FILOSOFIA POLÍTICA | CORTINAS DE FUMO por Tomás Vasques, em 21.01.13

A semana passada foi marcada pela encenação do “debate” sobre a “refundação” do Estado proposta por Vítor Gaspar e Passos Coelho, tendo como pano de fundo um duvidoso “relatório” do governo, assinado por “técnicos” do FMI. Começou com uma conferência, encomendada e montada pelo primeiro-ministro, no Palácio Foz, e acabou no “debate quinzenal”, na sexta-feira, na Assembleia da República. Em ambos os casos, apenas a registar a irrelevância do que foi dito e a frouxidão política dos intervenientes, à medida dos interesses e objectivos do governo. Estamos à beira de um terramoto na vida da maioria dos portugueses, a juntar às suas difíceis condições de sobrevivência, e tudo parece estranhamente calmo, uma espécie de bonança que antecede as grandes tempestades.

Casimiro de Brito, “A Boca na Fonte”, editora Lua de Marfim, Lisboa, 2012 by Maria João Cantinho

Casimiro de Brito

Casimiro de Brito

O mundo não posso mudar –
Deixa-me sacudir a areia
Das tuas sandálias

Casimiro de Brito, “Através do Ar”, ed. Schichigatsudo, 23, Tóquio, 2008, p. 28.

Muito jovem, Casimiro de Brito parte para Londres, onde acabou por viver até 1968. Tendo ficado alojado no apartamento de um professor de estudos orientais, tomou contacto com a poesia japonesa pela primeira vez. E essa presença iria marcar, em definitivo, a sua própria poética. A extrema condensação do haiku e o choque que esta poética teve sobre si marcar-lhe-iam decisivamente o rumo poético. Numa entrevista que Casimiro deu a Andreia Brito, em 2005, “O essencial ainda está por vir”, explica assim o poeta à entrevistadora:
Conheci uma poética que hoje considero ser a mais bela de todos os tempos (comparável só às nossas cantigas de amigo); entrei num campo de trabalho como eu gosto, a longo prazo, para sempre; entrei na vida (física, mental, sensível) de um ser celestial, a minha amiga japonesa, enfim, coisas bonitas que mudaram o meu caminho. Nunca mais deixei de respirar essa poesia e, sobretudo, nunca mais deixei de pensar (e de fazer) que é preciso conhecer mais do que a nossa tradição poética.

Essa presença da poesia japonesa e das suas musas poéticas prolongou-se no tempo (e ainda continua viva pelos contactos de Casimiro de Brito com a poesia japonesa) e lembro duas obras fundamentais: “À Sombra de Bashô: Renga com Matsuo Bashô” (2001) e o livro “Através do Ar”, escrito em colaboração com Ban’ya Natsuishi, composto de haikai que são traduzidos, simultaneamente em inglês, francês e português.
O haiku, que no plural se designa por haikai (um termo que significa “versos de diversão”), constitui a forma lírica japonesa por excelência. Tradicionalmente o haiku consta de dezassete sílabas, divididas em 3 versos, seguindo o esquema 5/7/5, para descrever qualquer cena natural ou objecto, concentrando um sentimento, uma ideia ou um aforismo, tal como nos ensina Martin Gray, in “Haiku”, na página 132 da sua obra. Ainda de acordo com o tema dominante, multiplica-se em quatro subgéneros: wabi (frugalidade), sabi (isolamento), aware (impertinência) e yugen (mistério) . Continua, ainda, Jorge Sousa Braga, na mesma página, a explicar-nos a estrutura do haiku, dizendo que “do ponto de vista puramente retórico, o haiku divide-se em duas partes, separadas por uma palavra-chave: Kireji.” A primeira parte, segundo o autor, “dá a condição geral e a ubiquação temporal ou espacial do poema (o outono ou a primavera, uma árvore ou uma rocha…); a outra, explosiva, deve conter um elemento activo. Uma é descritiva e quase enunciativa; a outra, inesperada. A percepção poética surge da colisão entre ambas.”
A estética do haiku tem, ainda, vários pontos de afinidade com o aforismo, pela mesma retórica, pelo mesmo sentido de economia e de rigor poético, daí que ela tenha entrado na literatura ocidental pela estética do fragmento, tão cara aos poetas alemães românticos, tendo como cultor máximo do género o poeta Novalis. E o poeta Casimiro de Brito foi, também, ao longo da sua obra, um exemplo maior da escrita aforística. Cito aqui, a título de exemplo, “A Arte da Respiração”, editado pela D. Quixote (1988), “Da Frágil Sabedoria”, das edições Quasi (2001), “Fragmentos de Babel” (2007) e “Arte de Bem Morrer”, pela Roma Editora (2007). A peculiaridade e o próprio sentido desta estética do fragmento nasce do próprio instante e da concentração temporal nele existente, do Aqui e do Agora que se abrem na sua leitura. Isto é, o poema conquista a sua plenitude à luz da organicidade e da estruturação que dele irradia, da sua própria concentração temporal e espacial. Por isso e, como me disse um dia o poeta, cada poema deve ser lido ao centro, para que, da concentração do olhar, surja também a contemplação da origem e do fim do poema, da palavra e da coisa. Cada aforismo, cada haiku, cito Casimiro de Brito, é “simultaneamente um ovo e uma pedra”. Na entrevista que deu a Andreia de Brito, Casimiro diz, sobre o haiku:
(…)Tem a forma de um ovo, de onde pode nascer um pássaro. É um texto mínimo que, começando por surpreender, vai transformar-se em coisa do outro, do leitor, uma vez que a sua estrutura enigmática se presta à interpretação. Deve ser perfeito como um ovo ou uma pedra: não há nele uma sílaba a mais, mas tudo o que lá está é muito mais. A única comparação possível é com a forma mais bela de poema que existiu: o haiku.

Esta compreensão do haiku só pode nascer da articulação do tempo a-histórico com aquele tempo em que vivemos, o tempo quotidiano, onde a outra dimensão temporal se revela e manifesta, em cada uma das partes, reclamando uma pertença antiga. Relembro aqui a bela definição de Edmond de Jabès:
C’est pourquoi j’ai rêvé d’une oeuvre qui n’entrerait dans aucune catégorie, qui n’appartiendrait à aucun genre, mais qui les contiendrait tous; une oeuvre que l’on aurait du mal à définir, mais qui se définirait précisément par cette absence de définition (…) un livre enfin qui ne se livrerait que par fragments dont chacun serait le commencement d’un livre.

A estética do haiku ou do fragmento recusa a ideia de um acabamento ou de uma definição da obra e esta vai-se fazendo à medida que se escreve cada poema, definindo-se precisamente pela ausência da sua definição, avançando contra as evidências e o fechamento imposto pelo formal, recusando o acabamento e a imperfeição, colhendo, em cada verso a imperfeição e o segredo, o inesperado. E, como Casimiro de Brito gosta de nos recordar, “o poeta é aquele que trabalha com o segredo”, habitando o umbral do querer dizer das línguas e do mundo, numa luta perdida contra o emudecimento da matéria.
Esta tensão interna, este “segredo” da matéria e do mundo e que constitui a sua opacidade é o que confere à poesia de Casimiro de Brito esta poderosa imagética, evidente, desde logo, no título “A Boca na Fonte”, que nos remete para essa busca do primordial, do acto de beber directamente da fonte, aqui dupla, pois é no sentido da natureza e simultaneamente da linguagem.
Uma poética que se faz irmã da terra e da água, da escuta e da visão directa. Cito dois haikai, para dar ideia desta proximidade: por exemplo, o número 43, na página 16: “Silêncio. Ouçam/a vida – água correndo/cada vez mais triste” ou o 48, da página 17: “Diante do mar/o meu coração derrama-se/e vai com as ondas.” Cosmos, palavra, coração são rostos de uma mesma realidade, metamorfose incandescente que se fixa no haiku, em que o poema se coagula na forma de imagem, breve e luminosa. Se os elementos e a força da terra e da natureza perpassam a sua poética, sob as mais variadas formas, desde a ínfima gota de chuva ou grão de areia até ao enigmático silêncio das constelações, também o onírico deflagra, a todo o instante, para nos recordar a brevidade da vida e do instante: “Viagem nocturna –/ regresso à origem do sonho/donde nunca saí.”
Morte e vida, sonho, natureza e linguagem são os diversos rostos que constituem a poesia de Casimiro, sempre. Seja na sua forma lírica ou de fragmento, em particular. Desses nomes essenciais dá conta a sua linguagem poética, revelando uma profunda sabedoria que se entrelaça com a simplicidade e o rigor da sua poética. Se, por um lado, Casimiro é dos mais inspirados poetas portugueses e disso nos dá conta a sua “paleta lírica”, por outro, é senhor de uma contenção e de um rigor irrepreensíveis, que nunca o deixam resvalar para o sentimentalismo. Esse é um segredo que poucos detêm na sua poesia, feita de demora e de paciência, o tempo em que o poeta sonha o mundo e o transforma em linguagem e em luz.
Cito um haiku deslumbrante e que resume esse rumo poético: o haiku 6 da página 8: “Na prosa do dia/a rosa alumia. Que prosa/se tudo é rosa?”. É por esta razão que o poeta René Char dizia que a poesia era superior à filosofia e a qualquer metafísica. Na poesia de Casimiro, a filosofia e a sagesse lavram esse sulco, em que a poesia deita a sua semente, onde a concentração da imagem atinge o seu esplendor e um ponto de intensidade raros. Como raros o foram os poetas-pensadores da Antiguidade Grega, guiados pelo rigor e pela claridade enigmática do pensamento. É desta sabedoria e desta humildade que se constrói o poema, desta pobreza essencial da finitude humana, esse magma secreto e indizível do poema, que recusa a beleza e a perfeição. Por isso, diz Casimiro, no haiku 12: “Homem caminhando./Árvore nómada em busca/da mãe obscura.”

Mãe obscura da vida ou da linguagem? Essa é a questão que coloco ao poeta.

Maria João Cantinho

http://pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=5432 … (FONTE)

Fundação José Saramago | Comunicado de imprensa

amigos

A Fundação José Saramago criou um Grupo de Amigos através do qual quem estiver interessado pode oferecer donativos para a instituição. O valor das contribuições determina as diferentes contrapartidas de que os Amigos poderão usufruir.

Quem quiser contribuir pode fazê-lo através de transferência bancária, para a conta cujos dados estão explicitados no nosso site da Internet.

Os benefícios previstos começam pela simples menção do nome do doador na lista de Amigos (de cinco a dez euros), entradas gratuitas na Fundação (a partir dos 10 euros), descontos de 20 por cento na livraria/loja (a partir dos 20 euros), oferta do livro A Estátua e a Pedra. O autor explica-se, a publicar pela Fundação nos próximos meses (a partir dos 50 euros). Quem contribuir com 500 euros ou mais será considerado parceiro da Fundação e mencionado como tal em todos os nossos materiais.

A Fundação José Saramago tem como fontes de financiamento os direitos de autor da obra do escritor e as receitas de entrada e da livraria/loja da Casa dos Bicos, e não recebe qualquer financiamento público.

As contribuições dão direito, em Portugal, a benefícios fiscais.

Mais informações em:

http://www.josesaramago.org/373151.html 

Novo romance de Federico Moccia – Amor 14

image012O novo romance de Federico Moccia – Amor 14 – é uma viagem fantásticas através dos sentimentos. Carolina tem quase 14 anos. Está a viver um momento cheio de magia, que partilha com as amigas: os sonhos; os primeiros beijos roubados; as músicas que falam da sua experiência; as festas; a escola, os exames e os colegas; a sua querida avó, que a entende como ninguém; e o seu irmão, tão excecional, que leva o coração de Carolina a sonhar. E o amor? Como será o verdadeiro amor? Serão os olhos de Maximiliano, que encontrou por acaso? Quem sabe…

O livro foi adaptado ao cinema em 2009.

«Moccia possui uma técnica narrativa impecável. Além disso, consegue fotografar de uma maneira nítida a sociedade atual.» Secolo d’Italia.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ddTlUybIRRM

BIBLIOHISTÓRIA – BASE DE DADOS LITERÁRIA | Pedro Almeida Vieira

patrocinio2biblioHistória constitui uma base de dados, iniciada em meados de 2010 pelo escritor Pedro Almeida Vieira, que integra  obras de literatura do género histórico – ou com incursões históricas – publicadas por escritores portugueses desde o século XIX até à actualidade. Foi na pesquisa de informação que foi (re)descoberta a obra do primeiro escritor do romance moderno português, Guilherme Centazzi, que publicou «O Estudante de Coimbra», em 1840 e 1841, entretanto reeditada no ano passado pela Planeta (ver vídeo).

Actualmente, a biblioHistória tem já inventariados 645 autores (incluindo pseudónimos) e 1.770 títulos, entre romances, novelas, contos e narrativas ficcionadas. Estão também incluídas 59 obras de autores anónimos, grande parte das quais em periódicos. No entanto, ainda se continua a realizar pesquisas para a inclusão de mais obras e obtenção de mais informação.

Esta base de dados teve o apoio da Porto Editora até 2012, da ordem dos 600 euros por ano, mas por razões desconhecidas este grupo editorial decidiu suspender esta colaboração, pelo que o projecto se encontra sem sustentabilidade financeira e ameaça encerrar.

Antes da decisão unilateral da Porto Editora, a biblioHistória tinha previsto, e concretizará se houver apoios, um upgrade que permitirá tornar ainda mais interactiva a base de dados (como pesquisa temática e por palavras-chave), completar a inserção de mais informação e incluir outros dados, nomeadamente recensões, artigos académicos e ligações a edições digitalizadas actualmente existentes.

Caso o apoio agora pedido atinja ou ultrapasse o montante mínimo, o promotor compromete-se a elaborar um relatório detalhado das despesas e informar dos avanços da base de dados com regularidade, bem como passar a disponibilizar uma newsletter sobre as novidades literárias do género histórico em Portugal.

Sobre Pedro Almeida Vieira

Escritor e jornalista, Pedro Almeida Vieira licenciou-se em Engenharia Biofísica na Universidade de Évora em 1993. Dois anos mais tarde tornar-se-ia jornalista, colaborando nos jornais «Expresso» e «Diário de Notícias», bem como nas revistas «Forum Ambiente» e «Grande Reportagem». Em 2003 foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Ambiente «Fernando Pereira», pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, pela sua contribuição, como jornalista, para as causas ambientais.

Em 2003 publicou um ensaio ambiental intitulado «O Estrago da Nação», repetindo esta temática em 2006, com a publicação do livro «Portugal: O Vermelho e o Negro», sobre os incêndios florestais.

A sua estreia literária na ficção surgiu com o romance «Nove Mil Passos» (2004), sobre a construção do Aqueduto das Águas Livres, seguindo-se «O Profeta do Castigo Divino» (2005) – que aborda a vida do jesuíta Gabriel Malagrida e a ascensão política do Marquês de Pombal, com enfoque no período anterior ao terramoto de Lisboa de 1755 -, «A Mão Esquerda de Deus» (2009, finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa) – que constitui uma reconstrução da heterodoxa vida de Alonso Perez de Saavedra, o suposto falso núncio que criou a Inquisição lusitana, durante o reinado de D. João III de Portugal -, e «Corja Maldita» (2010), um romance que, subvertendo o género histórico, incide sobre o processo de extinção da Companhia de Jesus na segunda metade do século XVIII.

Em 2011 publicou o primeiro volume de narrativas históricas «Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes», sobre procesos judiciais em Portugal entre os séculos XVI e XIX, bem como um ensaio sobre resíduos sólidos urbanos intitulado «Resíduos: Uma Oportunidade». Em 2012 preparou a edição, com fixação de texto e notas, do romance «O Estudante de Coimbra», de Guilherme Centazzi, considerada a primeira obra de ficção moderna portuguesa.

http://ppl.com.pt/pt/prj/bibliohistoria

FILOSOFIA POLÍTICA | A dívida! A eficiência! Os cortes! O desastre! | Carlos Matos Gomes in “Facebook”

A dívida! A eficiência! Os cortes! O desastre! A notícia do reescalonamento da dívida e o relatório encomendado ao FMI estão ligados pelo mesmo pensamento da moda: o extremismo mercantil – o endeusamento dos mercados – com o messianismo evangélico dos que agem segundo a crença de que um Deus nos deu a posse do mundo e dos seus bens até à eternidade. Esta mistura foi a mesma que levou os povos da Ilha da Páscoa a derrubarem até à última palmeira para construirem e transportarem a ultima grande estátua dos seus Deuses. Fazendo estátuas maiores dos deuses a quem pediam boas colheitas à medida que iam esgotando as árvores e com elas a possibilidade de regeneração da natureza. A questão das dívidas dos estados devida à competição pelos bens disponíveis (caso das dividas soberanas) e da necessidade da “eficiência” a palavra mágica do relatório dito do FMI que apontam para uma mais acelerada e frenética utilização de recursos são o sintoma da esquizofrenia em que caimos. Alguém chamou a este estado “o rodopio do suicida “. A ideia do crescimento eterno e da eficiencia (fazer mais, mais depressa, com menos gente e pagando o menos possível) a todo o custo vai levar-nos à destruição. Na verdade vivemos sempre a crédito e talvez seja mais sensato falar em desenvolvimento do que em crescimento.

Páscoa

Percentagem de crianças que já leu um ebook duplicou nos últimos 2 anos [EUA]

Este é um dos dados mais relevantes do relatório Kids & Family Reading Report, que a norte-americana Scholastic realiza de dois em dois anos e que estuda os hábitos de leitura de crianças e jovens (6-17 anos) e respetivos pais.De acordo com estudo divulgado ontem, 46% das crianças norte-americanas já leu um ebook (em 2010 eram apenas 25%)  e 72% dos pais têm interesse em que o seu filho leia ebooks.

O dispositivo mais usado na leitura de ebooks por crianças foi o iPad (há dois anos o computador portátil era o dispositivo mais usado).

Entre as crianças que já leram um ebook, uma em cada cinco afirma que agora lê mais (tendência mais acentuada entre os rapazes). Cerca de metade das crianças e jovens entre os 6 e os 17 anos afirma que leria mais se tivesse mais acesso a ebooks. Apenas 47% dos rapazes e 56% das raparigas consideram a leitura recreativa importante)

FONTE: http://lerebooks.wordpress.com/2013/01/15/percentagem-de-criancas-que-ja-leu-um-ebook-duplicou-nos-ultimos-2-anos-eua/

As Mulheres do Fonte Nova

“Ia agora à missa, ao domingo. Não que tivesse um chamamento místico. Nada de apelos eucarísticos. Percebia que a ida à igreja, missa do meio-dia em São Julião, era fundamental para se mostrar em novos espaços, entre outra gente, e bem vestida, com a melhor roupa que ia arranjando, lá estava ela, sozinha e arrebicada, a picar o ponto da subida social.

Na rua começou-se logo a murmurar a conversão. Porque não vai ela à missa da Anunciada, perguntavam retoricamente, grande cabra, o marido é que tinha razão quando a zurzia.”

As Mulheres do Fonte Nova, Alice Brito

Neste livro existe um personagem que é da dimensão de uma cidade, sendo ele próprio essa cidade. Uma cidade montada na garupa da miséria, alcoviteira e má mãe. Não se lhe conhece a culpa, está só contaminada de gente. A mão segura da PIDE sabe dos que não são da situação, já lhes sentiu a pele. Espanta-se de gente esta cidade.

Poesia by Joana Emídio Marques

De repente tudo era feito de silêncio.
A fome, as multidões, os acidentes, as chegadas e as partidas.
Quantas ausências há numa multidão?
Quantas mortes no bulicio das tardes idênticas?
Quanto silêncio há naquilo que é feito de Nós?
No acontecer ignorado das coisas ínfimas.
Soltou-se um fio de cabelo, levantei e desci os olhos em frente de tudo o que Não
O teu rosto é belo e eu digo:não sei a palavra.
Em ti a seda é a sabedoria dos bichos acuados.
A carne viva não contém um único sobressalto.
E sim. Eu grito. Eu grito para que nada se mova fora do meu existir.
Eu grito para interromper esse silêncio letal dos instantes que parecem Nós.
Para não adormecer no labirinto milenar que se levanta como um Começo.
De repente tudo era interior Nosso.
A casa, o corpo, as palavras que os vêem antes dos olhos e lhes roubarem o mistério e a graça.
Antes ( ou depois?) o ruído.
Frases acumuladas. Metal entrechocando. Motores, travagens.
Quantas multidões há numa ausência?
Quantas tardes idênticas no bulicio das mortes?
Quanto de Nós há naquilo que é feito de silêncio?
Nas coisas infimas de acontecer ignorado?
Há fios de cabelo por todo o lado,
cheiro a herança e cigarros.
E paredes que o comem lentamente.
Abro a janela como se houvesse passagem
Levanto e baixo os olhos ao compasso do que atravesso
Não danço, não grito.
Movo-me junto à quietude de uma memória sem Nós
e esforço-me para pensar um primeiro pensamento
que a empurre para longe.

Mercedes Pessoa de Moraes | Designer

Mercedes Pessoa de Moraes was born in Oporto,Portugal, in 1982. In 2003, completes the Bachelor of Fine Arts, Painting variant in ESAD, School of Arts and Design in Caldas da Rainha. At the professional level, she worked 3 years as a Graphic Designer in Parfois, a fashion accessories brand, designing some of their campaigns, flyers, posters,newsletters.Another highlight is the collaboration with publishers in making book pagination and creating some of their illustrations. Currently she lives in Barcelona and studies at IDEP,Escuela Superior Universitaria de imagen y diseño.

FONTE:  http://mercedesmoraes.blogspot.com.es

mercedes moraes

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PRIMEIRO A TUA MÃO SOBRE O MEU SEIO | ROSA LOBATO FARIA

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.

ROSA LOBATO FARIA

seio

Diana Damrau | Diva Divina

Damrau bounds from one phenomenal success to the next, appearing on the world’s leading stages.

Yet in spite of her busy private and professional life, the soprano agreed to let filmmaker Beatrix Conrad accompany her over the course of nine months. We are there, at performances and rehearsals in Geneva, New York, Paris and Munich, at recitals and the recording studio. The film portrays a high-intensity, jet-set life tempered by the harmony of a rewarding family life with her husband, her parents and, at the end of the film, with her newborn baby!

http://www.medici.tv/#!/diana-damrau-diva-divina

FILOSOFIA POLÍTICA | Soares e os cobardes by Daniel Oliveira in “Arrastão”

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Nunca votei em Mário Soares. Muitas vezes discordei dele, outras concordei. Muitas vezes o considerei um adversário, outras um aliado. Muitas vezes me surpreendeu positivamente, outras desiludiu-me. Sei dos ódios e das paixões que provoca. O que apenas quer dizer que não se limitou a passar pela vida e fez diferença. Para o mal e para o bem. Discordando e concordando com ele, respeito a sua história e a sua coragem.

Mário Soares foi hospitalizado. Esperemos, espero pelo menos eu, que não seja nada de grave.

Ao ler os comentários que pululam na Net perante à notícia da sua hospitalização tentei não me chocar em demasia. A Net não se limita a revelar o melhor e o pior da condição humana. A revelar coisas que nos parecem ser impensáveis. Ela amplifica, pela possibilidade do anonimato da opinião, os mais abjectos dos sentimentos. Na realidade, como sempre soubemos – dos bufos aos linchadores -, o anonimato sempre permitiu que os constrangimentos sociais e morais desaparecessem e a escória humana se exibisse sem pudor.

Um dos comentários mais habituais foi a crítica ao facto de Mário Soares ter sido hospitalizado no Hospital da Luz. Um hospital privado. Seria, escreveram vários, sinal de incoerência. Mas nem todos os que escreveram eram anónimos.José Manuel Fernandes, antigo diretor do “Público”, escreveu no seu twitter: “O dr. Mário Soares não deveria ter ido para um hospital do SNS para dar o exemplo? É só para saber, nada mais.”

Não vou aqui elaborar sobre o direito de qualquer cidadão se bater pelos serviços públicos e usar, se assim entender, serviços privados. Não é o momento. O que me choca, o que me deixa mesmo próximo do vómito, é alguém aproveitar um momento destes para fazer combate político. Quem aproveita a hospitalização de um homem para o combate político, quem aproveita a fragilidade física de um adversário para o atacar, tem apenas um nome: é um cobarde. E com cobardes não se debate. Desprezam-se apenas.

Daniel Oliveira | Publicado no Expresso Online

FONTE: http://arrastao.org/2727389.html

Trailer de ”Melancolia” Legendado

Trailer legendado do filme ”Melancolia”, com Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg. Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgård) estão celebrando seu casamento em uma festa suntuosa na casa de sua irmã (Charlotte Gainsbourg) e cunhado (Kiefer Sutherland). Enquanto isso, o planeta, Melancolia, está se dirigindo em direção à Terra. Direção de Lars Von Trier.

Com a devida vénia à Autora.

brumasdesintra - Maria Elvira Bento's avatarbrumasdesintra

meryl-streep-in-movie-out-of-africa-1985

No filme África Minha (uma jóia de Sydney Pollack), há uma parte em que MerylStreep, que encarna na tela a personagem da escritora dinamarquesa Karen Blixten, na sua angustiada aventura (no Quénia) com a plantação de café (criada pelo marido sem o seu consentimento) que, desde o início, tinha tudo para não ter um resultado brilhante, derivado à escassez de água na zona e à altitude em que fora plantado.Tentando salvar esse investimento onde fora aplicado todo o seu dinheiro, Karen faz de tudo o que humanamente é possível, pensando triunfar contrariando a Natureza. Com a ajuda dos muitos empregados da fazenda, consegue ter uma reserva -uma espécie de lago artificial- com água desviada de um rio próximo.

Durante uns tempos a plantação é regada e, no seu tempo, os bagos de café começam a formar-se. Tudo parecia correr bem até uma madrugada em que a reserva de água, desviada do seu curso se revolta e salta vencendo (sem esforço) a barreira de sacos, pedras e areia que a aprisionava. Todos lutavam para travar essa fúria da Natureza mas aí, completamente esgotada, Karem põe um pé sobre uma rocha e, encharcada, exausta, diz:

Chega. Parem. Não adianta

Derrotada, olha para a água rebelde que quebra todas as barreiras e, vitoriosa, sai (saudosa) ao encontro de um leito que lhe pertence.

Esta água nunca deixou de viver em Mombaça! (Maria Elvira Bento)

 

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Não é, mas parece…

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Para Fabi, Renata, Desireé, Bianca, Camila e Sueli

Filomena ― eis o nome da empregada. É certo que não fosse Filomena. Mas, na busca de um intróito, Filomena surgiu. Pois que seja Filomena um nome abençoado!

Filomena trabalhava na casa de minha esposa (Fabiana) na época em que esta era apenas a filha do seo Eduardo e da dona Sueli e mãe das pequenas Desireé e Bianca, hoje uma contradição da essência do pitagorismo. Mas enfim.

Filomena tinha pouco tempo de casa e por essa razão não viu perigo algum em falar da genealogia da família.Teria dito que Renata (irmã mais nova que minha esposa) tinha sorte em ter três lindas filhas (Fabiana, Desireé e Bianca). O mesmo para a dona Sueli ― avó das três.

O leitor deve imaginar um touro, bufando, preparando a investida e terá a imagem de Renata ao ouvir aquilo. Fabiana voara, como uma borboleta azul passeando pelo céu garbosa e despreocupada.

Reparado o equívoco, Filomena se desculpara, enrubescida, alegando que, pela aparência, não se percebia a inversão das idades. Talvez o cigarro fosse o culpado, tentou ainda.

Mas, fora a gota d’água.

Fabiana protestou contra a demissão da pobre Filomena: ela não sabia, pouco tempo de casa, boa empregada, não era, dona Sueli? Mas a ira de Renata foi mais forte.

Pobre Filomena… Maldize a franqueza que te veio à boca! O mundo é cheio de injustiças, Filomena, há muito privado da Razão e da Lealdade.

Pobre Filomena… Que teu caminho te seja leve, como o de João, o Felizardo.

Vai, Filomena… e adeus.

Os crimes de Jorge Marco Bonfim

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Pouco sei da infância de Jorge Marco Bonfim; sua família, seus amigos, se foi futebolista, se foi cientista, se teve sonhos para quando crescesse, se era apegado à mãe, se admirava ao pai. Pouco sei também de sua juventude; suas namoradas, se as teve, suas rebeldias, seus estudos. Sei apenas que, já adulto, descobriu o motivo de sua existência: matar.

Muitos descobrem em si a vocação para a poesia, o teatro, a dança, os negócios, o esporte, e a sentem com o íntimo de sua alma; tratam-na como o desígnio de Deus para a sua existência superior ou ao menos, para os mais humildes, significante. A de Jorge era matar; e ele a tratava da mesma maneira que o fazem os poetas e os artistas.

Ele não gostava de planejar nada: escolher a vítima, estudar sua rotina e executar o crime o mais discreto possível, o mais perfeito que pudesse. Não dava importância a isso: seu único desejo era matar a vítima rápida e friamente, o mais que conseguisse, como se quisesse vazar algo que se guardasse em si. Não era necessário bancar o durão ou surrá-la quase até a morte; bastava apenas, por exemplo, estourar-lhe os miolos, sem cerimônia.

Já havia cometido dois crimes neste momento da história. E nunca tinha sido pego. Em verdade, não havia matado ninguém importante ou que fizesse falta a alguém importante.

Certa noite, quando aguardava do lado de fora de um teatro às pessoas saírem, viu um homem solitário, alto, magro, tentando acender seu cigarro, destacar-se. Acompanhou-o até a praça da cidade, erma naquele horário (uma coincidência para Jorge), e, chamando-o, tirou o revólver do bolso do casaco e deu-lhe um tiro bem no meio da testa.

No dia seguinte, o assassínio estava na tevê. Por um momento, Jorge sentiu-se orgulhoso de sua obra. A foto da vítima ocupava a tela toda e, com ela, o âncora do jornal resumia a vida e a personalidade do homem. Um homem bom, honesto, vendedor numa loja de materiais de construção e também voluntário num orfanato.

Ao ouvir isso, Jorge sentiu um aperto no coração, contraiu o rosto e sentiu uma intensa dor de barriga. O que doía era a sua consciência. Decidiu então que passaria a selecionar suas vítimas: elas não poderiam ser benévolas, nem crianças. Teriam de ser más, egoístas, frias, inescrupulosas.

Passou a matar trombadinhas, traficantes, alguns viciados, cafetões, homens violentos, mulheres adúlteras, motoqueiros abusados, atendentes desrespeitosos, vendedores desonestos, donos de padaria, postos de gasolina, vídeos-locadoras, livrarias, servidores de telefonia, tevê a cabo, internet, policiais corruptos, alguns políticos… E isso o satisfazia imensamente. Muito mais do que antes. Para tanto, usava de seus artifícios habituais: um tiro na testa, uma ou mais facadas no peito, um corte no pescoço, uma paulada na cabeça, um empurrão do topo de um edifício.

Enquanto os corpos que apareciam eram de cafetões, bandidos, vagabundas, motoqueiros, ninguém ligava. Deixava mesmo que esse “justiceiro”, ou “gari”, como passou a ser chamado entre o povo, fizesse o seu “trabalho”, se era um. Fazia era um favor à sociedade. Mas, quando começaram a surgir policiais mortos e mesmo senadores e deputados, aí o governo mandou que se prendesse esse “assassino frio e calculista”.

Como não se havia feito nenhuma investigação mais séria até então do caso, não se sabia os seus padrões, sua seleção de vítimas, os locais escolhidos para os crimes, já que isso dependia da vítima escolhida; não se conhecia seu rosto, não se tinha mesmo sequer uma única pista por onde começar a investigação, já que as que poderiam ter sido deixadas por ele agora já deveriam ter sido alteradas pelo vagar impiedoso do tempo. Havia apenas os corpos. Pensara-se ter encontrado um padrão no estilo do assassino, uma vez que cinco das sete mulheres haviam sido mortas a facadas. Mas logo descartaram essa ideia, concebendo acertadamente que o modo que o assassino usava para matar suas vítimas era aleatório, decidido na hora. E isso era alguma coisa.

Depois de mais ou menos uma semana, a policial que trabalhava no caso pensou ter encontrado um padrão. Todas as vítimas eram pessoas más. Mas nem seu parceiro nem seu chefe lhe deram ouvidos, argumentando que os assassinos não escolhiam suas vítimas assim. Além do mais, a última, descoberta no dia anterior, não era má. Era uma professora de escola infantil, muito atenciosa e dedicada ao trabalho. Descobriu-se mais tarde que suas primeiras vítimas não haviam sido malévolas. Mas isso não trouxe luz alguma ao caso.

Acontece que Jorge estava se perdendo. Matar essas pessoas não mais o satisfazia; e por essa razão ele se confundia e acreditava ver num acesso de raiva uma personalidade violenta e perigosa. A coitada da professora, numa reprimenda, energicamente pegou seu aluno pelo braço e o colocou de cara para a parede, machucando-o sem querer.

Não obstante, sua fama crescia, tanto que ganhou seguidores que fundaram uma igreja onde pregavam a verdade pura acima da hipocrisia e da falsa benevolência da sociedade; e isso, esse inesperado reconhecimento, lhe trouxe conforto, paz de espírito e até um leve regozijo. Era a imortalidade que lhe batia à porta; era a sua obra que alcançava o mundo.

Por um certo período, Jorge passou a deixar assinaturas em suas vítimas. Se ele as matava com uma bala na cabeça, com o cano da arma escrevia suas iniciais na testa delas; se o fazia a facadas, deixava escoar o sangue para no chão desenhar suas letras; se a pauladas, usava os miolos como podia. Queria dizer a seus fãs que aquela vítima encontrada ali era obra sua e com isso alimentar sua fama, conquistar sua imortalidade.

Estava exultante. Sentia em seu corpo aquela sensação divina de magnificência que faz a Morte invejar a humanidade.

Mas tal postura estava deixando a polícia no seu encalço.

Junto à atual vítima, um operário que tinha a fama de bater nos filhos, foi encontrado um fio de cabelo. A policial encarregada do caso comparou-o com o do morto e descobriu o nome de Jorge Marco Bonfim. Sem avisar a seu parceiro ou mesmo a seu chefe, os quais já tinham deixado de lado o caso para cuidar de assuntos prioritários, partiu para a casa dele, decidida a ser-lhe implacável.

Jorge acabara de chegar a casa. Fizera mais uma vítima. Degolara um estuprador. E estava triste. Há dias que já não sentia nenhuma satisfação em matar ninguém. Parara de assinar em suas vítimas e isso causava aturdimento nos seus fãs, que enchiam as páginas da internet dedicada a ele com perguntas, suspeitas e teorias mirabolantes sobre sua “ausência”.

Estava sentado em sua poltrona lendo um romance de Sir Arthur Conan Doyle: “O cão dos Baskervilles”. Lia aquela parte em que Watson descobre quem é na verdade o segundo homem escondido no pântano, quando sentiu uma dor de cabeça terrível seguida de uma pontada no estômago excruciante, mais ou menos como deveriam sentir suas vítimas. Marcou a página do livro com o indicador e rememorou todas as mortes, recordou-se do prazer que sentia ao esfaquear alguém, ao senti-lo, depois de muito suplicar-lhe pela vida, tremer de medo ante a morte iminente, ao voltar para a casa mais leve, como se, qual Camões ao terminar “Os Lusíadas”, toda a sua alma soubesse do feito que realizava, da importância de sua existência. Lembrou-se da satisfação inda maior que sentia ao matar homens e mulheres desprezíveis e perguntou-se por que não se sentia mais assim, por que não conseguia sequer um fiozinho só de regozijo. Será que tinha perdido seu talento, seu motivo de existir?

Foi quando sentiu em seu íntimo a resposta. Depositou o livro na mesinha do lado e levantou-se. Rumou à sua modesta biblioteca e retirou de debaixo da estante uma caixa de sapato. Abriu-a, pegou sua arma e, sem cerimônia, antes sereno e esperançoso, estourou seus miolos.

A policial incumbida do caso chegou à casa de Jorge e bateu à porta, mas não obteve resposta. Decidiu então arrombá-la; e quando o fez deu de cara com o braço morto de Jorge extrapolando os limites daquele cômodo.

O caso foi encerrado e arquivado. Nunca chegaram a descobrir o motivo dos assassinatos, muito menos o de seu próprio. Ainda lembraram dele por algum tempo, graças aos seus seguidores, que lotavam a internet com discursos eloquentes. Mas logo o esqueceram. Outros, mais jovens, nem mesmo souberam de sua existência. Sua obra tornara-se vítima da indiferença.

Mas para Jorge aqueles segundos que antecederam sua morte foram de um prazer inigualável. Ele sentia que naquele momento construía ao mundo sua obra-prima.

biblio-História um projeto a manter.

A biblioHistória constitui uma base de dados, iniciada em meados de 2010 pelo escritor Pedro Almeida Vieira, que integra obras de literatura do género histórico – ou com incursões históricas – publicadas por escritores portugueses desde o século XIX até à actualidade. Foi na pesquisa de informação que foi (re)descoberta a obra do primeiro escritor do romance moderno português, Guilherme Centazzi, que publicou «O Estudante de Coimbra», em 1840 e 1841, entretanto reeditada no ano passado pela Planeta.

Actualmente, a biblioHistória tem já inventariados 645 autores (incluindo pseudónimos) e 1.770 títulos, entre romances, novelas, contos e narrativas ficcionadas. Estão também incluídas 59 obras de autores anónimos, grande parte das quais em periódicos. No entanto, ainda se continua a realizar pesquisas para a inclusão de mais obras e obtenção de mais informação.

Veja como pode apoiar este projeto e receber um dos livros do autor.

Experiencia y memoria | Elisa Silió

Campo de concentración de Auschwitz

Campo de concentración de Auschwitz

“Una crisis como la actual dio pie a la llegada de Hitler al poder. Deben de sonar todas las alarmas, pero no suenan”, razona el Nobel de literatura húngaro Irme Kertész en la portada del número de mañana de Babelia. El autor de 83 años ha visto reducidos sus movimientos por el Parkinson y la medicación le aletarga, pero ello no le impide seguir escribiendo. Este perfil de Kertész se basa en varias conversaciones con Adan Kovacsics, su traductor al español. En estos momentos este superviviente del Holocausto trabaja con esfuerzo en una novela sobre la creación en la vejez, publica sus diarios en Hungría y Cartas a Eva Haldimann en España. El libro de Acantilado repasa la correspondencia que mantuvieron durante más de veinte años (entre 1977 y 2002) Kertész y la crítica y traductora de origen húngaro Eva Haldimann. En sus cartas comentan su trabajo, las dificultades profesionales hasta alcanzar el Nobel o su salida de la Asociación de Escritores.

Esta semana visitamos el rincón de trabajo en la Academia de Cine de Enrique González Macho, su presidente, que se enfrenta a la primera gala de los Goyas totalmente organizada durante su mandato. En Ida y vuelta Antonio Muñoz Molina se plantea el hecho de que a “algunos expertos en arte o en literatura rara vez deja de notárseles la ausencia de familiaridad inmediata y material con las obras que estudian”. Y el novelista encuentra respuestas enNada es bello sin el azar, una colección de quince ensayos de Artur Ramon. El libro transita entre las épocas históricas, entre la erudición y el ojo clínico.

 La amiga estupenda (Lumen), de la italiana Elena Ferrante, es nuestro Libro de la semana. En la novela, primera parte de una trilogía, aparecen multitud de personajes de un barrio pobre de Nápoles en los años cincuenta y abarca la infancia y juventud de dos amigas cuyas vidas se van distanciando.

FONTE: http://blogs.elpais.com/papeles-perdidos/2013/01/experiencia-y-memoria.html

El cementerio del amor | Rodrigo Fresán

Cuando en 1984 apareció Jóvenes corazones desolados –sexta y penúltima novela de Richard Yates (Nueva York, 1926-1992)— sucedió lo que solía suceder desde hacía ya demasiado tiempo. Loas a su precisión realista, advertencias al lector por las profundas y ahogadoras tristezas de lo que allí se exhibía, y más o menos velados reproches al autor por volver a ofrecer más de lo mismo. A saber: la radiografía con metástasis de un matrimonio terminal.

En las páginas de The New York Times el crítico de prestigio y cuidado Anatole Broyard fue aún más lejos a la hora de castigar a alguien que había comenzado siendo joven y refulgente promesa y había acabado siendo, apenas, un “escritor para escritores” asfixiado por la sombra de los benditos Hemingway y Fitzgerald, de los malditos Dick Diver y de Francis Macomber. Para Broyard –y su reseña, dicen, fue el tiro de gracia para que el autor en desgracia cayera en una barrena de alcohol y cigarrillos y enfisema y entradas y salidas de hospitales y trabajos temporarios como profesor, caída en picado que ya no remontaría– Yates se había quedado sin temas ni ideas. Y su novela era algo así como un estribillo repetitivo y casi inaudible en busca de una canción que lo contenga y abrace. Con el tiempo –no sería redescubierto y canonizado hasta diez años después de su muerte, luego de ser extáticamente invocado en Hannah y sus hermanas de Woody Allen o inspirado a un inestable personaje en Seinfeld– el mismo Yates acabó renegando de la novela considerándola “una telenovela para cumplir con un contrato”. Richard Price –quien lo trató por entonces como alumno y colega— describió así a Yates: “Estaba amargado. Tenía todo el derecho de estar amargado. Estaba realmente amargado”.

Jóvenes corazones desolados también.

Aquí y ahora, Jóvenes corazones desolados –ahora en RBA y de la que hubo traducción en Argentina, en los 80s, como El salvaje viento que pasa; ambos títulos salen de los versos de “Mirando las embarcaciones en San Sabba” de James Joyce, abriendo todo como epígrafe—está apenas por debajo de esa cumbre que es Las hermanas Grimes(1976) y muy por encima de la debutante y consagratoria Vía revolucionaria (1961) a la que revisita y mejora con elegante brutalidad y sin precavida anestesia.

Porque en esta nueva encarnación de aquellos muy trágicos Frank y April Wheeler no existe, ni siquiera el “consuelo” final de una tragedia irreparable con aborto y muerte que le de algún sentido épica a sus vidas y muertes. Por lo contrario, lo que aquí impera es una ácida comicidad con el lector (que no puede dejar de mirar con curiosidad entre culposa y regocijada) suplantando todo aquello. Y poco y nada les sucede al macho alpha y veterano de la Segunda Guerra Mundial y aprendiz de poeta que nunca llega a maestro Frank Davenport (transparente y más que algo autoindulgente alter-ego de Yates) y a su esposa la rica heredera con (como la difunta April) pretensiones artísticas Lucy Davenport Blaine. Frank desprecia y envidia y sólo parece preocuparle demostrar en público la musculatura abdominal de quien alguna vez fue campeón de boxeo universitario y que ahora se la pasa –entre soneto frustrado y soneto frustrado—desafiando a desconocidos en las fiestas para que golpeen con fuerza su vientre y comprueben su dureza de hombre de acero. Y Lucy fantasea y abandona y entra y sale de proyectos que siempre se quedan en planos mal bocetados o, a lo sumo, en alguna endeble y mal plantada maqueta. Y uno y otra se enamoran. Burgueses con ilusiones de acomodada y segura bohemia en el Village neoyorquino. Mad man y crazy woman cuyas transgresiones son apenas las que permiten un férreo manual de buenas costumbres y, enseguida, los protocolos de barrios residenciales siempre on the rocks. Se aman, se casan e inician el lento y arduo ascenso de una montaña en cuya cima no les espera otra cosa que el superpoblado cementerio del amor. Frases como lápidas, la terrible oportunidad de contemplar y leer sus epitafios en vida, y la recurrencia de episodios como losas en los días y noches nunca suaves ni tiernas de dos zombis que –a lo largo de tres décadas y demasiados años– no se soportan pero que, tampoco, pueden separarse del todo mientras entran y salen de camas adúlteras y divanes psiquiátricos y se contemplan el uno al otro, en círculos más abiertos o cerrados, pero siempre infernales.

Y es en este constante y arrítmico ritornello de Jóvenes corazones desolados –en su momento considerado defecto pero, para mí, una de sus más grandes virtudes y al que el poema de Joyce parece aludir con el ruego no escuchado de un “¡Nunca más, no volvednunca más!”— donde reside la miserable grandeza de una trama que no deja de latir porque, sí, no le queda otra. Lo que narra aquí Yates, con genio y crueldad, sofocante y agotadora, es la larga inercia del desamor que sigue al en más de una ocasión breve impulso del amor. Y, alrededor de los Davenport, sexo (regular) y alcohol (mucho) y conversaciones en falso y confesiones mentirosas (tantas) y frustraciones (todas). Y ni siquiera –al caer el sol y salir al jardín a contar estrellas fugaces– la posibilidad de una de esas epifanías con las que el igualmente cáustico pero algo más piadoso John Cheever redimía a los suyos en su hora más luminosamente oscura.

Sobre el final, Lucy parece comprenderlo todo: “Al carajo con el arte… El mundo del arte es un mundito sospechoso. ¿No es gracioso que nos hayamos pasado la vida entera persiguiéndolo? ¿Muriéndonos por estar cerca de alguien que pareciera comprenderlo, como si eso pudiese servirnos de ayuda, no dejando nunca de preguntarnos si tal vez está irremediablemente fuera de nuestro alcance, o incluso si tal vez ni siquiera existe? Porque he aquí una interesante proposición para ti: ¿y si no existe?”

A lo que Frank responde: “Si en algún momento creyera que no existe, pienso que… no sé. Que me volaría la tapa de los sesos”.

Y Lucy contraataca: “No, no lo harías. A lo mejor hasta te relajarías por primera vez en tu vida. A lo mejor dejarías de fumar”.

Antes de esta última conversación, un muy yatesiano personaje secundario de primera explica que en realidad no hay diferencia entre las personas fuertes y débiles, que quienes creen eso sólo son los escritores a la hora de plantar sus personajes; pero que en la vida real es otra cosa. Y para los poderosamente frágiles y reales Davenport en Jóvenes corazones desolados –en cuya lectura se experimenta una mezcla de gozo admirado y de agobiante angustia—la vida sigue y sigue, a pesar de todo, de todos, de ellos mismos.

Lo que en el mundo según Yates, ya se sabe, no es necesariamente una buena noticia.

FONTE:  http://rodrigofresan.megustaescribir.com/2013/01/14/el-cementerio-del-amor/

Richard Yates

Richard Yates

Poesia | JOSÉ FANHA

A TERNURA EM FIGURA DE GENTE

Chama-se José Manuel mas já foi Manelinho, Zé, Zé Manel, Zé Fanha… Diz que escreve para saber quem é e que precisa de ler e escrever como de ar para respirar.

É arquitecto e já foi jornalista, desenhador, publicitário, actor, professor… Mas a poesia é a língua que melhor lhe permite falar dele a ele próprio e aos outros.

JOSÉ FANHA é símbolo de solidariedade, talento, incansável intervenção cívica, cultural e artística, ternura. O seu último livro de poesia será apresentado pela Poetria no próximo dia 19/1 no Palacete Balsemão (Pç. Carlos Alberto, Porto) pelas 17,30h. com a presença do autor e apresentação de Jorge Velhote (Obra) e Júlio Couto (Vida).

Serão lidos poemas por Ana Afonso, Rui Spranger e Rafael Tormenta, a acompanhamento musical (viola) de Carlos Andrade.

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A República das Putas por João Magueijo * in “O Vento que Passa”

João Magueijo

João Magueijo

O livro de Skvorecky e o tempo da invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas são o ponto de partida para João Magueijo lembrar o“sentimento de um país traído, entregue ou vendido a uma ideologia questionável” e o valor dominante do dinheiro hoje. “Antes falar de tourada”, escreve o autor, no âmbito da série especial sobre os valores humanos

Ler aqui:

http://oventoquepassa.blogspot.pt/2013/01/a-republica-das-putas.html

Faleceu Fernando Couto

Faleceu, quinta-feira passada, aos 88 anos, Fernando Couto (pai de Mia Couto). Jornalista, escritor e editor, natural do Porto, publicou poesia, foi subchefe de redacção do principal diário moçambicano e dirigiu a editora Ndjira, hoje integrada no grupo Leya.
Ler mais em:

http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=66128

Crédito/Imagem: http://blogtailors.com/

Fernando Couto

Fernando Couto

Crédito/Imagem: http://blogtailors.com/

Filosofia Política | A DERIVA ANTIDEMOCRÁTICA A FAVOR DE UM GOVERNO “SEM ENTRAVES” by José Pacheco Pereira in “Abrupto”

(…) Este Governo, na arrogância dos seus primeiros tempos, não deu a mínima importância em falar com o PS para fazer uma revisão constitucional, no início da aplicação do memorando, quando tal era plausível. Depois, foi-se emaranhando num labirinto de arranques e recuos, como a discussão a propósito da “regra de ouro” e do Pacto Orçamental, cada vez com a sua posição mais fragilizada pelo desastre da política governativa. O PS foi crescendo, e tornando rígida a sua posição, Até que o patético apelo à “refundação” do Estado, que era na sua origem um apelo a uma revisão constitucional in extremis, revelou um Governo acossado perante um PS em que Passos Coelho conseguiu o milagre de colocar o seu alter-ego António José Seguro a crescer nas sondagens. (…)

http://abrupto.blogspot.pt/2013/01/a-deriva-antidemocratica-favor-de-um.html

OS GRANDES DESTRUIDORES DE ALTERNATIVAS by José Pcheco Pereira in “Abrupto”

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O grande destruidor das alternativas é o governo, mas o grande destruidor da alternativa ao governo é o PS de Seguro. Mas essa história fica para outra altura, porque remete para o terreno onde menos de facto há alternativas: a erosão por parte dos aparelhos partidários das elites governativas capazes de unir capacidade politica e eleitoral, saber e patriotismo. E hoje, o PS e o PSD, não produzem tal espécie. Aqui sim, há um grave problema de alternativa.

http://abrupto.blogspot.pt/2013/01/alternativas-pior-discurso.html

 

João Moreira de Sá

João Moreira de Sá

João Moreira de Sá

Uma mente delirante e não muito normal encerrada num corpo com 42 anos (embora um teste da Sábado diga que na realidade tenho 47). Engenheiro, embora possa e insista em provar que é apenas Bacharel em Línguas e Turismo, tem uma Graduação acentuada na lente esquerda e alergia aos ácaros. Presentemente desempregado por estar na moda mas com boas perspectivas de conseguir vir a trabalhar num call-center. Escrevo porque não gosto lá muito de falar e como irresponsável que sou, acredito que um dia ainda irei conseguir viver da escrita.
Com uma vasta obra literária por editar, lançou em 2008 o seu primeiro livro, “Manjares do Arcebispo de Cantuária”, obra pioneira em Portugal no estilo culinário-humorístico e escreve em diversos blogues enquanto forem gratuitos.

email: jmoreiradesa@gmail.com

Filosofias políticas | Portugal 2013 | O PS, se não estivesse entretido a dar toques na bola atrás da baliza… by Porfírio Silva [título nosso]

O relatório do FMI sobre como cortar o Estado em Portugal é um estranho objecto cheio de maravilhosas propriedades.

Desde logo, foi um maravilhoso isco: muitos dos que disseram antes que não estavam dispostos sequer a discutir a “refundação” passista do Estado como mera operação de corte de quatro mil milhões de euros… pronto, já estão a discutir. Essa é uma vitória do governo nesta história. Como podiam não discutir? É sempre má ideia jurar que não se vai a jogo, porque, quando o tema é a doer, qualquer “posição de princípio” que apareça como recusa de conversar será insustentável. Se este ou aquele partido da oposição tem exigências concretas para garantir que a discussão será justa, que coloque essas exigências, devidamente concretizadas e explicadas, em cima da mesa; o que não pode é tentar passar ao lado, porque acabará necessariamente atropelado.

Ler mais:  http://maquinaespeculativa.blogspot.be/2013/01/o-estranho-caso-do-obscuro-relatorio.html

Santana – Smooth (feat. Rob Thomas)

Man its a hot one
Like seven inches from the midday sun
I hear you whisper and the words melt everyone
But you stay so cool
My mu equita my Spanish Harlem Mona Lisa
Your my reason for reason
The step in my groove

Bridge
And if you say this life aint good enough
I would give my world to lift you up
I could change my life to better suit your mood
Cause you’re so smooth

Chorus
And just like the ocean under the moon
Well thats the same emotion that I get from you
You got the kind of lovin that can be so smooth
Gimme your heart make it real
Or else forget about it

Ill tell you one thing
If you would leave it would be a crying shame
In every breath and every word I hear your name calling me out
Out from the barrio you hear my rhythm from your radio
You feel the turning of the world so soft and slow
Turning you round and round