Os 4 avisos de D. Pedro: 600 anos de atualidade | António Valdemar in Jornal Público

Volvidos 600 anos, após a Carta de Bruges, perduram as lacunas, os defeitos, os vícios que inviabilizam perspetivas para impedir os desgastes da rotina e estagnação.

A vocação da política do Atlântico e da política da Europa voltam a estar na ordem do dia e constituem tema de debates nacionais e internacionais. A descolonização (inevitável mas tardia) e a entrada (necessária e urgente) na União Europeia recolocaram, uma controvérsia que tem percorrido os séculos, que dividiu e continua a dividir henriquistas e pedristas.

Todas as homenagens foram prestadas ao infante D. Henrique mas está por fazer a reparação devida à memória de D. Pedro, traído e assassinado, às portas de Lisboa, o cadáver, entregue à voracidade dos cães e dos milhafres, a apodrecer dias e dias seguidos, nos campos de Alfarrobeira. Só muito depois teve sepultura, ao lado dos pais e dos irmãos, na Capela do Fundador, no mosteiro da Batalha.

Ínclita geração de altos infantes assim celebraram Os Lusíadas, os filhos legítimos masculinos de D João Iº e de Filipa de Lencastre. Além deste verso emblemático, Camões tem outras referências ao Infante D. Henrique e ao Infante D. Pedro, ambos classificados de «generosos», na aceção peculiar atribuída a esta palavra, entendida como genuína estirpe e elevada linhagem. Mas Fernando Pessoa, na Mensagem, já definiu particularidades que singularizaram cada um dos infantes. D. Henrique, surge n’A Cabeça do Grifo «entre o brilho das esferas/ tem aos pés o mar novo e as mortas eras,/ o globo mundo em sua mão». D. Pedro, o infante das «sete partidas», destaca-se «fiel à palavra dada e à ideia tida,/ claro no pensar e claro no sentir/e claro no querer/indiferente ao que há em conseguir/que seja só obter».

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A Revolução de Outubro de 1917 comemora 100 anos | Tiago Barbosa Ribeiro

A Revolução de Outubro de 1917 comemora 100 anos. Entre alocuções apologéticas e críticas anti-comunistas, há espaço para uma celebração simbólica e afectiva no campo das esquerdas – porque a Revolução é património das esquerdas – e há também espaço para uma fervilhante reflexividade em muitas iniciativas académicas e culturais que tenho visto ao longo dos últimos dias. É bom que assim seja.

A Revolução de Outubro, a «mãe» das revoluções, foi objectivamente o acontecimento mais marcante do século XX. O seu impacto mudou a geopolítica da Humanidade. Foi um «game changer» tão grande como a Revolução Francesa, em relação à qual falar do «grande terror» parece – porque é – um anacronismo face ao que significou no curso da história. Obviamente que a segunda revolução de 1917, a bolchevique, resultou de uma conjugação de factores e não da acção mitificada de um grupo de homens que muitos acasos poderiam não ter permitido. Mas permitiram: os acontecimentos do final do século XIX, as aprendizagens da Comuna de Paris, a «revolução» de 1905, a Primeira Guerra Mundial, a «guerra imperialista», o desequilíbrio entre o Governo Provisório e os Sovietes, em especial o de Petrogrado, o exílio bem sucedido de Lenine, a Revolução de Fevereiro, a acção resoluta dos bolcheviques na tomada de poder em Outubro (na realidade, Novembro), a teorização orgânica do marxismo por esse brilhante estratega político que foi Vladimir Ilitch Ulianov, Lenine, um grande conspirador, um operacional e um teórico da revolução operária.

A Rússia da época não tinha o «húmus» social que Marx e Engels previram para a insurreição proletária no fio do materialismo histórico: viam-na em países do capitalismo industrial avançado, em especial a Inglaterra e a Alemanha do Kaiser. Mas as coisas são o que são ela irrompeu naquele contexto histórico preciso, criando ondas de choque que perduraram e ainda perduram.

Na Rússia dos czares, um império que então ocupava 1/6 do planeta, com uma população analfabeta e pobre, foi possível derrubar uma dinastia opressora com 300 anos e abalar os alicerces – políticos, sociais, económicos, militares – do mundo moderno. Depois de uma das guerras civis mais sangrentas da história, os bolcheviques triunfaram e criaram o primeiro «Estado proletário» com a socialização efectiva dos meios de produção, servindo de «farol do socialismo» para experiências em todo o mundo. Em pouco tempo, a Rússia passou de um país-continente feudal para uma das maiores potências mundiais.

Não é possível postular como teria sido se Lenine não tivesse desaparecido precocemente ou se Trostky não tivesse sido assassinado. Talvez o PCUS não tivesse feito a «desestalinização» no seu famoso XX Congresso nem fosse necessário, mais tarde, derrubar uma Cortina de Ferro. Mas também não teríamos tido o Exército Vermelho a dar um contributo decisivo para a derrota dos nazis, só para dar um exemplo, nem tão pouco existiria uma URSS a exercer força gravitacional para o desenvolvimento dos Estados Sociais no Ocidente ou para a emancipação das velhas colónias europeias. Mesmo as dissidências «sessentistas» ou as revoluções dos trópicos, desalinhadas da burocracia mecânica do leste, não existiriam sem referência ao ideal fundador de 1917.

A história é o que é. Para lá de todas as disputas que o tempo presente ainda convoca, Outubro é uma das chaves do século XX e uma das marcas mais poderosas da história do movimento operário. Emancipadora, pois claro, no contexto que a permitiu e a consolidou. Celebre-se, pois.

Tiago Barbosa Ribeiro

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Barbosa Ribeiro

Carlos Matos Gomes | A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

As peripécias a propósito das chamas do incêndio de fervor nacionalista que percorre a Catalunha (mais Barcelona e menos Catalunha), é um espectáculo de fogo de artifício.

Acender a fogueira nacionalista e atirar-lhe petróleo como estão a fazer os líderes da rebelião de Barcelona constituem técnicas clássicas de golpe de estado, técnicas de conquista do poder por parte de um grupo organizado para o tomar. Curzio Malaparte demostrou que o assalto ao poder, que é do que se trata em Barcelona, não tem que ser necessariamente violento, muitas vezes basta um grupo de tipos determinados e sem escrúpulos apoderar-se de certas instituições para as confrontar com o aparelho do Estado, uns demagogos excitarem as massas com os temas que sempre as mobilizam: a liberdade em primeiro lugar. Palavra estandarte de todos os chefes populistas, condimentada com uns excitantes também eficazes de história: Patriotismo e Traição qb! Demagogia e populismo com todas as letras, a que podem juntar-se doses maiores ou menores de provocação e agitação.

O nacionalismo catalão e a atual urticária independentista é muito fácil de explicar: Após o fim da ditadura franquista e do desmantelamento do seu aparelho repressivo, um grupo de senhoritos locais, depois de bem seguro e certo da ausência de perigos materiais e físicos (são de pouca coragem e muito desplante), aproveitou a cómoda situação para se chegar ao poder içando a bandeira do nacionalismo catalão, o que incluiu até a tomada do poder no Barcelona clube de futebol, as manobras que levaram os jogos olímpicos a Barcelona, a imposição de um esquecido dialeto local como língua nacional, entre outras.

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Catalunha | Ponto da situação | Carlos Matos Gomes

Deixem-me fazer um ponto da situação para me situar contra os bem intencionados que acreditam que é a bondade e a maldade que determinam as ações politicas. Abençoados. Mas não pertenço a essa confraria de crentes. Tenho muito respeito por aqueles que falam em povo – no caso povo catalão; como há uns tempos Jardim falava de povo madeirense, como no Estado Novo éramos tratados: Bom povo. Tenho, ao contrário desses apoiantes do povo as mais sérias dúvidas sobre o conceito de povo e as mais sérias desconfianças quando me falam na vontade do povo.
Quanto à vontade do povo, não acredito nela, acredito na convergência de interesses e de percepções que se podem traduzir numa ação com uma resultante numa dada direcção. Acredito que grupos de interesses organizados e com os meios adequados podem condicionar e quase sempre condicionam e determinam aquilo que surge como vontade popular.
As votações em representantes de partidos parece-me bastante mais fiável do que referendos. Os partidos têm uma história, têm dirigentes que podem ser responsabilizados pelas propostas, têm um passado e um futuro. Pelo contrário o referendo é facilmente manipulado, não responsabiliza os seus proponentes. O referendo traduz apenas o presente. Pode não ser filho de pai incógnito, mas é de certeza um filho entregue ao Deus dará. Como o Brexit tem demonstrado.
Dito isto, não acredito na “vontade” de independência do “povo” catalão. Considero que os proponentes do referendo da independência da Catalunha são golpistas demagogos, como a fuga deles no dia seguinte à dita declaração prova e incompetentes por não terem qualquer plano de resposta à mais que previsível negação dos seus adversários. Gente sem plano contra o inimigo, sem amigos, sem coragem para lutar e sem carisma para conduzir os seus seguidores.
Se o Cristo fosse como o Puigdmont, o cristianismo tinha acabado com uns copos e uns vivas na Última Ceia!

Carlos Matos Gomes 

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

Sombras | Francisco Louçã e Michael Ash | Prefácio de Eduardo Lourenço

Prefácio de Eduardo Lourenço a “Sombras”

Um sonho para a Europa?

À “Maldição de Midas” consagrou, em tempos, Francisco Louçã, político e economista, um ensaio, ao mesmo tempo literário e sociológico, que fez data. À sua óbvia perspectiva de economista associou uma rara preocupação cultural, como se fosse seu propósito converter a famosa “maldição” no romance ocidental do enigma da condição humana biblicamente condenada no papel demoníaco que a humanidade, desde a origem, reservou ao culto idólatra de si mesma no mítico “bezerro de oiro” incarnado.

Vinte anos mais tarde é a versão, hoje em dimensão planetária, do Capitalismo americano (fórmula pleonástica) que suscita a sua pluma, não apenas de economista mas de militante empenhado na defesa de uma sociedade assumidamente utópica. Leitura da mesma civilização ocidental como culto e fascínio não por um “bezerro de oiro” mítico, de natureza e efeitos demoníacos, mas como jogo, de cada vez mais sofisticado, de um ídolo de papel de propriedades mágicas pois tem a função – convencionada mas reverenciada – de substituir “o valor”, qualquer que seja o bem, pelo ficcional que o representa.

De algum modo, com esta revisitação da antiga “maldição de Midas”, Francisco Louçã submete a referência incontornável do universalizado capitalismo a uma espécie de leitura hiper-freudiana da agora não apenas ou só “maldição de Midas”, mas da sua versão quase metafísica que o capitalismo moderno representa, exibindo-se e ocultando-se ao mesmo tempo.

O pélago da mundialização é para Francisco Louçã obscuro e transparente. Isso não impede que o converta em aventura fascinante, como o seu texto o mostra. O seu exercício não é apenas o de um intelectual capaz de distinguir com acuidade rara o que é aceitável ou inaceitável nesta espécie de Guerra de Tróia sem fim que é a da luta entre os que dominam os mecanismos vitoriosos da economia mundial e os que sofrem os seus efeitos devastadores, mas um acto de coragem com o que isso implica de decisão ética e lucidez. Em suma, as armas ideais para defrontar com algum sucesso a, pelo vistos, incontornável “maldição de Midas”.

Eduardo Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

TERRAMOTO DE LISBOA – EMBORA ESQUECIDO, IMPACTO PERDURA | Carlos Fino

Que o terramoto de 1755 foi um acontecimento marcante e de um alcance global não é difícil de imaginar até à luz dos desastres que hoje nos habituámos a testemunhar. Mesmo sem o desenvolvimento tecnológico dos últimos 300 anos, sobrevivem testemunhos de uma destruição de tal ordem que não nos deixa duvidas do carácter global da tragédia. O movimento das placas tectónicas que sustentam este pedaço de terra e os desastres que lhe seguiram, deixaram a nu a fragilidade do homem, da sua organização e do seu conhecimento, das suas explicações, perante a natureza.

UM ABALO NO PENSAMENTO GLOBAL

Se até ao século XVIII o homem entregava a explicação dos desastres à causa divina, com o terramoto de 1755 a realidade exaltou-se e fez escassear metáforas e significados religiosos que conseguissem explicar a dimensão de tal fenómeno. A força da natureza foi de tal ordem evidente que as réplicas – reais e simbólicas – sentiram-se em toda a parte. Entre a história que se escreve da ciência atribui-se a uma dessas réplicas, sentida 17 dias depois, papel central nos primórdios sismologia. Terá sido uma réplica sentida em Boston que permitiu a John Winthrop observar algumas das primeiras propriedades dos sismos – conclusões apresentadas 25 dias depois do sucedido em Harvard, numa palestra icónica e num tempo em que as conclusões científicas ainda eram anexo, a que se seguiu uma extensa e detalhada publicação na compilação Philosophical Transactions da Royal Society.

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O paradoxo político de Lutero | Viriato Soromenho Marques in “Diário de Notícias”

Ontem, dia 31 de outubro, cumpriram-se 500 anos sobre o início da Reforma Luterana: a publicação na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg das suas 95 teses contra as indulgências. Em poucos anos, o que era um protesto aparentemente localizado e sectorial contra um cristianismo ocidental romano, já com frestas mas ainda unificado, transformou-se num poderoso e plural movimento que iria cindir, violenta e definitivamente, não só o cristianismo como a política, a sociedade e a cultura do Velho Continente. Se os Descobrimentos de Portugal e Espanha tinham levado a Europa a outros mundos, Lutero contribuiu para despertar os diferentes e contraditórios mundos que se escondiam sob a aparente unidade medieval europeia. A Reforma continua a marcar-nos as vidas, mesmo sem disso termos consciência.

A maior singularidade paradoxal de Lutero, mesmo perante outros reformadores, reside no pensamento político. No seu combate à hierarquia católica e ao Papado, Lutero retirou à Igreja qualquer estatuto de privilégio. Os pastores deixaram de constituir uma “ordem” ou “estado” (Stand), como ocorria na mundivisão medieval dos três estados (clero, nobreza e povo), para preencherem um mero “cargo” (Amt). Eram funcionários submetidos ao poder da autoridade secular. Esta tese da subordinação da Igreja ao Estado foi, contudo, radicalizada pelas próprias circunstâncias da Reforma que colocaram Lutero totalmente na dependência da proteção dos príncipes feudais de uma Alemanha politicamente fragmentada. Perseguido pelo Papa e pelo Imperador Carlos V, Lutero teve de fazer uma escolha brutal e sem retorno em 1525. Nesse ano, vastas partes do território alemão foram percorridas por uma revolta social camponesa, liderada em muitos casos por frades e padres próximos do pensamento de Lutero, como foi o caso do teólogo Thomas Müntzer. Esses camponeses pretendiam algumas alterações modestas no estatuto de servidão. Tinham mesmo um programa com 12 artigos. Depressa, todavia, os protestos pacíficos degeneraram em violência. Perante isso, Lutero foi forçado a intervir. Em poucas semanas, a sua posição passou de um apelo à pacificação para uma firme tomada de partido pelos príncipes, concretizada nalgumas das páginas mais iradas e violentas escritas na língua alemã (de que ele é também um dos principais fundadores). Os camponeses foram esmagados na batalha de Frankenhausen. Entre as cem mil vítimas da repressão contava-se Müntzer.

Este episódio ajudou a radicalizar a teoria luterana dos “dois reinos” (Zwei Reichen), de acordo com a qual o bom cristão deveria uma obediência incondicional às autoridades civis. O cristão era libérrimo na Igreja, mas ficava agrilhoado na esfera política. Ironicamente, o mesmo homem que enfrentara como rebelde os maiores poderes religiosos e seculares do seu tempo, e que pregara a absoluta igualdade dos cristãos, acabou, no plano político, por dar uma chancela teológica ao poder arbitrário da aristocracia feudal que se manteria por longos séculos na Alemanha. A tendência dominante da modernidade consistiria – seja no catolicismo de Francisco Vitoria e da Escola Ibérica da Paz seja no protestantismo de Calvino ou John Knox – em aproximar a Cidade de Deus da Cidade dos Homens. Pelo contrário, ao idealizar a sua aliança conjuntural com os príncipes, justificada pela sobrevivência física pura e simples, numa doutrina teológica de temor reverencial pelo poder de César, Lutero deixou uma trágica semente de obediência irrestrita na cultura política germânica, com tristes consequências em toda a Europa.

Viriato Soromenho Marques

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/viriato-soromenho-marques/interior/o-paradoxo-politico-de-lutero-8886976.html

Citando Mil Ghent

Um dia, tudo acaba. Sem motivos e sem explicações. Como um namoro, uma aula, um contrato de aluguer. E, pouco depois, isso que acaba já não faz parte das conversas quotidianas. Entra no esquecimento. Porque outra coisa surgirá em seu lugar. Em cima de memórias e confusões que fizeram a soma de todas as horas. De todos os imprevistos. E os lamentos não valem a pena. Porque nada voltará atrás. Em frente, haverá outro dia, surgirão outros caminhos, que hão de trazer novas conversas às vidas. Novos momentos e novas maneiras de ver. Até que tudo acabe, outra vez.

Retirado do Facebook | Mural de Mil Ghent

Não correu bem o primeiro encontro formal de Abecasis com os dirigentes do Município de Lisboa | por Joaquim António Ramos

Depois de ter sido empossado pela primeira vez, ao contrário dos presidentes em núpcias, que vão visitar os serviços como quem explora os recantos da noiva, Abecasis passou os primeiros dias a calcorrear Chelas, o “Cambodja”, a Musgueira, o Casal Ventoso, com o séquito municipal todo atrás, a bufar de cansaço e sedentos do recato do gabinete. Incomodados com as misérias humanos que nos corriam à frente dos olhos. Abecasis falava com mulheres de avental, homens sem emprego nem fundo, drogados, velhos sentados ao portal, enfim, a “baixa” de Lisboa, qualquer que fosse a razão da “baixa”: a pobreza, o abandono, a droga, a insalubridade e o desconforto das barracas onde viviam.
No dia seguinte a terminar esse périplo pelas profundezas de Lisboa, convocou os dirigentes para uma reunião conjunta no seu gabinete. Éramos poucos, os dirigentes municipais naquela altura – dez ou onze –, e eu era o mais jovem deles. Tremi perante aquela perspetiva duma primeira reunião com o novo Presidente, no meio de uns senhores impecavelmente vestidos, tecnicamente respeitados e temidos, alguns de cabelos brancos ou carecas.
Recebeu-nos no seu gabinete e mandou-nos sentar numas cadeiras previamente dispostas em duas filas. Quanto a ele, escarranchou-se no braço do sofá dourado que ocupava a parede de lado a lado, a fumar Ritz e a deixar cair a cinza por todo o lado.
“Não vos mandei vir cá para que me falem dos vossos serviços. Para já, não me interessa nada quem é das obras, do lixo ou da cultura. A minha prioridade é acabar com as barracas em Lisboa. Por isso, gostava de ouvir a vossa opinião sobre como fazê-lo. Cada um, como cidadão e dirigente, já deve ter pensado nisso. Vá, venham lá essas ideias”- desafiou, enquanto a beata de Ritz lhe caiu várias vezes para o sofá.

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Fui ao “meu” centro de saúde | Inês Salvador

Fui ao “meu” centro de saúde. Não há médico de família para mim, porque não há médicos de família em número suficiente para a população abrangida por aquele centro de saúde. Têm então uma solução, que pelo nome me pareceu inventada pelo Ricardo Araújo Pereira: “médico de família para as pessoas que não têm médico de família”. Acontece que o “médico de família para as pessoas que não têm médico de família” está de baixa. Na melhor das hipóteses terei consulta lá para Janeiro, não sendo ainda possível marcar nada.

Agora vou-me perfumar, porque depois deste post de certeza que vou ganhar um beijinho do Marcelo e quero estar bem cheirosa para a fotografia.

Não há miséria estrutural nacional que não se resolva com um beijinho do Marcelo.

Quando eu tinha quatro, cinco anos comia bolachas Maria com manteiga. Às vezes, deixava cair a bolacha e a bolacha caia sempre com a manteiga para baixo. Então, apanhava a bolacha, dava um beijinho na bolacha e continuava a comer.

Percebo agora que aos quatro, cinco anos fui quase Presidente de uma República. Uma República de bolachas, mas uma República.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

BELTERRA – Folhas de Regresso a Uma Ítaca de Lonjuras Íntimas

“Nada é para sempre(…). Mas há momentos

que parecem ficar suspensos, pairando sobre o

fluir inexorável do tempo”. (José Saramago)

 

  • Na açodado do momento, sem razão e nem porque, de imediato, a revisitada canção explode na minha mente atiçada, mal acabei de começar a ler (e de chorar, lendo) o novo livro BELTERRA de Nicodemos Sena, Editora LetraSelvagem. Jatos de música e letra: -“Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo// A morte tece seu fio de vida feita ao avesso//O olhar que prende anda solto//O olhar que solta anda preso//Mas quando eu chego eu me enredo//Nas tramas do teu desejo//O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo//A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo//O olhar que assusta anda morto//O olhar que avisa anda aceso//Mas quando eu chego eu me perco//Nas tranças do teu segredo//(…)… é hora de partir, eu vou//(Desenredo – Dorival Caymmi)

-Era o livro tomando forma em minha mente atiçada. Leitura é entrar no mapeamento das palavras, espaços e tempos. Lonjuras íntimas. Procuras. Fotos. Desenhos apalavreados de rostos e almas, nos confins. Como Homero querendo voltar para casa, o autor leva o pai para um distante caminho de volta, atrás de um eldorado que acabou sendo lágrima e dor, e, revisitando trilhas e sentenças, veios e capões, matas e pesadelos, tenta redescobrir o encoberto, tenta retrazer o curtume de um tempo chamado já-hoje, e perpassa a narrativa fluindo como linhas de cerol na alma, na saudade, na história, como se um belo caderno de viagem dizendo dessa cicatriz lixada, de um magno patriarca sofrido e ainda assim resistente e herói, de uma lágrima sedenta de lavar os vidros dos olhos, de serenar os cacos de espelhos da alma. Olhares. Páginas de lágrimas. O menino que envelheceu, o velho que quer voltar a ser menino, na pureza do olhar de um sensível e destemido filho escritor renomado, ponderando, pausando, contemplando, reinando, respeitando, admirando – ah o reencontro – clicando, repaginando um tempo antigo; o agora menino-pai tomando o pai-menino pela mão… Tempo-rei. Como não se encantar? Os dias eram assim…

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A teoria das nações, segundo o Padre António Vieira

“a primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.”

Retirado do Facebook | Mural de José Maltez

Puigdemont é um Trump ibérico | Carlos Matos Gomes

O que percebi do discurso de Puigdemont: A independência da Catalunha está suspensa e ele está num aperto de impotência.
A Catalunha está em modo de fake news como as lançadas das sala oval da Casa Branca por Trump. Puigdemont é um Trump ibérico.
Num gesto insólito,:o chefe libertador anuncia que autosuspende a libertação no momento em que se anuncia liberto! Afinal não estava assim muito oprimido. Ainda aguenta os sapatos de ferro e as grilhetas por mais tempo. Em vez de um grito de Ipiranga, Puigdemont murmurou: não se está aqui assim tão mal…
Nos casamentos antigos, na manhã que se seguia à noite de romper o hímen da virgindade, a mãe da noiva mostrava os lençóis ensanguentados que atestavam a consumação do acto. O Puigdemont, como noivo impotente, veio à porta anunciar que a consumação do ato fica adiada. Há que falar melhor com a noiva. Ela não abriu as pernas e ele não se chegou à frente nos finalmentes! A não consumação era antigamente motivo para declarar nulo o acto.
Puigdemont não sabe agora se é casado ou solteiro. Como assina os documentos: Presidente da Catalunha Livre e Independente? Mas a independência está suspensa. Presidente da Republica da Catalunha? Mas ele não proclamou a República.
Puigdemont é um suspenso como os presuntos e os chouriços. Um adiado como uma máquina de tirar cerveja a copo – as cañas – à espera de gás. Um profeta que assinará os seus decretos simplesmte como Moi, Carles Puigdemont, o Moi!.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

Citando Pablo Neruda

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo…
Morre lentamente quem se torna escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma nova cor, quem não conversa com quem não conhece… Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com seu trabalho ou amor, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos…

Pablo Neruda

Che, o mito anti-imperialista e os mercenários do império | Carlos Matos Gomes | 09/10/2017

Hoje, 9 de outubro, passam 50 anos do assassinato de Che Guevara na Bolívia, dominada na época por um ditador fantoche dos Estados Unidos. Como acontece com as marcas “redondas” são mais abundantes as referências à figura e à vida do revolucionário argentino, herói da revolução cubana mas, entre todas, interessam-me as que apresentam Che Guevara como um homem execrável, um criminoso do pior calibre, merecedor da sorte que teve às mãos dos rangeres da CIA, que o assassinaram depois de o capturarem ferido e desarmado, lhe cortaram as mãos para servirem de prova da sua morte. Os artigos negros não referem geralmente estes pormenores macabros. A sua função é diabolizá-lo.

Porque recebe Che Guevara por parte dos estrategas de propaganda americana um tratamento tão distinto do de outros líderes de guerrilhas e movimentos políticos que, ao contrário dele, obtiveram sucesso e que os Estados Unidos não assassinaram? Porque gastam ainda hoje os Estados Unidos tanto dinheiro a comprar mercenários para a campanha anti-Guevara, entre os quais alguns milicianos lusos? Porque mete ainda tanto medo aos herdeiros dos que o assassinaram? Porque tem de ser tão persistentemente denegrido?

A morte de Guevara às mãos da CIA, traído por um camponês comprado pela agência americana, é um facto histórico investigado e conhecido, como conhecidas são as divergências entre militantes cubanos dos movimentos que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Baptista em Cuba. Divergências que envolveram Guevara e Fidel de Castro. Porquê, então, esta rancorosa cruzada anual das forças ao serviço da estratégia de domínio americano contra Guevara, se ele próprio classificou como um fracasso a sua expedição ao Congo, a campanha dos simba nas margens do lago Tanganica, e expôs no seu Diário a debilidade da guerrilha que comandou na Bolívia?

Che Guevara merece este ódio por parte do poder americano, dos seus meios de guerra psicológica e contra-informação, dos aparelhos ideológicos por dois motivos: Transformou-se, goste-se ou não, numa figura mitológica do anti-imperialismo e o imperialismo, sendo a principal determinante dos jogos de poder que sujeitam os povos aos seus interesses, reage a quem o enfrenta e o desmascara. As fotografias do Che, as suas barbas, a sua boina com estrela, são as de um ícone, de um ídolo que atrai e fascina, que transmite esperança a milhões de seres humanos. Ora, os deuses inimigos têm de ser destruídos, apoucados, enlameados, mesmo em efígie.

A segunda razão para a propaganda imperial americana disparar ciclicamente contra a sua imagem tem um outro objectivo, também claro e pragmático: justificar as acções desestabilizadoras que os Estados Unidos levam a cabo no presente no Médio Oriente, na Coreia, nas fronteiras da Rússia e da China, que substituíram a coutada de intervenção exclusiva da América Central e da América do Sul dos anos 50 e 60, dos anos da guerra fria. Justificam o imperialismo do presente.

A figura de Guevara não é sagrada, pode e deve ser objeto de análise e crítica em todos os seus aspetos, pessoais e políticos, excepto o de não ser anti-imperialista, a verdadeira razão pela qual os serviçais do império o execram.

No meu novo romance, A Última Viúva de África, interessou-me o Guevara desiludido e, mais do que desiludido, de esperanças perdidas. Interessou-me entender porque perdera Guevara a luta com a realidade dos homens. Atraiu-me a heresia de juntar o revolucionário Guevara ao mercenário Scrame, do Congo, como dois comparsas vencidos, unidos pela derrota das ilusões fruto de desejos e não da razão.

A desilusão, em África:

“Che Guevara chegou ao Congo acompanhado por um grupo formado por cubanos negros, com a ilusão de estabelecer na antiga e imensa colónia belga uma plataforma contra o «imperialismo ianque» e o «neocolonialismo» que despertasse todo o continente africano.”

“O diário do Congo reflete a sua desilusão. Guevara viu a espécie humana como ela é e não como a sua ilusão de profeta a pintara. Mais perto das hienas do que dos leões, mais perto dos abutres do que das águias: O caos é aqui tão genético como os pigmentos da pele.”

“…Guevara deu por finda a tentativa de criar um foco revolucionário em África, além de ter perdido boa parte das ilusões sobre o desejo de liberdade, de independência, de justiça das massas populares africanas…”

A morte, na Bolívia:

“…a aventura boliviana do herói de Cuba decorreu ainda em condições piores do que a do Congo. Scrame revelou-me que depois de o ver morto, estendido numa mesa da escola da pequena aldeia de Higuera, e de ter lido o seu «Diário da Bolívia» acreditava que ele procurara deliberadamente o suicídio…”

”Enojou-me ver a profanação do corpo de Guevara pelo coronel chefe da polícia política, responsável pelo ultraje final da amputação das suas mãos, para os polícias americanos confirmarem através delas a identidade do guerrilheiro que os enfrentara.”

“Jean Scrame não se orgulhava da sua participação na morte de Guevara: Ele lutava por uma ideia, como eu pelo direito a ter uma terra!”

“Para homens como Scrame e Guevara a dor da derrota é maior e mais profunda porque não buscam a glória, nem lutam pelo reconhecimento do herói, mas pela paz interior de conseguirem o que entendem ser o seu dever, o seu bem, independentemente do que os outros possam pensar dos seus objectivos. A derrota é para eles um castigo e simultaneamente uma injustiça, um erro do destino que impedirá a felicidade ou a riqueza daqueles para quem trabalham. Quando não levam os seus sonhos até ao fim, sentem-se deuses falhados, que perderam uma oportunidade de conduzir os seus fiéis à Terra Prometida.”

Qual o segredo de transformar um vencido real num vencedor idealizado? O Che foi o senhor absoluto da sua luz. Os homens das trevas nunca o apagarão.

Carlos Vale Ferraz (excertos de A Última Viúva de África)

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CATALUNHA DA AUTONOMIA À INDEPENDÊNCIA | UM SONHO SECULAR Fonte: Grande Angle/La Tribune, por Carlos Fino

ANO 878 – OS ÁRABES OCUPAM A CATALUNHA

Conquistada pelos árabes no século VIII, tal como grande parte da península ibérica, a Catalunha é reconquistada por Carlos Magno no ano de 801. Em 878, quando o imperio carolíngio se desfaz, o território catalão é unificado sob a designação de Condado da Catalunha, dependente do império franco.

ANO 987 – AL MANSOUR RETOMA BARCELONA

O emir árabe Al-Mansour retoma Barcelona. O conde catalão Borell II pede ajuda à França, mas não obtém apoio, tendo que contar apenas com as suas próprias forças para se opôr ao invasor. Consequência – o laço de dependência com a França praticamente desfaz-se, tornando-se a Catalunha praticamente independente. A partir do século XI, passa a designar-se Principado da Catalunha, título que mantém até hoje.

ANO 1162 – UNIÃO COM ARAGÃO

O conde de Barcelona Afonso, o Casto, unifica os condados catalães com o reino de Aragão, que herda da mãe. Barcelona torna-se centro de um poderoso reino que vai reconquistar Valência e as Baleares aos árabes. No século XIV, os exércitos catalães são considerados dos mais poderosos da Europa. Aragão-Catalunha estendem a sua influência à Sardenha, Sicília, sul da Itália e Grécia.

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DESAFÍO INDEPENDENTISTA | El ruido y la furia de la Cataluña de los mecenas | MANUEL JABOIS in “El País”

Joan Baptista Cendrós fue un hombre tan importante en Cataluña que se convirtió en un olor. Un olor muy intenso y mentolado. Era la fragancia de la crema Floïd, after shave que Cendrós ideó en la barbería que heredó de sus padres: la exportó a 50 países y le hizo millonario. Cendrós acogía en su casa a otros hombres ricos, amigos suyos, unidos por una voluntad exquisitamente revolucionaria. Uno de ellos era Fèlix Millet i Marista, un empresario que huyó a Italia para salvar su vida en la Guerra Civil y regresó para combatir en el bando franquista. Con ellos estaba otro patricio, Lluís Carulla, que usó su conocimiento de la botica familiar para crear, junto a su esposa María Font, Gallina D’Or, que luego rebautizó como Gallina Blanca antes de inventar Avecrem. Joan Vallvé fabricaba dinero, literalmente: su factoría en Poblenou acuñaba la peseta. El quinteto lo cerraba el industrial Pau Riera, hijo de Tecla Sala Miralpeix, una empresaria de vida extraordinaria que levantó su imperio textil en un mundo de mujeres empleadas y hombres directivos.

A todos les unía el catalanismo, su voluntad de desbordar la dictadura desde el único lugar donde empezaba a correr un poco de aire: la cultura. Eran, esencialmente, mecenas. Y crearon Òmnium en el año 1961. Le inyectaron dinero, muchísimo, para abrir terminales en toda Cataluña y fomentar la lengua y la cultura catalanas. Fuera de Òmnium esa burguesía intelectual, junto otros apellidos de fuste, fundó un universo propio sobre el que orbitaría la futura Cataluña: la Nova Cancó, los premios Sant Jordi y Carles Riba, la Gran Enciclopedia Catalana, el Instituto de Estudios Catalanes, el Orfeò, el Palau, el Liceu, Banca Catalana; estuvieron detrás de los inicios de Terenci Moix y de Raimon, entre otros. Intentaron que la Academia Sueca le diese el Nobel a Salvador Espriu. Hicieron también grandes tropelías; se adueñaron del espacio, y el dominio cultural que llegó hasta el pujolismo fue de tal asfixia que Cendrós le negó el Premi d’Honor de les Lletres Catalanes, también creado por él, al escritor catalán más importante del siglo XX, Josep Pla, alegando su implicación en el franquismo. Muchos años después, Fèlix Millet hijo hizo recuento de la élite: “Somos unas cuatrocientas personas, no seremos muchas más, pues nos encontramos en todas partes y somos siempre los mismos”.

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Obras de Rita Carvalho apresentadas em Cascais | apresentação dia 5 de outubro, 18 horas, Centro Cultural de Cascais

“Papa Francisco” e “Os Três Pastorinhos”, dois livros da autoria de Rita Carvalho, têm apresentação marcada para 5 de outubro, feriado nacional, em Cascais.
O lançamento das publicações, iniciativa que conta com o apoio da paróquia local, decorre às 18:00 no Centro Cultural de Cascais. Estarão presentes a autora, Rita Carvalho, e o editor, Américo Augusto Areal, da AAA Editores. A apresentação da obra caberá ao pároco de Cascais, padre Nuno Coelho.
Para Rita Carvalho apresentar trabalhos da sua autoria na paróquia onde cresceu e reside, e com a qual mantém uma forte ligação, tem um enorme significado: “Mas estes são livros com potencial para ir muito mais além, pois falam de um fenómeno universal: Fátima, e de uma devoção que não conhece fronteiras. Além de darem a conhecer pessoas fantásticas: os Pastorinhos e o atual Papa”.
“Papa Francisco”, em venda nos principais estabelecimentos comerciais de Fátima e  livrarias católicas do país desde inícios de agosto, e “Os Três Pastorinhos”, agora editado e em breve disponível nos mesmos lugares, são mais do que livros, já que incluem a novidade da tecnologia da realidade aumentada. A realidade aumentada permite, além da leitura, o acesso a outros conteúdos, como vídeos, slideshows e textos, por meio de uma aplicação, gratuita, parasmartphones tablets.

“São livros biográficos, escritos ao estilo jornalístico, uma vez que a minha experiência de trabalho foi como jornalista, têm uma leitura fácil de fazer e ilustrações muito cuidadas, em aguarela, da autoria de Ricardo Drumond”, sintetiza Rita Carvalho, que destaca ainda o facto de ambas as publicações incluírem referência à peregrinação do Papa Francisco a Fátima em maio último, no primeiro livro, e à canonização de Francisco e Jacinta Marto, no segundo.

“Papa Francisco” está editado em português, espanhol, inglês e italiano.
“Os Três Pastorinhos” está editado em   português, espanhol e inglês.

Porto, 26 de setembro de 2017

«IGNORÂNCIA E PEDANTERIA (por Albano Nunes) | O Partido ‘bipolar’: uma crítica de esquerda (por Elísio Estanque)

O jornal do PCP «Avante!» decidiu dar-me a “honra” de responder a um artigo que publiquei no jornal Público (31.08.2017): Aos meus amigos peço desculpa pela longa preleção e “reprimenda” que o seu autor me dedicou. Em todo o caso, deixo o referido texto na íntegra, seguido do meu artigo (o qual pode considerar-se a minha “resposta”). Sem mais. Vale a pena ler…

«IGNORÂNCIA E PEDANTERIA (por Albano Nunes)

O PCP, a sua história, o seu insubstituível papel na vida social e política nacional incomoda e faz inveja a muita gente. À direita e à «esquerda», nomeadamente a uma «esquerda» de que se reclama Elísio Estanque (EE) como mostra o seu artigo «O partido bipolar: uma crítica de esquerda» (Público de 31.08.17) curiosamente publicado na véspera da abertura da Festa do Avante!. Mas não fosse alguém confundir o seu escrito com uma vulgar diatribe e intriga anti-comunista apresenta-o como uma «crítica de esquerda» insinuando a autoridade de quem sabe do que fala para melhor fazer passar o propósito que percorre todo o seu artigo: introduzir a dúvida e a divisão em relação à direcção e à orientação do Partido, seja em torno da sua definição ideológica (a «velha cartilha marxista-leninista» relativamente à qual «muitos militantes comunistas se interrogam no seu íntimo») seja quanto à posição em relação à actual solução política (com a «incomodidade de sectores da «linha dura» com o facto de o partido se ter tornado “muleta» do Governo PS»).

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«O Nome dos Poemas» de Soledade Martinho Costa | por José do Carmo Francisco

Toda a Poesia (mistura de canção e reflexão) procura a síntese e no caso de Soledade Martinho Costa essa busca existe desde 1973 quando publicou o livro «Reduto». O projecto inicial da autora do livro era um desafio («Publicar poesia numa revista semanal») e data de 1999 quando os primeiros 20 poemas do volume foram publicados na Revista «Notícias/Magazine», do «Diário de Notícias». Os restantes 33 poemas estão inéditos. Dos iniciais 20 poemas, como sugestão de leitura, damos citação a dois deles: «João de Melo – Coloque-se a infância / No meio de uma ilha / Acorde-se a distância / No olhar. / Tome-se nas mãos / A neblina / Dê-se o coração / À voz do mar» ou «Isabel Silvestre – Água / Serias rio ou fonte / Regato que murmura / Entre dois lírios. / Ave / Um noitibó / Escondido / Entre as dobras de um lençol / Mas porque assim te queres / Terra e raiz / E tanto aquece / o matiz da tua voz / Só posso comparar-te / Ao próprio sol.»

Dos restantes 33 poemas uma nota especial para os poemas de Rodrigo Leão e de Maria Velho da Costa. O primeiro: «A música da chuva / Dos regatos /Das aves / E do vento / Do mar em fúria /Amante das maresias. / Ao homem /Coube ouvi-la / E copiá-la. / Juntou-lhe o coração / A alma / O génio / E conseguiu a fórmula / De todas as magias». A segunda: «Porque os tempos não eram / O que hoje são / Mais a voz se elevou / A inundar de luz a escuridão. / Rompeu feita coragem / Sem medo ao medo / a fustigar as normas / E o preconceito que regia a mulher e a Nação / No mesmo jeito / Três Marias souberam / Denunciar a palavra / Calada e ofendida / Como se fora um só nome / E uma só mão.»

Estamos em 2017, quase 20 anos passaram e os poemas continuam a surpreender como em 1999 conforme Sofia Barrocas escreve no prefácio: «Arriscaria mesmo dizer que daqui a vinte anos estaremos a lê-los com o mesmo espanto e prazer com que o fizemos da primeira vez.» Tal como no título do seu primeiro livro («Reduto») estes poemas de Soledade Martinho Costa resistem num reduto ao tempo que passa. À sua erosão, ao seu desgaste e ao seu esquecimento.

(Editora: Vela Branca, Prefácio: Sofia Barrocas, Revisão: L. Baptista Coelho, Capa: Victor Gabriel Gilbert, Separador interior: Peter Mork Monsted)

José do Carmo Francisco, escritor, poeta, jornalista e crítico literário

Poema | Nâzim Hikmet (Poeta turco)

 

 

 

 

 

 

 

 

A maioria das pessoas viaja na coberta dos navios
na terceira classe dos comboios
a pé pelas estradas…
A maioria das pessoas.

A maioria das pessoas começa a trabalhar aos oito anos
casa aos vinte
morre aos quarenta.
A maioria das pessoas.

Para todos há pão, salvo para a maioria das pessoas.
arroz também
açúcar também
roupas também
livros também
Há para todos, salvo para a maioria das pessoas.

Não há sombra na terra para a maioria das pessoas
não há candeeiros nas ruas
não há vidros nas janelas.
Mas a maioria das pessoas tem a esperança.
Não se pode viver sem esperança.

Nâzim Hikmet (Poeta turco)

Retirado do Facebook | Mural de José Possidónio

É urgente voltar a Marx para entender nova fase da economia, diz professor | Nick Nesbitt entrevistado por Luís Costa para a Folha de S. Paulo

Karl Marx antecipou o que ele chama de “capitalismo pós-humano”, isto é, uma dupla tendência à eliminação gradual do trabalho humano das cadeias produtivas e à precarização da força de trabalho. 

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http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1918777-nos-150-anos-do-capital-professor-defende-que-voltar-a-marx-e-essencial.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compfb

‘Atlas do impossível’: contos surrealistas | Edmar Monteiro Filho, por Adelto Gonçalves

                                                         I

            Um livro de contos, geralmente, é o resultado da reunião de textos literários dispersos e autônomos que o autor produz ao longo dos anos, quase sempre sem um fio narrativo que os una. São também textos que escapam a qualquer critério quantitativo, ou seja, não podem ser definidos com base em sua extensão. Mas, ao contrário da novela e do romance, o conto exige, antes de tudo, a atenção concentrada do leitor para produzir nele um “efeito preconcebido, único, intenso, definido”, com observou o professor, ensaísta e investigador venezuelano Carlos Pacheco (1948-2015) em Del cuento e sus alrededores. Aproximaciones a una teoria del cuento (Caracas, Monte Ávila Latinoamericana, 1997, p. 20), com base no que dizia o poeta norte-ame ricano Edgar Allan Poe (1809-1849), para quem o “conto devia ser lido de uma assentada”.

             Atlas do impossível (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2017), de Edmar Monteiro Filho, quinto livro de contos do autor, não preenche todos esses critérios. Mas, entre os 15 relatos que o compõem, há dois que provam que a extensão em número de páginas ou palavras não é mesmo critério seguro para definir um conto. Por exemplo, o texto de abertura, “Autorretrato em espelho esférico”, tem apenas 18 linhas, enquanto aquele que encerra o volume, “Galeria”, ocupa 49 páginas, dividido em dez capítulos ou trechos, aproximando-se do que se poderia chamar de novela.

            O livro, porém, vai além. São relatos caudatários do movimento surrealista da década de 1920, liderado pelo poeta e crítico francês André Breton (1896-1966), que, tanto na pintura ou na gravura como na poesia ou na prosa, procurava incorporar elementos desconexos, formas abstratas e ideias irreais, com o objetivo declarado de escapar da lógica e da razão. Em outras palavras: levar o poder da subversão à criação.

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Hablemos de la independencia de Cataluña

Puigdemon viajaba en un avión y en el asiento de al lado iba una niña. Miró a la niña y le dijo:
—- dicen que los viajes de avión se hacen más rápidos charlando, ¿ te parece que hablemos?.
La niña le miró y cerrando el libro que tenía en sus manos, le dijo – ¿de qué le gustaría hablar?—-
Puigdemon respondió — ¿ te parece que hablemos de la independencia de Cataluña?–

–bueno– respondió la niña — pero déjeme antes hacerle una pregunta : — ¿ un caballo, una vaca y un ciervo comen lo mismo, o sea hierba, no?—

Sí– contesto el President.

—- pues bien, me puede explicar porque el ciervo caga bolitas…, la vaca hace una “plasta” y el caballo una pelota como de hierba seca…?.

Puigdemon, visiblemente sorprendido por la inteligencia de la niña y tras pensar un rato, dijo:
— pues no tengo ni idea —

A lo cual la angelical niña, le dijo:
— ¿ De verdad se siente cualificado para discutir sobre la independencia de Cataluña, cuando no puede ni opinar sobre una mierda?….

Retirado do Facebook | Mural de Luís Quintino

un joyau de notre histoire | Jamel Bachi et Alexandre Noble

Aujourd’hui je vous propose un voyage, je vous invite a découvrir un Joyau, un joyau de notre histoire, l’une des plus belle femme de tout le bassin Méditerranéen, aussi somptueuse que dangereuse…Certains disent qu’elle fut la plus belle femme de Rome, et Je ne dirai pas le contraire…Mes amis je suis fier de vous offrir la légendaire ” Cléopâtre Séléné “, la Mythique Reine de ” Césarée “…

– Une exposition archéologique frappante a réuni pour la première fois la Reine légendaire de l’antiquité, ” Cléopâtre “, et ses quatre enfants dont la plus connue, ” Cléopâtre Séléné “, Reine de ” Cherchell “…

– L’exposition tourne autour de la thèse que ” Julius César “, étant séduit par l’esprit, et la beauté de cette Reine africaine, envisageait de créer un véritable culte autour de ce personnage, en la présentant comme une Déesse, tel qu'” Aphrodite “, chez les grecs, ou ” Vénus ” chez les Romains, mais cet acte portait atteinte aux valeurs républicains de Rome, et ce fut l’une des raisons de son assassinat…

– Donc le grand Empereur fut non seulement subjugué par la beauté de la Reine des sables, mais aveuglé par son charme, au point de se faire assassiné par ses pairs !!

– ” Cléopâtre Séléné “, tout comme sa mère, joua un rôle important dans cette histoire, elle avait sans doute hérité la beauté, la fierté et la détermination de cette dernière, tout comme sa mère elle a crée un empire, réunissant les meilleures traditions du bassin méditerranéen; la philosophie grecque, la tradition du commerce des phéniciens, et la riche culture Égypte africaine…

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Citando […] | Inês Salvador

Corriam nuvens no céu como se levassem a boa nova. Ou talvez fosse só a terra a andar mais depressa por ali. Entre o tudo e o nada, uma árvore de fruto era a pérola numa ostra. Não havia pérola na ostra, foram outros os tesouros que a língua encontrou. Eva não comeu a maçã. Adão comeu uma pêra. Outra e outra vez, havia uma pêra no céu onde corriam as nuvens. Ou talvez fosse só a terra a andar mais depressa rumo ao paraíso da pequena morte que se gritou a seguir.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

FRAGMENTOS DO TRATADO SOBRE O AMOR, “LIVRO DE EROS” | Casimiro de Brito | IMAGEM DE NIKIAS SKAPINAKIS

4222
Amando-te lembro a primeira vez que senti o sangue, a primeira vez que regressei ao centro do mundo.

4223
Ela fere-me. Há facas doces.

4224
Ainda que me afunde no corpo amado e com ele me funde jamais poderei colher a sua música e a sua seiva que, oferecendo-se, se recusa. E vivo simulacros. Os dela, vénus e os meus que, tentando concentrar-se, se multiplicam. E assim renasce e volta a renascer a flor da juventude — esforço vão e inadiável para possuir o que, para sempre, se outra.

4225
Até na tua sombra te reconheço.

4226
A mulher é obscura e, subitamente, ilumina-me. Encandeia-me. E então fecho os olhos para vê-la melhor. E para me salvar.

4227
A mulher, vejo-a, encandeio-me. Ela é a mais íntima reprodução da luz.

4228
Deixei de te amar e nunca saberei porquê. Dói. O que foi delicado e luminoso obscureceu. Mas subitamente senti em ti um fantasma, e doeu. Elevou-se um grito depois do vazio — e esse vazio afunda-me mas depois fecho os olhos, caio nas manhãs antigas e deixo novamente de saber quem sou.

4229
O vestido da minha amada, tão branco, tem todas as cores de que preciso.

4230
Sinto-me um seixo nas mãos de quem amo, dentro das veias da minha amada. Um pequeno seixo que irradia uma luz que eu não conhecia. Mas que tu recebes no teu seio como se outra luz não houvesse. E talvez — outra igual — não haja.

4231
Deixa-me escrever um pouco mais, um pouco mais silenciosamente no papel do teu corpo.

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

Charles Baudelaire | Les Fleurs du mal -1857

Cette semaine marquait le cent cinquantième anniversaire de la disparition de Charles Baudelaire, survenue le 31 août 1867.

Redécouvrez à cette occasion l’oeuvre de ce grand poète, parue aux Éditions Gallimard :http://bit.ly/2x8tO5L

“Harmonie du soir” (Les Fleurs du mal, 1857)

Voici venir les temps où vibrant sur sa tige
Chaque fleur s’évapore ainsi qu’un encensoir ;
Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir ;
Valse mélancolique et langoureux vertige !

Chaque fleur s’évapore ainsi qu’un encensoir ;
Le violon frémit comme un coeur qu’on afflige ;
Valse mélancolique et langoureux vertige !
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.

Le violon frémit comme un coeur qu’on afflige,
Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir !
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir ;
Le soleil s’est noyé dans son sang qui se fige.

Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,
Du passé lumineux recueille tout vestige !
Le soleil s’est noyé dans son sang qui se fige…
Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir !

O NOVO PERIGO NUCLEAR por Joschka Fisher, in jornal Diário de Notícias

Para alguém que nasceu em 1948, o risco de uma III Guerra Mundial nuclear foi uma faceta muito real da minha infância. Essa ameaça – ou pelo menos a ameaça de a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental serem ambas totalmente destruídas – manteve-se até ao final da Guerra Fria e ao colapso da União Soviética.

Desde então, o risco de as potências nucleares desencadearem o Armagedão reduziu-se substancialmente, se bem que não tenha desaparecido por completo. Hoje, o perigo maior é o de um número crescente de pequenos países governados por regimes instáveis ou ditatoriais tentar adquirir armas nucleares. Ao tornarem-se potências nucleares, esses regimes podem assegurar a sua própria sobrevivência, promover os seus interesses geopolíticos locais ou regionais e até enveredarem por um programa expansionista.

Neste novo cenário, “a racionalidade da dissuasão” mantida pelos Estados Unidos e pela União Soviética durante a Guerra Fria dissipou-se. Atualmente, se a proliferação nuclear aumentar, é bem provável que o limiar para a utilização de armas nucleares baixe.

Tal como demonstra a atual situação na Coreia do Norte, a nuclearização da Ásia Oriental ou do golfo Pérsico pode constituir uma ameaça direta à paz mundial. Veja-se a recente confrontação retórica entre o ditador norte-coreano Kim Jong-un e o presidente dos EUA Donald Trump, em que Trump prometeu responder com “fogo e fúria” a quaisquer novas provocações norte-coreanas. Obviamente, Trump não está a confiar na racionalidade da dissuasão, como seria de esperar por parte do dirigente da única superpotência que ainda resta. Em vez disso, deu livre curso às suas emoções.

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a ribalta dos lugares em disputa | José Maltez

Um tipo de esquerda não lê, nem ouve, o que um tipo de direita escreve, ou diz, tal como um tipo de direita é cego, ou surdo, face a um tipo de esquerda, mesmo que entre os dois, na substância e no subsolo filosófico, haja mais identidade do que rivalidade. São iguais, mas rivalizam em facciosismo, tribalismo e, portanto, inquisitorializam, porque são estreitos os campos onde possam ter lugares e casas comuns. Logo, o país empobrece e a competição, em lugar de produzir riqueza de ideias, gera uma constante secundarização, dado que a ribalta dos lugares em disputa deixa de ser acessível pelo mérito e passa a ser conquistada pela cunha, pela influência e pela brutalidade do saneamento e da consequente distribuição de despojos, depois do saque do vencedor.

Retirado do Facebook | Mural de José Maltez

les enfants qui s’aiment | Jacques Prévert | placé par René Leucart

Les enfants qui s’aiment s’embrassent debout
Contre les portes de la nuit
Et les passants qui passent les désignent du doigt
Mais les enfants qui s’aiment
Ne sont là pour personne
Et c’est seulement leur ombre
Qui tremble dans la nuit
Excitant la rage des passants
Leur rage, leur mépris, leurs rires et leur envie
Les enfants qui s’aiment ne sont là pour personne
Ils sont ailleurs bien plus loin que la nuit
Bien plus haut que le jour
Dans l’éblouissante clarté de leur premier amour

(Jacques Prévert, “Les enfants qui s’aiment”)

Copié sur Facebook | Mur de René Leucart

DEGOLAÇÃO DE SÃO JOÃO BAPTISTA | Soledade Martinho Costa

No dia 29 de Agosto celebra a Igreja Católica a degolação de São João Baptista, o Precursor (assim designado por ter preparado e anunciado a vinda de Jesus Cristo, que mais tarde baptizou nas águas do rio Jordão, na Palestina).

Filho de Isabel, prima afastada da Virgem Maria, e de Zacarias, sacerdote judaico, São João Baptista foi decapitado no ano 31 a rogo de Salomé, princesa judia, que pediu a seu tio Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, a cabeça do santo.

Esta data não conta apenas com as cerimónias litúrgicas celebradas pela Igreja, mas ainda com os tradicionais banhos purificadores no mar, ritual que continua a verificar-se a 29 de Agosto.

Embora os banhos santos ocorram também a 24 de Junho (celebração do nascimento de São João), é neste dia que se verifica com maior relevo a tradição dos banhos profilácticos em terras algarvias, chamado ali «o banho da degola» ou «banho do 29», conquanto haja notícias da mesma praxe em certas localidades da Beira-Baixa e mesmo no Minho.
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10 best translated fiction

Alain Mabanckou is a Franco-Congolese author and UCLA professor whose work has earned him the title of “Africa’s Samuel Beckett”. An author whose books, like Beckett’s, often dip into the absurd, his most recent novel follows the life and times of the eponymous hero, a Congolese orphan who finds himself mired in the political violence whipped up by the recently arrived Marxist-Leninists. Following the disappearance of the much-loved Papa Moupelo, the charismatic priest of the orphanage, a reign of terror plays out in microcosm. In the style of Gunter Grass’s The Tin Drum or Salman Rushdie’s Midnight’s Children, Mabanckou’s Black Moses is a tale of one child’s odyssey through his country’s many misfortunes.

Jose Eduardo Agualusa is an Angolan author who has won literary prizes like the English PEN Award and the International Dublin Literary Award. In his most recent work, A General Theory of Oblivion, Agualusa provides the reader with a portrait of one Ludovica (or Ludo, as she’s known for most of the story), a Portuguese woman living in an Angola on the cusp of its independence from Portugal. She lives in the country’s capital of Luanda with her sister and brother-in-law until the war for independence, previously a brutal provincial affair, reaches the city, whereupon her family disappears and she barricades herself in her apartment, living there for some three decades. Agualusa’s novel about Ludo in her urban hermitage is a charming Rip Van Winkle-style story of political upheaval and the passage of time.

Venezuela? Siga a pista do petróleo | José Goulão in blog AbrilAbril.pt

Os conglomerados censórios omitem o potencial golpista da pista do petróleo na Venezuela. Mas não conseguem apagá-la.

À revelia da enxurrada de doutas opiniões e anafadas informações sobre as diatribes do «ditador» Maduro e suas gentes, herdeiras do diabólico «chavismo», que teve o desplante de ganhar todas as consultas populares democráticas do último quarto de século – menos duas – venho dar-vos uma dica sobre um facto esquecido que explica a agressão em curso contra a Venezuela: sigam a pista do petróleo.

Esta via de análise é de tal maneira larga e determinante que parece impossível omiti-la. No entanto, é o que acontece, do mesmo modo que se ignora uma manada de elefantes banhando-se numa pequena praia em pleno domingo de Agosto. Só fechando os olhos ou não querendo ver.

Esconder a coincidência possível entre o permanente golpe contra as instituições democráticas na Venezuela e o facto de este país albergar as maiores reservas de petróleo mundiais, superando as da ditadura saudita, quase triplicando as da Rússia e valendo, por si só, as do Iraque e do Irão somadas, é um caso de censura.

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TERRATENENTES | António Galopim de Carvalho

Num regime de propriedade como ainda é o do Alentejo, de “terra pouca para muitos, terra muita para poucos”, como cantou Manuel Alegre, em 1996, ou de “muita terra a dividir por poucos”, como escreveram José Mattoso e Suzanne Daveau, em 1997, terratenente (do latim terra, com igual significado, e tenentis, particípio presente do verbo teneo, -ere, que significa ter, possuir), palavra hoje pouco usada, era o nome que então se dava aos proprietários de muitas terras ou, como hoje se vulgarizou dizer, o latifundiário ou agrário.
De grande influência socioeconómica local, inclusivamente, na administração, os terratenentes dominavam parte importante da vida da cidade, inclusive na administração.


Na continuação do chamado “Direito de Pernada” ou “Direito da Primeira Noite”, atribuído aos suseranos feudais, era voz corrente, nunca declaradamente confirmada, que um ou outro destes senhores da terra praticavam impunemente esta tradição. Falava a minha mãe de um rico lavrador eborense que, para satisfação da sua líbido, procurava adolescentes, ainda virgens, filhas de famílias muito pobres e a viverem nas suas terras. Meia dúzia de contos de réis era, dizia-se, a quantia combinada com a mãe da donzelinha para conseguir esse favor. Falava-se então do “preço da borrega”, sendo que “borrega” era o nome pelo qual se referia a menina alvo desta iniquidade.

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Dernière lettre de Nietzsche à Jacob Burckhardt | in blog “Des Lettres”

Friedrich Wilhelm Nietzsche (15 octobre 1844 –  25 août 1900), l’un des philosophes les plus décapants et influents du XIXe siècle, critique acharné du christianisme, eut une fin de vie terrifiante. Le 3 janvier 1889, il est pris d’une crise de démence à Turin et il ne recouvrera dès lors jamais son esprit : partiellement paralysé, il ne reconnaît plus ni amis ni famille. Transporté dans une clinique à Bâle, il écrit sa dernière lettre attestant de la folie qui l’assiège : se prenant tour à tout pour Dieu puis pour le père d’une prostituée assassinée par un meurtrier. L’esprit de Nietzsche, l’un des plus grands, est définitivement à la dérive.

Lettre de Nietzsche à Jacob Burckhardt: (voir ici)

http://www.deslettres.fr/derniere-lettre-nietzsche-jacobburckhardt-finalement-jaimerais-bien-mieux-etre-professeur-bale-dieu/

24 de Agosto de 1572: Noite de São Bartolomeu em França. Começa o massacre dos Huguenotes (protestantes) | in Estórias da História

Madrugada de 24 de agosto de 1572: os sinos da catedral de Saint Germain-l’Auxerrois fizeram o prenúncio do dia de São Bartolomeu – um mártir.

Na Noite de São Bartolomeu de 1572, os católicos massacraram os huguenotes em França. Somente em Paris, três mil protestantes foram exterminados nessa noite. A violência estava espalhada por todo o país, o número de huguenotes mortos foi de dezenas de milhares.

Poucos dias antes, era calmo o ambiente na capital. Celebrara-se um matrimónio real, que deveria encerrar um terrível decénio de lutas religiosas entre católicos e huguenotes. Os noivos eram Henrique, rei de Navarra e chefe da dinastia dos huguenotes, e Margarida Valois, princesa da França, filha do falecido Henrique II e de Catarina de Médicis.

Margarida era irmã do rei Carlos IX. Alguns milhares de huguenotes de todo o país – a nata da nobreza francesa – foram convidados a participar das festas de casamento em Paris. Uma armadilha sangrenta, como se constataria mais tarde.

Casamento sobre o Sena

A guerra entre católicos e protestantes predominou na França durante anos. E agora, um casamento deveria fazer com que tudo fosse esquecido?

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Emmanuel Terray : être de droite c’est avoir peur | Emmanuel Terray avec Mathieu Deslandes

L’anthropologue Emmanuel Terray, qui signe « Penser à droite », a enquêté sur la tribu dont les valeurs triomphent depuis plus de trente ans.

Emmanuel Terray est un grand nom de l’anthropologie française. C’est aussi un citoyen engagé, comme on dit, franchement à gauche. Il vient de publier un livre,« Penser à droite » (éd. Galilée), dont on a envie de souligner toutes les phrases.

En étudiant les écrits des grands penseurs de droite depuis la Révolution française, il a dégagé ce qui constitue leur socle commun, quelles que soient les époques, et quels que soient les « courants » et les traditions dans lesquels ils s’inscrivent.

Il nous aide à comprendre pourquoi l’immigration et l’islam sont des obsessions des hommes politiques de droite. Et pourquoi on peut être pauvre mais voter pour un candidat qui n’aide pas les pauvres.

Au terme de son enquête, il estime que la vision du monde « de droite » est aujourd’hui hégémonique – et que « François Hollande est un bon reflet » de cette domination.

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Coroa Imperial de D. Pedro II | © Museu Imperial

A coroa imperial de D. Pedro II é um dos tesouros mais valiosos do Brasil. Lavrada em ouro pelo ourives brasileiro Carlos Marin no Rio de Janeiro, foi adornada com os diamantes da anterior coroa de D. Pedro I primeiro imperador do Brasil (soberano entre 1822 e 1831), e com uma fiada de pérolas finas que foi oferta de D. Pedro I ao seu filho D. Pedro de Alcântara para a ocasião da sua aclamação e coroação em 1841, cerca de dez anos volvidos sobre a sua regência.
Com um total de 639 diamantes e 77 pérolas, a coroa, com quase 2 quilogramas de peso, está em exposição permanente no Museu Imperial de Petrópolis. Em 2004 a Casa Amsterdam Sauer executou uma réplica desta coroa em prata dourada, com quartzos incolores e pérolas de cultura, que faz parte do seu museu.

© Museu Imperial

Retirado do Facebook | Mural de Augusta Barranha

Wassily Kandinsky | Untitled, 1921 Oil on canvas

An early champion of abstract painting, Wassily Kandinsky is known for his lyrical style and innovative theories on nonfigurative art. In his 1910 treatise Concerning the Spiritual In Art, Kandinsky made famous his belief that abstract colors and forms can be used to express the “inner life” of the artist. Kandinsky taught this and other lessons at the Bauhaus, the historic Weimar institution that brought together artists including Joseph AlbersLazlo Maholy-Nagy, and Piet Mondrian, amongst others. Kandinsky had a strong interest in the relationship between art and classical music, this theme apparent in his orchestral Composition VI (1913), where colliding forms and colors move across the canvas. In 1911 Kandinsky played a central role in organizing Der Blaue Reiter, a group of artists named in part after Kandinsky’s favorite color, blue.

Russian, 1866-1944, Moscow, Russia

Naqueles tempos Bárbaros e Góticos… | Eugénio Lisboa in revista Visão

JORNAL DE LETRAS Crónica de Eugénio Lisboa. “Ponho-me a ler estes textinhos inovadores e sinto a maior dificuldade em navegar no meio daquela frondosa “floresta de enganos”. Tudo me perturba, me intriga, me coloca fora de qualquer realidade palpável. A sintaxe, a morfologia, o bom senso – retraem-se, afrouxam, fazem caretas, dissolvem-se.”

Sofro, com frequência, semanalmente, diariamente, horariamente, quando me ponho a ler colunas, livros, ensaios, ficções, testemunhos dos jovens e aclamados turcos do nosso mercado literário. Sinto-me, ai de mim, posto de lado, excluído, arrumado numa prateleira, de cada vez que mergulho naquela algaraviada debitada numa prosa “inovadora”, que ofende o bom senso, a gramática essencial e a mais elementar lógica do discurso. As palavras combinam-se, ali, naquela prosa intemerata e louca, de modo anárquico e perturbante – e deixam-me os olhos e o espírito enviesados. Palavra puxa palavra, na razão direta da falta de senso e na inversa da mais desejável higiene mental. Escreve-se uma prosa “fresquinha” e “novinha”, em que nada faz muito sentido, mas em que tudo soa muito a uma “revolução de linguagem” (sic). Aquela prosa não dá para pensar, para refletir, para exprimir, dá apenas para parecer que está ali para prospetar territórios “novos”, mesmo à custa de uma total falta de senso e de uma pungente ausência de sentido de ridículo.

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Vladimir Nabokov | Nouvelles complètes | Edição em francês

Ce volume contient :Le lutin ; Natacha ; Le mot ; Ici on parle russe ; Bruits ; Un coup d’aile ; Les dieux ; Jeu de hasard ; Le port ; La vengeance ; Bonté ; Détails d’un coucher de soleil ; L’orage ; La Vénitienne ; Bachmann ; Le dragon ; Noël ; Une lettre qui n’atteignit jamais la Russie ; Pluie de Pâques ; La bagarre ; Le retour de Tchorb ; Guide de Berlin ; Conte de ma mère l’oie ; Terreur ; Le rasoir ; Le voyageur ; La sonnette ; Une affaire d’honneur ; Un conte de Noël’ L’Elfe-patate ; L’Aurélien ; L’irrésistible ; Une mauvaise journée ; La visite au musée ; Un homme occupé ; Terra incognita ; Retrouvailles ; Lèvres contre lèvres ; L’arroche ; Musique ; Perfection ; La flèche de l’Amirauté ; Le ” léonard ” ; À la mémoire de L. I. Chigaïev ; Le cercle ; Une beauté russe ; La mauvaise nouvelle ; Léthargie ; Recrutement ; Une tranche de vie ; Printemps à fialta ; Lac, nuage, château ; L’extermination des tyrans ; Lik ; Mademoiselle 0 ; Vassili Chichkov ; Ultima Thulé ; Solus Rex ; Le producteur associé ; Un jour à Alep… ; Un poète oublié ; Le temps et le reflux ; Conversation Piece, 1945 ; Signes et symboles ; Premier amour ; Scènes de la vie d’un monstre double ; Les soeurs Vane ; Lance.

Trad. de l’anglais et du russe par Maurice CouturierYvonne CouturierGérard-Henri DurandBernard Kreise et Laure Troubetzkoy et révisé par Bernard Kreise

Avec la collaboration de Marie Berrane

Collection Quarto, Gallimard

Há liberdade na democracia? | John Locke

Há liberdade na democracia? Locke esclarece. Esta semana na colecção Grandes Nomes do Pensamento, Dois Tratados do Governo Civil do inglês John Locke, fundador do liberalismo clássico com o escocês David Hume. Por mais 9,90€ com o jornal Público.

Tradução de Miguel Morgado seguindo a edição da Yale University Press ( Para encomendar este volume ou a colecção completa contacte-nos por esta página).

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Capítulo I
“1.-A escravatura é uma condição do homem tão vil e miserável, e tão directamente oposta ao temperamento generoso e à coragem da nossa nação, que dificilmente se concebe que um inglês, e muito menos um gentil-homem, possa advogá-la…” Início do livro Dois Tratados do Governo civil

“Os Dois Tratados do Governo civil, publicados de forma anónima em 1689, expõem as ideias de Locke, que inspirarriam os filósofos iluministas e as revoluções amercianas e francesa, sobre um Estado e uma sociedade legitimados num pacto entre homens e nos seus direitos naturais, pré-civis, iguais.” Sousa Dias, Filósofo.

Retirado do Facebook | Mural de Levoir

Que terroristas vai Trump matar para o Afeganistão? | Carlos Matos Gomes

Lemos, vemos, ouvimos, mas não pensamos. Que vale termos acesso à informação se a engolimos sem a mastigar? No Le Monde de 22 de Agosto saíram duas notícias a par. Numa, mais um pontapé de Donald Trump nas promessas da campanha eleitoral. Trump candidato tinha prometido retirar as tropas americanas do Afeganistão. Trump eleito, num discurso de 21 de Agosto engole as afirmações e lê o discurso preparado pelos generais e pelo o complexo militar-industrial. Um discurso articulado em dois blocos, um perceptível por um auditório médio: “Não se trata de um cheque em branco, nem de exportar a democracia” e outro para satisfazer os pistoleiros broncos do nível de Trump: “Trata-se de matar os terroristas!” A eles, sus!

Haverá quem acredite que os americanos andam a matar os terroristas no Afeganistão? O Le Monde parece que sim e os seus leitores também. Não existe nenhuma crítica à afirmação. No entanto, confiante que os consumidores comem tudo, o Le Monde coloca ao lado da banha de cobra de Trump a notícia de que os atentados da Catalunha foram realizados por cidadãos marroquinos, conduzidos ao crime por um também marroquino estabelecido com banca de atentados numa mesquita em Ripoll, uma localidade espanhola e que tinha passado várias temporadas na Bélgica a traficar droga. Um delinquente como tantos outros que cresceram entre nós e que foram por nós educados, como recordaram os avós de dois dos assassinos. Não há notícia destes terroristas de Barcelona terem passado pelo Afeganistão, por onde também não passaram os assassinos de Londres, da Alemanha, de Paris, de Nice, de Bruxelas…

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O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington | Carlos Matos Gomes

O discurso de 21 de Agosto de Trump aos Estados Unidos, a propósito da política para o Afeganistão, foi o resultado visível de um golpe de estado em Washington. Os generais do Pentágono tomaram o poder. Trump é, a partir de ontem à noite, apenas o títere dos militares americanos. Numa manobra prévia, os generais correram, defenestraram, todos os cortesãos iniciais de Trump e apenas o deixaram a ele, à mesa da sala oval, a fazer de espantalho. No dia 21 à noite, impuseram-lhe um discurso de resignação sob a forma de “nova política para o Afeganistão”, onde o colocaram a desdizer tudo o que tinha dito e prometido quanto a política de intervenção militar na campanha eleitoral. Puseram-no a defender a política de Hilary Clinton, a sua candidata!

A 20 de janeiro deste ano de 2017, Donald Trump proclamou que daí em diante seria «America First », isto é, a América não se aventuraria mais no estrangeiro. Agora, como escreve o Washington Post, «teve de se vergar diante da realidade.» E a realidade é que quem manda são os generais. E o que os generais dizem é que o Afeganistão é um saloon numa região árida e sem lei. Por isso os americanos têm de lá estar para competirem com os outros pretendentes a donos do local. Um clássico dos westerns. O Afeganistão interessa à Rússia, é parte da sua fronteira sul, interessa à China, é parte da sua fronteira ocidental (mesmo que numa estreita língua), permite a ligação ao sub-continente indiano e ao Índico, faz fronteira com o Irão.

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Poema | Miguel Torga

O sol dos Sonhos derreteu-lhe as asas.
E caiu lá do céu onde voava
Ao rés-do-chão da vida.
A um mar sem ondas onde navegava
A paz rasteira nunca desmentida…

Mas ainda dorida
No seio sedativo da planura,
A alma já lhe pede impenitente,
A graça urgente
De uma nova aventura.

Miguel Torga

 

Retirado do Facebook | Mural de Augusta Barranha

MUDAR DE VIDA | filme de Paulo Rocha | Jorge Silva Melo

Uma das (muitas) críticas que na época foram feitas a essa obra-prima que é MUDAR DE VIDA de Paulo Rocha teve a ver com a escolha de Maria Barroso para o papel de Júlia (trabalho todos os dias mais admirável, garanto). “Que não podia ser – dizia-se no Vává…-, que uma actriz de teatro (essa “arte morta”…) nunca poderia fazer de camponesa de Entre-Os-Rios, que, professora e casada com advogado, Maria Barroso era uma senhora burguesa”, etc. Não se deram conta que o filme e o papel estão mais próximos de Racine (“dans un mois, dans un an…”) e da Madalena de Garrett (e do Nô, essa arte dos fantasmas que regressam) do que o “Arroz Amargo” das pernas das arrozeiras, não viram a ânsia desmedida que a actriz deu ao papel, a dor, o silêncio, trabalho admirável. A própria Maria Barroso ficou cheia de dúvidas quando Paulo Rocha, mestre, quis filmar os seus pés descalços pisando a caruma. Eram pés delicados, bem tratados. E Maria Barroso ainda andou uns dias antes da filmagem descalça pelo pinhal. Tem a sua graça porque Amélia Rey Colaço, com quem Maria Barroso trabalhou e sempre considerou, teve a sua estreia em 1917 -não vi, mas conheci quem veio de Beja para o São Luiz só para a ver, a mãe de Glicinia Quartin – na peça realista “Marianela” de Galdós, dirigida pelo Mestre Pinheiro. E tinha de andar descalça. E Amélia ensaiou o pisar a caruma dias e dias seguidos na sua quinta da Serra de Sintra. Veio em tudo o que era jornal, foi uma estreia triunfal.

Jorge Silva Melo

Retirado do Facebook | Mural de Jorge Silva Melo

RONNIE WOOD ARTIST | The Art Edition

Offering fresh insight into the creative processes of a rock’n’roll legend, RONNIE WOOD: ARTIST charts six decades of Ronnie Wood’s art. Genesis is delighted to publish this new guide to Ronnie Wood’s drawing, painting, printmaking and sculpture as as exclusive limited edition book and signed print set. Register your interest to hear more and to receive a complimentary brochure by postal mail.

http://www.ronniewoodartist.com

O restaurante carteirista e outras fábulas da demissão do Estado | Fernanda Câncio in Jornal Diário de Notícias

Restaurante assalta turistas com pratos de 250 euros; Meo cobra acima da própria tabela, diz a clientes que não podem rescindir ao balcão e impõe contratos por SMS. Quem diria que há leis?

Foi grande a comoção com a notícia do restaurante da Baixa de Lisboa que assalta turistas com preços absurdos, do tipo 250 euros por um misto de carnes. E maior ainda o escândalo ante a afirmação pelas autoridades – a ASAE, no caso – de nada poderem fazer, alegando que os preços absurdos constam da carta e portanto os enganados são-no por não terem a diligência mínima de a perscrutar de fio a pavio, ou questionar os empregados sobre o valor de cada prato.

Grande coincidência, a de tanto burro ir ao mesmo restaurante. Ou quiçá o problema não resida nos clientes. É que se não está em causa a liberdade de qualquer serviço (não essencial) cobrar valores disparatados, a questão é se isso fica ou não claro para o consumidor. Ora ao percorrer a lista do restaurante constata-se que a generalidade dos preços é normal para um estabelecimento médio; os valores desproporcionados estão numa página recôndita, como “especiais”. Ou seja: a lista, como o aspeto do lugar, induz o cliente a concluir que não pagará mais de x; quando, como afiançam testemunhos publicados online, os empregados sugerem os “especiais”, não há motivo para achar que vai pagar o décuplo do preçário geral.

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Portugal devastado: rotina ou terrorismo? | José Goulão in blog “http://www.abrilabril.pt”

O vento sopra em todo o país, mas as chamas, tal como em 1975, poupam as zonas onde prevalecem grandes interesses económicos tendencialmente sem pátria.

O terrorismo tem mil caras. Lançar o terror contra pessoas comuns e quase sempre indefesas, ou atemorizar populações e devastar países usando os cidadãos apavorados como reféns são práticas que preenchem os nossos dias num mundo que, pela mão de dementes usando o poder acumulado por conglomerados do dinheiro, caminha para inimagináveis patamares de destruição.

Portugal tem tido a sorte de ser poupado pelo terrorismo, diz-se e repete-se, por vezes com inflexões de um misticismo bolorento próprio de pátrias «escolhidas» para auferir das mercês do sobrenatural. Uma interpretação com curtos horizontes e vistas estreitas, características cultivadas por uma comunicação social habilmente arrastada para realidades paralelas e que reduz o terrorismo dos nossos dias ao estereótipo do muçulmano fanático imolando-se com explosivos à cintura, ou atropelando a eito, não se esquecendo de deixar o cartão de identidade, intacto, num local de crime reduzido a destroços humanos e amontoados de escombros.

Assim sendo, deixa de ser terrorismo, por exemplo, o que a NATO fez na Líbia, o que Israel pratica em Gaza, os massacres que as milícias nazis integradas no exército nacional da Ucrânia «democratizada» cometeram, por exemplo, na cidade de Odessa.

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Homenagem a Federico García Lorca

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana 
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones de bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en Punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay, qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

Retirado do Facebook | Mural de Carmen de Carvalho

A Floresta Portuguesa | Professor João Soares

“Os lusitanos eram um povo que vivia desta floresta que lhes fornecia caça, peixe, frutas, farinha de bolota para o pão (não conhecia o trigo), castanha (substituída pela batata após os Descobrimentos) e verduras (veiças). É disto testemunho, o que Estrabão refere ao descrever o povo que os fenícios encontraram (primeira idade do Ferro) neste extremo ocidental europeu (“…três quartas partes do ano alimentam-se sempre com bolotas secas, partidas e esmagadas, com as quais fazem um pão que se conserva muito tempo. Uma espécie de cerveja é a sua bebida ordinária…”). São também testemunho disto, os pães de castanha ou pão dos bosques, a “bola sovada” (falacha) e “pratos relíquias” à base de castanha, como o paparote ou caldulo que ainda se comem em algumas regiões beirãs, e, ainda, alguma “actividade social” baseada na castanha, como, os magustos, estando as brechas (apanha prévia, pela garotada) e os rebuscos (apanha das sobras pelos aldeões de fracos recursos) praticamente em desuso”, conta Jorge Paiva, no texto “A biodiversidade e a história da floresta portuguesa”.

A meio do século passado, emerge outra espécie: o eucalipto, vindo da Austrália e Tasmânia. O rendimento que gera ao produtor florestal tornou-o num investimento interessante que levou a que, face à ausência de regras orientadoras, crescesse onde devia e não devia, criando contínuos florestais que, se nada ou pouco geridos, criam um excelente pasto para os incêndios. Erros que o tempo e o conhecimento estão agora a tentar corrigir.
Muitas outras espécies chegaram, viram e venceram. Uma entre estas é hoje sinónimo de praga. A acácia mimosa, que a ex-Junta Autónoma de Estradas plantou profusamente país fora, e que muitos colocaram nos seus terrenos como planta ornamental, é uma invasora infestante que obriga a fortes investimentos para erradicar, o que nem sempre é coroado de sucesso. Reproduzindo-se muito facilmente e em muito pouco tempo, formam áreas densamente povoadas que impedem o desenvolvimento da vegetação natural.
(dados de 2010)

 

Retirado do Facebook | Mural do Professor João Soares

 

ANOS 30 E 40, EM ÉVORA | O BALNEÁRIO | António Galopim de Carvalho

À saída de Évora para Lisboa a cerca de 500 m da antiga Porta de Alconchel, o “balneário” ou como também de chamava o “Aquário das Bravas” (ver nota no final do texto) era um tanque de forma mais ou menos quadrada que a memória me diz ter uns 12 a 15 metros de largo, entre muros altos. Visto de fora mais parecia uma casa de um só piso e sem telhado, como hoje ainda se pode ver. Colado a um dos mais antigos chafarizes de Évora, o histórico Chafariz das Bravas (já documentado em finais do século XV) recebia dele a água que fazia as delícias dos adolescentes e de alguns homens, nos verões desses anos. Pouco fundo, dava para “ter pé” aos rapazes da minha geração. Mais seguro do que os pegos do Degebe, o afluente do Guadiana que mesmo nos verões secos represava alguma água nos sítios mais fundos, foi no balneário que muitos apenderam, sem escola e mal, a nadar de bruços ou às braçadas, mas o que mais rapidamente se aprendia era nadar “à cão”.
Este tanque foi a nossa piscina, mas diga-se, só para o sexo masculino e em cuecas, pois que calções de banho só um ou outro sabiam o que isso era. Não por regra estabelecida, mas pela imensa força dos bons costumes, raparigas e mulheres nem se aproximavam da porta. Foi preciso esperar cerca de duas décadas para se quebrar esse tabu, o que teve lugar com a inauguração, em 1964, das Piscinas Municipais.
Lembro-me que se falava do “tanque do Alexandre”, mas quase que só retive este nome. Tenho uma vaga ideia que era um daqueles tanques que havia nas quintas, destinados à rega, onde alguns iam nadar, ou melhor, iam meter-se na água.
Nota: – “Bravas” eram as mulheres que, na Idade Média, provocavam “arruídos” e zaragatas, uma espécie de “tendeiras” da minha geração. Em oposição às “Bravas”, existiu, nesse tempo, à porta de Alconchel, o “poço da Boa Mulher”

Retirado do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho