Lemos, vemos, ouvimos, mas não pensamos. Que vale termos acesso à informação se a engolimos sem a mastigar? No Le Monde de 22 de Agosto saíram duas notícias a par. Numa, mais um pontapé de Donald Trump nas promessas da campanha eleitoral. Trump candidato tinha prometido retirar as tropas americanas do Afeganistão. Trump eleito, num discurso de 21 de Agosto engole as afirmações e lê o discurso preparado pelos generais e pelo o complexo militar-industrial. Um discurso articulado em dois blocos, um perceptível por um auditório médio: “Não se trata de um cheque em branco, nem de exportar a democracia” e outro para satisfazer os pistoleiros broncos do nível de Trump: “Trata-se de matar os terroristas!” A eles, sus!
Haverá quem acredite que os americanos andam a matar os terroristas no Afeganistão? O Le Monde parece que sim e os seus leitores também. Não existe nenhuma crítica à afirmação. No entanto, confiante que os consumidores comem tudo, o Le Monde coloca ao lado da banha de cobra de Trump a notícia de que os atentados da Catalunha foram realizados por cidadãos marroquinos, conduzidos ao crime por um também marroquino estabelecido com banca de atentados numa mesquita em Ripoll, uma localidade espanhola e que tinha passado várias temporadas na Bélgica a traficar droga. Um delinquente como tantos outros que cresceram entre nós e que foram por nós educados, como recordaram os avós de dois dos assassinos. Não há notícia destes terroristas de Barcelona terem passado pelo Afeganistão, por onde também não passaram os assassinos de Londres, da Alemanha, de Paris, de Nice, de Bruxelas…
O discurso de 21 de Agosto de Trump aos Estados Unidos, a propósito da política para o Afeganistão, foi o resultado visível de um golpe de estado em Washington. Os generais do Pentágono tomaram o poder. Trump é, a partir de ontem à noite, apenas o títere dos militares americanos. Numa manobra prévia, os generais correram, defenestraram, todos os cortesãos iniciais de Trump e apenas o deixaram a ele, à mesa da sala oval, a fazer de espantalho. No dia 21 à noite, impuseram-lhe um discurso de resignação sob a forma de “nova política para o Afeganistão”, onde o colocaram a desdizer tudo o que tinha dito e prometido quanto a política de intervenção militar na campanha eleitoral. Puseram-no a defender a política de Hilary Clinton, a sua candidata!
A 20 de janeiro deste ano de 2017, Donald Trump proclamou que daí em diante seria «America First », isto é, a América não se aventuraria mais no estrangeiro. Agora, como escreve o Washington Post, «teve de se vergar diante da realidade.» E a realidade é que quem manda são os generais. E o que os generais dizem é que o Afeganistão é um saloon numa região árida e sem lei. Por isso os americanos têm de lá estar para competirem com os outros pretendentes a donos do local. Um clássico dos westerns. O Afeganistão interessa à Rússia, é parte da sua fronteira sul, interessa à China, é parte da sua fronteira ocidental (mesmo que numa estreita língua), permite a ligação ao sub-continente indiano e ao Índico, faz fronteira com o Irão.
O sol dos Sonhos derreteu-lhe as asas.
E caiu lá do céu onde voava
Ao rés-do-chão da vida.
A um mar sem ondas onde navegava
A paz rasteira nunca desmentida…
Mas ainda dorida
No seio sedativo da planura,
A alma já lhe pede impenitente,
A graça urgente
De uma nova aventura.
Uma das (muitas) críticas que na época foram feitas a essa obra-prima que é MUDAR DE VIDA de Paulo Rochateve a ver com a escolha de Maria Barroso para o papel de Júlia (trabalho todos os dias mais admirável, garanto). “Que não podia ser – dizia-se no Vává…-, que uma actriz de teatro (essa “arte morta”…) nunca poderia fazer de camponesa de Entre-Os-Rios, que, professora e casada com advogado, Maria Barroso era uma senhora burguesa”, etc. Não se deram conta que o filme e o papel estão mais próximos de Racine (“dans un mois, dans un an…”) e da Madalena de Garrett (e do Nô, essa arte dos fantasmas que regressam) do que o “Arroz Amargo” das pernas das arrozeiras, não viram a ânsia desmedida que a actriz deu ao papel, a dor, o silêncio, trabalho admirável. A própria Maria Barroso ficou cheia de dúvidas quando Paulo Rocha, mestre, quis filmar os seus pés descalços pisando a caruma. Eram pés delicados, bem tratados. E Maria Barroso ainda andou uns dias antes da filmagem descalça pelo pinhal. Tem a sua graça porque Amélia Rey Colaço, com quem Maria Barroso trabalhou e sempre considerou, teve a sua estreia em 1917 -não vi, mas conheci quem veio de Beja para o São Luiz só para a ver, a mãe de Glicinia Quartin – na peça realista “Marianela” de Galdós, dirigida pelo Mestre Pinheiro. E tinha de andar descalça. E Amélia ensaiou o pisar a caruma dias e dias seguidos na sua quinta da Serra de Sintra. Veio em tudo o que era jornal, foi uma estreia triunfal.
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Restaurante assalta turistas com pratos de 250 euros; Meo cobra acima da própria tabela, diz a clientes que não podem rescindir ao balcão e impõe contratos por SMS. Quem diria que há leis?
Foi grande a comoção com a notícia do restaurante da Baixa de Lisboa que assalta turistas com preços absurdos, do tipo 250 euros por um misto de carnes. E maior ainda o escândalo ante a afirmação pelas autoridades – a ASAE, no caso – de nada poderem fazer, alegando que os preços absurdos constam da carta e portanto os enganados são-no por não terem a diligência mínima de a perscrutar de fio a pavio, ou questionar os empregados sobre o valor de cada prato.
Grande coincidência, a de tanto burro ir ao mesmo restaurante. Ou quiçá o problema não resida nos clientes. É que se não está em causa a liberdade de qualquer serviço (não essencial) cobrar valores disparatados, a questão é se isso fica ou não claro para o consumidor. Ora ao percorrer a lista do restaurante constata-se que a generalidade dos preços é normal para um estabelecimento médio; os valores desproporcionados estão numa página recôndita, como “especiais”. Ou seja: a lista, como o aspeto do lugar, induz o cliente a concluir que não pagará mais de x; quando, como afiançam testemunhos publicados online, os empregados sugerem os “especiais”, não há motivo para achar que vai pagar o décuplo do preçário geral.
O vento sopra em todo o país, mas as chamas, tal como em 1975, poupam as zonas onde prevalecem grandes interesses económicos tendencialmente sem pátria.
O terrorismo tem mil caras. Lançar o terror contra pessoas comuns e quase sempre indefesas, ou atemorizar populações e devastar países usando os cidadãos apavorados como reféns são práticas que preenchem os nossos dias num mundo que, pela mão de dementes usando o poder acumulado por conglomerados do dinheiro, caminha para inimagináveis patamares de destruição.
Portugal tem tido a sorte de ser poupado pelo terrorismo, diz-se e repete-se, por vezes com inflexões de um misticismo bolorento próprio de pátrias «escolhidas» para auferir das mercês do sobrenatural. Uma interpretação com curtos horizontes e vistas estreitas, características cultivadas por uma comunicação social habilmente arrastada para realidades paralelas e que reduz o terrorismo dos nossos dias ao estereótipo do muçulmano fanático imolando-se com explosivos à cintura, ou atropelando a eito, não se esquecendo de deixar o cartão de identidade, intacto, num local de crime reduzido a destroços humanos e amontoados de escombros.
Assim sendo, deixa de ser terrorismo, por exemplo, o que a NATO fez na Líbia, o que Israel pratica em Gaza, os massacres que as milícias nazis integradas no exército nacional da Ucrânia «democratizada» cometeram, por exemplo, na cidade de Odessa.
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones de bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en Punto de la tarde.
Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay, qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!
Retirado do Facebook | Mural de Carmen de Carvalho
“Os lusitanos eram um povo que vivia desta floresta que lhes fornecia caça, peixe, frutas, farinha de bolota para o pão (não conhecia o trigo), castanha (substituída pela batata após os Descobrimentos) e verduras (veiças). É disto testemunho, o que Estrabão refere ao descrever o povo que os fenícios encontraram (primeira idade do Ferro) neste extremo ocidental europeu (“…três quartas partes do ano alimentam-se sempre com bolotas secas, partidas e esmagadas, com as quais fazem um pão que se conserva muito tempo. Uma espécie de cerveja é a sua bebida ordinária…”). São também testemunho disto, os pães de castanha ou pão dos bosques, a “bola sovada” (falacha) e “pratos relíquias” à base de castanha, como o paparote ou caldulo que ainda se comem em algumas regiões beirãs, e, ainda, alguma “actividade social” baseada na castanha, como, os magustos, estando as brechas (apanha prévia, pela garotada) e os rebuscos (apanha das sobras pelos aldeões de fracos recursos) praticamente em desuso”, conta Jorge Paiva, no texto “A biodiversidade e a história da floresta portuguesa”.
A meio do século passado, emerge outra espécie: o eucalipto, vindo da Austrália e Tasmânia. O rendimento que gera ao produtor florestal tornou-o num investimento interessante que levou a que, face à ausência de regras orientadoras, crescesse onde devia e não devia, criando contínuos florestais que, se nada ou pouco geridos, criam um excelente pasto para os incêndios. Erros que o tempo e o conhecimento estão agora a tentar corrigir.
Muitas outras espécies chegaram, viram e venceram. Uma entre estas é hoje sinónimo de praga. A acácia mimosa, que a ex-Junta Autónoma de Estradas plantou profusamente país fora, e que muitos colocaram nos seus terrenos como planta ornamental, é uma invasora infestante que obriga a fortes investimentos para erradicar, o que nem sempre é coroado de sucesso. Reproduzindo-se muito facilmente e em muito pouco tempo, formam áreas densamente povoadas que impedem o desenvolvimento da vegetação natural.
(dados de 2010)
Retirado do Facebook | Mural do Professor João Soares
À saída de Évora para Lisboa a cerca de 500 m da antiga Porta de Alconchel, o “balneário” ou como também de chamava o “Aquário das Bravas” (ver nota no final do texto) era um tanque de forma mais ou menos quadrada que a memória me diz ter uns 12 a 15 metros de largo, entre muros altos. Visto de fora mais parecia uma casa de um só piso e sem telhado, como hoje ainda se pode ver. Colado a um dos mais antigos chafarizes de Évora, o histórico Chafariz das Bravas (já documentado em finais do século XV) recebia dele a água que fazia as delícias dos adolescentes e de alguns homens, nos verões desses anos. Pouco fundo, dava para “ter pé” aos rapazes da minha geração. Mais seguro do que os pegos do Degebe, o afluente do Guadiana que mesmo nos verões secos represava alguma água nos sítios mais fundos, foi no balneário que muitos apenderam, sem escola e mal, a nadar de bruços ou às braçadas, mas o que mais rapidamente se aprendia era nadar “à cão”.
Este tanque foi a nossa piscina, mas diga-se, só para o sexo masculino e em cuecas, pois que calções de banho só um ou outro sabiam o que isso era. Não por regra estabelecida, mas pela imensa força dos bons costumes, raparigas e mulheres nem se aproximavam da porta. Foi preciso esperar cerca de duas décadas para se quebrar esse tabu, o que teve lugar com a inauguração, em 1964, das Piscinas Municipais.
Lembro-me que se falava do “tanque do Alexandre”, mas quase que só retive este nome. Tenho uma vaga ideia que era um daqueles tanques que havia nas quintas, destinados à rega, onde alguns iam nadar, ou melhor, iam meter-se na água.
Nota: – “Bravas” eram as mulheres que, na Idade Média, provocavam “arruídos” e zaragatas, uma espécie de “tendeiras” da minha geração. Em oposição às “Bravas”, existiu, nesse tempo, à porta de Alconchel, o “poço da Boa Mulher”
Retirado do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho
Em 1967 rebentou um escândalo de abuso sexual de meninas, algumas com 8 e 9 anos, por parte de gente muito influente do regime fascista. Além de condes, marqueses, estavam implicados industriais, empresários e um ministro do Governo de Salazar, o Ministro da Economia Correia de Oliveira. A PJ prendeu uma modista de nome Genoveva e encontrou uma lista com os clientes das meninas. Tinha acontecido que uma das raparigas se dirigira à PJ, na companhia do advogado Fernando Pires de Lima, e contara tudo o que sabia. O poder quis que o advogado se afastasse. Mas este assumiu a defesa da rapariga e Joaquim Pires de Lima, recorda, numa entrevista à revista Pública do Expresso, em 12/07/2009:
«Tudo começou quando uma moça dos seus 16 anos me procurou, com a mãe e o namorado, porque estava a ser apertada na Polícia Judiciária para prestar declarações. Acerca das razões que a levavam a casa de uma senhora modista, que era tida como uma desencaminhadora de menores. E para identificar os indivíduos que estavam relacionados com essa senhora. Tinha receio de que a levassem presa. Isso levou-me a telefonar ao director da Judiciária, com quem tinha boa relação, bem como ao Antunes Varela (ministro). Provoquei um grande escândalo dizendo que, com a minha cliente, à PJ, ia eu! Não conhecia o instrutor do processo. Mais tarde detectei quem ele era; era um que estava ligado ao assassinato do Delgado, o agente Parente. Quando soube, denunciei-o. Obriguei a miúda a dizer os nomes de toda a gente. Ficou a saber-se que desde os nove anos andava a ser aproveitada por indivíduos como o conde Monte Real, o conde Caria, o conde da Covilhã, uma data de gente da alta sociedade. (…) A PJ o que queria era que ela não dissesse os nomes. “Quero que ela dite para os autos o que ela me disse a mim”. Quando se soube a idade das meninas envolvidas, percebeu-se que isto não era um processo de Ballet Rose á maneira do caso Profumo, cuja mais nova tinha 17 anos, mas um processo de corrupção de menores, com impúberas de nove anos. E miseráveis. Filhas de mulheres-a-dias. Eu queria que a PJ instaurasse um processo crime contra os corruptores de menores e retirasse o nome de Ballet Rose da história. (…) Para abafar o caso, uma vez que estavam metidos no assunto indivíduos como Correia de Oliveira, o Quintanilha Mendonça Dias (que era Ministro da Marinha), acharam que, se não era Ballet Rose, também não era nada de grave. Todos tentaram aliciar as meninas, mas não consumaram. Elas não eram susceptíveis de serem ofendidas. Não passou de uma tentativa de estupro e todos prestaram caução de boa conduta. Para que não houvesse punição dos arguidos. A rapariga [que desencadeou o processo], continuou por aí. Já depois do 25 de Abril perguntou-me se tinha direito a uma indemnização. Uma oportunista.»
Mostra dedicada à presença árabe e islâmica na literatura e no pensamento portugueses, desde o início do Romantismo em Portugal até 1935, ano da morte de Fernando Pessoa, figura maior do Modernismo português. Através de uma organização cronológico-temática de livros e documentos oriundos das coleções da BNP e de outras coleções, apresentam-se textos, autores, movimentos e momentos em que a presença e a representação do Islão e da civilização islâmica, com especial foco no al-Andalus (711-1492), emergem na estética e na cultura literária e filosófica portuguesa. Entre os autores patentes na mostra, destacam-se Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Antero de Quental, Teófilo Braga, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Almada Negreiros.
Comprei umas bolas de Berlim. As bolas de Berlim que eu comprei não valem nada. Pensei, estas bolas não são de Berlim. Fui ver a etiqueta na embalagem e confirmei, Vila do Conde?! As bolas são de Vila do Conde. Uns gajos de Berlim irem para Vila do Conde fazer bolas só podia dar nisto, as bolas não valem nada.
Até ao início do século XX esta sopa era vendida, pelas ruas de Lisboa, por mulheres que apregoavam em voz cantada “Fava Riiiiiica!”.
Fava-rica era uma sopa muito apreciada pelas classes populares por ser um alimento muito nutritivo, devido ao seu alto teor de proteínas.
O termo culinário fava-rica designa a «fava seca, que, depois de cozida, é refogada com azeite, alhos e pimenta» (Dicionário da Língua Portuguesa, Academia das Ciências de Lisboa).
Receita
500 gr fava seca
4 colheres sopa de azeite
4 dentes alho
1 colher sopa vinagre
sal
pimenta
. Põem-se as favas de molho em água fria de um dia para o outro.
. Depois de escorridas, colocam-se as favas numa panela com água e sal e vão a cozer. Deixar cozer, em lume brando, até começarem a desfazer-se.
. Junta-se o azeite, os alhos picados e o vinagre.
.Tempera-se com sal e pimenta a gosto. Serve-se bem quente.
“Empresária do mundo da alta-costura e da perfumaria, Coco Chanel nasceu a 19 de Agosto de 1883, em França, foi baptizada como Gabrielle Bonheur Chanel, e passou uma infância difícil na região de Auvergne. Viveu com os tios depois de ter ficado órfã aos seis anos. Foi criada segundo uma maneira muito tradicionalista, mas aos 16 anos mudou-se para Paris, com a ajuda de um oficial de cavalaria milionário, e passou a conviver com a alta sociedade. Como não gostava dos espampanantes chapéus com plumas de avestruz da época, montou uma pequena loja e passou a desenhar os seus próprios chapéus. Mais tarde, em 1914, abriu um estabelecimento maior em Paris.A sua carreira de estilista tinha sido iniciada aos 26 anos, mas foi só durante a Primeira Guerra Mundial que começou a ser conhecida, por ter desenhado os fatos de trabalho fabril para as mulheres que substituíram os homens que partiram para combater.Na sua loja, Coco Chanel vendia roupa simples e confortável para mulher e alcançou grande sucesso porque foi de encontro às necessidades da época. A casa Chanel, em cerca de cinco anos, tornou-se numa das mais conceituadas de Paris, graças à introdução de diversas novidades a nível de vestuário. Coco Chanel apresentou roupas mais masculinas para as mulheres, tentando assim torná-las mais livres e independentes.
As suas criações eram tão caras como as da concorrência, mas serviram de inspiração para a confecção, por particulares, de peças acessíveis a quase toda a gente.
Acaba de publicar África, os quatro rios, onde percorre a maior bacia hidrográfica do mundo – Nilo, Níger, Congo e Zambeze – através da literatura de viagens. Um ponto de partida para falar sobre a criatividade de um continente diversificado e jovem.
Já foi um território desconhecido, a estimular as mais exóticas efabulações. Já foi dado como perdido em guerras, fome e doenças. O ensaísta, investigador e programador cultural António Pinto Ribeiro, viajante por natureza e por escolha, conta-nos uma outra África, virada para o futuro e com uma criatividade fecunda. Um percurso que a América Latina fez há algumas décadas.
Porquê o seu fascínio por África?
Há um lado biográfico, já que vivi em Angola e Moçambique e tenho voltado a África muitas vezes. É um continente onde existe, em diversas partes, uma pujança criativa a todos os níveis, nos domínios da ciência, da política, das artes, da economia. Nalguns casos há hoje a constituição de novos paradigmas de conhecimento determinantes que nos ajudam a compreender melhor o mundo.
Onde podemos encontrar essa África contemporânea de que fala?
Há uma enorme diversidade, o que é fascinante e torna tudo mais difícil. A África do norte, de influência árabe e islâmica, e a África subsaariana são completamente distintas. O lado oriental também é muito diferente do ocidental. Na África subsaariana há um movimento semelhante ao da América Latina nos anos 1960. Intelectuais, escritores, artistas, pensadores nos últimos anos começaram a refletir sobre qual é a possibilidade para a África de se distinguir do que foi no colonialismo. Alguns chamam-lhe a descolonização do espírito. São todos países muito recentes, a independência mais antiga é do Gana, de 1958. Foi preciso viver as independências, com o sonho do homem novo negro e das grandes nações africanas, um sonho que na maior parte dos casos se gorou e resultou numa enorme deceção. Passada a fase da deceção e da descrença, a questão é: qual a possibilidade de construirmos os nossos países de um modo diferente do que herdámos do colonialismo e que não seja completamente utópico e irrealista? E começaram por investigar a fase pré-colonial, o que penso que é inteligente.
1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.
2. O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.
3. O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do jornalista divulgar as ofensas a estes direitos.
4. O jornalista deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público.
5. O jornalista deve assumir a responsabilidade por todos os seus trabalhos e actos profissionais, assim como promover a pronta rectificação das informações que se revelem inexactas ou falsas. O jornalista deve também recusar actos que violentem a sua consciência.
Não vale a pena iludirmo-nos: a questão dos incêndios florestais é muito séria. Tanto pelos imensos danos materiais provocados como pelo descrédito induzido na imagem do Estado.
Por muito que alguns, na esfera política, possam não querer aceitar, é uma evidência que está criada, na sociedade portuguesa, a ideia de que a administração do Estado é hoje impotente para gerir, com aceitável eficácia, esta situação, limitando-se a reagir, perante os factos com que se vê confrontada, numa penosa e quase patética navegação à vista.
O executivo faz o que pode: tenta utilizar da melhor forma os meios ao seu dispor, mas já terá percebido que, a repetirem-se, no futuro, conjugações climatéricas negativas, o que não parece improvável, a tragédia vai reeditar-se. No meio de tudo isto, a fé na eficácia tempestiva das alterações legislativas acaba por ser uma atitude quase ridícula. Não que o “pacote florestal” não seja necessário, mas é mais do que óbvio que a sua completa implementação vai demorar um imenso tempo que o país não tem. E, até lá, é preciso agir com medidas urgentes e excecionais, a montante de uma nova crise, com as autarquias e com o governo central na primeira linha da prevenção, aproveitando o que a declaração de calamidade pública agora facilita.
A mais miserável dimensão desta história é a sua exploração político-partidária. Será que alguém, minimamente honesto, acredita que, se acaso a direita estivesse no poder, a Proteção Civil teria sido mais eficaz, o Siresp teria funcionado melhor, outro modelo de responsabilização funcional e pessoal teria levado a resultados diferentes?
Sejamos claros: PS ou PSD/CDS (PCP ou BE quase não contam aqui) são as duas faces da mesma moeda – onde se misturam o aparelhismo e o compadrio político, a instrumentalização partidária dos bombeiros, uma maior ou menor complacência face às negociatas em torno do material de combate aos incêndios. Ter a esquerda ou a direita no poder, nesta questão dos incêndios é, como dizem os franceses, “bonnet blanc/blanc bonnet”. É absolutamente indiferente. Toda a gente sabe isto, de António Costa a Passos Coelho, embora todos façam de conta que não.
Contudo, os incêndios deste ano não foram iguais aos outros. Na dimensão, nas tragédias, no trauma coletivo que provocaram. O Estado, e a confiança no Estado, não saem intocados disto. É aqui que, inevitavelmente, entra o papel do chefe desse Estado, pelo crédito afetivo que hoje o responsabiliza perante o país. No tradicional Inverno do nosso esquecimento que aí vem, compete-lhe ser o provedor do sentimento nacional de urgência e desespero e não permitir que a espuma dos dias seguintes abafe a necessidade de atuar. Já.
Francisco Seixas da Costa
Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa
Un poème que j’ai écrit pour la grande poétesse syrienne Maram Al Masri, mon amie très chére, après une des prémières fois que je l’ai vu et entendu, en lisant sa poésie douloureuse et tragique, en parlant de son bien aimé pays: la Syria. Ici je laisse les deux versions, la portugaise et la traduction.
Eu era muito pequeno, não devia ter sequer 4 anos. Passeávamos na avenida, em Espinho, e, de repente, meu avô materno, republicano, e meu pai, monárquico, tiraram os chapéus e começaram a gritar Viva a Inglaterra! Nunca mais esqueci. Voltei a lembrar-me ao ver o filme Dunkirk. Também a mim me apeteceu dar um viva à Inglaterra. A evacuação das tropas cercadas pelos nazis é um feito histórico incomparável e decisivo para o futuro da guerra. Milhares de civis foram a Dunquerque em barcos de recreio ou de pesca buscar os seus soldados. Governantes, diplomatas e funcionários da União Europeia deviam ver esse filme para recordarem e não caírem na mesquinha tentação de aproveitar as dificuldades provocadas pelo brexit para castigarem a Inglaterra e conseguirem benefícios perversos.
As democracias europeias tinham caído uma a uma. Estaline celebrara com Hitler o pacto germano-soviético. Os americanos, apesar dos esforços de Roosevelt, viviam um período de isolacionismo e pensavam em si próprios. Durante anos, a Inglaterra resistiu sozinha. Lutou no ar, no mar, em terra, pronta a defender a sua ilha, cidade a cidade, rua a rua, como disse Churchill no célebre discurso em que proclamou: “Jamais nos renderemos.” Bateram-se pela sua e pela nossa liberdade. Podem ter muitos defeitos, mas esse é um valor que os ingleses sabem preservar. Não creio que alguma vez permitissem que outra instituição que não o seu Parlamento discutisse e condicionasse o seu orçamento. Por isso jamais aprovariam o tratado orçamental. Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre o brexit, os países europeus têm todo o interesse em manter com o Reino Unido uma relação estável e amistosa. Espero, pelo menos, que Portugal se lembre do papel da Inglaterra em momentos decisivos da nossa luta pela independência. E quando alguém tiver a tentação de cálculos mesquinhos, haja quem não se esqueça dos quase quinhentos mil emigrantes portugueses. Se há matéria de política externa em que Portugal deve ter uma posição própria e autónoma, é a das relações com a Inglaterra, que devem ser ditadas pelos laços históricos entre as nossas nações com uma aliança multissecular. Por mim, não esqueço esses anos terríveis em que a Inglaterra se bateu sozinha por uma Europa livre. Por isso, quando alguns pretendem fazer agora o papel de duros, eu tenho vontade de repetir o grito de meu avô e de meu pai: Viva a Inglaterra!
O ex-embaixador Marcello Duarte Mathias é dos poucos diaristas que têm registado a sua visão sobre os acontecimentos do mundo e a sua correspondência em Portugal.
Era, diga-se, porque desistiu de os escrever. No entanto, publicou recentemente um volume, Caminhos e Destinos, em que recolhe alguns dos seus escritos, uma matéria em muito parecida à que imprimia nos diários, tal é a sua mundivisão. Uma entrevista que é um pretexto para perceber a opinião de um “analista” sobre as grandes questões da portugalidade.
“Só acredito nas coisas depois de as escrever.” Não está com uma atitude demasiado radical contra o entendimento do mundo?
Recentemente, citei uma frase da Virginia Woolf que é assim: “As coisas só acontecem verdadeiramente depois de transpostas para a escrita.” Eu acho que isso é muito característico de quem escreve, pois tem uma dupla vida no sentido em que é testemunha de certas coisas, presencia-as, mas ao passar essas realidades para o papel as situações adquirem uma nova realidade. Ou seja, apoderamo-nos do que escrevemos e do que descrevemos. Dou um exemplo exagerado: se vejo uma exposição de um pintor, se escrevo sobre ele, quando me dizem que há uma nova exposição dele não me interessa, porque já vi, escrevi, estudei e disse o que tinha a dizer sobre ele. Portanto, escrever é apoderarmo-nos, tornar as coisas nossas.
No dia 17 de Agosto de 1962, guardas da Alemanha Oriental matam o jovem Peter Fechter, de 18 anos, que tentava fugir saltando o Muro de Berlim em direcção a Berlim Ocidental.
O incidente de 1962 ocorreu quase um ano após o início da construção do Muro de Berlim. Em Agosto de 1961, as autoridades de Berlim Oriental começaram a estender rolos de arame farpado através da fronteira entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental. Apenas em questão de dias, um muro de blocos de betão era erguido, com guaritas de vigilância. Nos meses que se seguiram, mais arame farpado, metralhadoras, holofotes, guardas fronteiriços, minas e barreiras de betão foram postos, separando completamente as duas metades da cidade. Funcionários norte-americanos, ingleses e franceses condenaram a acção do governo da Alemanha Oriental, mas nada fizeram para evitar a construção.
No dia 17 de Agosto de 1962, dois jovens de Berlim Oriental tentaram escalar o muro e passar para o outro lado. Um deles conseguiu escalar e, embora tenha sofrido vários cortes, conseguiu passar para Berlim Ocidental. Enquanto polícias no lado oeste observavam a cena petrificados, o segundo jovem foi alvejado por metralhadoras cujos tiros partiam do lado oriental. O rapaz caiu mas conseguiu levantar-se novamente, alcançar o muro e tentar a escalada. Mais tiros foram ouvidos. O jovem foi ferido nas costas, gritou e caiu de costas no muro. Durante uma hora, permaneceu estendido, a gritar por socorro.
Uma multidão furiosa de cidadãos berlinenses ocidentais bradava aos homens da segurança oriental para socorrê-lo, porém parecia que estavam contentes em ver o rapaz morrer. Finalmente, ele morreu no próprio local. Os guardas orientais correram então até onde o corpo jazia e removeram-no numa viatura.
Durante a existência do Muro de Berlim (1961 a 1989), cerca de 136 pessoas foram mortas a tentar passar do Leste para o Oeste de Berlim. Os dirigentes da Alemanha Oriental sempre alegaram que o muro foi erguido para proteger o regime e a economia das perniciosas influências da cultura e do capitalismo da Alemanha Ocidental. Os ocidentais respondiam, no entanto, que nos cerca de 30 anos em que perdurou o muro ninguém foi fuzilado tentando entrar em Berlim Oriental.
Em 1997, dois dos guardas que atiraram contra Peter Fechter foram levados a julgamento e condenados por homicídio. Erich Schreiber e Rolf Friedrich tieveram penas de 21 e 20 meses de prisão, respectivamente.
Percebo, mas não aceito. Refiro-me à tendência de muitas pessoas para se desculparem por ter ideias, por falar de livros ou de filósofos, por usar conceitos um pouco maios complexos: «não quero parecer intelectual, nem pretensioso». Um dos males do nosso tempo é justamente a tendência para simplificar o conhecimento, ou evitar certo tipo de prática ou de discurso sustentado pela leitura, pelo debate, pelo pensamento, pelo exercício da língua, só para não parecer «intelectual». Ou, como dizem alguns, «pseudo-intelectual». É a ditadura do pragmatismo e da eficiência, para os quais pensar, especular, é pura perda de tempo. Quem não desenvolve o intelecto – o instrumento mais básico do esforço intelectual – pensa e fala com os pés. Partilhar conhecimento, debater as coisas com substância, nada tem a ver com exibicionismo ou arrogância, que são matéria de outro departamento, matéria partilhada por sábios e por asnos. Mas mal vão os tempos em que é preciso escrever isto.
O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, afirmou na terça-feira que os fogos que começam à noite e em “lugares estratégicos e cirúrgicos” não podem ser de “mão bondosa”, apontando situações de “criação de incêndios”.
“Estou apenas a constatar o que está a acontecer: e não é às 22:30 que nasce um incêndio em Idanha e que podemos culpar o sol e nem são dois incêndios em Vila de Rei, [ocorridos hoje] depois de [o fogo] estar extinto e que aparecem em locais estratégicos e cirúrgicos, que são de mão bondosa”, afirmou.
O governante falava ao final da noite de terça-feira, no Fundão, concelhos onde desde domingo lavra um incêndio de grande dimensão, que tem dizimado Serra da Gardunha e que começou na madrugada desse dia no Louriçal do Campo, no concelho de Castelo Branco.
Um sítio onde, segundo o secretário de Estado, já se tinham registado, anteriormente, 20 tentativas de incêndios, todas apagadas com sucesso, até que “conseguiram o pretendiam”, referiu.
Sempre sem usar a palavra “incendiário”, Jorge Gomes também considerou estranho o fogo que começou esta noite em Idanha-a-Nova, exatamente quando reunia com os responsáveis do teatro de operações no Fundão, ou ainda os dois incêndios registados em Vila de Rei e que não configuram situações de reacendimento.
Questionado sobre se tais conclusões vão levar a tutela a preparar legislação mais dura para o crime de fogo posto, o governante referiu que importa sensibilizar e chamar a atenção dos cidadãos para os próprios comportamentos e também para aquilo que chamou de “mão menos boa”.
Por outro lado, referiu que os exemplos citados, todos no distrito de Castelo Branco, também demonstram que, “quando há vontade de que as coisas ardam”, por “muito bem organizados e instalados” que os sistemas de proteção estejam, “por vezes não conseguem ter capacidade de resposta”.
Confrontado com as queixas e apelos constantes do presidente da Câmara do Fundão, Paulo Fernandes, relativos à falta de meios e necessidade de um “reforço musculado”, Jorge Gomes garantiu que a Proteção Civil está no terreno com a força máxima, mas também lembrou que “os recursos são finitos” e que, por isso, têm de ser geridos.
Enaltecendo o trabalho feito pelos operacionais, bem como pela autarquia local, apontou o comportamento deste fogo e as constantes mudanças de direção como uma das causas para a intensidade que atingiu.
Adiantou ainda que este incêndio tinha cerca de 600 operacionais envolvidos no combate, já provocou 12 feridos, todos ligeiros e oito dos quais bombeiros, mas salientou que nenhuma situação inspira cuidado.
Retirado do Facebook | Mural do Jornal de Notícias
“Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa.” (Antoine de Saint-Exupéry)
418,000 American women and men died in World War II, most of them while fighting fascists, ultra-nationalists, Nazis and neo-Nazis. To speak of neo-Nazis and Nazis and KKK members marching in Charlottesville as having a valid and legitimate “philosophy” and value system – equal to those who oppose them – is an insult to all those dead American soldiers who fought to liberate France, Italy, Germany and the rest of the Europe. Yes, Trump has insulted 418,000 dead American soldiers and their families and friends, as well as everyone else, like me, who greatly respects and thanks the sacrifice they made. It is also an insult to every African-American and Jew. Tens of millions of Africans were tormented and tortured as slaves from the early 1600s up until the end of the Civil War, and then, after they were granted freedom, persecuted and hounded by White nationalists and even the police right up until the present day. Every American who died in World War II and every lynched African American and every Jew murdered in the Holocaust is telling us us that there is no place in America for neo-Nazis, Nazis, KKK segregationists and White Nationalists. Trump and his friends cannot hear the dead who are crying to be heard. Can you?
A mulher, embora queiram fazer dela
um jardim, é uma floresta que não pertence
a ninguém. Res nullius. E o seu sexo,
embora o queiram preencher em cada momento,
é para sempre um locus neminis, um lugar
de ninguém. De passagem, sim: eu passei por lá,
quando nasci
e ficaram saudades, e por isso regresso
sempre que posso. Afável, acolhe-me; outras vezes
fecha-se ou morde e não me deixa morrer no paraíso.
Que bom saber tão pouco do seu mistério
e viver à sombra desta delicada ignorância!
E porque não sei, e porque não aprendi
e não me podem ensinar,
vou sempre regressando em busca desse graal
infinitamente perdido
em lugares inóspitos e outras vezes
amenos: na mais delicada
das florestas. Ou é
um jardim?
Il y a toutes les femmes, et puis, il y a quelque chose d’autre qui te donne envie de défoncer des tableaux et de casser des disques de Beethoven sur le couvercle des chiottes.
A mais bela versão de uma das mais perfeitas músicas. Fausto e Zeca, que mais se pode dizer? Magistral. Do álbum “P’ro que der e vier”, letra de Eugénio de Andrade e música de António Pedro Braga e Fausto Bordalo Dias.
Volta e meia deparo aqui no face com posts a desancar na escassez de neurónios do género masculino e no total desinteresse que a minha espécie merece da raça contrária. Para além disso, uma parcela das autoras dos referidos posts colocam-se num pedestal e arvoram-se em virgens ofendidas, alardeando aos sete ventos que andam a ser convidadas para isto e para aquilo. Pessoalmente, já recebi vários convites para cafés ou jantares. A todos disse uma simples palavra – não. E não me senti na pele de virgem ofendida. Que não sou, nunca fui nem pretendo ser. Servem estas linhas para uma leve lembrança a essas falsas beatas, catequistas arrependidas e santinhas de altar – isto é uma rede social, um canal aberto, onde aparece de tudo, inclusive prostituição descarada e gajos menos bem formados, é verdade. Basta pô-los no lugar e, se necessário, bloqueá-los. Sendo o inverso também verdadeiro. É tão simples como isso. Lembremo-nos também que essa coisa de ser gajo e andar no mercado é muito bonita, mas é tudo menos fácil.
Depois de os dinossauros terem ido à vida, os processos de extinção tornaram-se moda. Tem sido um processo lento, mas inexorável. Parece que uma chuva de meteoros se abateu gradualmente sobre a Terra, acabando com os poucos prazeres que nos restavam. E não tenhamos dúvidas que uma das principais vítimas deste cataclismo tem sido a gastronomia. O que resta da bela gastronomia portuguesa, que fazia as delícias de qualquer gajo que se prezasse, que tinha o condão de transformar pesadelos em sonhos, que salvou, enfim, um sem-número de matrimónios? Quem ignora que o caminho mais curto para o coração de um homem passa através do seu estômago não sabe nada da vida. Por exemplo, antigamente um gajo deliciava-se com uma parrilhada de marisco. Tinha direito a tudo – sapateira, santola, gambas, navalheiras, amêijoas, mexilhão, percebes, polvo… enfim, era um fartar-vilanagem. Agora não. Vem para a mesa um mini-risotto de marisco e um gajo paga e não bufa. Ou melhor, paga para ver, que é para o que a comida gourmet serve. E que dizer do belo bacalhau à Zé do Pipo? Um gajo comia até cair para o lado! Agora pede-se bacalhau e levamos com uma lasca gratinada com legumes… Nem sequer é bom falar do opíparo cozido à portuguesa. Enfardar uma bela de uma farinheira, uma morcela, um chouriço, pernil, toucinho, tudo misturado com dois quilos de legumes lá da horta, isso agora só nos filmes a preto e branco. Um gajo senta-se, pede um cozido gourmet e lá vem um quarto de rodela (fininha…) de morcela, uma caganita de carne, três feijões, paisagem (pouca…) e uma factura de 50 euros. E que dizer de umas migas com ovos escalfados? Isso era quando um gajo engolia quatro ovos misturados numa panela recheada de delícias que enchiam a alma. Agora pedem-se migas e leva-se com meia dúzia de migalhas estrategicamente espalhadas pelo prato, misturadas com uma coisa verde, outra vermelha e um ponto de interrogação azul, para dar mais cor à coisa. Enfim, resta-me esperar que caia um meteorito (dos grandes…) na próxima conferência anual de chefs…
«Adultério» significa relação sexual voluntária entre uma pessoa casada e alguém que não é o seu cônjuge – e é a principal causa de divórcio em todo o mundo (em Portugal há 89 casamentos e 82 divórcios por dia). Porém, a história do adultério passa também pelos grandes mitos e histórias consagradas pela literatura, pela religião, pelo cinema, pela música e pela pintura. Da Bíblia (Abraão trai Sara com Agar) às peças de Shakespeare, das cantigas medievais a Madame Bovary ou Os Maias, do Império Romano às tramas políticas da América contemporânea, das histórias dos nossos reis e rainhas aos escândalos de Hollywood e da cultura pop, do Ulisses a O Primo Basílio, das traições dos deuses gregos à vida dos nossos vizinhos – o adultério é um elemento decisivo da história sentimental da Humanidade.
Tem a ver com a traição e com a paixão, a tentação ou a alquimia sexual, o prazer do risco e o desejo sem ordem nem lei – mas também com o amor. E com a sua natureza frágil. Este dicionário não faz «moral» nem «defende o adultério» – é um guia tão erudito como divertido da história do adultério ou das paixões e seus escândalos e transgressões.
Intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de “O pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, morreu em 19 de fevereiro, aos 84 anos; “O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis”, diz Eco.
A Revista Samuel reproduz o texto de Umberto Eco “Ur-Fascismo”, produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa.
‘O Fascismo Eterno’
Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.
Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.
Moral, razão e ficção. Não sou um consumidor regular de televisão, mas consumo séries, de preferência históricas. O mundo desses espectáculos é o de heróis e mártires, de santos e vilões. Pretendem colocar o cidadão comum fora do palco da vida. Eu gosto de heróis e vilões em conflito com mártires e santos, aceito a alienação e admito-a (que remédio!). Era aqui que pretendia chegar depois de ter visto alguns episódios de uma série internacional : Os Médicis ; e de uma série portuguesa: Madre Paula. Ambas as séries nos levam às antecâmaras do poder. Do poder absoluto, que é o único.
As peripécias são emocionantes, os cenários e os guarda-roupas magníficos. Somos fascinados e encadeados. Somos alienados. O mal é deliberadamente apresentado como um banquete sumptuoso. Se repararmos, os mais abjectos e criminosos actos são-nos servidos (impingidos) como factos aceitáveis. Um assassínio, um incesto, uma violação, uma traição, uma tortura, um roubo, uma guerra particular, um tráfico, um envenenamento, um massacre são meras e normais acções de exercício do poder, ou da sua conquista, realizadas por quem está a jogar um jogo dentro das suas regras, fora do mundo dos cidadãos comuns.
Mostra-se nos canais de TV os incêndios horas e horas a fio. Procura-se descoordenações, falta de meios, falhas de equipamentos, faltas de todos os tipos.
Porém, ninguém se interroga, por exemplo, como se justifica esta imensa onda de fogos postos a que estamos a assistir. Quem está por detrás dela, tão vasta e espalhada pelo território nacional ela é. As televisões ficam-se pelo fácil, pela exibição alarve e acéfala dos incêndios.
Porque será que a origem da onda de fogos postos de dimensões nunca vistas não interessa às televisões? Por que motivo as reportagens, as notícias, se ficam por aí?
Todos sabemos que o fogo é um imenso negócio, pelo qual lutam consórcios de várias empresas. Há interesses poderosos organizados em torno do combate aos fogos.
Mas pelos vistos interessa que se esqueça as muitas dezenas de incendiários presos, a origem criminosa dos incêndios e a cobertura apenas se foque nos incêndios propriamente ditos, como de fossem obra de Deus. Ou do Diabo.
É isso, isto deve ser obra do Diabo…
Zé-António Pimenta de França
Retirado do Facebook | Mural de Zé-António Pimenta de França
Religiosa portuguesa, Paula Teresa da Silva e Almeida, a mais célebre amante do rei D. João V, nasceu no ano de 1701, em Lisboa. Neta de João Paulo de Bryt, antigo soldado da guarda estrangeira de Carlos V e, mais tarde ourives em Lisboa, Paula Teresa entra, aos 17 anos, para o convento de Odivelas. Depois de um ano de noviciado, aí professa.
Por sua vez, D, João V, frequentador do convento de Odivelas onde tinha várias freiras amantes, que ia substituindo
conforme lhe parecia, uma vez topou com a soror Paula. Nessa altura, já a formosa freira era amante de D. Francisco de Portugal e Castro, conde de Vimioso e que recentemente havia sido agraciado com o título de marquês de Valença. Mas isso não constituía obstáculo à inflexível vontade do soberano que, chamando à parte o fidalgo lhe propôs: “Deixa a Paula que eute darei duas freiras à escolha”.
Há muito que escutamos indiscutíveis lições a ensinar-nos o quão saudáveis são as privatizações para o nosso tecido económico, enquanto elas vão progredindo, tomando conta de tudo.
Todos os dias, em ambiente de acrescida e assustadora indiferença, somos testemunhas de fenómenos absurdos que gradualmente se vão inserindo, com anormal normalidade, num quotidiano cada vez mais em marcha – assim proclamam os tempos – que se acha moderno, inovador, de tal maneira prafrentex que até há quem goste de lhe chamar «progressista».
Isto por contraponto inquestionável ao «conservadorismo» de quem continua a defender que o ser humano deve ter direitos e não apenas deveres, uma vida decente e não uma servidão que alimente os números das estatísticas e os valores dos lucros ditados pelos sumos-sacerdotes do mercado.
É a «democracia moderna», sentenciam alguns que ganharam colunas de «referência» em observadores expressos e todos privados, embora alguns se digam públicos, correios, diários i jornais das notícias da manhã, da tarde ou da noite, todas iguais, mais ou menos polidas, por regra contaminadas pela verve do engano, pelo vírus da falsificação.
Nunca se explica muito bem o que é essa «democracia moderna», talvez porque faltem artes mágicas aos colunistas para convencerem leitores, ouvintes e espectadores de que é marchando em rebanho para a ditadura que se moderniza a democracia. Por isso navegam discorrendo com impagável sabedoria pelos pântanos daquilo a que chamam política, uma lama fedorenta e repugnante a que os cidadãos devem fugir cada um por si para tratarem do que é seu, entregando-se aos deuses ou à sorte, o que vem a dar no mesmo.
O copiloto do Enola Gay, Tenente Robert A. Lewis, ao ver as dimensões do “cogumelo atômico”, gritou:
– Deus do Céu! Olhem só para aquela filha da puta!
Ao escrever nos seus registros, no entanto, acho que tal expressão não ficaria bem nos livros de história, e escreveu outra frase: “Meu Deus, o que fizemos?”
Quando em 1938 Thomas Mann chegou aos Estados Unidos, fugindo ao nazismo, deu uma conferência de imprensa em que disse: «Onde eu estiver, está a cultura alemã».
Logo houve quem atribuísse esta frase a uma grande dose de arrogância e a simpatia com que foi recebido ficou claramente moldada pela impressão assim causada. Foi necessário esperar alguns anos para que essa frase fosse explicada pelo seu irmão mais velho, Henrique, quando nas suas memórias se refere ao episódio e o explica com a frase de Fausto: «Aquilo que de teus pais herdaste, merece-o para que o possuas».
Não fora, pois, arrogância mas sim um profundo sentido de responsabilidade que levara o escritor a identificar-se daquele modo com a sua própria cultura. O conhecimento do que outros fizeram antes de si já levara Hölderlin (1770 – 1843), o poeta atacado de mansa loucura, a afirmar que «Somos originais porque não sabemos nada».
Em 1518, Ulrich von Hütten (1488-1523), companheiro de Lutero, escrevia a um amigo que, embora fosse de origem nobre, não desejava sê-lo sem o merecer: «A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza e bebo dessa nascente. A verdadeira nobreza é a do espírito por via das artes, das humanidades e da filosofia que permitem à humanidade a descoberta e reivindicação da sua forma mais elevada de dignidade, aquela que faz distinguir a pessoa daquilo que também é: um animal.»
Ou seja, a nobreza conquista-se, não se adquire por via hereditária. Afinal, era isso que Mann significava quando chegou à América …
Um romance maduro sobre homens e mulheres, casamento e infidelidade, desejo e amor. A solidão entre duas pessoas e o que ficou por dizer depois do adeus.
Numa viagem ao mundo do erotismo, descobrem que tudo se resume ao desejo ou à falta dele. E num diário de emoções íntimas, quatro casais, oito personagens, falam na primeira pessoa do que sentem dentro de si e em relação aos outros. Concluem que, cada um à sua maneira, todos acabaram por ser infiéis: por actos, pensamentos ou omissões. Um pecado que lhes valeu o castigo de não serem felizes para sempre.
Mas o que os faria felizes? Não sabem. Estão presos aos segredos do passado e aos medos do futuro. Por isso o espelho reflecte homens frágeis, acomodados e instintivos; Mulheres emocionalmente imaturas, reprimidas e artificiais.
Com vidas entrelaçadas, cada um escreve no diário a sua viagem pelo mundo do sexo, do desejo, do pudor, do egoísmo, do amor-próprio, do envelhecimento, do sonho e da morte… enfim, a matéria-prima da qual se faz a vida de gente banal. “Sobre nós ninguém escreverá um romance”, diz um dos personagens.
——
“Por vezes despir um pouco o corpo ajuda a vestir a alma (…) a lingerie tapa sempre demasiado e mostra sempre em demasia. E, entre extremos, levanta o véu da imaginação masculina, o que torna as mulheres mais desejáveis.
Excitar não é excitante?…”
João Morgado
In: Diário dos Infiéis
Romance, Casa das Letras
“Parece o argumento de um filme mas trata-se de algo real: o clube Bilderberg, que se reúne há 61 anos, congrega as individualidades mais poderosas do mundo e aqueles que um dia serão altos dirigentes”, afirma a TVI numa reportagem sobre o livro O Clube Secreto dos Poderosos, da jornalista Cristina Martín Jiménez. Esta sevilhana explica que os membros do Bilderberg “têm o poder como ideologia” e implementam “planos secretos para governar o mundo inteiro, destruindo gradualmente as soberanias nacionais e tirando aos países a capacidade de decidir. Desde o 25 de Abril que os portugueses estão muito alheados do que realmente se passa e muito dependentes dos políticos, que promovem certas pessoas e outras não. A crise terá sido fabricada entre quatro paredes para dar mais poder a quem já o tem.”
“José Sócrates foi ao Bilderberg um mês antes de ser líder do PS e um ano depois ganha as eleições legislativas. Quando eles vêem que alguém se pode destacar chamam-no e, se passar no teste, terá todo o apoio de Bilderberg”, garante Cristina Jiménez, recordando que António Costa é também – tal como Sócrates – outro servo das elites políticas, tendo ingressado no Bilderberg em 2008.
O vídeo acima inclui a entrevista que a escritora deu à revista Sábado.
Na manhã de 29 de Julho, os telespectadores da SIC Notícias tiveram durante alguns minutos acesso à verdade, dita pela jornalista do jornal Expresso e da revista ExameElisabete Tavares. A propósito da actual (e permanente) crise política, a jornalista afirmou que “os partidos não existem para nos servir, nem para servir a economia nem o país. Servem muitos interesses, desde sociedades secretas ao sector financeiro, e cada um tem os seus lobbies. Tem de existir uma mudança de mentalidade profunda na forma como o país é pensado, gerido e governado. Não é para se servirem interesses, lobbies, o sector financeiro ou interesses obscuros; nem para andar ao sabor dos partidos e das eleições. Os portugueses terão de agir: sejam jornalistas, professores, médicos ou polícias, já não basta só criticar.”
“Há que reformar e pensar no futuro, no tecido empresarial, pensar mesmo a sério onde é que queremos investir. Temos de mudar o sistema de educação que é uma aberração. Temos de mudar o sistema de saúde que apenas ‘trata’ a doença – não temos nenhuma medicina preventiva. São custos brutais, milhões dados às farmacêuticas.”
Como exemplo da manipulação praticada pelos partidos políticos, Elisabete Tavares falou sobre muitos dos comentários, supostamente deixados por leitores casuais, em sites de notícias como o do próprio Expresso: “alguns partidos têm comentadores pagos só para irem lá comentar se as nossas opiniões não lhes forem favoráveis. É este o país que queremos? É este tipo de ética que queremos? Estas coisas têm de ser ditas.”
ANNIVERSAIRE | Le 8 août 1945, Albert Camus est le seul intellectuel occidental à dénoncer l’usage de la bombe atomique deux jours après les attaques sur Hiroshima dans un éditorial de Combat resté célèbre. En voici le texte intégral.
Le monde est ce qu’il est, c’est-à-dire peu de chose. C’est ce que chacun sait depuis hier grâce au formidable concert que la radio, les journaux et les agences d’information viennent de déclencher au sujet de la bombe atomique. On nous apprend, en effet, au milieu d’une foule de commentaires enthousiastes que n’importe quelle ville d’importance moyenne peut être totalement rasée par une bombe de la grosseur d’un ballon de football. Des journaux américains, anglais et français se répandent en dissertations élégantes sur l’avenir, le passé, les inventeurs, le coût, la vocation pacifique et les effets guerriers, les conséquences politiques et même le caractère indépendant de la bombe atomique. Nous nous résumerons en une phrase : la civilisation mécanique vient de parvenir à son dernier degré de sauvagerie. Il va falloir choisir, dans un avenir plus ou moins proche, entre le suicide collectif ou l’utilisation intelligente des conquêtes scientifiques.
En attendant, il est permis de penser qu’il y a quelque indécence à célébrer ainsi une découverte, qui se met d’abord au service de la plus formidable rage de destruction dont l’homme ait fait preuve depuis des siècles. Que dans un monde livré à tous les déchirements de la violence, incapable d’aucun contrôle, indifférent à la justice et au simple bonheur des hommes, la science se consacre au meurtre organisé, personne sans doute, à moins d’idéalisme impénitent, ne songera à s’en étonner.
Está visto que os esquerdistas querem todos a mesma coisa: que a dívida do país seja perdoada. Agora, até arranjaram um reforço de peso, um tal Kenneth Rogoff, um economista norte-americano, que deve ter na mesinha de cabeceira a foto da Catarina Martins.
Pois não é que o tal Rogoff deu uma entrevista ao Expresso, publicado na edição de papel este sábado, dizendo que, na resposta à crise iniciada em 2008, “o erro maior foi a Europa e o FMI (…) terem recusado o perdão ou a mutualização das dívidas da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha”? É preciso topete! Então aos credores, aos que nos ajudaram, aos que meteram cá dinheiro, não lhes devíamos ter pago?! Onde é que já se viu empréstimos a fundo perdido? Isso é o que a Catarina Martins quer e o Francisco Louçã e a Mariana Mortágua e mesmo aquele Pedro Nuno Santos, do PS. E agora temos este Rogoff a dar-lhes cobertura. É comuna, de certeza.
Embora o termo democracia esteja enevoado pelas meninges dos Assizes desta vida, democracia quer dizer “poder do povo”. E este só consegue ter poder quando oitenta por cento dele não está na miséria.
Comecemos com uma pequena história. Era uma vez uma familiar minha que trabalhava numa importante organização internacional. Essa delegação era dirigida por um funcionário da ONU, por mandatos de alguns anos. No início dos anos 80, esse diretor foi substituído. O homem, antes de vir viver para Portugal, mandou um telex a perguntar “se havia comida em Lisboa e produtos nas prateleiras dos supermercados”. Apesar dos esclarecimentos dados de cá, ele que tinha visto, durante anos, horas de notícias sobre a situação de guerra civil em Portugal nas televisões, aterrou no Aeroporto de Lisboa com as bagagens pejadas de latas de comida. Durante os anos da revolução portuguesa, a comunicação social falava que Portugal estava a ferro e fogo, que escasseavam bens de primeira necessidade, que andavam conselheiros cubanos pelas matas a preparar a guerra civil e que o país vivia numa ditadura militar comunista.
Pelo menos nas redes sociais, este artigo, «Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas em Lisboa», gerou uma grande celeuma. Alguns críticos reagiram com elevação e pertinente sentido crítico, outros nem tanto, reagiram mais com profundo sectarismo. Não vou aqui debruçar-me sobre todas as críticas e muito menos responder a todas elas. Esta é, pois, uma resposta às críticas de que me recordo, que reputo mais pertinentes e feitas com maior elevação e menor sectarismo. E tal como nas razões para não votar em Medina, também na resposta aos críticos me fixo no número mágico de sete respostas. Claro que houve também muitos elogios, por exemplo aqui, mas desses não me ocupo aqui.
Um primeiro lote de questões críticas dizia respeito à eventual instrumentalização do artigo e dos argumentos pela direita. É uma crítica pertinente, pois pode acontecer e terá até já acontecido…, mas tal não pode ser razão para calarmos a nossa voz perante o que está mal, do nosso ponto de vista, genuíno e consciente.
Uma segunda linha de críticas tinha a ver com eu parecer desejar que a oposição (de direita) estivesse forte, e quiçá ganhasse. Quem ler o ponto sete verá que não é isso, mas de qualquer modo a valoração (que efetivamente faço) de uma oposição forte e com capacidade de escrutínio, seja ela de direita ou de esquerda, é algo que creio que deve ser feito por todos os democratas, pois uma oposição forte é uma condição sine qua non do bom governo.
Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.
É preciso que o PS perca a maioria absoluta e tenha de negociar com forças com efetivo e conhecido peso político-eleitoral.
Há um principio básico em democracia, a prestação de contas. O caso do PS/Medina, em Lisboa, aponta em sentido oposto. Ao fim de 10 anos no poder, 2007-2017, estão a fazer todas e mais alguma obra(s) no final do terceiro mandato, como se tivessem chegado anteontem, e tornando a vida dos eleitores num inferno, e uma série de coisas que deveriam ter feito até aqui… prometem-nos agora para o futuro… precisarão de mais 10 anos? Claro que é improvável que percam as eleições em Lisboa, desde logo porque a comunicação social anda praticamente “com ele(s) ao colo”. Depois porque as forças partidárias à direita estão de cabeça perdida, e nem fazem oposição que se veja, nem apresentam alternativas sérias e construtivas. Mas seria desejável que recebessem pelo menos um bom castigo eleitoral que os levasse a perder a sobranceria da maioria absoluta atual, tendo de negociar um acordo político com outro(s) partido(s). Pela minha parte, passo a apresentar sete razões para isso.
1. Um eleitoralismo nunca visto e a vida dos lisboetas num inferno
A cidade de Lisboa está um inferno dadas as mil e uma obras praticamente iniciadas todas no último ano de mandato, ao fim de dez anos. Vejamos: têm sido as inúmeras obras no eixo central (Avenidas da República e Fontes Pereira de Melo, Praça do Saldanha e Picoas); há o programa “pavimentar Lisboa”, que pretende recuperar os pavimentos para peões e automóveis em 150 ruas; tem sido o programa “uma praça em cada bairro” que obrigará a 31 intervenções em múltiplas zonas; etc., etc. Mostrar trabalho feito em anos de eleições é algo positivo em democracia, algum eleitoralismo é até quiçá positivo, sempre existiu e existirá, mas este nível desmesurado de eleitoralismo, que tem tornado a vida dos lisboetas e seus visitantes muitíssimo desagradável, nunca se tinha presenciado, e é claramente pernicioso. Para um partido que está há dez anos no poder fazer tantas obras no décimo ano de mandato, várias questões se colocam. Será mau planeamento? Será má gestão? Estarão a extravasar o mandato político de 2013? Qualquer resposta positiva é um problema, teme-se que sejam todas.
Vou tentar comentar a sério as declarações da Cristina Ferreira. A sério, sem me rir, o que é difícil. Embora a Cristina Ferreira não queira saber das meus comentários para nada, e faz ela bem, atrevo-me a sugerir-lhe que, antes de escrever aquelas coisas, leia, pelo menos, Henry Miller: “Sexus”, Plexus” e “Nexus”. Podia ainda adicionar outras sugestões, mas a leitura deste monumento literário já chegaria para a Cristina não escrever “Quando chegares a casa quero que me comas contra a parede”, e, em vez desta patetice do “comer”, chamar os bois pelos nomes. É que “comer” é da família da queca e da pilinha, e de tudo o que remete a mau sexo. O que surpreende (a mim) é, não só a falta de qualidade da linguagem, que a Cristina quer picante, mas que lhe saiu só baixa e sem sal, de meia tesão, sem o obsceno, ainda que insinuado, que é a tesão toda, como a expressão de desejo quase a medo, de fantasia iniciática, pouco mais que adolescente, em clichês, como se estivesse a partir a loiça toda na expiação do motel, essa área de serviço reservada à experimentação de “coisas novas”, não exatamente novas, entenda-se, mas a estrear na prática para quem nunca as fez. E fiquei eu assim na surpresa desta descoberta da sexualidade numa moça que está a abrir as portas da meia idade. Moça ocidental, emancipada e independente, que disto tudo, ao menos, tem uma certeza:”devagar sabe melhor”. Bom, Cristina, velocidades à parte, não basta ter um Ferrari, é preciso saber guiá-lo, do contra a parede ao contra o tecto, é capaz de haver um bocado para andar… E foi tão bom, que os vizinhos acenderam um cigarro.
E, com esta qualidade de influência na opinião pública, nunca mais nos livramos dos 900 anos de recalcamentos que é a nossa História.
Ensinar o invisível. Frases que encontramos e levamos sem a princípio sabermos porquê. Estava a preparar os textos para a contracapa e as badanas do meu próximo romance que está nas artes finais. Como resumir numa folha A4 o que me levou dois anos de escrita e resultou em quase meio milhão de caracteres? Como preparar a resposta às perguntas dos jornalistas ou dos leitores: Então, caro Carlos Vale Ferraz, do que trata este seu livrinho com o título «A última viúva de África»? Quem é esta viúva? Que viuvez é esta? O que pretende transmitir aos leitores? Como se integra este romance no conjunto da sua obra?
Em resumo, preparava a resposta à interrogação: O que anda o Carlos Vale Ferraz a querer transmitir quando escreve, sejam romances sejam artigos avulso e encontrei no jornal El País a frase «Ensinar o invisível» associada a um artigo sobre um projecto de educação intitulado «Pedagogías Invisibles» do departamento de didática da faculdade de Belas Artes da Universidade Complutense, de Madrid.