the day – saved our honour and freedom.
We know this and we have never shied away from saying, including in this commemorative week, that we owe you an immense debt. This should not, however, allow you to treat us with contempt and double-dealing.
You do not like Europe – that is your right and it is understandable. You nevertheless joined 41 years ago, but on a misunderstanding. You never shared the true meaning of the project which Winston Churchill, speaking on your behalf, set out in Zurich in 1946 with his incredible words: “We must build a kind of United States of Europe … Great Britain, the British Commonwealth of Nations, mighty America – and, I trust, Soviet Russia … must be the friends and sponsors of the new Europe and must champion its right to live.”
Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos – porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convívio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Manifestar e Protestar – o onanismo dos partidos de protesto
O protesto tanto pode ser uma faca – e neste caso de dois gumes – como um escudo. Tanto podemos protestar para atacar e alterar uma situação como apenas para nos defendermos. Para evitarmos a mudança fazendo de conta que a desejamos.
Esta ambiguidade é a base em que assenta a tática dos chamados partidos de protesto. Protestam para se defender, para esgotar em seu proveito as energias dos que têm razão para protestar. O protesto, na medida em que não se dispõem a colaborar em nenhuma solução que não seja a totalidade da sua, esgota-se nele mesmo, satisfá-los como se satisfazem os onanistas.
Deixemo-nos de tretas, Seguro é um político medíocre, tem mostrado uma confrangedora capacidade política, não consegue agregar, não consegue definir uma linha política coerente, mas é um especialista na arte da sobrevivência dentro do partido. Um verdadeiro exemplo do homem que nunca conheceu outra realidade que não fossem as lutas partidárias internas, os truques para preservar o poder. Seguro é um político frágil, fraco, indeciso e incoerente, mas é um leão da politiquice de máquina partidária.
Costa saltou contra Seguro. Se calhar ele pensava que o secretário-geral se encolhia… Qual quê! António José Seguro subiu para o ringue, saltitando e dando ganchos no ar, com a pose de boxeur que se lhe conhece, queixo firme e discurso claro: “A minha consciência diz-me que eu tenho de continuar a lutar pelos valores e pelos princípios e habituem-se porque isto mudou.”
Juro, ele disse isto, ontem. Na mesma frase, “tenho de continuar a lutar pelos valores” e “habituem-se porque isto mudou”! No boxe chama-se a isso jabs, sucessão de golpes, esquerda-direita… Em discurso parece contraditório, mas agora António Rocky Seguro quer passar a imagem de durão. Ele adora desafios impossíveis, já antes queria passar por líder. O outro quis encostá-lo às cordas do congresso. Com um jogo de pernas notável, o nosso Belarmino do Rato lançou-se para as primárias. Eu explico o que isso quer dizer em boxe. Suponhamos que o pugilista receia um KO, porque reconhece que o adversário é mais forte. Então, refugia-se nas cordas, dança, enfim, compra tempo. Com um passado de ganhar por pouco, Seguro quer agora ganhar muito. Muito tempo. O outro atrás dele para uma luta leal e ele às voltinhas à espera que o gong o salve. Vocês vão dizer-me: “Mas ele vai ficar mal visto…” Não sei. O erro mais visível de Seguro era ter o título de líder e sê-lo pouco. Agora, a fugir à luta, ele já ganha coerência. Já é ele. Na política a coerência é importante.
Carlos César diz que “a certeza da vitória nas legislativas foi albalroada por uma fortíssima indeterminação”
Carlos César foi eleito presidente do Governo Regional dos Açores em 1996, conquistando um território que foi do PSD durante 20 anos. Abandonou o governo regional em 2012, mas o PS, agora com o seu delfim Vasco Cordeiro, voltou a conseguir maioria absoluta. É o responsável pelo turnout no arquipélago do laranja para o rosa e está entre aquele lote de socialistas que podem reclamar “vitórias históricas”. Segundo o ex-presidente do Governo Regional dos Açores, não foi esse o caso da vitória de domingo. Declara o apoio à candidatura de António Costa à liderança e admite que se Seguro permanecer a vitória do PS nas legislativas está em causa.
Apoia a candidatura de António Costa à liderança do PS. Porquê?
Conheço António Costa desde os tempos em que ele era um estudante do ensino secundário. É um político experimentado em contextos políticos e de administração múltiplos e exigentes, rigoroso, liderante, comprometido com a verdade e agregador. Acresce que na sociedade eleitoral portuguesa suscita um empolgamento e uma convicção de vitória que António José Seguro não tem projectado. Não se pense, porém, que esta minha apreciação compromete a minha convicção de que Seguro seria, caso viesse a ser primeiro-ministro, um governante mais capaz e mais humanista do que Passos Coelho. Mas estou humildemente convencido que António Costa será, nesses como noutros aspectos, melhor.
O que eu espero da Comissão Nacional do PS de que sou membro? Que decida convocar um Congresso extraordinário o mais depressa possível. Os dirigentes socialistas não se podem deixar enredar em questões processuais , dando a ideia de que se refugiam nos e Estatutos para evitar o debate de ideias e o veredicto dos militantes. Os congressos extraordinários estão previstos precisamente para situações extraordinárias. É inegável que a disponibilidade de um dirigente como António Costa criou uma situação excepcional que só pode ser resolvida dando voz aos militantes. É óbvio que adiar a decisão é prejudicial para o PS e para o país. O assunto deve ser resolvido rapidamente. Quanto mais se arrastar, pior, mais desgastante será, mais sequelas vai deixar. O problema não é estatutário, é político. O PS não é um partido conformado. O PS sempre esteve à altura das suas responsabilidades e, estou certa, também desta vez vai estar. No PS ninguém pode ter medo do debate de ideias. No PS ninguém pode ter medo do veredicto dos militantes. O debate de ideias não enfraquece os partidos, pelo contrário, reforça-os. Recordo que, depois da disputa interna entre José Sócrates, Manuel Alegre e João Soares, o PS conquistou a sua primeira e única maioria absoluta em eleições legislativas. Sem dramatismos e com serenidade, vamos promover o debate e travá-lo com elevação. É isso que os portugueses esperam.
A expressão “terramoto” usada pelo primeiro-ministro francês Manuel Valls para classificar a vitória esmagadora da Frente Nacional de Marine le Pen em França não é uma metáfora. Apenas uma descrição realista. Atravessando o canal da Mancha em TGV, quem desembarcar na estação de Waterloo encontrará uma Grã-Bretanha onde o arqui-inimigo da União Europeia, Nigel Farage, líder do UKIP, encostou à rede os donos do sistema bipartidário que reina há muitas gerações na Velha Albion. Estas eleições europeias iniciaram uma reativação da crise europeia, com duas diferenças. Em primeiro lugar, a crise que até agora estava localizada essencialmente na periferia europeia (de Portugal até à Grécia) passou para o núcleo duro carolíngio do projeto europeu, para os países centrais da Declaração Schuman. Em segundo lugar, a crise que era capturada por um discurso dominantemente económico e financeiro vai agora traduzir-se numa linguagem política sobre o poder, os direitos, as instituições. Até que ponto é que o governo da chanceler Merkel percebe a mensagem que lhe está a ser enviada pelos novos e bizarros bárbaros do Ocidente? Será que ela perceberá que se persistir na atual “Europa alemã”, baseada na austeridade, irá acelerar a destruição da própria ideia da unidade europeia, por muitos e dolorosos anos? Não basta dizer que importa criar emprego. É preciso rasgar o império do Tratado Orçamental, com o seu calendário de destruição económica e sofrimento social, sob pena de enlouquecer os europeus com o velho vírus da doença autoimune que, se não for combatido, acabará por incendiar a Europa.
Quando, no lapso de oito meses, o maior partido da oposição perde 800 mil votos, isso significa que a sua liderança não convence um caracol. Argumentar com a fuga de votos para Marinho Pinto, que representou o MPT, e para Rui Tavares, que fundou o LIVRE, diz muito de quem manda no Rato. Então se foi assim, significa que 306 mil votantes PS — os 235 mil que elegeram dois deputados do MPT, mais os 71 mil do LIVRE — não se revêm na política da actual direcção do partido. E ainda sobra meio milhão de votos. Não estamos a falar de um deslizeconjuntural, mas de uma derrocada fragorosa. Não perceber isto é não perceber nada.
Tirando Rio e Costa, não há nos partidos quem possa dar corpo a uma alternativa que dê esperança ao país.
A profundidade do pântano da vida política portuguesa adensa-se todos os dias. Quando Guterres falou de pântano, estava apenas a temer a “coisa” e a ver se não entrava nela. Pode-se considerar que já lá tinha os pés, mas uma parte considerável do corpo ainda se encontrava fora, embora a responsabilidade de Guterres em perder a última oportunidade de sair sem dor do “monstro” seja enorme. Mas se o plano inclinado continuava, a alternância política como mecanismo renovador e dador de esperança ainda existia.
No próximo sábado, 31 de maio, André Barata, e Renato Carmo estarão presentes num debate na 84ª Feira do Livro de Lisboa subordinado ao tema “Estado Social – De Todos para Todos”, com base no livro homónimo organizado por estes dois membros do Grupo de Contacto do LIVRE.
São também convidados do debate: o historiador Rui Tavares, também do Grupo de Contacto do LIVRE, o deputado João Galamba e psicóloga Joana Amaral Dias.
O debate inicia-se às 15h00 na Praça Laranja.
O livro “Estado Social – De Todos para Todos” (Tinta da China), foi recentemente lançado e resulta de reflexões resultantes da Conferência Vencer a Crise com o Estado Social e com a Democracia, organizada pelo Congresso Democrático das Alternativas a 11 de maio de 2013 no Fórum Lisboa.
O PS não capitalizou o descontentamento que afundou a Direita Unida, o que significa que, em tese, ficou em aberto quem ganhará as eleições legislativas do ano que vem. E tão grave quanto isso, o PS, mesmo em caso de vitória, ter de constituir governo com o PSD. Muita gente atribui este facto a António José Seguro, à pessoa mais do que à política de oposição por ele prosseguida. É um facto que Seguro não caiu no goto de ninguém e, aparentemente, parece ser uma menos-valia para os socialistas. No entanto, nunca saberemos se outro secretário-geral dos socialistas (quem?) obteria resultado diferente. Vale a pena lembrar, a tempo, ao PS, que se chegar ao governo para fazer “mais do mesmo”, arrisca-se a levar os socialistas no futuro aos 13% dos socialistas franceses ou aos 7% dos socialistas gregos.
SARA DIAS OLIVEIRA 26/05/2014 – 07:30 in Jornal Público Boaventura de Sousa Santos, director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, constata que a Europa da coesão social acabou e que a troika despromoveu Portugal, acentuando-lhe o estatuto de país semi-periférico.
O sociólogo de Coimbra avisa que, dentro de cinco anos, poderemos ter uma sociedade irreconhecível. E acusa o Governo de apresentar opções políticas como fatalidades.
Três anos de austeridade, de cortes. Como será o país no pós-troika?
Portugal carrega a condição de semi-periférico no contexto europeu há vários séculos. O pós-troika vem mostrar que esta condição vai durar muito mais tempo e que o objectivo que se pretendeu com a integração na União Europeia – tentar ver se Portugal saía desse estatuto – não foi possível. E a tentativa foi tão mal gerida que ficámos pior. Não ganhámos nada em termos da nossa posição no sistema mundial, não ganhámos nada com a integração na União Europeia e ficámos pior, porque perdemos os instrumentos que poderiam, de alguma maneira, provocar uma retoma significativa da nossa economia e da nossa sociedade. Portugal não é ainda um país subdesenvolvido, mas tem mais características de subdesenvolvido do que antes. Tínhamos passado a ser um país de imigrantes, voltámos a ser um país de emigrantes. Tínhamos direitos sociais no domínio do trabalho, velhice, educação e saúde, que têm sido precarizados de modo a que Portugal se pareça, cada vez mais, com um país subdesenvolvido ou do terceiro mundo. Este conceito de “pós-troika” precisava de uma análise semântica. O pós-troika foi criado por uma certa ideia nacionalista que existe no Governo, que foi amplificada simbolicamente como retoma da soberania nacional. Assim, quem não quer o pós-troika? Todos querem. O que não estão a ver é que a troika vai ficar, deixou tudo planeado.
SÉRGIO ANÍBAL Anunciado por uns como o “novo Marx”, mas acusado por outros de ter renegado o trabalho do autor de O Capital, Thomas Piketty agitou o debate político e económico nos Estados Unidos e na Europa com um alerta: a actual sociedade capitalista está cada vez mais parecida com o mundo desigual do século XIX descrito por Jane Austen e Honoré de Balzac.
. Darcy não é de muitas falas e faz tudo para manter uma figura misteriosa, mas há algo sobre ele que toda a gente sabe: o seu rendimento anual é desde a morte do seu pai e continuará a ser até à sua própria morte de mais de 10 mil libras. É esse rendimento garantido, uma verba astronómica inalcançável pela grande maioria, que lhe permite uma vida inteira sem trabalhar e que o torna uma oportunidade única de ascensão social que nenhuma jovem pretendente de mente sã deve rejeitar. Mr. Darcy é uma personagem criada por Jane Austen em 1813 e representa a classe alta da sociedade britânica do início do século XIX, onde o mérito e o esforço de cada um estavam longe de ser vistos como passaportes para o sucesso financeiro.
Mr. Gates não é uma personagem de um livro. Criou a Microsoft em 1977 e acabou por se tornar o homem mais rico do mundo. Nos últimos anos, parece estar a fazer tudo o que pode para ficar com menos dinheiro. Deixou de trabalhar, vendeu quase toda a sua participação na Microsoft e entregou 29 mil milhões de dólares à sua fundação. Mas, mesmo assim, a fortuna não o deixa. Está avaliada actualmente em 79 mil milhões de dólares, um valor que é 16 mil milhões mais elevado do que era há dois anos.
Roma atrasou o reconhecimento da existência soberana de Portugal durante décadas (36 anos, exactamente) mas acabou por ter de a reconhecer! Fê-lo com a bula ‘Manifestis Probatum’, emitida a 23 de Maio de 1179 pelo Papa Alexandre III, que reconhece Afonso Henriques como “Ilustre Rei dos Portugueses” e seu “excelso domínio, o reino de Portugal”… E reconhece a validade ao Tratado de Zamora de 5 Outubro 1143 em que Afonso VII de Leão e Castela reconhece Portugal como reino independente e Afonso Henriques como seu “rex”… Quase no fim da sua vida, Afonso Henriques obtinha mais uma vitória, agora sobre a má vontade do Vaticano e seus papas pró-castelhanos, e ganhava uma guerra que vinha desde 1139, quando os seus guerreiros o haviam proclamado Rei de Portugal nos campos de Ourique.
Ontem, ao discursar na sede de campanha do LIVRE, improvisando perante tanta gente que ainda há poucos meses não imaginava que iria fazer um partido junta, saiu-me uma frase em que não tinha pensado antes, mas que está na essência do nosso projeto político: “peço-vos que nunca digamos uma palavra em que não acreditemos”.
O projeto do LIVRE está em trazer conteúdo à política e significado a algumas palavras que foram esvaziadas pela política sem conteúdo. Há palavras que só ganham vida se estivermos dispostos a agir por elas. E, nos últimos anos, demasiadas palavras foram esvaziadas. Não basta falar de democracia, é preciso praticá-la — e por isso fizemos primárias abertas. Não basta falar de mudança, é preciso ser a mudança — e por isso usamos a democracia deliberativa como método. Não basta falar de Europa — é preciso explicar o que fazer com ela, e por isso temos o programa mais completo e bem fundamentado destas eleições.
O objetivo é ter uma política que deixe de tratar os cidadãos como se eles tivessem uma mera câmara de eco no lugar da cabeça. E aventura só agora começou. Há tantas palavras a preencher de significado nos dias de hoje. Há quem fale de patriotismo, sem estar disposto a modificar a sua tática partidária quando o país está em risco. Há quem fale de europeísmo, quando viu a pior crise abater-se sobre a Europa e não levantou a sua voz contra a política de vistas curtas que nos dominou. Há quem fale de esquerda, e recuse admitir que a esquerda será sempre uma aliança de diferentes — de todos os que não são ricos nem poderosos — cujo objetivo é mudar o mundo presente, e não digladiar-se em disputas bizantinas sobre quem é mais puro no reino dos céus.
Nós não podemos continuar a esperar que o significado desça sobre estas palavras como quem reza pela chuva. Temos de ser nós a fazer algo por estas palavras: solidariedade, justiça, progresso, futuro, liberdade. Temos uma responsabilidade perante elas, que é uma responsabilidade perante nós mesmos e os nossos concidadãos. Queremos viver numa política em que haja correspondência entre o que se diz e o que se faz. E, por uma vez, basta querer para se começar a fazer.
Nestas semanas explicámos o “porquê” do LIVRE — porque era necessário um partido mais aberto, mais democrático, mais libertário, com uma voz autónoma para a ecologia, no meio da esquerda portuguesa. Para logo depois explicar o “para quê”: para que serve votar no LIVRE, eleger deputados e deputadas que implementarão o nosso programa legislativa, e fazer do LIVRE uma surpresa que tenha impacto na formação de governo em Portugal.
E ontem juntámos ao “porquê” e ao “para quê”, mais duas palavras: o “contra” e o “como”.
O “contra” é uma palavra muito importante. Não se pode viver sem recusar, não se pode ser pessoa sem poder dizer não, sem desobedecer. Mas cada “contra” encerra em si uma responsabilidade política: a do “como”. Não se pode estar contra sem ao menos tentar procurar um “como”: como sair da situação em que nós encontramos, como combater o que nos aflige, como reformular as regras do jogo, como ser a mudança que queremos fazer.
Tenho muito orgulho de estar num partido que a cada momento leva a sério essas palavras: porquê, para quê, contra, como. Temos brio em explicar claramente o que queremos fazer com cada uma delas.
Agora chegámos ao início da aventura. Vamos pela primeira vez apresentar-nos ao voto dos nossos concidadãos, com um sorriso estampado na cara. Nós não acreditamos só na democracia; gostamos dela. Vamos contentes ao encontro dela. Estamos contentes porque fizemos uma campanha digna, porque falámos do futuro e da Europa (e de Portugal nela), porque não nos deixámos desviar do nosso caminho, porque não fizemos um único ataque pessoal, não caímos numa única controvérsia artificial ou inflacionada, não perdemos um segundo com aquilo que não interessava. Ao invés de jogar para a agenda mediática das próximas 24 horas, pensámos e falámos sempre dos próximos 5 anos.
E agora falta uma hora para fechar a campanha. É a hora dos últimos telefonemas, dos últimos panfletos, dos últimos argumentos. Estamos bem perto de conseguir mudar a política portuguesa. Falem com toda a gente que puderem nestes minutos. Expliquem o que é este partido, o que ele pode fazer, como ele pode melhorar a democracia, como os seus deputados e deputadas no PE legislarão para mudar a Europa. Persuadam muitos, convençam todos os que puderem.
Só vos peço uma coisa: que nunca digam uma palavra em que não acreditem.
BREVE HISTÓRIA DE CINCO REVOLUÇÕES FINANCEIRAS
Do “papel-voador” na China aos algoritmos que dominaram Wall Street
A emergência do capital e do capitalismo é comummente associada ao processo de acumulação primitiva ligado à Revolução Industrial, no Reino Unido. Mas, na realidade, é muito mais antiga. A China e o império muçulmano foram o berço de inovações de mercado e financeiras que se estenderam por séculos. A cronologia que se publica percorre mais de um milénio de história desde a criação por mercadores chineses do “papel-voador”, no final do distante Império Tang, aos algoritmos financeiros que conquistaram Wall Street em pleno século XXI e fazem tremer o sistema financeiro surpreendido com derrocadas-relâmpago. Inclui-se uma passagem obrigatória pelo papel globalizador da Expansão portuguesa nos séculos XV e XVI, que atrairia a alta finança europeia para o Atlântico e transformaria o “português de ouro” manuelino em divisa internacional.
Este livro tem dois objectivos: Por um lado, projectar um filme rápido sobre a história mais do que milenar do nascimento e expansão do capital financeiro, através das revoluções que liderou desde o final do século VIII. A sua história está cheia de inovações surpreendentes. Não se trata de uma história breve do dinheiro, nem dos bancos, nem da política monetária soberana. Mas dos principais capítulos da projecção estratégica deste segmento do capitalismo.
Por outro lado, ressaltar que a financeirização é a maior mudança estrutural no capitalismo nos últimos dois séculos. Compreender esse fenómeno é hoje crucial.
(…) A melhor opção, diz o fundador da École d’Économie de Paris, é um imposto extraordinário progressivo sobre o valor líquido das fortunas acima de €1 milhão, com uma taxa de 1% entre 1 e 5 milhões e de 2% acima de 5 milhões, aplicado ao longo de um período de tempo como medida fiscal de emergência. (…)
A taxa anual progressiva sobre as fortunas (avaliadas em termos líquidos, insiste o autor para não assustar as classes médias) acima de €1 milhão, poderia abranger, no caso da União Europeia (UE), uma minoria de 2,5% da população adulta e permitir uma arrecadação fiscal anual na ordem de €300 mil milhões, equivalente atualmente a 2% do PIB. Essa taxa deve aplicar-se a todo o tipo de ativos detidos por esses escalões de contribuintes.
Entre a austeridade e o autoritarismo que papel fica reservado à democracia na busca de soluções para a saída da crise?
A presente obra de André Freire tem como temas principais as crises financeira, económica e político-democrática que Portugal tem vindo a experimentar (e a sofrer) ao longo dos últimos anos. Lateralmente, encontram-se nela também não poucos elementos para uma análise das reformas político-institucionais de que o país carece para ultrapassar os bloqueios do seu sistema político e para viabilizar ou facilitar a sua governabilidade, bem como para uma possível interpretação da chamada «crise das esquerdas».
O lançamento do livro terá lugar no Auditório da Câmara Municipal de Lisboa, Praça do Município, no próximo dia 3 pelas 18:30. A apresentação estará a cargos dos historiadores Irene Pimentel e Pacheco Pereira.
Já era tempo de os portugueses poderem candidatar-se a eleições sem estarem reféns de uma direcção partidária. Esta é uma das ideias que Ricardo Araújo Pereira vai usar para justificar o apoio que decidiu dar ao partido Livre e à reeleição de Rui Tavares como deputado europeu.
A dirigente do Livre Marta Loja Neves confirmou ao PÚBLICO que o humorista gravou um tempo de antena que irá para o ar na SIC na próxima terça-feira. Durante cerca de dois minutos, Ricardo Araújo Pereira, que não tem filiação partidária, justifica a opção com a crença de que o Livre “viabiliza novas combinações à esquerda”. Uma esquerda, diz, “que não abdique dos seus princípios, mas que não atire a governação para os braços da direita.”
Organizado pela Revista Rubra, a realizar no dia 20 de Maio, terça-feira, entre as 19:00H e as 21:300H, com Hillel Ticktin, editor da revista Critique – Journal of Socialist Theory; Raquel Varela, historiadora e Renato Guedes, físico teórico.
É tempo de organizar uma conferência com os governos e os novos Parlamento e Comissão para resolver os problemas do excesso de dívida, crescimento económico anémico e falta de robustez institucional do euro
A crise da zona euro apanhou a União Europeia mal equipada, desprevenida e desorientada. A arquitetura da moeda única estava incompleta e era incoerente, as contas de alguns estados-membro foram falsificadas com a cumplicidade de grandes bancos internacionais e a aquiescência dos seus parceiros europeus, Bancos faliram, contribuintes foram chamados a segurar os bancos, as dívidas soberanas explodiram e, sobretudo, perante a passi idade dos “líderes” europeus e a resistência do governo da Alemanha, explodiram os seus juros. A reação, quando chegou, passou pela criação semi-improvisada de novos mecanismos — o Fundo Europeu de Estabilização Financeira — e organismos — a troika — que não estavam previstos pelos Tratados ou violavam os seus artigos.
Philippe Legrain, foi conselheiro económico independente de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, entre Fevereiro de 2011 e Fevereiro deste ano, o que lhe permitiu acompanhar por dentro o essencial da gestão da crise do euro. A sua opinião, muito crítica, do que foi feito pelos líderes do euro, está expressa no livro que acabou de publicar “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”.
(…) Registe-se contudo que este caso foi uma acção levada a efeito por Putin para ganhar vantagem, aproveitando uma situação de vulnerabilidade criada por erros ocidentais e aproveitando a oportunidade que lhe foi dada pela iniciativa da Alemanha, que também por motivos de interesse geopolítico idêntico mas de sentido inverso aos de Moscovo, financiara a revolta de Kiev para apear o Presidente da República da Ucrânia afeto à Rússia, visando assim garantir o controlo do espaço geopolítico ucraniano que os alemães também procuravam alcançar. (…)
L’Europe ne se fera pas d’un coup ni dans une construction d’ensemble. Elle se fera si des réalisations concrètes créent d’abord une solidarité de fait.
Deux jours avant son discours historique du 9 mai 1950 lançant une solidarité économique et industrielle entre les Etats européens, autour de la production de charbon et d’acier, Robert Schuman cherche encore à convaincre le Chancelier allemand, Konrad Adenauer, de l’importance d’une telle résolution. Lettre capitale dans les coulisses de la construction de la Communauté Européenne, alternative géniale et historique à la guerre qui décime, chaque siècle, le Vieux Continent.
9 de Maio às 21h30
Na sexta-feira, 9 de maio, a editora Tinta da China promove a apresentação do livro “A Ironia do Projeto Europeu“, da autoria de Rui Tavares.
A apresentação estará a cargo de Clara Ferreira Alves e Viriato Soromenho Marques e terá lugar na sede de campanha do LIVRE, no espaço Frágil (Rua da Atalaia, 126, ao Bairro Alto, Lisboa).
No capitalismo, é a relação com o trabalho que nos define, diz o filósofo Anselm Jappe, em Lisboa a convite do Teatro Maria Matos. Mas o sistema é um “castelo de cartas que começa a perder peças”. E é tempo de repensar o conceito de trabalho
O capitalismo distorceu a ideia de trabalho, desligando-a das necessidades reais da sociedade. Trabalhamos a um ritmo cada vez mais acelerado apenas para alimentar a lógica do sistema. Mas este parece ter entrado numa rota de autodestruição porque, com a exclusão de cada vez mais gente do mercado de trabalho, há também cada vez mais gente excluída do consumo, afirma o filósofo Anselm Jappe, nascido em 1962 na Alemanha e que hoje vive entre França e Itália.
Jappe – que tem três livros editados em Portugal pela Antígona, entre os quais As Aventuras da Mercadoria (2006) – faz uma conferência, na próxima terça-feira, dia 23, no Teatro Maria Matos, no âmbito do ciclo Transição. Na conferência (em português), com curadoria de António Guerreiro, Jappe vai explicar por que devemos repensar o conceito de trabalho.
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Muito obrigado & Saudações LIVREs,
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ATENÇÃO!
Alertamos para os seguintes artigos previstos na lei de Financiamento dos Partidos Políticos e das Campanhas Eleitorais:
Os partidos políticos não podem receber doações em nome de pessoas colectivas nacionais ou estrangeiras;
Os partidos políticos não podem receber doações anónimas;
Os partidos políticos só podem receber doações por cheque ou transferência bancária;
O valor máximo permitido por doador é de 10480,50 euros.
As comemorações dos quarentas anos do 25 de Abril, as oficiais e as não oficiais, as da esquerda, as do centro e as da direita, são completamente inócuas, politicamente anestesiadas, de um conformismo idiota que serve sem a mínima reserva a reificação do passado. Por elas, não passa nem uma ligeira brisa de pensamento. Tudo desertou, ficou apenas o palco vazio de uma ideia. Parecem directamente inspiradas no modelo da Acção Paralela, esse comité de príncipes do espírito, inventado por Robert Musil, em O Homem Sem Qualidades, que tinha a seu cargo a missão patriótica de celebrar os 70 anos do Imperador da Cacânia, isto é, do Império Austro-húngaro.
Mas em vez de culminar numa celebração grandiosa a sua busca de um fundamento da civilização austríaca, conforme aos mais altos espíritos da época, a Acção Paralela submerge num princípio vazio e torna-se a parábola satírica de uma ausência. A celebração de que a Acção Paralela está encarregada não tem objeto. No romance de Musil, Ulrich, “herói” nihilista, ao menos compreendeu que a época em que vive, dotada de um saber superior a qualquer outra época precedente, de um saber imenso, é incapaz de intervir no curso da história e já nada acontece. Já não existem acontecimentos, apenas notícias. Ao contrário de Ulrich, os nossos príncipes do espírito mobilizados numa semelhante Acção Paralela, encarregada de uma tarefa esterilizadora e sem outro desígnio que não seja o de designar o centro vazio das comemorações, vieram todos demasiado tarde. São espíritos retardados e não heróis nihilistas. Parecem, aliás, uma repulsiva síntese do bom democrata com o conceito nietzschiano de último homem.
Desconhecem muito de tudo e desconhecem absolutamente que esta história é sem época. Na nossa Cacânia, a reificação conformista do passado garante-nos que o futuro não tem porvir e, da esquerda mais à esquerda até à direita, o que vemos é o mesmo nada – nihil – que se dá a ver em grandes poses. Todos se treinaram no exercício que consiste em fazer um uso público da História, mas todos desconhecem a lição que torna o passado carregado de presente, isto é, citável sem ser neutralizado e reificado. O significante vazio que mais recitam é “democracia”, tornada religião civil à escala planetária. Uns falam de democracia referindo-se a uma ordem jurídico-política; outros entendem-na no plano da prática administrativa, gestionária. Uns e outros parecem incapazes de interrogar tal conceito, de perceber a cisão que o habita e que o fez divergir em duas direcções diferentes.
Por isso, deixámos de saber a que ordem de realidade política pertence a democracia. O que sabemos muito bem é que ela se tornou um mero dispositivo do discurso dos políticos. Ao ponto de poder ser entendida, hoje, como a religião dos governantes abandonada pela falta de fé dos governados.
A guerra situa-se também, ou sobretudo, no plano da linguagem. Porque são festivas e pacíficas, as comemorações devem, portanto, ter um vocabulário reduzido, ficar pela língua cristalizada da maquinação “democrática”, quer por estratégia, quer porque já não se conhece outra. A grande missão patriótica da nossa Acção Paralela nem precisa de se esforçar para encontrar a palavra de ordem que mais lhe convém, a verdade mais cristalina da ideia e do fundamento que buscava para comemorar. Essa palavra de ordem foi-lhe oferecida por uma alta representante da Nação, paralela em nas acções e muito oblíqua nas palavras, e resume-se a uma tirada que deve ser elevada a digno emblema das comemorações: “Isso não existe!”.
Francisco Louçã, Jorge Costa e João Teixeira Lopes
Quem São. Como Vivem. Como Mandam.
No seguimento de Os Donos de Portugal e Os Donos Angolanos de Portugal, Os Burgueses oferece-nos a caracterização de alguns dos elementos mais marcantes para a hereditariedade da vida da burguesia portuguesa no séc. XX e nos nossos dias, tocando em pontos como o consumo, a educação ou as escolas e explorando a mecânica da pertença e da transmissão da condição de burguês.
Um retrato direto, concreto e muitíssimo bem fundamentado da classe detentora do poder e da influência em Portugal do século XXI.
No portal www.osburgueses.net estão disponíveis documentos, elementos gráficos, bases de dados, resumos dos capítulos e outros materiais deste estudo.
During his visit to Duisburg, Chinese President Xi Jinping made a master stroke of economic diplomacy that runs directly counter to the Washington neo-conservative faction’s effort to bring a new confrontation between NATO and Russia.
Using the role of Duisburg as the world’s largest inland harbor, an historic transportation hub of Europe and of Germany’s Ruhr steel industry center, he proposed that Germany and China cooperate on building a new “economic Silk Road” linking China and Europe. The implications for economic growth across Eurasia are staggering.
A via social-democrata é esmagada por Spínola no 11 de Março, defende o coronel Rodrigo Sousa e Castro
Rodrigo Sousa e Castro nasceu numa família “remediada” e em vez do seminário, um destino possível naquele tempo, escolheu a Academia Militar. Ainda fez admissão à Faculdade, mas não tinha dinheiro. Mais tarde, já envolvido com o movimento dos capitães, frequentará o Instituto Superior de Economia. Sousa e Castro desfaz dois D da revolução de Abril, nomeadamente a descolonização que, na sua opinião, não existiu e a democratização que falhará logo por culpa do golpe de Spínola – e entretanto por outras culpas também.
Quando é que começou a perceber que o regime da ditadura não funcionava?
Comecei a perceber que vivíamos numa situação estranha na altura da eleição do general Humberto Delgado. Eu era ainda muito jovem, estava no colégio São Gonçalo de Amarante, mas houve lá já um movimento entre os alunos, frequentávamos uma livraria – o dono era do “reviralho”. O meu pai era ferroviário e entre os ferroviários havia uma grande solidariedade contra o regime. Era um grupo profissional que tinha alguma organização política que julgo que era dominada pelo Partido Comunista. Às vezes passavam panfletos nas estações…
Quando a guerra findou — como se a guerra alguma vez findasse, ou houvesse neste mundo senão guerra! —, quando, enfim, esta guerra de há pouco findou, passou a ser assunto de primeiro plano aquilo, já bastante discutido, a que mais vulgarmente se chamou “os problemas da reconstrução”. A frase é inglesa, e, como participa da nebulosidade mental que caracteriza os ingleses, susceptível de ser mal interpretada. Se o termo diz respeito ao mero restabelecimento das vias normais da vida pacífica, tem cabimento etimológico; se diz respeito à reconstituição das indústrias estagnadas, à reedificação das cidades destruídas, tem cabimento também. A frase porém tem um sentido vulgar arbitrariamente mais lato: quando se diz “reconstruir”, quer, em geral, dizer-se simplesmente “organizar”. E esta ideia de organização não tem origem simplesmente na necessidade de preencher lacunas, que a guerra abrisse, ou de reparar estragos, que os exércitos fizessem. Tem uma, de certo modo, mais vergonhosa origem.
A primeira questão que vos trago: o que esperamos de um livro? O que esperamos de um quadro, de um filme, de uma música, de uma dança, de uma obra de arte, em geral? Eu já tive várias respostas, mas hoje, se me perguntassem responderia o que vou responder depois de ter lido este livro do Adelino Gomes e do Alfredo Cunha: que me emocione.
Julgo que é de emoções de quem viveu estes factos do dia dos prodígios, deste dia limpo e claro, como o classificaram duas grandes escritoras, Lídia Jorge e Sophia de Mello Breyner e de quem os relata que este livro nos transmite e nos provoca.
Os relatos e as fotografias revelam-nos as emoções das personagens. É emoção em estado puro: a propósito dos factos reais, vividos, cada um dos homens atuais que foram os jovens militares deste dia de 25 de abril de 1974 estabelece a verdade das emoções que esses acontecimentos lhe causaram e causam.
Este livro coloca-nos um problema insolúvel e de que nós não gostamos de nos aperceber: vivemos todos num mundo de fantasia. A realidade existiu, mas passa a ser outra quando a relatamos. A questão das reconstruções credíveis, de que fala Adelino Gomes a propósito de um dos personagens, que, para ter vivido o que se lembra de ter vivido nesses momentos dramáticos teria de ser ele e outro, de ter estado em dois lugares ao mesmo tempo, leva-nos às interrogações: Nós somos quem? Fizemos o quê? A que a memória vai dando respostas cada vez mais imaginativas, que não deixam de ser verdade.
A guerra colonial: “Liquidámos aquela gente de uma forma absolutamente desumana e selvagem em alguns casos”
Faz agora 40 anos que Otelo foi pedir a Amadeu Garcia dos Santos para montar o plano de transmissões do golpe de Estado do 25 de Abril. Às três da manhã de dia 25, Garcia dos Santos intercepta uma conversa entre dois ministros sobre a visita nesse dia de Américo Thomaz a Tomar. Um preocupava-se pela falta de segurança, o outro garantia que não se iria passar nada. Mas dois meses antes, o chefe máximo da Pide, Barbieri Cardoso, tinha encontrado Garcia dos Santos numa festa de anos e feito a estranha pergunta: “Ó Amadeu, há para aí umas reuniões de capitães, o que é que se passa?” Amadeu respondeu que não sabia de nada, mas hoje está convencido que a Pide suspeitava que algo estava em preparação. No dia 25 de Abril, Barbieri Cardoso já tinha abandonado o país.
Aqui há uns tempos, disse-nos numa entrevista que Salazar nos moldou a todos e que ainda continua a moldar- -nos de certa maneira. 40 anos depois do fim da ditadura, podemos dizer que existem ainda resquícios a andar por aí?
Tenho uma opinião muito pessoal sobre isso. O Salazar foi uma pessoa que resolvia todos os problemas e que forçava os portugueses a não se preocuparem com nada. E, portanto, os nossos pais não aprenderam a viver em democracia, não souberam ensinar os filhos a viver em democracia e, por sua vez, nós, filhos dos nossos pais, temos dificuldades em ensinar os filhos em viver em democracia. Isto significa que nós, pelo menos durante quatro gerações, não vamos saber viver em democracia. E isso é visível hoje no dia-a-dia.
Diga-me como.
Acha que os nossos actuais políticos são democratas, sabem viver em democracia? Sabem governar o nosso país? Os políticos que temos hoje são uns garotos que nunca fizeram nada na vida, por um lado, e nem sequer sabem o que é a vida com dificuldades. Nós vamos ter dificuldades durante longos anos.
Temos problemas económicos graves. Mas acha, de facto, que ainda não nos adaptámos verdadeiramente à democracia?
Não nos adaptámos porque não sabemos viver em democracia. Mas temos um problema ainda mais grave. Os portugueses são excelentes executantes, mas não somos capazes de nos organizar, preparar o futuro, de dirigir. Em termos de características genéricas do povo português, o português não planeia, vive um pouco ao sabor do dia-a-dia. E o país tem esse grande problema. Não temos nenhum projecto de futuro enquanto país. Sabe o que é que o país quer ser? O que é que o país quer fazer? O país não tem um rumo, não sabe aquilo que quer. Depois, temos outro grande problema. Somos incapazes de punir aqueles que fazem asneiras e são responsáveis por essas asneiras. Nós não cortamos cabeças!
O 25 de Abril também não cortou muitas cabeças…
Claro! Na nossa história temos sido sempre assim…
Há o assassinato do rei D. Carlos…
… salvo períodos relativamente escassos. O que quero dizer é que um indivíduo faz uma asneira e perdoamos uma vez, perdoamos segunda vez. É essa a nossa maneira de ser e não pode ser assim. Uma pessoa que comete uma asneira tem de ser castigado. Tem de pagar a responsabilidade de ter cometido essa asneira. E isso leva à irresponsabilidade e ao mau exemplo. E depois dizem: “Se aquele senhor roubou e não lhe aconteceu nada porque é que eu não hei-de roubar também?”
Está a falar dos processos que prescrevem…
De tudo, desde a justiça à vida do dia-a-dia. É o deixa andar. Nós somos assim.
Se pensarmos bem, há 50 anos só uma minoria muito minoritária é que combatia verdadeiramente a ditadura… Temos de reconhecer que a esmagadora maioria combatia nos cafés.
Claro! Lembro-me perfeitamente do meu pai e do grupo de amigos que ele tinha que se reuniam ali numa loja na rua do Ouro e discutiam e criticavam, chamavam todos os nomes possíveis e imaginários ao Salazar e aos seus capangas, etc. Mas, de facto, não faziam nada! Apenas um deles tinha sido preso e tinha o corpo cheio das cicatrizes das vergastadas que tinha levado na Pide. No fundo, somos assim. Falamos muito, mas fazer “tá quieto”.
E acha que é por essa nossa maneira de ser que aguentámos durante tanto tempo a ditadura?
Aguentámos isso tranquilamente. Havia de facto reacções, mas espaçadas no tempo.
Havia o Partido Comunista organizado…
Claro. Mas que grandes acções fizeram, em concreto, no sentido de acabar com a ditadura? Foram muito pequeninas. Infelizmente não somos capazes de nos organizar. E é uma consequência da pesada herança do passado. Os nossos pais não tiveram preparação, nós não tivemos preparação, os nossos filhos vão aprendendo alguma coisa e só daqui a três ou quatro gerações é que isto irá talvez entrar nos carris. Talvez os jovens consigam arranjar uma solução para resolvermos os nossos problemas. Vamos ver. Se calhar já cá não estou para ver.
Quando é que começou a perceber que a ditadura não era um regime aceitável?
Desde muito jovem que ouvia falar do “reviralho”, do pessoal do “reviralho”. Ouvia falar contra o regime, contra o Salazar, defender a eleição do Norton de Matos, do Delgado. Vivi tudo isso muito de perto. Nunca gostei do Salazar. Tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente, quando foi das henriquinas [comemoração dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique] em 1960. Participei nas comemorações henriquinas, tinha acabado de sair da Escola do Exército. Ainda fiz parte do grupo que, em representação da academia militar, fez parte dessa organização. E um dia esse grupo foi ao Salazar. Digo-lhe que fiquei impressionadíssimo com o olhar daquele homem! Quando ele olhava para as pessoas parecia que nos sentíamos furados! Uma coisa impressionante! Mas digo-lhe uma coisa: quando em 1928 Salazar entrou para o Ministério das Finanças foi de facto um homem extraordinário! Agora, a sua forma de pensar, a pouco e pouco, desactualizou-se. Nomeadamente no problema colonial.
Ele sabia que o colonialismo estava a desaparecer e tinha a obrigação de resolver o problema ou de prever que iríamos atravessar uma situação desse tipo. Era inevitável. Se ele tivesse tido essa presciência e tivesse conseguido evitar a guerra colonial nós hoje estaríamos completamente diferentes.
Mas havia a Pide, havia a censura…
Isso é outra coisa. Estou a falar agora da questão colonial e das relações com as antigas ex-colónias. Fiz duas comissões em África. Em Angola de 62 a 64 e na Guiné de 68 a 70, no tempo da ditadura. Depois do 25 de Abril fui à Guiné, a Angola, a Moçambique. Em todos os lados me diziam “vocês venham para cá que a gente precisa de vocês”. Dos portugueses. Ainda hoje temos uma relação com aquela gente completamente diferente de qualquer outro país. E se nós não tivéssemos tido aqueles 13 anos de guerra não teria havido 300 mil homens em guerra, milhares de mortos de um lado e de outro e teríamos uma situação completamente diferente. Salazar nunca quis alterar a relação entre colonizadores e colonizados. Para ele Portugal era do Minho a Timor. E não podia ser assim. Mas nós temos formas de relacionamento com aquela gente como mais ninguém tem. Tive oportunidade de ver isso na guerra colonial: em várias situações verifiquei a fraternidade que existia entre soldados brancos e soldados pretos…
Os soldados do contingente português, claro.
Claro que sim. Mas se calhar os que estavam do outro lado, se não tivesse havido guerra, poderiam conviver connosco da mesma maneira.
A descolonização deveria ter sido feita mais cedo.
Evidentemente, mas de uma forma pacífica. E estaríamos hoje a conviver com aqueles países de uma forma completamente diferente. Se calhar estamos a caminhar para aí, mas só trinta ou quarenta anos depois e com custos muito elevados.
Só agora, 40 anos depois, se está a começar a falar mais abertamente dos massacres da guerra colonial, dos crimes cometidos pelas tropas portuguesas.
Com certeza. Houve crimes cometidos por nós e crimes cometidos por eles. Eles na defesa dos seus territórios e das suas nações e nós liquidando aquela gente de uma forma absolutamente desumana e selvagem, em alguns casos. Vou contar–lhe uma cena a que assisti na Guiné. Fui uma vez a um quartel no mato e havia uma cova enorme que estava cheia de cadáveres dos chamados terroristas e os soldados portugueses à volta. E às tantas percebeu-se que um dos cadáveres não era cadáver. Ainda estava vivo. E alguém disse: “eh pá aquele ainda mexe!!!!” E depois ta-ta-ta-ta. [imita o ruído de uma metralhadora]. Isto é uma coisa absolutamente selvagem. E resulta da forma como foi instigada no espírito das pessoas a inimizade de uns em relação aos outros.
Demorámos tanto tempo a conseguir falar da guerra porque os homens que fizeram a guerra foram os mesmos que nos deram a democracia?
Talvez. Nós, militares, temos uma certa psicose em falar das coisas que vivemos na vida profissional. Como sabe, é muito raro encontrar-se alguém que conte o que viveu na guerra e não é só na nossa guerra colonial. Quem conta o que se passou na primeira guerra, ou na segunda guerra mundial são 3 ou 4 pessoas ou 10. As pessoas que viveram essas coisas não falam, porque têm os tais stresses de guerra, os traumatismos. A guerra afecta a qualidade do ser humano e a forma como o ser humano encara o relacionamento com os outros. Isso é de tal maneira que muitos dos homens que fizeram a nossa guerra colonial têm problemas de stress de guerra. Imagine um rapazinho com 20 anos. Faz aqui o serviço militar durante seis meses e é metido num barco ou num avião e vai para a guerra… Foram milhares deles assim! Chega lá, se fosse oficial miliciano, alferes, metiam-lhe 30 homens na mão, que era um pelotão. E vai pelo mato fora, para a guerra, um indivíduo que não fazia a mínima ideia do que era isso. Com 30 homens na mão! E ele tinha de responder pela vida ou pela morte desses 30 homens. Está a ver o que isto representa? Estes rapazinhos com 20, 25 anos, eram uns garotos! Isto marca para toda a vida!
Quando entra na conspiração para derrubar a ditadura?
A conspiração começou com os capitães em 73. Eu nessa altura já era mais velho, tinha 38 anos. Os capitães começaram por se mobilizar em torno dos decretos em que os oficiais milicianos faziam cursos de seis meses e eram equiparados aos do quadro que já tinham uma data de anos de serviço. Isso começou a criar reacções muito fortes nesses rapazes que viam o seu futuro perturbado por essas situações. Claro que isto é uma consequência das dificuldades cada vez maiores que as forças armadas portuguesas tinham no recrutamento de pessoal para a guerra colonial. Nós chegámos a ter quase 300 mil homens nos três teatros de operações. Já tínhamos atingido o limite dos limites! Entre o pessoal do quadro permanente, os profissionais, houve alguns que chegaram a fazer quatro e cinco comissões de dois anos cada! Iam dois anos, voltavam, estavam cá uns meses, e voltavam para a guerra! Atingimos uma situação em que a solução era impossível. E daí que os capitães tivessem chegado à conclusão que o problema da guerra colonial só se resolvia pela via política. Tinha de haver qualquer coisa que alterasse a situação e só poderia acontecer se o regime caísse. Quando é que eu entro? Em 73 eu tinha 38 anos, era bastante mais velho do que os outros, era professor na Academia Militar, tinha sido professor de alguns daqueles capitães. E um dia o Fisher Lopes Pires, já falecido, veio perguntar-me se eu estava disposto a aderir ao movimento dos capitães. E eu digo logo “com certeza”. Entrei no final de 73, princípio de 74. Depois aquilo evoluiu, houve o 16 de Março que foi um flop e o Otelo foi encarregado de fazer uma coisa com cabeça, tronco e membros. O 25 de Abril foi uma operação clássica militar.
Um golpe de Estado?
Uma operação clássica militar, como qualquer outra operação em guerra. Nós tivemos as unidades do Exército português mobilizadas de um lado e de outro, do Algarve até ao Minho. Portugal esteve à beira de uma guerra civil. O Otelo é encarregado de fazer o estudo das operações que iriam levar ao 25 de Abril e, como nós nos conhecíamos muito bem, vem ter comigo para planear a parte das transmissões. Não há operação militar nenhuma que funcione capazmente se as transmissões não funcionarem! E funcionaram absolutamente. Eu sou de engenharia, depois fui para transmissões. Nós, nas transmissões militares, temos várias coisas: as transmissões fixas, que fazem as ligações entre os quartéis. Depois, temos as transmissões de campanha, que são aquelas que são utilizadas em operações, com o aparelho às costas no mato ou no terreno. E depois temos outra coisa que se chama guerra electrónica. O que é a guerra electrónica? É um processo que procura obter o mais possível de informações através das transmissões do inimigo. Eu fui especialista dessas três áreas. Montei as ligações permanentes entre Portugal e a Guiné e Cabo Verde. Fiz as transmissões de campanha em Angola. Quando o Otelo me contactou disse “sim, senhor” e montei um esquema. Tinha vivido a minha vida toda a lidar com quartéis e conhecia muita gente. Conhecia o quartel da Graça como as minhas mãos, estive lá 12 anos. Tinha confiança a 100% em alguns deles. Montei então o esquema todo. Fui roubar material ao depósito de transmissões em Linda-a-Velha, arrombei a porta e roubei o material. Montei o esquema na Pontinha e a coisa funcionou. E foi assim.
Portanto, no dia 24 estava a roubar o material…
No dia 24 foi quando montei as coisas todas na Pontinha. Fui para o posto de comando da Pontinha no dia 24 à tarde, montei as antenas e depois vim para casa. E depois voltei para lá a seguir ao toque do Paulo de Carvalho [a canção “E Depois do Adeus”, transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa]. Nós tínhamos ligação com vários postos civis e militares. De tal maneira que às 3 da manhã do dia 25 interceptei uma chamada telefónica entre o ministro da Defesa e o ministro do Exército em que diziam que Américo Thomaz no dia seguinte ia a Tomar e saía cedo. Um deles preocupava-se por Thomaz não levar segurança enquanto o outro dizia: “Não há problema nenhum porque isto está tudo tranquilo”. Às três e meia da manhã já tínhamos as unidades todas na rua! E ninguém tinha dado por isso.
Nunca duvidou do sucesso do golpe?
Preparámos tudo de forma a que tivesse sucesso. Mas houve uma altura em que ainda tivemos um aperto de coração. O pior foi a fragata defronte do Terreiro do Paço. Nós sabíamos que a fragata tinha recebido ordens para bombardear as forças do Movimento das Forças Armadas que estavam no Terreiro do Paço. E nós fizemos isto: mandámos para o Cristo-Rei uma bateria de Artilharia e ordenámos que os canhões ficassem apontados para a fragata. E foi transmitido à fragata que se desse um único tiro iria imediatamente ao fundo. Foi o momento mais nervoso que passámos. Não sabíamos como iriam reagir, felizmente reagiram bem. Talvez porque houvesse mais gente na fragata que estava connosco.
Estamos a fazer esta entrevista no dia 16 de Março. Há 40 anos, o general Spínola deu-lhe uma coisa e tentou um golpe que ninguém percebeu muito bem o que era. Quem era o general Spínola, afinal?
O general Spínola era excepcional em termos militares. Era um militar na verdadeira acepção da palavra. Mas tinha ideias velhas, antiquadas. E, por outro lado, era do tipo “quero, posso e mando”. Quando contactámos o Spínola, ele começou logo a dizer “eu é que mando”. E nós “calma aí, não é o senhor que manda, ainda mandamos nós”. Aí as coisas contemporizaram-se, houve a possibilidade de ele perceber que não tinha capacidade de alterar certo tipo de coisas que estavam em curso.
Como é que viviam nesses dias? Chamavam-vos os homens sem sono.
Depois do Otelo me entregar a ordem de operações, para poder montar o plano de transmissões, levei não sei quantos dias a passar aquilo tudo a escrito. Não dormi duas ou três noites seguidas. Não preguei olho. A minha irmã faz anos no dia 23 de Abril. Acabei o anexo de transmissões precisamente no dia 23 de Abril e entreguei ao Otelo. Foi quando ele foi distribuído pelas unidades todas. Nem a minha mulher na altura, nem a minha irmã, ninguém sabia de nada. No dia dos anos da minha irmã, resolvemos ir todos ao cinema, ao São Jorge. Eu cheguei ao São Jorge, apagaram-se as luzes e adormeci. Quando o filme acabou a minha mulher teve de me acordar. Não sei que filme foi, não sei o que era, não faço a mínima ideia.
E o que se passou com a Pide? A Pide mantém-se nas colónias a seguir ao 25 de Abril…
Aí tenho uma coisa para lhe contar. Não vou falar em pessoas, mas eu tinha um relacionamento com alguém muito próximo do Barbieri Cardoso. Eram laços que eu tinha com familiares, não interessa quem eram as pessoas. O Barbieri Cardoso era o responsável máximo da Pide. E dois ou três meses antes, eu fui à festa de anos da filha dele, ali numa moradia em Linda-a-Pastora, e ele estava lá. A certa altura, o senhor chama-me de lado e diz-me: “Ó Amadeu, há para aí umas reuniões de capitães… O que é que se passa?” E eu disse: “Não sei de nada nem nunca ouvi falar”. E eu já estava metido no assunto até ao pescoço! “Mas então se souber de alguma coisa diga, está bem?” “Eu digo, eu digo” (risos). Portanto, a Pide sabia que havia qualquer coisa, só não sabia o que era. Ou se sabia, ele disfarçou, porque queria saber mais coisas. E provavelmente até sabia que eu estava envolvido nisso. Agora, no dia 25 de Abril, Barbieri Cardoso não estava cá! Estava em Paris e não voltou. Ele soube qualquer coisa e foi-se embora. Mas queria dizer-lhe o seguinte: a Pide cá era uma coisa, a Pide em África era outra coisa completamente diferente. E qual era a diferença? A Pide em África era um organismo de informações. Obtinham informações sobre o nosso inimigo e depois davam essas informações ao Exército português. Não andavam à procura dos portugueses contra o regime. Nas antigas colónias, a Pide trabalhava em prol do Exército português e teve uma acção muito importante, porque o Exército não tinha a capacidade para saber coisas que eles tinham.
E isso não contribuiu para ter havido um certo perdão nacional relativamente à Pide? Com os políticos foi a mesma coisa…
Aí voltamos ao que eu comecei por dizer. Nós perdoamos muito. Acabamos por dizer “o gajo no fundo não é mau rapaz, não volta a fazer”. Nós somos assim. Em relação à Pide quase houve uma atitude deste tipo. Em qualquer outro sítio do mundo, com outro tipo de pessoas, se calhar cortavam a cabeça à Pide. Eles tinham feito coisas terríveis. Era natural que houvesse uma vingança sobre esse organismo. É claro que muitos deles cavaram, os mais responsáveis já cá não estavam quando as coisas aconteceram. E hoje em dia o edifício da rua António Maria Cardoso é um prédio de luxo tipo hotel de 5 estrelas (risos).
Em 1964, eu tinha 12 anos de idade e assisti ao golpe militar da janela de minha casa. A morada de meus pais era no Largo Teresa Cristina, 27, defronte para o prédio do Sindicato dos Operários Portuários de Santos, localizado à Rua General Câmara, cuja lateral direita dava para a praça. Foi por ali que chegaram os soldados da Polícia Marítima, do comandante Seco, ostensivamente armados. Da janela, vi como alguns daqueles homens de uniforme azul com metralhadoras em punho e longos bastões – que no cais eram mais conhecidos como “pés de mesa” – escalaram o muro dos fundos do sindicato, assumindo posições estratégicas.
Depois, ouvi o estilhaçar de uma vidraça do edifício do sindicato, talvez rompida por uma granada de efeito moral ou uma pedra. E, então, percebi algumas poucas cabeças que se desenhavam nas vidraças: eram os dirigentes do sindicato acuados, provavelmente à espera de notícias que pudessem vir de Brasília sobre um eventual esquema de resistência ao golpe.
Mais tarde, ainda da janela, pude perceber uma aglomeração na Rua General Câmara com o Largo. Então, tomei coragem e desci à rua e vi quando alguns daqueles homens que estavam acuados na parte de cima do sindicato desceram as escadarias, sob a mira de metralhadoras, e entraram numa espécie de “corredor polonês” aos tapas e pescoções em direção a um caminhão coberto. Entre eles, lembro-me de ter visto Manoel de Almeida, que era o presidente do sindicato, e Rafael Babunovitch, diretor. Com outros diretores e alguns associados solidários, seriam conduzidos para o navio-prisão, que por muitos dias ficaria ancorado em frente ao porto de Santos com sua presença ameaçadora, tal como uma forca na praça principal de uma pequena cidade.
O linguista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:
1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.
2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
De repente, a plêiade de dirigentes político-mercantis que gerem a União Europeia e os Estados Unidos da América, até há dias incapazes de apontar no mapa uma coisa chamada “Crimeia”, tornaram-se fervorosos ucranianos da Crimeia, até tártaros da Crimeia, defensores de direitos de pessoas de cuja existência, em boa verdade, jamais se tinham lembrado.
De Hollande a Obama, de Cameron a Merkel – os outros batem palmas e acenam com a cabeça – todos acham que o pecado é a realização de um referendo, uma consulta aos cidadãos para saber se querem ficar sob a pata de Bruxelas e Washington ou de Moscovo, já que independência ou autonomia não contam para o caso, o que conta são os portos no Mar Negro, que não gelam nem sob as ordens do temido general Inverno, o que conta são influências e negócios.
(…) Há um ponto em que estou de acordo com o Pacheco Pereira, que diz sempre que vivemos numa mistificação constante, uma confabulação permanente em que passamos ao lado de questões essenciais como a que estão a colocar. Sobre o manifesto: o acordo do pós-guerra seguiu o princípio de que a dívida seria amortizada em função dos ciclos da economia. Parece-me sensato. Defendi-o. Quando Seguro propôs que a dívida superior a 60% fosse mutualizada, manifestei simpatia pela proposta. Quem já exerceu funções de chefia do Governo sabe o quanto a União Europeia fiscalizava à lupa, já antes desta crise, as contas do Estado. Os países não se endividaram às escondidas da Europa.
(…)
Eu não sou daqueles que fustiga o engenheiro Sócrates a dizer que ele é o culpado por tudo o que se passa em Portugal. Acho essa ideia absolutamente caricata e ridícula. A principal culpa pelo que se passa em Portugal são factores externos. O engenheiro Sócrates desorientou-se na parte final do mandato, tomou muitas medidas erradas, mas durante vários anos desenvolveu políticas correctas e tomou muitas boas medidas. O Governo agora até adoptou o Simplex 2. Na área da investigação científica fez muitas coisas bem-feitas e teve muita visão nessa matéria das novas tecnologias.
Foi um primeiro-ministro com visão em várias áreas. Ele era vários deuses ao mesmo tempo, depois caiu em desgraça e passou a ser o culpado de tudo. Isso é caricato. Ele foi um primeiro-ministro com várias qualidades, um chefe de Governo com autoridade e capaz de impor a disciplina no seio do seu Governo.
O que me irrita mais na política é que a política seja um desfile na passerelle. Agora vem aí o Marcelo, o Santana, o Durão, o Costa, qual é que escolhemos? Qual é que tens ideia que é o melhor? Acho que é aquele. E o que pensa sobre este assunto em concreto sobre o qual ele vai ter de decidir? Ai isso não sei. E o outro? Também não.
“Para os mercados, a posição de Putine sobre a Ucrânia e a Crimeia é irracional”. Um velho amigo, recém-contaminado por uma vulgata neo-liberal, explicou-mo pacientemente. Compreendo. A posição de Putine é irracional para os mercados. Mas, o que o meu amigo não tinha percebido, é que na equação de Putine os mercados “já foram” (a resposta de um seu conselheiro sobre as sanções ocidentais deixa isso muito claro…). Neste quadro, são os mercados que perderam a racionalidade. Mesmo se ainda não o sabem… A crise ucraniana tem uma óbvia natureza geopolítica, mas tem também uma derivada tão interessante quanto inesperada: tornou-se, subitamente, a batalha maior da guerra que há anos os mercados financeiros vêm a fazer contra os Estados soberanos (e de que Portugal é uma vítima exemplar). O que se joga nesta “crise ucraniana” é muito mais que o destino da Crimeia ou mesmo de todos os ucranianos… Esta crise é o maior conflito político deste século e vai modelar e moldar o mundo das próximas décadas.
George Friedman viu-o muito bem, já há anos, (obviamente, sem a dimensão da guerra dos mercados contra os Estados soberanos que, na altura, ainda não se manifestava). A análise geopolítica do nosso amigo Friedman é de uma lucidez cortante e antecipou (em vários anos) toda a evolução da situação e a actuação de Putine. Se Obama ou algum dirigente político europeu for capaz de a compreender será conveniente que a leia…
SPIKED | FRANK FUREDI | 5 MARS 2014
C’est la diplomatie occidentale inculte et superficielle qui exacerbe la situation très tendue en Ukraine. Pis, elle met la Russie sur la défensive, avec des conséquences imprévisibles, affirme un chroniqueur britannique.
Il se dit que les gouvernements occidentaux ont été pris au dépourvu par la vitesse des événements en Ukraine. Cela n’a rien d’étonnant. La surprise des responsables occidentaux et de leurs observateurs face, en particulier, à la rapide évolution du conflit en Crimée est l’illustration de leur inculture géopolitique et de la superficialité de la diplomatie occidentale moderne. Quiconque a une connaissance minime de l’histoire et de la position géopolitique de la Russie peut comprendre que ce qui se passe en Crimée a tout autant d’importance pour Moscou que les événements dans des villes russes comme Rostov ou Volgograd.
Nova Teoria do Sebastianismo é um ensaio que reflecte sobre o mito sebastianista como alucinação racionalmente falsa mas sentimentalmente verdadeira e nos dá a conhecer os autores que trataram o tema, desde Bandarra e Padre António Vieira até aos filósofos contemporâneos, passando por Fernando Pessoa, António Quadros, António Sérgio e Eduardo Lourenço.
O presente título insere-se numa colecção na qual foram já publicados dois outros títulos de Miguel Real: Nova Teoria do Mal e Nova Teoria da Felicidade enquanto propostas para uma ética do século XXI.
O general Pires Veloso, um dos protagonistas do 25 de Novembro de 1975 que naquela década ficou conhecido como “vice-rei do Norte”, defende um novo 25 de Abril, de raiz popular, para acabar com “a mentira e o roubo institucionalizados”.
“Vejo a situação atual com muita apreensão e muita tristeza. Porque sinto que temos uma mentira institucionalizada no país. Não há verdade. Fale-se verdade e o país será diferente. Isto é gravíssimo”, disse, em entrevista à Lusa .
Para o general, que enquanto governador militar do Norte foi um dos principais intervenientes no contra-golpe militar de 25 de Novembro que pôs fim ao “Verão Quente” de 1975, “dá a impressão de que seria preciso outro 25 de abril em todos os termos, para corrigir e repor a verdade no sistema e na sociedade”.
Pires Veloso, 85 anos, considera que não poderão ser as forças militares a promover um novo 25 de Abril: “Não me parece que se queiram meter nisto. Não estão com a força anímica que tinham antigamente, aquela alma que reagia quando a pátria está em perigo”.
(…) Obama fez prova e defesa de que a política necessária não é a do desarme do Estado e dos cidadãos entregues a si próprios. (…) Obama fez, com lucidez e sentido de liderança, o discurso que a esquerda democrática europeia tem um estranho decoro em fazer. (…)
É por isso que, quando os governantes dizem que é apenas porque são obrigados pelatroika a tomar medidas como os cortes retrospectivos nas pensões e reformas, estão de facto a enganar-nos. Na verdade, é intencional e faz parte de um plano. É ali que atacam, não pelo peso dessas prestações sociais, (o mesmo se passa no processo paralelo do embaratecimento do valor do trabalho), mas sim porque isso é um elemento do seu plano. Podiam ter todo o ouro do mundo para pagar as dívidas, que não o usariam. Eles têm um alvo.
No encontro com os jornalistas foi anunciada a marcação de uma reunião de oficiais para o próximo dia 22 de fevereiro, em local e hora ainda a designar, onde “farão uma reflexão coletiva” sobre o que poderão os militares fazer para alterar o rumo do país.
Este governo, decididamente, está a deixar obra para lá do seu mandato. Não quer só destruir o país agora. Quer deixá-lo sem possibilidades de se reconstruir depois.
Em três anos, deve haver poucas coisas que escapem à sanha empobrecedora deste governo. Àquelas a que o memorando da troika não obriga lá chegarão eles certamente. É essa a diferença entre um governo de incompetentes e um governo de fanáticos. E que jeito nos dava agora um governo que fosse só de incompetentes.
É pois perfeitamente adequado que a última vítima do governo tenha sido o investimento em ciência. Porque não? Uma das poucas coisas que se poderia atravessar no caminho da estratégia do governo seria a possibilidade de uma economia portuguesa mais especializada, produzindo mais valor, fixando mais conhecimento e exportando melhor. Não é isso que o governo quer. Vou até mais longe. O governo quer o contrário disso: o governo quer uma economia de baixos salários, comprimidos pelo desemprego alto, e produzindo barato para exportar mais (mas não melhor), um país a meio-gás para recursos a meio-gás, e tudo isto complementado por serviços públicos a quem se apertou o torniquete.
Em 1983 foi criado o jornal Semanário por Marcelo Rebelo de Sousa, Daniel Proença de Carvalho, José Miguel Júdice, João Lencastre, Vítor Cunha Rego, João Amaral, entre outros (2). Nos outdoors da campanha publicitária de lançamento surgiam, o que é significativo, os rostos dos fundadores desse jornal. Mais tarde, em 1988, O Independente usaria Winston Churchill nos seus outdoors promocionais, um outro sinal de que Portugal mudara – e muito – desde os tempos do PREC (3). O Semanário teria como repórter, que entrevistava em Paris figuras da «grande direita» europeia, sobretudo francesa (e não anglo-saxónica, note-se), um jovem chamado Paulo Sacadura Cabral Portas.
Não era uma estreia: com uma notável precocidade, Paulo Portas já tinha trabalhado no jornal A Tarde, dirigido por Vítor Cunha Rego, ao lado de personalidades como Vasco Pulido Valente, António Barreto, Manuel de Lucena ou Francisco Saarsfield Cabral. Regressemos aoSemanário. Além da política, num tempo em que o jornalismo económico era muito incipiente – até por efeito colateral da incipiência da actividade privada nos sectores-chave da economia – o Semanário, a dada altura, a altura das privatizações e das Ofertas Públicas de Venda (OPV’s) (4), teria um papel importante na informação económica ou na orientação dos compradores de acções.
Não há dúvida de que o Papa Francisco é hoje uma figura de impacto global, talvez a figura mais popular no mundo, na qual se põe mais esperança e confiança. Foi proclamado como personalidade do ano 2013 pela revista Time, que escolhe, desde 1927, a pessoa que considera ter tido mais influência nas notícias em todo o mundo no respectivo ano. Designou-o como “o Papa das pessoas”, concretizando que “o que o torna tão importante é a rapidez com que captou a esperança de milhões de pessoas que tinham abandonado toda a esperança na Igreja”.
A “Europa” foi uma criação francesa ou francófona (com muito apoio do americano ACUE, de Wild Bill Donovan). Vejam-se os nomes e curriculos dos “pais fundadores”: Jean Monnet , Robert Schuman e o belga Paul-Henri Spaak. Estes, com o apoio do ACUE, souberam forjar alianças com o italiano Alcide De Gasperi, o holandês Johan Willem Beyen, o alemão Konrad Adenauer e o luxemburguês Joseph Bech.
Este “projecto Europa” é, em seguida, adoptado por duas das três grandes “internacionais” dos anos 50: a Internacional Socialista e a Internacional Democrata-Cristã. A Internacional Comunista ficou, claro, de fora e contra o projecto, como impunham as regras da “Guerra Fria”, já que essa “Europa” se fazia como parte da estratégia “to counter the Communist threat in Europe”.
Ao cair o muro de Berlim, todo o quadro da “Europa” caíu. O desaparecimento da ameaça soviética e a emergência da Alemanha (pós reunificação) arruinou e fez ruir este projecto francês de “Europa”, cujo último grande momento foi a década protagonizada por Jacques Delors.
O PSD, como o PS, é hoje controlado internamente de forma muito rígida por uma nomenklatura de carreira, que encontra no acesso ao poder partidário o principal mecanismo “profissional” de promoção, assim como múltiplas oportunidades de “negócio”, a todos os níveis.
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Só aí, os dois únicos homens, Rio e Costa, que acumulam o raríssimo prestígio da acção política prática, nas duas maiores câmaras do país, com o voto dos portugueses, podem lá chegar. Eles são também a última oportunidade do sistema político partidário português sobreviver.
Toda a gente sabe porque gosta de Mandela. Mas, mesmo que fosse possível ler os milhares de textos que sobre ele se escreveram nos últimos dias, seria difícil entender o porquê do porquê.
A minha hipótese: Mandela violava as principais regras da cultura política dominante. Por isso, mais do que admirá-lo enquanto político que conseguiu coisas boas, adorámo-lo como algo mais do que isso.
A melhor forma de anular um homem, e em especial um político, é torná-lo consensual. Depois da morte física mata-se, pelo elogio desmesurado e vazio de conteúdo, a memória política. É isso e apenas isso que me irrita no kumbaia internacional em torno de Mandela, transformado numa personagem romântica de Hollywood, com a vida quase resumida ao apoio que deu à seleção nacional de Rugby e ao olhar bondoso dum velhinho simpático.
Mandela foi um revolucionário. Considerado um radical e um terrorista por grande parte do ocidente e pela generalidade da direita europeia. Isto quase até às vésperas de ser libertado – ou seja, durante quase toda a sua longa existência.
A morte de Mandela mostrou a indigência do jornalismo português. Com um arzinho de circunstância, a televisão e os jornais repetiram os lugares-comuns que se esperavam; e meia dúzia de personalidades contaram histórias sem significado ou relevância sobre encontros que teriam tido com Mandela.
No meio desta desgraça, muito pouca gente se salvou (José Cutileiro e Daniel de Oliveira) e a generalidade do público ficou sem saber quem fora o homem e o que fizera. Para começar, ficou sem saber que nascera na família real da nação xhosa (sobrinho do soba), que estudara numa escola metodista inglesa e na Universidade de Witwatersrand, que se formara em direito e que abrira um escritório de advogado em Joanesburgo. Parecendo que não, estas trivialidades são e continuaram sempre a ser parte do político e explicam em parte a sua carreira.