O tema do Repórter do Kiribati é a verdade, o que tratando-se de uma obra sobre um jornalista (John Slide) deixa logo antever um fino sentido de humor.
Desde o início que o autor considera ser este um “excepcional romance!”, uma “obra-prima”, crença que a meio do livro já vai em “tendencial obra-prima” ou mesmo “romance de grande fôlego”, para, na página 189, já ser referido apenas como um “romance”. Este tipo de considerações, em que o livro é muito rico, oferece-nos a possibilidade de uma leitura alternativa.
Com efeito, vivemos tempos em que todos os escritores dão cursos de escrita criativa. Este Repórter de Kiribati é um fabuloso manancial de técnicas para a escrita de um romance que seja uma obra-prima ou, no mínimo, um romance de grande fôlego ou até, apenas, um romance. O livro está dividido em capítulos temáticos: As personagens, Os locais, Namoro casamento e uniões de fato, etc…
O leitor encontrará neste Repórter do Kiribati a feliz coincidência de ler um romance muito bem conseguido, repleto de sentido de humor e, simultaneamente, dispor de um manual de escrita criativa. Depois de o ler qualquer um estará preparado para escrever um bom romance ou, em alternativa, assassinar uma boa história que poderia dar um bom romance, quiçá uma obra-prima. Atreva-se.
Cubram-me com organza,
um pouco de seda preta nos seios já desnudados
e muitas rendas a condizer,
por favor,
de preferência pretas!
Não me digam vozes
que desconheço
nem pérolas ou diamantes
que jamais sentirei.
Eis-me aqui,
finalmente nua,
finalmente serva
perante o céu,
perante o inferno,
ou pior,
perante vós somente
e coisa nenhuma!
Cubram-me com a gentileza de mimos,
por obséquio!
Sim!
Quero rendas pretas, sedas finas, carícias que me faltaram,
já que não poderei ter os diamantes!
Quero o meu fado!
Somente o meu alegre e triste fado!
O meu fado tão mal cantado!
Aquele que o povo cantarolava quando saia do trabalho, ou enquanto laborava,
em qualquer lado!
Aquele que eu sempre cantei e me fez muito feliz enquanto tive a coragem de ser eu e de ser povo, e que me fez sentir Eu no meio da minha cidade e do meu mundo…
Quero-o soletrado em jeito de poesia no baixar do meu caixão
o meu fado, a minha poesia.
Apenas isto!
Mas, tenham a gentileza
de me cobrir toda a nudez
nesta derradeira orgia manifesta
Tão exposta!
Que terá sido feito de mim?
Sabereis vós?
Vós que hoje me acompanhais, ter-me-eis conhecido algum dia?
Soubestes porventura da minha agonia um só instante?
Desculpai-me o mau aspecto, a palidez do rosto,
a falta de maquilhagem,
esta falta de cuidado…
Não me digam mais
desafios ou maré alta,
nem tão pouco,
término!
A propósito,
quem disse que eu queria coroas de flores?
São uma fortuna,
e sinceramente para mim
são uma ofensa!
Será que nada mais vos mereço
que uma bela, ornamentada e encomendada coroa de flores?
Que tal um punhado de sementes lançadas à terra do meu chão
para depois poderem florir ao vento, e às primeiras chuvas de Outono?
Que tal uma roseira?
Ai, que excentricidade – dirão vós!
Será que nem depois de morta deixará de ter caprichos?
Não é nada disso, meus queridos ,
só porque belas flores
de encomenda – tanto que sempre as desejei –
tive sede, tive fome tantas vezes!
Mordia-lhes a cor de as querer!
No auge da minha miséria, olhava-as e sorria-lhes nas montras das floristas, ansiando que alguém me oferecesse nem que fosse um botão de rosa num dia especial – mas ninguém o fazia.
Porque tendes que me dar agora, belas rosas,
as mais rubras rosas,
as mais puras rosas?!
Porquê,
Para que as quero eu
quando tão prostrada estou
neste profundo exílio de mim?
Vós, afinal não sois como os hipócritas, certo!
Vivi a vida inteira amando-vos sem flores,
agora, deixai-me ir embora, sem elas também.
Inundai-me de luar.
Quero o meu longo vestido de noiva negro,
ao qual tantos sorriram,
sobre mim.
Embrulhai-me nele, entre papoilas, hinos, fotografias velhas
e vento norte…
Cubram-me com a fúria dos amantes traídos
e todas as flores silvestres.
Cubram-me com a poesia,
quero os mais belos poemas
Os eleitos!
Colocai-os como um terço sagrado entre as minhas mãos!
Que capricho o meu,
o de uma morta!
Não vos pedirei mais nada, prometo!
Não acreditais, é verdade!
Juro!
Juro por tudo o que existe de mais sagrado!
Exijo-vos a Palavra de meu Aba Pai.
Porque agora até posso jurar pelo Divino e pelo sagrado já que efectivamente estou morta, porque em princípio não irei morrer outra vez, certo! E, também não tenho que estar com medo que alguma coisa me caia em cima, porque na realidade, por aquilo que ainda estou a sentir agora já morta é observar-vos muito chorosos sem poder falar ou me expressar de forma alguma. Será que é isto a tão famigerada morte, ou eu estou apenas eufórica com esta nova situação na minha vida e me esteja a dar para isto, para o sentido de humor, coisa que no meu caso, penso que nunca foi o meu atributo principal, nem sequer gostava de grandes piadas, no entanto, agora neste momento aqui onde me colocaram tão bem arranjadinha dentro disto a que sempre se chama de caixão, digamos que ao ver o espectáculo de outro prisma, estou a achar uma certa graça.
A observação de vós.
A sala onde decorre o meu velório não é muito espaçosa, talvez daí se explique a tremente necessidade da entrada e saída de pessoas. Somente algumas permanecem. São os familiares mais próximos, entre eles estão os meus pais. E, perante meu corpo já sem vida, continuam sem se falar, num ódio que permanece há mais de vinte anos, e, que só a morte de um deles conseguirá apagar. Como não tive mais irmãos, somos só nós ali, os três como há mais de vinte anos isso não acontecia, nós somente, separados pelas circunstâncias da vida que torna os homens incompreensíveis e impotentes uns para com os outros por muito que se amem – como foi o caso. Mas, por mais bizarro e triste que seja, eu, ali, no meu caixão, com a beleza que a violência da morte não tinha conseguido apagar totalmente, consegui a minha grande façanha, o meu sonho de adolescente, voltar a ver os meus pais juntos, unidos, ao lado um do outro, no mesmo banco, ainda que fosse de uma simples capela mortuária que acolhia a semente única do grande amor que haviam vivido e jurado na juventude, e que havia feito a alegria de um casamento – ver nascer, crescer um filho para depois o ver morrer – não deveria haver dor pior no coração humano.
Quis abraçá-los, dizer-lhes uma vida inteira de palavras que nunca consegui dizer a nenhum, por mais que os tivesse amado, embora de maneiras bem diferentes. O ódio de um para com o outro que inevitavelmente recaíra sobre mim, tornava tudo o que eu tivesse vontade de fazer ou falar, numa autêntica impossibilidade, e eu apenas sofria, e sofri até estar aqui bem aconchegadinha neste branco bordado a cetim, lindo, com flores tão bonitas por todos os lados.
Somente o meu amor por ambos foi o elo espiritual que os uniu ainda em vida e hoje finda aqui comigo, mas estou finalmente liberta e feliz.
Célia Moura – Excerto de I Cap. “Orgias” – Contos
Imagem – Annamaria Kowalsky
Ele diz:
-Vou magoar-te.
Ela diz que sabe.
Ele diz também que às vezes as mulheres gritam. Que as Chinesas gritam. Mas que só magoa uma vez na vida, e para sempre.
Neste livro existe uma palavra a partir da qual se ergue toda a história. Essa palavra é «criança», a criança. A paixão de um adulto por uma menina. A palavra criança enche este relato de inocência.
Um chinês adulto apaixona-se por uma menina. É rico e ocioso. Dedica-se às mulheres, ao jogo e a fumar ópio. “Não fazer nada é uma profissão. Muito difícil.” Um ambiente dócil e intencionalmente indolente, sem julgamentos. Era comum os chineses gostarem “das meninas pequenas”.
Neste livro, como uma página em branco, confiou-se uma cidade a cada escritor. Trinta escritores para trinta contos, para trinta capitais, um mundo de Contos Capitais.
São histórias que crescem dentro de nós, espreitando o momento em que se soltam e ganham vida própria.
Tantos e tantos outros contos a reinventar outras tantas capitais, a atrever-se na sua escrita e na forma de ilustrar essas narrativas. A experiência capital de cada escritor. Com este livro a Parsifal estreou-se como editora. Está de parabéns.
O lado interdito e incómodo do nosso corpo liberta-se pela palavra. Maria Teresa Horta resgata-o num banquete de partilha onde o amor assume o seu lado carnal. As palavras são esse corpo desvendado sem falsos pudores. Onde o poema se despe e se deita ao nosso lado. Poesia maior e de maioridade que resgata para todo o sempre a mulher (poeta) de qualquer laivo de menoridade; morreram as poetizas, nasceu a poesia completa, com o seu lado homem e o seu lado mulher.
Nó Cego, Carlos Vale Ferraz (Casa das Letras, 2008). “Puta compañía… maricones, chulos, seminaristas, niños de papá, vagabundos…”, así describe el Capitán a su grupo de comandos destinado en Mozambique. La novela relata con extrema crudeza las operaciones del grupo e indaga en las vidas de sus miembros. La historia de un joven campesino alentejano que se fue a buscar la vida a Lisboa, pero que en la capital solo encontró dolor y miseria, y que acabó enrolado en el Ejército, es el ejemplo de muchas vidas de jóvenes portugueses que acabaron implicados en las guerras africanas. Carlos Vale Ferraz, cuyo nombre es Carlos Matos Gomes, fue oficial del Ejército portugués y participó en operaciones especiales en Angola, Mozambique y Guinea Bisáu.
Numa das suas últimas crónica, no “Público”, fazendo uma crítica feroz deste Governo, J. Pacheco Pereira evocava “os intelectuais” e a tarefa que Emerson lhes atribuía: anular o destino, pelo pensamento. Pacheco Pereira é suficientemente lúcido, culto e conhecedor da história para não cair na nostalgia pelos intelectuais universais do tempo das visões do mundo, a que muita gente se abandona ciclicamente. Ele sabe muito bem que esse intelectual universal, que desempenhou um papel tão importante no final do século XIX e princípio do século XX, deu lugar a uma outra figura a que Foucault chamou o “intelectual específico”, com outro significado político. Mas o facto de evocar a obrigação do antigo intelectual – recordando também os erros e os crimes de que este foi autor ou cúmplice – mostra que se tornou inevitável, em certas circunstâncias, revisitar esta figura depositada nas caves da história, quando as circunstâncias reclamam mais do que escritores, artistas e filósofos que se limitam a gerir as regras autónomas do seu próprio campo. ¶
Como mostra Bauman num livro sobre a “decadência dos intelectuais”, estes passaram de legisladores modernos a intérpretes pós-modernos, e a elite intelectual é hoje um grupo social que se ocupa preferencialmente de si ou, na melhor das hipóteses, do sector específico a que pertence. Assim, a cultura já não pode ter uma função crítica relativamente à sociedade, pondo em confronto valores e modos de vida, na medida em que se tornou um mero sector ‘produtivo’, rendido às argúcias teológicas da mercadoria como fetiche. Sob administração de burocratas e comissários políticos que só pensam em termos de consenso, este território inofensivo luta apenas para se manter e reproduzir. A sua tarefa é fazer a síntese total, onde tudo é compatível com tudo, e não a cesura crítica que “anula o destino”.
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 1.12.2012.
As Conferências do Casino podem considerar-se um manifesto de geração.
Denominam-se assim por terem tido lugar numa sala alugada do Casino Lisbonense e foram uma série de cinco palestras realizadas em Lisboa no ano de 1871 pelo grupo do Cenáculo formado, por sua vez, pelas mesmas pessoas, mais ou menos, que constituem a Geração de 70. Foi, então, um grupo de jovens escritores e intelectuais, reunidos em Lisboa após acabarem os seus estudos em Coimbra. Antero aparece como grande impulsionador desde 1868, iniciando os outros membros do grupo em Proudhon.
A ideia destas palestras surgiu na casa da Rua dos Prazeres, onde na época reunia o Cenáculo. Antero e Batalha Reis alugaram a sala do Casino Lisbonense, situado no Largo da Abegoaria, presentemente de Rafael Bordalo Pinheiro. Foi no jornal “Revolução de Setembro” que foi feita a propaganda a estas Conferências. A 18 de Maio foi divulgado o manifesto, já anteriormente distribuído em prospectos, e que foi assinado pelos doze nomes que tinham intenções organizadoras destas Conferências Democráticas.
22 de Maio de 1871
1ª Conferência: “O Espírito das Conferências”
Conferência proferida por Antero de Quental, de certa forma introdutória daquelas que se seguiram. De acordo com os relatos dos jornais da época, único testemunho que resta, esta palestra consistiu num desenvolvimento do programa que tinha sido previamente apresentado.
Antero começou por se referir à ignorância e indiferença que caracterizava a sociedade portuguesa, falando da repulsa do povo português pelas ideias novas e na missão de que eram incumbidos os “grandes espíritos” e que consistia na preparação das consciências e inteligências para o progresso das sociedades e resultados da ciência. Referiu o exemplo que constitui a Europa e a excepção formada por Portugal em face deste exemplo.
Para Antero o ponto fulcral que iria ser focado nas futuras Conferências seria a Revolução, o seu conceito, que Antero define como um conceito nobre e elevado.
A conclusão da palestra termina com o apelo que Antero faz às “almas de boa vontade” para meditarem nos problemas que iriam ser apresentados e para as possíveis soluções, embora estas últimas se constituíssem como opostas aos princípios defendidos pelos conferencistas.
27 de Maio de 1871
2ª Conferência: “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos”
Esta Conferência foi também proferida por Antero de Quental. Na introdução Antero pressupõe três atitudes ou pontos de partida. Em primeiro lugar “O Peninsular”, falar da Península como um todo; em seguida uma aceitação – os Povos obedecem a um estatuto anímico colectivo, estrutural – é a crença no génio de um Povo; e, por fim, uma atitude judicatória – Antero julga a História, como uma entidade, o juízo moral, social e político.
Em seguida enumera e discute as causas da decadência. A primeira causa apontada por Antero foi o catolicismo transformado pelo Concílio de Trento (1545-1563), com a Contra-Reforma e a Inquisição, que desvirtuara a essência do Cristianismo, conduzindo a uma atrofia da consciência individual; de seguida, aponta o Absolutismo, a Monarquia Absoluta que constituía a “ruína das liberdades sociais”, o centralismo imperialista viera coarctar as liberdades nacionais, levando a “raça” ibérica a uma cega submissão; por fim, a última causa é o desenvolvimento das conquistas longínquas, as conquistas ultramarinas, que exauriram as energias do país, levando à criação de hábitos prejudiciais de grandeza e ociosidade e que conduziram ao esvaziamento de população de uma nação pequena, substituindo o trabalho agrícola pela procura incerta de riqueza, a disciplina pelo risco, o trabalho pela aventura.
Para Antero a solução destes problemas é a seguinte:
“Oponhamos ao catolicismo (…) a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a contemplação directa do divino pelo humano (…), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação incessante da humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento, sempre inspirado. Oponhamos à monarquia centralizada (…) a federação republicana de todos os grupos autonómicos, de todas as vontades soberanas, alargando e renovando a vida municipal (…). Finalmente, à inércia industrial oponhamos a iniciativa do trabalho livre, a indústria do povo, pelo povo, e para o povo, não dirigida e protegida pelo Estado, mas espontânea (…), organizada de uma maneira solidária e equitativa…”*
A conclusão insere uma dimensão progressista, a instauração de uma revolução, a acção pacífica, a crença no progresso inspirado numa moralização social (Proudhon), sendo proferida num tom idealista e retórico.
5 de Junho de 1871
3ª Conferência: “A Literatura Portuguesa”
Conferência proferida por Augusto Soromenho, professor do Curso Superior de Letras.
Nesta palestra faz uma crítica aos valores da literatura nacional, concluíndo que ela não tem revelado originalidade. Há uma negação sistemática dos valores literários nacionais, exceptuando escritores como Luís de Camões, Gil Vicente e poucos mais, atacando os poetas, dramaturgos, romancistas e jornalistas seus contemporâneos. Transmite uma visão decadentista, ao negar originalidade e peculariedade à literatura nacional.
Tem a sua vertente revolucionária ao inculcar a ideia de que a literatura portuguesa deverá sofrer um processo de reconstrução que deverá partir de uma sociedade revitalizada.
Uma literatura com carácter nacional mas que se paute por valores universais.
O modelo e guia desta renovação salvadora da literatura nacional seria Chateaubriand, com o conceito de Belo absoluto como ideal da literatura, constituindo esta um retrato da Humanidade na sua totalidade.
12 de Junho de 1871
4ª Conferência: “A Literatura Nova ou o Realismo como Nova Expressão de Arte”
Conferência dada por Eça de Queirós e que encontra a sua inspiração em Proudhon e, no aspecto programático, no espírito revolucionário destas Conferências referido por Antero nas palestras que proferiu.
Eça salientou a necessidade de operar uma revolução na literatura, semelhante àquela que estava a ter lugar na política, na ciência e na vida social. A revolução é um facto permanente, porque manifestação concreta da lei natural de transformação constante, e uma teoria jurídica, pois obedece a um ideal, a uma ideia. É uma influência proudhoniana. O espírito revolucionário tem tendência a invadir todas as sociedades modernas, afirmando-se nas áreas científica, política e social. A revolução constitui uma forma, um mecanismo, um sistema, que também se preocupa com o princípio estético. O espírito da revolução procura o verdadeiro na ciência, o justo na consciência e o belo na arte.
A arte, nas sociedades, encontra-se ligada à seu progresso e decadência, sendo condicionada por causas permanentes, como o solo, o clima e a raça e causas acidentais – ideias que formam os períodos históricos e determinam os costumes, também denominadas históricas.
O artista encontra-se sob a influência do meio, dos costumes do tempo, do estado dos espìritos, do movimento geral, em conclusão às causas acidentais ou históricas. A arte obedece, então, às ideias directrizes da sociedade, ao seu ideal, à sua ideia-mãe, conduzindo esta situação à harmonização entre a arte e o ideal social. Esta teoria indicia a conciliação da teoria determinista de Taine, com a influência do meio e do momento histórica na criação artística, e o príncipio moral de Proudhon, que refere o papel social do artista e a utilidade da arte.
A revolução, que inspirara tantos escritores, como Rabelais e Beaumarchais, é renegada e esquecida pela arte contra-revolucionária. Faz uma crítica cerrada ao Romantismo, a Chateaubriand, refere a separação entre o artista e a sociedade que conduz à arte pela arte e, por fim, anuncia o príncipio da reacção salutar que começava a acontecer contra a “impostura oficializada” – o Realismo, que coincide com o despertar do espírito público.
“Que é, pois, o realismo? É uma base filosófica para todas as concepções do espírito – uma lei, uma carta de guia, um roteiro do pensamento humano, na eterna região do belo, do bom e do justo. Assim considerado, o realismo deixa de ser, como alguns podiam falsamente supor, um simples modo de expor – minudente, trivial, fotográfico. Isso não é realismo: é o seu falseamento. É o dar-nos a forma pela essência, o processo pela doutrina. O realismo é bem outra coisa: é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas. É a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos. É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o realismo é uma reacção contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.” **
Dando uma noção mais concreta, Eça sistematiza:
“1º – O Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea.(…);
2º – O Realismo deve proceder pela experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos caracteres;
3º – O Realismo deve ter o ideal moderno que rege a sociedade – isto é: a justiça e a verdade”***
Foca aqui as relações da literatura, da moral e da sociedade. A arte deve visar um fim moral, auxiliando o desenvolvimento da ideia de justiça nas sociedades. Fazendo a crítica dos temperamentos e dos costumes, a arte auxilia a ciência e a consciência. O Realismo conduzirá à regeneração dos costumes. Concluindo:
“A arte presente atraiçoa a revolução, corrompe os costumes. De tal forma, ou se há-de tornar realista ou irá até à extinção completa pela reacção das consciências. – O modo de a salvar é fundar o realismo, que expõe overdadeiro elevado às condições do belo e aspirando ao bem, – pela condenação do vício e pelo engrandecimento do trabalho e o da virtude.”****
19 de Junho de 1871
5ª Conferência: “A Questão do Ensino”
Palestra proferida por Adolfo Coelho que se inicia com uma posição de ataque às coisas portuguesas. Traça o quadro desolador do ensino em Portugal, mesmo o superior, através da História.
A solução proposta passa pela separação completa da Igreja e do Estado e por uma mais ampla liberdade de consciência, solução que, no entanto, era restrita a uma zona da vida nacional.
Para Adolfo Coelho a Igreja deprime o povo e do Estado nada havia a esperar. Tomando isto em consideração, o remédio seria apelar para a iniciativa privada, para que esta difundisse o verdadeiro espírito científico, o único que beneficiaria o ensino.
26 de Junho de 1871
Quando Salomão Saragga se preparava para realizar a sua Conferência “História Crítica de Jesus”, o Governo, por portaria, mandou encerrar a sala do Casino Lisbonense e proibir as Conferências.
No mesmo dia Antero redige um protesto no café Central, hoje Livraria Sá da Costa.
*QUENTAL, Antero de, 2ª Conferência: Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, Casino Lisbonense, 27 de Maio de 1871 in MEDINA, João, Eça de Queiroz e a Geração de 70, Lisboa, Ed. Moraes, 1980, 1ª ed., pp. 157-158.
**QUEIRÓS, José Maria Eça de, 3ª Conferência: A Literatura Nova ou O Realismo como Nova Expressão da Arte, Casino Lisbonense, 12 de Junho de 1871 (Reconstituição por António Salgado Júnior, o texto original perdeu-se) in MATOS, A. Campos (org. e coordenação), Dicionário de Eça de Queirós, Lisboa, Ed. Caminho, 1988, s/ed., pág. 127.
Revolução Paraíso foi oficialmente apresentado na FNAC Chiado.
Mário de Carvalho referiu-se aos três planos em que esta obra se desenvolve, o histórico, o da acção dos personagens e o onírico (que está para além do sonho de um Portugal melhor, aportado pelo 25 de Abril). Encontrou características picaras nos personagens e lançou perguntas em jeito de desafio ao autor.
O autor respondeu com humor, embora não tenha corrido o risco de se afastar do que tinha preparado como sua apresentação, e deixou-nos uma visão, não da sua obra, mas de como esta nasceu e cresceu com ele. Paulo M. Morais tinha dois anos no 25 de Abril e, claro está, não soube responder à pergunta vinda da assistência: “Onde estavas tu no 25 de Abril?”.
Como se constrói um livro sobre um período histórico tão recente e do qual não se têm uma memória? O autor teve a sorte de receber um álbum de recortes das mãos da sua avó. Construiu assim, sobre o relato dos outros, as suas próprias memórias. Será esse o plano onírico de que falava o Mário de Carvalho? Não sei, mas talvez seja bom ler o livro primeiro antes de me sentir tentado a chegar a alguma conclusão.
Entre as duas nádegas
o pávido sulco
tem aroma de áfricas
e de uvas de outubro
Dirias que fora
um silvo de morte
a penetrar toda
a nocturna flora
até hoje intacta
que ainda aí tinhas
Respira Não fales
Murmura Não grites
Que travo
de amoras
Que túnel escuro
Que paz no que sofres
por mais uns minutos
o pescoço vergas
submissa e frágil
tal o de uma
égua que vai beber
água
mas encontra a
lua
E junto da cama
a rosa viúva
com lágrimas brancas
já pede os meus dedos
sacudido apoio
para a viuvez
em que a deixo hoje
Muito mais a
norte os queixumes
calas
E nem gemes Gozas
enquanto te invade
o suco da vara
vertido no sulco
Vê como foi fácil
Respira mais
fundo
Chrys CHRYSTELLO (n. 1949-) é um cidadão australiano que não só acredita em multiculturalismo, como é um exemplo vivo do mesmo. Nasceu no seio duma família mesclada de Alemão, Galego-Português (942 AD), Brasileiro (carioca) do lado paterno e Português e marrano do materno. Publicou aos 23 anos o livro “Crónicas do Quotidiano Inútil, vol. 1” (poesia). Viveu em Timor (1973- 75) e dedicou-se sempre ao jornalismo (rádio, televisão e imprensa). Durante décadas escreveu sobre o drama de Timor Leste enquanto o mundo se recusava a ver essa saga.
Na Austrália esteve envolvido nas instâncias oficiais que definiram a política multicultural daquele país, divulgou a descoberta de vestígios da chegada dos Portugueses (1521-1525, mais de 250 anos antes do capitão Cook) e difundiu a existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (há quatro séculos).
È ACADÉMICO correspondente da AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa). Tem vários livros publicados do ensaio, à crónica e à poesia. Traduziu inúmeras obras de autores açorianos para Inglês. Organiza desde 2001-2002, os Colóquios Anuais da Lusofonia [Bragança; Lagoa, Ribeira Grande e Maia (S. Miguel); Vila do Porto (Sta Maria, Açores), Brasil, Galiza e Macau]. É Editor dos CADERNOS (DE ESTUDOS) AÇORIANOS,publicação trimestral, online, dos Colóquios da Lusofonia, coordenados por Helena Chrystello e Rosário Girão.http://www.lusofonias.net/conteudo/estudos-acorianos/
Num registo tão elitista quanto a elegância o permite, Eduardo Pitta, deixa-nos um relato das suas viagens a Itália na forma de um quase diário. Não são viagens de turismo no seu sentido convencional. O autor recusa entregar-se à multidão, a essa horda de turistas basbaques e ao seu frenesi compulsório, ou à espontaneidade de uma opção de última hora. Este é o percurso estudado de um homem culto. Um percurso destinado a satisfazer o seu gosto pelo requinte, seja por uma paisagem, um apontamento arquitectónico ou uma refeição num restaurante de excelência (onde o preço, obviamente, não é impedimento).
O percurso divide-se por duas cidades, Veneza e Roma.
Da primeira, Eduardo Pitta, afirma: “Veneza é música e é luz”. E descobrimos ser também a sua gastronomia e os locais onde os seus ícones marcaram presença. Os restaurantes merecem um olhar demorado. “O ambiente é glamoroso, distendido, bem-humurado, sentimos que estamos envoltos numa aura de privilégio”. Ou, “caras bonitas, vozear controlado”.
Existe um percurso que é o olhar de Eduardo Pitta e é fácil deixarmo-nos enamorar por ele. Talvez, porque “a intimidade alheia sempre espicaçou os homens”, como refere a propósito da multidão de turistas que visitam o palácio dos Doges. A elegância dos ambientes é depurada como a prova de um grande vinho. Os aromas, a cor, a extensão dos saberes, o registo prolongado da memória, tudo avaliado com a mestria de um entendido, sem o deslumbramento do turista em excursão organizada.
Apontamentos breves são-nos servidos com um impecável sentido de humor. “…um bando de rapazes improvisara uma desastrada versão de Great Bird de Keith Jarrett. A temeridade é um atributo dos inocentes. Eles são jovens e pareciam dispostos a comer os dentes do piano. O poeta teria gostado”.
Quando se trata das suas desilusões é impiedoso, “o Babington’s Tea Room, tornou-se uma decepção: criadas mal resolvidas, pretensioso e caro. As freiras que vi no Vaticano têm melhor astral”.
Este livro é uma “abstracção da realidade”, mas não na sua forma de divertimento simples para consumo imediato, é antes um desafio ao bom gosto, ao grande relato das coisas simples da vida, mas belas. O relato sóbrio de uma certa forma de se estar. Depois de o ler nunca mais a Fontana de Trevi terá o mesmo encanto.
“Quem conhece, sabe do que falo. Quem não conhece, deve ir conferir”. Ou, neste caso, ler.
Estas são páginas do diário de uma menina que carrega um jardim na cabeça, atira palavras aos pombos e sabe quanto tempo demora uma sombra a ficar madura. Páginas feitas de memórias, para leitores de todas as idades.
Estão abertas as inscrições para o Curso de Escrita Criativa – nível 1, com António Pacheco e a participação especial de Afonso Cruz. As sessões decorrerão nas instalações do Ginásio Clube Português. Aceda ao link para mais informações.
No Muito cá de casa, na Casa da Cultura de Setúbal, foi noite de Casanova.
António Mega Ferreira encontrou seis cartas que Casanova escreveu – em francês – a partir de Lisboa, no ano de 1757 (dois anos após o terramoto) e acrescentou-lhes umas brevíssimas notas de rodapé, dando-lhes corpo de livro.
Foi disso e muito mais o que se falou ontem; ou o convidado não fosse o AMF.
A sessão abriu com um interlúdio musical a que se seguiu a leitura parcial de uma dessas cartas, num momento de extrema elegância – digno dos mais nobres salões da corte – abrilhantado pelo ator José Nobre.
Em 1998, afogueado com a insistente pergunta sobre os seus projetos a seguir à Expo 98 (que liderou), AMF respondeu ter como propósito traduzir a “Histoire de ma vie” de Giacomo Casanova. Não o chegou a fazer, mas acrescentou-lhe estas seis cartas.
O romance “Cartas de Casanova, Lisboa 1757”, a que o AMF deu uma forma epistolar (tão ao gosto do séc. XVIII), preenche um hiato de três meses, em que nada é referido na “Histoire de ma vie”.
Casanova só podia ter estado em Lisboa e ter escrito aquelas seis cartas (em francês) que, agora, com brio e desenvoltura de homem de filosofia, AMF, deu ao prelo.
Como sempre, no Muito cá de casa, o José Teófilo brindou-nos com uma noite animada, digna de um renascimento português, onde se falou de literatura e do seu processo criativo, se evocou Bocage…
Na madrugada de domingo a Casa dos Bicos foi alvo de um acto gratuito de vandalismo que resultou na destruição do conjunto de painéis que desde o passado mês de novembro assinalam os 30 anos da edição de Memorial do Convento e os 90 Anos de José Saramago. A Fundação José Saramago denuncia o sucedido e afirma que este tipo de vandalismo, mais do que atingir a Fundação e a Casa dos Bicos, atinge a cidade de Lisboa, a sua população e todos os visitantes da Casa, que nestes meses têm deixado testemunho do apreço por esta iniciativa de transformar o edifício numa galeria pública virada para o Tejo e para a cidade. A metáfora da destruição faz aqui todo o sentido, se associarmos os que perpetram actos contra o bem público aos que neste momento retiram a Portugal a soberania e os seus direitos, situação contra a qual parecemos indefesos, como país, como Fundação.
Para as autoridades competentes seguiu já uma denúncia do crime.
CASANOVA EM LISBOA | António Mega Ferreira imaginou uma visita de Casanova a Lisboa. Conta-a neste livro que agora vai apresentar na Casa da Cultura, em Setúbal. A sessão abrirá com a audição de uma faixa musical escolhida pelo autor. O actor José Nobre participa com a leitura encenada de um texto do livro.
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.
Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos… – como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.
O director Carlos Vaz Marques quer publicar um inédito de um autor desaparecido por cada número, mas a própria revista encomendará textos a autores de língua portuguesa.
O primeiro número da edição portuguesa da revista literária Granta, que sairá em Maio, irá publicar inéditos de Fernando Pessoa, disse esta sexta-feira à Lusa o jornalista Carlos Vaz Marques, que a dirige.
A publicação de cinco sonetos de Fernando Pessoa, apresentados pelos investigadores pessoanos Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite, insere-se no primeiro objectivo da revista, que “é o de publicar bons textos literários inéditos”, disse Carlos Vaz Marques.
Referindo-se à publicação dos sonetos de Pessoa, Vaz Marques afirmou tratar-se de “uma revelação absoluta” que “já justificaria, por si só, este primeiro número da edição portuguesa da Granta”.
Segundo o responsável, há o interesse em publicar um inédito de um autor desaparecido por cada número, mas a própria revista encomendará textos a autores de língua portuguesa.
Maria João Cantinho: nasceu em 1963, Lisboa. É poeta, ensaísta e pensadora. Profunda conhecedora da obra e pensamento do filósofo Walter Benjamin. Formou-se em Filosofia e realizou tese de mestrado em estética sobre Walter Benjamin: “O Anjo Melancólico – análise do conceito de alegoria na obra de Walter Benjamin”. Tem vindo a colaborar em várias publicações (jornais e revistas) , tanto na área da poesia, como ensaio. Publicou entre outros títulos: “A Garça” (contos, 2001), “Abrirás a Noite com um Sulco” (Poesia, 2002) , “O Anjo Melancólico” (ensaio, 2002), o Traço do Anjo ( poesia 2011)
Tornar o mundo um miolo, achatá-lo com peso de corpo sobre o tampo atoalhado da mesa, arredondá-lo sob a palma linhosa da mão que o sente ínfimo desperdício, coisa que se pode perseguir se rola desatenta para o chão.
Olhá-lo desinteressadamente mesmo que já entre os pés calçados há horas, sem alterar uma pequena parte que seja da sua vaga importância, portanto nem sequer adesivá-lo com palavras inventadas e ele, o miolo, a ponto de esmiuçar-se perante a nossa indiferença e nós, a ruborizarmos sobre os ombros.
No dia 5 de abril, sexta-feira, entre as 14h30 e as 16h00, a Biblioteca Municipal irá acolher uma ação sobre poesia intitulada “Amo-te – Poemas para gritar ao coração”, a cargo de João Manuel Ribeiro.
Organizada pela Equipa da Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas Campo Aberto – Beiriz, a iniciativa destina-se aos alunos do 8º ano de todas as escolas do concelho.
Promover o gosto pela poesia; desmistificar a dificuldade da escrita poética; participar de forma ativa na construção do texto poético; fomentar o gosto pela partilha; estimular o gosto/ consciencialização na divulgação de conhecimentos adquiridos são os objetivos desta atividade que pretende assinalar o Dia Mundial da Poesia (21 de março), sendo que este decorreu no período de interrupção letiva da Páscoa.
João Manuel Ribeiro nasceu em 1968, em Oliveira de Azeméis. A concluir Doutoramento em Ciências da Educação, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, com dissertação sobre A Poesia na Escola – Resposta ao texto poético e organização do ensino.
Mestre em Supervisão Pedagógica e Formação de Formadores, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, com dissertação sobre “A Poesia no 1.º Ciclo do Ensino Básico – Das Orientações Curriculares às Decisões Docentes”.
Tem-se dedicado à escrita para crianças, acompanhando tal processo com um trabalho de dinamização da literatura em Escolas Básicas do 1º Ciclo e colégios, quer através de oficinas de escrita criativa, quer através de encontros onde diz poesia. Dinamizou alguns projetos de escrita colaborativa com alunos, resultando desse processo alguns livros.
Formador de professores. Formador de formadores. Formador da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas.
Sócio da Associação Portuguesa de Escritores. Sócio da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Membro da Children´s Literature Association (CHLA – USA).
Numa aldeia de velhos, no interior de Angola, onde se observa um estranho ritual de adoração dos burros, chegam dois personagens vindos de fora. O caixeiro-viajante e o assobiador.
O primeiro espreita a aldeia com a consciência de alguém “treinado nos campos da vida”, “vendedor de bugigangas, de objectos para distrair ou encantar”, e o segundo assobia um choro como se tivesse por missão exultar a aldeia a um ritual pagão, catalisador de todas as forças, ele, o assobiador, “ o distribuidor enganoso e exclusivo que a tristeza arranjara para mostrar à Humanidade apenas a sua face bela”.
Se é difícil admitir-se que se possa ensinar Literatura, como observou Fidelino Figueiredo (1889-1967), o ensino da atividade crítica pode ser algo ainda mais questionável. Mesmo assim, ensina-se. E quem quiser pode aprender muito. É o que propõe A Criação Literária – Poesia e Prosa (São Paulo, Cultrix, 2012), de Massaud Moisés, obra anteriormente publicada em três volumes, um dedicado à poesia e dois à prosa, que acaba de ganhar uma edição revista, atualizada e unificada.
Concebida originalmente sob o título de Introdução à Problemática da Literatura, a obra, cuja primeira edição é de 1967, mereceu sucessivas impressões e constitui o melhor manual de teoria literária produzido no Brasil. Não é de admirar que ainda seja largamente utilizado nos cursos de Letras.
É claro que a imensa maioria que recorre a este livro – que é, acima de tudo, didático – é formada por aqueles que almejam uma carreira no magistério na área de Letras. Mas este livro é fundamental mesmo para quem quer seguir uma atividade cada vez menos prestigiada nestes dias, a de crítico literário.
Até porque esta não é uma carreira profissional e ninguém sobrevive como crítico ou resenhista de livros nem sobreviveu em outros tempos. Agrippino Grieco (1888-1973), grande crítico literário e ensaísta, que viveu seus últimos dias no subúrbio carioca da magra aposentadoria de ferroviário, sempre lamentou o tempo que perdera analisando obras de autores que considerava inferiores a ele em talento. Mas, se não constitui uma carreira profissional, a atividade ao menos serve não só para bem ocupar as horas de ócio como acumular erudição e, melhor ainda, estimular e exercitar os neurônios, o que, na idade madura, pode ajudar a retardar as manifestações do mal de Alzheimer. Já não é pouco.
Para piorar, nestes dias que correm, as revistas e suplementos literários, praticamente, desapareceram. E os que sobreviveram, diante de tantas dificuldades econômicas, não costumam remunerar seus colaboradores. O último, justiça se faça, que ainda pagava por colaboração era o suplemento Caderno de Sábado, que desapareceu no começo do século XXI, numa daquelas crises periódicas pelas quais passou o Jornal da Tarde, de São Paulo, até o seu fechamento às vésperas do Dia de Finados de 2012.
II
Seja como for, se ainda hoje há jovens que, contrariando a vontade paterna, queiram iniciar-se nesta atividade e tenham disposição e espaço para ler e guardar a infinidade de livros que editoras e autores vão lhe enviar pelo correio, para estes não há outro caminho que não seja começar por A Criação Literária. Afinal, por aqui, vão aprender que o verso é só uma maneira de marcar melhor a narrativa, ou seja, “é mero instrumento da narrativa, que assume valor absoluto”.
Portanto, verso não significa poesia, como sabe quem lê literatura de cordel ou os contos em versos de Geoffrey Chaucer (c.1343-1400) ou de La Fontaine (1621-1695). Na verdade, diz Moisés, a “poesia é a expressão do ‘eu’ por palavras polivalentes, ou metáforas”. São expressões que, como observou Octavio Paz (1914-1998), em O Arco e a Lira (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982), foram classificadas pela retórica e chamam-se, além de metáforas, comparações, símiles, jogos de palavras, paronomásias, símbolos, alegorias, mitos, fábulas etc.
Essas expressões verbais têm ritmo próprio, ou seja, são o próprio ritmo, o mundo da alma do poeta. Não se deve, porém, confundir ritmo com cadência. Para Moisés, “a cadência participa da formulação do ritmo, mas não o determina: na verdade, o ritmo engloba a cadência, como o todo implica a parte”. Já o ritmo, diz, constitui “a sucessão de unidades melódico-emotivo-semânticas, movendo-se na linha do tempo”.
É por isso que pode haver poesia em textos armados em versos ou em linhas cheias, ou seja, numa crônica, conto ou em qualquer outro texto, como, por exemplo, El jardín de senderos que se bifurcan (1941), de Jorge Luis Borges (1899-1986), que Octavio Paz define como poema. Segundo o poeta, nesse relato, “a prosa se nega a si mesma: as frases não se sucedem, obedecendo a uma ordem conceitual ou narrativa, mas são presididas pelas leis da imagem e do ritmo. Há um fluxo e refluxo de imagens, acentos, pausas, sinal inequívoco da poesia”. Em outras palavras: estamos diante de uma prosa poética.
III
Já poema em prosa é, antes de tudo, poema, como diz Moisés, ou seja, a sua meta consiste na expressão da poesia, enquanto na prosa poética o objetivo do ficcionista é “recriar o mundo, inventando uma história e suas personagens, ainda que numa atmosfera de permanente lirismo”. Poemas em prosa são pequenas peças líricas em que toda a primazia é do “eu”, isto é, o poeta volta-se para dentro de si, “fazendo-se ao mesmo tempo espetáculo e espectador”. Como exemplo, leia-se fragmentos do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa (1888-1935).
Nenhuma dessas formas, porém, confunde-se com o poema de forma livre, em que, segundo Moisés, o metro cede lugar ao ritmo que, sem a cadência imposta pela forma fixa, torna-se “a própria alma do verso”, na definição de Antonio Candido, em O Estudo analítico do poema ((Terceira Leitura, FFLCH/USP, 1987). Como exemplo, leia-seOito elegias chinesas (Lisboa: Edições Descobrimento, 1932), poemas traduzidos por Camilo Peçanha (1867-1926), um dos precursores do Modernismo português.
O que sustenta as Oito elegias chinesas é o ritmo, que espelha também toda a inquietação e as alterações do espírito e da sensibilidade do poeta/tradutor. Livre da camisa-de-força da forma fixa, Peçanha, como tradutor, sentiu-se à vontade nos poemas/traduções para colocar toda a tristeza de sua alma de autoexilado em Macau que se identificou com a anima de poetas chineses desterrados do tempo dos Ming (1368-1628). Para tanto, foi mais longe na subversão das formas poéticas tradicionais, suprimindo rimas, fazendo cortes bruscos, reduções inesperadas ou prolongamentos desmedidos – inclusive, adotando soluções da prosa como a divisão silábica.
Mas não é só para elucidar estas questões ligadas à teoria da poesia, aparentemente difíceis, que serve este A Criação Literária. Vai mais longe ao analisar também as formas em prosa, como o conto, a novela, o romance, a crônica e o teatro, além de outras formas híbridas e, por fim, a crítica literária, “talvez o mais espinhoso e controverso” dos problemas relativos à teoria da Literatura, como o próprio autor admite.
IV
Professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, Massaud Moisés foi professor visitante nas universidades de Wisconsin, Indiana, Valderbilt, Texas, Califórnia e Santiago de Compostela. Alguns dos seus livros, consagrados à teoria literária e às literaturas em vernáculo, constituem referência obrigatória para estudantes e estudiosos destas matérias como evidenciam as sucessivas edições que têm merecido História da Literatura Brasileira, 3 v., A Análise Literária, Dicionário de Termos Literários, A Literatura Brasileira Através dos Textos, A Literatura Portuguesa Através dos Textos, Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, A Literatura Portuguesa, Fernando Pessoa: o Espelho e a Esfinge e Machado de Assis: Ficção e Utopia, todos publicados pela Cultrix, A Literatura como Denúncia (Cotia-SP: Íbis, 2002) e As Estéticas Literárias em Portugal, 3 v. (Lisboa: Editorial Caminho, 2002), entre outros.
(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
A literatura é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida –
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, – um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
Ana María Matute enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento, de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.
Esta não é uma biografia escrita de uma forma convencional, um conjunto de eventos enumerados por ordem cronológica ou alinhados pela sua relevância. Um objecto de estudo. Esta é uma biografia escrita por quem arrisca, quem arrisca tudo e muito, sem perder a noção do lado simples da vida: “Eu percebo-o. Não porque tenha o mesmo pensamento, mas porque o percebo. Apenas.”
É esse entendimento que Cristina Carvalho nos transmite neste livro sobre Rómulo de Carvalho, também seu pai. Usando todos os seus recursos de ficcionista ousa, de forma destemida, construir a imagem do homem que muito admirou e muito amou. Fá-lo, por vezes, em registo de miniconto, como se um ritmo próprio (e misterioso) lhe ditasse a ordem pela qual esses eventos lhe surgem na memória.
inscritas na dor de uma armadura agarrada a silêncios
mil vezes guardados
mil vezes entornados
nessa (re)câmara
violentamente reconhecida
dual sensação
DO AMOR
qual orgia sísmica pintada a escarlate, onde amantes acedem à visão deste espaço-tempo, ainda floreado em êxtase… porque não?
eis que irrompe o som
obscuro punhal, que num acto de loucura executa o ritual
pacto de sangue
o duo
nesta urgência de querer
não querer
aprender a ser fogo e gelo
num qualquer mar onde a linguagem se quebra…
“A mulher que passa Rio de Janeiro
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.”
‘E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
A Biblioteca Nacional apresenta a mostra “Literatura de cordel brasileira. Coleção Arnaldo Saraiva”, que decorrerá entre 8 de março à 22 de junho deste ano. A Literatura de Cordel chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e passou por várias adaptações regionais até se popularizar com o seu formato atual. Representa uma parcela preciosa da nossa história, assumindo-se como um elemento de importante valor cultural, principalmente por se tratar de um documento literário que tem as suas raízes no mundo antigo e cuja existência se justifica (também) pela necessidade dos mais desfavorecidos em contar suas histórias. A Literatura de Cordel merece ser relembrada e tratada com a mesma dignidade que trouxe para a cultura popular lusófona, nutrindo-a de alegria, crítica social e imaginação.
«A noite passada sonhei que voltava à Bahia. O sol atacava a pique, e eu andava de igreja em igreja à procura de alguém que não conseguia encontrar. Na rua a força do sol impedia-me de ver, nas igrejas ficava atordoada com o excesso de turistas e talha dourada. Queria gritar, mas não conseguia. Dizes-me que é uma sensação muito comum, nos sonhos. Mas eu creio que já não posso voltar a ser uma pessoa muito comum.»
Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo, Dom Quixote
No próximo dia 6 de março, daqui a três dias, Gabriel García Márquez completará 86 anos. O escritor, jornalista, político e Prêmio Nobel de Literatura (1982), nasceu em Arataca (Colômbia).
O escritor de “Cem anos de solidão”, uma narrativa de realismo fantástico sobre a saga de uma família durante 100 anos, os Buendía – Iguarán, que sofre de uma espécie de maldição, uma ideia mística, que envolve pergaminhos e ciganos. A maldição só será revelada quando o último da família estiver prestes a morrer.
As últimas notícias sobre a saúde de “Gabo” não são boas: ele sofre de demência senil, vem perdendo a memória. E o que é um escritor sem memória? Essa doença é genética, há outros casos na família do escritor e inclusive, um dos seus personagens em “Cem anos de solidão”, o patriarca da família, também sofre dessa doença degenerativa. Uma espécie de presságio ou temor?
Um documentário sobre Gabriel Garcia Márquez, onde ele conta sobre o peso de ter ganhado um Prêmio Nobel de Literatura aos 54 anos (jovem), sobre seu labor de jornalista, a etiqueta para receber o prêmio e sua aversão ao fraque, a superstição arraigada na família, seus 16 irmãos, a influência da sua avó nas suas escrituras, e que toda a sua obra tem um ponto de partida na realidade, etc…
A escritora Cristina Carvalho (n. 1949) vai falar da sua carreira e trabalho literários numa sessão que decorre a 14 de março, em Londres, a convite do Camões Centre for Studies in Portuguese Language and Culture do King’s College London.
Apresentada pela diretora do centro, Luísa Pinto Teixeira, a escritora que acaba de lançar em fevereiro um novo romance, Marginal, em que aborda «uma época onde a liberdade sexual se começou a afirmar e as mulheres começaram a conquistar a sua independência na sociedade portuguesa», debaterá com Maria José Homem Ribeiro, leitora do Camões, IP, e responderá a perguntas do público.
Autora de vários romances, Cristina Carvalho, filha da escritora Natália Nunes e do professor e poeta Rómulo de Carvalho, tem também publicado em revistas e jornais, nomeadamente no Jornal de Letras e revista Egoísta.
Publicou o seu primeiro livro, Até Já Não É Adeus, em 1989. Em março de 2009 saiu o romance O Gato de Uppsala, e mais recentemente, publicou, entre outras obras, Nocturno, um romance biográfico sobre Chopin, A Casa das Auroras e Lusco-Fusco. Algumas dos seus romances estão integrados no Plano Nacional de Leitura.
O meu primeiro livro de poesia. Não o primeiro que li, mas o primeiro que comento neste espaço.
Habituei-me à poesia da blogosfera, que é diferente da poesia em papel. Todos os poemas deviam ser lidos em papel, e de preferência em livro. Não é possível ler-se poesia sobre um vidro que nos pode reflectir. A poesia precisa de papel, de uma página que se vira, do cheiro a tinta impressa, do peso de um livro que nos ocupa as mãos.
Hoje, a poesia da bloga saltou para o papel. Ganhou força. Num livro em que a capa se reflecte na contracapa, sendo espelho de si mesmo, fechado sobre si mesmo. Não espreitamos o que está do outro lado do espelho, simplesmente o folheamos e lemos o seu interior. E descobrimos silêncios, partilhas e a imensidão que sendo humana nos estranha. Interroga-nos com a força do verbo e encanta-nos com a sua melodia.
sabendo-me…
simples poça de água
berço das gotas de chuva.
Seja eu esse silêncio em partilha que encontro na poesia da Maria João. odagirbO.
Que a literatura russa influenciou boa parte da literatura produzida no Brasil, especialmente no final do século XIX e na primeira metade do século XX, nenhum crítico de bom senso pode colocar em dúvida. Até que ponto chegou essa influência e como seu deu, pois, na maioria, por desconhecimento do idioma russo, os autores tiveram acesso apenas a traduções de segunda mão do francês, é que nunca ninguém havia estabelecido.
Essa questão, porém, já está devidamente esclarecida e aprofundada, depois da pesquisa de proporções ciclópicas empreendida pelo professor Bruno Barretto Gomide em sua tese de doutoramento apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em junho de 2004, que saiu em livro em 2011 pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp): Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936), Prêmio Jabuti 2012, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria Teoria e Crítica Literária.
As fontes deste livro foram extraídas de arquivos particulares de escritores e de uma extensa pesquisa que o estudioso fez em jornais, revistas e livros publicados entre 1887 e 1936, valendo-se também de consulta não só em arquivos públicos e de universidades em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro como nos Estados Unidos, especialmente nas bibliotecas das universidades de Illinois, Indiana, Stanford e Califórnia.
Neste livro, a recepção da literatura russa no Brasil é estudada a partir de dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica do romance russo e estudo da vasta bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente. Tudo isso acompanhado pelas discussões específicas fornecidas pela crítica literária e pela historiografia da cultura brasileira, como observa o autor na introdução.
Os primeiros textos que utilizavam os romancistas russos como contraponto a questões literárias candentes no Brasil datam da segunda metade da década de 1880. Já o final da década de 1930 marca um momento em que tais discussões perdem sua força e deixam de ser relevantes para a crítica. O trabalho conta ainda com um anexo que reproduz algumas fontes significativas, privilegiando as de mais difícil acesso.
II
É observar que a chegada do romance russo ao Brasil foi uma consequência marginal de um processo internacional iniciado na França, que o tornou uma sensação europeia em meados da década de 1880. Foi quando surgiram as traduções em escala industrial e livros de crítica que assinalavam a recepção desses romances em língua francesa.
Gomide aponta o ensaio O Romance Russo, de Eugène-Melchior de Vogüé (1848-1910), publicado em 1886, como o elemento basilar dessa recepção, pois era a ele que recorria a maior parte dos ensaístas, inclusive no Brasil. Entre os romancistas brasileiros, Lima Barreto (1881-1922) foi o que mais se deixou influenciar pelas ideias que o romances russos traziam implícitas, especialmente a partir do prefácio que Vogüé escreveu para Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski (1821-1881).
O pesquisador observa que já havia conhecimento da literatura russa no Brasil antes mesmo da década de 1880, mas esses contatos se davam em escala diminuta. A partir daquela data, o seu “surgimento súbito” no País, em função do que ocorria na França, passou a atiçar a criação de uma literatura genuinamente nacional, como observaram ao tempo José Carlos Jr. (?-?), um crítico paraibano hoje quase esquecido e justamente “ressuscitado” por Gomide, e Clóvis Bevilacqua (1859-1944). Mas, como constata Gomide, essa interpretação não foi unânime. Para Tobias Barreto (1839-1889), por exemplo, os romancistas russos eram a negação de tudo o que a cultura francesa representava.
Para Silvio Romero (1851-1914), os russos seriam também o melhor exemplo antípoda de Machado de Assis (1839-1908). Se o escritor fluminense construía delicados estados psicológicos de suas personagens à maneira do francês Paul Charles Joseph Bourget (1852-1935), Romero fazia o contraste com a estética radical do choque, exemplificada por Edgar Allan Poe (1809-1849) e Dostoiévski, observa Gomide. E acrescenta: para Romero, o autor fluminense ficava “bem abaixo de Dostoiévski, Poe e até de Hoffmann (1766-1822), quando este envereda, como o próprio Machado diria, pelo distrito da patologia literária”.
Portanto, o caráter inovador da prosa russa foi imediatamente detectado pelos críticos brasileiros, que passaram a utilizá-lo largamente como termo de comparação em suas críticas e recensões. E até a apresentá-lo como um modelo de emancipação para a literatura brasileira.
III
Na primeira parte de seu livro, Gomide trata da divulgação dos romancistas russos a partir da metade dos anos 1880, especialmente de 1883 a 1886. E apresenta exemplos do aumento vertiginoso do número de traduções e do entusiasmo nos meios intelectuais pelo novo fenômeno literário. Mostra ainda que, quando a revolução de 1917 assustou o mundo, já havia no Brasil uma tradição de três décadas de discussão do romance russo em periódicos e livros de crítica.
Portanto, associar autores como Dostoiévski, Turgueniev (1818-1883), Leon Tolstói (1828-1910) e Alexandr Pushkin (1799-1837) ao bolchevismo só podia partir de mentes obnubiladas, o que não é de admirar, pois, à época da última ditadura militar (1964-1985), o livro Juan Rulfo: Autobiografia Armada (Buenos Aires, Corregidor, 1973), de Reina Roffé, teve a sua importação barrada, por volta de 1975, porque o censor fez uma interpretação beligerante da palavra “armada”, quando o título queria dizer apenas que a autobiografia havia sido “armada” com declarações do escritor retiradas de entrevistas publicadas em épocas diversas. Santa ignorância…
Na segunda parte de seu trabalho, Gomide estuda as décadas de 1920 e 1930, quando era flagrante o impacto da revolução bolchevique. E mostra claramente que, ao contrário do que se supõe, a literatura russa nunca foi uma espécie de patrimônio da esquerda, pois intelectuais católicos, como Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), Tasso da Silveira (1895-1968) e Jackson Figueiredo (1891-1928), já discutiam sua influência na literatura mundial, especialmente a partir de Dostoiévski, Máximo Górki (1868-1936) e Leon Tolstói.
A segunda parte do livro apresenta, além de um panorama do mercado editorial da década de 1930, textos que desconfiam abertamente das interpretações geradas no fim do século e tentam cercar os romancistas russos por outros ângulos. E contestam a ideia de que o niilismo de Dostoievski e de outros escritores russos teria preparado terreno para o avanço do comunismo e a vitória dos bolcheviques em 1917, apenas porque a literatura russa sempre esteve associada a questões sociais. Na conclusão, Gomide defende que é anacrônico reler os primeiros momentos da recepção da literatura russa no Brasil de acordo com os resultados posteriores à revolução de 1917.
Como o livro vai até 1936, fora da análise de Gomide fica o recente renascimento do interesse do leitor brasileiro pelo romance russo que, a rigor, deu-se depois do lançamento, em 2001, da primeira tradução de Crime e Castigo, de Dostoiévski, feita diretamente do russo por Paulo Bezerra, pela Editora 34, de São Paulo. Em seguida, saíram vários livros traduzidos diretamente do russo por Paulo Bezerra, Boris Schnaiderman, Fátima Bianchi, Lucas Simone e outros. Em 2011, saiu também Gente Pobre, de Dostoiévski, com tradução de Luíz Avelima, pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP.
IV
Bruno Gomide (1972) é doutor em Letras pela Unicamp, com estágio de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas universidades de Illinois, Indiana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).
Organizou a Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), lançada recentemente pela Editora 34, que reúne nomes conhecidos no Brasil como Pushkin, Gógol, Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov e outros menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov e Sorókin, num total de 40. Tem publicado artigos em periódicos internacionais, como Tolstoy Studies Journal eVopróssi Literaturi, e participado dos principais congressos de eslavística.
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DA ESTEPE À CAATINGA: O ROMANCE RUSSO NO BRASIL (1887-1936), de Bruno Barretto Gomide. 1ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 768 págs., 2011, R$ 120,00.
(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
Se tenho medo de meus dias terminar
antes de a pena me aliviar o espírito, antes
de muito livro, em alta pilha, me encerrar
os grãos maduros como em silos transbordantes;
se vejo, nas feições da noite constelar,
enormes símbolos nublados de um romance
e penso que não viverei para copiar
as suas sombras com a mão maga de um relance;
quando sinto que nunca mais hei de te ver,
formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
do amor irrefletido! – então no litoral
do vasto mundo eu fico só, a meditar,
até ir Fama e Amor no nada naufragar.
“Quanto ao professor, estava manifestamente a mais nesta fase da expedição e todos pareciam concordes com isso.”
A trama parece, desde o início, revelar o seu desfecho final, como se no plot traçado não tivesse implícito um volt face. Uma mestria que faz destes contos uma verdadeira aventura para o leitor. São vários os ambientes percorridos por estas narrativas, desde os mais exóticos, ao conturbado período de sobrevivência à ditadura portuguesa. Em todos, um tema comum, uma certa crueldade que parece contida na mente e atitudes dos homens, que se liberta ao sabor do acaso ou do destino. Um mal sem objectivo aparente ou moral assertiva.
A escrita destas narrativas curtas é cuidada e clara, dotada de apontamentos fora do léxico comum que reforçam o ritmo da acção. “Num instante, a multidão oscilou, dividiu-se, sombras correram, a vaia modelou-se em vozeios diferenciados, crepitaram ruídos corridos de passos, desaustinaram tropeios de botas.” E tudo ficou dito sobre a multidão em fuga sujeita a uma carga policial. Toda a emoção e toda a tensão num ritmo desaustinado, num relato perfeito. Dispensam-se mais palavras.
«A novela O Mentiroso revela toda a arte do escritor anglo-americano Henry James (1843-1916): virtuosismo, atenção ao pormenor, sentido de ironia subtil – marcas de um mestre que se queixava ao irmão William, filósofo, de não ser reconhecido, mas que recolhia a admiração de Robert Louis Stevenson, Edith Wharton ou Joseph Conrad. Graham Greene disse que ele era “tão solitário na história do romance como Shakespeare na história da poesia”. Seria redescoberto por T.S. Eliot, Ezra Pound, Hemingway e W.H. Auden, […].
O narrador é um pintor de retratos, com créditos firmados na sociedade. Um dia, ao ser convidado para uma casa de campo, reencontra uma antiga paixão, casada agora com um pândego, coronel das Índias e senhor de uma verve algo inusitada e extravagante. Por despeito, ciúme ou desafio, propõe-se pintar o retrato do personagem, de tal modo que lhe desvende o embuste aos olhos de todos, principalmente da mulher, que o idolatra, aparentemente ignorante da patologia do marido. […] O jogo de enganos termina com um resultado fulgurante e uma constatação não desejada. Uma pequena obra-prima.»
José Guardado Moreira, «Henry James – Mentiras e Enganos», LER, nº 121, Fevereiro de 2013,
– Quantos males te esperam, oh, desgraçado! Antes ficasses, para toda a imortalidade, na minha ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos…
Gérard de Lairesse
Ulisses recuou, com um brado magnífico:
– Oh, deusa, o irreparável e supremo mal, está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as delícias das coisas imperfeitas!
Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…
Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.
Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa
Pensar e Criar em tempos de desafio/difíceis/árduos …
Debates do PEN
18.02.2013, 19h00
Goethe-Institut
Biblioteca
Campo dos Mártires da Pátria, 37
1169-016 Lisboa 00351-2188245-10 info@lissabon.goethe.org
André Teodósio à conversa com André Barata e Maria João Cantinho. Na ordem do dia estão o pessimismo e a angústia. André Teodósio é o nosso convidado para debater formas e modos de intervenção possíveis, na nossa cultura actual. Como pensar, como agir e intervir socialmente neste contexto é o desafio que propomos neste debate, como modo de ensaiar o salto do pensamento.Maria João Cantinho é professora no Iade e no secundário. Doutorada em Filosofia Contemporânea, é também escritora, crítica e ensaísta. Publicou A Garça (ed. Diferença, 2001), O Anjo Melancólico (Ed. Angelus Novus, 2002), Sílabas de Água (ver-o-Verso, 2005), Caligrafia da Solidão (Ed. Escrituras, 2006), O Traço do Anjo (Edium, 2011). Colabora regularmente com várias revistas literárias e de Filosofia, como a Colóquio-Letras, a Ler, entre outras publicações. É membro da Direcção do Pen e da Associação portuguesa de Críticos.André Barata é Doutor em Filosofia Contemporânea pela Universidade de Lisboa. É professor na Universidade da Beira Interior, onde dirige o mestrado de Ciência Política. Nessa universidade, é ainda investigador e membro da direcção do Instituto de Filosofia Prática. É Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Filosofia Fenomenológica. Dirigiu a revista Análise (2005/06). Publicou em 2000 Metáforas da Consciência (Porto, Campo das Letras), em 2007 Sentidos de Liberdade (Covilhã, Ta pragmata) e, em co-autoria com Rita Taborda Duarte, Experiências Descritivas(Lisboa, Caminho), em 2010 Mente e Consciência (Lisboa, Phainomenon). Co-editou em 2011 Representações da Portugalidade(Lisboa, Caminho). Publicou em 2012 uma colectânea de ensaios de teoria política intitulado Primeiras Vontades (Lisboa, Documenta).
André Teodósio, n. 1977, é um actor e encenador português de teatro. É membro fundador do Teatro Praga, tendo também integrado a companhia de teatro Casa Conveniente, e colabora assiduamente com a companhia de teatro Cão Solteiro. Para além dos trabalhos desenvolvidos com o Teatro Praga encenou a solo os espectáculos Três mulheres, de Sylvia Plath, Diário de um louco, de Nikolai Gogol, Super-Gorila e Supernova, co-criados com José Maria Vieira Mendes e André Godinho. Encenou as óperas Metanoite, de João Madureira, Outro Fim, de António Pinho Vargas, Blue Monday, de George Gershwin e Gianni Schicchi, de Giacomo Puccini . Escreve regularmente para diversas publicações sendo autor do textoCenofobia editado pela Fundação Culturgest e autor do ciclo Top Models que inclui Susana Pomba (um mito urbano) e Paula Sá Nogueira (um bestiário). É ainda co-autor do bailado Perda Preciosana Companhia Nacional de Bailado. Tem apresentado os seus trabalhos em inúmeros teatros portugueses e estrangeiros. Foi nomeado pelo jornal Expresso como um dos 100 portugueses mais influentes de 2012.
Por mero acaso li, nos últimos meses, várias publicações em que erradamente, sendo o erro grosseiro, se atribui a forma das chaminés cilíndricas de Santa Maria a hipotéticos povoadores algarvios. Uma fantasia nascida a meados do século XX. O erro é por demais grosseiro, até porque, para além de não ter fundamento histórico, as chaminés de Santa Maria raramente se assemelham às do Algarve, ou do Alentejo, como também há quem diga, chaminés estas em que a finalidade estética se sobrepõe normalmente à funcional. Em Santa Maria, porém, as chaminés cilíndricas generalizaram-se por ter sido provada a excelência do seu funcionamento. Uma razão é suficiente para se perceber que se trata de engano – ao contrário do que é comum dizer-se, do Algarve não vieram povoadores para esta ilha. Para a Madeira, sim, conforme registou Frutuoso. A este respeito, num dos mais bem documentados estudos sobre o descobrimento e povoamento dos Açores, Viriato Campos escreveu: “Tem-se admitido que os primeiros povoadores vieram do Algarve, mas não se conhece nenhum documento que o prove. Vemos aqui um caso dedutivo ou de imaginação, certamente porque o Infante D. Henrique vivia grandes épocas no Oeste algarvio, esquecendo-nos que ele era Duque de Viseu e Senhor da Covilhã, e que o Infante D. Pedro, Regente do Reino, tinha a sua casa em Coimbra. Veja-se que Gaspar Frutuoso, ao tratar da ilha de Santa Maria, nem uma só pessoa indica como vindo do Algarve. Vieram, sim, de Moura, Chamusca, Vila do Conde, Santarém, Santar, Tonda, Silgueiros, Besteiros, Guarda, Covilhã, Recardães, Estremoz, Trofa, Góis, Oliveira do Conde… e Viseu //”.
Mais ainda. A maior parte das casas rurais da época do povoamento não tinha chaminé. O fumo escoava-se por entre as telhas ou por um buraco feito no telhado. Isto acontecia não apenas em Portugal, mas por toda a Europa. No livro “Comme vivaient-ils?”, de Claude Quoniam e Étienne Sergery, é dito das casas dos camponeses prussianos do tempo de Frederico II: “A única lareira que há serve para a cozinha. Acesa no chão, é com grande dificuldade que faz ferver a água do caldeirão de ferro, que está permanentemente ao lume. O fumo e os cheiros escoam-se mal pela única janela, raramente aberta, pela porta baixa ou pelas tábuas do sótão//”. Em Portugal ainda subsistem muitas casas assim. Num estudo sobre o concelho de Nelas no final do século XX, José Manuel Sobral descreve-as do seguinte modo: “casas de dois e mesmo de três andares que utilizavam o granito e com paredes interiores de taipa, material por vezes usado nas paredes exteriores; casas sem chaminé ou com chaminé bastante primitiva, com o fumo a escoar-se pelas telhas; casas escuras, as mais pobres sem vidraças, com poucas divisões – a cozinha e um ou dois quartos”.
À abertura no telhado para a saída do fumo chama-se “bueira”, em Castelo Branco. O Dicionário da Porto Editora regista este termo como “furo no fundo da embarcação para escoar as águas, quando em seco”. E, para “bueiro”, o dicionário de Roquete, de 1848, regista o seguinte significado: “Cano de fornalha; respiradouro”.
Facilmente se percebe que as casas com chaminé cilíndrica são mais recentes do que as outras, com chaminé de “mãos-postas”. Ricardo Freitas, um mariense que tem estudado o assunto, atribui este tipo de chaminé cilíndrica à influência dos emigrantes de torna-viagem do Brasil, na passagem do século XIX para o XX, os quais se teriam inspirado nas chaminés dos navios a vapor. A semelhança é notória, sendo as marienses também ditas chaminés de vapor. Daniel de Sá
“Ei, peixe fresco! Ei, chicharro grado!” “Ó Meia-Leca, a como é o chicharro?” – Perguntou o senhor da janela do primeiro andar. “A vinte por dois e meio.” “Não tens vergonha de só dar vinte chicharros por dois escudos e meio? Ainda ontem o Caramujo vendeu a trinta.” “Se o senhor quer os chicharros, é vinte por dois e meio, e acabou-se.” “Dás vinte e cinco?” “Não, senhor. Vinte. Nem mais um.” O senhor mandou a empregada ir buscar os chicharros. Ela pegou num prato fundo e foi. Depois o senhor atirou só duas moedas de um escudo para o meio da rua. O Meia-Leca baixou-se para pôr os cestos às costas novamente. Nem olhou para o dinheiro caído no chão. “Estás muito rico, que duas patacas já não te fazem falta!…” O Meia-Leca parou, fixou o senhor lá no alto mas como se estivesse a olhar de cima para baixo, e disse: “O senhor que fique com as patacas. E guarde-as para lhe fecharem os olhos com elas quando morrer.”
Yo escribí sobre el tiempo y sobre el agua,
describí el luto y su metal morado,
yo escribí sobre el cielo y la manzana,
ahora escribo sobre Stalingrado.
Ya la novia guardó con su pañuelo
el rayo de mi amor enamorado,
ahora mi corazón está en el suelo,
en el humo y la luz de Stalingrado.
Yo toqué con mis manos la camisa
del crepúsculo azul y derrotado:
ahora toco el alba de la vida
naciendo con el sol de Stalingrado.
Honor a ti por lo que el aire trae,
o que se ha de cantar y lo cantado,
honor para tus madres y tus hijos
y tus nietos, Stalingrado.
Honor al combatiente de la bruma,
onor al Comisario y al soldado,
honor al cielo detrás de tu luna,
honor al sol de Stalingrado.
Yo sé que el viejo joven transitorio
de pluma, como un cisne encuadernado,
desencuaderna su dolor notorio
por mi grito de amor a Stalingrado.
Yo pongo el alma mía donde quiero.
Y no me nutro de papel cansado
adobado de tinta y de tintero.
Nací para cantar a Stalingrado.
Mi voz estuvo con tus grandes muertos
contra tus propios muros machacados,
mi voz sonó como campana y viento
mirándote morir, Stalingrado.
Ahora americanos combatientes
blancos y oscuros como los granados,
matan en el desierto a la serpiente.
Ya no estás sola, Stalingrado.
Francia vuelve a las viejas barricadas
con pabellón de furia enarbolado
sobre las lágrimas recién secadas.
Ya no estás sola, Stalingrado.
Y los grandes leones de Inglaterra
rolando sobre el mar huracanado
clavan las garras en la parda tierra.
Ya no estás sola, Stalingrado.
Hoy bajo tus montañas de escarmiento
no sólo están los tuyos enterrados:
temblando está la carne de los muertos
que tocaron tu frente, Stalingrado.
Tu acero azul de orgullo construido,
tu pelo de planetas coronados,
tu baluarte de panes divididos,
tu frontera sombría, Stalingrado.
Tu Patria de martillos y laureles,
la sangre sobre tu esplendor nevado,
la mirada de Stalin a la nieve
tejida con tu sangre, Stalingrado.
Las condecoraciones que tus muertos
han puesto sobre el pecho traspasado
de la tierra, y el estremecimiento
de la muerte y la vida, Stalingrado
La sal profunda que de nuevo traes
al corazón del hombre acongojado
con la rama de rojos capitanes
salidos de tu sangre, Stalingrado.
La esperanza que rompe en los jardines
como la flor del árbol esperado,
la página grabada de fusiles,
as letras de la luz, Stalingrado.
La torre que concibes en la altura,
los altares de piedra ensangrentados,
los defensores de tu edad madura,
los hijos de tu piel, Stalingrado.
Las águilas ardientes de tus piedras,
los metales por tu alma amamantados,
los adioses de lágrimas inmensas
y las olas de amor, Stalingrado.
Los huesos de asesinos malheridos,
los invasores párpados cerrados,
y los conquistadores fugitivos
detrás de tu centella, Stalingrado.
Los que humillaron la curva del Arco
y las aguas del Sena han taladrado
con el consentimiento del esclavo,
e detuvieron en Stalingrado.
Los que Praga la Bella sobre lágrimas,
sobre lo enmudecido y traicionado,
pasaron pisoteando sus heridas,
murieron en Stalingrado.
Los que en la gruta griega han escupido,
la estalactita de cristal truncado
y su clásico azul enrarecido,
ahora dónde están, Stalingrado?
Los que España quemaron y rompieron
dejando el corazón encadenado
de esa madre de encinos y guerreros,
se pudren a tus pies, Stalingrado.
Los que en Holanda, tulipanes y agua
salpicaron de lodo ensangrentado
y esparcieron el látigo y la espada,
ahora duermen en Stalingrado.
Los que en la noche blanca de Noruega
con un aullido de chacal soltado
quemaron esa helada primavera,
enmudecieron en Stalingrado.
Guárdame un trozo de violenta espuma,
guárdame un rifle, guárdame un arado,
y que lo pongan en mi sepultura
con una espiga roja de tu estado,
para que sepan, si hay alguna duda,
que he muerto amándote y que me has amado,
y si no he combatido en tu cintura
dejo en tu honor esta granada oscura,
este canto de amor a Stalingrado.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…
Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.
Maria Gabriela Llansol
in O começo de um livro é precioso
Uma miúda desce à rua para se dirigir à estação de metro. É a rua onde mora. Desce os dez degraus de pedra entre a porta do seu prédio e o empedrado do passeio. “Não ia com pressa.” Tal como este relato.
Numa paisagem urbana que lhe é familiar, a de todos os dias, a que conhece daquele percurso, demora-se a menina atenta a todos os pormenores, as ervas entre o empedrado, ali uma bolinha, umas folhas, é o seu olhar introduzindo mistérios na monotonia do seu dia.
No percurso do seu olhar uma mancha negra, uma mancha negra que se estende, que se prende à sua atenção. É então que, como num flashback, a menina inicia o processo inverso, o caminho de regresso a casa. Sobe os dez degraus de pedra entre o empedrado do passeio e a porta do seu prédio. Apanha um saco de plástico. Faz o percurso até à sua descoberta, apanha algo e volta novamente a casa. O ritmo acelera, sobe a escada, entra em casa, vai ao quarto. Momentos soletrados, sendo cada um deles uma fotografia, uma rápida sucessão de fotografias.
As nossas memórias são assim. Momentos de emoção, momentos guardados em fotografias. Podemos passá-las mais depressa ou mais lentamente. O seu mistério dita-nos o ritmo.
Uma miúda desce à rua para se dirigir à estação de metro. Não ia com pressa. Tal como eu, ainda nas primeiras páginas deste Marginal da Cristina Carvalho; desço sobre as suas páginas, leio-as sem pressa, prendo-me aos pormenores, uma erva aqui, uma bola ali, encho de mistério a minha vida.
A comemoração dos 500 anos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) vai ser uma oportunidade para a instituição valorizar o seu papel na afirmação da língua e no reforço da lusofonia.
Com fundos bibliográficos e documentais distribuídos por sete pisos, a BGUC “é a biblioteca central do mundo lusófono”, o que confere à Universidade de Coimbra “uma responsabilidade e uma oportunidade”, disse à agência Lusa o reitor João Gabriel Silva.
Herdeira da Casa da Livraria, mencionada numa ata de 12 de Fevereiro de 1513, quando a Universidade portuguesa funcionava em Lisboa, a Biblioteca Geral promove, a partir de terça-feira, um programa comemorativo que termina com um congresso internacional, em Janeiro de 2014.
“Somos a universidade do mundo que tem mais estudantes brasileiros fora do Brasil”, realçou o reitor, ao confirmar que a BGUC “é a mais rica biblioteca da lusofonia”.
Foi na Universidade de Coimbra (UC) que “a língua portuguesa nasceu, onde foi estudada e desenvolvida”, sublinhou.
“Os tesouros guardados na Biblioteca são um excelente ponto de referência para a estratégia que temos de seguir”, acrescentou João Gabriel Silva.
No último ano lectivo (2011-2012), os brasileiros constituíram o grupo mais numeroso dos alunos estrangeiros da UC, totalizando 1.806 inscritos nas diferentes faculdades.
Com um acervo de 1,5 milhões de livros, disponíveis em 28 quilómetros de estantes, a BGUC quer aproveitar as comemorações como contributo para reforçar as afinidades históricas, linguísticas e culturais dos oito países lusófonos: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
“Temos este conhecimento acumulado, que nos permite encontrar um lugar neste mundo globalizado”, disse João Gabriel Silva, associando a afirmação de Portugal no plano internacional ao papel da UC entre as principais universidades dos vários continentes.
Na UC, uma das mais antigas universidades da Europa, criada em Lisboa, em 1290, e transferida definitivamente para Coimbra em 1537, estudaram “praticamente todas as pessoas que fizeram a construção do Brasil”, salientou.
É o caso de José Bonifácio de Andrada e Silva, que, tendo frequentado a Faculdade de Filosofia, seria um dos seus mais destacados professores, após a Reforma Pombalina da Universidade, no século XVIII.
De regresso ao Brasil, o futuro “Patriarca da Independência” acabaria por assumir papel determinante na emancipação do Brasil face à coroa portuguesa, em 1822.
O primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto, também estudou em Coimbra, na Faculdade de Medicina, em meados do século passado, antes de se envolver, em Lisboa, nas actividades anticoloniais.
Vários presidentes do Brasil foram distinguidos com o título de doutor “honoris causa” pela UC, os últimos dos quais foram Lula da Silva (2011) e Fernando Henrique Cardoso (1995).
O ex-presidente e actual primeiro ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, foi outro dos estadistas de países lusófonos agraciados com esse grau académico, em 2011.
Óscar Niemeyer disse um dia: «não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein». Disse-o nas suas memórias, «As Curvas do Tempo» (Revan, 1998), um fascinante percurso autobiográfico, no qual encontramos as raízes da inspiração do artífice de Brasília e os elos entre a modernidade e o barroco original brasileiro.
ENTENDER A ORIGINALIDADE DE NIEMEYER
A imersão em Minas Gerais levou-nos a compreender a originalidade de Óscar Niemeyer, que agora nos deixou, e a dizer que o barroco une o Brasil de ontem ao Brasil de sempre, e continua no domínio da curvatura, marca do génio de Niemeyer, da «liberdade plástica e da invenção arquitetural». Regressemos ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, iniciativa de um português abastado, Feliciano Mendes, que fez uma promessa para a cura de uma enfermidade. Livre da doença, em 1757, começou a erguer a basílica. A invenção está na arte do Aleijadinho, António Francisco Lisboa. No dia em que lá estivemos, havia multidão, altifalantes e mercancias, que impediram um gozo completo da originalidade. Em torno do santuário, os Passos da Paixão dominam. São sete cenas com um total de 64 figuras esculpidas em cedro pelo artista e seus discípulos. São, porém, os doze profetas representados em pedra-sabão no adro do templo que concitam as atenções, pela sua força e pelo carisma (usemos a palavra sem receios). Amos, Abdias, Isaías, Jeremias, Habacuc e Naum; entre a escadaria Baruc e Ezequiel; e na amurada: Jonas, Daniel, Oseías e Joel. «Estamos, diz-nos Nemésio (com cuja palavra contámos nesta peregrinação inesquecível), em presença de uma autêntica escultura sinfónica, gesticular e polimórfica, que procura vencer a sábia variedade de atributos pela conceção atrevida e móbil do gesto, que vai da imprecação à perplexidade através da concentração e do êxtase, e que, dos bucres de cabeço aos esguichos do golfinho de Jonas feitos alamaras da indumentária assume na estase de Daniel um dos melhores conseguimentos da imaginária barroca». Vistos de longe, como o escritor verificou, os Profetas do adro de Congonhas ganham um estranho aspeto de conciliábulo, que ultrapassa em intensidade a observação pormenorizada das figuras. É, de facto, um verdadeiro «ballet» do Aleijadinho que presenciamos, num exemplo singular que dá a este barroco um sentido de intemporalidade. E o mais curioso é ver como é a marca do mestre que se nota como elemento unificador, uma vez que as diferenças não deixam despercebido o gesto comum.
O VELHO ARRAIAL DA PONTA DO MORRO «Serranias ermas e fausto no povoado». V. Nemésio marca desse modo a identidade das cidades mineiras. Sentimo-lo, de novo, em Tiradentes, nascida em 1702, a partir do Arraial da Ponta do Morro, que em 1718 passou a chamar-se Vila de S. José d’El-Rei, em homenagem ao Príncipe D. José – adquirindo a atual designação depois do fim do Império e da proclamação da República. Hoje é uma atração turística, com o seu centro preservado. Muitas das antigas casas acomodam agradáveis pousadas, restaurantes de comida mineira e lojas de artesanato. Poderíamos dizer que depois de tudo o que vimos desde Diamantina, haverá já poucas surpresas. Puro engano! Não nos surpreende talvez o Chafariz de S. José de Botas, até a Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas sim a extraordinária Matriz de Santo António, construída entre 1710 e 1750, uma das igrejas mais belas do barroco mineiro. O altar-mor singulariza-se por um paradoxal equilíbrio e pela teatralidade barroca, que nos prende e atrai. Colunas torsas, atlantes, anjos, cornucópias, volutas, conchas e folhas. Será por certo das mais requintadas igrejas do original barroco mineiro. O entalhador João Ferreira de Sampaio exprime aqui o seu enorme talento, percebendo-se que conhecia bem a arte italiana e admirava Bernini. O altar-mor domina pelos elementos e singularidade, a imagem da Virgem da Conceição do lado do Evangelho é extremamente bela. As representações da última ceia e das bodas de Caná não passam despercebidas, esta é, aliás, o testemunho de uma festa setecentista. Na igreja da confraria de Nossa Senhora do Rosário, a talha dourada domina o altar-mor, com retábulos laterais representando os padroeiros da comunidade negra – S. Benedito e S. António de Cartagerona.
MÚSICA EM S. JOÃO D’EL-REI
Compreendemos bem as invocações de Nemésio sobre o modo como retemperava forças nestas paragens. A feijoada mineira e os acepipes enchem-nos a alma. Depois, seguiu-se a visita ao Museu de Liturgia, recém-inaugurado, muito pedagógico e com moderno rigor museológico. O movimento da cidade é intenso, motivado pelo fim de semana alargado. No dia seguinte, em S. João d’el Rei, domingo, na Igreja de S. Francisco, a irmandade da Ordem Terceira saúda-nos com inexcedível simpatia. Anna Maria Parsons vem ao nosso encontro. O coro e a orquestra que acompanham a cerimónia litúrgica são de primeiríssima qualidade. A cidade tem uma antiga tradição, de mais de um século na música clássica, coral e sinfónica, que António Pinto da França já nos tinha justamente enaltecido. Ao ouvirmos o Kirie, o Hossana e o Glória, somos transportados à espiritualidade suprema, com autores mineiros celebrados. É um trabalho continuado que foi reforçado, nos últimos anos, pela formação de dotadíssimos cantores e instrumentistas. De novo encontramos António Francisco Lisboa, e vemos que aqui o diminutivo é considerado pejorativo. A professora Parsons chama-nos a especial atenção para as imagens dos altares laterais representando S. João Evangelista e S. Gonçalo de Amarante. Aqui está o mestre de Congonhas em todo o seu esplendor, ficando demonstrada a sua elevadíssima formação e grande conhecimento. Foi aluno da escola franciscana do Hospício da Misericórdia, tendo aprendido grego, latim e história, tomando contacto com a melhor arte europeia. E o barroco transfigura-se. Há em S. João Evangelista algo que encontramos no Profeta Daniel de Congonhas. A teatralidade, o movimento, o domínio da curvatura, a compreensão do corpo. Seguimos pelas ruas de S. João. Recordamos a memória do Presidente Tancredo Neves – e sentimos a esperança existente em torno de seu neto Aécio. Descobrimos o templo mais antigo da urbe, da confraria dos homens pretos (1719), continuamos em Nossa Senhora do Pilar, a matriz, com celebradas talhas douradas, e as referências continuam: Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Carmo. Recordamos as gárgulas em forma de canhão, já encontradas em Ouro Preto. E fica-nos na retina a exuberância e ao mesmo tempo o equilíbrio da fachada de S. Francisco de Assis, desenhada por António Francisco Lisboa. As dúvidas desvanecem-se, tão nítida é a marca indelével do artista e da sua oficina. A cidade pequena está conservada pelo tempo… E terminamos o dia no Solar da Ponte em Tiradentes. A receção é esmerada e cuidadosa, com um chá às cinco em ponto, como mandam todas as regras. Anna Maria Parsons explica-nos com minúcia por que motivo é errado falar-se de uma decadência de Minas Gerais, entre 1730 e 1789, já que é o tempo do desenvolvimento da agricultura e da pecuária e de um novo impulso económico equilibrado e preparatório da fase pós-colonial. E Suelly de Campos Franco explica-nos como o Minho e Minas Gerais estão intimamente ligados pelas tradições religiosas.
ele caminha na rua como um homem pai de família, atravessa quando o bonequinho indica, acena ao chaveiro, bate na porta do vizinho para tomar emprestado as ferramentas e as devolve a tempo sem cobranças necessárias. conquanto não goste de igreja pendura no cabide de madeira o terno domingueiro de um azul acinzentado e na intimidade, talvez na hora de barbear-se, o francisco pede proteção divina e se recorda do pai nosso rezado pela mãe numa infância.
Como enumera Elaine Sciolino enThe New York Times, en Los 120 días en Sodoma el Marqués de Sade describe “orgías y abusos […], actos de pedofilia, necrofilia, incesto, tortura, violación, asesinato, infanticidio, zoofilia…”.En algunos países esto bastaría para ordenar su retirada de las bibliotecas públicas, pero no en Francia, donde consideran que la obra es un tesoro nacional. No puede decirse lo mismo de obra fotográfica del poeta Allen Ginsberg, un álbum de recuerdos beat que ahora se expone en Nueva York, pero sí deJane Austen: ni un solo periódico/suplemento cultural se ha olvidado del cumpleaños de Orgullo y prejuicio y, además, según un reciente estudio, ella ySir Walter Scott son los escritores más influyentes del siglo XIX. Empezamos.
FRANCIA
Los 120 días de Sodoma era, según su autor, el Marqués de Sade, “la historia más impura jamás contada desde que el mundo es mundo”. Bruno Racine, director de la Biblioteca Nacional de Francia, considera que es una obra “depravada”, sin duda. Pero también un tesoro nacional y por ello está dispuesto a pagar en torno a cuatro millones de euros por el manuscrito de la obra escrita por Sade mientras se encontraba preso al coleccionista suizo Gérard Nordmann. “El documento de Sade es una obra atroz, extrema y radical. Pero no la juzgamos moralmente”, insiste Racine. Éste dirige la institución francesa desde 2007 y entre sus objetivos siempre estuvo el de recuperar importantes manuscritos clasificados como “tesoros nacionales”. En 2010 se hizo con las memorias de Casanova, y también ha comprado los archivos de Michel Foucault o Guy Debord. (vía The New York Times)
Los artistas belgas Auriae Harvey y Michaël Samyn han creado un videojuego basado en la novela Moderato cantabile de Margerite Duras. (víaLe Nouvel Observateur)
«Velhinho,
Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.
Há uma série de coisas que são um problema:
1. A tua pessoa;
2. A tua pessoa nunca estar cá;
3. Não termos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
4. Não termos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
5. Andarmos totalmente putas da vida porque não temos orgamos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
6. Não falarmos porque não temos as nossas conversas depois dos orgasmos que não temos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá.
Por mais que tentemos, não conseguimos perceber porque é que continuas em Armação a fazer turistas por vinte e cinco euros, em vez de estares aqui a cumprir o teu dever com a cabeça entalada no meio das nossas pernas.
Vamos abrir outra garrafa e cheirar o que ainda aí houver, para clarear as ideias. Esperamos que não tenhas tomado tudo, como fazes sempre. E essa é a outra coisa que nos deixa ainda mais fodidas. Nós às vezes também fumamos os restos do chocolate ou damos o último tirinho. Mas sentimo-nos mal. Sabemos que não o devíamos fazer. Tu não. Tu nem pensas nisso. Quando vês uma carreirinha de sobra, se for preciso até vais para a cozinha só para não teres de a dividir, como aconteceu no mês passado.
qué que tás a fazer?
tava a cheirar o restinho
vieste cheirar e não me chamaste?
era o meu resto
e não podias dividir?
já tínhamos dividido, tu ficaste com quase tudo e sobrou meia linha pra mim
metade dessa meia dava na boa pra mim
tu fizeste as outras três cavia
isso foi antes
era só um tirinho, nem deu pra nada
deu pra ti, podia ter dado pra mim
mas tu já tinhas dado, dama
tu não me dames
amanhã há mais, prometo, era só uma miséria
é bom caja, pobre
não me chames pobre
preto
mulato, se fosse preto matava-me.»
[in Maria dos Canos Serrados, de Ricardo Adolfo, Alfaguara, 2013]
Ella, junto a uma multidão de gente exasperada, perante uma viagem que aparenta não querer ser boa ideia. Ansiedade alcatifada pelos corredores onde a sinalética para a casa de banho, Damen e Herren, é o único vestígio de uma humanidade que outrora tivemos antes de aprendermos a voar. Ella duvida, se calhar o melhor era deixar-se colada ao chão, segura:
»Cagar e mijar e nunca ambicionar ser mais que um animal rastejante«
As paredes de vidro junto às quais aguarda contemplam a pista de aterragem donde avião nenhum descola há mais de três dias. Está sozinha e traz consigo apenas uma bagagem de mão. Não se permite ter medo, mas nota que o seu corpo não sossega dentro dos limites da sua pele.
Uma voz mecânica e altifalada tenta sobrepor-se ao descontentamento das pessoas, visivelmente exaustas e indignadas. Anuncia mais dois voos que, todos pelo mesmo motivo, vêem-se forçados a ficar em terra. Muitas pessoas vão e voltam para suas casas, para casas de amigos, ou para hotéis, mas Ella deixa-se ficar no aeroporto. Há já quem monte tendas, estenda roupa, e se prepare para fazer do aeroporto morada. Há quem planeie um dia chegar ali a ser feliz.
Não tarda alguém irá encontrar uma forma de cozinhar algo, vai cheirar a comida, os miúdos farão dos cinzeiros de pé balizas de futebol, e lentamente surgirá neste aeroporto uma pequena maqueta social. As pessoas começarão a distinguir-se pelo que nelas é diferente e não pelo que as une, e surgirá dentro de cada grupo o primeiro casal. O enamoramento deles terá um efeito contagiante, e por escassos momentos reinará a harmonia. As pessoas especularão, incrédulas:
– Como não nos lembrámos antes de vir viver para o aeroporto?
Até alguém começar a cobiçar um terceiro:
Alguém do grupo do átrio B do pavilhão das partidas cobiçará porventura alguém da zona de chegadas. Os diferentes grupos começarão também a cobiçar espaço, mais território, invejosos das espaçosas casas de banho a que têm acesso os da zona do pessoal de voo. Surgirão os primeiros conflitos. A guerra virá logo atrás da cobiça, mas por ora tudo isto se reduz ao barulho que faz um homem no arrastar de vários bancos, motivado que está em construir uma cama mais confortável para si e para a companheira. Alguém que por isso terá de ficar a dormir no chão – protesta.
Resolve então vaguear por outros terminais. Dirige-se para o pavilhão das chegadas, onde ninguém chega há três dias, pelo mesmo motivo que ninguém parte. Imagina-o por esse motivo mais vazio, mas quando lá chega constata que não. Pelo contrário. Junto ao corrimão das chegadas depara-se com um grupo obstinado de pessoas que ali aguardam, ainda, ou já, segurando ao peito folhas com tipografias variadas, apelidos de distantes proveniências, e alguém até que insiste numa pequena bandeirola, escrito nela um hispânico e colorido:Bienvenida ! Duvidando de si mesma, procura um painel electrónico para confirmar aquilo que já sabe – não estão a chegar voos. Observa a resiliência destas pessoas e não percebe como podem conseguir enganar-se assim, e manter o desengano ao longo dos dias.
Mobilizada por tudo aquilo, atravessa por uma porta sem fechadura e trancada apenas pela convenção social de um símbolo vermelho e as palavras: Kein Zutritt. Infiltra-se pelos corredores da recolha de bagagens, rasteja por passadeiras rolantes paradas, olha directamente para uma câmara de vigilância que deve estar neste momento a denunciar a sua entrada furtiva. Mas ninguém virá a tempo de a impedir de fazer nada arrojado, pois tudo o que ela quer fazer é atravessar as portas de abertura automática:
Como alguém que chega.
Ainda incorre é certo num furto ligeiro, ao agarrar de uma das passadeiras uma bagagem de porão esquecida, ou extraviada, uma mala que ali está e que ela sabe que ninguém virá tão cedo reclamar. Respira fundo e espera um sinal vindo do outro lado da porta de abertura automática que lhe sirva de deixa de entrada. Os focos todos virados a ela, um palco só seu.
Abrem-se a par as portas automáticas. Uma dezena de rostos iluminam-se ao vê-la, mal ocultando o seu espanto. As pessoas reordenam-se e agitam mais alto as suas folhas contendo nomes tipografados à mão ou impressos a computador. Alguns logótipos. Certas folhas dentro de capas de plástico outras coladas a um suporte rígido. Todos querem ser o eleito.
Ella desfruta da sensação de ser quem todos eles esperavam. Já tinha seleccionado de antemão, e por intuição, um senhor baixinho e careca na extrema ponta esquerda, com ar cabisbaixo e cansado, segurando desesperançado um papel nele escrito: MMELLE. FRANKA ALLONTANT. Ella Bouheart dirige-se a ele em passo determinado, e sorri.
O rosto do homenzinho descobre-se de esperança – percebe que é ele o escolhido. Fala-lhe em francês, ela não entende, mas ouve o seu nome, o seu novo nome, e sabe que tem de dizer: Oué Oué; e por veracidade adiciona um: Bonjour; mas não se arrisca a mais. Sorri, cala-se, e segue-o.
Ele já lhe tomou ambas as bagagens e já a conduz ao exterior do enorme edifício. Atravessam juntos o enorme parque de estacionamento, onde se podem contar o número de viaturas pelos dedos, e o dedo mindinho é o dele, um carro à proporção do seu condutor. Ele coloca as malas na bagageira traseira, e Ella sorri, mas permanece calada. O homem transpira entusiasmo, fala por ele e por ela. Ella entretém-se todo o percurso com a sua chanson française, maravilhada pela cidade lá fora. A mesma onde vive faz mais de duas décadas.
O homem coloca então uma pergunta que soa importante pelo tom e pela posição das pausas. Olha-a e espera resposta. Ella sorri-lhe, ele aguarda-a, e enche-se o carro de um silêncio incómodo. Por sorte, cruzam nesse preciso momento uma enorme rotunda, centreada por uma colunata com uma cúpula impressionante ao topo, decorada a filigrana dourada, e Ella encavalita-se para fora da janela, fascinada pelo monumento que na realidade já está cansada de ver. Mesmo assim, desta vez, olha-o como se nunca o tivesse visto antes. Sem fingimentos:
»Como é belo !…«
Pensa. E quando recolhe de novo ao interior do carro a pergunta parece ter sido esquecida. O homem parece consolado pelo entusiasmo infantil dela perante os tesouros arquitectónicos da sua cidade natal. Sente-se orgulhoso de ter nascido e crescido ali, como se ela admirasse um membro do seu próprio corpo, é tanto o quanto ele se confunde com a sua cidade.
excerto de “O Lago Avesso” (romance) publicação prevista 2013, editorial Caminho
Alfreda ou a Quimera é a história de uma obsessão, de uma paixão por uma bela e misteriosa mulher com quem o protagonista deste romance – um bibliófilo portuense – se relaciona intima e fugazmente. Essa paixão passa a reger a sua vida, os seus interesses, os seus actos, os seus pensamentos, enquanto ele tenta reencontrá-la. Quando a reencontra, ou quando a verdade sobre ela é revelada, apesar do desapontamento que o atinge e do seu desinteresse em reencontrá-la carnalmente, João de Melo renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado que entretanto encontrara com outra mulher, para se entregar à quimera de Alfreda. As histórias que acabam bem não fazem história; mas alguns episódios obscuros e mal resolvidos marcam-nos para sempre. Além da história central do livro, destaquem-se ainda a relação do protagonista com Pips, o seu amigo homossexual inglês, e a relação apaixonada que mantém com o mundo dos livros e com a sua cidade do Porto.
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS – ÁLVARO DE CAMPOS, in POESIAS DE ÁLVARO DE CAMPOS. FERNANDO PESSOA.[ Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993)
O tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os sentimentos momentaneamente incontroláveis vivem acesos no íntimo do humano Bloom, mas podem ser aplacadas. Bloom espera conseguir manter-se sempre em controlo delas. Mas reproduzem-se até à exaustão do auto-controlo, o limite, que é o regresso. Esse percurso é acompanhado da moral, ou da procura dela: e a procura de uma ética é um itinerário que pode paradoxalmente, matar. Não é, por isso, paradoxal que as regras de substituição da ética individual, como a moral religiosa, matem uma vida de experiências limites. Isso já é sabido, pois a sociedade também as criou como mecanismo de auto-regulação. Mas é paradoxal que depois de se terem construído, descoberto, analisado, melhorado as religiões do mundo, o séc. XIX ainda esteja consumido pela questão da moral. Ela parece ter de acompanhar-nos.
“We need an imaginative approach to redesigning a more complete travel experience.” Alain de Botton, Lufthansa Magazin (12/10). Embora o autor se refira à experiência física e real da viagem, a ficção de Tavares vai-lhe ao encontro: o tema da Índia, o guru e a meditação, o desapego e a procura de desidentificação com o ego na procura de si fazem parte da epopeia. E que parte desempenham nesse percurso o tédio e a forte melancolia? Que mais é a vida de um contemporâneo senão um pouco de tudo isto?
Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem”(1 ).
Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de deus e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta.
Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio pelo sagrado resida nesse jogo – por mais sofisticado que seja – entre bastidores e boca de cena. O sagrado não é, pois, apenas uma forma dramatúrgica de conforto.
O que nos atrai ao sagrado é o mesmo que faz o homem pensar. Nós pensamos com imagens que se reproduzem como cerejas (Damásio, em O Sentimento de Si, prefere falar de um fluxo de imagens que se move “para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada e, algumas vezes, avança não apenas numa sequência mas em várias” (2 ). Apesar de não nos podermos comparar a um catavento, andamos, por vezes, lá perto: passeamo-nos na rua, entramos num café, guiamos um carro e, ao lado da concentração, a nossa cabeça é um moinho sempre a rodar, sempre em movimento.
O que é que esta turbulência da nossa mente tem a ver com o sagrado? É simples: o sagrado baseia-se no mistério. E há uma vantagem no mistério que é, ao mesmo tempo, também, a sua essência. É que o mistério é como uma sombra em torno da qual é possível construir ilimitados percursos. Não se trata de explicar por que razão essa sombra existe, mas de a contornar, de a percorrer, de a envolver, porventura de a amar. Grande parte da existência e do discurso dos homens faz-se a partir dessa circum-navegação que nunca mais acaba. Um ritual de imagens, ritos, palavras segredadas e gestos que se reproduz, ao longo do tempo, apenas para sublinhar a importância da sombra. Uma circularidade interior que move e faz mover a mesma intensidade com que a poesia nos conquista no centro da sua afirmação muito específica e intemporal.
No fundo, o labirinto do culto é muito semelhante ao labirinto com que as imagens encenam a consciência, ou com que as palavras encontram as suas cenografias a bordo dos poemas que as fazem aparecer e ser.
O cinema, quando foi inventado, também trouxe para o lado de fora da nossa cabeça esta luta livre entre a montagem e o modo desabrido com que as imagens se podem conotar ou reproduzir, na nossa frente, sem cessar. O cinema é, sob o ponto de vista físico, como substância, uma verdadeira sombra. Melhor: sombra e luz que se alternam. E que, com o seu movimento, nos mobilizam a pulsação mais vital. O mesmo se pode dizer da literatura, a maior produtora de imagens da nossa experiência milenar.
O sagrado é, ao fim e ao cabo, um modo confortável de imitar e plagiar a nossa mente, mas é também a radiografia permanente do seu funcionamento. É por isso que o sagrado e o homem se confundem. Ao lado do sagrado, o cinema e a literatura têm sido uma ilustração fantástica e fantasmática deste desejo profundo de brindarmos ao universo com uma máscara de nós próprios. É por isso que ainda aqui continuamos: a respirar a faúlha incerta de que é feita a literatura e a sua permanente e silenciosa celebração.
Luís Carmelo
(1 ) – Enunciação em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984/II, pp. 387.
(2 ) – O Sentimento de Si – O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000, p.362.
A esmagadora maioria dos eBooks, no Brasil, ainda vendem pouco. Não importa quem os publica, se autores independentes ou grandes editoras – as vendas são fracas. Os “culpados” pelas vendas fracas costumam ser vários: a falta de uma base consistente de dispositivos (ereaders ou tablets) no país; o preço dos eBooks, que seria muito alto; a dificuldade para se comprar e baixar um ebook nas lojas brasileiras; e a quantidade pequena de ebooks em português à venda.
Antes de mais nada, impressionava pelo seu físico. Homem muito bonito, de extraordinário porte, distinto, educado, um dos maiores escritores do século XX mas também adequado modelo do “perfeito diplomata de carreira” que também foi, tendo chegado a embaixador do México na França, de de 1972 a 1976 – juntando às duas carreiras também a de professor em algumas das mais renomadas universidades , como Princeton, Harvard e Cambridge.
E assim se conservou o até sua morte,em 15 de maio de 2012, aos 83 anos, atuante, cheio de energia – deixou-nos 43 livros publicados, de ficção e de ensaios. Em suas últimas entrevistas, poucos meses antes de morrer, comentava um livro que acabara de escrever, Federico en su balcón, no qual ressuscitara Nietzsche para manter uma conversa com ele, e, incansável, declarava ter começado a escrever mais um de seus alentados romances de fundo histórico, El baile del centenario.
Caracteriza sua obra de ficcionista tomar como tema a história do seu país , criando, porém, uma série de personagens de primeiro plano, em sua integralidade e em suas particularidades existenciais ( “personagens redondos”, como preconizava Flaubert), situados contra o grande cenário histórico – uma integração perfeita, como realizou em La muerte de Artemio Cruz (1962), Terra nostra (1975) e Los años con Laura Diaz (1999) . No primeiro, o personagem, em seu leito de morte, no ano de 1959, recorda episódios de sua vida pessoal e de seu envolvimento em lutas políticas subsequentes à Revolução Mexicana de 1910, remontando depois até a data do seu nascimento, 1889.É um livro complexo, não-linear, e Fuentes vale-se de recursos estilísticos imprevisíveis, no entrelaçamento dos diversos períodos históricos retratados. Ainda mais extenso, e de estrutura complexa e desafiadora é Terra Nostra, em que abrange a história mexicana desde os primórdios da conquista espanhola. Laura Diaz, em plena maturidade criativa, é mais simples e linear. Exige menos conhecimentos do leitor e cria uma personagem calcada em uma pessoa real, a fotógrafa e ativista comunista Tina Modotti – que pertenceu ao circuito famoso de Diego Rivera e Frida Khalo – e através das circunstâncias de sua vida descreve um painel histórico que abrange o contexto conturbado do México, durante todo o século XX.
Pela sua imensa erudição, seu aprofundamento em história e disciplinas afins como sociologia e ciências políticas, por ser um dos raros ficcionistas-pensadores que a América Latina conta, Fuentes tem sofrido em maior gráu com a ignorância, a mediocridade, a falta de iniciativa dos editores, entre nós (falo pelo Brasil, pois desconheço o que se passa em Portugal) – ocupados em correr atrás das insignificâncias de escritores que visam somente o lucro fácil, a alta vendagem para um público cada vez mais imbecilizado.Muito poucos são os editores conscientes, bem informados, que ainda se lembram de que a literatura tem sido, com as outras artes, e antes de todas, o sustentáculo de qualquer tipo de civilização. Não-traduzida para o português permanecem, portanto, não somente uma grande parte da obra de Fuentes (como o colossal romance Terra Nostra ), mas um grande número de outros escritores “sérios”, significativos, do mundo – enquanto na enxurrada diária dos lançamentos, passam desvairados cinquenta, cem, milhão de “tons de cinza” que vão encabeçar a coluna dos “mais lidos”.
Seu primeiro romance de sucesso foi La región más transparente, de 1958 – ele tinha 29 anos, então. Um sucesso estrondoso, saudado pela crítica como “o primeiro grande mural da modernidade urbana”, pois descrevia a complexa realidade da vida na capital mexicana, desvelando uma série de circunstâncias e de personagens das mais variadas classes sociais. Não perdeu até hoje sua atualidade, no mundo hispânico, mas também permanece sem tradução em português.
Carlos Fuentes mereceria, sem dúvida, o Prêmio Nobel – pela qualidade, pelo volume da obra, pelo vigor do seu empenho na transformação cultural e social do seu país e da América Latina. Não o obteve, mas foi muito reconhecido no mundo hispânico e recebeu importantes prêmios, como o Miguel de Cervantes em 1987 e o Príncipe de Astúrias em 1994.
Como sempre acontece após a morte de um artista importante, há uma revalorização imediata de sua obra por parte de críticos, editores e professores universitários. Em minha próxima crônica pretendo continuar a examinar alguns aspectos da obra de ficção de Fuentes, mas termino esta reproduzindo apenas duas manifestações de críticos que julgo fundamentais para que meus leitores possam avaliar o que ele representa.
O crítico mexicano Christopher Dominguez disse, de sua obra: “É o conjunto mais complexo e variado da narrativa mexicana e reúne todas as conquistas e tendências da literatura contemporânea”. E o escritor argentino Tomás Eloy Martinez, em artigo publicado no jornal La Nación , disse: “El siglo XX está poblado de intelectuales emblemáticos. Ninguno de ellos ha reflejado tan bien como Carlos Fuentes las atmósferas, los humores, las obsesiones y los cambios de piel de América Latina”.
No Pop Literário de hoje, Patti Smith, também conhecida como “madrinha do punk”, lê um pequeno trecho do romance “As ondas”, de Virginia Woolf – e improvisa mais do que lê – ao som do piano e do violão tocados por seus filhos Jesse e Jackson numa performance de 2008. O clima amadorístico-familiar da apresentação da cantora-compositora-poeta-fotógrafa-ativista consegue, de alguma forma periclitante, combinar com a pretendida homenagem à grande escritora inglesa cujo suicídio, em 28 de março de 1941, fazia aniversário naquele dia em que se inaugurava uma retrospectiva de fotografias e desenhos de Patti em Paris. Vale lembrar que depois disso ela se revelou uma prosadora de talento com a autobiografia “Só garotos”, que saiu aqui pela Companhia das Letras no fim de 2010. Consta que tem ainda um romance policial no forno. (ViaOpen Culture, onde se pode ouvir também a única gravação remanescente da voz de Virginia Woolf, lendo o trecho de um ensaio de sua autoria para um programa da BBC em 1937.)
“Es una verdad universalmente aceptada que un hombre soltero en posesión de una notable fortuna necesita una esposa”. Así empieza Orgullo y prejuicio, de Jane Austen (1775-1817), a la sazón uno de los comienzos más populares y memorables de la literatura. Una obra que hoy cumple 200 años (en la imagen primera página de la edición del 28 de enero de 1813), con muchos seguidores y unos cuantos detractores, y a la que EL PAÍS le dedica hoy un especial que puedes ver AQUÍ. Pero sin duda, Austen es una escritora que con sus pocas novelas contribuyó a fomentar la lectura en su época, a popularizar la novela como género en el siglo XIX y a crear las pautas de la comedia romántica moderna.
Ciertos sectores han infravalorado o subestimado a la escritora británica y la han acusado, entre otras cosas, de banal, intrascendente y de falta de hondura o compromiso con su entorno. Sin embargo, creo que las obras de Austen relatan y describen historias cotidianas y personales que solo en apariencia son triviales; su mirada es certera y fotográfica y sus palabras aceradas dando como resultado un buen retrato, como pocos, de la sociedad de la época y los sentimientos, aspiraciones, sueños y emociones. Me gusta Austen y también Tólstoi y Stendhal y Nabokov y Faulkner y Dickens y Victor Hugo y Woolf y Mann y Brontë y García Márquez, por citar novelistas clásicos, sin establecer ahora un ranking. Y todos conviven felices en mi imaginación y memoria.
Biografia de Che Guevara retrata o “sofrimento” do homem que escolheu a guerrilha
Lucía Álvarez Toledo, autora do livro “A História de Che Guevara”, que vai ser publicado na Argentina defende que, ao contrário da imagem que se popularizou, o revolucionário argentino viveu “um profundo sofrimento”.
A autora do livro que se publica na altura em que se assinalam os 45 anos sobre a morte de Che Guevara afirma ter dados da infância e da juventude do revolucionário sul-americano que lhe permitiram escrever uma biografia que “oferece uma imagem mais aproximada e mais íntima”.
“Este personagem é muito conhecido pela sua gesta guerrilheira mas eu queria dar a conhecer outros aspetos da personalidade dele que nunca foram destacados porque ficamos sempre presos aos assuntos relacionados com a guerrilha, o marxismo e a luta armada”, explica a autora argentina, residente em Londres, em entrevista à agência EFE.
“Descobri o sofrimento deste homem. Ele tinha uma missão, tinha uma ideia do que tinha que fazer. Fez uma escolha e escolheu a luta armada”, diz Lucía Toledo.
Apesar de na juventude Ernesto Guevara ter lido Gandhi, “compreendeu muito cedo que o problema dos latino-americanos só podia ser resolvido através da luta armada”, afirma a escritora.
“Toda a gente acredita que quando tomou a decisão passou a usar uma boina e partiu pelos caminhos do mundo, mas não foi assim: sofreu muito por ter feito essa escolha, mas o sofrimento não foi registado nem compreendido”, sublinha a biógrafa de Che Guevara.
Para se aproximar da figura do guerrilheiro e oferecer, segundo as suas próprias palavras, uma “visão mais íntima”, Lucía Toledo recorreu à própria memória, falou com amigos de infância de Ernesto Guevara, consultou documentos e deslocou-se a Cuba para conhecer a viúva, Aleida March, os filhos e percorreu os caminhos do revolucionário na Bolívia.
“Há uma carta dirigida à mulher em que Che escreve que o que toda a gente pensa que ele não passa de um robot que tem de lutar, mas que, na verdade, tem sentimentos, e que sofre muito por não ver crescer os filhos”, conta Lucía Alvarez.
“Guevara esperava que os filhos o pudessem recordar caso fosse morto, e por isso escrevia-lhes cartas e contos. Nunca vi essa faceta exposta de uma forma clara e que complementa o retrato total do homem”, disse.
A autora não esconde uma espécie de “paixão” juvenil pela figura de Che Guevara cuja participação na revolução cubana chegaram muito cedo aos ouvidos dos jovens burgueses do Bairro Norte de Buenos Aires, na Argentina.
“Eu tinha 18 anos quando os jornais publicavam e escreviam títulos de primeira página sobre ele”, recorda a escritora, que acrescenta que o Exército Argentino não o chamou para cumprir serviço militar porque “não tinha boa saúde”, mas que acabou por ser comandante em Cuba numa “gesta impressionante”.
“Era um homem carismático, bonito, simpático, na linha de Carlos Gardel”, continua a autora, que durante a preparação do livro encontrou um velho bilhete de entrada para um jogo de rugby em que participou Ernesto Guevara.
“Dei-me conta de que o tinha visto durante um jogo no clube San Isidro, mas ainda não era o Che, era o Ernesto Guevara. E nada podia prever que eu ia passar parte da minha vida a investigar a vida dele”, diz.
Ernesto Guevara foi morto no dia 09 de outubro de 1967 pelo Exército boliviano, mas para a autora desta nova biografia Che “continua entre nós”.
– uma dimensão simbólica para a Amazônia, como em Viagem a Andara oO livro invisível
– lugar da desmesura, a floresta inspira o poético e o fantástico, aproximando a literatura brasileira da hispanoamericana
– para Vicente Franz Cecim é preciso sonhar mais para ser digno do mundo mágico que os escritores amazônicos querem expressar. Por isso, Andara, que designa o lugar onde se encena uma viagem interminável pela Amazônia e pela vida: Andara, é um nome inventado, como Macondo, de Gabriel García Marques. Esse lugar, sendo a Amazônia, é, simultaneamente, como o sertão de João Guimarães Rosa, o mundo. Metáfora da vida sonhada, que corrige pelo mito as mazelas da vida real, o Livro Invisível quer repor o mistério da natureza, nos convidando a melhor respeitá-la.
O escritor Gonçalo M. Tavares foi nomeado para o Prémio Literário Europeu 2013 para o melhor romance europeu traduzido para holandês no ano transacto, com Aprender a Rezar na Era da Técnica, editado em Portugal pela Caminho, anunciou a Fundação Holandesa para a Literatura.
Publicado na Holanda pela Querido, Aprender a Rezar na Era da Técnica (Leren bidden in het tijdperk van de techniek ) foi traduzido por Harrie Lemmens.
Entre os vinte finalistas contam-se nomes como Martin Amis (com Lionel Asbo), Javier Marías (com Os Enamoramentos), Emmanuel Carrère (com Limonov), Hilary Mantel (com Bring Up the Bodies) e Ian McEwan (com Sweet Tooth).
O Prémio Literário Europeu é uma iniciativa do Centro Académico Cultural SPUI25, da Fundação Holandesa para a Literatura.
Este galardão literário vai já na sua terceira edição, tendo distinguido Marie NDiaye, com Três Mulheres Poderosas (Teorema), e Julian Barnes, com O Sentido do Fim (Porto Editora), em 2011 e 2012, respetivamente.
O autor da obra vencedora receberá 10 mil euros e o tradutor 2,5 mil euros.
A obra Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. tavares, que tem sido aclamada internacionalmente, está também nomeada para o IMPAC Dublin Literary Award 2013 e já venceu o Prémio para Melhor Romance Estrangeiro em França em 2010, tendo sido finalista, nesse mesmo ano, do Médicis e do Femina.
A partir do dia 7 de Janeiro de 2013, a sala de leitura da Fundação Mário Soares terá o seguinte horário de funcionamento: Terças, Quartas e Quintas feiras, das 10 às 18 horas.
É da torre mais alta
Que eu canto este meu pranto
Que eu canto este meu sangue,
Este meu povo
Dessa torre maior
Em que apenas sou grande
Por me cantar de novo,
Por me cantar de novo.
Cantar como quem despe
A ganga da tristeza
Como quem bebe
A água da saudade,
Chama que nasce e cresce
E vive e morre acesa
Chama que nasce e cresce
Em plena liberdade.
Mas nunca se dói só
Quem a cantar magoa
Dói-me o Tejo vencido
Dói-me a secura
Dói-me o tempo perdido
Dói-me o mal da lonjura
Dói-me o povo esquecido
E morro de ternura
Dói-me o tempo perdido
E morro de ternura.
– Mamãe! – chamou a garota, como num grito contido. – Oh! Oh! A senhora vai embora? Por favor, perdoe-me, perdoe…
– Com o que está sonhando? É um sonho, é um sonho! – diante das palavras da garota que dormia, o velho Eguchi apertou-a ainda com mais força, tentando acordá-la. A tristeza contida na voz dela chamando pela mãe penetrou em seu coração. Seus seios estavam tão comprimidos contra o peito dele que estavam achatados. Ela estendeu os braços na direção dele. O teria confundido no sonho com sua mãe que desejava abraçar? Não. Embora adormecida, embora virgem, não havia a menor dúvida de que era uma coquete. Parecia que o velho Eguchi, em 67 anos de vida, nunca tivera a oportunidade de tocar com tamanha plenitude a pele de uma jovem. Se havia uma mitologia sensual, esta seria sua jovem heroína.
Começou a lhe parecer que não era apenas uma coquete, mas uma garota vítima de encantamento. Por isso, ela estava “viva mesmo adormecida”, ou seja, sua alma adormecia profundamente, mas seu corpo, ao contrário, mantinha-se acordado em toda a sua feminilidade. Não havia nela uma alma humana, apenas um corpo de mulher. Estaria tão bem treinada para servir de companhia aos velhos a ponto de a mulher da casa anunciá-la como “experiente”?
Eguchi afrouxou o braço que apertava a garota com força, abraçou-a com carinho e ajeitou seus braços nus de modo que ela o enlaçasse. E ela o abraçou docilmente. O velho manteve-se nessa posição e permaneceu quieto. Fechou os olhos. Aquecido, sentia-se num deleite. Era quase um êxtase inconsciente. Parecia compreender o bem-estar e a felicidade sentidos pelos velhotes que freqüentavam a casa. Ali eles não sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam se sentindo repletos de dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo corpo da jovem mulher. No entanto, estariam os velhotes pensando que compraram sem pecado as garotas adormecidas como oferenda para satisfazê-los? Ou, então, que por causa do sentimento secreto de pecado teriam um prazer ainda maior? Completamente fora de si, o velho Eguchi esquecera que a garota era a oferenda ao sacrifício, e procurou com o pé as pontas dos pés dela. Somente ali ele ainda não havia tocado. Os dedos eram longos e moviam-se gracio-sos. As articulações, de modo semelhante às dos dedos das mãos, ora se dobravam ora se desdobravam, o que já bastava para exer-cer em Eguchi a forte sedução de mulher misteriosa. Mesmo durante o sono, ela era capaz de trocar palavras de carinho com ele por meio dos pés. Entretanto, o velho contentou-se, interpretando os movimentos dos dedos dela como os de uma música hesitante e inocente, embora sensual. E continuou por algum tempo a acompanhá-la.
Parecia que a garota estava sonhando, mas teria o sonho acabado? Talvez tenha adquirido o hábito de falar e reclamar enquanto dormia em protesto aos toques insistentes dos velhotes. Eguchi pensou nessa possibilidade. Talvez fosse apenas isso. Mesmo sem falar nada e adormecida, a garota era plenamente sensual e apta a manter um diálogo com o velho apenas por meio do seu corpo. Porém, mesmo que fossem palavras desconexas em sonho, ele queria estabelecer um diálogo com ela em viva voz. Era provável que por não estar acostumado ainda com os segredos da casa, Eguchi não conseguisse desvencilhar-se dessa esperança. Perguntando a si mesmo, perplexo, o que dizer ou que parte do corpo pressionar para que a garota lhe respondesse, ele disse:
– Não está sonhando mais? Um sonho em que a sua mãe foi embora para algum lugar? – deslizou a mão ao longo da coluna, acariciando cada vértebra. Ela sacudiu os ombros e virou de bruços. Parecia ser a posição preferida dessa garota para dormir. Seu rosto continuava voltado para o lado do velho, com a mão direita abraçando de leve o travesseiro. Ela então pousou o braço esquerdo sobre o rosto dele. No entanto, não falava mais nada. O sopro suave da sua respiração chegava-lhe quente. Mas o braço sobre o rosto de Eguchi se mexia, procurando o equilíbrio. Então, com ambas as mãos, ele colocou-o sobre os seus olhos. As pontas das unhas compridas da garota arranharam de leve o lóbulo da orelha dele. A articulação do pulso dobrava-se sobre a pálpebra direita de Eguchi, de forma que a mesma ficou coberta com a parte mais fina do antebraço. Desejando conservar a posição, o velho apertou a mão da garota sobre seus olhos. O cheiro da pele dela penetrava-lhe os globos oculares e lhe proporcionava novas e fartas fantasias. Era bem nessa época do ano que duas ou três flores de peônia de inverno, banhadas pelo sol tépido como de um dia de primavera, floresciam ao pé do alto muro de pedras do velho templo da região de Yamato, e que sazanka* brancos cobriam amplamente o jardim até a beira do corredor externo do pavilhão Shisendo, onde homenageiam-se os poe-tas. Também, mais tarde, na primavera em Nara, as flores de ashibi* * e as glicínias, além das camélias despetaladas, estariam em pleno florescimento no Templo das Camélias.
* Arbusto nativo do Japão, da família das teáceas, a mesma das camélias. Enquanto estas florescem no início da primavera, os sazanka, o fazem no outono. (N.T.)
* *Arbusto da família da azálea, com flores brancas miúdas em cachos. (N.T.)
Começa assim o livro de Licínia Quitério, um livro de sítios, de todo os sítios, dos que se alcançam pelo trabalho da palavra. Em cada poema existe uma “paisagem absurda” e nessa paisagem se inscrevem palavras; não nomeiam, não descrevem, são palavras obreiras de outras realidades. E a realidade de hoje corresponde aos “dias do cerco”, à “pele atormentada do pântano”, onde a voz do poeta se destaca como construtor da nova metrópole, a que se avizinha, procurando ir sempre “Mais alto, que a terra é pouca e o céu é vasto”.
Os poemas nascem, “Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor, chicote a chicote…”, porque os sítios permanecem para além da memória do nome que lhe demos.
A quem estiver no Grande Porto amanhã: às 17:00, Dulce Maria Cardoso estará na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, em nova edição do “Porto de Encontro”. Um luxo!
Lanzarote vai homenagear o filho adotivo José Saramago com uma escultura de quase cinco metros em aço, a colocar na rotunda que dá acesso ao complexo da Casa e da Biblioteca do escritor, em Tías, no dia 18 de março, segundo aniversário da abertura deste espaço ao público.
A escultura, da autoria de José Perdomo a partir de um desenho de Esther Viña, ambos de Lanzarote, representa uma oliveira feita com as letras iniciais de José Saramago – o tronco é um jota, os ramos são esses. Foi apresentada publicamente no dia 25, numa sessão em que estiveram presentes a conselheira de Cultura doHoverno das Canárias, Inés Rojas, o presidente do Cabildo de Lanzarote, Pedro san Ginés, o presidente da câmara municipal de Tías, Francisco Hernández, e a presidenta da Fundação José Saramago, Pilar del Río.
A conselheira da Cultura sublinhou que a iniciativa tem o objetivo de deixar um testemunho da permanência de José Saramago em Lanzarote, onde se instalou em 1993, repartindo a presença na ilha com as sucessivas estadas em Lisboa. Foi em Lanzarote que escreveu o Ensaio sobre a Cegueira (1995) e todas as obras que se seguiram.
O presidente do Cabildo reconheceu que Lanzarote “nunca poderá pagar” a Saramago o facto de se ter apaixonado pela ilha e de ter decidido ali viver. “Mas podemos agradecer-lhe e esta é uma maneira de fazê-lo”.
Os representantes das instituições que se juntaram nesta homenagem a Saramago pertencem a diferentes partidos, como sublinhou na ocasião Pilar del Río que destacou que o facto de se terem sentado à mesma mesa pela cultura “integra-se no espírito de Saramago”.
Pilar del Río recordou a influência que Lanzarote e a sua paisagem tiveram na obra do escritor português, como é possível verificar no texto A estátua e a pedra – que a Fundação José Saramago publicará nos próximos meses. Nesse texto, Saramago explica que o contacto com a ilha o levou a alterar o seu estilo e a forma de ver as coisas – passou a interessar-lhe mais a pedra e a sua matéria do que a estátua.