Bolas de Neve em Janeiro no Teatro Rápido

“Bolas de neve, Dalila. Bolas de neve. Toda a gente as causa vida fora. Atos particulares, aparentemente inocentes, que rebolam ladeira abaixo, arrastando um conjunto futuro de eventos. Às vezes, de crescente maléfico. E a Dalila, ao longo da vida, já causou muitas bolas de neve.”
Uma mulher presa num mundo imaginário sem fim, é confrontada com as suas ações, promessas, ou simples reações que afetam a vida de outros, mesmo sem ter noção disso.SALA 1 – Bolas de Neve
Horário das sessões: 18h00 / 18h25/ 18h50/ 19h15/ 19h40/ 20h05
de quinta a segunda | M/12 | 3€Texto Susana Romana
Encenação Bernardo Gomes de Almeida
Interpretação Ana Varela e Ricardo de Sá

Rua Serpa Pinto, 14, 1200-445 Lisboa
Ter

Nemesis de Philip Roth por Urbano Tavares Rodrigues

A atmosfera fétida deste romance onde o pânico da poliomelite, dos micróbios, do contágio avassala populações inteiras de cidades e campos de jogos, mostra-nos um Philip Roth que sai dos seus registos habituais para mergulhar no horror.

O herói é um simples monitor de exercícios ginásticos, que vê fugir-lhe a rapariga pela qual se apaixonou para um jovem doente que ele ampara como se seu filho fosse e que, ainda todo lacerado pelo mal que o afetou, recusa por sua vez o amor dela, superaltruísta, nestas circunstâncias.

O herói firme, mas apagado, que é Buck Cantor glorifica-se, no final do romance, como lançador de dardo.

Um inesperado romance de Philip Roth, fora dos seus registos habituais.

FONTE:  http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=31115

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CRISTINA CARVALHO em “MARGINAL”

‎(…) Desgraça era já quase não ser nem mulher nem nada. Desgraça era continuar assim seca, humilhada, inútil! Quantas vezes em noites mais quentes, o Aníbal coxo a soprar um fino fio de respiração pelas narinas, dormindo sossegadamente e ela em sufoco desesperado a encostar-se muito às suas pernas tesas, praticamente paralíticas. E encostava-se tanto e tanto e tanto e tanto e tanto que chegava a magoar-se e a sentir-se mal, subiam-lhe náuseas pelo peito acima, não queria tocar-lhe em mais lado nenhum embora lhe apetecesse muito e tinha uma resposta preparada «Que queres? Devia estar a sonhar, algum pesadelo…»

CRISTINA CARVALHO em “MARGINAL” – livro (romance) a aparecer no próximo mês de Fevereiro publicado por Planeta Manuscrito – Portugal

CC

António Paiva

António Paiva, nasceu a 21 de Março de 1959, em Santo André, Vila Nova de Poiares, uma vila situada entre a Serra da Lousã e o Rio Mondego. Cresceu na aldeia de Travasso, concelho de Penacova.

Por lá estudou e pastoreou até à idade de 18 anos, a partir daí foi para a cidade de Coimbra, onde prosseguiu os estudos e iniciou a sua vida profissional. No ano de 2000 decidiu rumar à bela ilha da Madeira, onde residiu até Março de 2010. Em Abril de 2010 fixou a sua residência no Seixal, tendo como cenário dos seus dias a magnífica Baía do Seixal e o rio Tejo.

Apesar de a escrita o acompanhar desde muito cedo. Só em finais de Agosto de 2006, surge a publicação do seu primeiro livro de poemas, “Juntando as Letras”. Em Maio de 2007, é editado o seu segundo livro, “Janela do Pensamento”, uma compilação de poemas e prosa poética. Quase a terminar o ano, em Outubro de 2007, nasce mais um livro de poemas e prosa poética, intitulado “Navegando nas Palavras”. No ano de 2008 fez parte de um grupo de onze autores, que lavraram e assinaram as páginas do livro, “Leituras Soltas”, uma edição conjunta da Fnac e da editora O Liberal, lançado a 13 de Dezembro.
Abril de 2009 é editado o seu primeiro livro exclusivamente em prosa “Pedaços de Vida e Fantasia”. Em Outubro do mesmo ano é editado o seu livro “70 poemas por um sorriso”. Em Abril de 2010 edita de novo em prosa “Livro Imperfeito”. Maio de 2011, “À Conversa Com Alves Redol & As Sequelas” saiu da gaveta para habitar as páginas de um livro.

Obras colectivas em que participou:
Leituras Soltas – 2008, Antologia Poético-Literária 7 Pecados – 2010, Colectânea Arte Pela Escrita III – 2010, Antologia de Poesia Contemporânea Entre o Sono e o Sonho Volume III – Chiado Editora, 2012..

Prefácios a obras de outros autores: Brisas do Mar, de Vanda Paz, Novembro de 2008. Pedaços do Meu Sentir, de Vítor Cintra, Maio de 2009, Uma Prosa… Um Verso, da escritora brasileira Ibernise Maria, Novembro de 2009, Águas de Ternura, de António MR Martins, Março de 2011.

Em Dezembro de 2007, O Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, confere-lhe o Diploma de Honra e Mérito ao Escritor.

Página pessoal:
http://www.antoniopaiva.net

António Paiva

António Paiva

VIAGEM NO PASSADO POR CAUSA DO PRESENTE por José Pacheco Pereira in “Abrupto”

Hoje tudo é muito diferente em relação ao passado, mas também muita coisa é demasiadamente igual.
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Cartazes do CDS, 1976.

Cartazes do CDS, 1976.

No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc. Havia uma multidão de criados e criadas, criadas “de servir”, e muito trabalho infantil em todas as profissões, em particular nas mercearias, onde os marçanos viviam uma infância muitas vezes brutal, dormindo na loja e carregando com cargas muito pesadas. Falei em operariado, mas na verdade, muito poucos correspondem ao conceito, porque se trata mais de artífices, trabalhadores indiscriminados, e em muitos casos com profissões hierarquizadas em que os aprendizes eram sujeitos a todos os abusos. Havia depois uma aristocracia operária, essencialmente entre os que faziam tarefas qualificadas e mais bem pagas, como era o caso dos tipógrafos, que sabiam ler e por isso tinham um mundo social diferente. Antero de Quental foi tipógrafo de passagem.
Deixo o campo de lado, em que a maioria dos portugueses ainda vivia, onde havia igualmente um território obscuro e pouco conhecido que despertou com a I República, os trabalhadores rurais alentejanos. Estes viviam uma vida violenta e esquecida no meio do deserto alentejano. Nos meios rurais vários grupos de trabalhadores vegetavam na mais negra miséria e vendiam o seu trabalho sazonalmente, nas vinhas do Douro, nos campos do Alentejo e Ribatejo como maltezes e ratinhos. O que de mau se pode dizer das cidades, pode-se dizer pior do campo ou das vilas piscatórias do litoral e mineiras do interior.
A economia do mundo operário centrava-se no salário muito escasso, na renda de casa, numa vila operária ou numa “ilha” se fosse no Norte do país, onde se amontoavam em condições higiénicas e sanitárias inimagináveis. A epidemia de cólera no Porto, e a habitual ocorrência de tifo, demoraram muito anos a lembrar os governantes do problema de insalubridade da “habitação operária” e deram origem aos bairros sociais no salazarismo.
O vestuário masculino e feminino era muito grosseiro, sarja, serapilheira, chita eram comuns e os sapatos eram para usar aos domingos. Até à década de cinquenta do século XX o pé descalço era um símbolo da pobreza portuguesa. Alpergatas feitas com um bloco de madeira e uma tira de borracha de pneu eram o calçado operário mais comum. As mulheres vestiam-se ainda como se estivessem no campo e os homens já menos, mas mesmo assim o traje operário, como o fato-macaco, demorou a tornar-se comum porque era caro.
A alimentação era de péssima qualidade e a fome, e doenças associadas com as carências alimentares, como o raquitismo, eram comuns. A tuberculose era generalizada, e o alcoolismo um flagelo social. Eram igualmente comuns os traços da varíola, da poliomielite, e em certas zonas do país havia malária e kala-azar. Não havia dinheiro para ir ao médico e também não havia muitos médicos e menos hospitais, já para não falar de medicamentos. A dependência da caridade da igreja ou pública, sob formas como a “sopa dos pobres”, implicava regras de comportamento disciplinares, subserviência e cabeça baixa. Havia muita mendicidade.
A prostituição, a criminalidade e o roubo eram generalizados. Havia um número elevado de “matriculadas” e um número ainda maior de mulheres que se prestavam ocasionalmente à prostituição por razões económicas. A violência sexual nas fábricas era uma forma de “direito de pernada” que ninguém contestava e a violência nas famílias sobre as mulheres uma hábito estabelecido. Em Lisboa a criminalidade “apache” de navalha, vinho e fado era a regra, nos campos o assassínio bruto à paulada e a machado associava-se ao roubo nos matos e ao incêndio de searas. A reivindicação de polícia rural está alta na lista de todas as associações de agricultores, como os senhorios urbanos temiam os seus inquilinos.
A esmagadora maioria da população era analfabeta, e os poucos que tinham algumas letras não passavam da instrução primária, muitas vezes incompleta. No entanto, havia uma reverência à escola e à instrução, como sinal de ascensão social. Para muitos pobres, o seminário era a única escola possível.
Os trabalhadores não tinham quaisquer direitos enquanto trabalhadores. Os patrões, fossem os “industriais” com dinheiro brasileiro e títulos de barão e visconde, ou os donos das pequenas oficinas de marcenaria ou de panificação, podiam decidir tudo sobre os seus trabalhadores. Os horários podiam ser de sol a sol, as condições de trabalho eram terríveis, os acidentes de trabalho e as doenças profissionais comuns, as ordens de patrões e capatazes eram indiscutíveis, os dias de doença não eram pagos, as faltas, por muito justificadas que fossem, idem, e o despedimento não tinha qualquer formalidade – chamava-se o trabalhador e “punha-se na rua”. Ponto.
Durante a segunda metade do século XIX, os operários começaram a organizar-se e a reivindicar alguns muito escassos direitos. À medida que as antigas corporações desapareciam, e com estas algumas confrarias que ofereciam um escasso apoio social a grupos profissionais, apareciam associações mutualistas que pretendiam em primeiro lugar garantir um funeral decente em vez da carreta dos pobres e a vala comum, assim como algum apoio às viúvas e aos filhos, que a morte deixava de imediato na pobreza absoluta. Os peditórios eram comuns. Esse mundo da economia popular pode ser visto por um observador atento que visite alguns bairros antigos de Lisboa, onde encontra ainda restos da paisagem operária marcada pelas lojas de penhor, pelas funerárias e pelas tabernas.
Os sindicatos, no sentido moderno do termo, surgiram a partir das associações de classe e de um espírito de resistência e auto-organização, que, não sendo nunca muito forte, estabeleceu-se com tenacidade. Havia greves, algumas violentas e tumultuárias, mas também era comum que um gesto qualquer caritativo do patrão fizesse voltar os operários ao trabalho, muito agradecidos com a benesse. A relação paternal entre o patrão e os “seus” operários estava incrustada no tipo de relações sociais dominadas pela clientela e pelo patrocinato. O caciquismo era a face política dessas mesmas relações, a partidocracia actual a sua herdeira.
Do seu lado, do lado das “classes laboriosas”, havia muito pouca gente, alguns raros filantropos com ideias progressistas, muitos filantropos com ideias reacionárias, e, durante a sua breve vida, um Rei D. Pedro V. E, pouco a pouco, legislação sobre o trabalho, as condições de trabalho, a “previdência”, e um embrião de um direito laboral foi fixando horários, salários, regras, descontos, faltas, doenças, obrigações, e, palavra maldita, do direito nasceram direitos adquiridos.
Estamos a falar de cem, cento e cinquenta anos, mas saímos deste mundo há pouco mais de cinco décadas, com muito sofrimento, esforço e trabalho, consolidando melhorias e direitos. Na década de sessenta, a vida começou a melhorar muito lentamente. A emigração representou a válvula de escape para muita desta miséria, e na França, na Alemanha, como antes no Brasil e Venezuela. Uma lenta mas construtiva industrialização, iniciada nos anos cinquenta, e uma política de “fomento” permitiram, junto com a economia colonial acicatada pela guerra, algum progresso material. E Marcelo Caetano deu a reforma aos rurais e o 25 de Abril o resto.
Foi um processo lento e nalguns aspectos pouco amável, que incluiu uma revolução e alguma violência, cá e principalmente em África. Conseguimos uma muito razoável integração dos “retornados”, mais eficaz pela plasticidade da sociedade portuguesa do que o que aconteceu em França com os pieds noirs. Acabámos com os frutos malditos da pilha de ouro entesourada no Banco de Portugal, a mortalidade infantil, o analfabetismo, a pobreza, a absoluta desprotecção face aos infortúnios do trabalho e da vida.
Melhorámos alguma coisa, mas não muito. Mas foi tudo muito lento e muito tarde, o que significa que os portugueses mais velhos ainda têm uma memória viva, muito provavelmente biográfica, desta pobreza ancestral. Mesmo os que já não a viveram sabiam pelos seus pais e avós que era assim, e isso significa, ao mesmo tempo, um certo conformismo e alguma revolta.
O último tempo onde mais negra foi a miséria portuguesa que ainda pode ser lembrado pelos vivos foi por volta de 1943, o ano em que houve um excedente da balança comercial que a imbecil ignorância actual se permite louvar, sem saber do que está a falar. Ter havido excedentes na balança foi bom, a razão por que isso aconteceu foi péssima. É essa fractura entre a abstração e a realidade que torna obrigatório viajar pelo passado por causa do presente. Tudo é muito diferente, mas também muita coisa é demasiadamente igual. Esperemos que em 2013 não se torne ainda mais parecida.
(Versão do Público de 22 de dezembro de 2012.)
FONTE:  http://abrupto.blogspot.pt/2012/12/viagem-no-passado-por-causa-do-presente.html

Leitores do PÚBLICO elegem Afonso Cruz, ALT-J e Moonrise Kingdom como os melhores do ano

Há dois nomes portugueses entre os melhores do ano para os leitores do PÚBLICO. Afonso Cruz, que venceu de forma inequívoca a votação para eleger o melhor livro de 2012, com Jesus Cristo Bebia Cerveja. Miguel Gomes ficou em segundo nas preferências dos leitores para o cinema, com o muito aplaudido Tabu.

As escolhas foram feitas online em três votações separadas ao longo de quatro dias – entre dia 28 de Dezembro e o último dia do ano –, a partir de três listas com 50 livros50 discos e 50 filmes pré-seleccionados pelos jornalistas e críticos do PÚBLICO.

Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara) venceu com 19% dos votos na Literatura, à frente de A Piada Infinita de David Foster Wallace (Quetzal) e de 1Q84 de Haruki Murakami (Casa das Letras), que amealharam respectivamente 10% e 9% dos votos. O resultado desafia as escolhas do ípsilon, que não incluíam nem Afonso Cruz nem Murakami (à frente ficaram, além de Foster Wallace em terceiro, O Bom Soldado de Švejkde Jaroslav Hašek em primeiro e Já Então a Raposa Era o Caçador de Herta Müller em segundo).

No cinema, Tabu foi, para os críticos do PÚBLICO, o filme do ano. Mas os leitores que participaram na votação preferiram Moonrise Kingdom (14%), de Wes Anderson. O filme de Miguel Gomes ficou em segundo (13%) e Vergonha, de Steve McQueen, em terceiro (11%). Estes dois também fizeram parte dopódio no ípsilon.

À lista de 50 filmes levada a votos, os leitores acrescentaram, no espaço para comentários, muitos outros títulos. Entre os mais citados encontram-seAmigos Improváveis (Olivier Nakache e Eric Toledano), Cloud Atlas (irmãos Wachowski), Looper – Reflexo Assassino (Rian Johnson), Os Vingadores(Joss Whedon) e Temos de Falar Sobre Kevin (Lynne Ramsay).

Nos discos, Tame Impala é consensual entre críticos e leitores: Lonerism é um dos melhores do ano. Só muda a posição na tabela, do primeiro lugar para o segundo (8%). Para os leitores, o melhor disco de 2012 foi An Awesome Wavede ALT-J (10%). The xx é o terceiro nome no topo da lista, com Coexist, com o mesmo resultado de Tame Impala (8%).

A escolha do disco do ano foi a que mais participação gerou. E mais sugestões de novos títulos para a lista: Desfado de Ana Moura, Wrecking Ball de Bruce Springsteen, Shields de Grizzly Bear e Confess de Twin Shadow foram alguns dos álbuns de que os leitores mais sentiram falta na votação.

FONTE:  () – http://www.publico.pt/cultura/noticia/leitores-do-publico-elegem-afonso-cruz-altj-e-moonrise-kingdom-como-os-melhores-do-ano-1579128?fb_action_ids=466955423341536&fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline&action_object_map=%7B%22466955423341536%22%3A514911288529710%7D&action_type_map=%7B%22466955423341536%22%3A%22og.recommends%22%7D&action_ref_map=%5B%5D

Foto: RUI GAUDÊNCIO

Foto: RUI GAUDÊNCIO

Antonio Negri. “Não há saída para a crise. A guerra tornou-se uma possibilidade”

Por Nuno Ramos de Almeida, publicado em 4 Fev 2012

Antonio Negri, conhecido por Toni Negri, é um pensador e activista italiano. É autor de uma vasta obra em que o pensamento político radical se mistura com a filosofia de Espinosa. Foi dirigente da organização de extrema-esquerda Poder Operário. Esteve preso. É nome cimeiro da corrente marxista autonomista.

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Num dos seus muitos livros, Antonio Negri fala de Kairòs, o momento em que Deus toca na história; este filósofo italiano que nasceu em Pádua em 1933 já viu muitas vezes a história ser feita. E pagou o preço por isso. Acusado, por “arrependidos”, de ser o mentor ideológico das Brigadas Vermelhas, esteve preso. A Itália assustada com o terrorismo de extrema-direita e de extrema-esquerda precisava de exorcizar os seus fantasmas, mesmo que isso significasse acusar falsamente. Tem uma vasta obra escrita, em que se destaca, depois da sua libertação da prisão, “O Império”, escrito com o norte-americano Michael Hardt. Esteve em Lisboa para falar de manifestações e dos novos manifestos que aí vêm.

A crise a que assistimos hoje é uma crise normal ou é uma crise extraordinária que pode levar a uma ruptura?

É uma crise ligada a uma transformação profunda da ordem política, das condições tecnológicas da produção, e sobretudo devida à globalização. É este processo que está na base da crise, mas sem as transformações tecnológicas a globalização financeira não teria sido possível. Sem a forma como se trabalha a informática e a comunicação, a mobilidade e a flexibilidade de todas as forças produtivas seriam impossíveis. A globalização económica e a transformação informática são as duas faces de uma mesma moeda. Esta mutação é acompanhada pela passagem ao capitalismo financeiro em que o capital financeiro se torna o veio fundamental da globalização. É em torno da finança que se organizam os mecanismos de comando desta sociedade globalizada. Esse processo não se faz sem problemas. A transformação do universo financeiro dá aos mercados a possibilidade de mudar as estruturas políticas. Assistimos ao declínio relativo soft, mas real, da potência norte- -americana e ao nascimento de uma nova polaridade: a China. E ao mesmo tempo à crise do bloco europeu. Tudo isso contribui uma crise que é global.

Mas é uma crise profunda?

É uma crise muito profunda, extremamente profunda. No caso da Europa, ela não é capaz de gerir com uma organização adequada as transformações políticas inerentes à globalização. Não tem instrumentos políticos que lhe permitam defrontar a crise global, e por outro lado há uma crise financeira. Nesse campo, as instituições e os instrumentos financeiros europeus não foram capazes de resistir à pressão anglo-americana. E isso é perigoso porque as tornou integradas com as práticas dos capitalistas americanos que desencadearam a crise. Temos portanto uma crise que é provocada, em certa medida, por nós mesmos, europeus, que não conseguimos sair desta crise. Estou muito pessimista.

Está em Lisboa para participar numa iniciativa internacional sobre manifestações e manifestos. Observamos na Europa e no mundo um tempo de emergência de tumultos e de revoltas. Acha que elas podem ter sentido e conduzir-nos a uma modificação estrutural da situação? O seu amigo Slavoj Zizek costuma dizer que um dos problemas desta época é que acreditamos mais na possibilidade de uma catástrofe ou de uma invasão alienígena que na simples possibilidade da mudança de um modo de produção…

A questão posta nestes termos pode ter a mesma resposta que deu Zizek. O problema é que talvez os termos da proposição não estejam correctos. As pessoas são diferentes daquilo que a gente imaginava. Hoje a transformação das classes subalternas, que são aquelas que teriam interesse numa revolução, são extraordinariamente profundas. Há uma ligação cada vez mais plena, pelo menos nos países desenvolvidos, entre o velho proletariado e uma classe média enormemente empobrecida. E isso determina dificuldades profundas, de linguagem e de instrumentos de comunicação em torno dos protestos, mas sobretudo de projecto. Mas há elementos revolucionários em si: a indignação, e não falo especificamente do movimento dos indignados, e a consciência cada vez mais profunda e forte de que a ordem democrática inventada no século xviii e concretizada de uma forma global após a queda da União Soviética não é qualquer coisa que se possa confrontar com a ordem mundial que agora se impôs. Há uma crise política que alimenta reflexões e movimentos extraordinariamente poderosos. A crise está lá: à direita e à esquerda. A crise da representação política está presente em toda a Europa.

Em Itália temos o governo dos tecnocratas…

Em Itália atingiu-se o grotesco. É sempre assim, os italianos são sempre demasiado inteligentes de forma que conseguem sempre fazer as coisas na forma pior. É evidente em Itália que a democracia já não existe. O que sobra é uma espécie de ditadura comissária, como se define nos tratados que eu estudava quando era jovem. Percebia-se, lendo Friedrich Carl, que a ditadura romana não era igual a uma ditadura como a de Mussolini, mas era um regime que procurava a ordem do bem-estar de uma nação, através da entrada de uma vontade exterior na resolução de uma crise anterior e interna.

Na sua obra põe o acento da mudança, não nas condições económicas existentes, mas na tradição do “operaismo” italiano, na acção de quem trabalha.

No “operaismo” damos mais importância ao movimento: mais importância ao trabalho vivo em relação ao trabalho morto e à condição institucional. Mas não esquecemos essa parte, até porque há sempre acção e resistência. Hoje estou convencido que o grande problema é que a relação entre acção institucional e realidade social é uma relação quebrada. Podemos retomar, num sentido diferente, a célebre fórmula de Mao de que “um se partiu em dois”. O problema não é somente dos proletários que têm dificuldades ou dos movimentos de indignação, é também criado pela nova ordem financeira. Há uma ordem financeira que movimenta muitas vezes mais capital que aquele que corresponde à produção de bens e serviços. Neste quadro, o keynesianismo já não funciona, não pode funcionar a nível nacional, e a nível global não tem interlocutores como os sindicatos. Tudo aquilo que representava a velha lógica fordista da produção não pode existir numa relação globalizada. Qual é a regra pela qual o capitalismo financeiro deseja desenvolver-se? Vivemos o risco de ver desencadear uma guerra. Nestas condições, em que não há uma saída objectiva para a crise, a guerra tornou-se uma possibilidade.

Uma guerra no Irão seria uma escapatória possível para a actual crise económica?

Não acredito que a guerra vá ser decidida porque há uma crise. Acredito que a crise pode determinar a guerra. A conflitualidade é sempre depois. Tenho medo. Vi no outro dia o primeiro-ministro israelita dizer que “a guerra estava muito longe”, logo os meus receios de que esteja próxima podem ser fundados [risos].

Nos seus trabalhos rompe com a lógica tradicional dos pensadores associados ao comunismo: a existência de uma classe de vanguarda e de um partido de vanguarda. Defende uma mudança que venha de baixo…

Já não há vanguardas da classe operária.

A pergunta que lhe queria fazer é como pode acontecer uma mudança de baixo feita por uma multidão de singularidades. Como pode uma massa de diferentes criar uma espécie de sentido para criar algo de novo?

É preciso ter atenção. Não é verdade que sejam todos diferentes. É verdade que a Primavera egípcia parece nada ter que ver com o movimento de Madrid e que a luta dos subúrbios de Paris ou de Londres nada têm que ver com o movimento do Occupy Wall Street, mas é também verdade outra coisa que é a existência de um efeito de imitação extremamente poderoso. E ao falar de efeito de imitação não estou a abordar alguma coisa de simbólico: os efeitos de imitação nas bolsas mundiais são elementos fundamentais para perceber a crise em que vivemos. Por seu turno, não podemos explicar os movimentos e as revoluções de 1848 sem abordar os efeitos de imitação, mesmo numa altura em que os meios de comunicação social eram embrionários, como não podemos explicar 1968 sem eles. Devemos por isso ser prudentes nessa análise. É verdade que a força de trabalho que era composta pelo proletariado se transformou radicalmente. Nisso entraram a comunicação e o conhecimento. A comunicação não é apenas que nós dois podemos comunicar. É o facto de nós dois podermos produzir juntos através da comunicação, da informação e do saber. Actualmente assistimos a um mundo em que há formas comuns que se foram consolidando. Por exemplo, o comum da dívida. Hoje em dia se fizermos uma análise de tipo humano da exploração, vai encontrar no cimo, não o homem explorado, mas o homem endividado. E o homem endividado está dentro de uma rede, e está numa rede que pode tomar consciência do peso da dívida e revoltar-se. Há outras redes, como a dos homens “mediatizados”, aqueles que são alienados da comunicação. Mas aqui também é possível ver instrumentos de comunicação que podem determinar uma subjectividade alienada transformar-se em forças enormes de revolta. E há o homem “securizado”. Todos os governos de direita fazem um apelo evidente a isso. A procura de segurança é uma necessidade que encontra campo nas pessoas perante uma insegurança crescente. Uma ordem mantida pelo medo. E há ainda o problema do homem representado, representado de que forma? Chegamos aos absurdos mais inimagináveis: a corte suprema americana deu a autorização de serem anónimos aos que contribuem com fundos para as campanhas dos candidatos. Significa que a riqueza enquanto tal assume o papel fundamental na escolha da classe dirigente. Entramos no reino da pura loucura.

Aparentemente, apesar do efeito de contágio, os movimentos produzem resultados diferentes: os indignados marcham por uma democracia real, a Primavera Árabe levou ao triunfo do fundamentalismo islâmico e o discurso da insegurança faz subir a extrema- -direita em toda a Europa…

Julgo que abordou aqui um problema fundamental que é a forma como podemos utilizar uma mesma situação. Como sabe, há, por exemplo, uma teoria que parte de Maquiavel que é democrática e há uma teoria que parte do mesmo autor que é contra as mudanças. O jogo está sempre aí. E é necessário saber jogá–lo. Estou extremamente pessimista, e não sobretudo pela sorte da herança de Maquiavel, mas pelo destino da humanidade (risos). Honestamente, hoje chegámos a um ponto em que, como dizia o velho Karl Marx, as forças produtivas e as relações de produção estão numa contradição profunda.

Mas essa contradição não tem aparentemente um sujeito histórico que a cavalgue.

Estou convencido que essa força é o trabalho cognitivo. As forças que trabalham na informação e na comunicação, não falo obviamente dos jornalistas [risos]. É, por exemplo, a luta nas universidades e a criação de uma nova subjectivação. Hoje os instrumentos não são os partidos. De direita ou de esquerda, os partidos estão completamente afectados pela crise da representação.

Defende que se devem recusar as eleições e a escolha de representantes democrática?

Para mim, vivemos um momento de existência de um poder constituinte que reinvente radicalmente as instituições que nos permitem viver juntos. Não sei quem as vais reinventar. Acho que não devemos resolver esse problema em Wall Street. O dinheiro deve assumir um poder constituinte ou são os de baixo que devem fazê-lo? Quem vai ganhar?

Em 2009, na sua intervenção no colóquio internacional sobre a ideia do comunismo, defendeu a multiplicação das acções da multidão contra o Estado, a vivência de uma militância comum e a criação de novas instituições…

É evidente que todo o movimento de subjectivação só pode partir de subjectividades que tenham mudado. As mudanças começam pela alteração da singularidade e é preciso fazê-las. Não há um qualquer partido comunista que as faça por nós. Eu venho de uma família de tradição comunista, em que vi gerações de pessoas decididas a fazer as coisas. Somente assim é possível produzir subjectivações que se tornem reais. Depois o problema é que de facto vivemos numa situação que é revolucionária. Mas dizer isso não significa que haja uma revolução. Quando Marx começou a escrever “O Capital”, em 1858, dizia “assistimos à crise mais bela”, era uma crise terrível, que lhe permite entender as leis exteriores ao capital, que são aquelas que decorrem da luta de classes. Estamos numa situação parecida, entramos num mundo novo, no qual ninguém sabe o que se passará. A consciência desta ruptura em que “um se dividirá em dois” está hoje presente.

Assistimos um pouco por toda a Europa à destruição das empresas públicas. No entanto, faz na sua obra uma distinção radical entre serviços públicos e bens comuns, tendo uma apreciação negativa daquilo que é público. Defende os serviços públicos neste contexto de destruição do Estado social?

Vou dizer-lhe claramente. Em Itália fizemos um referendo para impedir a privatização das águas. Foram 28 milhões de italianos que votaram contra a privatização da água, e neste momento o governo, com o apoio da Europa, decide privatizar a água enquanto nós, os 28 milhões, lutamos para que a água fosse um bem comum. Não só a água, mas tudo aquilo que existe em torno dela deve ser gerido de uma forma democrática. Há 28 milhões de pessoas que votaram isso e agora querem-nos impor uma água privada mascarada de pública. Considero que o público não é mais que uma garantia do privado. Hoje em dia o público não é mais que a manutenção da ordem pública para dar aos privados, numa relação de subordinação, os bens comuns e a exploração das coisas. O público foi sempre nas democracias capitalistas alguma coisa que servia os interesses privados. Parecia existir apenas numa outra correlação de forças, num tempo em que a revolução soviética e o medo da União Soviética, e as lutas de classes nos países ocidentais determinaram essa existência. Uma existência que era mais forte em nossa casa, porque estávamos mais perto dos soviéticos, e bastante menos forte no Texas, que estavam mais longe da União Soviética [risos].

Falava nos movimentos universitários, mas assiste-se em Portugal a um processo em que cada vez é mais caro estudar no ensino superior.

Por todo lado tanto vemos a privatização falir como trinfar. Estive no Chile, e aí há um forte movimento antineoliberal com uma fortíssima capacidade de subjectivação. Na América Latina assiste-se a uma verdadeira revolução nos últimos 20 anos. Esta irreversibilidade do caudilhismo, a ruptura da dependência económica com os países do Norte. No Brasil foi instituído o rendimento mínimo garantido. Eram coisas inimagináveis há décadas. Ontem estive com uns amigos e eles diziam que a Biblioteca Nacional portuguesa está quase sem dinheiro. E eu dizia-lhes: “Porque não pedem aos brasileiros?” A manutenção do património da língua portuguesa é também do interesse deles. E não é irrealista, mas se eu dissesse há 20 anos que o Brasil estava em condições de dar dinheiro a Portugal ninguém me acreditaria.

Em Portugal seria mais provável ser privatizado para os chineses comprarem [risos]…

Ai, também é necessário ser prudente. Nunca se sabe o que se passa na China. A definição do capitalismo chinês exige rigor. Ali o poder das empresas públicas é gigantesco. E é preciso perceber que toda a crise cíclica do capitalismo global, que nos engloba a nós e a eles, vai necessariamente repercutir-se na China e acerbar contradições. Até porque os chineses não são carneiros. São pessoas.

Há mais de uma década escreveu “o Império”, com Michel Hardt, e aí defendia que havia uma espécie de desaparecimento da soberania dos estados. Mudou de opinião com este recrudescimento das potências nacionais: as guerras dos Estados Unidos, o aparecimento da China, a imposição da vontade alemã na Europa, etc.?

Mudámos e não mudámos. É evidente que não houve uma constitucionalização do império, mas também é evidente que mesmo os poderes nacionais fortes, como a China e a Alemanha, estão completamente subordinadas ao mercado. E esse mercado não tem pátria, apesar dos esforços chineses e americanos. Dito de outra forma, o soft power americano é isso, é a transposição do poder político para o poder financeiro. Estamos a viver essa forma do declínio americano que é clássica: já se tinha passado em Espanha há séculos, aconteceu com o Reino Unido há uma centena de anos.

Pensa que é possível que os EUA percam a hegemonia político-militar?

Do ponto de vista militar isso é totalmente evidente. Os EUA perderam todas as guerras em que se têm metido. Não sei se têm a capacidade de vencer o Irão. Os israelitas também perderam a última guerra em que se meteram no Líbano. É preciso ser realista, eles não são a grande potência que as pessoas imaginam. Há 20 anos, quando escrevíamos “O Império”, tivemos conhecimento de um livro de Joseph Nye em que se falava do conceito de soft power. O autor era colega do Michael Hardt e ficamos fascinados pela sua tese, em que ele dizia com todas as letras que a grande potência americana tinha de certa forma terminado. Neste momento está a fazer lobbying em Washington a vender o presidente. Foi assim que passaram do governo à governança, e esta não se faz com os porta-aviões, mas com o poder financeiro e as agência de notação.

Participou em 2009 numa conferência internacional com o desafio de discutir uma nova ideia de comunismo. Nela estiveram presentes dezenas de pessoas, entre os quais Badiou, Rancière ou Hardt. Há uma convergência entre filósofos diferentes a este ponto?

Há grandes diferenças, mas isso não significa nada. Aquilo que é importante é que voltámos a conseguir estar juntos para falar do comunismo.

Há algum futuro numa palavra que nos dias de hoje está contaminada por regimes como a Coreia do Norte e a China?

Eu sou contra o estalinismo desde que nasci. Estive preso porque os comunistas italianos me deixaram ir para a prisão. Nunca joguei esta ambiguidade. Para mim a ideia de comunismo é a que tinham o meu pai e os meus irmãos, a vontade de construir uma sociedade em que a igualdade é fundamental, em que não haja patrões, sobretudo patrões idiotas [risos]. Eu nasci durante o fascismo. Tinha 12 anos quando o fascismo caiu e não foi bom viver nesses tempos.

Viveu grande parte do século xx e a sua transição para o xxi. Tem esperança?

Sou pessimista porque tenho medo. Vejo o que há, mas da outra parte sinto a potência deste século de reiventar, talvez não o comunismo, certamente não o comunismo soviético, mas o comum. É preciso reinventar as formas em que teremos a capacidade de nos dirigir a nós mesmos.

FONTE: http://www.ionline.pt/mundo/antonio-negri-nao-ha-saida-crise-guerra-tornou-se-uma-possibilidade

Corja Maldita de Pedro Almeida Vieira por Miguel Real

O classicismo e a transgressão
Miguel Real, in Jornal de Letras – 28-07-2010

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A recente publicação de dois bons romances históricos, «Crónica do Rei-Poeta, Al-Mu’tamid», de Ana Cristina Silva (ACS), e Corja Maldita, de Pedro Almeida Vieira (PAV), vieram revelar quanto este género literário, não perdendo qualidades estéticas, se adapta e convive com diferentíssimas estruturas narrativas, sejam clássicas, sejam modernas (ou pós-modernas).

Com efeito, se a forma em que é vazado aduz um suplemento de interesse literário ao romance histórico, provocando no leitor, porventura, uma superior comoção estética, também é verdade que este tipo de romance, como o policial, vive sobretudo do seu conteúdo, isto é, da qualidade da história factual narrada. Neste sentido, os romances acima referidos são alimentados por um vivo manancial investigativo de fontes históricas e uma selecção de acontecimentos que lhe garantem uma qualidade acima da habitual no romance histórico português recente, que pulula (e polui) as estantes das livrarias.

Outra coisa não seria de esperar face à qualidade dos anteriores romances dos dois autores, de que destacamos, de ACS, «As Fogueiras da Inquisição» (2008) e «A Dama Negra da Ilha dos Escravos» (2009), e, de PAV, «Nove Mil Passos» (2004), «O Profeta do Castigo Divino» (2005) e «A Mão Esquerda de Deus» (2009).

Assim, se ambos os romances se assemelham quanto ao escrúpulo documental de verdade e ao rigor analítico dos acontecimentos, diferem fortemente, no entanto, quanto ao seu estatuto formal. «Crónica do Rei-Poeta, Al-Mu’tamid», sem se subordinar em absoluto à cronologia, é dotado de uma estrutura clássica, desenvolve a intriga em círculos concêntricos e opera uma ligação harmónica e umbilical entre o plano da história das taifas árabes no sul da Península Ibérica ao longo do século X e XI e o plano da fabulação sobre a vida de Al-Mu’tamid, de tal modo os entrelaçando e fundindo que se tornam indistinguíveis no corpo do texto.

ACS relança neste livro o seu habitual estilo reflexivo e explicativo, de evidente cariz psicológico, no qual, mais do que a descrição de costumes físicos e sociais pertinentes aos reinos árabes inimigos dos cristãos, sobrelevam características psicológicas, como a angústia e a autenticidade da existência.

Um evidente psicologismo é explicitado na relação de Al-Mu’tamid com o pai, com a memória do filho morto, na relação com os poderes organizativos das cidades (Sevilha, Silves, Córdova), na relação com o próprio Islão e com a necessidade de desbloqueamento dos radicalismos políticos, na relação com a poesia e com a morte.

Romance filosófico, nele preside a interrogação individual sobre o sentido da vida. Vocacionado para a espiritualidade poética, Al-Mu’tamid vê-se forçado a obedecer à força da hereditariedade, assumindo a realeza no tempo da investida para Sul de D. Afonso VI (avô de D. Afonso Henriques).

ACS integra com mestria este conflito psicológico, fulcro central e raiz da totalidade do romance, no conflito histórico da luta entre emires muçulmanos e os reis cristãos após o desmembramento do califado de Córdova em inúmeras taifas. De relevar que pela primeira vez ACS trabalha – e bem – com narradores masculinos, Al-Mu’tamid e o seu escravo, já que tanto nos dois romances acima referidos quanto em «Mariana, todas as cartas» (sobre Mariana Alcoforado, 2003), «A Mulher Transparente» (sobre violência doméstica, 2004) e «Bela» (sobre Florbela Espanca, 2005) os narradores são femininos e em «À Meia-Luz» (2006) o narrador é neutro quanto ao género.

Face ao romance de ACS, Pedro Almeida Vieira evidencia uma absoluta transgressão estética, uma verdadeira ousadia literária, intercalando a história factual da expulsão dos jesuítas de Portugal, Espanha, França e a extinção da Ordem de Jesus, relatada com o máximo rigor histórico, com capítulos fantasiosos intitulados «Interludium», descrevendo diálogos entre padre Gabriel Malagrida e o Diabo.

Acentuando a estranheza de «Corja Maldita», contesta-se nestes capítulos a versão histórica «oficial» da expulsão e extinção da Companhia de Jesus, não raro desmontando e desmascarando o que nos capítulos ordinários se acabara de afirmar.

Metaficção historiográfica que enuncia ficcionalmente as diversas interpretações possíveis sobre a extinção dos jesuítas, «Corja Maldita» intenta, assim, não se submeter à univocidade da ciência histórica. Digamos ser esta a primeira (mas não original) heterodoxia do romance.

A segunda inovação face à obra anterior do autor – uma verdadeira transgressão -, reside na abolição total da categoria de tempo por via da introdução, na página 159, do autor, ele mesmo, em carne e osso ficcionais (em conjunto com a alusão do verdadeiro narrador, o Diabo, «a um jovem e promissor escriba, aquele português nortenho de frases bombásticas contra as reticências» – valter hugo mãe, como é evidente), enviado especial a Madrid para relatar os motins acontecidos entre os dias 24 e 26 de março de 1766, seguidos do comentário jornalístico de Mário Ladeira Pevide e da reportagem de Valério Piedade Mira de 25 de março de 1767.

O que nuns capítulos se constitui como relato histórico torna-se, noutros, uma narrativa transhistórica, o narrador omnipotente de uns capítulos é contestado noutros, o autor é chamado a intervir, garantindo a veracidade dos factos, relatando-os em forma de reportagem e comentário jornalísticos, a integridade do tempo cronológico é violentada e, no final, lido o romance, tudo se conjuga e harmoniza, não ao modo transparente da leitura de um romance histórico clássico, subjugado à veracidade dos factos e à continuidade do tempo, mas segundo o prazer simultâneo da compreensão racional e da sensibilidade emotiva do leitor, que aceita integrar-se no jogo ficcional criado por PAV, isto é, penetrar no seio de uma arte lúdica que nada intenta provar senão manifestar-se como jogo. Eis o campo da estética.

Miguel Real

FONTE:  http://pedroalmeidavieira.com/?p/333//3121/683/

The Beatles – Unplugged [Full Album]

Just when you thought that everything that could be said that was new, fresh, or unusual about the Beatles}’ later history was already out there, along comes The Beatles: Unplugged, a bootleg CD so good that the folks at Apple and EMI ought to be kicking themselves for not thinking of it first. This disc (which is sort-of subtitled “The Kinfaun-Session,” referring to George Harrison’s Esher home) pulls together the 23 songs that Harrison, John Lennon, and Paul McCartney recorded as works-in-progress at Harrison’s home in May of 1968. Most of what’s here was eventually heard either on The Beatles [White Album surfacing with new lyrics as &”A Jealous Guy,” etc.) or B-sides (&”What’s the New Mary Jane”), and on various bootlegs. What makes this presentation better than most is that it’s part of that “digipak” bootleg series that’s been coming out of Europe since late 2000 and generally knocking listeners out with its quality. The production here is a match for any legitimate release, not just in sound quality but also the care that went into the selection, order, and editing of the tapes; there’s some hiss here and there, to be sure, and a few tracks are close to overload on the sound, but there’s nothing here that will make you jump to lower the volume or skip to the next cut — in fact, chances are most of the songs here will get repeated more than once. It’s a lot like listening to an “unplugged” version of The Beatles (even re-creating The Beatles [White Album on this disc — just to cite one example — is as good as the released one, only brighter, and, if you will, bouncier, as the trio has unbridled fun with the lyric, the beat, and the rhymes without the need to pump up the wattage or the seriousness of it all; if the finished song is {John Lennon’s message to the world about politics, hate, and manipulation of the Beatles, this is his handwritten draft of that message, with all of his momentary digressions and mental edits left in. McCartney and Harrison’s songs are just as well represented, and the only thing missing is a contribution by Ringo Starr, who didn’t participate in these recordings. The curious element is that it’s the hard-rocking songs — &”Yer Blues” and &”Back in the USSR” — that come off the best, even though they’re the most different from the finished versions; the demo of &”Ob-La-Di, Ob-La-Da” is just as entertaining, as the trio plunges headfirst into reggae armed with just their guitars and some good intentions. As the notes point out, whatever stresses the group may have been experiencing as a formal entity, the three guitarists had some productive and harmonious sessions and they still sounded as cool, creative, and cutting edge as they ever did. As bonus cuts, the makers have added &”Helter Skelter” from a studio run-through, and thrown on &”Spiritual Regeneration,” the Beatles/Beach Boys ode to the Maharishi (which segues into the Beatles’ birthday greeting to Mike Love) and a somewhat less-entertaining, informal, acoustic medley of traditional songs, all tracks recorded in India. Bruce Eder, Rovi

0:00 Intro
0:15 Cry Baby Cry
2:42 Child of Nature
5:25 The Continuing Story of Bungalow Bill
8:15 I’m So Tired
11:24 Yer Blues
15:00 Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey
18:00 What’s the New Mary Jane
20:39 Revolution
24:49 While My Guitar Gently Weeps
27:29 Circle
29:47 Sour Milk Sea
33:22 Not Guilty
36:36 Piggies
38:42 Julia
42:47 Blackbird
45:02 Rocky Raccoon
47:49 Back in the U.S.S.R
50:50 Honey Pie
52:54 Mother Nature’s Son
55:09 Ob-La-Di, Ob-La-Da
58:08 Junk
1:00:46 Dear Prudence
1:05:27 Sexy Sadie
1:07:52 Spiritual Regeneration
1:10:22 Spiritual Christmas

Sem saída

Sonhei com ela, voando.

Vi sua silhueta tapando parte da lua,

[tal eclipse.

Aterrissou na minha janela:

– Você pode voar comigo?

– Já estou voando.

– Você pode apunhalar o seu coração

[por mim?

– Já apunhalei.

– Quer dizer, então, que você é capaz

[de morrer por mim?

– Já morri.

*   *   *

Veja bem, quando o amor chega à sua porta,

[não tem saída:

– Se correr ele te pega; se ficar ele te come.

Vicente Freitas

Bach – BWV 1067 Suite – Badinerie – Croatian Baroque Ensemble

Bach – Bwv 1067 Suite – Badinerie -Croatian Baroque Ensemble
Croatian Music institute 21-11-2010
Art. leadership – Violin – Laura Vadjon
Baroque flute – Ana Benić
Harpsichord – Pavao Mašić
Violin – Tanja Tortić
Viola – Vlatka Peljhan
Cello Nika Zlatarić
Double Bass – Helena Babić

Croatian Music Institute Hall, Zagreb, Croatia
21.11.2010.

Portugal – Ana Cristina Leonardo

Ana Cristina Leonardo (Olhão, 1959) estudou Filosofia, faz traduções e revisões literárias e publicou um livro infantil chamado Joaninha, a Menina que não Queria Ser Gente (na GRADIVA, com ilustrações de Álvaro Rosendo). Trabalhou na Assírio & Alvim no tempo do Hermínio Monteiro e frequentou as áreas do jornalismo cultural, viagens e moda. Colabora semanalmente com o semanário Expresso onde publica crítica literária no caderno ACTUAL. Se só pudesse levar consigo um escritor para a tal ilha levava Tolstói apesar de não saber russo.

FONTE:  http://pnetliteratura.pt

anacristinaleonardo-cv

Portugal – Patrícia Reis

Patrícia Reis nasceu em Lisboa em 1970. Começou a sua carreira jornalística no semanário O Independente em 1988. Passou pela revista Sábdo, fez um estágio na revista norte-americana Time, trabalhou no Expresso, na Marie Claire, na Elle e nos projectos especiais do jornal Público. Fez produção para o programa televisivo “Sexualidades” (RTP) e para “Vida de Casal” (SIC). Começou a editar a revista Egoísta há 10 anos, em 2000. Desde 1997 que é sócia-gerente do atelier 004, um atelier especializado em contéudos e design no âmbito do qual produz projectos variados, de exposições a contéudos para sites ou eventos, além de livros, revistas, ferramentas corporativas. Tem cinco romances publicados (D. Quixote), quatro livros infanto-juvenis (Quidnov) que formam uma colecção que integra o Plano Nacional de Leitura, dois livros infantis cujas receitas revertem para a Fundação do Gil (Quidnov). Mantém diariamente o blogue vaocombate.blogs.sapo.pt. É casada e tem dois filhos rapazes.

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Crédito/foto: Jorge Nogueira

Crédito/foto: Jorge Nogueira

Raging bull-Memorable movie moments

Raging bull remains a masterpiece of cinemotagraphy,style and acting. Director martin scorsese believed it to be his last film and so he spent overtime editing it and getting every minute right. It really shows.

In this memorable moment, Jake la motta is facing his long time rival Sugar ray robinson for the title. While he begins to fight well at first, troubles in his personal life begin to haunt him and he allows sugar ray robinson to pummel him with no regard for his health or his title. The most memorable parts of this moment is Jake defiance towards the end as he mocks sugar ray for not being able to knock him down, the short sharp shots that almost represent the different punches and the pace of the fight and the imagery as the blood pours from the ropes right at the end.

Special mention should also go to both robert de niro and joe pesci who gave amazing performances, especially de niro who put on vasts amounts of weight to become the older overweight la motta towards the end of the film.

António Ganhão

António Ganhão nasceu no Macuse, Moçambique em 1963 onde viveu até 1975, altura em que veio para Portugal. Licenciou-se em engenharia electrotécnica e tem trabalhado na área de investigação, projecto e consultoria. Publicou artigos científicos nas conferências do IEEE, Fraunhofer Institute e foi co-autor com o professor Carvalho Rodrigues de um artigo para uma conferência internacional de física.
Desempenhou funções de consultor junto da missão UNTAET em Timor e da UNESCO em Moçambique.

Concebeu e deu arranque às redes de FM da RDP África nos PALP.
Actualmente é o responsável pelas redes de emissão nacional e internacional da RTP.
Foi administrador da fundação A Casa do Ardina.

Desde sempre que desenvolveu uma paixão pela escrita que deu corpo no seu blog Em Livro e participou em acções de escrita criativa com os escritores José Couto Nogueira e Luís Carmelo.

É casado e tem duas filhas. Vive actualmente no Barreiro.

A Desilusão de Judas (Lua de Marfim) é o seu primeiro romance.

FONTE: http://pnetliteratura.pt

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Portugal – Henrique Monteiro

DADOS PESSOAIS

NOME: Henrique Manuel Baptista da Costa Monteiro
LOCAL DE NASCIMENTO: Lisboa
IDADE: 54 anos (1 de Setembro de 1956)

DADOS ACADÉMICOS

Curso de História da Faculdade de Letras de Lisboa (1981)
Bolseiro da German Marshall Fund of the United States (1989)

DADOS PROFISSIONAIS

Jornalista profissional desde 1979
Redactor do «Jornal de Notícias» e «Notícias da Tarde»
Redactor de «O Jornal»
Redactor do «Expresso», onde exerceu funções de editor da Revista
e da secção Nacional
Subdirector do Expresso (1995) responsável pelo caderno Actual e pelos projectos especiais
Director do Expresso desde 2006
Publisher de Jornal Expresso, Intelligent Life, Exame e Courrier

OUTRAS ACTIVIDADES

Membro da Comissão Negociadora Sindical do Sindicato dos Jornalistas (1983-85)
Eleito para a direcção do Sindicato dos Jornalistas (1983-87)
Eleito para o Conselho Geral do Sindicato dos Jornalistas (1991-1995)
Membro do Observatório de Imprensa
Membro da Associação de Jornalistas Europeus
Membro e fundador do Clube da Esquerda Liberal
Membro e fundador do Clube Alexis de Tocqueville

OBRAS PUBLICADAS

«Cartas Abertas – Espólio do Comendador Marques de Correia»; recolha das Cartas Abertas, publicadas no EXPRESSO entre 1990 e 2000); Bertrand, 2001
«Papel Pardo»; Romance; Bertrand, 2002
«Toda uma vida»; Romance; D. Quixote, 2010

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Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Portugal – Eduardo Pitta

EDUARDO PITTA nasceu em 1949. É poeta, escritor e ensaísta, crítico do jornal Público e colunista da revista LER. Desde 1968 tem colaboração dispersa por jornais e revistas literárias, de Moçambique, Portugal, Espanha, França, Brasil e Estados Unidos. Colaborou na revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1980 e 2005. Entre 1974 e 2007 publicou oito livros de poesia, cinco volumes de ensaio, uma trilogia de contos, um romance e um diário. Os títulos mais recentes são Poesia Escolhida, 2004, Os Dias de Veneza, 2005, Intriga em Família, 2007, Cidade Proibida, 2007, e Aula de Poesia (2010). Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Poemas seus encontram-se traduzidos em inglês, francês, castelhano e italiano. O contoKalahari está publicado na revista inglesa Chroma. A partir de 1976 participou em congressos, seminários e festivais de poesia, em Portugal e no estrangeiro (Espanha, França, Itália e Colômbia). Tem efectuado conferências sobre escritores e, em 1998, a convite da Unesco, participou em Atenas num colóquio sobre Fernando Pessoa e Konstandinos Kavafis. Organizou para a revista francesa Arsenal um dossiê sobre literatura portuguesa, Du Portugal, Babel de Contraires, com lançamento, seguido de debate, no Salão do Livro de Paris, em 2002. Dirige actualmente a edição das obras completas de António Botto. É autor do blogue Da Literatura. Tudo sobre o autor em www.eduardopitta.com.

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Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Brasil – Patrícia Melo

Crédito/foto: Bel Pedrosa

Crédito/foto: Bel Pedrosa

Patrícia Melo publicou seu primeiro romance Acqua Toffana em 1994, pela Companhia das Letras, obtendo grande reconhecimento da crítica e do público.

O Matador, seu segundo romance, publicado em 1995, também pela Companhia das Letras, firmou o lugar da autora na moderna literatura brasileira. O romance foi publicado na França (Albin Michel, 1996), Itália (Feltrinelli, 1996), Inglaterra (Bloomsbury, 1997), Espanha (Ediciones B, 1997), Holanda (Wereldbibliotek, 1997), Noruega (Aschenhoug, 1998), com excelente repercussão.

Com O Matador, Patrícia Melo foi indicada, em 1996, para o Prix Femina (um dos prêmios literários mais importantes da França) e conquistou os prêmios Deux Océans (França, 1996) e Deutscher Krimi Preis (Alemanha, 1998).

O Matador foi relacionado pela revista World Literature Today como um dos melhores romances publicados na década de 90 no Brasil.

Em 2000, a revista Time Magazine inclui-a entre os cinquenta “Latin American Leaders for the New Millenium”.

Patrícia Melo também é dramaturga, tendo adaptado A Doença da Morte de Marguerite Duras, que recebeu quatro indicações para o prêmio Mambembe (Brasil, 1987). A autora escreveu a peça Duas Mulheres e Um Cadáver, que esteve em cartaz em 2000 e 2001 no Rio de Janeiro e em São Paulo, com as atrizes Fernanda Torres e Débora Bloch nos papéis principais. A peça foi um grande sucesso de público e crítica.

Patrícia Melo também é roteirista de TV e Cinema, foi responsável pela adaptação de O Caso Morel e Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca, dirigido por Flávio Tambelini e que recebeu o prêmio de melhor roteiro no festival de cinema de Miami em 2001.

Foi roteirista de O Xangô de Baker Street, de Jô Soares (com direção de Miguel Farias) eCachorro!, inspirada na obra de Nelson Rodrigues (dirigido por José Henrique Fonseca, produzido pela Conspiração Filmes).

Seu livro O Matador foi adaptado para o cinema, com o roteiro de Rubem Fonseca, direção de José Henrique Fonseca e produção da Conspiração Filmes. Murilo Benício e Claudia Abreu são protagonistas do filme, que esta em fase de montagem.

A autora publicou seu terceiro romance, Elogio da Mentira, em Maio de 1998, também pela Companhia das Letras. O livro foi editado na Inglaterra (Bloomsbury), Alemanha (Klett-Cotta), Estados Unidos (Bloomsbury / USA), Espanha (Grijalbo Mondadori), Holanda (Wereldbibliotek), França (Actes Sud), Portugal (Campo das Letras), Itália (Fanucci), Finlândia (Albert Bonniers Forlag) e China (Choice), entre outros países.

Em setembro de 2000, publicou Inferno, pela Companhia das Letras. O livro que conta a saga de um traficante de drogas, foi publicado no mundo interiro e recebeu, no Brasil, o prêmio Jabuti, na categoria de melhor romance.

Em Outubro de 2001, a revista Time publicou o artigo “The Murder Business” de sua autoria.

Seu romance Valsa Negra, que trata a questão do ciúmes, foi lançado em 2003 pela Companhia das Letras, e traduzido para diversos idiomas. Na Inglaterra, onde foi editado pela editora Bloomsburry, o livro indicado para o IMPAC Award (2005).

Em 2005, a atriz Carolina Ferraz estreou sua peça do O Rim, sob a direção de Elias Andreato, com temporadas de sucesso no Rio de Janeiro e São Paulo.

O romance Mundo Perdido, que traz de volta o personagem protagonista do Matador foi publicado pela Companhia das Letras em 2005 e seu último romance Jonas, o copromanta, também da Companhia das Letras, editado no ano passado, está para ser lançado em Portugal pela editora Campo das Letras. Este último foi indicado para o prêmio Telecom Portugal.

Em 2008, sua peça A Ordem do Mundo, foi encenada pela a atriz Drica de Moraes, com direção de Aderbal Filho.

Atualmente, Patrícia vive entre Brasil e Suíça, e escreve seu novo romance.

FONTE:  http://pnetliteratura.pt

A polémica entre os historiadores Manuel Loff e Rui Ramos a propósito da História de Portugal – Diogo Ramada Curto: Por um debate de ideias num panorama sem crítica

O historiador Diogo Ramada Curto, colaborador do PÚBLICO na área da História, publicou ontem este artigo onde analisa a polémica entre os historiadores Manuel Loff e Rui Ramos a propósito da História de Portugal

O debate em torno da História de Portugal coordenada por Rui Ramos ganhou foros de tema relevante em muitos círculos de opinião. Trata-se de uma obra que merece ser discutida pelas suas interpretações e pelo que representa de esforço de síntese. Num panorama cultural avesso a críticas ou onde estas facilmente derrapam no comentário truncado e numa guerra de bandeiras, discutir a obra em causa é um sinal de respeito pelo trabalho desenvolvido pelos seus autores.

A este respeito, António Barreto relembrou há dias o que dissera em 2009, quando apresentou na Sociedade de Geografia o livro coordenado por Rui Ramos: “Os regimes políticos modernos e contemporâneos, de Pombal à Democracia, passando pelos Liberais, pelos Miguelistas, pela República e pelo Salazarismo, eram finalmente tratados com igual serenidade académica, sem ajustes de contas” (PÚBLICO, 3-9-2012). A “serenidade académica” equivale, no entender de Barreto, a uma “normalização” sobretudo do século XX, “marcado por rupturas e exibindo feridas profundas”. Ou, numa outra formulação: tanto a 1.ª República como o Estado Novo estiveram “mais do que qualquer outro período, submetidos à tenaz de ferro das crenças religiosas e ideológicas e ao ferrete das tribos”, e a História em causa ajudaria “os portugueses a libertarem-se de fantasmas”. Em suma, “serenidade académica” e “normalização” contrariam os usos ideológicos a cargo de tribos, correspondendo estas às “várias formas de “nacionalismo” e “marxismo”” que dominaram “a disciplina durante décadas”.

Não duvido das boas intenções de Rui Ramos, sublinhadas por António Barreto, em relação a projectos académicos de escrever a História de Portugal – com rigor, objectividade e cientificidade. Mas qualquer historiador ou cientista social sabe o difícil que é fazer História que esteja fora das lutas do nosso tempo e que não seja enviesada ideologicamente. Se a objectividade no fazer da História não existe por decreto, pouco ou nada adiantam as declarações de princípio relativas à autoridade dos historiadores universitários. É claro que, enquanto cidadãos, mais ou menos comprometidos politicamente, estes têm todo o direito de exprimir as suas opiniões políticas, mas não poderão fazê-lo em nome das famigeradas lições da História. De igual modo, tanto os historiadores de profissão como os leitores informados sabem que análises, narrativas, argumentos e instrumentos de prova expostos em livros de História se encontram sujeitos a verificação. A ponto de se considerar “normal” debater ideias e interpretações de livros de História. E nenhum historiador académico se pode considerar fora desse processo “normal” de debate e verificação analítica.

Manuel Loff, cujo posicionamento político à esquerda é conhecido, criticou Rui Ramos por este último ter pretendido branquear o Estado Novo enquanto regime ditatorial. Rui Ramos, alinhado com uma direita liberal, respondeu-lhe com indiscutível “serenidade académica”. Desmontou-lhe a argumentação e provou até que ponto as suas frases ou ideias tinham sido deturpadas e descontextualizadas. Desde então, multiplicaram-se no PÚBLICO os apoios a Rui Ramos da parte de António Araújo, Filomena Mónica, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, António Barreto e Pedro Lomba. Entretanto, Manuel Loff respondeu como pôde, mas sem conseguir desfazer a ideia que tinha alterado o sentido das palavras de Rui Ramos.

A ideia geral com que se fica deste debate – cujo sentido escapa já ao dos seus dois protagonistas, tendo atingido proporções significativas numa esfera pública – é a de que uma elite mais conservadora, constituída por académicos e conhecidos jornalistas, veio a terreiro para defender Rui Ramos. Enquanto as posições de esquerda de Loff, talvez por terem surgido associadas a uma precipitação argumentativa, recolheram poucos apoios (entre os quais se conta o de Fernando Rosas), sem sequer suscitar uma reacção dos circuitos da blogosfera ligados a grupos de investigadores mais jovens e progressistas. Este debate, aliás, não tem merecido a intervenção pública de muitos especialistas do século XX, alguns com notáveis diferenças na interpretação dos seus principais acontecimentos e processos, em relação a Rui Ramos e a Manuel Loff. O que em si diz muito acerca do medo existente em criticar e tomar uma posição que esteja para além de uma mera guerra de bandeiras à esquerda ou à direita.

Ora, a politização em que este mesmo debate corre o risco de se encerrar merece ser recentrada, a bem de uma dimensão analítica. É que o debate em curso sobre aHistória de Portugal de Rui Ramos, desde que reconduzido aos aspectos mais propriamente analíticos, afigura-se extremamente profícuo. A partir de um caso concreto, será possível exemplificar como proceder em relação a outras partes da obra.

O rigor com que se pretende tratar o fim do período colonial, desde o início da guerra até à descolonização, traduz-se no tratamento objectivo de uma série de factores: demográficos, económicos, sociais, políticos, ideológicos e culturais. O equilíbrio deste travejamento, com que se ensaiam explicações de carácter global e se lançam hipóteses explicativas, é extensivo ao conjunto da obra. Corresponde, aliás, a um dos aspectos mais atractivos desta História de Portugal, que foge a modas e a ortodoxias de vulgata: guiada por problemas, aos quais pretende responder através da consideração de uma pluralidade de factores, atenta a uma pluralidade de ritmos de mudança temporal e preocupada em revelar os seus próprios instrumentos de prova. Mas onde melhor se descobre a sensibilidade de Ramos -tal como, noutras partes da obra, de Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro – é na tentativa de tratar conjuntamente as auto-representações da época e os factores de carácter mais estrutural que caracterizam cada período. Claro que o reconhecimento destes aspectos positivos de conjunto não impede a formulação de críticas e a discussão, insista-se, em termos analíticos da obra em causa. Pelo contrário, o exercício da crítica é, em si mesmo, um acto de respeito pelo trabalho de síntese desenvolvido pelos autores.

Rui Ramos sintetiza do seguinte modo o que se passou com a guerra em África: “Obscura e pouco mortífera”. Obscura, porque não comparável às guerras do Vietname, do Médio Oriente ou à Guerra Civil da Nigéria. Pouco mortífera, uma vez que, em 1961, com 40.000 soldados foi possível conter “a insurreição com uns escassos 167 mortos” e, ao longo dos anos de guerra, o número de mortos em combate nunca excedeu os 3 por mil soldados (em comparação com o Vietname, que rondou os 15 por mil). Este dado é, aliás, considerado de tal modo importante que “determinou tudo”, pois teria levado “os americanos que em 1961 pareciam decididos a expulsar Portugal de África” a rever a sua política. Porém, há um outro dado, contabilizado mais adiante, que importa reter: o número de mortos do “inimigo” foi vinte vezes superior. Frente a esta desproporção, como se poderá analiticamente argumentar – numa História que se pretende arredada de uma perspectiva nacionalista – que a guerra foi pouco mortífera? Por que razão, numa análise pejada de comparações, esta desproporção não fica sujeita à mesma verificação? Tudo isto para não falar da necessidade de se reflectir sobre os usos e sentidos destes exercícios comparativos.

Ligadas ao argumento de que a guerra foi “pouco mortífera” encontram-se duas outras ideias, apresentadas em conexão: “O aumento da população portuguesa em África prova o reduzido impacto das guerrilhas”. Mas como se poderá argumentar que as guerrilhas não tiveram impacto, quando se referiu contraditoriamente, na página anterior, “o realojamento da população em “aldeamentos estratégicos”, a fim de a subtrair à influência da guerrilha”? E, note-se bem, é o próprio autor quem reconhece não se ter tratado de um movimento populacional menor, pois “as novas aldeias abrangeram um milhão de pessoas em Angola e outras tantas em Moçambique”. Frente a estes dados, não valeria a pena perceber melhor o que eram estes “aldeamentos estratégicos”, resultado de migrações forçadas causadas quer pela guerra, quer pela atracção das grandes cidades, já envolvidas em lógicas de modernização? Seriam essas aldeias campos de trabalho? Seriam locais de recrutamento de contingentes de mão-de-obra móvel? A este respeito, por que razão está ausente, da série de factores em consideração acerca da guerra colonial, o trabalho forçado ou a questão dos contratados? E a questão racial, a começar pelo papel dos “calcinhas” (africanos considerados aculturados), por que razão não suscita nenhum comentário?

Quanto ao aumento da população portuguesa em África, enquanto indicador do “reduzido impacto das guerrilhas” e da guerra em geral, os números citados não o confirmam, pelo menos em relação a Angola e Moçambique: entre 1945 e 1960, a população branca quase quadruplicou; enquanto nos quinze anos seguintes, de 1960 a 1974, apenas duplicou. Frente a este abrandamento da colonização, como se poderá argumentar que a guerra pouco interferiu no processo de colonização branca?

A caracterização das tácticas adoptadas pelo Exército português é feita a partir de três grandes linhas: primeiro, seguindo os manuais de contraguerrilha, o Exército privilegiou as pequenas unidades de infantaria ligeira que procuraram “africanizar a guerra”; segundo, o Exército “tentou obter a simpatia da população, contribuindo para a melhoria do seu nível de “bem-estar””; terceiro, na ausência de recursos financeiros – apesar de não se deixar de reconhecer o peso da defesa nas despesas públicas, que chegou a ser em 1969 de 46% – Salazar sempre procurou “”baratear a guerra””. Tais linhas de análise correspondem a uma espécie de discurso oficial da época sobre a guerra. Onde cabem, neste âmbito, o uso do napalm, as políticas de aterrorização das populações, incluindo nelas o corte ritual de cabeças (uma técnica porventura de acordo com os baixos custos que se pretendiam, que mimetizava supostos rituais africanos?), e a coordenação entre a acção da PIDE (referida apenas por ter contado com a colaboração de informadores junto da direcção do PAIGC) e a acção psicológica?

Se para Ramos a guerra de África foi um assunto internacionalmente “obscuro”, uma tal irrelevância – ilustrada a partir das palavras de um diplomata norte-americano – não terá deixado de pesar no delinear de políticas coloniais. Assim, “a descolonização foi em Portugal, tal como a abolição da escravatura no séc. XIX, sobretudo uma questão de pressão externa”. Pode-se concluir que, pelo menos internamente, a irrelevância internacional da guerra deu lugar a uma enorme relevância… E considerar que guerras coloniais envolvendo Estados europeus, da dimensão de Portugal, puderam ser irrelevantes internacionalmente, mas desencadear formas decisivas de pressão externa, é uma contradição.

As questões aqui colocadas prendem-se com a verificação analítica da obra de Ramos. Se, por um lado, correspondem ao trabalho de “normalização”, conduzido com a citada “serenidade académica”, por outro lado revelam a natureza precária e experimental que deve ser associada a qualquer investigação histórica. Sobretudo nas obras de síntese – que têm de ser feitas a partir de trabalhos de segunda-mão, muitas vezes sem a consulta de fontes primárias, longe dos arquivos, mas com a ambição de lançar explicações de conjunto – é o carácter não definitivo de muitas interpretações que acaba por predominar.

Ramos, tal como Nuno Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa, co-autores daHistória de Portugal, profissionais extremamente competentes do mesmo ofício, com trajectórias e posições políticas bem diferentes, sabem bem que as suas análises estão sujeitas a verificação. Estou plenamente convencido que nenhum deles teme tais procedimentos, pois eles próprios fazem o mesmo escrutínio com o trabalho de outros historiadores. Interrogar analiticamente as suas interpretações, mesmo só numa escala parcial, é apenas um contributo ao progresso da História. Por todas estas razões, os termos equívocos em que o debate foi lançado por Manuel Loff, donde não está ausente a deturpação pura e simples do sentido da obra de Rui Ramos, não servem uma tal causa.

FONTE:  http://aventar.eu/2012/09/09/diogo-ramada-curto-por-um-debate-de-ideias-num-panorama-sem-critica/#more-1167202

Clarice

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Clarice
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“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

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“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
[…] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

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“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[…] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

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“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

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“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

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“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

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“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca […].”

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“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”

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“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto…”

Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

FONTE: http://vaocombate.blogs.sapo.pt/441529.html

Obras completas de Florbela Espanca

A Editorial Estampa Lança em breve o segundo volume das obras completas de Florbela Espanca, numa edição que acredito virá a ser conhecida como a grande referência no domínio dos estudos florbelianos.

Trata-se de uma colecção que reproduz, título a título, as diversas obras de Florbela, tal como elas foram publicadas no tempo da autora. Acresce a que há neste volumes uma enorme preocupação com a fixação do texto e a sua revisão muito minuciosa.

Para além disso, cada um dos volumes é acompanhado por estudos desenvolvidos por um certo número de especialistas portugueses e brasileiros que o contextualizam devidamente e que lhe dão uma dimensão didáctica muito particular.

Os organizadores e responsáveis por esta edição das obras de Florbela são os professores e investigadores Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mário da Silva.

Manuel Brito in PNETliteratura

FONTE: http://pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=5394

Agora e na Hora da Nossa Morte por Susana Moreira Marques

Agora e na Hora da Nossa Morte
Autora: Susana Moreira Marques
Editora: Tinta da China/Fundação Calouste Gulbenkian
N.º de páginas: 166
ISBN: 978-989-671-134-4
Ano de publicação: 2012

Acontecimento raríssimo: um livro capaz de criar a sua própria forma, inventando de caminho um novo género literário (ou perto disso). A jornalista Susana Moreira Marques acompanhou, entre Junho e Outubro de 2011, o trabalho de uma equipa de cuidados paliativos no Planalto Mirandês, em Trás-os-Montes. Apoiados pela Fundação Gulbenkian, uma médica, enfermeiros e outros profissionais de saúde andaram de aldeia em aldeia, ajudando dezenas de doentes «a passar o final de vida com o maior conforto possível, e a morrer, acompanhados, em casa». O que SMM narra são as histórias desses pacientes e o impacto avassalador das doenças terminais no espaço da intimidade familiar. A violência da morte próxima, pairando em círculo como as águias sobre as escarpas do rio. A partir deste material – dias inteiros de observação directa, horas e horas de conversas gravadas – a jornalista podia ter feito um conjunto de reportagens fortes, mas decerto semelhantes a outras que já vimos e lemos sobre o tema. Felizmente, preferiu fazer outra coisa. Aqui as pessoas guardam o seu nome mas não têm apelido. Quando aparecem, em poses hirtas, nas fotografias de André Cepeda (guardadas para o final do volume), nunca são identificadas. Não há legendas, nem nada que situe as imagens. A explicação é simples: João, Maria, Paula, Sara e Elisa são seres humanos reais, com sofrimentos reais, mas também personagens que se elevam acima das suas circunstâncias e adquirem uma densidade literária. Nada do que vivem e contam é ficção, mas SMM sabe aproximar-se delas com o olhar, a profundidade e a linguagem de um romancista.
O livro abre com uma sequência de «notas de viagem sobre a morte». Não é fácil entrar na noite escura das agonias, das esperas, da preparação para o luto inevitável, mas estes fragmentos falam disso com infinita delicadeza e um recato que é muito mais do que simples pudor. A autora descreve as estradas, os pequenos rituais de sobrevivência nas aldeias quase desertas («de onde desapareceram as crianças»), a paisagem agreste, as suas dúvidas e inquietações («Se não quiseres saber a resposta não faças a pergunta»). Outras vezes isola vinhetas de um quotidiano assombrado pela morte – essa presença implícita que ninguém nomeia – e inventa mecanismos para se proteger de tanta dor: «Manual de sobrevivência: 1 – Parar. Escutar o bater do coração. Olhar os cerejais selvagens carregados de fruto.» Com definições de dicionário explica, por exemplo, o que é a «conspiração do silêncio» ou a «boa morte». A mesa e as cadeiras de uma sala de jantar, «embrulhadas em plástico», contam só por si o que se passa. A «solidão sobre a terra» surge inteira numa piscina vazia, vista da janela. E há frases que podiam ser versos: «Uma ilha, mas em vez de mar, terra.» SMM escreve «contra as imagens acumuladas», tanto na cabeça como nos cadernos manuscritos, e talvez por isso as palavras aparecem tão nítidas, tão exactas: «Querem apenas um pouco mais de vida, querem um pouco mais de tempo para acreditar que o corpo vence; todos querem, com uma força desproporcionada, talvez delirante, continuar de olhos abertos.»
Na segunda parte do livro, oferece-nos «retratos», casos concretos. E a estrutura volta a ser inesperada, original. Primeiro, SMM entra pé ante pé no dia-a-dia familiar, ganha confiança, habitua-se e habitua-nos àquelas pessoas, participa em almoços de domingo, regressa mais tarde para as vindimas, ouve com a atenção minuciosa de quem sabe que o desaparecimento futuro já se instalou dentro da casa. O «retrato» nasce assim, imperfeito, quase de viés, para depois ser completado pela viva voz das figuras retratadas, um discurso directo (em itálico) tão em bruto que nos esmaga com a sua verdade. Há quem recuse teimosamente a derrota; há quem se sente no alpendre, ao crepúsculo, recordando a vida em Angola; há quem ajuste contas com a memória de um pai muito amado, sentindo que «ele está dentro de mim». São outros de que SMM se apropria através da escrita – e só da escrita. Porque «os outros somos nós».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

FONTE:  http://bibliotecariodebabel.com/criticas/ver-desaparecer/

SMM

A Castidade com que Abria as Coxas by Carlos Drummond de Andrade

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Carlos Drummond de Andrade, in “O Amor Natural”

as luvas de um aprendiz (in)conformista, de Gabriela Rocha Martins

O poema nasce nas páginas deste livro como um ato de insubordinação. É a resposta a essa “fome de escrever”, a esses “caudais de lava que escorrem sobre as barrigas de textos prontos à desova” dando corpo ao sentido de mortalha com que o papel acolhe o texto.

-o funeral dos sonhos

a ambiguidade

adensa.se e nos rostos

avulsos

há um resfolegar

quebrado

que

se insinua

na memória das folhas

.se

ao menos fosse possível

reciclar a página

retocar a maquilhagem                 ou

avançar para dentro de um tempo novo?

O poema explora a esquadria improvável da página, roubando-lhe a pontuação, fugindo-lhe à sua forma clássica. O espaço de um parágrafo surge a meio de uma linha, servindo-lhe de quebra ao verso. As frases terminam num ponto final para que a frase seguinte comece a partir desse ponto, arrastando-o consigo para o seu início. O poema cola-se à página de uma forma plástica, como se fosse a obra artesanal de um pintor. Depositado em camadas, escrito com uma espátula, sofrendo um processo de desconstrução, de recorte e colagem. Uma impressão visual que não se dissocia da sua leitura, que nos provoca e desafia.

à revelia dos mortais

sangra o verbo

e um deus louco e quase cego

detém-se mastigando um resto de absoluto

Não ouso esquadrinhar em extensão o dizer do poeta, detenho-me à porta do seu indizível. Encontro neste livro o inconformismo e o convite à aprendizagem, à sua errância nas nossas vidas. Entre o zangado e o irónico, sempre provocadora, Gabriela Rocha Martins, deixa-nos uma reflexão, um olhar lento e penetrante sobre o significado das coisas insignificantes, sem nunca lhes conferir um registo definitivo, evitando assim o risco de se transformar numa lagartixa.

hoje acordei poeta

.coloquei entre as

minhas mãos milhares de caracteres e

misturei.os à revelia do verbo

.triturei

Vivemos tempos que não são mais do que um acrescento esconso aos sonhos que nos roubaram. Inventámos palavras novas para este tempo, palavras redutoras, sem métrica nem salvação. Palavras de claudicar e (no meu entender) obscenas.

O que nos resta? Ao poeta, sempre o seu caminho.

.amanhã serei um vagamundo

.percorrerei novos poemas

Mambordel by Chico Buarque de Hollanda

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Eu vou virar artista
Ficar famosa, falar francês
Autografar com as unhas
Eu vou, nas costas do meu freguês

Eu cobro meia entrada
Da estudantada que não tem vez
Aqui no meu teatro
Grupo de quatro paga por três

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Faço qualquer negócio
passo recibo, aceito cartão
Faço facilitado, financiado
E sem correção

Ao povo nossas carícias
Ao povo nossas carências
Ao povo nossas delícias
E nossas doenças

Uma mulher espera por mim by Walt Whitman

Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta,
No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando.

O sexo contém tudo, corpos, almas,
Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,
Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,
Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra,
Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra,
Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo.

Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo,
Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas.

Agora vou dispensar-me de mulheres frias,
Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem,
Vejo que me compreendem e não me negam,
Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres.

Elas não são em nada menos do que eu,
Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos,
A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia,
Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se,
São irrevogáveis quanto a seus direitos – são calmas, claras, seguras de si próprias.

Trago-as para perto de mim, vocês mulheres,
Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês,
Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros,
Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos,
Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu.

Sou eu, mulheres, faço meu caminho,
Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as,
Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês,
Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento,
Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas,
Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim.

Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo,
Em vocês contenho mil lágrimas progressivas,
Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América,
Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,

As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez,
Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso,
Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora,
Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou,
Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora.

Teatro Rápido – Antevisão Janeiro 2013

O Ano Novo começa. E com ele o Teatro Rápido só pode prometer mais e bom teatro. Com a expectativa de todas as novas possibilidades que um recomeço cria, o primeiro mês do ano vai ser dedicado às Promessas. Para nós, a de proporcionar a quem nos visita 15 minutos de teatro; para os espectadores, a de saírem com um sorriso na cara, esquecerem os problemas, ou pensarem na vida. Comece o ano cheio de promessas com o TR!

ver mais aqui:  http://teatrorapido.blogspot.pt/

TimeOutPrémiosCorvo

Morreu Joaquim Benite (1943-2012) por Lauro António in Blog “Lauro António apresenta”

Morreu um amigo. Quando assim é, difícil se torna sequer falar. Fomos muito próximos durante muito tempo. Ambos críticos, eu de cinema, ele de teatro, no “Diário de Lisboa”. Lá pelos anos 60. Ambos apaixonados pelo que escrevíamos. Fizemos depois carreiras diversas, mas lado a lado. Ambos apaixonados pelo que fazíamos. Acompanhei a sua actividade sempre com redobrado interesse, pela qualidade das suas propostas, mas também com o olhar de amigo que gosta de ver o amigo afirmar-se por mérito próprio. Sei que ele me seguia com igual emoção. A emoção que nos unia quando nos encontrávamos, aqui e ali, no Famafest que eu dirigia em Famalicão, onde fez parte do Júri Internacional em 2010, ano em que foi igualmente homenageado, no Teatro Municipal de Almada que dirigia e onde encenava espectáculos que ficarão na nossa recordação, no Festival que superiormente dirigia, um dos melhores da Europa no campo do teatro. Benite partiu mas o seu trabalho, consistente e coerente, a sua alegria de viver, o seu forte abraço, esses ficarão, triste consolação numa carreira brilhante que se finou. Que o exemplo não se cale. Por isso aqui fica um abraço para a Teresa, os filhos e também para o Rodrigo, seu assistente durante anos.
Perguntaram-lhe se achava que ficaria na História. Respondeu: “Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras vêem porque lhes dá prazer”.
É tudo verdade. Mas ficarás na História, claro!

Nota do Teatro Municipal de Almada:

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, faleceu esta noite, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia. O fundador da Companhia de Teatro de Almada preparava a estreia absoluta em Portugal de Timão de Atenas, de Shakespeare, que representaria o seu regresso à actividade após um período de ausência dos palcos por motivo de doença. O País perde assim um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do Teatro português no período que antecedeu e que se seguiu à Revolução de 1974.
Joaquim Benite nasceu em Lisboa em 1943. Começou a trabalhar como jornalista, aos 20 anos, no jornal República. Posteriormente fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O séculoO diário. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa e em diversas revistas e publicações.
Em 1971 fundou o Grupo de Campolide e estreou-se na encenação com O avançado centro morreu ao amanhecer, de Agustin Cuzzani. Com a peça Aventuras do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, de António José da Silva, ganhou, no ano seguinte, o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador.
Em 1976, no Teatro da Trindade, transformou o Grupo de Campolide em companhia profissional. Em 1978 asua companhia instala-se em Almada, cidade de onde não mais sairia, e que transformou num dos principais focos teatrais do País, cujo expoente máximo será porventura o Festival de Almada, criado em 1984, e que em 2013 terá a sua 30ª edição. Em 1988, Joaquim Benite inaugura o primeiro Teatro Municipal dessa cidade, e em 2005 é finalmente concluído o projecto do novo Teatro Municipal de Almada — num edifício da autoria de Manuel Graça Diase Egas José Vieira —, que se tornou num dos principais teatros do País.
Tendo criado mais de uma centena de espectáculos, Joaquim Benite foi responsável pela estreia em teatro de José Saramago, de quem dirigiu A noite (1979) e Que farei com este livro? (1980 e 2007). Encenou ainda obras de Shakespeare, Molière, Brecht, Lorca, Bulgakov, Camus, Adamov, Gogol, Beckett, Albee, Neruda, Thomas Bernhard, Sanchis Sinisterra, Antonio Skármeta, Pushkin, Peter Schaffer, Marguerite Duras, Dias Gomes, Nick Dear, O’Neill, Marivaux, Feydeau, Almeida Garrett, Gil Vicente, Raul Brandão, entre muitos outros.
Entre os seus últimos trabalhos contam-se: Que farei com este livro, de José Saramago(2007); as óperas A clemência de Tito, de Mozart (2008), O doido e a morte(2008) e A rainha louca (2011), de Alexandre Delgado; O presidente, de Thomas Bernhard (2008);Timon de Atenas, de Shakespeare (Festival de Mérida, 2008); A mãe, de Brecht (2010); Tuning, de Rodrigo Francisco (2010); Troilo e Créssida, de Shakespeare (2010); e Hughie e Antes do pequeno-almoço, de Eugene O’Neill (2010).
Entre os numerosos prémios e distinções com que foi distinguido, Joaquim Benite foi agraciado com as Medalhas de Ouro dos Municípios de Almada e da Amadora, e as Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e Mérito Distrital do Governo Civil de Setúbal. Foi-lhe também atribuído o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique; os graus de Cavaleiro e Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França; e o grau de Comendador da Ordem do Mérito Civil de Espanha.
FONTE:  http://lauroantonioapresenta.blogspot.pt/2012/12/morreu-joaquim-benite-1943-2012-morreu.htmlJoaquim benite

Os filósofos e a discussão pública por Aires Almeida in Blog da Crítica

Nigel Warburton postou no seu blog Virtual Philosopher a lista dos 10 filósofos vivos que mais têm contribuído para o debate público. Claro que há muitos outros filósofos, tão ou mais interessantes, e que não contribuem tanto como aqueles para o debate público. O mérito filosófico e a contribuição para o debate público não são exactamente coincidentes. Dificilmente se imagina um filósofo da matemática, por muito brilhante que seja do ponto de vista filosófico, ter o impacto público que um filósofo político tem.  Ainda assim, a contribuição para o debate público de ideias não deixa de ser um indicador da importância e da influência de alguns filósofos, pelo que a lista de Warburton tem algum interesse.

Não sei com que critérios foi elaborada a lista, mas decidi gastar dois minutos a pesquisar no Google os nomes daquela lista, mais dois ou três que estranhei não ver lá, tendo-me limitado a ver o número total de referências.
Tenho de confessar a minha ignorância em relação a Cornel West, de quem conhecia o nome e pouco mais. Mas, a seguir ao esmagador Peter Singer, o mais referido no Google é precisamente West. Isto se não contarmos com todas as vezes que Umberto Eco é referido, caso contrário, este ficaria em segundo lugar (mesmo assim muitíssimo longe de Singer). Só que a maior parte das referências a Eco são sobre os seus romances e não propriamente sobre as suas ideias filosóficas, pelo que não estão relacionadas com o seu contributo para a discussão pública. Mas pude confirmar que alguns nomes ausentes da lista de Warburton são mais frequentes na net do que outros que lá estão. São, por exemplo, os casos de Anthony Grayling e de Roger Scruton. Sobretudo o primeiro destes.
Uma das muitas coisas (e são tantas!) que os números do Google não mostram, é que alguns filósofos mais jovens têm sido recentemente cada vez mais referidos, o que indica que estão talvez mais presentes na discussão pública actual do que outros que já andam por aí há mais tempo. Parece-me que o caso de Sandel, um filósofo relativamente jovem, tem marcado mais o espaço público da discussão filosófica nos últimos tempos do que o veterano Habermas: o primeiro livro publicado por Habermas data de 1962, ao passo que o primeiro publicado por Sandel data de 1982.
Tendo todos estes aspectos em conta, eu faria uma lista ligeiramente diferente da de Warburton, acrescentado-lhe mais dois nomes. A lista ficaria assim:
1. Peter Singer
2. Michael Sandel
3. Cornel West
4. Amartya Sen
5. Daniel Dennett
6. Anthony Grayling
7. Kwame Appiah
8. Jürgen Habermas
9. Martha Nussbaum
10. Umberto Eco
11. Roger Scruton
12. Ronald Dworkin
Claro que a influência de cada um entre os seus pares é outra coisa. Para terminar, sublinhe-se o facto de Dennett navegar em águas diferentes (nem melhores nem piores) de todos os outros. O que vos parece?
FONTE:  http://blog.criticanarede.com/search/label/Filosofia

Talvez uma crónica por António Paiva

Nascemos impregnados de uma estranha substância que nos deprime, e nos confere uma estranha apetência cultural para a infelicidade. E ao que parece só a inacção nos consola, porque nos preserva o gozo de sofrer.

Secretamente todas as mulheres desejam um homem que tenha em si algo de poeta. Durante o ritual de conquista todos eles ensaiam versos até no olhar. Elas encarnam o papel de musas. Mas a convivência prolongada acaba por provocar a erosão. O erotismo arrefece e inicia-se a terrível dança do suportar a presença do outro com mais ou menos subtileza. É terrível de dizer, é chocante ler, constrangedor falar, insuportável admitir. Mas é a realidade disseminada no lar doce lar comum. À noite vem a ânsia de apagar a luz, esconder suspiros na almofada e fixar o olhar na parede – vidas tão comuns como o respirar.

Habitamos um mundo de tal modo organizado que perdemos a liberdade, abdicamos das emoções e censuramos o desejo. A eficiência e a eficácia material anulam o saber do espírito, tornamo-nos autómatos como as máquinas que nos substituem nas tarefas. Dizem que crescemos intelectualmente, que nos tornámos mais inteligentes – não estou certo disso – o que sei é que perdemos a coragem e a determinação. Porque ligar uma máquina que nos substitui não carece de coragem nem de determinação. Basta um gesto vulgar; pressionar um botão. O homem delega e ao delegar demite-se – anula-se.

Passamos tanto tempo nos lugares e nunca lá estamos. Vamos mas não estamos. E às vezes bastava um pequeno gesto, uma carícia, para nos colocar lá, e tudo seria substancialmente diferente, substancialmente melhor. Temos muitas vidas terrenas antes da última, mais nenhuma depois dela – já escutei crenças – não mais do que isso. Em que acredito eu?, acredito que o medo corrompe e corrói, e temos tanto medo de nós, que culpamos terceiros. E porque ainda ninguém a escriturou notarialmente como propriedade sua – a culpa morre sempre solteira.

António Paiva

O oráculo como arte e o design como pausa – Luís Carmelo in PNETdesign

Visitei, no primeiro sábado de Junho, uma interessantíssima exposição da artista plástica Ana Bezelga (que reside e trabalha na Suécia). Desde logo pelo local: um cubo branco situado no meio de um dos maiores Shoppings da Grande Lisboa: o “Alegro” de Alfragide.

Ninguém suporia encontrar no meio desta sucessão de lojas, mesmo em frente a um microestádio para entreter as crianças durante o Mundial, uma galeria de arte onde a ironia como que suspende a disforia. Eu escrevi “disforia” e “ironia”? Sim. Dois universos que se atravessam sob o signo do seu reverso: a euforia. A euforia do olhar, a exaustão dos reflexos, a pujança quase salvífica do consumidor.

O design é a pausa que permite toda esta súbita convivência, não haja a mais pequena dúvida. Pausa no meio da voragem das formas que propagam um mesmo acontecimento, um mesmo percurso, um mesmo sabor, um mesmo caudal de apetências. É por isso que o design é tanto melhor quanto mais a sua morfologia for transparente. Que ninguém dê por ela e… já se sabe: o arquitecto e o designer sentir-se-ão como os maiores foliões deste mundo. Ao invés, a arte precisa de altar para se rever no seu frémito de sopro do mundo. Um fôlego que carece de ritual para que o mais comum dos mortais dela se aproxime. Um fôlego que também necessita de uma mediação, de um silêncio ou de um separador discreto, mas de um separador. Não a parede de pedra do museu, mas a simples asa de espírito que a sugira.

Ora, este cubo tem todos esses condimentos: trata-se de uma basílica de luz, meio invisível. Mas o mais fascinante é que a exposição relata, com a sua linguagem tão simples quanto ortodoxa (sem o recheio e o derrame dos altares prolixos), todo este jogo. Parodiando-o, enquanto clama e se enuncia com alguma gravidade formal. Não é por acaso que a brancura do espaço é secundado pelas molduras brancas expostas e pela luz tão branca quanto o livro: sim, o ‘Livro’ que anuncia, como um manuscrito também de luz, o próprio ser que está em jogo. Há cinco exemplares do livro à entrada da exposição e, por dentro, nas paredes, dezenas de molduras brancas ocupam o espaço, sendo sobre elas projectado a preto um conjunto de formas/fórmulas geométricas – a maior parte delas obliteradas. Essas formas/fórmulas surgem no livro e são acompanhadas por frases/citações que, no seu conjunto, consubstanciam um manifesto. Mas um manifesto que vive da incorporação (transformando o citacional em original) e que, sobretudo, não visa um objecto singularizado.

A euforia do Shopping vive bem a par desta pulsação que lhe devolve o jogo e silencia o devir. E o que é que se exprime nesse manifesto sem objecto, mas com um sujeito que abarca, de lés a lés, o ‘não dito’ da basílica cúbica?

A exaustão e a intermitência aparecem como motivos do “Motivo” maior – é esse, afinal, o nome da exposição de Ana Bezelga. A separação entre vida e arte impõe-se como tema, ao lado da interrogação sobre o papel dos museus, transformados numa espécie de ‘ar’, neste tempo em que o ‘de dentro’ e o ‘de fora’ se diluem cada vez mais. Também se evidenciam as funções (dos objectos, da arte, da vida real), dissociadas quase sempre dos sentidos que lhe são dados pelas muitas providências da vida. O espaço é, também, equação maior deste manifesto; desde logo, ao aferirem-se noções como a de dimensão (viverão as dimensões da tangibilidade que as agencia?), de forma (será o movimento – “sair e entrar” – a própria abertura da forma?) ou de matéria (um esteio que encarna e se desfragmenta ao mesmo tempo?). Enfim: a estética irrompendo como disposição, como sintaxe e como oficina num espaço concreto que põe em questão o estúdio (do artista) e que irrompe/se mostra em pleno processo (embora a contemporaneidade do “processo” nos indique sobretudo a palavra que traduz a angústia do fim da era dos grandes acontecimentos).

A certa altura, o Antigo Egipto surge como metáfora da ‘representação da representação’: o ‘mise en abime’ que faz de uma narrativa o local onde a luz pode aparecer em todo o lado, embora estando apenas ‘ali’. Estriando a identidade, como se esta não fosse o inexorável sinal de uma incerteza. Ditando certezas sobre os usos, quando todo o uso é um signo e tudo pode ser signo, assim o sentido e o ser se revejam nessa ininterrupta correspondência. Afirmando que a objectividade não é uma celeuma à espera de concertação. Sobrepondo a forma à capacidade de a poder observar (génese de todos os “monumentos”) ou subvalorizando a forma às suas sombras possíveis. Esse tipo de narrativa autista, pautada pelo maravilhoso dos seus impactos e certezas, adoraria que o espaço não fosse um vazio à espera de categorias que o pudessem pensar e/ou alterar. Contudo, o espaço criado por Ana Bezelga supera-se ao conotar o irrespondível, postulando-se assim muito para além das monossemias da letra.

A exposição de Ana Bezelga é silenciosamente irónica. Pela sua colocação, montagem e poder de afirmação. O que nela se exibe é tão conceptual quanto sensorialmente surpreendente. Um ‘ser ou não ser’ que se enuncia como se fosse uma perspectiva, nela podendo entrever-se a fusão de muitos opostos. O que nela se exibe é a inexistência do todo, em abono da sequência que o projecta como se fosse um repouso desejado pelos deuses. Ao olhar para o interior deste ‘cubo basílica’ feito de brancura e de luz, apercebemo-nos de que os objectos são apenas a vaidade de quem os usa. É por isso que a contingência ganha margem de manobra como olhar que a própria exposição reivindicaria: como se reflectir a realidade fosse recortar do grande fluxo apenas as pegadas errantes da gaivota. Talvez porque aquilo que é trazido (de volta) para o estúdio do artista equivalha à natureza de um lapso. Um lapso que se pretende único, no entanto, ainda que encenando – sem fim – a esfera do reprodutível.

Há um instante (o tempo ‘Aion’ sobrepõe-se aqui ao tempo ‘Chronos’) em que uma questão muito interessante que é colocada acerca da diferença entre criar e mostrar, entre aparecer e revelar-se, entre cosmogonia e escatologia. Mostrar apenas aquilo que torna possível o acto de mostrar? Impedir os efeitos? (mas como é que se entenderiam os deuses, pergunta-se?) Ao fim e ao cabo, os efeitos (a perlocução) e a essência das coisas (como diria Platão) não são opostos: são apenas modos de postular horizontes. Como duas cores numa superfície que acabam por apagar tudo o que as envolve, dando-se assim a ver. Mostrar como obsessão: a repetição como modo simples de revelação (o ‘já-aqui-sempre’ em vez do ‘fiat’ decisivo). Até porque muito provavelmente a arte do futuro corresponderá à vida sem fios, sem corpo e sem estações orbitais. Como um simples eco, essa curva de reverberação que cabe na linguagem como um jogo cabe na arquitectura para apenas dizer (e interrogar) o espaço.

Voltemos ao Shopping: de facto, o consumidor é o mais emblemático dos peregrinos: ou não fosse o peregrino – e também o artista – aquele que troca a vida pela aura. E por que não decorar a casa “burguesa” (é tão bom ser burguês!) nas lojas do Shopping? O profeta Daniel também decorou o trono do altíssimo. Bem sabia ele que o congelamento das formas nunca é momentâneo: apenas o seu nome o é. Eis a grande vantagem do ser humano: inventar linguagens, cubos, projecções, fórmulas, conceitos e Shoppings. Como quem faz do design a maior das pausas. A grande tranquilidade. O verdadeiro homem invisível. Nada sei sobre o que é o “Motivo” de Ana Bezelga – a arte é irrespondível, sublinhe-se –, mas não há indiferença possível que o possa definir. Vale a pena visitá-lo. Como se fosse o último de todos os oráculos.

NOTA: Espaço 3/Espaço ao Cubo/Motivo/Ana Bezelga/5 a 23 de Junho/Alegro Alfragide.

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O Processo é o Projecto por Márcia Novais em 16 de Outubro de 2010 in PNETdesign

Eram nove quando chegamos à Casa da Música. Ainda não estava muita gente por lá, e as que estavam eram maioritariamente funcionários ou da organização da AGI. Ficamos uns dez minutos à espera para levantarmos os bilhetes, mas ninguém estava na bilheteira; alguém nos veio dizer que só abria às 9.30 e que fôssemos tomar um café – o horário das AGI começava às 10, o que não aconteceu, contribuindo para o atraso geral durante o dia. O tema foi o Processo é o Projecto, sendo expectável que os intervenientes apresentassem o seu processo de trabalho, fosse em relação apenas a um projecto ou à sua forma de trabalhar. As conferências seriam de vinte minutos, desde a manhã até ao final da tarde. Houve duas alterações no alinhamento: o irmão de Javier Mariscal veio substituí-lo e Henrik Kubal veio por vez de Étienne Mineur.

Paula Scher fez uma breve introdução à Alliance Graphique Internacionale, contextualizando a sua origem e passado até ao presente; criada no pós-Guerra por suíços e franceses, teve até hoje cerca de seiscentos membros.

Chico e Rita foi o filme de animação que Javier Mariscal fez durante seis anos. Não sendo um projecto restritamente gráfico, os cenários estavam muito bem trabalhados, principalmente na replicação da tipografia de cada cidade. No entanto, toda a apresentação incidiu mais no processo do aspecto musical do filme, o que reduziu a sua abrangência.

Desde há muito que sigo o trabalho do colectivo A2. Henrik Kubal apresentou vários projectos, no qual se depreendeu uma certa obsessão com a perfeição, através do contínuo processo de trabalho à volta da font New Rail, que irá ser posta à venda em breve.

A intervenção de Marjan Bantjes foi extremamente sedutora para o público. Quando nos falou do seu processo de trabalho, falou-nos de tudo o que nós gostaríamos que acontecesse connosco: primeiro, dorme muito (disse isso enquanto nos mostrava imagens da sua cama, da sua poltrona, chaise-longue (…)) e que as suas melhores ideias são as quando acorda. Depois pensa sobre o trabalho e são projectadas imagens do seu alpendre ou da sua sala de estar. Depois começa a trabalhar e fica horas a olhar para o trabalho para perceber como está a correr. Depois finaliza-o, consoante o media em que está a trabalhar. Uma das conclusões que temos do seu processo de trabalho, o que já tinha levantado por Kubal, é a ideia de desistir e começar de novo e de aproveitar algo deste processo.

Process is what happens to you while you’re making other plans. Esta apropriação de Abbott Miller explica o seu método de trabalho. Através de pequenas analogias como A book is a movie you hold in your hands ou An exhibition is a room with a plot, foi apresentado o seu trabalho relativo a cada frase, tocando ali e aqui no processo.

Stefan Sagmeister está para o design como o Morrissey está para a música. Apresentou novamente The Happy Designer, que começa a ser uma revisitação constante de cada conferência. Apesar disso, ele é um entretainer. Tal como Miller, através de statements, foi mostrando projectos.

O momento em que Bruno Monguzzi se coloca no meio do palco a gritar por Sara (Fanelli) a simular carícias, é provavelmente um dos mais memoráveis de toda a AGI. No entanto, devo dizer que o mais me interessou foi a forma como ele vê que a tipografia deve ser utilizada: esta deve funcionar da mesma maneira que o locutor usa a voz e as mãos.

Michael Bierut finalizou, trocando as voltas em relação às outras apresentações. O que mostrou foi um projecto que, a nível processual, foi atribulado, começando por erros ortográficos (Have you red?), subestimação do público-alvo e ainda a percepção que as pessoas que usufruem das bibliotecas não entendem o que ele fez, dando mais valor ao trabalho comissariado de ilustração que ao rebranding das bibliotecas.

No final, a ideia transversal a todas as apresentações foi a de give up and start over. Curioso ainda, perceber que os grandes – sim, grandes, sendo a AGI um grupo de elite – também se vêem aflitos quando encaram o brief. Um dos maiores problemas das

conferências foi exactamente algumas delas não se focarem no tema; algumas foram apresentações de trabalhos, excluindo completamente a questão do processo. No entanto, a título de exemplo, a apresentação do Peter Knapp das revistas Elle dos anos 60 foi muito interessante, ou ainda, a de Ang Sang-Soo.

No todo, o balanço é positivo. Uma sala cheia para assistir a conferências sobre design indica que há um público para estas e que, provavelmente, deverão acontecer mais. Assim o espero.

Márcia Novais

Nadine Gordimer dá voz a “O Centauro” de José Saramago

“I’m Nadine Gordimer and I’m going to read a story of the great José Saramago”: assim começa a leitura do conto “O Centauro”, incluída no livro “Objecto Quase” (1978), hoje publicada na série de short stories da versão online do jornal britânico The Guardian.

Esta gravação faz parte da série de contos escolhidos por grandes escritores que o The Guardian está a publicar desde o dia 21.

Nadine Gordimer considera que este texto é “uma fábula extraordinária”, que fala de “uma criatura imaginária, algo que é maior e melhor e diferente de um homem”. “Este é o sonho de uma criatura que é metade cavalo, metade homem, com a força física de um cavalo e a complexidade mental de um homem”,  e que aborda o conflito entre a mente e o corpo”.

A série de contos que o The Guardian publica nas semanas de Natal e Ano Novo começou com a leitura, por Zadie Smith, de “Umberto Buti” de Giuseppe Pontiggia. Seguiram-se Richard Ford a ler “The Student’s Wife”, de Raymond Carver, RuthRendell com a leitura de “Canon Alberic’s Scrapbook” de M.R.James e, ontem, Simon Callow com “A Árvore de Natal” de Charles Dickens.

Prémio Nobel da Literatura em 1991, a escritora sul-africana nasceu em Joanesburgo em 1923 e é autora de “Um mundo de estranhos”, “A história do meu filho” e “O fim dos anos burgueses”, entre outros romances.

Nadine Gordimer e José Saramago foram amigos, cruzaram-se em diversos continentes em conferências e apresentações de livros um do outro. Estiverem presentes ambos em 2001 no centenário do Prémio Nobel, em Estocolmo. Saramago participou num livro organizado por Gordimer a favor da luta contra a Sida na África do Sul e no mundo.

Nadine Gordimer

 

De Natal por Cristina Carvalho

Agora que estamos quase, quase em cima do Natal terei, pois, de falar do Natal. Nem fazia sentido que falasse noutra coisa. Ou seja, eu poderia escrever sobre tudo menos sobre o Natal, mas enfim, compreendo que o deva fazer, que deva falar desta triste época que se aproxima para milhões de portugueses este ano mais pobres, eu incluída neste número imenso de gente que deixou de ter aquele dinheirinho com que contava, no final do ano, com que contava para tudo e para mais alguma coisa, por exemplo, para a compra de umas prendazecas e umas lembrançazecas que para mais não dava, depois de cumpridas certas obrigações de pagamentos disto e daquilo, amortizar a prestação não sei de quê, pagar o tal juro que se deve e depois, no fim, do que sobrar, comprar uns pacotes de farinha e uns ovos e açúcar e canela e limão e colar-se ao fogão ou ao forno, amassar, fritar, cozer, assar, bolo bom é pão de longe, bolo sem rei, sem rainha, sonhos de pesadelo, filhós de nada, pasteis de tudo, pasteis de desejos, pasteis de natal e, remexido o fundo aos bolsos, resta ainda uma moeda para aquela bola de vidro de verde e oiro pintada com que vamos enfeitar a porta e também as entradas de todas as portas que existem na nossa imaginação, uma abre para dentro, outra abre para fora, tudo isto sem dinheiro e olha a menina e olha o menino, coisas lindas de se ver, mais os velhotes lá longe, a neve a cair lá fora, o vento que varre o chão, a cidade iluminada, a vida como é costume, este ano não há mais, ai que eu sou tão controlada, ai que eu sou tão comedida, tão pacata e bem disposta, deixa lá, hão-de vir dias melhores, aguenta-te nas canetas, o melhor é estar calado, prefiro não agitar, não se tem mais, tem-se menos, a garrafita de azeite a escorrer e a pingar para este pobre país poder temperar a couvinha ou temperar as batatas, que bacalhau já nem falo.

Mas, prosseguindo nas considerações natalícias,

lá vem, finalmente, o senhor Papa Joseph Ratzinger dizer o que toda a gente já sabia há muito tempo e ele próprio também sabia. Sabia e sabe. Sabíamos e sabemos. Há quem não saiba! Isso há! Mas isto do dia de natal não ser dia de natal é assunto velho, tão velho que já nem tem mais explicações. Que tudo é simbolismo e imagética, também já sabemos. Que o sol no seu solstício longe, muito longe, dificilmente se avista de tão pequenino, mas que pode ser o menino Jesus, isso pode! Que o sapatinho é a Terra, isso é! Pode ser! Que a lareira é o fogo, claro que é! Claro! E tudo são imagens, linguagens e simbolismos com um qualquer fundamento. Contudo, ao certo, ao certo, ninguém sabe mesmo nada! Até ver.

Agora, estas informações que já toda – ou quase toda – a gente sabe, é uma coisa! Outra coisa, é vir dizer que afinal não há burro nem vaca nem nada disso! Que nunca houve. Que, provavelmente, o menino Jesus nasceu numa altura de grande calor, talvez na praia, talvez no monte…

E todas essas figuras, os reis magos, os pastorinhos, os burrinhos, as vaquinhas, o bafo quente a aquecer, o verde musgo a enfeitar, ainda a estrela polar, a estreita cama de palha, os reis magos e suas prendas, etc, etc, tudo isto vai abaixo, tudo, tudo engolido pelas areias de um deserto que afinal nunca existiu como morada de berço do Redentor.

Uma pessoa também tem de engolir isto tudo! Engolir, por exemplo, a figura do senhor Papa Ratzinger, o ano passado, a acender todas as luzes da árvore de natal gigante em Gubbio, accionando apenas e com um simples toque o controlo remoto das luzes através do seu tabletde discutível marca, sentado lá na secretária no Vaticano, muito quentinho, com pantufas eléctricas, de certeza absoluta!

Por mim, fico muito contente de saber que a informática já chegou tão longe! E a presença do burro e da vaca não me fazia confusão nenhuma! Era o ar condicionado possível da época!

Cristina Carvalho

Rómulo, conhecedor profundo da sua natureza humana por António Ganhão

Existem homens que são maiores do que o seu tempo e por isso lhes foi reservado a eternidade. Permanecem, lá onde os podemos rever: na sua obra, na sua integridade e no seu exemplo de vida. “…não existe a ausência nem a distância. Nem saudade. Existe vida.” Estão vivos na nossa memória e na forma como entendemos o mundo, a história, a ciência e a arte. Na humanidade acontecem homens assim, mas são raros.

A Rómulo de Carvalho aconteceu-lhe ser um desses homens, “…foi um eclético da ciência. Foi, realmente, um Homem do Renascimento e bem ficou demonstrado através de todas as inúmeras e diversificadas atividades e que, para mim, constituem uma interrogação, uma grande interrogação: como é que uma pessoa desenvolve, ainda que num longo percurso de

vida, tanta, tanta produção com tão diferentes interesses que vão desde a sua paixão – o dedicado ensino – à divulgação da ciência, à investigação da História de Portugal, à fotografia, à construção de móveis de madeira, à poesia, à escrita de dezenas e dezenas de obras.”

Esta não é uma biografia escrita de uma forma convencional, um conjunto de eventos enumerados por ordem cronológica ou alinhados pela sua relevância. Um objecto de estudo. Esta é uma biografia escrita por quem arrisca, quem arrisca tudo e muito, sem perder a noção do lado simples da vida: “Eu percebo-o. Não porque tenha o mesmo pensamento, mas porque o percebo. Apenas.”

É esse entendimento que Cristina Carvalho nos transmite neste livro sobre Rómulo de Carvalho, também seu pai. Usando todos os seus recursos de ficcionista ousa, de forma destemida, construir a imagem do homem que muito admirou e muito amou. Fá-lo, por vezes, em registo de miniconto, como se um ritmo próprio (e misterioso) lhe ditasse a ordem pela qual esses eventos lhe surgem na memória.

“O seu velho gato solitário pede-lhe para abrir uma certa porta que dá para um certo sítio ao ar livre. E ele abre. Então, o seu velho gato solitário desliza por entre portas e senta-se no seu canto preferido. Agora está, novamente, deitado. E agora endireita-se e torna a sentar-se com expressão atenta. Observa qualquer coisa invisível ao olhar do homem e o homem observa o seu observar. Fixou um determinado ponto e não há nada, nada neste mundo que faça desviar a sua severa atenção. Os olhos semicerrados ainda percebem movimentos por mais rasteiros e silenciosos que sejam. O homem continua a observá-lo à distância. O ar parou ali à volta. O momento é de alto risco, inequívoco. Mas nada acontece. O gato já não consegue dar saltos elásticos nem dilacerar um pequenino corpo de rato numa fração de segundo, numa gloriosa pirueta.

Este velho gato solitário percebeu a sua própria finitude. Tal como ele, o homem, a percebeu há muito tempo.

Isto seria se Rómulo tivesse tido um gato …”

Tudo parece estar contido neste trecho que, em jeito de enigma, se abre sobre a personalidade de Rómulo de Carvalho. Um homem que abraçava com os olhos e ao mesmo tempo se mantinha distante; que se expressava com uma fina ironia, elegante e sedutora, mas que nunca magoa; que aparentava uma certa tristeza, um desgosto da humanidade e ao mesmo tempo nos deixou a “luz doce e caótica” da sua poesia.

De tudo isso nos fala Cristina Carvalho, com a consciência assumida de que “…não posso descrever de outro modo essa personalidade que foi Rómulo. Esta personagem tão carente, tão pedinte de amor, grito contido, sublimado e disfarçado, conhecedor profundo da sua natureza humana que o espantou até ao fim, da natureza de todos os outros sem exceção, que revelou nos poemas, no dia a dia, pelos caminhos, pelas ruas, pela cidade, a dar aulas, em conversas, na alegria e na tristeza, toda essa inteligência e humildade ao serviço de quem a quis conhecer e receber.”

É desses momentos dispersos que nos fala este livro. Rómulo desliza nestas páginas com a elegância de um gato, esses eternos e indomáveis príncipes que habitam entre nós, curiosos das coisas da vida, observadores atentos desta humanidade com quem, em sabedoria, aceitaram partilhar as suas vidas. Não se encontram aqui respostas definitivas, tão somente a luz doce que nos permite conhecer as inquietações que atormentaram o poeta. Tudo o resto, o que não está, pertence à vida de cada um e só ao próprio interessa. Ao poeta fica-se-lhe a dever uma resposta:

Quem há-de abrir a porta ao gato

quando eu morrer?

António Ganhão

 

Entrevista a Raul Solnado

Partiu fisicamente o talvez maior entre os grandes. Raul Solnado. Dia 8 de Agosto devia passar a Dia Nacional do Humor.

Tenho, como coordenador do PNEThumor a honra de ELE me ter concedido uma entrevista para o site e que hoje opto por re-publicar.
Que não se veja como aproveitamento o que é HOMENAGEM.

João Moreira de Sá

Quem mais apropriado para “inaugurar” as nossas entrevistas que um dos maiores mestres do humor? O PNEThumor teve o prazer e a honra de conversar com Raul Solnado sobre O Humor. Palavras para beber.

O humor é, acima de tudo, para fazer rir ou deve também fazer pensar?
O humor é acima de muitas coisas, criticar de mansinho ou pôr em ridículo o que, ou quem, assim merece. Ainda existe o riso ou sorriso, que apenas podem funcionar como terapia.


Pode dizer-se que , à semelhança da música, há um humor de intervenção?

Há sim, mas não propriamente da música. Nas canções de intervenção, o que vale são as letras.


O humor é mesmo “uma disciplina muito séria”?

O historiador George Minois, no se livro “ História do Riso”, escreve que o riso é um assunto demasiado sério, para ser deixado aos cómicos.


A arte de fazer rir é o parente pobre das artes, do teatro, da escrita, do cinema…?

Num papiro do século III podemos ler: “ Depois, de o deus rir, nasceram os sete deuses que governaram o mundo… Quando ele rompeu às gargalhadas, surgiu a luz (…) Gargalhou segunda vez, e tudo foram águas. À terceira gargalhada, apareceu Hermes; à quarta, a geração; à quinta, o destino, à sexta, o tempo. Depois, antes do sétimo riso, o deus inspirou fortemente, mas tanto riu que até chorou, e das suas lágrimas, nasceu a alma.


Quando o Raul está em palco, quem é que está em palco?

Ou eu próprio, ou o personagem. Não autorizamos a presença de mais ninguém, à excepção de alguns actores que fazem parte do espectáculo. Cenário também. E chega.


Qual é a sensação de dominar as emoções e reacções de uma plateia sem abrir a boca, fazendo uso apenas da expressão facial, no que o Raul é mestre?

No dia em que eu começasse a empreender nessas minudências, nunca mais podia pensar em pisar um palco. Nem sequer olhar para a fotografia da porta de um teatro.


Concorda com Vítor Pavão dos Santos que, independentemente do que faça, o público espera sempre de si “rir com ele numa nova variação da Guerra de 1908”?

Durante alguns anos fiquei refém desse personagem, contador de histórias. Há dezenas de anos que isso não acontece. Foi para mim um sufoco.


O mundo do teatro, do humor, do espectáculo, dos media a eles associados, são uma guerra?

Nada disso. É natural que cada um queira tirar, o melhor possível na sua própria carreira. É completamente legítimo.


Hoje é preciso fazer mais telefonemas para entrar para a guerra?

Nããããão Na guerra, a comunicação hoje não é rápida: é veloz. Todos os beligerantes falam através de mísseis.


No teatro, e no humor em particular, há corporativismo, na vertente “amiguismo”?

Penso que é muito raro. Tanto o talento como a falta de talento, são demasiadamente visíveis. Além disso, hoje os castings são cada vez mais exigentes. Pouca gente brinca com o serviço.


Hoje em dia valorizam-se mais os nomes que os talentos? (ou “o panorama” não mudou muito?)

Mudou. Os dirigentes da televisão, de há uns tempos para cá, apostam nas audiências de telenovelas. Os actores participantes dividem-se em vários grupos: Os actores que têm uma carreira sólida, com muito estudo e muita prática e a maior parte dos jovens que chegam e apenas fazem uma pequena ideia do que significa representar. Estes, como são fotogénicos, são um apetite para as revistas do estilo. E alguns ficam famosos. Mas a verdade é cruel: o publico, que às vezes assiste a novelas, já com alguns anos, descobre que há já muito tempo, a maior parte desses jovens, ex famosos, desapareceram do ecran para sempre(?). Foram descartados. Os grandes actores ou os actores menos dotados mas com experiência, vão ficando sempre


Porque é que o seu programa-projecto para televisão com as Produções Fictícias não se concretizou?

Os elementos que na altura dirigiam a RTP, devem ter feito confusão com o meu nome. Foi apenas isso.


Há demasiados panarícios e bicos de papagaio a mandar na cultura, nas autarquias, nas programações, nas instituições?

É verdade. O país está completamente infestado e essa razão será a mais importante, para que muitas vezes os portugueses cheguem aos limites da indignação..


Concorda com o Herman quando diz que em Portugal tratamos muito mal as nossas Vedetas, no sentido “histórico” do termo?

O Herman José, desta vez exagerou um pouco.


Somos um país de memória curta?

A memória curta é praticamente um fenómeno generalizado. Temos através da Net, o mundo completamente escancarado. Podemos ver tudo, podemos ler tudo, podemos saber tudo. A comunicação social , desaba em cima nós a cada minuto tudo o que é acontecimento.

Não há memória que aguente aquela tempestade. E o que é grave, é que muitas vezes retemos as futilidades e não fixamos as noticias que mais nos podem interessar.


Sabemos fazer-nos o favor de ser felizes ou nem tentamos?

A felicidade é uma emoção pontual e quando a recebemos, temos que segura-la até aos limites.


O que é que o fará voltar a subir a um palco? Uma peça, um texto, que o desafie? 

Subir três pequenos degraus.

Entrevista realizada por João Moreira de Sá

Tomas Gösta Tranströmer por Mário Rufino

Tomas Gösta Tranströmer, nascido em Estocolmo em 1931, é poeta e tradutor. A sua poesia está traduzida em mais de 60 línguas. É um dos mais importantes escritores escandinavos e europeus desde a 2ª Guerra Mundial. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2011

Tomas Tranströmer é, sobretudo, um homem formado pelas suas lembranças.

“As minhas lembranças observam-me” é um exercício de memória de um homem que viria a ser o escritor que é hoje.

O autor conta neste livro a importância de pequenos acontecimentos na construção da sua personalidade. Os caminhos que não foram percorridos são a sombra das suas escolhas.

As histórias que compõem esta obra estão divididas por consideráveis elipses. Apesar da linearidade cronológica, Tomas Tranströmer aplicou mais atenção à importância dos acontecimentos do que a preencher e a ordenar a cronologia com diversos factos com pouco efeito na sua formação como indivíduo. É a importância dos acontecimentos que marca o tempo da narrativa. Mas a relação do autor com as suas lembranças não é de todo pacífica. Ele desconfia e avisa que o próprio tempo conseguiu alterar as suas memórias.

“As primeiras vivências são, na sua maior parte, inacessíveis. Histórias recontadas, recordações de recordações, reconstituições que assentam na erupção súbita de um estado de espírito.” Pág. 11

Ele tenta, tanto quanto possível, limitar-se às lembranças de que não duvida da autenticidade.

Os rostos das pessoas que não vê há muitos anos mantêm-se inalteráveis apesar do tempo passado. Os factos alteram-se, de forma radical ou não, mas as pessoas, tal qual ele as recorda, mantêm-se sempre iguais apesar do inevitável envelhecimento.

“Já os meus professores, «os velhos», como nós lhes chamávamos, mantêm-se velhos na minha memória, embora os mais velhos tivessem então a mesma idade que eu tenho agora, no momento em que escrevo estas memórias. Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores” Pág. 55

O autor destaca momentos marcantes que vão desde o divórcio dos pais, numa época em que era raro acontecer um divórcio, passando pela sua colecção de insectos (é o mais famoso coleccionador sueco de insectos. Tem uma exposição no “Swedish Museum of Natural History”) até a um erro ortográfico. Há, contudo, um momento ainda mais importante na sua vida: o aparecimento da angústia que o irá acompanhar ao longo da vida.

“Talvez a minha experiência mais importante. Contudo, um dia chegou ao fim. Pensei que se tratava do Inferno, mas era o Purgatório” Pág.69

As memórias presentes em “As minhas lembranças observam-me” terminam logo após a adolescência. A redacção do texto acaba quando Tranströmer, já com cerca de sessenta anos, sofre um AVC.

“As minhas lembranças observam-me” são complementadas por os primeiros poemas de Tranströmer e por um posfácio de Pedro Mexia.

Uma análise mais aprofundada sobre o livro depende muito do ângulo de observação. Pode-se considerar que este livro explica, de alguma forma, características inerentes à poesia de Tranströmer (postura típica do “New Historicism”), ou pode ser visto pelo que é isoladamente e sem ligações à obra global do Prémio Nobel (posição típica do New Criticism). A partir do momento em que o leitor deixa para plano secundário a relevância deste livro na obra de Tranströmer, consegue usufruir, sem obstáculos, das características específicas da edição, pela Porto Editora, de “As minhas lembranças observam-me”: O texto, as ilustrações e a própria encadernação.

Tomas Tranströmer é reconhecido pela Academia Sueca devido, essencialmente, à sua poesia, mas fica a ideia de que o autor conseguiria, também, o nível de excelência na prosa.

Mário Rufino

Se voltasse a encarnar, Jesus seria um Gigabit por Luís Carmelo

A imaginação socialmente legitimada foi um dos alicerces da modernidade (de Hume a Kant, a ideia evoluiu meteoricamente). A imaginação passou a ser sobretudo um dispositivo de produção ficcional que visa, a partir da tabula rasa (Damásio refere-se à mente como “contadora de histórias”), a possibilidade de tornar real dados sondados pelo sujeito. É este o alicerce do artista – que tem acesso a visões de completude ou de totalidade – sonhado pelos românticos alemães, sobretudo pelo chamado Círculo de Jena.

Acontece, no entanto, que a estética no seu devir idealista só se viria a enunciar, pela primeira vez, ao longo de setecentos, porque antes haviam já sido criadas condições para tal. A intemporalidade mitológica deu lugar à transcendência e esta acabaria por dar lugar ao sujeito moderno criador e questionador. Entre as duas últimas etapas, o gnosticismo ocupou uma posição importante e é curioso verificar que as suas diversas proveniências têm duas características essenciais: uma (aparentemente datada) que remete para a dimensão salvífica e uma outra que remete para a aceitação da gnose como conhecimento dos mistérios reservados apenas a uma elite.

Foi a partir desta disposição superadora e, também, de busca do inexplicável que, mais de milénio e meio depois do clímax gnóstico, em pleno Iluminismo, foi possível teorizar e crer na arte, na literatura e na estética, tal como hoje ainda as entendemos. É evidente que a pressuposição dos sentidos e da imaginação como vias ligadas a faculdades superiores do homem completou o quadro e legitimou as funções da arte e da estética no mundo moderno. É nessa medida que a dimensão criativa do sujeito é realçada, sendo-lhe atribuído o crédito de uma espécie de gnose exclusiva, superior e irrespondível (um crédito de que a noção “génio” de Kant foi apenas o prenúncio).

O mundo contemporâneo viu esta ideia (meio) sacralizada do artista e do escritor refluir em direcção a nichos sem grande visibilidade. A espectacularização do mundo criou, nas últimas décadas, uma espécie de novo Apocalipse (uma visão de deus, agora sem qualquer deus) feito de terminais, tabletes, bits e imagens, de acordo com o primado da ‘comunicação pela comunicação’. A literatura vive hoje no meio deste feérico espectáculo e tenta sobreviver nas brasas do churrasco – ou do mercado – que coloca à venda, só em papel (em Portugal), uns quarenta e tal livros por dia. O público deixou de andar atrás do escritor (há três milénios, com outras mediações, chamar-lhe-íamos profeta), porque a gnose que hoje mais o encanta, diverte e comove passou para o campo de uma renovada transfiguração: a hipnose digital. Jesus, se voltasse a encarnar, seria um Gigabit. Só assim conseguiria passar a sua mensagem.

Luís Carmelo