A poesia de Miguel de Castro (1925-2009) tem uma sonoridade e uma métrica como se tivesse sido escrita para ser escutada enquanto se lê. Frequentemente, os poemas deslizam a partir de uma imagem inicial, num processo quase narrativo, evoluindo ao longo da sua escrita, para nos brindar com um desfecho surpreendente.
Miguel de Castro assumia-se como o poeta do corpo, num magoado elegíaco erotismo ferido de “lembranças” (como referiu Fernando J.B. Martinho na Colóquio Letras). É sempre com elegância e paixão que trata o corpo da mulher.
No Muito cá de casa estivemos em convívio poético. Dois atores emprestaram um registo diferente à leitura destes poemas. António Galrinho privilegiou a métrica, mantendo intacta a estrutura do poema, enquanto o António Nobre seguiu a linha dos afetos, interpretando o poema e deixando o timbre da sua voz entregue às emoções. Grandes momentos.
Ontem, na Casa da Cultura de Setúbal, sentiu-se, profundamente, a poesia.
Depois de, no ano passado, ter sido assinalada a primeira edição do Dia das Livrarias, inspirado por ventos vindos do país vizinho e assinalando o aniversário da morte de Fernando Pessoa e de Fernando Assis Pacheco (este último, precisamente numa livraria de Lisboa), a Fundação José Saramago e o movimento Encontro-Livreiro estabeleceram uma parceria que passará a assumir a organização e a dinamização do a partir de agora designado Dia da Livraria e do Livreiro, tornando-o mais abrangente e destacando sobretudo o lugar central que o livreiro ocupa no percurso do livro e na promoção da leitura.
O Dia da Livraria e do Livreiro é um dia de Festa! Festa da livraria! Festa do livreiro! Festa do leitor!
Este ano, a livraria Culsete recebe o diploma LIVREIROS DA ESPERANÇA, ESPECIAL CULSETE 40 ANOS. É mais logo em Setúbal às 16 horas.
Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro publica a leitura.
Quatro anos e meio após a sua morte, regressamos ao convívio poético com Miguel de Castro. Estes inéditos foram gentilmente cedidos pela mulher que o acompanhou toda uma vida até ao fim dos seus dias. Alice permite assim que a poesia de Jasmim Rodrigues da Silva (seu verdadeiro nome. Miguel de Castro foi pseudónimo poético sugerido por Sebastião da Gama), não se fique pelos cinco livros editados em vida do autor. O poeta deixou extensa produção digna de atenção. Esta pequena amostra, que hoje vai ser apresentada na Casa da Cultura, em Setúbal, antecipa e anuncia a publicação de toda a sua obra, com a inclusão de surpreendentes inéditos.
Um grande poeta que não decepciona os muitos e atentos seguidores do seu trabalho.
Este De silêncios e de sombras encontra-se à disposição dos possíveis aquisidores na loja da Casa e na livraria Culsete. O pedido também poderá ser feito por correio electrónico, para o endereço que se revela por baixo da minha assinatura, aqui no lado direito desta conversa. E termino a prosa com um dos poemas seleccionados para o livrinho. Até logo.
Os teus seios respiram sobre a cama
Adormecidos, nus…Que maravilha!
Teu corpo adolescente é uma ilha,
E tem no meio um bosque que me chama…
É seda a tua pele… E como brilha
Na luz do abajur que se derrama
No deserto tão branco dessa cama
Onde dormes e que ninguém partilha
Olho as pombas rosadas e quietas
De bicos agressivos como setas…
Eu mando embora os últimos receios
E poiso a boca em lume nos teus seios.
Toda nua, sorrias, acordada.
Tropeçava, sem luz a madrugada…
Miguel de Castro (19/11/1997)
Esta sexta, 29 de Novembro, no muito cá de casa, é apresentado o livro De Silêncios e de Sombras do poeta Miguel de Castro. Os atores José Nobre e António Galrinho vão ler poemas deste livro e a moderação é do António Ganhão.
Theo Jansen cria desde 1990 estas esculturas vivas dotadas de locomoção própria a partir da energia do vento. Novas formas de vida. Criaturas complexas que reinventam formas graciosas de caminhar.
Conheça melhor este artista holandês e delicie-se com o vídeo de entrada, aqui.
O quarto romance do escritor brasileiro Daniel Galera, que a Quetzal irá publicar em janeiro de 2014, recebeu o Prémio São Paulo de Literatura, no valor de 65 mil euros, o mais elevado no Brasil.
Barba Ensopada de Sangue, que conta a história de um professor de educação física que procura desvendar o mistério da morte do avô, é também um dos finalistas do Prémio Portugal Telecom, cujo vencedor será anunciado no próximo dia 4 de dezembro.
«Barba Ensopada de Sangue é um livro muito forte e Daniel Galera, um escritor admirável – sério, robusto, tranquilo. E este é também um livro assim, desde a primeira página. Como alguém que sai de casa sabendo exatamente para onde quer ir. Vai firme, mas não apressa o passo.» Gonçalo M. Tavares
A escolha da figura de Eanes para este exercício nostálgico, sendo absolutamente justa, tendo em conta a sua irrepreensível conduta moral, diz bem de Eanes mas mal de Portugal. Um país que, vivendo uma profunda crise económica, social e política, procura santos no seu passado (Eanes, mas também Cunhal), despindo-os do conteúdo político que tiveram, é um país bloqueado na sua capacidade de se reconstruir. É um país sem esperança. Descrente de poder encontrar no presente as respostas para o seu futuro.
Falar das mortes por violência doméstica é dizer da falência do amor, da crueldade alimentada por estereótipos que há muito deviam ter sido abandonados, da raiva e da fraqueza dos homens, da raiva e da fraqueza das mulheres, do negócio da união familiar, dos haveres e da falta deles, do saber e da falta dele, do tão curto espaço dado aos afectos, armadilhados na correria louca pela sobrevivência e pela supremacia. Teatros de afirmação de poder, os lares, manietados pelas crises, explodem em brutalidade, em gestos de animalidade insuspeitada. O lado dito mais fraco sossobra na peleja diária da nossa sociedade eivada de cinismo, de falsidade, de baixos instintos. Uma sociedade ainda beata em que se confundem os criminosos e as vítimas. Doença, só pode ser.
Licínia Quitério (escritora e poetisa, retirado do Facebook)
OS TRÊS ÚLTIMOS DIAS DE FERNANDO PESSOA. UM DELÍRIO
Encenação de ANDRÉ GAGO
QUARTA A SÁBADO ÀS 21H de 27 a 30 Nov
Sala principal – Teatro Municipal SÃO LUÍS
M/12
Peça para Pessoa e heterónimos, adaptada da obra de Antonio Tabucchi Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa. Um delírio, vive do cruzamento entre a biografia e a ficção, entre a realidade e a literatura. Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e António Mora, o menos conhecido heterónimo filósofo, visitam o poeta no seu leito de morte e discutem terna mas afincadamente as suas diferentes visões do mundo. Nos cento e vinte e cinco anos de Pessoa, uma dupla homenagem: ao poeta múltiplo e a um escritor que nasceu italiano e quis ser também português.
Interpretação Alberto Magassela, Carlos António, Carlos Marques, Eurico Lopes, José Neves, Maria João Falcão e Vitor D’Andrade.
Hoje, dia 24 de Novembro, faz anos que nasceu Rómulo de Carvalho. Pela sua contribuição como pedagogo e divulgador da ciência comemora-se o Dia Nacional da Cultura Científica.
Existem homens que são maiores do que o seu tempo e por isso lhes foi reservado a eternidade. Permanecem, lá onde os podemos rever: na sua obra, na sua integridade e no seu exemplo de vida. …não existe a ausência nem a distância. Nem saudade. Existe vida. Estão vivos na nossa memória e na forma como entendemos o mundo, a história, a ciência e a arte. Na humanidade acontecem homens assim, mas são raros.
A Rómulo de Carvalho aconteceu-lhe ser um desses homens, …foi um eclético da ciência. Foi, realmente, um Homem do Renascimento e bem ficou demonstrado através de todas as inúmeras e diversificadas atividades e que, para mim, constituem uma interrogação, uma grande interrogação: como é que uma pessoa desenvolve, ainda que num longo percurso de vida, tanta, tanta produção com tão diferentes interesses que vão desde a sua paixão – o dedicado ensino – à divulgação da ciência, à investigação da História de Portugal, à fotografia, à construção de móveis de madeira, à poesia, à escrita de dezenas e dezenas de obras.
Estas citações pertencem à biografia escrita por Cristina Carvalho, Rómulo de Carvalho / António Gedeão – Príncipe Perfeito.
Uma leitura que recomendo vivamente. Este livro faz parte do Plano Nacional de Leitura para a leitura acompanhada no Secundário.
Assinala-se a 24 de Novembro o Dia Nacional da Cultura Científica, em homenagem a Rómulo de Carvalho: professor, metodólogo, investigador, e autor de manuais escolares, de livros de divulgação científica e de poesia, estes últimos sob o pseudónimo de António Gedeão. Segundo as palavras de Mariano Gago, no jornal “Público” de 24 de Novembro de 1996, ano em que foi instituído, este dia deverá ser «momento privilegiado, todos os anos, de balanço, de reflexão e de acção sobre o papel do conhecimento no nosso futuro».
O Observatório do Mar dos Açores não poderia deixar de, uma vez mais, associar-se às celebrações deste dia. Assim, em parceria com a Escola Secundária Manuel de Arriaga (ESMA) e o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç), será apresentado no dia 22 de Novembro o documentário “José Bonifácio”, realizado por Francisco Manso, que aborda a história da Ciência e da Política, no início do século XIX. Terão lugar duas sessões: a primeira às 10:15h, na ESMA, e a segunda às 18:30 no auditório do DOP/UAÇ.
Eles são esquivos porque todos os querem tocar. Olha quem! Só quando eles querem. Não fazem favores….. antipáticos. Nós todos apaixonados e eles sem o mímino de interesse. É por isso que acabam nas Fogueiras.
O TAS, Teatro de Animação de Setúbal estreou ontem “Bartoon II”, inspirado nas tiras de Luís Afonso para o jornal Público e encenado por Carlos Curto. “Após uma recolha e seleção de dez anos de publicações, foi estabelecida uma “trama” dramática, procurando respeitar em absoluto a essência e o espírito do autor.”
Os atores, caraterizados de forma particularmente feliz, contagiam a plateia com o humor típico do universo de Bartoon. Conversas dispersas, cheias de sarcasmo e com o particular sentido crítico português, onde uma ideia incompleta se pode sempre rematar com um definitivo: “Ah, pois!”. A dinâmica em palco está bem conseguida e as representações colocam-nos, de forma convincente, perante os personagens das tiras criadas por Luís Afonso. Ficou-me apenas um reparo: a passagem entre quadros podia acompanhar melhor o ritmo do espetáculo. Gostei particularmente da solução cénica encontrada para a abertura e fecho do espetáculo: brilhante.
Em cena no Teatro de Bolso de Setúbal. Atores: Carlos Rodrigues, Duarte Vítor, José Nobre e Sónia Martins.
A Sextante Editora publica o mais recente romance da escritora canadiana Nancy Huston, Infravermelho, onde, no decurso de uma semana, acompanhamos a vida de uma fotógrafa que procura captar as fragilidades da sociedade e das relações. Através da escrita perspicaz e inteligente da autora, a protagonista deste romance examina um mundo governado por homens, esclarecendo-nos sem piedade a respeito das relações que o dominam. Um livro brilhante, com uma abordagem sensual e libertadora face aos contornos que regem a sociedade atual.
Rui Serra Ribeiro, conta com uma prestigiada carreira pautada pelo sucesso e reconhecida com a atribuição de diversos prémios e menções honrosas.
O artista vai expor a sua obra “Saudade – Guitarra Portuguesa” no próximo dia 23 de Novembro pelas 20h.00 no Teatro Lethes.
A exposição antecede o concerto do grande Mestre António Chainho, o grande impulsionador da fusão deste instrumento musical com os mais diferentes ritmos e culturas, que sobe ao palco do Teatro Lethes pelas 21h.30. Uma oportunidade única de juntar a música com a fotografia, na qual o Mestre António Chainho já tinha colaborado com a escrita do prefácio da exposição.
O TAS-Teatro Animação de Setúbal, vai estrear na próxima sexta-feira dia 22 de Novembro às 22:00, a sua 122ª produção – Bartoon II, no renovado Teatro de Bolso. Bartoon II é um original de Carlos Curto, escrito sobre as tiras diárias de Luís Afonso publicadas no jornal Público.
O olhar de Bartoon sobre os dias que se abatem sobre nós. Com tanta tragédia no palco da vida que suba a cena uma comédia.
Livro incluído no PNL (Plano Nacional de Leitura) como leitura recomendada para os 10º, 11º e 12º anos
Sufocantes, excitantes, únicos e inesquecíveis os anos 60 do século XX. De louca e arriscada travessia.
Em Portugal, vivia-se na ditadura. Londres, um sonho. Londres, o grito de alegria, tudo é novo, nada visto, único, longe, longe, distante de tanto mal!
1961 – Portugal iniciava a Guerra do Ultramar oferecendo a morte como certa a milhares e milhares de rapazes. Nessa altura, a Europa passou de miragem a ponto de esconderijo. E por aqui, mais valia suportar uma ausência de mistério e de segredos, sabendo que eles estavam por aí espalhados, do que sabê-los, em pesadelo, uns mortos, outros perdidos e estropiados nas matas desconhecidas.
Então, eram as mães e os pais e as namoradas e as amigas e as vizinhas e todos, todos sem excepção que procuravam empurrá-los para um outro destino. A angústia, a espera, o desespero eram as expressões do nosso quotidiano, em cada aldeia, em cada cidade, nos bairros, nas ruas, nos prédios, em cada patamar de todos os prédio.
Ana, apaixonada Ana não aguentou a separação, ela em Campo D’Ourique, o seu namorado em Londres. Contra os pais, tristes pais, amedrontados e incrédulos, Ana luta pela sua independência e por um amor que se recusa a perder. Londres é já ali. É só apanhar o comboio.
Foi o que fez.
Este livro conta a história de uma rapariga, de tantas e tantos adolescentes que em plena ditadura portuguesa, num pequeno país a agonizar, sem interesses, sem cultura, sem esperança, sombrio e serôdio de costumes, nada tinha a oferecer. Desaparecer, foi para muitos, a única vida possível.
A instituição que acolhia jovens do sexo masculino em situações transitórias estava em obras. Na horta, entre alfaces e couves, um jovem com uma enxada ao ombro, apontada para a terra. A sua expressão de estátua impressionou o homem. Hirto e quieto como um espantalho. Não se via mais ninguém. Durante a conversa com o director, Custódio sentiu a imagem do jovem a rodeá-lo, qual milhafre a voar em círculos largos na sua cabeça. Quando saiu, o espectro reapareceu na horta a dormir em pé, exactamente no mesmo sítio. Custódio fixou-o, olhou-o intensamente, mas não lhe percebeu qualquer reacção. Que fazia ali aquele rapaz?
…
– Anda a caçar toupeiras. Vai para ali ao nascer do sol e fica assim, diz que não se pode mexer, que elas sentem as vibrações. É ele quem cuida da horta. É um bom rapaz, fino e trabalhador.
Deste Lado do Mar Vermelho, de Sónia Cravo, Estampa.
Na escrita da Sónia Cravo somos surpreendidos por personagens insólitos, saídos de um lugar escuso da sua imaginação, tão sólidos que nos parecem sempre ter existido, como se revíssemos neles algo familiar.
Sónia Cravo nasceu em 1977, em Espanha, de pais portugueses. Era criança quando a família regressou a Portugal. Em 2011, o livro Na Senda da Memória assinalou a sua estreia literária.
Divide o tempo entre Aveiro e um pequeno lugar nos arredores, onde cava terra com o mesmo prazer com que escreve.
O primeiro livro de Michel Rostain, O filho, não pretende ser sobre a morte, é antes dedicado à vida. Nas livrarias a a partir de hoje, este romance dá voz a um filho que, após partir, observa o seu pai enquanto este o procura conhecer melhor e entender a sua morte. Apesar de ficção, O filho surgiu como um exercício para o autor ultrapassar o seu
próprio luto.
O resultado surpreendeu os leitores e a crítica, valendo-lhe o Prémio Goncourt para Primeiro Romance 2011.
O filho é um romance íntimo e enternecedor que nos ajuda a perceber que a vida pode dar origem a memórias felizes.
Romance de estreia de uma das grandes
figuras da música popular brasileira, chega hoje às livrarias.
A Filha das Flores, romance de estreia de Vanessa da Mata, revela uma
hábil criadora de cenários e de personagens, além de uma superior
destreza linguística capaz de maravilhar todas as cores da língua
portuguesa.
Giza cresce numa pequena cidade brasileira e ajuda, com o seu trabalho,
num negócio de flores muito especial, gerido por Florinda e Margarida que
a tratam como irmã.
Aos 18 anos, Giza apaixona-se por Tito, mas Florinda apressa-se a pôr
um fim à sua paixão.
À medida que Giza vai crescendo, a vila parece ir diminuindo, o que faz
com que ela comece a procurar novos territórios e encontre a «Vila» – um
bairro periférico, detestado pela população em geral. Aí faz novos amigos
que a iniciam na história secreta daquele lugar que se revela estar ligada
à sua própria origem.
A evolução darwiniana parece ter atingido o seu auge: nunca como hoje o polegar oponível foi tão importante, nunca até agora atingira a destreza que elas ostentam a enviar mensagens de texto. Em compensação, a linguagem parece ter regredido aos tempos pré-históricos. As conversas fazem-se com meia dúzia de vocábulos básicos, e a escrita eliminou as vogais, transformando-se numa amálgama quase checa de «X», «W» e «k».
“Todos os dias são Meus”, de Ana Saragoça – Editorial Estampa
Ana Saragoça nasceu em Viana do Alentejo em 1966. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa e formou-se como atriz pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Em paralelo com a carreira teatral, trabalhou sempre como tradutora, atividade que exerce a tempo inteiro desde 2002. Participou em várias antologias de contos, e, em 2012, Todos os Dias São Meus, o seu primeiro romance (Editorial Estampa), bem como A Mãe da Noiva, o seu primeiro texto para teatro, estreado em Outubro no Teatro Rápido. Em 2013, estreou as peças Não Sou Eu, És Tu, no Teatro Rápido e Sem Rede, pela Companhia de Teatro Chão de Oliva, tendo lançado ainda o livro Quando fores Mãe Vais Ver (Editorial Planeta Manuscrito).
O céu dali é mais bonito, mais largo e profundo do que em qualquer outro lugar. Enquanto um contava a saga da luta entre os dois seres gigantes – a noite e o dia -, vez por outra eu contava a minha versão: «Nossa Senhora borda o maior céu para nós, em um tecido que não se anuncia em acabar. É como se existisse um céu para cada noite e para cada lugar, para nos fazer companhia. Nossa Senhora nos deu este. O dia não morre, ela apenas o tapa para dormirmos num tecido grosso e milenar. Os furinhos no pano velho fazem com que a luz o atravesse e não nos deixe totalmente no breu .»
A Filha das Flores, de Vanessa da Mata – Quetzal (nas livrarias a dia 15)
Vanessa da Mata nasceu no Mato Grosso, em 1976. É uma compositora e cantora galardoada com um Grammy. Lançou quatro álbuns, e as suas canções «Ai, Ai, Ai», «Boa Sorte» e «Amado» ocuparam, sucessivamente, o primeiro lugar do top brasileiro. Vanessa da Mata participou num programa da MTV e foi considerada uma das 25 mulheres mais criativas, em 2007. A Filha das Flores é o seu primeiro romance.
A Associação cívico-política + D = Democracia em Movimento e o Dr. Nelson Carvalho vão levar a cabo, numa iniciativa conjunta, um colóquio com o mote: “Défice democrático – representação, participação, reforma do sistema político?”.
Serão oradores o Dr. André Freire, o Dr. José Gusmão, a Dra. Luísa Mesquita e o Dr. Pedro Mourão.
Estão todos convidados a estarem presentes neste que é um espaço de debate aberto.
Vai ser no dia 30 de novembro (sábado), entre as 15.30 e as 18.30 na sala da Assembleia Municipal, na Ex-Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.
Álvaro Cunhal foi uma figura misteriosa. Parece criação literária. Aliás, as histórias que contou em livro relevam sempre personagens que se confundem com ele próprio. A opção pela defesa de um ideal levou-o a viver, no tempo da ditadura, permanentemente em risco. Já tinha vivido mais de metade da sua vida quando conheceu a liberdade na terra onde nasceu. O mistério deve-se a essa constante resistência. Quem discordava de Salazar tinha que viver escondido. Ou estar calado. Cunhal não estava para aí virado. Fez da luta política maneira de existir. Vida difícil e complicada mas em permanente busca de conhecimento. Conheceu mundo e revelou o que conheceu. Ilustrou, pintou, escreveu, discutiu arte. Discordo de algumas opiniões sobre assuntos que também me são gratos. Mas realço, acima de tudo, nesta altura em que se comemora o centenário do seu nascimento, a capacidade de resistir à mediocridade fascista com cultura e com a coragem de acreditar em outros caminhos. Há quem, mesmo neste momento de comemoração, insista na ideia de que, como dirigente comunista, defendia outra ditadura. Acontece que Álvaro Cunhal esteve preso anos a fio, incomunicável, por combater o regime criminoso de Salazar. Os seus adversários políticos nunca viveram semelhante experiência. Dificilmente saberão do que falam. Há alturas em que deveriam ficar calados.
MUITO CÁ DE CASA | NOVA TEMPORADA | Regressam dia 15 os encontros Muito Cá de Casa, na Casa da Cultura, em Setúbal. Abrem-se as portas da Casa a um setubalense. O conhecido actor Carlos Rodrigues, mais conhecido na terra por Manuel Bola, edita novo livro de poesia. Esta publicação inicia uma nova marca editorial – Muito Cá de Casa – que já tem em carteira mais três edições: um livro de inéditos de Miguel Castro, outro de Carlos César e um outro de homenagem a José Afonso.
O Muito cá de Casa é uma iniciativa da DDLX e da Câmara Municipal de Setúbal – Divisão de Cultura, e conta com a colaboração de PNet Literatura, livraria Culsete e BlogOperatório.
“Ernie fazia-me festas no cabelo. A minha gratidão por esse simples carinho era tão grande que abarcava quarenta anos do nosso passado comum e tinha ainda espaço para o momento presente. Endireitei-me na cadeira e deixei que os braços delgados e fortes de Ernie me enlaçassem, pois agora estava certo de que eu era feito de coisas que nunca tinha desejado – coisas partidas a que não continuaria agarrado.”
A Sentinela, de Richard Zimler, é um policial surpreendente, lúcido e corajoso. Mais do que abordar a realidade portuguesa atual, Zimler deixa-nos um retrato profundo do ser humano, das suas fragilidades e do seu lado indizível. O caminho iniciático para a idade adulta, esse precipitar em poços profundos, donde somos resgatados pela luz de se ser único na vida de alguém.
Um grande poeta, um poeta realmente grande, é a menos poética de todas as criaturas. Mas os poetas inferiores são absolutamente encantadores. Quanto piores são as suas rimas, mais pitorescos eles parecem. Só o facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem deveras irresistível. Vive a poesia que não pode escrever. Os outros escrevem a poesia que não ousam realizar.
O romance de estreia de João Bouza da Costa, Travessa
d’Abençoada, acaba de ser agraciado com o Prémio P.E.N. de
Narrativa para o ano de 2012.
Travessa d’Abençoada é um romance que acompanha os diversos
protagonistas e acontecimentos que têm lugar numa travessa típica de
Lisboa, durante 24 horas.
Aquando da publicação deste livro, em janeiro de 2012, o crítico
literário Miguel Real escreveu no Jornal de Letras: «Lamentamos que
não exista já o Prémio Literário Cidade de Lisboa, Travessa
d’ Abençoada merecia-o em absoluto, retrato em perfeição da nova
Lisboa habitada por um cidadão cosmopolita, universalista e tolerante,
não já a antiga capital imperial e africanista ou colonialista, não já a
Lisboa heroica e épica propagada pelo Estado Novo, pesada de
edifícios majestáticos, antes moderna e europeia carregada de idosos
(as doenças e a solidão da terceira idade retratadas no romance), de
casais pobres e ricos (o novo condomínio de luxo em contraste com as
casas envelhecidas dos prédios de reboco à vista), de pessoas
diferentes (a criança autista), de estrangeiros (a mulher do tradutor),
de vícios (a agonia dos drogados), de maquiavelismo (o empreiteiro
reles que atormenta o “Orelhas” para ele abandonar a casa), numa
mistura de tradição (os frangos assados o fado as roupas das
senhoras velhas…) com rock e música erudita, onde se ouve ao
mesmo tempo um refrão clássico e um verso de Rilke.»
Salazar e o Poder – A Arte de Saber Durar foi vencedor do prémio PEN Clube de Ensaio 2012.
Fernando Rosas deixa-nos uma visão lúcida e desprendida de atavismos morais. Bem documentado, este livro, espelha o trabalho de quem dedicou uma vida académica a este período da história de Portugal e sempre procurou saber como Salazar sobrevivera durante tanto tempo. Não o teria conseguido por recurso a um exercício excessivamente autoritário ou repressivo, mas por uma sábia conduta de quem conhece a verdadeira natureza dos portugueses e, tirando partido disso, se lhes impôs como líder desejado e providencial. Uma obra indispensável ao conhecimento deste período da história de Portugal que, nos dias de hoje, muitos gostariam de ver repetida.
A ideia de que um Picasso era um garanhão fustigado por um Eros de predador é quase um insulto ao seu génio. Um homem como Picasso não é um D.Juan nem um ser lascivo. É outro coisa, bem mais rara, mais perigosa, mais fascinante. O que não faltam no mundo são falos andantes… Um homem da dimensão de Picasso sabe que a paixão não é fácil, que o sexo não é fácil, que o mundo não é essa esteira epicurista de nus e contra-nus. Picasso é um homem iminentemente trágico, que está nos locais mais perigosos nos momentos mais difíceis, é um perscrutador, um homem radical. Não brinca aos efeitos estéticos.
Talvez que um tempo desmagnetizado de todo como este confunda um Casanova com um Picasso, mas de facto, nada ha de comum. Estou certa que até para se ser vítima há que ter bons carrascos ou então não vale a pena o estatuto de sacrifício.
Picasso era uma força da natureza, um ser vivo melhorado, um vampiro, também. Mas era Picasso, não o vejo a cometer “crimes” contra o seu estatuto de semi-deus….O prazer? Quem sabe dele? Quem pode aferir que o grau de sadismo com que por vezes se revestiu não é voluptuoso?
Quanto aos genitais, qualquer homem os tem. E não são Picassos. São apêndices de algo que não interessa mais.
“António Lobo Antunes (1942) afirma-se como um ávido revelador do que a vida sistematicamente esconde. Para além do superficial dos acontecimentos, o romancista recorda, invoca, interpreta, aventura-se no próximo, no incerto e no desconhecido. E vêm à memória amigos, desaparecidos, mas presentes, como José Cardoso Pires e Ernesto Melo Antunes… A vida entretece-se de amizades. Harold Bloom fala misteriosamente de “one of the living writers who will matter most”. George Steiner considera-o como “heir to Conrad and Faulkner”. O certo é que a sua escrita atrai, porque é inusitada e pertinente, luminosa e obscura. Que é a vida senão um mundo de contradições? Quaisquer elogios passageiros nunca permitirão entendê-lo. Um dia disse: “Quando lemos um bom escritor é para nos conhecermos a nós mesmos”. Essa a grandeza da literatura, a de ser um revelador da existência. É fundamental ler António Lobo Antunes, para quem é insuportável aceitar a mediocridade e ouvir dizer “somos um país pequeno e periférico”…”
“Sobre o negro, uma escrita a luz.
Liberta-se em poesia o que se fixou no olhar.”
Com fotografias de José Luís Outono e o discorrer poético dos pensamentos de José Gabriel Duarte é lançado este sábado, na Fundação José Saramago, este “Palavras a Preto e Branco”.
É às 16:00 horas, sintam-se convidados.
A frase em citação é da minha autoria e encontra-se nas badanas deste livro.
A 11ª edição do Doclisboa – Festival Internacional de Cinema vai exibir 244 filmes de 40 países, somando um total de 123 longas e 121 curtas-metragens.
Este ano, o festival conta com 46 filmes portugueses, 42 primeiras obras, 36 estreias mundiais, 5 internacionais e 1 europeia.
Um colectivo de realizadores anónimos sírios, os confrontos do verão passado no Egipto, os movimentos sociais na Turquia e no Brasil e a lei contra a propaganda gay na Rússia são algumas das realidades abordadas na secção que o Doclisboa estreou no ano passado.
ESPETÁCULO MULTIDISCIPLINAR COMEMORATIVO DO 40.º ANIVERSÁRIO DA CULSETE
20 de OUTUBRO, DOMINGO, 16 HORAS
FÓRUM MUNICIPAL LUÍSA TODI, SETÚBAL
A finalidade deste espetáculo é reunir sob o signo da leitura, de leituras, todos os que se considerem seus filhos, aqueles que, através das leituras que foram fazendo, cresceram e se afirmaram como indivíduos com pensamento livre, crítico e atuante, todos aqueles cujas raízes cada vez mais estejam presas ao livro e à leitura.
Pretende-se festejar os 40 anos da Culsete com um ramalhete de palavras, sentir a sua força, escutar a sua música, quer sejam lidas, ditas ou cantadas, deixar ecoar o seu som ao lado de outros sons, produzidos por instrumentos que não a voz humana.
Ver o seu bailado em poemas, monólogos e frases, ao lado do movimento dos corpos propondo-nos outras leituras.
Festa é alegria, é contentamento, é o entrecruzar de gestos, sons e imagens que se colam a nós, transportando-nos para outros lugares. Também dos momentos de festa e júbilo nos alimentamos.
É esta a proposta da tarde de amanhã. Vamos viver a festa de sermos filhos da leitura.
«Concordou em fazer-se passar por Fernando Pessoa, apreciando-se depois em frente do espelho no quarto: o bigode postiço, contido e severo, os óculos que lhe davam um ar digno e harmonizado com a sofisticação própria dos intelectuais; e, por fim, enfiado na cabeça, o estimável chapéu preto, que lhe acrescentava respeito e culta superioridade. Semelhante na compostura e privilegiado na aparência, assim estava o carteiro Bernardo com a sua boa inspiração, a projectar ilusões e a permitir excitações libidinosas à senhora Ofélia.»
«O Carteiro de Fernando Pessoa», de Fernando Esteves Pinto.
Sem Rede, é uma peça levada a cena pela Companhia de Teatro de Sintra, baseado num texto de Ana Saragoça com encenação de João Mello Alvim. Três atores emprestam a sua interpretação a um quadro familiar. Um homem, uma mulher e uma jovem no fim da adolescência. Seriam uma família. Mas nos dias de hoje, são estranhos com disfuncionais laços de aproximação.
Reuniu ontem e hoje o júri do Prémio Leya, a que concorreram este ano quatrocentos e noventa e um originais, oriundos da Alemanha, Angola, Brasil, Espanha, Estados Unidos da América, França, Guiné-Bissau, Itália, Luxemburgo, Macau, Moçambique, Portugal, Reino Unido e Suécia.
O júri deliberou atribuir o Prémio ao romance «Uma Outra Voz», de Gabriela Ruivo Trindade.
O júri destaca a consistência do projecto narrativo que procura, através de várias gerações, e com o foco em personagens de grande força, sobretudo femininas, retratar a transformação da sociedade e dos modelos de vida numa cidade de província, no Alentejo. Merece destaque a originalidade com que o autor combina o individual e o colectivo, bem como a inclusão da perspectiva do(s) narrador(es) no desenho cuidado de um universo de vastas implicações mas circunscrito à esfera do mundo familiar ao longo de um século de História. Também a exploração ficcional de registo diarístico e a inclusão da fotografia dão um sinal de modernidade formal a esta obra premiada por maioria do júri.
Sem Rede, é uma peça levada a cena pela Companhia de Teatro de Sintra, baseado num texto de Ana Saragoça com encenação de João Mello Alvim. Três atores emprestam a sua interpretação a um quadro familiar. Um homem, uma mulher e uma jovem no fim da adolescência. Seriam uma família. Mas nos dias de hoje, são estranhos com disfuncionais laços de aproximação.
Os adultos reencontram-se ao fim de vinte anos de separação, através dessa fada mágica que é o Facebook. Mas a ilusão do face não sobrevive ao tempo, como também aquele quadro é vítima dos tempos atuais: divórcio, a crise, os filhos marcados pela partida de um dos progenitores e pela falta de futuro. A mesma falta de perspetiva que faz os jovens encararem os conselhos do mundo adulto como frases gastas e anacrónicas. O conflito de gerações marcado, não por uma visão diferente do futuro, mas pela diferente percepção da sua ausência. Um texto cru e duro que se presta a uma época onde as cerimónias já não fazem sentido. A toalha sobre a mesa será sempre marcada por uma nódoa.
Tudo isto servido com um refrescante sentido de humor que a interpretação dos atores, Susana Gaspar, Nuno Machado e Alexandra Diogo, emprestam uma eficaz convicção. Estreou ontem na Casa de Teatro de Sintra e foi uma grande noite de festa com casa cheia. Até ao dia 27 não percam. Depois a peça parte em digressão pelo país.
O Rei do Monte Brasil, de Ana Cristina Silva é o vencedor do Prémio Literário de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues, iniciativa conjunta da FENPROF e SECRE, e que se refere a obras publicadas por docentes em 2012.
Este é um livro sobre dois homens caídos em desgraça. Dois homens que sofreram uma derrota pela posse de uma mesma terra, embora um deles tenha saído vencedor sobre o outro.
A escrita da Ana Cristina Silva precisa dessa imensidão do olhar, dos grandes espaços e do desassombro de mentes poderosas.
Neste livro, Gungunhana encontrou o seu lugar entre os grandes reis da nossa história.
«O Guardador de rebanhos [um secreto teatro]» é a 20ª produção do Projéc~ e estreia no Teatro Municipal da Guarda (TMG) na próxima quinta-feira, dia 10 de Outubro. Trata-se de uma encenação de Fernando Marques a partir do texto de Alberto Caeiro com a interpretação do actor André Gago. A peça ficará em cena até dia 12 (sábado)com sessões no Pequeno Auditório às 21h30. Está também prevista uma sessão aberta às escolas marcada para sexta, dia 11, às 14h30.
Sobre o espectáculo, o encenador refere que «O que surpreende (…) é o fascínio que sobre o leitor atual exerce este longo monólogo de um “homem” que procura “não pensar-se como homem, mas sentir-se como ser”. Numa definição que parte dos elementos da natureza para nos revelar que o mundo que julgamos construir pelas palavras nos afasta irremediavelmente da essência das coisas aconselha-nos “a despir a natureza do disfarce antropomórfico com que a vestimos” e a abandonarmos toda a retórica, todas as metáforas, toda a pressuposta subtileza que mais não é que uma elaboração do espírito para a si mesmo se justificar. Mas, ao desfazer-se das palavras o poeta condena-se ao silêncio definitivo, e talvez seja por isso que Alberto Caeiro decidiu morrer cedo. (…)»
Ao longo da História da Humanidade, senhores de gloriosas nações e incontável poder viram a sua liderança tragicamente abalada pela insatisfação de um povo revoltado, subjugada pelo poder de outro império ou cobiçada por um familiar ambicioso.
Do louco Tibério, de Roma, ao mais sensato Gustavo III, da Suécia, passando pelos apaixonados Alexandre e Draga, da Sérvia, pelo irascível Paulo I, da Rússia, ou por D. Carlos, apaixonado por oceanografia, Regicídios que Mudaram a História apresenta ao leitor o destino trágico de reis e imperadores cuja morte trouxe um novo rumo à vida do seu país.
Viagem empolgante pelos principais atentados reais verificados ao longo dos tempos, Regicídios que Mudaram a História é uma obra indispensável para todos os que se interessam pelos acontecimentos que marcaram a Humanidade.
A acção decorre em tempo real, numa noite de sexta-feira em casa de Alice e Isabel, mãe e filha. A mãe, há muito divorciada, resolve receber para jantar o namorado de há 25 anos, seu primeiro grande amor, mentor nas lutas estudantis, quem no fundo a moldou em termos intelectuais. A filha, totalmente desengajada em termos políticos, procura freneticamente uma saída no estrangeiro, de preferência sem ter de pensar muito. O jantar decorre num ambiente entre tenso e cómico, com a mãe a ajustar-se à nova imagem do velho amor e abandonando gradualmente todas as ideias de retomar o romance; a filha sentindo-se gradualmente mais atraída por aquele homem que pode quiçá salvá-la de ir limpar retretes para a Suíça; e Bruno jogando ambiguamente com ambas. Através das características das personagens e dos conflitos gerados, “sem rede” é uma reflexão sobre o Portugal actual, alimentado por um passado de sonhos frustrados e com as perspectivas de futuro ocultadas por um denso nevoeiro.
O romance vencedor da edição deste ano do Prémio LeYa será anunciado no próximo dia 15 de outubro, depois de concluídas as reuniões do júri, agendadas para 14 e 15 de outubro, na sede da LeYa, em Alfragide.
A edição deste ano superou as expectativas, com o número de originais recebidos a chegar aos 491 – mais 43 do que a edição de 2008, a mais concorrida até agora. Destaca-se, igualmente, a diversidade dos países de onde são oriundos os trabalhos a concurso: foram recebidos originais de 14 países diferentes. Com claro destaque para Portugal e Brasil, à LeYa chegaram também trabalhos da Alemanha, Angola, Espanha, França, Guiné Bissau, Itália, Luxemburgo, Macau, Moçambique, Reino Unido, Suécia e Estados Unidos.
O júri do Prémio LeYa 2013 mantém-se inalterado relativamente à edição anterior, sendo formado pelos escritores Manuel Alegre (Presidente do júri), Nuno Júdice, Pepetela e José Castello, e por José Carlos Seabra Pereira, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Lourenço do Rosário, Reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e Rita Chaves, Professora da Universidade de São Paulo. À análise do júri foram submetidas sete obras finalistas que estão a ser avaliadas em regime de “prova cega”.
O Evangelho segundo Jesus Cristo, de 1991, abre com a descrição da cena do Calvário. O autor observa um quadro.
O primeiro personagem é o bom ladrão, de caracóis louros (como os anjos), semblante arrependido e sofrido. Saramago reconhece-lhe “uma dor que não remite”. Mais “retíssimo” será o mau ladrão, esse a quem o autor reconhece um “sofrimento agónico” e, portanto, mais puro, isento da trapaça de “fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade”. A escrita de Saramago reveste-se deste olhar lúcido, um olhar que percorre, que perscruta o interior da alma humana e por vezes se detém num pensamento, para de seguida retomar o seu caminho. Parágrafos extensos que se demoram, presos à ideia que vão expondo, como se fossem adivinhando o fascínio que despertam no leitor.
Como narrador, Saramago aproxima-se da postura deste mau ladrão, sendo que, entre o bom e mau, “não há nenhuma diferença… pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro.”
Continuando a comemorar com os seus leitores e amigos o 40.º aniversário, a Culsete está neste momento a organizar, com o precioso e imprescindível apoio de José Teófilo Duarte, uma exposição subordinada ao tema OLHARES SOBRE A LIVRARIA, onde várias personalidades que trabalham em áreas artísticas simultaneamente díspares mas próximas como a banda desenhada, a fotografia, a ilustração, a pintura, o design, se prestaram a deixar ver o seu olhar sobre a livraria. Em simultâneo, serão mostradas fotos e outros materiais inéditos do acervo privado da Culsete, nunca antes dados a ver. São propostas de distintos e polissémicos olhares que pretendem provocar leituras várias. Quanto aos nomes dos artistas, serão divulgados oportunamente.
A Mensagem, obra maior da poesia contemporânea, é um dos textos essenciais da cultura portuguesa.
Esta edição de uma das mais famosas criações de Fernando Pessoa analisa detalhadamente cada poema, desvenda as palavras do poeta e clarifica a informação histórica que lhe está subjacente.
Elaborada de forma a possibilitar uma leitura acessível, quer ao aluno do ensino secundário, quer ao leitor mais íntimo da obra pessoana, Mensagem comentada por Miguel Real é uma obra obrigatória para se conhecer de forma mais profunda e rigorosa o maior poeta do século XX e um dos textos fundamentais da cultura portuguesa.
Miguel Real oferece-nos uma leitura lúcida e inteligente deste belíssimo poema, respeitando-lhe a alma, permitindo ao leitor apreender, em toda a sua extensão, a simbologia e misticismo de que está impregnado. As ilustrações de João Pedro Lam dão ao livro um aspecto menos pesado, fazendo-nos abstrair do lado académico e mais formal desta obra.
Ontem foi noite de festa no Transmission Bar e o palco encheu-se. Manuel San-Payo falou do seu trabalho de ilustrador, das suas cumplicidades com a autora Cristina Carvalho e de como este “Ana de Londres” lhe diz muito; ele que foi educado numa escola estrangeira para se preparar para o salto. Esse ato de partir, não só em busca de um futuro melhor, mas de deixar um país que o condenaria à guerra nas picadas de África. Salvou-o o 25 de Abril.
A arte do ilustrador trabalha imagens sobre as imagens naturais da escrita, aquelas que o leitor cria à medida que vai lendo. Trata-se de um trabalho de risco; o conflito pode surgir a todo o momento, perder-se o efeito de contribuir para a narrativa, dando-lhe uma outra dimensão.
O André Gago leu de improviso um trecho do livro, com a segurança dos mestres. A autora falou-nos da Ana de Londres e dos tempos da Ana de Londres. Aproveitou para deixar claro que não se trata de um livro autobiográfico.
O editor Marcelo Teixeira, da editora Parsifal, está de parabéns.
(Na foto, das esquerda para a direita, André Gago, Manuel San-Payo, Cristina Carvalho e Marcelo Teixeira)
Sobre este livro, a minha crónica no PNet Literatura
As Tertúlias de Lisboa têm a honra e o privilégio de receber, no dia 12 de Outubro na Ler Devagar, o Sheikh David Munir e o professor José Manuel Anes para a sua sessão inaugural.
Os nossos dois convidados são crentes, ambos acreditam no Deus de Abraão, aquele que se deu a revelar nos primeiros cinco livros, fundadores das grandes religiões do Livro Sagrado. Saramago era ateu.
No entanto, a presença de Deus na obra de Saramago é inegável. Um Deus pessoal, dotado de características físicas e humores humanos. Um Deus a quem Saramago retirou a mão esquerda (no Memorial do Convento), ou emergiu numa crise existencial, como em Caím. Não sendo possível olharmos Deus no seu esplendor e glória, Saramago deu-lhe um rosto, criou-lhe uma dimensão literária e humana, segundo a tradição iconográfica católica. Podemos então dizer que Saramago era ateu de um Deus católico?
Esta dimensão literária de Deus é perfeitamente alheia ao Islão, cuja representação do sagrado ou do Profeta estão proibidas. A obra de Saramago gerou polémica entre a comunidade católica e passou incólume na comunidade islâmica.
Deus na obra de Saramago é o ponto de partida para a nossa primeira tertúlia. Seguramente, o cálice transbordará.
A Casa da Cultura de Setúbal vai receber os eminentes opinadores na próxima sexta-feira, dia 27. Um debate espreitando o desfecho da campanha eleitoral para as autárquicas.
“Os blogues são assim como jornais com grande possibilidade de expansão. Toda a gente pode ter o seu próprio meio de comunicação sem grandes investimentos financeiros. A importância destes meios de comunicação existe conforme a influência dos seus autores.
Mais recentemente, as opiniões postadas nos blogues, passaram a ter eco no facebook e twiter. Muitos políticos, actores ou gente do desporto, comunicam por estes canais a sua existência e enleios existenciais.
Esta edição muito cá de casa traz a Setúbal três autores de blogues que marcam o panorama deste meio de expressão. Tomás Vasques, do Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos, é também comentador em canais televisivos e cronista no i. António Cabrita, do Raposas a sul, foi crítico de cinema no Expresso, é escritor e argumentista. José Simões é autor do muito concorrido Der Terrorist, sendo um atento analista da realidade que nos cerca.
Convidados. Apareçam.”
“Que sabes tu do coração de job, Nada, mas sei tudo do meu e alguma coisa do teu, respondeu caim, Não creio, os deuses são como poços sem fundo, se te debruçares neles nem mesmo a tua imagem conseguirás ver, Com o tempo todos os poços acabam por secar, a tua hora também há-de chegar. O senhor não respondeu, mas olhou fixamente caim e disse, O teu sinal na testa está maior, parece um sol negro a levantar-se do horizonte dos olhos, Bravo, exclamou caim batendo as palmas, não sabia que fosses dado à poesia, É o que eu digo, não sabes nada de mim. Com esta magoada declaração deus afastou-se e, mais discretamente que à chegada, sumiu-se noutra dimensão.”
Caim, de José Saramago
As diversas dimensões onde Deus se some são um mistério para os homens.
O mais recente romance da Ana Cristina Silva já disponível nas livrarias.
Cada livro que se escreve é uma tentativa de aproximar a voz individual das personagens e do autor à voz comum e desta maneira criar uma espécie de intimidade com o leitor. Hoje sai para as livrarias a Segunda Morte de Anna Karenina e estou um pouco nervosa porque não sei se a intimidade desejada será conseguida.
Uma mãe, num momento particular de um Verão, toma uma decisão que condicionará para sempre a vida da sua filha. Esta é a história dessa mãe, contada através das palavras da história da filha. Como pontes a ligar lugares que achamos distantes e improváveis, há momentos que nos regressam sempre.
Num prédio as vidas arrumam-se como livros numa estante. São histórias fechadas em si mesmas, ou nem tanto, porque as histórias têm tendência de ir por onde não devem.
São as personagens incertas que habitam aquele prédio à beira do mar. Delas não conhecemos o seu passado, também não iremos conhecer o seu futuro. Afinal, “uma história são pessoas num lugar por algum tempo.”
A escrita de Camarneiro é de uma grande coerência literária, desdobra-se em imagens de grande beleza poética, arranca estes personagens ao seu quotidiano, aos seus pensamentos, à intimidade da sua casa. São gente com paredes à volta. Têm todos um pouco uns dos outros, sem contudo o saberem ou se darem a conhecer. São como o padre que resgata o Menino Santo e o apresenta à sua Igreja. “O farol aceso cumpre a luz aos barcos que dela carecem.”
Tudo o que tem de ser feito. Eis a moral indispensável ao bem da nação, a que ditou os comportamentos privados, públicos e policiais. Em plena sedimentação do Estado Novo, nos anos 30, acontece um crime perpetrado na figura de um advogado da praça Lisboeta. Fosse um mendigo, um marçano ou um empregado do comércio e os alicerces do regime não estariam ameaçados.
Os vícios privados das figuras regradas do regime não estariam em causa.
Os estratos sociais, os vícios privados e o que tinha de ser feito, surgem aqui numa narrativa que nos prende à sua leitura. Um registo sóbrio sem ideias pré-concebidas, sem endeusamentos dos que não alinhavam com o regime e uma versão torpe dos que o serviam. Quem servia, também se servia.
Quando vivemos tempos em que as classes ociosas se reúnem para brincar aos pobrezinhos, a leitura deste livro torna-se indispensável. Tudo isto aconteceu. Não estamos muito longe de que volte a acontecer.
Houve tempos, ainda recentes, em que a humanidade parecia ter-se libertado do medo. Foi preciso então intervir. Os Estados começaram a instalar o medo de forma profissional e ao domicílio.
São os medos infantis e os medos adultos. O medo do desemprego, das convulsões dos mercados, da doença, das epidemias virais, da violência, da taxas de juro, do terrorismo e, finalmente, o medo que guardamos em nossas casas. O medo de cada um, não formatado, não homologado. O medo de contrafação.
A instalação do medo é um processo e já o estamos a viver. Ele precisa da nossa adesão e “é uma categoria”. Para o nosso bem e pelo futuro dos que já não têm futuro. Afinal, fomos nós que pedimos tempos neomedievais. A bem da nação.
Existe na escrita de Rubem Fonseca um lado negro, uma crítica social que se torna intemporal. O Brasil de todos os tempos retratado num ritmo forte, em histórias de miséria humana que atravessam todas as classes sociais. Uma lista interminável de personagens sem que o leitor se perca. Vidas que se entrecruzam, como se o Brasil fosse um espaço exíguo, como aquelas celas da delegacia que Mattos insiste em ir esvaziando. Talvez o seu erro tenha sido o de julgar encontrar na lei os limites para uma sociedade em degradação.
«Um policial não pode gostar de poesia. Ele tem outros cadáveres com que se preocupar.»
Nos anos 60, Portugal vive a angústia de ver partir a sua juventude para a guerra. Fechado sobre si mesmo, é um país triste e retrógrado que contrasta com a explosão de vida na Europa.
Neste ambiente, Ana, com dezoito anos, não consegue realizar os seus sonhos. Contra a vontade dos pais que a empurravam para um futuro que não desejava, confiante no amor, parte para Londres. Na capital inglesa, planeia uma nova vida, independente e livre junto de quem mais ama, João Filipe, que fugira da Guerra Colonial. Mas estará Ana preparada para enfrentar tantas e tão intensas transformações?
Cristina Carvalho, escritora que a cada novo livro confirma uma originalidade admirável, surpreende com Ana de Londres, memória de uma juventude que escolheu a emancipação e ousou libertar-se das amarras de uma sociedade redutora. Uma obra intensa, ilustrada com a visão talentosa do pintor Manuel San-Payo e com um esclarecedor prefácio de Miguel Real, este livro apresenta não só um retrato impressionista de um tempo histórico que deixou profundas marcas individuais e colectivas na sociedade portuguesa, como constitui o retrato de uma geração que não teve medo de viver.
Nas livrarias a 5 de Setembro. Um livro das Edições Parsifal.
Trabalhar num call center é viver num mundo de pobreza, instabilidade, pressões e humilhações.
Para Nuno, o pior de tudo era ter de enganar os clientes. Trabalhou no enorme call center da Portugal Telecom em Coimbra, antes de vir para a Teleperformance, em Lisboa. Em Coimbra trabalhou no sector “outbound” (quando é o operador que faz a chamada, geralmente para vender) da MEO. “Tínhamos de dar a entender às pessoas que, se não comprassem o serviço MEO, ficariam sem televisão, o que era mentira”, recorda Nuno, ao PÚBLICO. Era o período em que foi introduzida a Televisão Digital Terrestre (TDT). Quem não tinha qualquer serviço por cabo, teria de instalar um descodificador para continuar a ter sinal de televisão. Não era necessário aderir ao MEO, mas os operadores só explicavam isto se o cliente o perguntasse explicitamente. As instruções que tinham eram claras quanto a isto.
Este filme acompanha o dia-a-dia do casal José Saramago e Pilar del Rio, mostrando-nos o processo criativo do livro a “A Viagem do Elefante”. Momentos do cotidiano, ponteados pelas reflexões de José Saramago, enquanto Pilar, como uma abelhinha, vai cuidando do dia-a-dia do casal, da agenda de Saramago e do próprio Saramago.
Existe uma forte união entre os dois, sem que um apague o outro. Disso mesmo nos dá conta o filme, mostrando Pilar nas suas próprias iniciativas, em diversas conferências e presenças na comunicação social.
Tenho, como se sabe, há muito uma visão crítica da comunicação social e da sua relação com o poder. Essa relação é bipolar: incorpora com facilidade a linguagem do poder e assume-se retoricamente como contrapoder. Nenhuma das duas atitudes é particularmente saudável para aquela que deve ser a sua função essencial, que, por bizarro que pareça, tem de ser lembrada: informar-nos. Não é educar-nos, nem industriar-nos, nem mobilizar-nos, nem recrutar-nos. É informar-nos e, se o fizer com eficácia, tudo o resto vem daí.
Cecilia Giménez, a octogenária que em Agosto de 2012 restaurou o quadro de Elías García Martínez, Ecce Homo, também conhecido como Cristo de Borja – que decora o Santuário da Misericórdia em Saragoça – tem agora, nessa mesma localidade, uma exposição de pintura aberta ao público.
O fatídico restauro, que destruiu por completo o quadro original, já atraiu 70 mil turistas e rendeu 50 mil euros em entradas. Esta atração cultural, baseada na redução ao absurdo e no gosto pelo muito mau, move milhares de pessoas.
Com tão pouco se contentam as pessoas. O puro lixo rivaliza com a melhor oferta cultural. Provavelmente teremos esta simpática anciã a representar Espanha na próxima bienal em Veneza.
Maquilhador profissional, o russo Vadim Andreev, realiza verdadeiras obras-primas nos rostos mais improváveis. Tudo sem truques ou retoques fotográficos em computador.
Vadim Andreev trabalha em televisão e publicidade. Veja aqui o seu portfólio.
“O meu amigo Urbano morreu, e eu de súbito fiquei desamparada, sem chão, o dia perdeu claridade.
Era muito nova quando nos conhecemos, e desde o primeiro momento, a sua generosidade, a sua solidariedade, fez toda a diferença.
Ontem, de um momento para o outro, senti-me absolutamente só, a pensar que lhe devia ter dito mais vezes, quanto o admirava, quanto ele fora importante para mim. Mas, também, agradecer-lhe o exemplo de hombridade, de honra e de coragem, que me deu sempre.
O Urbano foi o homem mais corajoso que conheci.
O Urbano era um homem da liberdade.
Obrigada querido Urbano por teres sido como foste.”
O elevador do Arco da Rua Augusta, em Lisboa, vai abrir ao público já no próximo dia 9 de Agosto. O “novo polo de atração turística muito importante” dá acesso a um “amplo terraço” e devolve à cidade “um miradouro extraordinário”. http://www.fb.me/LisboaLive.pt
Na Associação José Afonso, na Casa da Cultura de Setúbal, houve a “Alegria da Criação”. Uma iniciativa do José Teófilo Duarte em forma de dinamização cultural de um espaço, em jeito de uma instalação de pintura, uma palestra, um debate, um convívio… uma intervenção visual e o inesperado do “working in progress”. A verdadeira alegria da criação. Uma iniciativa que visa comemorar o 84º aniversário do nascimento de José Afonso.
Foi bom escutar o José Teófilo falar com paixão sobre José Afonso, de forma definitiva e sem apelo ao contraditório. Vamos ter a evolução deste trabalho e o Livro do Artista, com Luísa Tiago de Oliveira, Alice Brito e outros autores serão acrescentados ao rol. Até ao final do mês a edição estará concluída. Depois serão impressos 84 exemplares – referência aos 84 anos de José Afonso -, assinados por todos os autores, e colocados à vossa disposição por dez euros. A receita vai para a casa, ou seja, para a AJA.
Em breve, será criado um mural no Face para nos manter a par de tudo. E da próxima, traz outro amigo também.
ALEGIA DA CRIAÇÃO | Este trabalho é uma proposta para assinalar a data do nascimento de José Afonso. Será apresentado amanhã, dia 2, na sala da Associação José Afonso e no Café das Artes, na Casa da Cultura, em Setúbal. Trata-se de uma intervenção visual que tenho vindo a desenvolver nas últimas semanas. No início de setembro será apresentada uma publicação – livro de artista – que contará com a participação de vários convidados.
Alegria da criação é um tema de José Afonso, incluída no seu trabalho Galinhas do Mato, que foi o último disco que editou.
Da evolução deste projecto irei dando notícias nos próximos tempos.
Depois de 40 anos ao serviço da Marinha, o antigo submarino “Barracuda” vai entrar em missão civil a partir de 2013, constituindo um núcleo museológico aberto ao público, a instalar na zona ribeirinha do Farol de Cacilhas, em Almada.
O projecto conjunto da Marinha Portuguesa e da Câmara Municipal de Almada, com abertura ao público prevista para o início de 2013, foi firmado hoje em protocolo assinado em Lisboa entre o Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), Almirante Saldanha Lopes, e a presiden5te da autarquia, Maria Emília Neto de Sousa.
O “Barracuda”, que foi desactivado em 2009, vai ficar instalado em Cacilhas junto à Fragata D. Fernando II e Glória, constituindo um “pólo museológico” do Museu da Marinha que as duas partes acreditam “contribuirá para a dinamização histórica, cultural e turística desse importante património e, ao mesmo tempo, para a projecção de Cacilhas e Almada”.
Notícia do Público de 19 de Dezembro de 2011, por cá continuamos à espera que o projecto de concretize. O reportagem em vídeo é da RTP.
“Hoje foi um dia excepcionalmente positivo porque soube que estás morto”. (Gungunhana quando soube da morte de Mouzinho de Albuquerque).
Este é um livro sobre dois homens caídos em desgraça. Dois homens que sofreram uma derrota pela posse de uma mesma terra, embora um deles tenha saído vencedor sobre o outro.
A escrita da Ana Cristina Silva precisa dessa imensidão do olhar, dos grandes espaços e do desassombro de mentes poderosas. Nunca nos sentimos tão próximos de Mouzinho como de Gungunhana. Se do primeiro nos despedimos numa frase “Depois, como se arma fizesse parte do meu braço, entramos juntos na morte.” Do segundo, debruçamo-nos sobre o seu leito de morte e recebemos com reverencial silêncio o seu último suspiro, deixando espaço aos velhos de África para que comecem a “trocar por palavras a minha (sua) vida, contando longas histórias em redor das fogueiras.”
Neste livro, Gungunhana encontrou o seu lugar entre os grandes reis da nossa história.
De tempos a tempos, acontece sermos chamados a desempenhar esse papel de última fronteira entre a barbárie e a paz, entre a morte e a esperança. São ventos que sopram de uma europa empedernida, mergulhada nas trevas. Uma europa que se esquece do sentido de solidariedade e castiga.
Como se vivia em Lisboa por altura da Segunda Guerra Mundial, como foi receber essa vaga de refugiados (os que tiveram essa sorte) e como esses refugiados viram e retrataram a cidade que os acolhia.
O livro Lisboa, uma Cidade em Tempos de Guerra, da autoria de Margarida Magalhães Ramalho, serviu de ponto de partida para esta exposição que a autora organizou em conjunto com António Mega Ferreira.
Nesta exposição, patente no torreão poente da Praça do Comércio, recomendo vivamente que não percam a projeção de uma série de pequenos filmes; preparem-se para autênticas preciosidades.
Um mestre dos espaços, equilíbrio e cor, sem nunca suspender o movimento para perpetuar um instante. Um contar de histórias em camadas que se sobrepõem. Uma pintura para se ler.
Um espaço no roteiro cultural português a não perder.
Em 1211, D. Afonso II herda um reino devastado por uma grave crise interna, intensificada pela oposição à sua sucessão. Ao contrário dos seus antecessores, talvez pelos seus graves problemas de saúde, não se envolve diretamente em grandes campanhas militares nem mesmo na conquista de Alcácer do Sal, deixando para outros o domínio da guerra. El-rei escolhe outras alternativas para impor a sua autoridade, revelando-se um estadista fora do comum, com uma grande visão política e estratégica, tomando decisões fundamentais e inovadoras na boa governação e consolidação administrativa do reino.
A realização das primeiras Cortes em Portugal, no primeiro ano de reinado, marca de imediato o rumo da política nacional, promulgando várias medidas destinadas a garantir o direito de propriedade. A promoção das inquirições por todo o reino, a criação do notariado e a sistematização de registos de chancelaria são ações que fomentam a supremacia da justiça régia e a autonomia do poder do monarca.
The Norton´s Project com o seu single “Call me a liar” irá figurar na banda sonora de uma série de televisão que vai dar que falar.
A série vai-se chamar “Palavras para quê” e “Call me a liar” será a canção da personagem João Paulo Cabrita que será interpretada pelo actor Pedro Oliveira que é um dos protagonistas do Clip “Call me a liar”.
No vídeo, a entrevista conduzida por Germano Campos, na RDP Internacional, com os autores da nova série “Palavras para quê”.
No próximo dia 26 de julho, pelas 17 horas, serão apresentadas, no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, as obras História da Ciência na Universidade de Coimbra (1772-1933) e História da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil, editadas por Carlos Fiolhais, Carlota Simões e Décio Martins.
A apresentação estará a cargo de Fernando Seabra Santos.
“Tocar na vida através da escrita, sabendo que vou queimar-me. Como se chegasse perto do sol e desaparecesse, sugada por um poço de luz negra.”
O mais recente livro de Teolinda Gersão, Cadernos II – Águas Livres, esteve em debate nas conversas do Muito Cá de Casa. Um livro que toca a vida em momentos dispersos do nosso dia-a-dia, com os seus inevitáveis personagens do quotidiano. São histórias que nos dizem muito, que nos atiram para o papel de testemunhas
Um livro assim presta-se ao debate. Da assistência desprenderam-se as preocupações dos dias de hoje e o debate foi inevitável. São assim as conversas do Muito cá por casa.
A Teolinda Gersão foi grande como a sua escrita. São trinta anos de cadernos e advinha-se um Cadernos III. Quando nada é definitivo – até aquela professora primária que odiámos anos a fio e que somos, mais tarde, capazes de recordar com carinho – que sentido faz escrever uma biografia? Resta-nos sermos inquietos, para sempre.
O Muito cá de Casa é uma iniciativa da DDLX e da Câmara Municipal de Setúbal – Divisão de Cultura, e conta com a colaboração de PNet Literatura, livraria Culsete e BlogOperatório.
“São Cadernos espelhados uns nos outros, de algum modo autónomos, embora estejam interligados. Vêm de vários tempos, circunstâncias e lugares, podem encaixar-se como matrioscas ou fugir em todas as direções como fagulhas. Formarão, eventualmente, no fim, uma constelação? Não tenho nenhuma certeza.”
São registos de geometria variável, sem a rigidez cronológica das memórias ou a objectividade do “eu” biográfico. “A liberdade de uma escrita solta, ao sabor do acaso”.
Esta sexta, Teolinda Gersão apresenta o seu mais recente livro nas conversas Muito cá de casa, na Casa da Cultura de Setúbal. António Ganhão, do PNet Literatura, vai moderar.
O Muito cá de Casa é uma iniciativa da DDLX e da Câmara Municipal de Setúbal – Divisão de Cultura, e conta com a colaboração de PNet Literatura, livraria Culsete e BlogOperatório.
Este é o primeiro romance escrito em inglês por Vladimir Nabokov, também ele de origem russa. Provavelmente, tal como Sebastian Knight, lhe aconteceu ficar “escarlate quando, por algum defeito de elocução, um ouvinte mais obtuso não compreendia bem uma frase sua.”
Advinha-se um lado autobiográfico nesta obra. Nabokov não entrega o papel de narrador a Sebastian Knight, mas a uma terceira pessoa; não um completo estranho, mas um seu meio-irmão. Estabelecendo assim um triângulo de cumplicidades. Talvez Nabokov se tenha desdobrado nos dois personagens: Sebastian e o seu meio-irmão, o narrador do livro.
O Rui Zink e eu (Raquel Varela) fizemos os cálculos e achamos que o valor do PIB permite comer bifes todos os dias, mal-grado Isabel Jonet e Ulrich acharem que não aguentam ver a população a passar tão bem. Mas, como 8,5 milhões de portugueses ainda não foram a nenhuma manif, quisemos contribuir para os convencer, misturando 3 doses (des) equilibradas de verdade sobre as contas públicas, o absurdo da via para o empobrecimento e humor…porque na vida quem não ri das fraquezas vive claramente abaixo das suas possibilidades.
Vamos levar «Uma Modesta Proposta…», a qualquer canto de Portugal, dependendo claro do nosso tempo, do vinho que nos oferecerem ao jantar e da paciência dos portugueses – dizem as boas notícias que assim que os portugueses resolverem imitar os turcos ou os brasileiros, esta stand-up perde toda a oportunidade, facto que o Rui e eu não deixaremos de celebrar!
Raquel Varela, Historiadora, Investigadora do IHC (FCSH-UNL)
Rui Zink, Escritor, Professor FCSH-UNL
Design: Pedro Páscoa, Foto: Naoki Tomasini
Está um rapaz a arder
em cima de um muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém lhe apagou esse lume.
(Archote Glaciar, EP 1998)
Ontem, na Casa de Cultura de Setúbal, as conversas muito cá de casa, receberam Eduardo Pitta e o seu livro mais recente Um Rapaz a Arder. O ator José Nobre interpretou poemas do autor com tal força que se convenceu, a dada altura, ter repetido dois versos. Atentos, a sala e o autor, tranquilizaram-no. Não, estava perfeito.
Eduardo Pitta falou-nos de Moçambique e das razões da sua saída, do seu livro, da sua poesia, dos escritores que foi conhecendo, de alguns livros que vieram a propósito, do Meio, do nosso retrocesso social. Sempre com uma impecável elegância, sem saudosismos serôdios e com um saudável sentido de humor. Não se furtou às questões identitárias que abordou com a naturalidade de quem fala de si e das memórias de um percurso de vida.
Da audiência vieram perguntas, que o Cidade Proibida se encontra esgotado – o único romance do autor, escrito numa linguagem desabrida e crua. Fátima Medeiros da livraria Culsete quis saber da escrita do “eu” e das suas concessões à ficção. Abordou ainda a clareza da obra ensaísta do autor.
Não houve fogo, mas ninguém apagou este rapaz a arder.
O Muito cá de Casa é uma iniciativa da DDLX e da Câmara Municipal de Setúbal – Divisão de Cultura, e conta com a colaboração de PNet Literatura, livraria Culsete e BlogOperatório.
Este livro fala-nos da dor da perda. Da dor para a qual não existe um suplente no banco, pronto a entrar para repor o equilíbrio. Este livro não é sobre futebol.
Com um impecável sentido de humor e não menos brilhante sentido de observação, Rui Zink mostra-nos como os portugueses discorrem dobre os fatos fundamentais da sua vida com o recurso a frases feitas. Como se estas frases fossem um arremedo para a nossa falta de cultura. Uma incultura que nos impede de refletir ou de nos expressarmos pelas nossas próprias palavras.
O autor confidencia-nos ser uma pessoa dividida entre a pulsão artística e a intervenção cívica. Este livro é uma proposta assertiva que se mantém pertinente treze anos após a primeira edição.
Dia 4 de Julho pelas 18:30, na LIVRARIA CENTÉSIMA PÁGINA em BRAGA, a escritora Cristina Carvalho vai animar uma sessão com os seus dois livros mais recentes, “Rómulo de Carvalho/António Gedeão – Biografia” publicado por Editorial Estampa em Outubro de 2012 e “MARGINAL” publicado por Planeta Manuscrito em Março 2013.
Apareçam, o espaço é fantástico e o debate será animado.
Existem homens que são maiores do que o seu tempo e por isso lhes foi reservado a eternidade. Permanecem, lá onde os podemos rever: na sua obra, na sua integridade e no seu exemplo de vida. “…não existe a ausência nem a distância. Nem saudade. Existe vida.” Estão vivos na nossa memória e na forma como entendemos o mundo, a história, a ciência e a arte. Na humanidade acontecem homens assim, mas são raros.
Esta não é uma biografia escrita de uma forma convencional, um conjunto de eventos enumerados por ordem cronológica ou alinhados pela sua relevância. Um objecto de estudo. Esta é uma biografia escrita por quem arrisca, quem arrisca tudo e muito, sem perder a noção do lado simples da vida: “Eu percebo-o. Não porque tenha o mesmo pensamento, mas porque o percebo. Apenas.”
Não existem obras definitivas. Esta biografía escrita por Cristina Carvalho, como é característico da autora, vai para além do cânon imposto a este género literário. Funde, numa dimensão única, a ficção com a memória, o sonho com a vida e celebra a profunda admiração e o amor por esse homem ímpar que também aconteceu ser seu pai.
“Um rapaz a arder” de Eduardo Pitta, vai ser o tema das conversas Muito Cá de Casa a decorrerem esta sexta, dia 28, pelas 22:00 na Casa da Cultura de Setúbal.
Eduardo Pitta, poeta, romancista, crítico literário e ensaísta vai apresentar o seu último livro. As memórias de um percurso de vida de 1975 a 2001 que acompanham os principais eventos do nosso tempo, balizados entre a independência de Moçambique e o 11 de Setembro de 2001. Tudo sem saudosismo e com a elegância de um relato depurado, o essencial de um olhar estranho ao Meio.
O ator José Nobre participa com a leitura de excertos de “Um rapaz a arder” e de alguns poemas do autor. António Ganhão, do site PNet Literatura, colocará algumas perguntas e tentará moderar a conversa entre os presentes.
O Muito cá de Casa é uma iniciativa da DDLX e da Câmara Municipal de Setúbal – Divisão de Cultura, e conta com a colaboração de PNet Literatura, livraria Culsete e BlogOperatório.
É um romance sobre a dor maior que é a perda de um filho e a acção que isso exerce nos que ficam. Um livro sobre pessoas e o grau de humanidade que nelas habita. Ou não.
Rui Zink e António Jorge Gonçalves, o autor do romance e o autor das ilustrações de O SUPLENTE, falam do trabalho conjunto e do que há de novo nesta edição que saltou agora para o terreno de jogo. Falarão de muitas coisas MENOS de futebol. O SUPLENTE não é sobre futebol. É outra coisa, que não esbanja meios e devia provocar manifestações. É escrita a sério. À Rui Zink.
Na abertura da Semana da Música do El Corte Inglés, Os Norton’s Project brindaram-nos com a maturidade musical dos seus temas. A actuação percorreu os principais temas da banda, tendo o saxofone, na ausência da guitarra eléctrica, chamado a si o papel de segunda voz.
Canções com letras escritas em inglês que nos falam da vida, sem nunca esquecer o seu lado romântico. Aqui o atalho para um excerto do vídeo da actuação da banda no ECI, a balada My Kind of Woman.
O diretor artístico da Casa da Criatividade de São João da Madeira, Fernando Pinho, está preparado para mostrar que a cultura é sustentável através de um modelo de gestão em que partilhará lucros e assumirá prejuízos.
Para trás deixou uma vida de programador cultural em Londres, onde estudou no Guildhall School of Music and Drama e onde colabora com a Royal Opera House, o Royal Albert Hall e o London Transport Museum.
A câmara de São João da Madeira estipulou um teto para o valor a suportar em caso de prejuízo. Este gestor/programador cultural tem parte do seu salário indexado aos lucros da Casa da Criatividade.
Para se inovar é preciso ousar e para se ousar é preciso cultura.
NO ATELIÊ DO ARTISTA | António Jorge Gonçalves vai ter os seus desenhos expostos – Bem dita crise -, na Casa da Cultura, até à próxima quinta-feira. Sexta-feira abre nova exposição. Ricardo Crista mostra pinturas recentes. Assunto sério. Voltaremos a falar de Ricardo e do seu trabalho. Mas ficam para já avisados: estas pinturas são para ser vistas.
O Muito cá de casa, do José Teófilo Duarte, recebeu o Pedro Almeida Vieira, para a apresentação do seu livro Crime e Castigo, o povo não é sereno, seguido de um debate sobre a pena de morte.
O moderador António Ganhão (colaborador literário do PNet Literatura), realçou a importância do romance histórico num país cuja história (sobretudo durante o Estado Novo) foi responsável por gerar toda uma série de mitos. O romance histórico ao contextualizar os factos na sua época e, dentro de uma lógica temporal, não os submetendo à moral dos dias de hoje, transforma-se num grande desfazedor de mitos.
A jurista e escritora Alice Brito falou-nos da violência do estado que deve ser sempre balizada, sendo a Constituição o mais forte instrumento da limitação desse poder. Falou-nos de justiça e de como a pena de morte, sendo irreversível, não é solução para o combate ao crime.
Pedro Almeida Vieira deixou-nos a sua reflexão sobre a maldade humana e como, cedendo nós a um Estado que nos garante mais segurança à custa dos nossos direitos, estamos a caminhar para um retrocesso civilizacional.
Foi uma sessão participada não tendo havido lugar a castigos finais. Para os que faltaram, o maior castigo foi mesmo o de terem perdido o debate.
Setúbal, 31 de Maio de 2013
Na foto, da esquerda para a direita, Pedro Almeida Vieira, António Ganhão e Alice Brito.
A Dobra do Crioulinho é o novo título de Luís Carmelo. A obra trata da vida numa pacata vila do interior de Portugal que é perturbada por vários acontecimentos que desembocam no regresso do Crioulinho. O lançamento tem data marcada para dia 31, sexta-feira, pelas 19h na Praça Verde da Feira do Livro de Lisboa. A edição é da Quidnovi.
Revolução Paraíso é o primeiro livro de Paulo M. Morais. Um relato bem documentado dos dias que se seguiram à Revolução do 25 de Abril. Estamos perante um fresco desse período num olhar feito a partir dos jornais, a começar pela Revista de Portugal que pretende ser a voz do povo e dos seus afetos, recusando-se ser o eco das politiquices que invadem o resto da imprensa. Dar voz ao povo era a sua missão; mas, pelo caminho, deixa cair a questão colonial por imposição do seu proprietário.
O clima revolucionário lança a agitação no seio do jornal. No seu pequeno corpo técnico e redatorial instala-se a mudança imposta pelos ventos da revolução. Um operário, Adão, operador da grande máquina de linótipo, transforma-se no mais inesperado de todos os personagens.
A história de Portugal, na versão do Estado Novo, estava reduzida a uma versão muito simplificada, ao nível da ladainha popular, apropriada à sua divulgação por um povo analfabeto.
Dos reis, já muito se sabia se conhecêssemos os seus cognomes: D. Afonso Henriques, o conquistador; D. Dinis, o lavrador; D. João II, o príncipe perfeito.
Uma história de fácil apreensão e que contribuía de forma eficaz para a construção da identidade do homem novo português.
Salazar, em entrevista a António Ferro, defende como prioridade sobre o ensinar toda a gente a ler, a formação das elites que enquadradas pelas massas atacariam os verdadeiros problemas do país.
Para o povo, o ensino da história numa versão infantilizada era mais do que suficiente. As elites formavam-se nas universidades, aí se cuidaria da nossa história.
Hoje, no Âmbito Cultural do El Corte Inglés foi dia de Crime e Castigo. O último livro de Pedro Almeida Vieira foi apresentado por Francisco Teixeira da Mota.
O jurista alertou-nos para o facto de no século XVIII, no Ancien Régime, não existir na justiça uma ideia de socialização, de ação preventiva ou punição proporcional ao crime praticado.
O castigo refletia o estatuto de quem era atingido, sendo assumido como uma celebração do poder instituído, arbitrário, com confissões arrancadas à base da tortura e sendo aplicado de forma quase ritual. A ideia da reparação do mal causado ou da reintegração do condenado eram inexistentes à época.
Pedro Almeida Vieira reconheceu que o seu livro aborda a maldade humana e de como, pontualmente, podemos incorrer em retrocessos civilizacionais. Apesar da brutalidade de alguns castigos, o autor confessa o imenso prazer que lhe deu escrever este livro. Um livro sobre crimes e castigos num país onde o povo não é tão sereno como parece.
Um convite para uma exposição sobre a Cidade de Lisboa, abre o caminho para um diálogo interior, pretexto para o personagem se revelar através das suas memórias que se fundem com a história dos locais dessa vivência. Lisboa, cidade criada por Ulisses, oferece essa dimensão onírica e intemporal.
Podia ser outra cidade qualquer, mas só esta foi criada por Ulisses.