As emoções não podem tolher-nos o sentido crítico | Ricardo Paes Mamede

As emoções tornam-nos humanos. Permitem-nos sentir indignação e solidariedade. Obrigam-nos a entender o que o governo da Rússia está a fazer na Ucrânia como um crime contra a humanidade e a fazermos chegar das formas que pudermos a nossa solidariedade àqueles que sofrem na pele as consequências desta agressão.

As emoções não podem tolher-nos o sentido crítico. É a razão que nos leva a concluir que a Rússia não tem o direito de violar a lei internacional. Que a propaganda do governo russo sobre a inexistência de uma nação ucraniana não é mais do que isso – propaganda para tentar justificar as atrocidades em curso.

O sentido crítico também nos obriga a perceber que a posição dos EUA e das maiores potências europeias é tudo menos desinteressada e inocente. Que não fizeram o que podiam para evitar o acumular de tensões que tornaram esta agressão inaceitável e ilegal mais justificável aos olhos dos muitos que na Rússia sofrem todos os dias na pele com o autoritarismo do seu governo – e que ainda assim têm relutância em condená-lo pela guerra que está a impor à Ucrânia.

Precisamos de indignação contra o governo russo e solidariedade com o povo ucraniano. Isto não tem de – não pode – impedir-nos de acusar os governos dos EUA e da UE de estarem a aproveitar o clima de indignação e de solidariedade para prosseguir os seus interesses económicos e de afirmação de poder, ainda menos quando isso custa a vida a ainda mais ucranianos e o sofrimento daqueles que na Rússia não são responsáveis pelo que o seu governo autocrático faz.

Nesta como em tantas outras guerras, temos de ser capazes de humanidade sem deixar de pensar pela nossa própria cabeça.

Retirado do Facebook | Mural de  Ricardo Paes Mamede

VERDI, AIDA “MARCHA TRIUNFAL”

AIDA Es un nombre femenino que significa “visitante” o “regresando” es una ópera en cuatro actos con música de Giuseppe Verdi y libreto en italiano de Antonio Ghislanzoni, fue estrenada en el Teatro de Ópera del Jedive en El Cairo el 24 de diciembre de 1871 Y dirigida por Giovanni Bottesini.

En contra de la creencia popular, la ópera no se escribió para conmemorar la inauguración del Canal de Suez en 1869, ni tampoco para el Teatro de Ópera del Jedive en el Cairo y el mismo año.

Es cierto que A Verdi le pidieron componer una oda para la apertura del Canal, pero declinó la petición arguyendo que no escribía “piezas ocasionales”, más cuando Verdi leyó el argumento escrito por Auguste Mariette lo consideró como una buena opción y finalmente aceptó el encargo el 2 de junio de 1870.

Música | Aïda, Aida, Act II: Triumphal March

Artista | Deutsches Symphonie-Orchester Berlin, Carl-August Bünte

Cada vez mais preciso de silêncio, de tempo para o silêncio | ANA VIDAL

Cada vez mais preciso de silêncio, de tempo para o silêncio.

Preciso dele para pensar, para pensar-me, para me centrar ou para me evadir, para me reconhecer no que sou até ao ponto mais longínquo que há em mim.

Às vezes, só para chorar e deixar que essa água salvífica, finalmente vencida pela lei da gravidade, deixe que as nuvens, de novo leves e límpidas, se entreguem por inteiro à sua magna tarefa de glorificar o efémero.

Preciso dessa solidão silenciosa como de um espelho revelador, benigno como tudo o que é verdadeiro mesmo quando dói.

A solidão não me assusta, pelo contrário: acolhe-me, acolho-a, faz-me falta como uma velha amiga que me habita desde sempre.

Aflige-me quem a teme, quem foge dela como de uma maldição ou uma ameaça, quem prefere sempre trocá-la por qualquer outra coisa, qualquer outra presença, qualquer, qualquer que seja, tudo menos o vazio.

Não falo de quem sofre de solidão por abandono, sem opção nem bálsamo, aquela solidão permanente e deserta como uma sentença de morte.

Falo de quem, sem sequer ter dado por isso, se viciou em ruído e acaba tendo medo do que não tem som porque essa ausência lhe rouba uma ilusão de companhia.

Retirado do Facebook | Mural de  Ana Vidal

A Ucrânia — a NATO — Siga a dança | Carlos de Matos Gomes

Num post no FB, o embaixador Luís Castro Mendes escreve a propósito de uma prestação do historiador Fernando Rosas na CNN que este está a cometer o mesmo erro que foi o de Vasco Pulido Valente, noutro tempo: reduzir a análise da realidade ao precedente histórico e minimizar as diferenças do novo para magnificar as constantes do passado. O meu amigo David Martelo, historiador com vasta obra na área da polemologia faz uma excelente síntese do passado de conflito na Europa Central a que deu o título: CORTINADOS GEOPOLÍTICOS, sobre o conflito “que opõe atualmente a Rússia aos aliados da OTAN, localizada sobre a fronteira da Ucrânia”, mas essa história não explica o presente.

A História serve para tudo. O que quer dizer que serve de pouco. Há exemplos para todas as explicações. O passado pode ajudar a perceber o presente, mas sem entendemos o presente o passado serve de pouco. O Japão não percebeu que o presente tinha mudado com a arma atómica e teve uma terrível surpresa. Marcelo Caetano não percebeu que o Exército de 1974, após 14 anos de guerra colonial, não era o Exército que tinha partido para Angola em 1961 e teve a surpresa do 25 de Abril. A Revolução Francesa e a Russa são exemplos de surpresas por incapacidade de perceber que o presente não é uma evolução em linha reta do passado. São inúmeros os exemplos.

Mas a História tem constantes. Essas é que devem ser exploradas e estudadas para evitar surpresas. A constante da História é a luta pelo poder. É a luta por interesses à margem de qualquer referência moral. Não há luta de Bem contra o Mal.

A dita crise da Ucrânia é uma luta por interesses, mais uma. Os interesses da Rússia são claros e explícitos: Não quer ter inimigos acampados à porta! Os interesses dos Estados Unidos surgem camuflados com a mantra do costume da defesa da liberdade, uma canção esfarrapadíssima. Mas é possível lê-los: O interesse de Joe Biden surgir a meio do mandato como um presidente em guerra, um capitão América. O interesse dos Estados Unidos em obterem lucros diretos e indiretos com o aumento do preço do petróleo e do gás, dificultando a aquisição de gás russo pela Alemanha, principalmente, e proporcionando lucros às petrolíferas e aos aliados do Golfo, Qatar e Arábia Saudita. Congregar os países europeus à sua volta, para evitar tentações de autonomia. A lista é longa.

É destes interesses que se trata, a demonstração do poder de um império e o aviso a tentações de autonomia dos europeus. A NATO, referida por David Martelo, é uma confraria que tem um grão-mestre que paga, determina e pune rebeldes. A NATO são os Estados Unidos e uns apêndices.

Os países europeus representam na NATO o que as tropas de caçadores indígenas representavam para os exércitos coloniais, os landins de Moçambique, os askari do Tanganica, os gurkas da Índia: transmitem uma mensagem de unidade e igualdade, que é falsa, porque os comandantes e as armas são sempre do colonizador, do império, e servem os seus objetivos.

A NATO é, pois, uma entidade sofismática em que todos são iguais, mas um deles é mais igual do que todos os outros.

Na fronteira da Ucrânia jogam-se interesses. Os ucranianos são apenas os peões das nicas de mais um conflito. Quando os interesses estiveram equilibrados, regulados, os ucranianos passam à história, como já passaram os afegãos, os iraquianos, os sírios, os líbios, os venezuelanos, os equatorianos…

Ainda quanto à NATO, o turco Erdogan joga um papel duplo. Tem os seus interesses e está em condições de os negociar sem lhe acontecer o que aconteceu a Saddam Hussein, ou a Khadafi, ou até a Bin Laden. O francês Macron, também corre na sua pista. Quando se fala da NATO fala-se também de uma equipa com várias camisolas que se expressa através da voz de ventríloquo por um secretário-geral que tem autoridade sobre o motorista.

Quanto a Portugal, a NATO portuguesa tem sede em Washington. Estamos como os cães de água do Açores de Obama, ou como o sacristão das missas cujo papel é dizer ámen e servir a água e o vinho numa patina. Sendo assim e, como dizia Salazar, não podendo ser de outro modo está tudo bem. Vivemos numa sujeição inevitável que dispensa justificações do género que os ministros dos negócios estrangeiros costumam dar: defendemos princípios. Não, não defendemos, obedecemos e pronto!

Carlos de Matos Gomes

Born 1946; retired military, historian

Por quem dobram os sinos em Kiev? | por Carlos Branco, general e Investigador do IPRI-NOVA

IPRI-NOVA – Instituto Português de Relações Internacionais | http://www.ipri.pt/index.php/pt/

A explicação para os acontecimentos em curso na Ucrânia não se encontra em abordagens maniqueístas dos bons contra os maus, mas sim na geoestratégia, que tem influenciado de modo decisivo a política externa das grandes potências.

A compreensão dos acontecimentos presentemente em curso na Ucrânia exige um escrutínio dos factos, que vá para lá dos sound bites estridentes que confundem desinformação com informação, fazendo da verdade a primeira vítima da guerra, como uma vez alguém escreveu. De facto, estamos perante dois assuntos distintos, embora correlacionados: a proteção da população russa da Ucrânia, e a expansão da NATO para Leste, subsumindo-se o primeiro neste último.

A explicação não se encontra em abordagens maniqueístas dos bons contra os maus, mas sim na geoestratégia, que tem influenciado de modo decisivo a política externa das grandes potências.

Isso é bem visível no caso norte-americano. A política da contenção da União Soviética adotada por Washington, nos tempos da Guerra Fria, elaborada e desenvolvida por George Kennan, o arquiteto da estratégia americana para conter a União Soviética, fortemente inspirada nos trabalhos do geoestratega Nicholas Spykman, é um flagrante disso.

Mais recentemente, Zbigniew Brzezinski, conselheiro nacional de segurança do presidente Jimmy Carter, avançou no seu livro “The Grand Chessboard” (1997), com a teoria dos pivôs geopolíticos, considerando a Ucrânia um desses pivôs.

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Uma simples conjectura | Rodrigo Sousa e Castro

Os economistas liberais neocons que gizaram a globalização e que através do dumping social e financeiro, das offshores  e do aumento exponencial das desigualdades com a criação de uma casta de oligarcas, bilionários e outra gatunagem, acreditam agora no cerco económico á Rússia.

Esquecem-se q a China receberá no seu “leito  de núpcias” cuidadosamente preparado, todo o potencial energético, de matérias primas essenciais e toda a  tecnologia militar e espacial da Rússia.

Veremos a criação de um bloco, á escala planetária com mais recursos económicos, territoriais e demográficos. A China anexará finalmente Taiwan e desafiará a potência marítima (EUA) que mesmo com a sua “bielorussia”, leia-se UE á trela, terá que aceitar a primazia do bloco asiático.

Claro que isto é uma simples conjectura, nem lhe chamo análise para não ferir o academismo e arrogante sapiência dos comentadores (boa parte deles) que ouvimos na nossa CS. Mas se Deus me der alguns anos de vida logo verei se tinha ou não á data de hoje as ideias bem arrumadas.

Retirado do Facebook | Mural de  Rodrigo Sousa Castro

VIAGEM AO PASSADO POR CAUSA DO PRESENTE | por José Pacheco Pereira in Jornal Público | 22/12/2012 (nós, humanidade, não temos vergonha – vcs)

Hoje tudo é muito diferente em relação ao passado, mas também muita coisa é demasiadamente igual.

No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc. Havia uma multidão de criados e criadas, criadas “de servir”, e muito trabalho infantil em todas as profissões, em particular nas mercearias, onde os marçanos viviam uma infância muitas vezes brutal, dormindo na loja e carregando com cargas muito pesadas. Falei em operariado, mas na verdade, muito poucos correspondem ao conceito, porque se trata mais de artífices, trabalhadores indiscriminados, e em muitos casos com profissões hierarquizadas em que os aprendizes eram sujeitos a todos os abusos. Havia depois uma aristocracia operária, essencialmente entre os que faziam tarefas qualificadas e mais bem pagas, como era o caso dos tipógrafos, que sabiam ler e por isso tinham um mundo social diferente. Antero de Quental foi tipógrafo de passagem.

Deixo o campo de lado, em que a maioria dos portugueses ainda vivia, onde havia igualmente um território obscuro e pouco conhecido que despertou com a I República, os trabalhadores rurais alentejanos. Estes viviam uma vida violenta e esquecida no meio do deserto alentejano. Nos meios rurais vários grupos de trabalhadores vegetavam na mais negra miséria e vendiam o seu trabalho sazonalmente, nas vinhas do Douro, nos campos do Alentejo e Ribatejo como maltezes e ratinhos. O que de mau se pode dizer das cidades, pode-se dizer pior do campo ou das vilas piscatórias do litoral e mineiras do interior.

A economia do mundo operário centrava-se no salário muito escasso, na renda de casa, numa vila operária ou numa “ilha” se fosse no Norte do país, onde se amontoavam em condições higiénicas e sanitárias inimagináveis. A epidemia de cólera no Porto, e a habitual ocorrência de tifo, demoraram muito anos a lembrar os governantes do problema de insalubridade da “habitação operária” e deram origem aos bairros sociais no salazarismo.

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A Final Four na Ucrânia – A Europa apanha bolas | por Carlos de Matos Gomes

A Final Four na Ucrânia – A Europa apanha bolas

Hoje o pensamento é um subproduto do futebol. O futebolês passou a linguagem filosófica. Aderindo então aos ventos do momento: 

A “final four” é um torneio em que quatro equipas disputam uma classificação. Uma versão da final four apura os três primeiros e o quarto desce de divisão. O que se está a passar com a crise da Ucrânia é uma final four em que os dirigentes da União Europeia já decidiram que ficam em quarto lugar e deixam de participar nos jogos ao mais alto nível nas próximas temporadas

O que está em jogo na Ucrânia é decisivo para a União Europeia. Escrever e debater o papel da União Europeia neste confronto entre a Rússia e os Estados Unidos, tendo a China a observar, é decisivo em dois pontos: o político e económico (que papel para a União Europeia no Mundo?); e, principalmente, quanto à questão melindrosa e por isso raramente aflorada do conflito de civilizações.

Dirão alguns que se fala demais da Ucrânia, que a questão é da maldade intrínseca de Putin – e saem insultos, que são a negação do pensamento e a revelação da falta de argumentos: czar, filho de Estaline, soviético, facínora – e resmas de folhas de História para garantir que os russos veem aí, filhos dos comunistas sanguinários.

Na realidade:

A primeira questão que a Ucrânia coloca à UE é que o conflito assenta numa luta entre potências Estados Unidos e Rússia, com 3 vetores por parte dos EUA: (1) manutenção do dólar como moeda de troca internacional (a UE é o maior parceiro da Rússia e o segundo dos Estados Unidos); (2) o domínio militar em terra, no mar e no espaço (a Europa não tem poderio militar significativo em nenhum destes espaços); (3) por fim a questão energética (em particular o gás, de que a Rússia é um grande produtor e o coloca na Europa a 1/3 do preço do gás americano).

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Os três tipos de “obcecados” por Putin | por Rodrigo Sousa e Castro

Ontem ouvi o general Arnaud na RTP1 a considerar Putin um mestre de estratégia e a explicar porquê. Existem portanto três tipos de “obcecados” por Putin e pela sua conduta politico- militar-diplomática e que passo a caracterizar;

1 – Os que admiram genuinamente Putin, gente radical de direita e extrema direita/esquerda para quem os sistemas autocráticos capitalistas são a solução para calar o Povo , espezinhar as Liberdades, como Bolsonaro, Trump, Orban , o chinoca  o coreano, ;

2 – Os que desejariam que a Rússia fosse governada por um pusilânime como O Gorbachev ou por um bêbado como Yeltsin, que abrisse as pernas ao capitalismo predador ocidental, para que se apossasse das imensas riquezas russas o que teria acontecido sem o Putin ou um seu equivalente;

3 – Os que tal como os generais portugueses p.ex. o citado e o gen. Carlos Branco p. ex. procuram serenamente as causas, as motivações e as intenções do politico e não avacalham a discussão com sectarismos ideológicos que nada acrescentam à compreensão da crise. Procuro situar-me aqui;

4 – E por ultimo a legião de ignorantes, com uma amostra significativa nas redes sociais, que vêm a disputa de Poder à escala Global, Regional ou Local, com o sectarismo clubista e que disparam às cegas da bancada onde acriticamente se sentam.

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa Castro

A China é um exemplo da americanização da desigualdade | Francisco Louçã | in no Expresso

Já todos foram felizes em Davos. Era uma parada de estrelas, estadistas, empresários, influencers, tecnólogos, ocasionalmente alguns produtores de blockbusters, toda a cultura do pop-capitalismo contemporâneo se juntava uma vez por ano na elegante estância suíça para dar os seus sinais ao mercado ansioso. No ano passado, a pandemia arrasou a festa e transferiu-a para o mundo virtual, o que faz perder o glamour das flutes de champagne e dos encontros de negócios. Apesar dessa tragédia, houve pelo menos um dos frequentadores, Marc Benioff, um bilionário que fundou a Salesforce, uma empresa de software, que então conseguiu resumir a autocongratulação dos vencedores da crise: “temos de o dizer, os CEOs foram definitivamente os heróis de 2020”. Talvez essa saga explique como se vão definindo algumas das mudanças surpreendentes do nosso mundo.

Os heróis da crise

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O Fim da Civilização | Gustave Flaubert, in ‘Memória de um Louco’

Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o ceptro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba.

Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.

Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.

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As dimensões racista, xenófoba, misógina ou globalmente autocráticas | João Mendes

Há quem não compreenda as dimensões racista, xenófoba, misógina ou globalmente autocrática – to name a few – do Chega. Pior: há quem as compreenda, compreendendo também as consequências que daí resultam, mas opta por desvalorizar e normalizar, por ódio à esquerda, por simpatia envergonhada pelo Chega ou por comungar do mesmo ideário. Ou por todos estes motivos. E mais alguns.

Daqui salta-se quase sempre para a vitimização. E uma das modalidades de vitimização mais comuns é esta: então e a extrema-esquerda? Quando me deparo com esta sobrevorização do papel de micropartidos como o MRPP ou o MAS, fico sempre perplexo. Bem sei que o MRPP defende a morte dos traidores, mas será que alguém os leva a sério? Têm relevância política? Recebem financiamento significativo que possa transformar estes partidos numa ameaça real? Não, não e não. Três vezes não.

Depois percebo que estão a falar do BE e o PCP. E pergunto-me, como pergunto a essas pessoas, quando me cruzo com elas, que ameaça representam estes dois partidos. Raramente obtenho uma resposta clara e objectiva. Só frases feitas e clichés. Aparentemente, o BE quer impor uma ditadura em que todos temos que ser gays. E quer sair da Europa. E do Euro. Raios, isto é uma grande ameaça! Imagino-os logo na rua, de cabeça rapada, a espancar transeuntes pelo seu europeismo. Fico até com algum medo, na medida em que sou acérrimo defensor da UE, e a seguir posso ser eu.

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A Ucrânia — a NATO — Siga a dança | Carlos Matos Gomes

Num post no FB, o embaixador Luís Castro Mendes escreve a propósito de uma prestação do historiador Fernando Rosas na CNN que este está a cometer o mesmo erro que foi o de Vasco Pulido Valente, noutro tempo: reduzir a análise da realidade ao precedente histórico e minimizar as diferenças do novo para magnificar as constantes do passado. O meu amigo David Martelo, historiador com vasta obra na área da polemologia faz uma excelente síntese do passado de conflito na Europa Central a que deu o título: CORTINADOS GEOPOLÍTICOS, sobre o conflito “que opõe atualmente a Rússia aos aliados da OTAN, localizada sobre a fronteira da Ucrânia”, mas essa história não explica o presente.

A História serve para tudo. O que quer dizer que serve de pouco. Há exemplos para todas as explicações. O passado pode ajudar a perceber o presente, mas sem entendermos o presente o passado serve de pouco. O Japão não percebeu que o presente tinha mudado com a arma atómica e teve uma terrível surpresa. Marcelo Caetano não percebeu que o Exército de 1974, após 14 anos de guerra colonial, não era o Exército que tinha partido para Angola em 1961 e teve a surpresa do 25 de Abril. A Revolução Francesa e a Russa são exemplos de surpresas por incapacidade de perceber que o presente não é uma evolução em linha reta do passado. São inúmeros os exemplos.

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“𝐌𝐚𝐢𝐨𝐫𝐢𝐚 𝐚𝐛𝐬𝐨𝐥𝐮𝐭𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐞𝐠𝐮𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐯𝐨𝐭𝐨 𝐝𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐥𝐡𝐨𝐬”? | José Alves

A Dona Clara Ferreira Alves, no jornal Expresso de hoje, profere a frase que serve de título a este escrito. É curiosa esta afirmação (ou não, vinda de onde vem!), quando o jornal para onde a senhora escreve, dizia há menos de uma semana, em grande título, “Tudo empatado. Voto de jovens decide eleições.” (Expresso de 28 janeiro 2022).

Afinal foram os velhos ou os novos que decidiram as eleições? Seja como for, foram seguramente os portugueses eleitores, maiores de 18 anos. É claro que a Dona Clara Ferreira Alves, quando escreve o que está em título, fá-lo de uma forma depreciativa, querendo com isto dizer, que foram os velhos dependentes do aparelho do Estado, que possibilitaram tal resultado. O tal “Portugal triste”, como ela escreve.

Volta a ser curioso, porém, que o jornal que lhe paga a avença, destacava na edição online de 31-01-2022, que a “Maioria absoluta de Costa foi à custa de 344.861 votos da esquerda.” É da sociologia política, que o voto à esquerda é, em regra, do eleitorado mais jovem. O eleitorado mais velho (como diz a Dona Clara), em regra, é mais conservador e tende a votar em partidos dessa matriz. Mas, com se disse, o intuito da Dona Clara Ferreira Alves, com aquela frase, tem outros objetivos, principalmente, a tentativa de denegrir a vitória incontestável do Partido Socialista. Tendo sido a senhora uma “santanista” e mais tarde uma “pafiosa”, é de acreditar que esta maioria absoluta do PS, lhe cause engulho senão mesmo urticária. Como tem o privilégio de usar uma tribuna semanal para afirmar o seu desconsolo e tendências, o resultado é que quem paga é o povo que, como diz uma ex-vice-presidente do PSD (Isabel Meirelles), “o povo português falhou”.

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POSTAL DO DIA | António Lacerda Sales | por Luís Osório

1.

Muito se falou na noite eleitoral da vitória esmagadora de António Costa.

Do modo como o PS conseguiu ganhar em todos os distritos – com a exceção da Madeira. Uma coisa que nunca acontecera na história da democracia. E muito se acentuou que Bragança, Viseu e Leiria eram objetivos que ninguém pensaria poder alcançar.

Então no distrito de Leiria era mesmo considerado impossível.

Nunca antes o PS lá vencera.

Aconteceu.

2.

E estou convencido de que a influência de António Lacerda Sales, secretário de Estado da Saúde e cabeça de lista no distrito, foi determinante.

Muitas vezes, as elites políticas e jornalísticas esquecem-se que as pessoas boas, as que passam uma imagem de bondade, seriedade e amor pelo próximo podem ser decisivas – esquecem-se do fator humano.

Lacerda Sales está nesse grupo.

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Branislav Hrvol | Você está perguntando sobre os resultados da “agressão” russa? | in Facebook

24 de dezembro de 2021

Um blogueiro finlandês chocou o Facebook quando publicou este artigo: Você está perguntando sobre os resultados da “agressão” russa? Eles são os seguintes: metade da Europa e parte da Ásia obteve a sua cidadania das mãos deste Estado em particular.

Vamos nos lembrar de quem exatamente:

– Finlândia nos anos 1802 e 1918… (até 1802 nunca teve seu próprio estado).

– Letônia em 1918 (até 1918 nunca teve seu próprio estado).

– Estónia em 1918 (até 1918 nunca teve seu próprio estado).

– A Lituânia restaurou o seu estado em 1918 graças à Rússia.

– A Polónia restaurou o seu estado com a ajuda da Rússia duas vezes, em 1918 e 1944. A divisão da Polónia entre a URSS e a Alemanha é apenas por um curto período de tempo!

– A Roménia nasceu como resultado das guerras russo-turcas e tornou-se soberana pela vontade da Rússia em 1877-1878.

– A Moldávia como um estado nasceu dentro da URSS.

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Na noite das eleições | Paulo Querido

Na noite das eleições “ao lado de António Costa sentava-se Pedro Nuno Santos, o seu maior adversário interno e o que mais ameaça ou difere do seu legado ideológico.

O diretor de campanha de António Costa foi Duarte Cordeiro, um dos melhores amigos de Pedro Nuno Santos.

Como secretário-geral adjunto apresenta-se José Luís Carneiro, ex-braço direito de António José Seguro.

No penúltimo comício de campanha apareceu Manuel Alegre que nos últimos anos criticou mais vezes António Costa do que elogiou.

Apesar de muito aplaudido por muitos de nós sempre que desanca na Geringonça, Sérgio Sousa Pinto nunca esteve em causa nas listas do PS.

António Costa mostrou aos portugueses que sabia unir, sabia fazer pontes quer com os seus adversários internos quer externos.”

Quem escreveu este que é um dos melhores elogios a António Costa (e ajuda a compreender a facilidade com que tantos eleitores lhe deram a maioria absoluta, ainda que tenha contado mais a excelente prestação económica dos últimos 6 anos) foi Duarte Marques.

O antigo deputado do PSD (que eu não lia há mais de 10 anos) estava a desancar em Rui Rio precisamente por ter ‘secado’ as oposições internas, numa via diametralmente oposta à de Costa.

A forma, tão de direita, tão das direitas, a antiga em ciclo decrescente e as duas extremas que estão em ciclo crescente, como se olha para as eleições como se de um jogo se tratasse, em que se vence para esmagar o inimigo, como se olha para o Parlamento como um território a capturar e como se vê o Governo como uma ferramenta legal para açaimar e desapoderar todos os que não são da tribo é um dos Grandes Males da democracia.

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Querido

A FORÇA DO PC | Francisco Seixas da Costa

“Assim se vê a força do PC!”, é um estribilho conhecido de todos. A força do PC, depois das eleições de domingo, é muito inferior à força que o PC tinha no parlamento antes da respetiva dissolução, que o PC ajudou a consumar. Como resultado, cada vez menos se vê a força do PC.

Ontem, na televisão, ouvi atentamente João Oliveira, um dos quadros mais salientes na vida parlamentar dos comunistas, nos últimos 15 anos, que não foi eleito como cabeça de lista do partido pelo distrito de Évora. Se alguém me dissesse, no sábado, que os comunistas deixariam de estar representados no alentejano círculo eleitoral de Évora eu “explicaria”, com facilidade, a implausibilidade desse cenário.

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O SEXO DOS ANJOS OU A OPORTUNIDADE PERDIDA | Paulo Sande

A campanha eleitoral chega ao fim. Entretanto, das longínquas fronteiras eslavas ecoam sons de guerra. A NATO está pronta, anuncia o seu secretário-geral. E em Portugal, o que se disse sobre essa eventualidade?

O SEXO DOS ANJOS OU A OPORTUNIDADE PERDIDA

28 de maio de 1453. Constantinopla, a capital do Império Bizantino, a pérola do Levante, o símbolo da Cristandade na fronteira oriental, está cercada por 80 mil turcos comandados por Mehmed II. O imperador Constantino XI, último de seu nome, resiste desesperadamente, à cabeça de 7 mil homens mal-armados.

Em concílio, enquanto os soldados morrem, na Santa Catedral de Sofia, a igreja da Santa Sabedoria, os clérigos cristãos, hesicastas e místicos, reunidos no âmbito da Escola Patriarcal, discutem um assunto fundamental para o futuro da humanidade:

Que sexo têm os anjos?

SOAM OS TAMBORES DE GUERRA

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Eu quero viver num país decente! | Carlos Matos Gomes

Eu quero viver num país decente. Não quero o paraíso. Quero o melhor possível. O que começa por respeito pelos meus semelhantes.

A que vêm estas frases? Ao tratamento que está a ser dado a um nosso concidadão na África do Sul. João Rendeiro.

A justiça popular, os adeptos dos pelourinhos e das fogueiras dos autos de fé exultaram com a prisão de João Rendeiro na África do Sul.

Os açuladores das matilhas – as televisões, em claro – transformaram um ser humano num animal de vingança, no gato a que se ateava uma chama ao rabo, ao coelho lançado para o meio dos cães, no judeu.

Excitaram o pior de cada um de nós. De tal modo que um energúmeno em campanha eleitoral pode propor sem escândalo a prisão perpétua, a castração de homens e a excisão de ovários a mulheres!

Revolto-me ao  ver e ao ler e ao ouvir o que está a ser dito a propósito das condições da prisão de João Rendeiro. Conheci a África do Sul no tempo do apartheid. Sei da violência acumulada. Acredito que as atuais prisões sul-africanas sejam assim; acredito que o que se soube do tratamento a prisioneiros na Costa dos Esqueletos na Namíbia e que, passe a publicidade, referi ao de leve no romance Angoche – se replique hoje em dia.

Sei que não é politicamente correto defender João Rendeiro, mas é a minha consciência.

Não sendo religioso, conheço a frase bíblica de ser preferível perdoar a um pecador que condenar um inocente. João Rendeiro não é, pela atual justiça (pela antiga seria), inocente, mas não merece ser condenado a uma morte lenta, a tortura – porque se trata de tortura e de tratamento desumano aquilo que estamos a assistir e a admitir com o nosso silêncio.

Haverá quem defenda esses processos. Haverá quem se cale por conveniência. Eu não. Eu quero viver num país onde todos, mesmo os que praticam crimes, tenham a dignidade de seres humanos. Quero deixar essa herança aos meus netos. E vou votar para me ajudar a ficar de bem comigo.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

CINTIA MARTINS | RACISMO | DESPORTO | EDUCAÇÃO | POLÍTICA | António Carlos Cortez

CINTIA MARTINS é atleta do Sporting. Joga futebol, é talentosa e respeitada no clube por colegas, treinadores e dirigentes. Num jogo com a FUNDAÇÃO SALESIANOS, alguém a ofendeu, gritando “Macaca vai para a tua terra”.

Soube desta tristíssima notícia através dum post de Luís Osório. Junto-me à sua indignação e acrescento alguns dados e ideias.

Não só o CHEGA é um partido que tem alimentado o discurso racista em Portugal, como, provincianamente, procura normalizar-se a sua presença na nossa democracia. Um dos problemas que urgentemente o PS, o PSD e o PCP e o CDS – partidos que fizeram o regime democrático, fundando-o com Soares, Cunhal, Sá-Carneiro e Freitas do Amaral, – têm de resolver é este:

– não pactuar de forma alguma com o CHEGA. Há um princípio bíblico de que se deveriam lembrar: não se fazem festas a cobras. É responsabilidade de Costa e Rui Rio, de Chico e de Jerónimo de Sousa denunciar André ventura e condenar veementemente os comportamentos racistas, sexistas, xenófobos e machistas que vão fracturando a sociedade portuguesa.

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NÃO ESQUECEMOS | Eduardo Pitta

Na campanha em curso, um dos méritos da forte exposição mediática dos candidatos do PSD, CDS, IL e CH tem sido a revelação das suas verdadeiras intenções: acabar o ajuste de contas com o 25 de Abril iniciado pelo Governo PSD/CDS em 2011.

Eu não me esqueço do que foram esses quatro anos:

— A subida brutal do IRS / a ominosa Contribuição Extraordinária de Solidariedade aplicada a todas as pensões de valor igual ou superior a mil euros / a retenção de 50% do subsídio de Natal de 2011 / os subsídios de férias pagos em duodécimos a partir de 2012 / a sobretaxa extraordinária de 3,5% / a tentativa, chumbada pelo Tribunal Constitucional, de impor um tecto à acumulação das pensões com pensões de sobrevivência / a demonização ideológica dos encargos com idosos / a privatização da TAP, EDP, REN, GALP, CTT / o encerramento de todas as escolas do primeiro ciclo com menos de 20 alunos / a redução das indemnizações por despedimento / o aumento dos passes sociais em 15% / a subida do IVA do gás e da electricidade / o congelamento das carreiras dos funcionários públicos / a eliminação de quatro feriados nacionais / a redução das férias / o aumento da carga horária de trabalho / a tentativa de aumentar a Taxa Social Única dos trabalhadores e baixar a dos patrões / a tentativa de privatizar a RTP e a Caixa Geral de Depósitos / a tentativa de rever a Constituição da República / etc.

Não podemos esquecer.

Retirado do Facebook | Mural de Eduardo Pitta

Basta olhar em volta | Viriato Soromenho Marques | in Revista Visão

A seu modo Não Olhem para Cima é uma reflexão sobre a fase terminal da era do niilismo em que há muito entrámos. Cuja porta de saída nos obriga a pensar se alguma vez a liberdade humana foi algo mais do que uma ilusão.

Quando em 15 de Outubro de 1940, O Grande Ditador, de Charlie Chaplin, estreou nas salas de cinema dos EUA não sei se o público terá sentido aquele libertar de tensão que esse imorredoiro e inspirado filme merece, quando apreciado a uma distância temporal conveniente. Nessa altura, apesar de os EUA não terem ainda entrado diretamente no conflito, os tambores de guerra ouviam-se já, tanto dos lados do Atlântico como das bandas agitadas do Pacífico. Apesar do desejo de paz, os cidadãos norte-americanos devem ter sentido alguma amargura perante a caricatura de Hitler, que na altura tinha a Europa a seus pés, com a exceção da Grã-Bretanha de Churchill.

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SONDAGENS | Carlos Vargas | 20 Janeiro 2022

Nada contra o ‘Público’ ou contra a ‘RTP’, obviamente. Muito pelo contrário. Ambas são prestigiadas marcas de informação. Mas, neste caso, são meros clientes do CESOP (Universidade Católica).

Quero dizer que a sondagem que hoje publicam parece-me pouco credível. Por três razões, que retiro da respectiva ficha técnica:

1. 58 % das pessoas contactadas não quiseram responder. O que mostra uma % altíssima de voto “escondido” – ficando portanto fora dos resultados apurados. E que indicia também, fortemente, que o número de indecisos será superior aos 22% de NS/NR apurados entre os que aceitaram o contacto.

2. Das respostas obtidas apenas 44 % são de mulheres, o que está muito longe de corresponder à rácio de mulheres no universo eleitoral.

3. Todas as 1.456 entrevistas foram feitas através de telemóvel. Não tenho a certeza de que a vasta população mais idosa, principalmente fora dos centros urbanos, possa estar devidamente representada nessa amostra de respondentes exclusivos via telemóvel.

Respeito os profissionais de sondagens e não quero fazer leituras nem tirar nenhumas conclusões. A minha reserva é objetiva e funda-se exclusivamente nos três pontos citados.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Vargas

As direitas falam a uma só voz, as esquerdas desafinam umas contras as outras | Paulo Querido

Estamos assim: as direitas falam a uma só voz, as esquerdas desafinam umas contras as outras.

Tudo isto era tão, mas tão dispensável.

As campanhas de BE e CDU são lamentáveis: o objetivo de ambas é a desresponsabilização no chumbo do OE que precipitou estas escusadas eleições, e a reconquista de uma posição de compromisso com o PS, ao mesmo tempo que o atacam em cada frase.

A campanha do PS assenta numa única mensagem: a da continuidade do governo interrompido. Não discordo dela, mas acho-a arriscada. Talvez houvesse alternativa para uma proposta mais eficaz, que abrisse campo para uma narrativa de ajustes e melhorias. Costa está a brincar com o fogo. Ressentido, esticou a corda. Esperemos que não demais.

LIVRE e PAN fazem campanhas muito boas, dissonantes da esquerda que insiste em discursos de clivagem e prolonga a desresponsabilização, nos seus diferentes graus. Navegam no território do compromisso e apresentam propostas. Oxalá o eleitorado os recompense largamente.

À direita o contraste é total. PSD, CDS, IL e CH são partidos diferentes e com ambições diferentes. Mas trilham um mesmo caminho, têm um objetivo comum.

Nada de novo aqui: mesmo quando eram só PSD e CDS (e, vá, PPM em tempos mais recuados), as direitas uniam-se no mesmo caminho para governar. À exceção do paraíso (estou a falar dos melhores resultados económicos, sociais e políticos num período longo) que resultou da única vez em que se uniram para governar, as esquerdas sempre se caracterizaram pela desunião no momento-chave das eleições.

O resultado das eleições deste janeiro poderá ditar cenários muito diversos, mas é muitíssimo provável que continue a ser realidade uma maioria no Parlamento de deputados eleitos por partidos do centro-esquerda e esquerda. Ou seja: mantém-se a proposição de que a esquerda só não governará se não quiser.

Toda a campanha até agora reforça a ideia de que não quer. Temo que esta minha leitura não seja contrariada na noite do próximo dia 30.

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Querido

De Roma | João Soares

“Quatro homens e uma mulher, católicos, estão num café, em Roma.

Diz o primeiro homem:

O meu filho é Padre e quando ele chega a um local público tratam-no por «Padre».

Diz o segundo homem:

O meu filho é Bispo e quando ele chega a um local  público tratam-no por «Sua Graça».

Diz o terceiro homem:

O meu filho é Cardeal. Quando ele chega a um local público todos inclinam a cabeça e tratam-no por «Sua Eminência».

Diz o quarto homem, orgulhosamente:

O meu filho é o Papa. Quando ele chega a um local público tratam-no por «Sua Santidade».

Como a única mulher continua a saborear o café em silêncio, os quatro homens dirigem-se a ela com um subtil:

– Então…?

E ela, orgulhosamente, responde:

Eu tenho uma filha, alta e elegante, 85 de busto, 65 de cintura, 82 de ancas, e … quando ela chega a um local público todos exclamam: ”Meu Deus!”

Retirado do Facebook | Mural de João Soares

Duelo | o jogo viciado | Carlos Matos Gomes

Miyamoto Musashi e Sasaki Kojiro eram dois espadachins japoneses que se encontraram para um duelo final. Musashi fora escolhido para ganhar. Quando chegou foi rapidamente atacado por Kojiro, num movimento chamado Corte de Andorinha. No entanto, alguém de fora, antes de Kojiro atingir Musashi, desferiu-lhe um golpe sorrateiro que o matou. Os apoiantes de Kojiro indignaram-se, mas Musashi regressou ao seu barco e os organizadores recolheram o dinheiro das apostas. (História de um duelo no Japão sec XVII)

Os duelos são tão antigos como a humanidade e a nossa cultura, grega, assenta em duelos de deuses. Cada fação escolhia um deus/campeão e eles lutavam entre si. O vencedor matava o adversário e subjugava os seus apoiantes. Já existia a política espetáculo. O povo divertia-se, aplaudia o campeão, o imperador colocava-lhe uma coroa de louros e ia sentar-se, fortalecido, no trono! Ninguém lhe perguntava pelos atos do seu governo.

O que estamos a viver aqui em Portugal, como nos Estados Unidos, ou em França, ou no Brasil são adaptações viciadas do duelo e da política espetáculo. Agora, em vez da vitória ser a morte do adversário, (KO), foi criado o conceito de vitória por pontos. Esta tem várias vantagens, a menor é que os contendores derrotados podem ser reutilizados noutros espetáculos, a maior é que o organizador do duelo pode determinar o resultado, escolher o vencedor. Entretanto: o pagode entretém-se a discutir quem foi o vencedor e não vencedor de quê, ou porquê. 

É esta a principal caraterística dos atuais duelos espetáculo: o empresário escolhe o vencedor e leva o povo a esquecer-se do que lhes propõem com a vitória! Os empresários são os patrões das televisões e as empresas clientes para a publicidade.

O resultado de qualquer debate é decidido por eles à partida e segundo as conveniências dos organizadores. O povo discute os vencedores nas tabernas, nos templos, nos barbeiros e até na rua!

Num duelo televisivo (político, de talentos, ou de orgias) o segredo está em dar uma aparência de seriedade à “coisa”. É o papel dos jurados, no momento do duelo e dos comentadores e dos figurantes que fazem o pretenso contraditório nos tempos a seguir, do off side.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

O verdadeiro papel da educação | Edgar Morin

“A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Morin fala sobre a necessidade de estimular o questionamento das crianças, sobre reforma no ensino e sobre a importância da reflexão filosófica não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos. Leia abaixo:

O senhor costuma comparar o nosso planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores, que atualmente estão danificados. Qual o papel da educação nessa espaçonave?
Ela teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que nessa nave os relacionamentos são muito ruins. Desde o convívio entre pais e filhos, cheio de brigas, até as relações internacionais — basta ver o número de guerras que temos. Por isso é preciso lutar para a melhoria dessas relações.

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DEBATE ANTÓNIO COSTA – RUI RIO | 5 ASPECTOS | por António Carlos Cortez

1. Costa esteve melhor, pois conhece os dossiers e tem experiência governativa desde 1995. Em três ocasiões foi incisivo: quando confrontou Rio com declarações suas sobre o salário mínimo, que Rio disse ser erro gravíssimo; quando desmentiu Rui Rio mostrando a manchete do Expresso de Setembro de 2015, por ocasião do que o PS faria caso nas eleições a direita fosse minoritária; quando desmascarou Rio relativamente ao que, no programa do PSD, é o ataque à classe média a respeito do fim do serviço tendencialmente gratuito do SNS e que Rio quer ver mais nas mãos dos privados;

2. Costa mostrou-se sereno e Rio sempre um pouco mais histérico. Com certa ironia, Costa desmontou falácias do líder do PSD, como por exemplo a que diz respeito à TAP. A TAP não foi nacionalizada, como disse Rio, a TAP foi (e bem) salva pelo Estado e a empresa Barraqueiro, uma vez que 50% da TAP ficou nas mais desses dois accionistas;

3. Costa foi claro a respeito do que será o seu futuro político caso não tenha maioria. Vincou por 4 vezes a ideia: “Eu não viro as costas a Portugal”.

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Expresso | Assange | Rui Pinto | Os resultados da ausência de princípios | por Carlos Matos Gomes

Comprei ontem, dia 7 de Janeiro, o Expresso. Sou um leitor pouco frequente do Expresso, que se tornou um jornal de fação partidária em termos políticos nacionais, alinhado e acrítico em termos internacionais e culturalmente baloiçando entre o conservadorismo popular e o experimentalismo radical. Reconheço, no entanto, o papel importante do Expresso na formação de uma opinião pública e na liberdade de imprensa ao longo da nossa história recente.

Como considero essencial a existência de liberdade de imprensa e de informação entendi que devia ter esse pequeno gesto individual de solidariedade com o Expresso e o grupo Impresa no momento em que sofreram um ataque informático que colocou e coloca em causa a liberdade de informação. Compraria o Correio da Manhã se o ataque tivesse sido ao grupo Cofina.

É aqui que entram os princípios. Muitos órgãos de comunicação social, para não dizer todos, embarcaram numa euforia lucrativa com o acesso ao resultado da pirataria informática — um ataque cibernético — cometida pelo «Hacker» Rui Pinto — ataque que foi dirigido contra clubes de futebol, órgãos da administração pública, incluindo a justiça.

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O Doutor comenta os debates | Jovem Conservador de Direita

O primeiro debate de hoje foi entre o partido conhecido por defender os direitos dos animais e o partido que defende os direitos dos investidores bolsistas, que também são animais, mas com a diferença de que criam riqueza. Enquanto uma hiena não for capaz de investir em criptomoedas, é óbvio que vou estar do lado da IL.

O ambiente foi um dos principais temas do debate. O PAN apresentou a posição irracional de fazer alguma coisa para reverter as alterações climáticas. Teria maior apoio se fosse mais moderado. Ser totalmente contra as alterações climáticas é muito radical. Tem de ser mais centrista nesse assunto.

Felizmente estava lá o Dr. Cotrim Figueiredo, com a sua racionalidade, a afirmar que não se pode salvar o ambiente à custa da actividade económica. Há que ter noção das prioridades. Uma coisa é haver alterações climáticas, outra coisa é o Estado intervir para tratar desse problema. A IL não abdica dos seus princípios, intervenção estatal nunca. Se foi a mão humana a destruir o ambiente não deverá ser a mão humana a salvar o planeta. É só ver os índices de mercado e fazer uma análise SWOT do impacto da sobrevivência da Humanidade na economia.

Segundo o Dr. Cotrim Figueiredo, “enriquecer Portugal é uma boa política ambiental”. É verdade, sem tantos pobres a cheirar mal o ambiente fica melhor. O enriquecimento é o febreze da sociedade e não há melhor política ambiental do que baixar os impostos às pessoas para que elas possam investir em desodorizantes.

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2022 | António Carlos Cortez

– ameaça de guerra na Ucrânia

– conflito entre China e EUA por causa de Taiwan

– desastre humanitário no Iémen

– multiplicação dos eventos climáticos extremos

– Índia e China não cumprem na íntegra o protocolo de Quioto

– continuação de ataques terroristas

– continuação de crimes com armas de fogo em estabelecimentos de ensino, seja nos EUA, na Rússia ou em França

– ameaça da extrema-direita vir a ser poder em França

– ameaça de guerra no médio-oriente devido às tensões sobre o nuclear no irão e a questão israelo-palestiniana

– em África o perigo de fome de proporções bíblicas, da Etiópia à Eritreia, do Níger à Somália milhões poderão morrer

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A decadência do SNS é uma estratégia económica | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

O acidente do Hospital de S. João é um acidente. Terrível, um morto e vários feridos, mas nada sugere que houvesse como evitar algum comportamento problemático que tenha provocado o incêndio. Saber-se-à se o serviço tinha um atendimento adequado para acompanhar os doentes internados, em particular os que possam não seguir regras de proteção, e como é que o serviço reagiu à emergência, no que parece ter sido rápido. Em qualquer circunstância, o conselho de administração do hospital, merecidamente elogiado pelo bom desempenho durante a pandemia e pela inauguração da ala pediátrica, decidiu demitir-se, numa atitude digna, é sua a responsabilidade última pelo hospital. Fê-lo no tempo próprio, contrastando com o exemplo recente de um ministro, coisas do governo.

 O que não é acidente é o tormento que vivem os serviços de saúde. É o resultado de uma incapacidade reforçada por uma estratégia. O governo desistiu de um SNS que garante a universalidade e a qualidade do acesso à saúde e dá por certo que o setor privado determinará a nossa vida.

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FELIZ NATAL | 24.12.2021

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

FLORBELA ESPANCA

Se lhe oferecem uma magia antissistema, desconfie | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

A frase trumpista de Rui Rio pode resultar simplesmente de uma sobre-representação num mundo em que não há coincidências mas sobram poses, ou pode até constituir uma revelação da sua metade obscura, o indizível de uma apetência radical, ambas as interpretações correram ontem pela tinta das gazetas e das redes sociais. Tudo ligeiramente ridículo: a “América grande” era o discurso imperial na maior potência militar e financeira do mundo, ao passo que a promessa de “Portugal grande” é assim um arremedo de coisa pouca, sem projeto económico que não seja a obediência a Bruxelas e, quando muito, a Frankfurt. Em qualquer caso, foi o suficiente para Ventura se entusiasmar: “Rui Rio aproximou-se mais do discurso antissistema – aliás ele próprio usou a expressão antissistema – do que fez durante todo o seu mandato”, disse o chefe da extrema direita, para depois concluir que “já temos um caminho para andar. Agora, vamos ver se andamos ou se não andamos”. Andando por aí fora, “Rui Rio pode ter dado o primeiro passo para conseguirmos um governo de direita em Portugal”, concluiu ele, com um brilhozinho nos olhos.

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Para o centro, direita volver | Francisco Louçã in Jornal Expresso

E, pronto, Rui Rio arrasou as previsões, o aparelho e as conveniências do seu principal opositor externo, o primeiro-ministro. Fica assim definido o quadro das eleições de janeiro, com um PSD a procurar somar votos do centro por via da polarização à direita, com o PS a procurar votos de centro usando a guerra contra as esquerdas, que procuram impedir aquele salto para o bloco central, com o PAN a oferecer-se tanto ao PS quanto ao PSD e com o CDS a lutar pela sobrevivência face ao Chega, que insinua um convite a Telmo Correia. Tudo no seu lugar, mas ainda sobram algumas incógnitas.

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O homem Massa | Günther Anders | ′′ A obsolescência do homem ′′ 1956 | via Manuel Tavares

Foi em 1956 que o filósofo judeu alemão Günther Anders escreveu essa reflexão premonitória:

′′ Para sufocar antecipadamente qualquer revolta, não deve ser feito de forma violenta. Métodos arcaicos como os de Hitler estão claramente ultrapassados. Basta criar um condicionamento coletivo tão poderoso que a própria ideia de revolta já nem virá à mente dos homens. O ideal seria formatar os indivíduos desde o nascimento limitando suas habilidades biológicas inatas…

Em seguida, o acondicionamento continuará reduzindo drásticamente o nível e a qualidade da educação, reduzindo-a para uma forma de inserção profissional. Um indivíduo inculto tem apenas um horizonte de pensamento limitado e quanto mais seu pensamento está limitado a preocupações materiais, medíocres, menos ele pode se revoltar.

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O 25 de Novembro e a sua novembreza | Carlos Matos Gomes

Escrevi há poucos dias um texto sobre o evento de apresentação do franchising português da CNN, realizado no edifício dos Jerónimos, na parte ocupada pelo Museu Arqueológico. Considero que os monumentos nacionais, evocadores do passado, podem e devem ser utilizados para eventos marcantes do presente. E o que se comemorava a 22 de Novembro é marcante em termos de apresentação e representação de um novo poder, da novembreza.

Não tive uma palavra de expetativa sobre o produto que vai entrar no mercado. Portugal é um pequeno país, não produz acontecimentos de relevo mundial, vive uma cómoda paz, felizmente. As notícias sobre Portugal serão sempre casos menores. A primeira página do tabloide Correio da Manhã, ou do site do Sapo explicam a nossa insignificância. Sem ovos não se fazem omeletas e a estação CNN Portugal não fará o milagre de nos colocar no centro de um universo de manipulação informativa, a não ser em caso de grande catástrofe. Espremerá até à última gota os pequenos frutos locais (ia a escrever furtos e também se adequava). A notícia importante no happening dos Jerónimos foram os seus convidados, que se entrevistaram uns aos outros, mesmos os exilados por terem cometido excessos ao trepar.

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Terras da Beira | Jornal do Fundão, 21-09-2006 e Pedras Soltas (Ed. 2006) | Carlos Esperança

São cada vez mais os mortos que povoam os cemitérios e menos os vivos que restam. Os jovens saíram pelas estradas que invadiram o seu habitat. Fugiram das courelas que irmãos disputavam à sacholada e à facada, dos regatos que secaram a caminho das hortas, da humidade que penetrava as casas e os ossos, e da pobreza que os consumia.

Não há estímulo para permanecer. Não se percebe que as penedias tivessem custado vidas na disputa da fronteira, que homens se tivessem agarrado aos sítios e enchido de filhos as mulheres que lhes suportavam o vinho, a rudeza e os maus tratos.

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SEM PALAVRAS NÃO HÁ PENSAMENTO | Título de Carlos Fino

“La disparition progressive des temps (subjonctif, passé simple, imparfait, formes composées du futur, participe passé…) donne lieu à une pensée au présent, limitée à l’instant, incapable de projections dans le temps.

La généralisation du tutoiement, la disparition des majuscules et de la ponctuation sont autant de coups mortels portés à la subtilité de l’expression.

Supprimer le mot «mademoiselle» est non seulement renoncer à l’esthétique d’un mot, mais également promouvoir l’idée qu’entre une petite fille et une femme il n’y a rien.

Moins de mots et moins de verbes conjugués c’est moins de capacités à exprimer les émotions et moins de possibilité d’élaborer une pensée.

Des études ont montré qu’une partie de la violence dans la sphère publique et privée provient directement de l’incapacité à mettre des mots sur les émotions.

Sans mot pour construire un raisonnement, la pensée complexe chère à Edgar Morin est entravée, rendue impossible.

Plus le langage est pauvre, moins la pensée existe.

L’histoire est riche d’exemples et les écrits sont nombreux de Georges Orwell dans 1984 à Ray Bradbury dans Fahrenheit 451 qui ont relaté comment les dictatures de toutes obédiences entravaient la pensée en réduisant et tordant le nombre et le sens des mots.

Il n’y a pas de pensée critique sans pensée. Et il n’y a pas de pensée sans mots.

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Epístola sobre o que celebramos hoje | Todos os Santos. Há festa no Olimpo.

A ideia de a Igreja Católica Romana, através do Papa Bonifácio IV, no século sétimo, de dedicar o Panteão dos deuses romanos a todos os santos do cristianismo, de promover um festival de santos, o que na neolinguagem poderia ser uma Rave de santidade, foi e é, porventura, bem intencionada, mas não deixa de ser desanimadora.

Olhando a história da humanidade, e não só o seu presente, desde há quinze séculos que em vez de esperança, apesar dos esforços e sacrifícios de todos os santos, mártires, virgens, doutores, o que temos é um percurso do homem lobo do homem e predador da natureza. Os santos não conseguiram que o homem ganhasse, se não bondade e virtude, pelo menos juízo.

Este dia de Todos os Santos de 2021 não é diferente dos anteriores e não será, presume-se, diferente dos do futuro. No caso, todos os grandes santos do momento estiveram reunidos na cimeira do G-20 e partiram em voo de Roma para Glasgow, a fim de tratarem das ameaças das alterações climáticas que os santos que estiveram nas anteriores celebrações causaram com a sua ganância e perversidade, explorando recursos até os humanos comuns, os que não obtiveram reconhecimento de santidade, terem decidir se querem desaparecer afogados ou gaseados.

Entretanto, os atuais santos e os seus arcanjos, os que à volta deles surgem nos ecrãs de televisão e nas páginas de jornais gordinhos, a tocar trombetas, já fizeram desaparecer das preocupações as tristes figuras que lhes poderiam entortar a auréola dourada que paira sobre as suas cabeças e borrar as asinhas que os fazem flutuar.

De repente, os santos do momento, através dos seus mágicos manipuladores da realidade, fizeram desparecer as vergonhosas imagens do Afeganistão, por exemplo. Como estarão os homens e mulheres do Afeganistão a celebrar o dia de Todos os Santos? E os migrantes do Mediterrâneo? E os sírios? E os palestinianos? E os hondurenhos e haitianos? Não há, como parece evidente, santos que lhes valham. Nem todos juntos.

Sendo os santos tão historicamente inúteis o que celebramos hoje nos vários templos e púlpitos? Que som sai dos sinos?

Born 1946; retired military, historian Carlos Matos Gomes

Notas sobre a situação política | por Paulo Querido | Título de Vítor Coelho da Silva

O Governo cometeu algum erro gravíssimo? Não. Um conjunto de desastres? Não.

A pandemia foi mal gerida? Não.

Algum ministro foi julgado num escândalo de corrupção? Não.

Casos, houve. Há sempre casos. Mas houve algum caso grave, tipo terramoto político, capaz de abanar as intenções de voto? Capaz de alterar o rumo? Não se vislumbrou nem vislumbra. É de tal forma que as alminhas andam a agitar a sombra do acidente de Eduardo Cabrita há meses, em loop, um disco riscado, uma cassete triste — o ponto é: uma cassete única e um casinho lamentável, lamentavelzinho, inho. Grau 2 na escala de Richter política.

As finanças, como estão? As contas públicas estão bem e recomendam-se.

A economia está mal? Nem na cabeça do mais empedernido ayatollah da direita, o que inclui o Sol e i, quase toda a SIC, Observador, grande parte da TVI, metade do Expresso, pelo menos. A realidade é que Portugal está a crescer.

A crescer mais do que a previsão. A crescer acima da média europeia.

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Edgar Morin: “Estamos caminhando como sonâmbulos em direção à catástrofe”

Traduzido do site TerraEco

O que fazer neste período de crise aguda? Indignar-se, certamente. Mas, acima
de tudo, aja. Aos 98 anos, o filósofo e sociólogo nos convida a resistir ao
ditame da urgência. Para ele, a esperança está próxima.

Por que a velocidade está tão arraigada no funcionamento de nossa
sociedade?

A velocidade faz parte do grande mito do progresso que anima a civilização
ocidental desde os séculos 18 e 19. A idéia subjacente é que agradecemos a
ela por um futuro cada vez melhor. Quanto mais rápido formos em direção a
esse futuro, melhor, é claro.

É neste contexto que as comunicações, econômicas e sociais, e todos os tipos
de técnicas que possibilitaram a criação de transporte rápido se multiplicaram.
Penso em particular no motor a vapor, que não foi inventado por razões de
velocidade, mas em servir a indústria ferroviária, que se tornou cada vez mais
rápida.

Tudo isso é correlativo por causa da multiplicação de atividades e torna as
pessoas cada vez mais com pressa. Estamos numa época em que a
cronologia se impõe.

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A revolução pelo orçamento | Entre a tomada da Bastilha e o teatro no canal Memória | por Carlos Matos Gomes

A saga da discussão da proposta de orçamento geral do estado para 2021 é idêntica à dos anos passados. Os políticos são mais previsíveis que cantores de karaoke e os partidos são mais repetitivos que uma formatura da tropa a evoluir em ordem unida às ordens dos mesmos comandantes.

A discussão do orçamento é fácil para a direita, porque o regime vigente de capitalismo e democracia liberal corresponde à sua matriz de interesses. São contra os orçamentos dos partidos sociais-democratas porque estes atribuem sempre, e na sua visão, demasiados recursos a serviços públicos que podiam ser entregues ao lucro privado. A direita vota contra os orçamentos sociais-democratas porque transforma em despesa pública uma parcela significativa dos seus possíveis lucros. Une-se, por isso, com facilidade quer para votar contra, quer para encontrar fórmulas coligadas de governo. Simples.

O drama — se é que viver em contramão é drama — encontra-se na esquerda. A esquerda, por definição quer mudar o sistema e o mundo. Quer a revolução na posse dos meios de produção e no modo de produzir, visa a tomada do poder. Os sociais-democratas são seus inimigos. É histórico e há mais de cem anos.

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Vivemos no Inferno? | Carlos Matos Gomes

Mas tu quem és, que, em tribunal sentado, julgas, de léguas em milhões distante, se mal vês o que a um palmo é colocado? Dante, Divina Comédia, Canto XIX

A acreditar nos jornais e nas televisões vivemos no Inferno. Embora apenas os seus celebrantes e comentadores saibam o que é o Inferno. A nós, multidão e rebanho, resta acreditar neles, ter fé nos que nos garantem que vivemos no Inferno!

Nada de novo. Por volta de 1300, há sete séculos, já Dante Alighieri, na Divina Comédia se dera a esse mesmo trabalho de descrever o Inferno em pormenor e em círculos dedicados a cada pecado ou crime. A verdadeira intenção dele não terá sido, tal como não é a dos seus atuais seguidores, alertar os homens para as consequências das práticas dos crimes e pecados, amedrontando-os com os sofrimentos eternos dos exemplares ali caídos, mas sim uma outra bem mais prosaica: Dante, como os arautos da desgraça do nosso tempo e senhores dos novos meios de comunicação, pretendia, isso sim, diminuir a concorrência, para assim ser mais fácil aos poderosos em atividade terrena realizar os seus pecados e crimes, matéria-prima indispensável ao prazer, à obtenção de poder e riqueza.

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Katharine Hepburn, en sus propias palabras. O Humanismo, essa atitude bela!

“Una vez, cuando era adolescente, mi padre y yo estábamos haciendo fila para comprar entradas para el circo. Finalmente, solo había otra familia entre nosotros y el mostrador de entradas.

Esta familia me causó una gran impresión.

Había ocho niños, todos ellos menores de 12 años. De la forma en que estaban vestidos se podía decir que no tenían mucho dinero, pero su ropa era limpia, muy limpia. Los niños eran muy bien educados, todos ellos parados en la fila, de dos en dos detrás de sus padres, tomados de las manos.

Estaban emocionados por los payasos, los animales y todos los actos que verían esa noche.

Por su emoción, podías percibir que nunca antes habían estado en un circo. Sería un punto culminante en sus vidas.

El padre y la madre estaban a la cabeza de la manada de pie, orgullosos como podría ser. La madre estaba sosteniendo la mano de su marido, mirándolo como si dijera: ‘Eres mi caballero en armadura brillante’.

El estaba sonriendo y disfrutando viendo a su familia feliz.

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Cette expérience valide la théorie de la relativité d’Einstein

En 2019, l’observation du trou noir supermassif situé au centre de notre galaxie permet de tester une nouvelle fois la théorie de la relativité générale publiée en 1915.

Que se passe-t-il lorsqu’une étoile passe près d’un trou noir supermassif ? Elle offre aux astronomes l’opportunité de tester les théories d’Einstein.

En observant le comportement d’une étoile tournant autour du trou noir situé au centre de notre galaxie, les scientifiques ont confirmé que le champ gravitationnel intense de ce mystérieux objet cosmique avait un effet sur la lumière stellaire, retardant considérablement le voyage dans l’espace de ses visiteurs. Cette observation est le meilleur moyen de tester une prédiction clef de la théorie de la relativité générale d’Einstein, qui suggère que la lumière perd de l’énergie lorsqu’elle a du mal à se déplacer à travers un champ gravitationnel extrême.

https://www.nationalgeographic.fr/espace/2019/07/une-nouvelle-experience-valide-la-theorie-de-la-relativite-deinstein?fbclid=IwAR2TFJfnqynJTl41SW2g5ZZoxvnxNgGnJRsMba4BeHa5wo-B3N5xaHWuO3w

O que vestir na escola? E no trabalho? | Carlos Matos Gomes

A escola do Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, tinha afixado à sua porta um cartaz a mostrar o que os alunos podiam ou não vestir, um código de vestuário para frequentar um estabelecimento de ensino público.

O ensino público inclui dois pontos nucleares que a sociedade, através do Estado, entende serem essenciais para a vida em comum e, por isso, decidiu afetar-lhe vastos recursos públicos: saber de humanidades e ciências que se possam traduzir em criação de riqueza e bem estar e uma integração social que proporcione uma harmoniosa vida em comum, isto dentro do princípio de que uma sociedade é mais que um agregado caótico de individualidades. Eram proibidas tops cai-cai — uma peça de pano usada por mulheres que circunda as mamas e deixa o umbigo à vista — calções curtos, calças largas ou descaídas, segundo a moda originária das prisões americanas para os presidiários anunciarem a disposição para relações sexuais (segundo informação da internet).

No regulamento interno da escola existia também uma regra que determinava que o vestuário não podia “expor partes do corpo, que possam atentar contra o pudor público”.

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AUKUS: UM ACORDO PARA ACORDAR A UNIÃO EUROPEIA | Paulo Sande

Não podia vir mais a propósito.

Três países – EUA, Reino Unido e Austrália, aliados antigos, um dia depois de Ursula von der Leyen ter feito o seu discurso da União e apelado à Europa da Defesa, anunciaram um acordo de segurança que é, na opinião de muitos especialistas de segurança, o maior desde a 2ª guerra mundial.

O AU – (u)K – US (AUKUS) formaliza a cooperação de defesa entre estes países na região do Indo-Pacífico e foca-se na capacidade militar, com dimensões como a cibernética, tecnologias quânticas, inteligência artificial. E depois (ou antes) há os submarinos.

1. SUBMARINO AO FUNDO

A compra de submarinos nucleares pela Austrália, o investimento mais caro de todo o acordo, criou um incidente diplomático com a França. Não admira, pois fica em causa o contrato (de 2016) de venda de 12 submarinos convencionais por parte da França à Austrália que, com este acordo, compra submarinos nucleares aos EUA (que pela 2ª vez apenas partilham a sua tecnologia submarina), tornando-se o 7º país do mundo a tê-los.

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O Alentejo, por Miguel Torga

Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.

Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.

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A ORIGEM DO MEDO | Pedro Adão e Silva

Porventura, se optasse por examinar, por exemplo, o que é que permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa, sendo de direita, vencer eleições com amplas maiorias, perceberia que as vitórias sustentáveis não se constroem a partir do ressentimento social, de polarizações artificiais ou de batalhas culturais fictícias. Tudo fatores que, enquanto descentram o debate público da discussão de alternativas, promovem um entrincheiramento que degrada a capacidade de compromisso.

Pedro Adão e Silva  | Jornal Expresso 03-09-2021

SINAIS DE BARBÁRIE | Massacre do Triunvirato | Pintura de Antoine Caron | por Vítor Serrão

A História da Humanidade poderia ser contada seguindo o rol sangrento das atrocidades cometidas contra os «outros». É um ciclo ininterrupto e, hoje, com crescente refinamento na maldade: os homens, sejam alienados, incultos, insensíveis, tomados pela cobiça pessoal ou seguindo a febre das massas, enfrentam aquilo que desconhecem e temem como legitimação para as suas intolerâncias e preconceitos e, no extremo, justificação dos massacres que praticam ou toleram…

Sempre me impressionou a crueldade descrita numa pintura de Antoine Caron (1521-1599), maneirista francês ligado à Escola de Fontainebleau que viveu a sinistra noite de St Barthélemy, no seu ‘Massacre do Triunvirato’ (1566), exposto no Musée du Louvre.

Também a História da Arte poderia ser contada através da miséria das guerras e da refinada crueldade contra os indefesos: será esse, afinal, o seu maior papel ? Como perguntava em 1547 o atormentado pintor florentino Jacopo Pontormo (na célebre parangona de Benedetto Varchi sobre a superioridade das artes: seria a Pintura superior à Escultura, ou vice-versa ?), que Deus inepto é este que criou de tão vil barro estas criaturas que somos ?

Só os artistas (e só por vezes) superam essa inépcia ao tocarem as asas do sublime: na música, na poesia, na literatura, na pintura — no humanismo… Por isso também, o poeta Sidónio Muralha (1920-1982), em ‘A Viagem dos Argonautas’, escalpelizava estes «selvagens gnomos que nós fomos — e somos», que querem ir a Marte buscar a sobrevivência da espécie não cuidando antes da paz e da harmonia na Terra.

Retirado do Facebook | Mural de Vitor Serrão

Savez-vous à quoi ressemble la mort ?

« Savez-vous à quoi ressemble la mort ? La personne jette le dernier souffle, c’est l’esprit qui quitte le corps. Le corps meurt complètement, c’est un déchet, mais l’esprit sort de la bouche et se mélange à l’esprit universel. C’est comme les fleuves, qui perdent leur caractère lorsqu’ils atteignent la mer. Mais ils en font partie, et la mer est la même partout. »

Explication de Manoel de Oliveira, quelques jours avant sa mort, à Luís Miguel Cintra.

Photographie | Embouchure de la Rivière Tejo à Lisbonne, Portugal.

Afeganistão | Carlos Matos Gomes

Os Javalis do Afeganistão

Sobre o que acontece no Afeganistão se poderá dizer que se cumpriu a lei de Murphy: “tudo o que puder correr mal, vai correr mal”, que poderia ter sido inspirada na Batalha de Alcácer Quibir. O que hoje correu ainda pior do que o mal começou aí por volta de 1983, com a presciência de dois vultos que o conservadorismo elevou às glórias dos seus panteões, o antigo ator americano Ronald Reagan e uma senhora inglesa de classe média baixa ressabiada com as upper class e os intelectuais, chamada Margaret Tatcher

A propósito do Afeganistão foi agora recuperada uma fotografia de 1983 em que Reagan recebe na Casa Branca uma delegação de mujahedeens, que lutavam contra a presença da URSS e o governo que esta apoiava no Afeganistão.

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OTELO E A MEMÓRIA DO PREC Público, 16.08.2021 | Elísio Estanque

Vivi esse período de forma intensa como grande parte dos portugueses da minha geração. Assim, e porque a historia dos acontecimentos é conhecida, talvez se possa agora acrescentar conhecimento sobre o PREC e Otelo Saraiva de Carvalho recorrendo a uma perspetiva subjetiva, vinda do seio da multidão, mas enquadrada pelo exercício de reflexão e autocritica à distância de quatro décadas.

Foi Otelo e o MFA que abriram as portas da liberdade. Mas foi ao longo daqueles meses de brasa que se seguiram ao 25 de Abril, que a revolução se desencadeou. Os sonhos libertários irromperam das esquinas mais recônditas dos bairros operários, das fábricas industriais, dos amontoados de barracas onde os esgotos eram ainda a céu aberto, etc. Foi para aí que convergiram os mais diversos grupos de ativistas espontâneos, os setores sociais mais inquietos, em especial os jovens, alguns ainda sob a influência do Maio de 68 e dos movimentos estudantis da década anterior. Por detrás da linguagem polarizada da “classe contra classe” (democracia contra fascismo, ricos contra pobres ou operários contra a burguesia) ocorreu uma autêntica “fusão de classes”, quando o radicalismo de classe média rompeu com os valores pequeno-burgueses para abraçar a causa operária e popular. Uma força imparável de invenção criativa brotou dessa comunhão interclassista capaz de vislumbrar o paraíso debaixo das ruas insalubres dos bairros da periferia. Uma torrente de gente feliz, igualitária, unida em torno de projetos verdadeiramente emancipatórios como o dos “índios da Meia-Praia” (em Lagos) celebrizado pela conhecida canção do Zeca Afonso. Apesar da incipiente cultura democrática, a democracia nunca foi tão efetiva, não apenas pela mobilização coletiva mas até pelo envolvimento direto das Forças Armadas (MFA) numa dinâmica de «bottom-up», de que é exemplo o projeto SAAL.

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Afeganistão – um mono | Carlos Matos Gomes

Tht’s all folks — é tudo, malta. Não há mais pipocas

Uma das definições de mono é a de “mercadoria sem venda no comércio”, de “qualquer coisa que deixou de interessar”. Desde o 11 de Setembro de 2001, o Afeganistão foi um falso alvo, uma fancaria. Um tigre de papel, na linguagem maoista dos anos 60 e 70. Transformou-se definitivamente num nono para os Estados Unidos com o anúncio da captura e morte no Paquistão, de Bin Laden, o saudita chefe da Alqaeda, em 2011, com direito a filme de rambos.

A Alqaeda e Bin Laden foram o produto desenvolvido a partir de um dos muitos bandos da região e de fanáticos locais, inchado, armado e subcontratado pela administração Reagan para fazer a guerrilha contra a URSS, que ocupara o Afeganistão para evitar a islamização das repúblicas soviéticas do sul. A teoria de que a URSS pretendia avançar para as “águas quentes” do Índico foi uma narrativa para vender armas e justificar ações, que muitos “estrategistas”, incluindo militares, pregaram sem correspondência com qualquer racionalidade. Na realidade, a administração Reagan pretendeu apenas negar a um inimigo (a URSS) a posse de um território que lhe era relativamente importante. Um objetivo clássico nas manobras militares. A administração dos EUA conseguiu a vitória de Pirro: a URSS abandonou o Afeganistão e os EUA “ganharam” a Alqaeda bem treinada e equipada, com um louco como chefe carismático e um imbróglio com os aliados sauditas, os maiores compradores da quinquilharia produzida pelo complexo militar americano e comparsas de Israel na desestabilização do Médio Oriente.

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Algumas notas a propósito da derrota do Ocidente no Afeganistão | Nuno Pereira da Silva Coronel (R)

Participámos como nação aliada da NATO, muito ativamente na guerra do Afeganistão, e na sua Reconstrução, muito em especial na Capacitação das suas Forças Armadas, onde inclusive tivemos dois mortos, um graduado do RI1, e uma praça paraquedista.

Não estive no Afeganistão, mas participei na Reconstrução do Iraque, na Reforma do seu Setor de Segurança, ou seja na Capacitação duma Forças Armadas modernas. Pelo que sei no Afeganistão foi seguido o mesmo modelo Americano, Chapa4, ou seja uma imposição dum modelo ocidental expúreo à sociedade, à cultura, e às Forças Armadas  e de Segurança  Afegãs, que  não são nacionais mas tribais, pertencem aos Senhores da Guerra.

Os militares americanos e da NATO trabalhando dia e noite, esforçando-se, por vezes zangando-se com a contra-parte Iraquiana que não queria, ou não tem capacidade para compreender o que se lhes pede, era o denominador comum.

Formar Comandantes de Divisões, a partir de guerrilheiros sem formação, é um esforço inútil.

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Da política internacional | José Maltez

O problema das análises de política internacional do nosso tempo é perdermos a noção de tempo, ao dizermos que os talibãs são medievais. Não são. São dos finais do século XX. As palas da visão ocidental da história como uma linha de caminho de ferro, como passagem do medieval para o moderno e deste para o contemporâneo é pura treta. Felizmente, a humanidade viveu fora das balizas de 476, queda de Roma, e de 1453, queda de Bizâncio. Maomé é mais moderno do que Cristo e o meu povo ibérico foi o primeiro a provar que a terra era redonda. Armilámos.

Retirado do Facebook | Mural de José Maltez

Reflexão do Presidente da Associação 25 Abril | VASCO LOURENÇO

O falecimento do Otelo, as diversas reacções ao mesmo, um debate que tive com o Mário Tomé, levam-me a algumas reflexões, sobre o posicionamento do MFA, nomeadamente no que diz respeito à sua intervenção na vida política no pós 25 de Abril. 

Muitos me aconselham a que “não vale a pena”, “não ganhamos nada com isso”, as ideias estão formatadas e formadas”, “a História nos dará razão e fará justiça”. 

Tudo bem, mas sou dos que consideram que, se nos calarmos, outros farão a História. Por isso, insisto em recordar alguns factos, mesmo que acompanhados de desabafos pessoais. Confio que me compreendam.

REFLEXÃO

Antes de mais, realço o posicionamento global que, constituindo o objectivo que nos uniu, seria também o que faria com que os que a ele se mantiveram fiéis fossem os que conseguiram sair vencedores das divisões em que nos envolvemos: falo da firme determinação em criar condições para que fossem os portugueses a decidir sobre o seu futuro. 

Posicionamento que, como sabemos mas vale a pena relembrar, estava plasmado –  de forma clara, precisa e concisa, como é timbre dos militares – no Programa do MFA (mesmo depois de alterado pela pressão de António de Spínola).

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Em defesa do ano 1975 e desmontando o ataque miserável e cobarde a Otelo | Liquidar Abril e a esquerda militar revolucionária | Manuel Duran Clemente

«Apenas – Otelo,e não só – evitou uma possível guerra civil. O falecido camarada Diniz Almeida, nunca compreendeu o papel de Otelo, nesse dia, e ficou desde sempre agastado com ele e com Vasco Lourenço. Nunca mais pôs os pés na Associação 25 de Abril, ficou muito chocado com o acontecimento e proferiu palavras amargas debaixo duma pressão inicial e mágoa por ter sido preso injustamente. Este estado de espirito ao longo dos anos e para sempre. Não perdoou aos que fabricaram o inventado golpe de 25 de Nov.  Nunca quis discutir o caso.Retirou-se do meio militar de forma radical. Respeita-se. Paz aos dois falecidos. Honra ao que fizeram e participaram na conquista da Liberdade. Os acontecimentos são bastante mais complexos e este aproveitamento é pouco sério. Ainda hoje e aqui tentarei explicar o que se passou,evitando uma provável guerra civil, e como foi decisiva a intervenção de Rosa Coutinho,Martins Guerreiro,Carlos Contreiras,José Emilio,Costa Martins, Comandante dos Fuzileiros …e outros . Otelo recusou um banho de sangue que seria provável se os Fuzileiros (como se propuseram) atacassem os Comandos. Como sabemos não houve nenhum golpe de esquerda nem de direita. Sim um aproveitamento da saída dos paraquedistas em litígio com o seu CEMFA.

 Leiam o livro “A Resistência” de Gomes Mota/1976. Ele explica as acções do grupo dos nove. Otelo não era desse grupo.» 

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Mas … dos que atiram a pedra e escondem a mão | Carlos Matos Gomes

Além dos putativos herdeiros dos movimentos mais violentos e totalitários da história moderna e contemporânea de Portugal, desde a Vilafrancada miguelista de 1823, até aos bombistas e saqueadores reunidos na sé de Braga e nas escritórios do franquismo em Madrid, do cónego Melo ao comandante Alpoim Calvão que colocaram “Portugal a arder” com o ELP e o movimento Maria da Fonte, dos que ainda choram o fim da ditadura e da guerra colonial, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho proporcionou o ressurgimento de um outro grupo, o do “mas”. O grupo dos falsos “cândidos”, dos que argumentam candidamente que a operação militar foi boa, “mas” a revolução não foi democrática e o seu desenrolar até foi atribulado.

Os do “mas” não perdoam a Otelo a responsabilidade de ter transformado um putsh militar numa revolução, incentivado os portugueses a agir e a organizar-se espontaneamente para decidir o que fazer após o derrube da ditadura, o fim da polícia política, dos tribunais plenários, da censura, do poder patronal absoluto! Ora, esta liberdade tomada por necessidade e impulsionada por Otelo, constituiu e constitui uma ofensa imperdoável aos “mas” sobre o que “devia ser uma democracia”, trazida já talhada, pronta-a-vestir do Posto de Comando da Pontinha, ou, ainda melhor, de casa do general Spínola.

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Portugal Ressabiado | Carlos Matos Gomes

Em 1972, Mário Soares publicou em França um livro sobre Portugal a que deu o título de «Portugal Amordaçado». Havia, então, um Portugal amordaçado pelo Estado Novo e a sua polícia política, um Portugal amordaçado pela falta de direitos elementares de cidadania, direito à palavra, à representação, direito de reunião, de organização, havia um Portugal amordaçado que não podia falar do colonialismo, nem da guerra colonial, nem na busca de soluções que não fossem a continuação da guerra, havia um Portugal amordaçado pelos grandes patrões da indústria e da banca, um Portugal amordaçado pela Igreja Católica e pelo partido único, a União Nacional.

Havia, de facto, um Portugal amordaçado, mas havia e há um Portugal que gostava e gosta da segurança da mordaça, da tortura, da violência dos Pides, dos assassínios dos opositores, da censura, da União Nacional, dos regedores e autarcas nomeados, dos deputados escolhidos entre os fiéis e os compadres, um Portugal que gostava e gosta das cargas da Polícia de Choque e da GNR, das arruaças dos legionários, havia e há um Portugal herdeiro do ultramontanismo absolutista do século xix, um Portugal miguelista, satisfeito com as ordenações do trono de Salazar e as bênçãos do altar do Cardeal Cerejeira, confortado com as denúncias dos informadores. Havia e há um Portugal agradecido por pertencer a um rebanho, por ter pastor e cão de guarda.

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D’abord fuir la peste de cette tristesse gluante | Ariane Mnouchkine

[…]  D’abord fuir la peste de cette tristesse gluante, que par tombereaux entiers, tous les jours, on déverse sur nous, cette vase venimeuse, faite de haine de soi, de haine de l’autre, de méfiance de tout le monde, de ressentiments passifs et contagieux, d’amertumes stériles, de hargnes persécutoires.

Fuir l’incrédulité ricanante, enflée de sa propre importance, fuir les triomphants prophètes de l’échec inévitable, fuir les pleureurs et vestales d’un passé avorté à jamais et barrant tout futur.

Une fois réussie cette difficile évasion, […]

Expérimentons, nous-mêmes, expérimentons, humblement, joyeusement et sans arrogance. Que l’échec soit notre professeur, pas notre censeur. Cent fois sur le métier remettons notre ouvrage. Scrutons nos éprouvettes minuscules ou nos alambics énormes afin de progresser concrètement dans notre recherche d’une meilleure société humaine. Car c’est du minuscule au cosmique que ce travail nous entrainera et entraine déjà ceux qui s’y confrontent. Comme les poètes qui savent qu’il faut, tantôt écrire une ode à la tomate ou à la soupe de congre, tantôt écrire Les Châtiments. Sauver une herbe médicinale en Amazonie, garantir aux femmes la liberté, l’égalité, la vie souvent.

Et surtout, surtout, disons à nos enfants qu’ils arrivent sur terre quasiment au début d’une histoire et non pas à sa fin désenchantée. Ils en sont encore aux tout premiers chapitres d’une longue et fabuleuse épopée dont ils seront, non pas les rouages muets, mais au contraire, les inévitables auteurs.

Il faut qu’ils sachent que, ô merveille, ils ont une œuvre, faite de mille œuvres, à accomplir, ensemble, avec leurs enfants et les enfants de leurs enfants.

Disons-le, haut et fort, car, beaucoup d’entre eux ont entendu le contraire, et je crois, moi, que cela les désespère.

Quel plus riche héritage pouvons-nous léguer à nos enfants que la joie de savoir que la genèse n’est pas encore terminée et qu’elle leur appartient.

Ariane Mnouchkine, metteuse en scène de théâtre.

Extrait de facebook | Mur de Souâd Kedri

Atrapalhações cubanas | Francisco Louçã

Não sei se gosta de romances policiais e se leu o “Quarteto de Havana”. Vale a pena, esses livros são alguns dos raros mas saborosos casos em que a história foge do pitoresco e escapa ao padrão que define aquele estilo literário. São, simplesmente, grandes romances. Mas, como não podia deixar de ser, há um fio condutor, que no caso é a vida difícil, quem sabe se a decadência, ou devemos chamar-lhe a persistência?, de um personagem que nos conduz pelo dia a dia de Cuba: Mário Conde foi polícia, tornou-se detetive privado, é um desenrascador, vagamente justiceiro, além de ser um gastrónomo militante, sobrevivendo encostado aos milagres da cozinha da mãe de um antigo camarada de aventuras. Navegando pelas ruas de Havana, Conde chega onde os seus antigos colegas não vão, descobre o crime de um membro do Comité Central, investiga traficâncias de diplomatas, roubos de arte, negócios de emigrados, polícias corruptos e que fecham os olhos, contorna burocratas implacáveis. Há nos livros alguma tristeza, bastante nostalgia e um gigantesca afirmação de amor pela sua terra. E perdemo-nos em intrigas sem concessões, chegamos a finais amargos, o escritor não nos facilita a vida, a rotina continua em Havana.

Leonardo Padura, o autor, é mais conhecido por outros escritos ousados, “O Homem que Gostava de Cães” ou “Os Hereges”. Mas foi com Mário Conde que começou e foi assim que foi descoberto pelos seus compatriotas. Porventura por isso, Conde regressou em “A Transparência do Tempo” para novas rodadas. Graças ao “Quarteto”, a Conde e a toda a sua obra, Padura será o escritor mais popular no seu país, onde ninguém ignora que se trata de uma voz crítica. Por isso, quando a direita festeja os protestos populares nas ruas de várias cidades, fantasiando triunfantemente a vingança de Batista, e enquanto nas esquerdas as opiniões se dividem entre defensores do regime, incluindo alguns dos seus conversos mais recentes que, ao tempo do choque entre Krutchov e Castro estavam indefetivelmente do lado soviético, e aqueles que sentem o protesto popular sobre dificuldades reais de gente real, quando tantas palavras são esgrimidas sem candura, ficamos a saber mais sobre Cuba se o ouvirmos.

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A direita em Portugal | Ana Spínola

A direita na Europa ocidental teve como antecedentes a experiência do nazismo e da resistência ao seu belicismo e atrocidades, por isso a democracia cristã e a social-democracia foram capazes de se coligarem para importantes projectos europeus no pós-guerra, inclusivé a, hoje, UE.

A direita portuguesa não passou por essa dura e útil aprendizagem, dava-se bem com a ditadura. Convivia bem com a repressão das liberdades, a violação dos direitos humanos, a perseguição das pessoas que se lhe opunham, com a arbitrariedade e o autoritarismo quotidianos.

A direita portuguesa não recebeu o 25 de Abril com júbilo nem o viveu como uma libertação, pelo contrário, viveu-o com medo (também pela má-consciência), com ressabiamento e com ódio, por isso quando tem poder não resiste a medidas de retaliação e a tiques revanchistas.

A direita em Portugal ainda não integrou nem valoriza a cultura democrática, serve-se da democracia para alcançar o poder e para atacar as fragilidades próprias de um regime aberto como é o regime democrático.

Não admira, pois, que aproveite todos os pretextos para recalcitrar e todas as oportunidades para atacar o 25 de Abril e os seus símbolos. E, claro, dizer barbaridades todos os dias com a desfaçatez própria da sua ignorância.

Retirado do facebook | 29-07-2021 | Mural de Ana Spínola

Ubuntu | William Poutu

An anthropologist showed a game to the children of an African tribe …

He placed a basket of delicious fruits near a tree trunk and told them: The first child to reach the tree will get the basket.

When he gave them the start signal, he was surprised that they were walking together, holding hands until they reached the tree and shared the fruit!

When he asked them why you did that when every one of you could get the basket only for him!

They answered with astonishment: Ubuntu.

“That is, how can one of us be happy while the rest are miserable?”

Ubuntu in their civilization means: (I am because we are).

That tribe knows the secret of happiness that has been lost in all societies that transcend them and which consider themselves civilized societies ……. !!!

Acção transnacional do DiEM25 para o 50º aniversário de Julian Assange a 3 de Julho

Há quase 10 anos que Julian Assange expia com a sua liberdade os seus actos como jornalista. O dia 3 de Julho marca o seu 50º aniversário e o DiEM25 não quer deixar passar a data em branco.

Numa acção coordenada com diferentes cidades europeias, membros do DiEM25 reúnem-se em frente à embaixada do Reino Unido com cartazes que exibem obras de arte (pinturas, imagens gráficas, etc) criadas por artistas de toda a Europa e do mundo! 

Nós levamos os cartazes! 

Convidamos-te a participar nesta iniciativa, mostrando ao mundo que Julian Assange e o seu sacrifício pessoal pela nossa liberdade de expressão, não foram esquecidos.  

Esta acção observará todas as regras impostas pela pandemia, pelo que não te esqueças de levar máscara, cumprir com o distanciamento social e seguir as indicações da organização.

Data e hora: 3 de Julho, 11:00h

Local:   em frente à embaixada do Reino Unido 
             (R. de São Bernardo 33, 1249-082 Lisboa)

Contamos contigo!
DiEM25 Portugal

30 de Junho de 1934: “Noite das facas longas” na Alemanha nazi.

30 de Junho de 1934: “Noite das facas longas”, na Alemanha nazi. Adolf Hitler, Goering e Himmler ordenam a morte dos dirigentes da tropa de choque SA.

A partir de 24 de março de 1933, o “Reichstag” (Parlamento alemão) aprova a chamada “lei dos plenos poderes”, dando a Adolph Hitler uma autoridade ditatorial. Estes primeiros anos no poder serão cruciais para o ditador estabelecer a sua autoridade e rodear-se de colaboradores leais. Em todas as províncias são instalados governadores do Reich e são drasticamente limitadas as liberdades democráticas. A nível social, a influência nazi começa igualmente a estender-se; não há, a partir de então, associação, profissão, emprego oficial, jornal ou empresa que não estejam integrados na linha omnipotente do partido. Ocorrem, também, os célebres pogroms contra os judeus.

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A VELHICE | por António Lobo Antunes

Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os Brunos Miguéis já vão nos 15, as Kátias e as Sónias deram lugar a Martas, Catarinas, Marianas. A maior parte dos polícias são mais velhos do que eu. Comecei a gostar de sopa de Nabiças. A apetecer-me voltar mais cedo para casa. A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos. A ver os meus retratos de criança como se fosse um estranho. A deixar de me preocupar com o futebol, eu que sabia de cor os nomes de todos os jogadores do Benfica (…). A desinteressar-me dos gelados do Santini que o Dinis Machado, de cigarrilha nas gengivas achava peitorais.

Se calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no outro e vou, de bengala, contar os pombos do Príncipe Real que circulam, de mãos atrás das costas como os chefes de repartição, em torno do cedro. Ou jogar sueca, com colegas de boina, na Alameda Afonso Henriques de manilha suspensa no ar, numa atitude de Estátua de Liberdade. Quando der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico. Reconhecerei o meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos, vestidos de urso como os automobilistas dos tempos heróicos, cravavam nos gelos polares.

Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu pai me comprasse na feira de Nelas, um espelhinho com a fotografia da Yvonne de Carlo, em fato de banho, do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito.

Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

António Lobo Antunes

RELAXAMENTO | jornal expresso “curto”

João Pedro Barros
Coordenador Online
O dia mais longo, a variante mais perigosa, a vacinação que acelera
21 JUNHO 2021

Bom dia,

Vários epidemiologistas já tinham avançado com a teoria, mas ontem passou a ser oficial: a variante Delta (também conhecida como indiana) já é dominante em Lisboa e Vale do Tejo, onde tem uma prevalência superior a 60%. Como qualquer variante mais transmissível, dizem os especialistas, será uma questão de tempo até alastrar a todo o país e engolir a variante Alfa (dita também inglesa ou de Kent).

Os dados são do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e ainda preliminares, mas tornam claro que há um problema a resolver, para já centrado na capital – no Norte a prevalência da variante ainda é inferior a 15%. Esta estirpe é até 60% mais transmissível do que a inglesa, que por sua vez já era mais transmissível do que o SARS-CoV-2 original. Pode encontrar aqui respostas às principais dúvidas sobre a variante Delta.

Esta será apenas parte da explicação para a região de Lisboa apresentar um crescimento exponencial de infeções: há oito dias consecutivos que representa, mais coisa menos coisa, dois terços dos novos casos em Portugal. Será difícil saber exatamente qual o grau de importância de outros fatores, mas presumo que eles possam ser resumidos numa palavra: relaxamento.

É certo que temos de ler agora os números com outros olhos: em janeiro o país teve uma média de 179,9 mortes diárias devido à covid-19, nos últimos 30 dias a média foi de 1,6. Porém, já há especialistas sem medo de usar o termo “quarta vaga” e que avisam que há outro fator crítico a preservar: a operacionalidade do Serviço Nacional de Saúde, que pode estar novamente em causa, ainda para mais num momento em que há um esforço para recuperar os atos médicos em atraso após dois confinamentos. A lotação covid-19 já aperta na região de Lisboa.

Se há um fator de consenso entre os epidemiologistas é que há sérios riscos quando se deixa a situação pandémica fugir de controlo – e há países que já são casos de estudo, como o Chile, em que se registaram fortes surtos mesmo com elevadas taxas de vacinação. Face a isto esperam-se respostas políticas, com a população já claramente cansada de confinamentos e seus sucedâneos – como bem ajudou Marcelo Rebelo de Sousa a frisar.

Há algumas medidas possíveis, sendo a mais benigna acelerar ainda mais uma vacinação que já vai de prego a fundo: este sábado foi um dos dias com mais inoculações da campanha (138.477), cumprindo-se a promessa do vice-almirante Gouveia e Melo de ultrapassar as 100.000 doses por dia em junho. Se olharmos para a média móvel a sete dias verificamos uma curva bastante ascendente, que se quer agora prolongar: no seu espaço de comentário na SIC, Marques Mendes revelou que vai abrir um novo centro de vacinação no Estádio Universitário de Lisboa, assim como confirmou que o processo será alargado à faixa etária dos 20 aos 29 anos a meio de julho.

Hoje é precisamente o dia mais longo do ano, que marca o início do verão no hemisfério norte: o solstício de verão ocorreu há poucas horas, precisamente às 3h32, e como era bom que pudéssemos ter um dia soalheiro em que, como por magia, pelo menos dez milhões e tal de pessoas ficassem protegidas num ápice.

Isto não vai acontecer e até o verão, fresco e chuvoso, parece deprimido. A resposta da vacinação não se afigura suficiente para resolver o problema, pelo que se exigem pelo menos duas medidas quase tão velhas como a pandemia em si: testagem em massa e rastreamento rápido e rigoroso. A testagem, após um pico em abril, nunca disparou como chegou a ser prometido, revela o último relatório de monitorização das linhas vermelhas da DGS; o mesmo documento aponta ainda para uma diminuição da eficácia no isolamento e rastreamento. O “Público” noticia esta manhã que as Forças Armadas têm 252 militares prontos para apoiar o combate à pandemia, especialmente em Lisboa e Vale do Tejo e em grande parte para ajudar na realização de inquéritos epidemiológicos. No terreno já estão 444 militares.

Esperam-se novidades do próximo Conselho de Ministros, esta quinta-feira, e, de acordo com Marques Mendes, uma delas será o alargamento da utilização do certificado digital covid para o acesso a eventos desportivos, culturais e casamentos. Por outro lado, terminou há pouco a proibição de circulação de fora para dentro da Área Metropolitana de Lisboa, que esteve em vigor durante o fim de semana e que foi criticada em vários quadrantes. Irá manter-se esta semana?

O número de novas infeções desceu ontem ligeiramente abaixo de 1000, mas o pior foi ver o número de internados voltar a passar a fasquia dos 400, algo que já não acontecia há dois meses. Como costuma dizer António Costa: “esperemos o melhor e preparemo-nos para o pior”. Ou como também disse o primeiro-ministro, estamos todos de acordo com Marcelo e “ninguém deseja que não haja desconfinamento”. Que tudo isto não passe de uma nuvem fugaz, antes do dia inteiro e limpo que todos queremos ver.

É chegada a hora de mostrardes ao mundo o quanto sabeis | Fernando Gomes

Pronto, a criança apareceu sã e salva, já podeis parar de ostentar tantos conhecimentos de pedopsicologia, puericultura e educação parento-filial.

É chegada a hora de mostrardes ao mundo o quanto sabeis de inconstitucionalidades, estados de emergência inexistentes, quase-cercas que parecem sanitárias e presidentes que não recuam.

Mas, atenção, tendes apenas até às 17 horas de amanhã, o exacto momento para começardes a fazer alarde de um perfeito domínio das melhores técnicas e tácticas futebolísticas quando se joga com a selecção que tem fama de ganhar no fim.

Só então podeis voltar à vida regular de epidemiologistas e virologistas dos últimos meses. Bem sei que são actividades que já vos enfadonham, mas talvez a sorte traga em breve uma sentença judicial controversa que vos obrigue a expor os vossos brilhantes conhecimentos penais.

Retirado do Facebook | Mural de Fernando Gomes

Humor | O barman é um robot

Um sujeito entra num bar novo, hi-tech, e pede uma bebida. O barman é um robot que pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem responde:

– 150.

Então o robot serve um cocktail perfeito e inicia uma conversa sobre aquecimento global, espiritualidade, física quântica, interdependência ambiental, teoria das cordas, nanotecnologia e por aí.

O tipo ficou impressionado, e resolveu testar o robot. Saiu, deu uma volta e retornou ao balcão. Novamente o robot pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem responde:

– Deve ser uns 100.

Imediatamente o robot serve-lhe um whisky e começa a falar, agora

sobre futebol, Fórmula 1, super-modelos, comidas favoritas, armas,

corpo da mulher e outros assuntos semelhantes.

O sujeito ficou abismado. Sai do bar, pára, pensa e resolve voltar e fazer mais um teste.

Novamente o robot lhe pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem disfarça e responde:

– Uns 20, eu acho!

Então o robot serve-lhe uma pinga de tinto, inclina-se no balcão, mete um palito na boca e

diz, bem pausadamente:

– Então e o nosso Benfica?

Ana Catarina Mendes | Flashback | por Paulo Querido

Hoje foi um domingo tranquilo, calmo, pacífico. As polémicas que por aí andam são indignas, coisa de tablóides e folhas panfletárias, e estamos no Mês da Grande Alienação. De modos que escrevo sobre o lançamento de Ana Catarina Mendes no Flashback (ou lá como aquilo se chama atualmente).

Seja qual for o nome que tem atualmente — não vou gastar neurónios a atualizar o nome cada vez que se lembram de o mudar, o que sucede com inusitada frequência e mau gosto —, o Flashback está numa boa fase. A entrada de Ana Catarina Mendes, a primeira mulher no programa em cerca de 40 anos, trouxe uma novidade refrescante: levou José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier a um mais elevado nível de aprumo discursivo.

Por outro lado, JPP tem vindo a melhorar num aspeto que considero fundamental: abandonou o tudologismo em que caiu durante anos. E parece que prepara melhor a generalidade dos temas (nem todos, mas a grande maioria). E ALB tem feito maravilhas para se distanciar do CDS e da IL, ao mesmo tempo que mantém bem fechada a fronteira com o selvagem da extrema-direita, ganhando assertividade no processo.

Mas esta menção tem outro fundamento. Repara nos dois fotogramas seguintes, que são do programa de há duas semanas:

No primeiro, Pacheco Pereira aplaude Ana Catarina Mendes. Discretamente, mas notoriamente. No segundo, Lobo Xavier tira o chapéu a Ana Catarina Mendes e não é um mero salamaleque de queque. Há um intervalo de menos de um minuto entre os dois fotogramas.

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