Os “lambe-cus” | Elísio Estanque | in “Jornal Público”

ee_ri1(…) Mas a sua verdadeira recompensa está no próprio ato de lamber. Sem essa prática, constante e repetida, a sua existência não tem qualquer sentido. Eles são a contraparte da vontade de bajulação de personagens “importantes” cujos enormes umbigos – e as lambidelas diárias – os fazem sentir-se muito mais importantes do que realmente são.

No Portugal antigo, nos tempos da sociedade rural e do paroquialismo, era a “graxa” que dava “lustro” aos mais poderosos. Mais tarde surgiram os “lambe-botas”; e atualmente, é o tempo dos “lambe-cus”. A espécie não é obviamente um exclusivo do “habitat” lusitano. Mas não tenho dúvidas de que por cá ela germinou, floresceu e hoje multiplica-se a olhos vistos. Isto porque aqui encontra as condições ideais para a sua multiplicação. Os atuais lambe-cus são descendentes dos “lambe-botas”. Não deixa, no entanto, de ser curioso, e aparentemente paradoxal, que os lambe-botas (os pais dos lambe-cus) tenham sido tão combatidos, quase exterminados, com a restauração da democracia, e depois ressurgiram tão vigorosamente. À medida que o regime democrático se foi acomodando às suas rotinas burocráticas e, posteriormente, começou a ser corroído por dentro, eles brotaram das entranhas e estão agora por todo o lado. Digamos que a corrosão da democracia está em correspondência direta com o aumento dos lambe-cus. Porque será que isto ocorre e porque será que o país se tornou um “viveiro” tão fértil para esta espécie?

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Quem aprendeu a gostar, então não gostou | Inês Salvador

salvador-200Leio por aqui posts “do coração” que me criam imensa perplexidade. Por exemplo, aconteceu a coisa certa com a pessoa errada. Isto quer dizer o quê? Que afinal o bacalhau era pescada? Ora, isto não é possível. O bacalhau ou é ou não é bacalhau. Ah, e tal, amo bacalhau à Brás, mas ando a comê-lo como  pescada. E, igualmente complexo, aconteceu a coisa errada com a pessoa certa. Amo bacalhau à Brás, mas ando a comê-lo à Gomes de Sá. Ora, vejamos isto com alguma pedagogia e pragmatismo, bacalhau à Brás é bacalhau à Brás, e, neste sentido, o bacalhau é à Brás e é bacalhau. E, depois, para remediar os azares gastronómicos, dizem que aprendem a gostar. Aprendem a gostar? Aprende-se gostar? Oh que tristeza! Do gostar, ou se gosta ou não se gosta! Mas há meio termo na esmagadora avalanche do se gostar? Um processo de aprendizagem? Uma alfabetização do sentimento? Hoje é a letra “q”, e o que é que aprendemos hoje? O quá-quá do gostar, que é gostar como os patinhos. Um gostar pequenino de bico amarelinho. Oh intrépidas e fulminantes existências! Oh que arrebatamento! Quem gosta do bacalhau, vai à Brás, à Gomes de Sá, à Zé do Pipo e o que o receituário aguentar. E não me macem com aprendizagens. Quem aprendeu a gostar, então não gostou. Foi mais o sento-me já aqui, que não sei se a carruagem da frente já vem cheia. E o que surpreende é isto num país de fadistas, de “olhos rasinhos de água”, que “por uma lágrima tua me mataria”. Opá, ou o fado ou comprar uma bimby, passar pela vida como um irlandês passa por Albufeira, e lá ficar fora de pé, é que só pode ser pior que a crise. Digo eu, sei lá.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Afinal a diaba sempre chegou em setembro | Francisco Louçã in “Público”

mariana mortáguaNa falta do Diabo, venha a diaba.

Passos Coelho bem avisou: é em setembro que chega o demo. E, se não chegou, então mais vale apregoá-lo, alguém acreditará. Ou, como mandam os spin doctors, se há um incêndio em minha casa é melhor atear fogo à cidade porque assim ninguém nota – ninguém nota nem as sondagens tristes, nem a sordidez do apadrinhamento por Passos Coelho do livro do Saraiva, nem a dificuldade de ter candidatos autárquicos, nem o desgosto de não ter havido sanções até agora.

Mariana Mortágua tem então mais uma medalha ao peito: conseguiu juntar de novo o PSD e o CDS, o que não estava nada fácil. Conferência de imprensa conjunta, vociferação, ataque pessoal, tudo como seria de esperar. Afinal, uma pequena taxa sobre os patrimónios imobiliários de mais de um milhão de euros é “ilegal, imoral e inconstitucional”, isto dito pelos ex-governantes que impuseram sem eficácia um imposto de selo de 1% sobre os patrimónios imobiliários de mais de um milhão de euros. Vê-los portanto rasgarem as vestes, porque o investimento vai morrer, porque os franceses se vão embora, porque os Vistos Gold já ninguém os quer, porque os poupadinhos vão ficar prejudicados, porque as heranças serão devastadas, tudo seria comovente se tivesse sentido. Pois que não, como é que se viu, uma deputada discutir soluções fiscais, então não é que ela tomou de assalto o Terreiro do Paço, oh da guarda?

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Véus há muitos | Vera Tavares e André Barata in “Público”

burkini“Há imperialismos insuspeitos. Um deles é o da emancipação, que acha que esta ou é ocidentalizada ou não é emancipação. Que subtrai às mulheres muçulmanas o direito de construírem a sua emancipação a partir da sua circunstância — da sua cultura, história e comunidade. Mas não há realmente emancipação se esta for travestida da linguagem com que outros, noutras circunstâncias, concebem os seus horizontes de emancipação.”

A polémica proibição do uso de burquínis nas praias da Riviera tem suscitado em redes sociais e meios de comunicação tomadas de posição que, a pretexto do combate ao fundamentalismo, afrontam a condição da mulher muçulmana. Trata-se de uma atitude perigosa que deve ser identificada, bem como clarificados alguns pressupostos que a suportam.

Em primeiro lugar, a maneira como se vai normalizando, nas nossas sociedades reputadas livres e plurais, uma prerrogativa de vigilância, controlo e punição dirigida a uma religião e às suas manifestações no espaço público. Esta é uma forma de islamofobia na exacta medida em que um mesmo controlo não tem sido exercido sobre outras comunidades religiosas.

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Os “pilha galinhas” | José Filipe da Silva

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Reflexão histórica ::: Mandava El-Rei D. Pedro I, o Justiceiro ou o Cruel, aquele que padecendo de amores, deles não morreu… e sua majestade legislou, na “Ordenação sobre a tomada de galinhas”, que se proibisse, “tanto aos grandes como à própria casa real, que fossem comprados por preço inferior ao corrente, ou tomados à força, patos galinhas, leitões e outros géneros”. Estavam assim proibidos e identificados (as elites, os grandes, o poder político), em pleno século XIV, os “pilha galinhas” de Portugal. Não consta que esta legislação tenha sido revogada, garanto-vos que pesquisei abundantemente. Fica a questão, até quando o povo português terá que pagar milhares de milhões (das receitas dos seus impostos) para “salvar” bancos e “negócios públicos” geridos por “pilha galinhas”? É que é manifestamente contra a lei… 😉

Retirado do Facebook | Mural de José Filipe da Silva

Silly Season 3: Os combates nevróticos contra o burquini | Francisco Louçã in “Público”

burkini foi proibido por várias câmaras municipais francesas, o tribunal interditou a proibição, os presidentes das câmaras insistem. Esta tragicomédia lembra o que Sartre escreveu no seu prefácio aos Damnés de la Terre: “A França, outrora, foi um grande país, tenhamos em atenção que não se torne em 1961 o nome de uma nevrose”. Foi há mais de cinquenta anos. Mas, mesmo agora, será só uma nevrose?

Parece que não, é também uma política. Valls, primeiro-ministro socialista, bem como Sarkozy, ex-presidente e candidato presidencial, precipitaram-se no apoio à extrema-direita francesa nesta proibição. Parece que, para esta gente, o fato de banho em causa lembra que aquelas mulheres são muçulmanas, e esta religião suscita comoção pública e ameaça à ordem – pelo menos no caso pessoal desses políticos.

burk-1Alguns jornais e revistas lembraram que um fato de banho deste tipo é usado por funcionários públicos na Austrália, que as mulheres judias ortodoxas usam um parecido (na imagem ao lado), ou que há uns anos em Portugal era imposto por lei que os homens cobrissem grande parte do corpo e as mulheres mais ainda, ou que as convenções e roupas mudaram ao longo dos tempos de acordo com costumes e histórias. A moda pode aliás recuperar o que tinha sido abandonado, como se verifica no anúncio que reproduzo ao lado: seria esta mulher acusada de ser uma muçulmana perigosa e obrigada pela polícia a despir-se numa praia de França? Alegar que há um padrão de roupa que é ilegalizável parece portanto um absurdo.

burk-2O argumento sobre a religião muçulmana é ainda mais grotesco porque se resume a isto: incomoda que aquelas mulheres pareçam ser o que são, muçulmanas. Um jornal francês lembrava que, em setembro de 1933, houve um jornalista que criticou os judeus a propósito da tomada do poder por Hitler na Alemanha: “É evidente que faltou prudência aos Judeus. Fizeram-se notar demasiado”. Alguns usavam kippahs na cabeça e, no caso dos judeus ortodoxos, um padrão de roupas que era identificável nas ruas (e o dos funcionários da City de Londres não é identificável nas ruas, e podem ser bem perigosos?). Fizeram-se notar e veio o nazismo obrigá-los a usarem uma estrela amarela, por via das dúvidas.

Nevrose, então? Uma política enlouquecida, correndo atrás de pretextos, ansiosa por marcar novas discriminações? Uma sociedade angustiada por fronteiras, por demarcar objectos e pessoas que possam ser detestados? Talvez seja simplesmente e somente mais um desses episódios das pequenas lutas de luz e sombra em que se testa a nossa cultura e em que se dão passos em frente ou para trás no respeito pelos outros e na conformação das nossas comunidades.

O debate sobre a legalidade do burkini é simplesmente um sintoma da profunda desorientação em França. A bússola avariou-se e isso terá sempre consequências mais surpreendentes e porventura chocantes.

Francisco Louçã in Jornal Público

Devaneios e veraneios | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvConhecido pelos seus aforismos, o inclassificável Karl Kraus deixou obra literalmente de peso. Na última (publicada parcialmente em 1934 como resposta à vitória do nazismo na Alemanha), “A Terceira Noite de Walpurgis”, escreveu, deixando logo claro ao que vinha: “Sobre Hitler não me vem nada à cabeça”. Com uma escrita e pensamento cáusticos de primeira água, capazes de emparelhar com os maiores satíricos da história da literatura, Kraus continua hoje um recurso inesgotável para quem, podendo embora encarar o mundo como uma piada de Deus, não deixa de o encarar como uma piada de mau gosto.
Num dos números da revista “Die Fackel” (“A Tocha” ou “O Archote”, como se preferir), que manteve praticamente sozinho durante várias décadas, pode ler-se: “Posso provar que continua a ser uma terra de poetas e pensadores. Possuo um rolo de papel higiénico publicado por um editor, e cada folha contém uma citação de um clássico apropriada à situação”. Se Kraus se referia aqui aos clássicos da grande cultura alemã, que dizer desta citação que roubo a Passos Coelho, proferida recentemente no Pontal: “Nós levamos a sério a política.

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(…) não estive à altura da Revolução | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvEu estou aqui a compor umas coisas para a B Hierro Lopes e dei comigo a rir de mim própria pela segunda vez…

De como fui confundida com uma puta no 28 de Setembro.

Como toda a gente sabe, houve o 5 de Outubro, o 28 de Maio, o 25 de Abril, o 28 de Setembro, o 11 de Março e o 25 de Novembro. Nas duas primeiras datas ainda não era nascida e tudo o que sei foi de ouvir dizer. O 25 de Abril já está ultra-batido… quanto às duas últimas, despindo a coisa de atavios, foi mais ou menos assim: no 11 de Março, os cabrões do PCP não tomaram o poder por pouco; no 25 de Novembro, os cabrões dos reaças tomaram o poder e pronto. As eventuais divergências quanto a este apanhado histórico agora não interessam nada porque vou contar uma história. A história passa-se a 28 de Setembro (dia em que a maioria silenciosa perdeu o pio..) e é uma história verídica
O nosso quartel-general, que o tínhamos, ficava nas instalações da Faculdade de Ciências de Lisboa, ali à rua da Escola Politécnica, onde muitos anos depois se vieram a expor restos de dinossauros e cadáveres chineses completos. Era um bom quartel-general. Tinha música (na «sonora»), uma cantina – que apesar das baratas e dos ratos podia ser tardiamente assaltada –, e era muito central. A mim dava-me bastante jeito porque vinha de Cascais e saía no Cais-do-Sodré.

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A CULTURA E A REINVENÇÃO DA EUROPA | Fernando Paulouro Neves in “Notícias do Bloqueio”

palouroNa contingência das grandes crises, quando o horizonte de esperança parece diluir-se na descrença e no cepticismo, pouca coisa resta à “matéria dos sonhos” que a humanidade tece, para a humana respiração dos povos, a não ser voltar-se para aqueles valores (onde a cultura tem peso decisivo) que, por serem comuns à intemporalidade, não se perdem na efemeridade dos dias.

Na restrita janela onde estamos e se pode olhar o rumor do mundo, surge então a cultura como um fogo primordial, na sua dimensão libertadora das consciências, pão elementar do pensamento, força de um imaginário capaz de desfazer mitos, que acontecem sempre que o homem já não cabe na realidade e fica preso a atavismos. A projeção da cultura sobre as palavras e as coisas é a fonte de um pensamento com tal grau de racionalidade que até é capaz, como alguém disse, de tornar Sísifo feliz.

Não poucas vezes, foi a olhar para dentro desta ideia que se abriram caminhos de dignidade humana, conquistas irreversíveis de marca social, na obstinada recusa da negação do homem, que é a soma daqueles crimes contra a humanidade com a sua nomenclatura de valas comuns, com os seus cemitérios ao luar de gente que foi tratada como gado, com os holocaustos que foram muitas mortes de Deus (e da própria poesia!) ou com os gulagues, tudo infernos domesticados, inscritos na vida colectiva como fatalidades cirúrgicas — como agora se diz dos bombardeamentos! — organizadas pela História.

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Abraços | André Barata

Agora que os abraços se tornaram assunto de comentário político, eis dois abraços, dos amantes Rivera e Frida Khalo, mas que não são abraços de amantes. Um de campesinos e fraternidade, outro cósmico e que tudo teria assim de ligar. Dá que pensar esta figura da ternura. Damos e recebemos abraços. Alguns são cumprimento, como os beijos, códigos de aceitação e convívio leais que importa cumprir, precisamente. E há abraços e beijos que não estão para nada como signo, que não cumprimentam, não cumprem, não meneiam código nenhum. Acontece com o beijo dos amantes, que não admite representantes e representados. Mas o mesmo abraço sem representação não é apenas de amantes. É também de pais para filhos, e entre grandes amigos, que nos falta tantas vezes abraçar, de vítimas e salvadores que precisamos de abraçar. Talvez nenhuma outra cumplicidade corporal exprima o amor para lá de todas as suas figurações, o dos amantes, dos pais, dos amigos, dos irmãos. Em todos, há um abraço que cinge e acolhe a fragilidade, até a respiração, amparo de tudo o resto.

De Diego Rivera (pormenor de “El abrazo y campesinos), outro de Frida Khalo (“El abrazo de amor de El universo, la tierra (México), Yo, Diego y el señor Xólotl”)

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

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ARGÉLIA | Francisco Seixas da Costa

argel fsc - 250Tenho um “fraco” pela Argélia, devo confessar. Pela sua cultura – de Camus a Kateb Yacine, embora não conheça muito mais -, pelo percurso complexo desse território atípico, que chegou a fazer parte das Comunidades Europeias (com efeitos até 1968, é verdade!), atravessado por uma das mais sangrentas guerras de libertação de que há memória. Mantenho presente a heroicidade dessa luta pela independência, bem como o papel desempenhado pelo país no contexto internacional que se lhe seguiu e, muito em especial, a sua contribuição para a manutenção da esperança da liberdade em Portugal, nos anos 60 e 70.

Da mesma maneira que entendo muito lamentável que os países africanos saídos do colonialismo português nunca tenham feito uma homenagem a quantos, por cá, arriscaram a liberdade e a vida para apoiar a sua luta (e estranhamente nunca ouvi ninguém falar disto), acho muito triste que a democracia portuguesa nunca tenha feito uma homenagem pública ao país que acolheu a FPLN e Humberto Delgado, nesses tempos difíceis em que a instauração da ditadura militar retirou ao Brasil o estatuto de esteio principal para o acolhimento dos lutadores anti-salazaristas. Com Paris, e mais limitadamente com Roma e algumas capitais do “socialismo real” onde se refugiava o PCP, Argel foi, por anos, a principal “capital” da luta pela nossa liberdade.

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Sussuarana realiza caminhada contra violência e extermínio de jovens | Salvador BA | Valdeck Almeida de Jesus

Sussuarana Caminhada 2016 - 200Acontece nesse domingo (17.07.2016), a partir das 9 horas, no bairro Sussuarana, em Salvador-BA, a Caminhada Contra Violência e Extermínio de Jovens. Com o lema “Chega de Violência”, a manifestação é promovida pela Pastoral da Juventude, com apoio do Cenpah (Centro de Pastoral Afro Padre Heitor), Grupo Recital Ágape e Grupo de Apoio às Causas Culturais e Sociais (GACCS). A concentração será em frente ao Colégio São Daniel Comboni e seguirá pela Avenida Ulisses Guimarães até o final de linha de Sussuarana, com cartazes, palavras de ordem, apresentações artísticas e culturais focadas em denunciar o desrespeito à vida, contra a violência e a favor dos direitos humanos. O evento faz parte de articulação da Campanha Nacional contra a Violência e o Extermínio de Jovens.

A Bahia ocupa um vergonhoso e triste lugar na lista dos estados que mais violentam os direitos humanos de negros e negras da periferia. Diariamente são noticiados casos de desrespeitos ao direito de ir e vir, dentre outros, a exemplo do ocorrido com o jornalista Eduardo Machado e sua namorada Larissa Fulana de Tal, nas imediações da Calçada, que voltavam da praia com os amigos Willian Costa e Cida Pereira no dia 23 de junho, no bairro da Calçada. Ao tentarem tomar táxis para voltar pra casa, houve recusa dos taxistas, o que gerou um debate e intervenção da polícia militar que prendeu os dois rapazes e circulou por mais de duas horas pela cidade. Enquanto isso, as jovens recorriam a uma rede de contatos para denunciar o desaparecimento dos companheiros que foram localizados na delegacia de flagrantes e soltos por intermediação da defensora pública Vilma Reis. Por conta desse lamentável episódio, um grupo de entidades e ativistas estão se reunindo para protestarem em breve em ato contra a discriminação e a violência, bem como tomar providências judiciais e de políticas públicas a fim de exigir reparação e levantar debate sobre o assunto.

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O ESTADO DO CONSELHO | Francisco Seixas da Costa

francisco seixas da costaO Conselho de Estado é um órgão de consulta do Presidente da República. Os seus membros, que o integram por inerência de certas funções e por escolha do parlamento ou do chefe do Estado, comprometem-se a guardar absoluto sigilo do que se passa nesse órgão, das suas discussões e, muito em particular, das posições individuais assumidas durante as mesmas.

Contudo, o que se tem visto cada vez mais é a circunstância dessas conversas, que deveriam ser sigilosas, até para preservar a liberdade de cada um de poder ser totalmente franco, acabarem por surgir na praça pública, dias depois, através da imprensa. É um excelente retrato do nível a que chegou a ética cívica da paróquia!

Imagino que os arautos da “transparência” defendam que deveria haver mesmo uma transmissão televisiva em direto das sessões daquele órgão de Estado – “o povo tem o direito de saber!” – mas nunca será demais lembrar que a demagogia no poder não é sinónimo de democracia. Bem pelo contrário!

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

(…) uma história de encantar (…) | Joana Amaral Dias

joana amaral dias 1 - 200Parece uma história de encantar. Na europa racista dos fortes com os fracos e fracos com os fortes, uma equipa dos PIGS, dos porcos, dos dégueulasse, nojentos, das femme de ménage com bigode e dos pedreiros dos bidonville, ganhou o caneco. Cum caneco.
É o dia em que o velho continente não é pertença e propriedade do eixo franco-alemão, nem das patroas do 6º arrondissement, nem da Goldman Sachs. Parece uma história de encantar. Uma equipa com um seleccionador humilde, católico devoto e confesso, meio ensimesmado e cachaço tenso, fora do estrelato do dente branco e do cantinho dos special ones, empata, empata, empata. Mas não perde. Não brilha mas não cai. Aguenta firme, não é obra de arte, arquitectura de arrebites e modernices, mas está ali firme, de pedra e cal. Fernando Santos, o engenheiro da electricidade, engenheiro da energia, dizia-se, tinha um único trunfo, o grande sétimo selo Cristiano Ronaldo, atleta de profissão. Parece uma história de encantar. Ninguém queria acreditar. Quase ninguém acreditava. E esse campeonato começado no dia 10 de junho, no dia de Portugal, havia de terminar em França, país hospedeiro mas pouco hospitaleiro.
França-Portugal, final do euro 2016. Foi o dia em que o imigrante português em terra gaulesa, “o avec”, foi, finalmente, vingado. Tantos anos cuspido para as margens, a esfregar latrinas e a ser cinicamente louvado como “grande trabalhador” para, por fim, mostrar aos franceses que está ali por direito. Os franceses estavam a jogar no seu território mas nós também. Paris é o delta da diáspora portuguesa e o Stade de France, ali na Saint-Dennis dos nossos avós, foi construído com as mãos, o sangue, o suor e as lágrimas do trolha tuga. Jogámos em casa.
Uma história para contar. A equipa do comandante discreto e da estrela fulgurante entrou em campo depois de mais vexames. Sanção para aqui, má imprensa desportiva para acolá. Dez minutos e um médio francês, cujo nome nunca ficará para a história, pobre diabo, joga sujo, bem porco, contra CR7. Rei Ronaldo ainda insiste mas acaba por sair lesionado e em lágrimas. Sentado no relvado, enquanto chorava de dor e raiva, uma borboleta poisa-lhe na na pálpebra, como se fosse borboleta com borboleta. Mas não uma bonita, de encher o olho, como a Rainha Alexandra ou a Esmeralda. Uma vulgar traça, um patinho feio do mundo panapanás, como uma selecção degoulasse. A borboleta feiosa beijou o olho choroso do capitão. E o tempo foi bonito.
A equipa tomou-se de revoltas fidagais, gritou chega de humilhações e desdém, basta de rebaixar. Corações ao alto, peito feito, olho vivo e pé ligeiro. Afinal, não estavam decapitados, afinal erguia-se um gigante. Golias tremeu. E quando a morte súbita já espreitava sobre o ombro, Éder, o órfão dos arrabaldes de Coimbra, da Adémia terra de enguias e comboios, outro maldito desta vida e desta selecção, outro herói inesperado, dispara, marca, resolve, ganha, vence. Portugal festeja, finalmente festeja, finalmente alegre. Portugal ergue os seus luso-africanos, luso-brasileiros, os seus luso-franceses e o seu cigano português. Portugal pode ser essa mistura, sopa da pedra, rapa o tacho, desenrasca, safa e já está. Pátria amada, amor de mãe, frança 2016. A memória ficará tatuada. Santos da casa fazem milagres.

Retirado do Facebook | Mural de Joana Amaral Dias

Racismo e Violência Policial fazem mais vítimas na Bahia | Valdeck Almeida de Jesus

Racismo e violencia na BahiaEm Junho (23), o jornalista Eduardo Machado, a cineasta Larissa Fulana de Tal e os dois amigos Willian Costa e Cida Pereira, aumentaram as estatísticas de homens e mulheres negras vítimas do racismo e da violência policial no estado da Bahia.
Ao saírem da praia do Cantagalo, na Cidade Baixa, e tentarem exaustivamente usar o serviço de táxi de volta para casa, os quatro jovens disseram ser discriminados pelos taxistas, que se negaram a cumprir a corrida, alegando que estes se encontravam em trajes inadequados para a condução. Na última tentativa de conseguirem um táxi, um dos motoristas acionou a polícia militar, após os jovens questionarem seus direitos de fazerem uso de um serviço público e não entenderem a problematização acerca de suas vestes.
A chegada da polícia, que deveria solucionar o problema, acabou por agravar a situação, conduzindo, coercitivamente, dois dos quatro jovens dentro de uma viatura, sem informar para qual delegacia eles seriam encaminhados.
O episódio citado, resultou na Mobilização de Repúdio à Violência Institucional, realizada, hoje (04.07.2016), no Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN), com as presenças de algumas lideranças do Movimento Negro, que discutiram o ocorrido e se articulam para exigir do poder público e das instituições cabíveis que acompanhem e deem importância ao caso.

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Brexit | Inês Salvador

Ines Salvador -200Brexit | Uma pessoa folheia o facebook e depara-se com posts de direitolas todos contentes com o brexit. Parece que ser direitola também é isto, ficar contente quando dá merda. Às vezes penso que os direitolas eram aqueles putos estúpidos que tocavam às campainhas e depois corriam a esconder-se. Depois cresceram e tornaram-se direitolas só para continuar a tocar às campainhas. Ah e tal, a união europeia é um neo marxismo, dizem a ver se parecem menos parvos. É sempre o velho Marx que as paga. Estou quase convencida que para eles também foi Marx quem inventou a campainha. Até parece que ser direitolas é só esta felicidade destrutiva do mau uso do bem comum.  A alegria de esfíncter infantil do ou brinco eu ou não brinca ninguém. Um palhaço de um egoísmo que não entende que ter 50% de alguma coisa é melhor que ter 100% de coisa nenhuma. Mas pronto, carreguem, carreguem à vontade, e quando rebentar corram a esconder-se.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

E elas foram à bica | Inês Salvador

Ines Salvador -200– Olha lá este…
– É giro!
– Põe like nas minhas fotos todas…
– Põe nas dele, não te atrapalhes.
– Deve querer qualquer coisa comigo…
– Olha, não te quero desiludir, mas não excluas o facto de eles porem likes nas fotos todas das moças todas!
– Todas?! Todas, não!
– Tens razão, todas não. Nas que lhe dão ponta. Um nadinha de ponta, vá, já chega.
– Às vezes não entendo, põem likes e comentam em gajas tão feias.
– Também há feias com pinta de serem danadas para a brincadeira e isso conta.
– Opá, às vezes são mesmo tão feias…
– São! Medonhas, bregas, tudo, mas têm um valente par de mamas, que Deus Nosso Senhor compensa e, indo por partes, a logística também conta.
– Ahahah Inês!!!
– Sim?! Já paguei os cafés.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Bom dia Charlies | Inês Salvador

Ines Salvador -200Bom dia Charlies, sobre homofobia venho contar-vos o seguinte:

Em tempos idos, e por tempos do Super Bowl, pus na minha capa deste estranho sistema em que nos encontramos, uma foto dos New England Patriots. Para os mais distraídos, estamos a falar de futebol americano. O Super Bowl é o evento desportivo mais assistido no Estados Unidos e o segundo em audiência no mundo, logo a seguir à Liga dos campeões da UEFA. Um jogador de futebol americano é um jogador de futebol americano, e nesse sentido não há nada a tirar ou a acrescentar, porque é perfeito. A foto dos New England Patriots era isso mesmo, perfeita, esmagadora no que à beleza masculina refere. Era uma foto de balneário, um olimpo de deuses gregos americanos. E para que disso não houvesse dúvidas, alguns estavam nús, outros meio despidos, quase despidos, estrategicamente colocados para que nada demais se pudesse ver. Pois, meus Queridos Charlies, logo que pus a foto na capa, o meu chat inundou-se de msgs que me pediam que retirasse a foto, porque a exibição daquele “orgulho gay” era chocante e estava a chocar a malta. Não respondi e fui bloqueando gente, ao mesmo tempo que a foto era continuamente denunciada. Sabemos que vivemos na lama, rodeados de boçalidade, que a maioria das pessoas não é lida, não é viajada e o que melhor as distingue é o arroto, mais ou menos azedo, mas, caramba, passam o tempo a olhar para a televisão, não conseguem aprender qualquer coisinha?! Não. Não reconhecem uma imagem do super bowl e associam a beleza masculina, a nudez masculina, à homossexualidade, como se fosse tudo mau, a beleza, a nudez, e a homossexualidade. Se não fosse trágico, até tinha graça, que o que estes badochas querem é gajas boas, como se as gajas boas não se tivessem melhor que fazer. Isto para dizer, que tenho mais fé no pai natal do que em movimentos de indignação e que a minha fé nos homens é bastante reduzida. E não me venham cá falar em valores, porque para partilhar valores é preciso tê-los. Quando me dizem “não temos os mesmos valores”, sou quase sempre forçada a concordar, não é possível ter valores em comum com quem não tem valores nenhuns.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

vegetarianos, vegans e afins | Inês Salvador

Ines Salvador -200A uns certos vegetarianos, vegans e afins

Ponto de ordem e esclarecimento, que isto, às vezes, cansa:

1) – O peixe não é um vegetal! Por mais bem amanhado, em filete, com corte de chef, embrulhado em algas, se ainda não repararam, o peixe não é vegetal!

2) –  Quem põe os ovos são as galinhas e quem dá leite são as vacas! As vacas e as galinhas não são um vegetal! Também há outros animais que põem ovos e outros animais que dão leite. Nos mamíferos todas as fêmeas dão leite. Nós, as mulheres, também damos leite, é uma questão de emprenharmos e parirmos, que ficamos a dar leite, tal como as fêmeas das outras espécies de mamíferos. Se vos der para mamar noutro lado, e não se acanhem, também dá leite, é uma questão de lhe apanharem o jeito.

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Portugal lá fora | André Barata in “Económico”

andre_barata_200Marcelo Rebelo de Sousa faz bem ao deslocar o 10 de Junho da ordem simbólica da força e do poder do Estado para a dos laços das comunidades.

Paradas e desfiles das forças armadas diante do seu comandante supremo ficam melhor a Coreias e a potências cheias de tédio assertivo. Voltas a Portugal, cada ano uma cidade, convêm mais ao ciclismo ou ao calendário presidencial, desde que em qualquer outro dia do ano. Por princípio, as celebrações oficiais do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, deviam ser celebradas fora do país. Porque as comunidades estão lá fora, são alguns milhões e representam uma dimensão do país que depende sobretudo, e de quase nada mais, de laços de reconhecimento e afecto.

Marcelo Rebelo de Sousa faz bem portanto, ao deslocar o 10 de Junho da ordem simbólica da força e do poder do Estado para a dos laços das comunidades. Parece óbvio, mas o incrível é ser a primeira vez que o 10 de Junho sai do país. E também faz bem em levar as comemorações oficiais para Paris — a mais populosa cidade “portuguesa” fora de fronteiras — e em condecorar portugueses, luso-descendentes e franceses que se notabilizaram por fortalecerem e darem novos sentidos a esses laços. Por exemplo, os quatro portugueses que, no momento do atentado no Bataclan, não hesitaram abrir as portas dos seus prédios para abrigar quem procurava escapar do horror e da morte.

E claramente não terá passado despercebida ao Presidente a feliz coincidência de Paris iniciar o Europeu de futebol a 10 de Junho. Na ordem simbólica dos laços comunitários, o futebol há muito transcendeu o bafio do tempo da outra senhora. Goste-se muito ou pouco de futebol, é a actividade onde Portugal ganha maior projecção cosmopolita.  Não apenas por Cristiano Ronaldo ser, de longe, o português mais conhecido em todo o mundo, fazendo com que muitas outras línguas pronunciem o nome do nosso país, mas sobretudo porque os dias de selecção nacional são de facto dias que restabelecem o convívio de uma comunidade sem fronteiras, de anseios e esperanças comuns, que vai merecendo o nome do nosso país na nossa língua.

André Barata – in “Económico” – Retirado do Mural de André Barata

TUDO O QUE NOS DÃO | Pedro Teixeira Neves

pedro - 200O país mobiliza-se, a nação exalta, os Media atropelam-se e pelam-se por uma imagem daqueles que partem e sobre quem impende a defesa de tão insigne missão. O exacto alcance histórico do momento é difícil de mensurar. O presidente e os mais altos representantes do país revelam para as câmaras uma confiança e um orgulho sem limites. Que se acabou o miserabilismo, a comodista atitude dos fracos e resignados, a indolência. A fisionomia dos homens e das mulheres altera-se às notícias dos heróis, chora-se por uma mialgia infame. Há angústia, sofrimento, páginas dos jornais choram a possibilidade de uma dor na coxa. Mas eis que o mister sossega as fileiras, minando o pessimismo e a palidez de sentimentos. Viva, grita o povo com um entusiasmo raramente na história entrevisto, insuspeito mesmo. A histeria é meridional. Um câmara man morreu ao descuidar-se e cair de cima da mota onde fazia cobertura em directo do estacionamento do autocarro que transportava os heróis para o estágio. Terá honras de Estado e de estádio no seu funeral, a família será convidada a assistir à grande final, assim nela o país se faça representar. E sorrirá, e receberá aplausos, lágrimas de elevação, elevação! Milhares e milhares retemperam a cor à alma por séculos esmaecida, o povo confunde-se com as classes mais altas, gritam em uníssono o gestor de empresas e o estivador, o empreendedor e o desempregado fabril, o administrador e o sapateiro. Há notícias de um golo, uma mulher sonha um filho tatuado, velhinhas tremem às imagens de um torso desnudo, acham tudo uma benção dos tempos, que nos seus tempos os bravos rapazes da nação não tinham aquelas compleições. Eis o ambiente cunhado pela alegria em torno dos heróis. Se for desta, sim, então haverá a nação de reerguer-se e um peditório nacional almejará reunir em tempo recorde os fundos necessários à construção de um novo Panteão.

Retirado do Facebook | Mural de Pedro Teixeira Neves

a pior das discriminações | Inês Salvador

Ines Salvador -200Andam por aí a dizer que o Príncipe Carlos de Inglaterra é gay, como se isso fosse uma coisa má. Que tristeza de mundo este em que a orientação sexual serve de motivo de conversa, serve para vender revistas. Já agora, se ainda não repararam, o Príncipe Carlos é branco, de raça branca, não é de outra raça qualquer, e não, não é possível que se venha a descobrir outra raça ao Príncipe Carlos, porque se fosse, também se descobria, e também como se isso fosse uma coisa má, que não é, é indiferente. Nada disto devia ter importância nenhuma, a importância que tem é porque o Príncipe Carlos não é pobre. Se fosse pobre e gay já não tinha importância nenhuma, porque a pior das discriminações, a mais terrível, a mais segregadora, é a discriminação económica, a discriminação socioeconómica, a de estatuto social, de classe social, o que lhe queiram chamar. O Príncipe Carlos, se fosse pobre, não era gay, a ser, não passaria de um paneleiro qualquer.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Anticomunista, obrigada! | Clara Ferreira Alves in “Jornal Expresso”

clara-ferreira-alves-aldeia-globalNão estava à espera neste ponto da minha vida e neste ponto do século XXI, dobrado o século XX há uns aninhos, de ver aparecer a acusação. Anticomunismo. Parece que qualquer pessoa que não confie na bondade intrínseca de um acordo de governo com o Partido Comunista Português é anticomunista. Confesso ter nostalgia de muitas coisas, mas não desta. A de repensar o anticomunismo privado. Sou ou não anticomunista? E se for? A questão não é meramente ideológica, é existencial. É, por assim dizer, teológica. Cheguei à conclusão, depois de muito matutar, de que sou anticomunista. Acredito na economia de mercado, no capitalismo regulado e na iniciativa privada.

Não acredito na coletivização da propriedade e da economia, na eliminação da competição nem na taxação intensiva do capital. O atual Partido Comunista não partilha estas minhas convicções. É coletivista, e foi sempre, ao contrário do que nos querem convencer, pragmático.

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Quando uma pessoa se põe a ler a “imperensa” | Inês Salvador

Ines Salvador -200Hoje de manhã, li num qualquer jornal, já não me lembro qual foi e não tenho pena, que o espião português estaria há tempo sob suspeita por, entre outros comportamentos, ter um perfil pouco discreto nas redes sociais, o que é impróprio a quem ocupa aquelas funções. Pois, a mim, nunca me passaria pela cabeça que um perfil pouco discreto nas redes sociais fosse o de um espião. Já aqueles perfis falsos, outros verdadeiros, talvez, mas surgidos do nada, estranhamente muito amiguinhos, bons, queridos, mas sempre incoerentes, fazem-me pensar em espionagem do tipo doméstico, mais conhecida por coscuvilhice, e também em voyeurismo e outros casos de evidente tara mais severa. Mas isto sou eu, que não percebo nada de espionagem. Uma coisa é certa, as redes sociais estão a matar tudo, e, pelos vistos, também as secretas, ou então é a “imperensa” que já está morta e ainda ninguém lhe disse. É que a mim também me acontece inventar quando não sei o que dizer, não tive foi tanta sorte com a imaginação como algumas pessoas que escrevem em jornais.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Em defesa do Colégio La Salle de Barcelos | Rodolfo Miguez Garcia

Rodolfo - 250Acabo de saber que volto a ser accionista de uma companhia de Aviação, e sócio de uns senhores que nem conheço, e a quem pagaremos chorudamente. Eu os meus vizinhos e mais uns milhões de portugueses, do interior, como eu, podemos agora ficar de nariz e olhos no céu, a ver balões e os “nossos” aviões.

Se por acaso tiver de levantar voo, espero que os ditos, não estejam de greve e, que para nós accionistas, o preço seja low low low cost. Se inadvertidamente me tivessem perguntado, diria que não tenho nenhum interesse em ser “dono” duma companhia de aviação, e preferiria que, em lugar dos 1000 e tantos milhões, dinheiro dos contribuintes, agora a pagar, não cortassem a ajuda ao La Salle de Barcelos, que há quase quarenta anos ajuda alunos carenciados de Braga e Barcelinhos.

Não é uma opinião partidária, é apenas a minha opinião.

Rodolfo Miguez Garcia | Antigo Aluno do Colégio La Salle de Abrantes

O barulho causado por um jornalismo panfletário | Luís António Santos in Rádio Renascença

clasesUm dos principais efeitos de um jornalismo debilitado é um fluxo informativo mais pobre e mais dependente da lógica ‘ele-disse-isto-e-tu-o-que-dizes?’ do que de trabalho de verificação e enquadramento autónomos. No fundo, um sector dos média frágil pouco mais consegue do que dar ‘tempo de antena’ a vozes que se confrontam, deixando de lado (por falta de meios, desânimo ou cedência a interesses que ajudam a pagar contas) leituras mais largas e plurais da realidade.

O que, por estes dias, acontece em torno de uma decisão recente do ministério da Educação é um exemplo bem claro disto mesmo. Um número significativo de órgãos de informação nacionais optaram por ‘fazer render’ até à exaustão o filão informativo do protesto organizado de algumas empresas privadas que operam no sector ao mesmo tempo que se iam esquecendo de explicar aos leitores, ouvintes ou telespectadores o que está realmente em causa.

No barulho que se criou – e que deliberadamente se ampliou quando, por exemplo, se filmou, com óbvia combinação prévia, através de um drone, uma inscrição no pátio de um escola – muito facilmente se perdeu o contacto com a verdade e, sobretudo, com a missão essencial do jornalismo.

Foi muito difícil perceber (há, ainda assim, algumas excepções que nos vão ajudando), por entre tanta informação truncada ou ostensivamente falsa e por entre tanta opinião estridentemente apegada a uma ideologia radical de desmantelamento a qualquer preço da escola pública, que as empresas eventualmente afetadas pela tão polémica medida governamental são 80, num universo de 2773 (ou seja, 3 por cento das instituições privadas de Ensino).

Foi igualmente complicado perceber que os contratos de associação são, pela sua natureza, vínculos precários de prestação de serviço – são apenas uma das cinco formas de ligação do Estado ao Ensino Privado e servem para suprir uma dificuldade de serviço público momentânea (não são, por isso, contratos com base nos quais se possam, com honestidade, desenvolver quaisquer estratégias de equilíbrio financeiro de empresas privadas).

O jornalismo precisa, naturalmente, de dar expressão pública a vozes distintas mas não pode correr o risco de ser apenas a sua correia de transmissão. Sejam elas quais forem. O jornalismo deve, sobretudo nos dias que correm, assegurar-nos uma mediação relevante, confrontando declarações políticas com factos concretos e trabalhando de modo próprio para nos ‘mostrar’ a complexidade de cada situação, afastando-se, assim, da adesão a um registo que não faz parte da nossa tradição em tempo de democracia – o de uma ação direta panfletária a favor desta ou daquela ‘causas’.

Luís António Santos in Rádio Renascença

Rádio Renascença

A “família feliz” | “produto derivado do futebol indústria” | Inês Salvador

Ines Salvador -2001) – Quando vejo pessoas de família, família chegada, família nuclear, mães e filhas, irmãos, marido e mulher, a falarem umas com as outras pelo mural do facebook, a perguntarem por onde andam, a desejarem melhoras, porque uma delas está doente, a dizerem que se “love” muito umas às outras e kisses e bonecos com corações, a prometerem que não se abandonam, que estarão sempre juntas, em selfies conjuntas a fazer bico de pato e fazem disto as novas fotos de “família”, selfies de “família” estudadas para publicar aqui numa pratica regular… A “família feliz” que não é um prato do restaurante chinês. A família feliz que sabe de quem mora lá em casa pelo facebook, que fala pelo facebook, no mural, nos comentários que todos lêem… Fico, sei lá, nem sei o que diga, perplexa, vá, pode ser.. Por favor, digam-me que não tenho motivo para ficar. Por favor, digam-me que sou eu que não acompanho a evolução dos novos tempos do que devem ser os laços familiares.

2) – Sobrancelhas tatuadas como auto-estradas, extensões de pestanas, algumas já caíram, estão a precisar de manutenção, estão com aquele aspecto de garfo desdentado que olha para nós, extensões de cabelo, madeixas feitas com lixívia, unhas de gel, a do dedo anelar é diferente das outras na cor, tem brilhos, bonecos, desenhos, evidências descaradas de silicone a assomar no decote, lip gloss escarlate, um saco vuiitton e ténis brancos. Opá, isto logo de manhã, isto a qualquer hora, mas logo de manhã… Gostos são gostos, mas este registo de produto derivado do futebol indústria é atordoante… Bom, é só para dizer que gosto mais de cinema europeu, que parecendo que não, tem tudo a ver por não ter nada a ver. Coisas da estética, do refinement.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

O Regresso à aldeia de La Salle | by Rudolfix Miguezz

Rodolfo - 200A crónica seguinte tenta repor a verdade histórica sobre a aldeia de La Salle, onde irredutíveis Lusitanos resistiram à invasão e ocupação Romana, durante muitas Luas e Sóis, e por quem sois.

Consultados papiros de linho no arquivo histórico de Barce- Linhus e as notas do arquivo musical de Valha Dó Li, é agora possível repor a história com factos tão verdadeiros, que parecem mentira. Facto indesmentível é que a aldeia não suportou o cerco eternamente, mas também não abdicou do seu desígnio. Ora leiam:

Corria o ano de LXXIV do império Romano de Facius II. A aldeia Lusitana de La Salle em Abra Antes, permanecia inexpugnável, e os seus ocupantes dedicavam-se exclusivamente às tarefas diárias de adquirir conhecimentos, habilidades e valores morais, para levar e ensinar a outros povos.

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Champagne | morangos | “quelares” | por Inês Salvador

Ines Salvador -200A cada esquina há uma loja do indiano, de indianos, que está lá sempre um grupo deles e nunca são os mesmos. Uma espécie de lojas de conveniência, muito convenientes, abertas até à meia noite a vender um pouco de tudo. De tudo mesmo, e neste sentido não falta lá nada. Os morangos são ótimos. Em todas as lojas dos indianos há imensos morangos e são sempre deliciosos. Passando pelas lojas dos indianos, entrando nas lojas dos indianos, dá-se logo pelo cheiro dos morangos. Parece que os indianos são especialistas em vender morangos. Pena que não sejam também especialistas na venda de champagne. Champagne e morangos é uma boa definição do que a vida deve ser.

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Lisboa, Capital, República, Popular | Inês Salvador

O Lisboa, Capital, República, Popular está em distribuição HOJE nas principais celebrações do 25 de Abril.
Quem o quiser também o poderá encontrar nos principais espaços culturais da cidade, no Povo Lisboa e no MUSICBOX LISBOA!

Para hoje deixamos a contribuição de Inês Salvador

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SALGUEIRO MAIA E A PUREZA INICIAL | in Notícias do Bloqueio

Captura de ecrã 2016-04-09, às 01.20.45

Uma das exigências que se colocam a um Presidente da República é saber interpretar o sentir colectivo do povo e, fazendo-o, honrar o compromisso com as razões profundas da pátria, naquilo que são os seus grandes momentos da História. Tiro o chapéu ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que já decidiu ir comemorar o 25 de Abril a Santarém. Quem o diz é O Ribatejo, actualmente o meu jornal, e não deixo de pensar de quanto o que poderia ser apenas uma mera decisão de rotina presidencial, se transforma num acontecimento relevante para a sociedade portuguesa, que marca bem a prática diferenciadora entre a magistratura de Marcelo e a do seu antecessor, o cinzento e medíocre Cavaco.
Santarém, neste caso, não é uma uma coincidência geográfica ou um simples capricho para assinalar “o dia inicial inteiro e limpo” (Sophia), é muito mais: é a afirmação de um tributo de gratidão a Salgueiro Maio, ele, que assumindo-se como anti-herói, foi afinal o rosto central de uma revolução que devolveu a liberdade a Portugal.

continuar a ler aqui: FERNANDO PAULOURO NEVES

Afectos | Inês Salvador

Ines Salvador -200É uma tristeza das maiores o embaraço português em dizer “amo”, “amo-te”. Gosto, gosto muito, adoro, mas amo, ’tá quieto. Até os emoticons aqui no facebook traduzem o coração para “adoro” e não para “amo”, como devia ser. É que amar é perfeito, mas adorar, às vezes, é um bocado parvo. Até a tuguice mais recente, supostamente mais evoluída, mantém este pudor patético de quem não aprendeu a ser feliz, de quem sente culpa na felicidade. E então disfarçar-se o amo-te com um love you, ou pior, luv u e vai de volta um luv u 2. Chega o pudor ao beijo que vai em kiss ou que se repenica com duas letras e toma lá um bj e não digas que vais daqui. E depois não querem falar de afectos, porque é piroso e tal… Também não querem porque não sabem, atrapalham-se, seca-se-lhes a boca, ruborizam, contorna-se com um luv u e está despachado. Deve-se isto a quê? Será a pesada matriz católica, a poeira dos pudores salazarengos que ainda acinzenta os dias? Falta de literatura? Tudo junto e de tudo um pouco? É que não vejo que adorar dê grande entusiasmo a alguém. Adorar diz-se sem culpa ou consequência, é também por isso que é tão fácil de dizer. Adoro-te! Também te adoro, até amanhã! Pois parece-me que isto deve ser retificado e a assertividade das palavras deve ser encontrada. Amar quando se ama e não ter medo de dar beijos. É que quem dá bjs é bjs que recebe de volta e ficam todos mal servidos. É uma espécie de pobreza, chega mesmo a ser uma miséria não conseguir dizer “Amo-te”.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Crime é crime | Francisco Louçã | in blog NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

francisco-louca - 150Francisco Louçã, respondendo a João Miguel Tavares, no “Público”, acaba por sublinhar aspectos muito importantes do que é uma certa crónica judiciária, de que os jornais e muitos jornalistas se tornaram arautos, funcionando um pouco como tribunal de conveniência para os assuntos da corrupção. No artigo de Louçã, clarifica-se esta problemática, que tem posto por aí as ideias em estado de sítio, quando, na parte final, afirma: “Portanto, se Tavares deixasse de lado os ódios pessoais que tão mal o colocam, seria um tudo nada mais sensato e discutiria política, banca e outras malfeitorias sem ter que gritar contra toda a gente de que não gosta que “é corrupto”. Ora, não há “corrupção de esquerda e corrupção de direita”, porque crime é crime. Até lhe digo mais, caro Tavares, para o aliviar da sua angústia: eu só ponho as mãos no fogo por pessoas que conheço muito bem. O que conheço do PT, ao contrário, é o Mensalão, que condeno, ou a compra de favores, que detesto, e espero que todos os responsáveis respondam perante a justiça. Mas é perante a justiça, entende, Tavares? Não é perante juiz que faz parte do partido oposto, ou perante sentença transitada em julgado nos editoriais do Globo, porque isso seria o mesmo que entregar a presidência do nosso Supremo Tribunal de Justiça a um Octávio Ribeiro. E para isso não conta comigo”.

Continuar a ler aqui: NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

O PESO DA TRISTEZA DA ÉPOCA MAIS FELIZ DO ANO | Inês Salvador

Ines - 200Há muitos anos fui passar o ano ao Porto. Amigos vestidos a rigor e um reveillon muito animado, animadíssimo. Quanto mais as horas passavam mais animada ficava a festa. Comida, bebida, música, baile! Uma festa de reveillon! Às tantas, partiram-se uns copos e um pedaço de vidro entrou-me na sandália e cravou-se no calcanhar. As dores eram lancinantes e toda a tentativa de perceber exactamente o que passava com o meu pé tornava a coisa ainda pior. O vidro teimava em entrar na carne, tornando-se insuportável e invisível no sangue que espalhava. Levaram-me para o hospital. Ir para ao hospital não é bem o que se deseja numa noite de reveillon, mas estávamos tão animados, tão quentes da festa, que tudo nos parecia muito simples. Íamos num instante tratar do meu pé e voltávamos para a festa. E lá fomos, em estilo aventura, para as urgências, a ver se vendiam pés, se tinham pés para a troca, que fosse rápido, porque tínhamos uma festa para continuar. A urgência estava deserta, parecíamos só nós a estar ali. Claro, ficámos a achar, também era reveillon na urgência. Rapidamente fomos atendidos. Como não conseguia andar, deitaram-me numa maca e levaram-me para dentro.

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O que Portugal tem a ver com o Brasil | Alexandra Lucas Coelho in Jornal “Público” 2016-03-27

alexandra lucas coelho(…) o espanhol Bartolomé de las Casas não partilhava a visão concentracionária dos jesuítas portugueses em relação aos ameríndios, tal como várias vozes se foram levantando contra a escravatura africana: mas o Brasil escravocrata, herdeiro dos privilégios, foi o último país americano a aboli-la, em 1888. (…)

1. Os portugueses não parecem ter uma boa relação com os brasileiros, disse-me uma alemã, conhecedora profissional de Portugal e Brasil. Estávamos na Alemanha, o Brasil temia uma guerra civil, foi há dez dias. A minha interlocutora não se referia à relação de portugueses com brasileiros nesta crise, e sim em geral. A minha resposta instintiva foi contrapôr, contar por exemplo como muitos portugueses cresceram com música brasileira, e isso é parte da nossa vida. Agora, de volta a casa, continuo a pensar na observação desta veterana, que nada tinha de provocadora, era só vontade de entender. Muitos portugueses, creio, teriam respondido da mesma forma instintiva, a que podemos chamar amorosa. Mas é impossível ignorar o que se tem manifestado em Portugal de equívoco face ao Brasil ao longo destes dias. Não sendo novidade, acho que nunca o tinha visto propagado assim, talvez porque nunca houve tantos meios para isso, e porque este tempo apocalíptico favorece uma excitação de circo romano. Em 2016, facilmente o clamor se torna viral, entre media e redes sociais. Justiceiros instântaneos brotam de um clique, prolongando 516 anos de equívocos. Segundo um desses equívocos, provável pai dos outros, o tema da colonização encerrou-se, chega de falar dele, é passado. Penso o contrário, que mal começámos, que é presente, e a actual crise brasileira acentua isso. Não só pelo que expõe das estruturas brasileiras, como pelo que revelou do olhar de Portugal sobre o Brasil, e sobre si mesmo.

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a tolerância alavanca-se na intolerância de intolerâncias | José Filipe da Silva

jose filipeA Europa do pós-guerra cultivou a tolerância, em todos os azimutes comportamentais, como timbre da sua elevação civilizacional. Por estranho e cacofónico que possa soar, a tolerância alavanca-se na intolerância de intolerâncias e, se assim não for, é mera submissão, abdicação de liberdade. Não podemos compactuar com fundamentalismos bárbaros e assassinos, temos que ser actuantes. Por uma questão de premência, anular numa primeira fase os efeitos e, numa segunda fase, por mais complexo e moroso, tratar das causas. O islamismo radical (eventualmente um pretenso islamismo), põe em causa o islamismo moderado que partilha uma paz ecuménica. No fervor das soluções possíveis, arrisca-se fazer pagar o justo pelo pecador. Para combater o radicalismo islâmico é preciso estar-lhe próximo, sendo que é o islamismo moderado que usufrui dessa proximidade. As ovelhas negras não podem viver camufladas pelas ovelhas brancas, gostaríamos de ver o verdadeiro islamismo na primeira linha desta luta.

José Filipe da Silva

2016-03-24

O “quando” do “colapso” europeu | Francisco Louçã in “Público”

francisco loucaHá dias discuti aqui o “se” do que Assis chamou, também no PÚBLICO, de “colapso” europeu (ele referia-se ao “colapso moral” se for aprovado esta semana o acordo com a Turquia). Agora refiro-me ao “quando” de um outro colapso, o do sistema financeiro, onde se acumulam riscos vários importantes. O risco é tão evidente que o governador do BCE não fala de outra coisa.

Esse perigo tem duas facetas: deflação e estagnação. O risco de queda sucessiva da procura, em particular do investimento (esse é o primeiro efeito da deflação), mas também dos salários e pensões e portanto do consumo, conduz à redução das perspectivas de recuperação económica. É o que se está a passar nas principais locomotivas europeias que aterraram na estagnação, depois de um longuíssimo período de recessão (ou de duas recessões seguidas) em que se manteve sempre um nível elevado de desemprego. O desespero de Draghi é por isso compreensível: ele sabe que reduzir as taxas de juro tem resultados insignificantes, que a política de dinheiro barato já não tem impacto, e pede aos governos que façam o que ele não pode fazer, que aumentem a despesa … mas os governos não podem usar políticas expansivas por causa das regras orçamentais, que entre outros são drasticamente impostas pelo próprio BCE. É o círculo vicioso perfeito.

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No desfile do Filipe Faísca | Inês Salvador

Ines - 200Scroll no feed e são fotos e mais da Manuela Moura Guedes no desfile do Filipe Faísca. Ninguém pediu, mas vou dar a minha opinião, que é para isso que me serve esta página neste órgão de comunicação social. Mais precisamente, para dizer o que me apetece, mesmo quando ninguém perguntou e, também, quando podia ficar calada.
Gosto das meias e dos sapatos. Não gosto do vestido. Não desgosto exatamente do modelo, mas a confeção não parece boa, cai mal, assenta mal, as mangas não são mangas, são mangoilas. O tecido não parece adequar-se ao modelo. É demasiado espesso e “armado”, o resultado parece um “abat-jour”. Sendo que o Faísca faz coisas giras, muitas giras, às vezes, mas desta vez não parece ter corrido tudo bem.
A Manuela Moura Guedes é o que é, nem me dou ao trabalho de mais considerações, mas as pernas estão boas. Bem boas, é o que parece nas fotos. Já os comentários à idade da Manuela Moura Guedes para andar a passar modelos não me parecem nada bons. Moralistas, bacocos, imbecis, provincianos, de pequeno mundo e da completa falta dele, fora do prazo na capacidade de progredir em valores e ideias. Do preconceito, da mediocridade, da mesquinhez, enfim, da raiz de todos os males que é a estupidez.
Muito se pode apontar à Manuela Moura Guedes, mas nunca o andar a passar modelos aos 60 anos. Nem a ela nem a mulher nenhuma, nem a homem nenhum. Pela idade nunca. Pela idade não há nada a apontar às pessoas. Cada um tem a que tem, não é uma escolha que se faz. Queremos uma longa vida, desejamos aos outros uma longa vida, se não é para viver, é para quê, afinal?
Façam o favor de não antecipar a morte às pessoas. Façam o favor de não antecipar a vossa própria morte. Vivam e deixem viver.

Inês Salvador in Facebook (copiado sem autorização, mas com a devida vénia)

A pele de Cavaco e os milagres de Marcelo | ALEXANDRA LUCAS COELHO in Público 13-03-2016

alexandra lucas coelhoPortugal, que não é um fado, continua a viver com a ilusão dos eleitos.

1. Portugal largou Cavaco como se mudasse de pele. Nenhuma transição desde o fim da ditadura gerou este alívio, quase uma libertação nacional. Marcelo tomou posse do momento, impaciente de optimismo e ecumenismo: apaziguar, unir, sorrir, curar. Descendo a minha rua, vi lágrimas no meio do povo, aos pés da Assembleia. No item empatia, foi a passagem do zero para a maioria absoluta. E aí vai Portugal para a Primavera de 2016, cheio de fé renovada.

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Racismo é crime e devemos combatê-lo todo dia… | Valdeck Almeida de Jesus

Racismo_eh_Crime_valdeck (1)“Um dia um homem branco me falou, que no Brasil não tem branco… mas quando olho em todo canto, eu vejo o branco dominando…”

Giovane Sobrevivente
Poeta e Ativista Cultural

Posso começar este texto com as afirmações “sou racista, sexista, machista, homofóbico, gordofóbico, xenófobo, intolerante religioso…”, pois vivo em um país de desigualdades e de discriminações e aprendi na infância, na adolescência e juventude, através do discurso dominante, inconscientemente, a negar a existência dessas desigualdades e discriminações. Também posso começar o mesmo texto dizendo que estou em processo de educação ao participar de debates, mesmo quando fico somente ouvindo, calado; quando vou a eventos onde se discute a desconstrução de toda e qualquer forma de discriminação e dou, apenas, pequenas contribuições.
Nesse sentido convido a todos os brancos e brancas, meus conhecidos ou não, a se irmanarem num grande debate sobre a humanidade negra, pra fazer um exame de consciência sobre o assunto, expor suas ideias e pensamentos, participar da luta contra os privilégios. É hora de cada um dos privilegiados começar a abrir corações e espaços de poder para que o debate seja posto, incluindo, certamente, recortes de raça, gênero e expressão sexual. Cito aqui grupos que poderão se sentir incluídos nesse chamado: juízes, advogados, delegados, deputados, senadores, vereadores, gestores públicos, governantes, prefeitos, presidentes, comando das polícias, jornalistas, escritores, artistas, empresários etc.
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Inês Salvador | Mercado Biológico, Vegans e Paleolíticos

ines - 150Fui ao Mercado Biológico e ai que maravilha, por coincidência era tudo biológico! Carnes, peixes, mariscos, pão, bolos, fruta, vinhos, água, chás, cafés, detergentes, produtos para a higiene íntima, maquilhagem, etcetera, etcetera. Havia leitões que tinham largado os campos e feito maratonas para chegar à loja e desmaiar nas vitrinas ainda com as bolotas na boca, mexilhões que tinham vindo a cavalo em polvos, que percorreram a ciclovia na ponta dos tentáculos para caírem de cansaço dentro da arca frigorífica, perdizes que voaram para dentro da loja e foram sentar-se nas prateleiras dos congelados já depenadas, pães com os grãos de trigo e centeio ainda descascarem-se dentro da embalagens, água a correr da nascente mascarada de garrafa de plástico, óleos de todas as espécies e origens do que é oleoso, sacos de algas, sacos de lodo, sacos de tanta e tanta coisa, e sacos de papel reciclado para levar tudo.

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A crise da social-democracia | MANUEL LOFF in “Público”

manuel lof - 150A tão discutida crise da social-democracia (SD) – não, não estou a falar da que Passos Coelho redescobriu há dias… – observa-se hoje, a partir de Portugal, com uma experiência de governo tão original quanto a atual, de forma substancialmente diferente da visão desoladora com que ela emerge à escala internacional. Depois da sua viragem ideológica dos anos 80 no sentido de um social-liberalismo (liberal na economia e nos costumes, social na preservação de políticas de redistribuição desde que não ponham em causa a recomposição do capitalismo internacional em nome da competitividade), a SD perdeu uma grande parte da sua capacidade de representação política, sobretudo entre os que dependem de um salário e os setores sociais que, avessos a mudanças estruturais do capitalismo, não deixam de acreditar na função reguladora das políticas sociais.

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A biblioteca de Eco e os cinco minutos de jazz | Francisco Louçã in Blog “Tudo Menos Economia”

francisco louca02 - 200As evocações homenegeatórias a Umberto Eco destacaram o filósofo que devolveu a curiosidade à filosofia, o escritor que se divertiu com os seus romances (havia nele um Salgari que nunca escondeu e que norteou a sua busca das terras incógnitas) e o homem cívico que compreendeu que a força de Berlusconi era só a nossa fraqueza, nossa, dos cidadãos desprotegidos perante o tumulto comunicacional e a perda de identidades que a pós-moderna cosmologia impõe. A vertigem do efémero era o ódio de Eco, como se pode compreendê-lo. Eco, como, entre nós, Eduardo Lourenço ou João Martins Pereira, ou Augusto Abelaira, ou Urbano Tavares Rodrigues, era o Montaigne de um tempo novo que ainda brande a modernidade contra o culto do flash, da cosmética e do pronto-a-vestir que dá conforto às transumâncias ideológicas.

Por isso mesmo, a biblioteca era a sua vida. Mas não qualquer biblioteca. Sem labirintos, como a do Nome da Rosa, embora talvez com esconderijos, porque os há sempre, uma biblioteca pessoal não deve ter mais de trinta mil livros, dizia Eco para si mesmo. É muito livro, não sei se ele os pensava poder ler todos, mais os que lá não estão e passam por nós. Na verdade, ler esses livros não é a medida de um bibliotecário, é simplesmente viver com eles, com o gosto da novidade, com o espírito do coleccionador, com o fascínio das ideias escondidas: quando lemos um bom livro nunca terminamos de o ler.

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O RIDÍCULO MATA | José Goulão in “Mundo Cão”

jose goulaoVinte e sete chefes de governo de países da União Europeia deram a David Cameron o que ele queria. Tanto os que se dizem federalistas, como os que não sabem o que são, como os que só pensam em austeridade aceitaram levantar entraves à famosa “livre circulação” de pessoas, outorgaram o direito de veto ao santuário neoliberal da City, permitiram a institucionalização de um apartheid social para os imigrantes e aceitaram que o Reino Unido esteja isento dessa gloriosa máxima da farsa continental que obriga os Estados membros a “trabalhar por uma Europa cada vez mais estreita”.

“Vivam e deixem-me viver”, terá mendigado o primeiro-ministro britânico aos seus confrades, naquela que para o fervoroso diário federalista El País foi a cimeira “mais ignominiosa” da história da União Europeia. Do “efervescente” italiano Matteo Renzi, a Hollande, Merkel e cada um dos 27, ninguém escapa à furibunda pena do articulista, a imagem do estado de desespero em que caíram os fundamentalistas da União Europeia tal como ela é, pressentindo a degradação acelerada que tem exame decisivo no próximo 23 de Junho, a data do referendo no Reino Unido.

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UMBERTO ECO pertence ao mundo inteiro | Cristina Carvalho

umberto eco 02 - 200Ainda há pouco mais de um mês comprei, comprei o “O Cemitério de Praga”. Aquelas primeiras páginas, a descrição de uma loja, uma espécie de antiquário propriedade de um velho judeu, a própria figura do homem, só aquelas duas páginas deixaram-me sem respiração. Li-as várias vezes, deslumbrada. O poder descritivo, o desenho do sentido de humor a cada palavra escrita, a intensidade da própria intenção, o humanismo, a universalidade, deixa-me prostrada e cansada, mas alegremente cansada e incansável, sôfrega e sedenta de mais palavras de Eco.
Nem sempre usando as mais fáceis e imediatas expressões ou as mais directas palavras ou as mais transparentes intenções, Umberto Eco conseguiu, apesar disso, apesar dessa dificuldade transpor o que é mais importante de tudo na literatura: ultrapassar e fazer respirar e fazer compreender não as suas próprias idiossincrasias mas as questões essenciais dos homens, as questões primevas da humanidade. Como está demonstrado à exaustão, só palavras não chegam. Aparentemente, talvez mesmo prolixo e com temas que talvez não interessassem ao vasto e indiferente público, a verdade é que Umberto Eco, com o seu livro “O Nome da Rosa” (publicado em 1980) chegou a todo o planeta e se houvesse mais planetas com leitores também lá chegaria. Era a História em movimento, a História cruzada num misto de romance policial, deslumbrante no seu subtil sentido de humor com milhões e milhões de exemplares lidos por ainda mais milhões de seres.

UMBERTO ECO foi escritor, filósofo, semiólogo, linguista.
Nasceu em Itália em 1932.

Morreu ontem, 19 de Fevereiro de 2016 aos 84 anos.

Cristina Carvalho

Fotografia via Flickr.

As más ondas gravitacionais de Portugal | Ferreira Fernandes in “Diário de Notícias”

ferreira-fernandesTudo isto é estranho. Mas Schäuble ter tantos fãs em Portugal ainda é mais.

O homem do dedo em riste voltou a atacar. “Estamos atentos aos mercados financeiros e acho que Portugal não pode continuar a perturbar os mercados”, disse ontem Wolfgang Schäuble. Se o problema era o nervosismo dos mercados, o ministro alemão deve ter acalmado, deve. Ontem, o italiano La Repubblica: “Profundo Vermelho na Bolsa”; o espanhol El Mundo: “Os Mercados Duvidam da Solvência do Deutsche Bank”; o francês Le Monde: “Ações da Societé Général Mergulham”… Meu Deus, Costa, põe mão no Centeno, que a Europa não aguenta! O papel de Portugal nas finanças mundiais é tremendo. Portugal não é a minhoquice de Espanha (onde as perdas do IBEX, este ano, são só cem mil milhões de euros…), não, nós somos capazes de ondas gravitacionais negativas como só Schäuble e Einstein são capazes de prever, a cem anos ou já para a próxima crise. A Espanha só merece um raspanete: “O Eurogrupo descarta dar a Espanha a flexibilidade no défice que pede Rajoy” (ontem, El País). Ela é minorca economicamente e tem solidez política (tirando, claro, não ter governo e, a tê-lo, será com o Podemos, solução que pode estilhaçar o país, mas só na Catalunha…). Essa não assusta Schäuble. O problema, mesmo, é Portugal. Não chega o Centeno não pedir flexibilidade, prometer cumprir o défice e dizer ao Eurogrupo que tem medidas para o caso de “vir a ser necessário”… Tudo isto é estranho. Mas Schäuble ter tantos fãs em Portugal ainda é mais.

Ver original aqui:

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/as-mas-ondas-gravitacionais-de-portugal-5025950.html

Social democracia sempre | por Francisco Louçã | in Público (Tudo Menos Economia)

francisco louca02 - 200direita portuguesa é um fado triste, para mais cantado com voz vinda do além (ou de fora).

Passos Coelho chama-lhe “social-democracia sempre” na sua esforçada recandidatura à continuidade em que promete renovação. Ora, o nome da candidatura, esta “social democracia sempre”, é uma floresta de enganos. O PSD, está bom de ver, não é um partido social-democrata, é de há muito um partido liberal pragmático que dá muito mais importância à venda da EDP ao capital internacional, mesmo que seja ao Partido Comunista Chinês, e ao corte das pensões, que festeja, do que a qualquer política distributiva, que abomina. Social-democracia não existe em Portugal, talvez excepto num partido meritório que vale 0,7%.

Chamar à aventura de austeridade e de liberalização, que a direita protagonizou, uma “social-democracia sempre” é por isso uma graça. Em homenagem do vício à virtude, Passos Coelho devia chamar-lhe somente pelas iniciais, SDS, pois com o nome PàF a artimanha resultou e é bem melhor que ninguém se lembre de perguntar pela tal da social-democracia.

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Ó minha pátria amada, onde nós chegámos | José Pacheco Pereira | in Revista Sábado 2016-02-05

jpachecopereira1. 
Isto de escrever numa situação volátil é sempre complicado. Mas embora possa haver uma ou outra novidade, no fundo, “onde nós chegámos”, já estamos lá. No fundo, na fossa, num buraco, num sítio que o pudor impede de classificar com as palavras duras que se exige. Onde nós chegámos… à situação de uma nação que pouco mais é do que uma província longínqua de um centro europeu constituído por um conjunto de países, a começar pela Alemanha, mas não só, que entende que o seu interesse nacional e a sua “posição na Europa” implica colocar na ordem os países cujos governos e cujos povos pareçam recalcitrantes face ao seu poder. É por isso que o que aconteceu na Grécia devia ter sido um forte sobressalto, mas uma mistura de cobardia e de nonchalance ajudou a aceitar-se aquilo que é uma versão moderna da política de canhoneira, ou de uma Europa moldada aos princípios soviéticos da “soberania limitada”.

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Eugénio Lisboa – escrita lúcida, límpida e luminosa | por Onésimo Teotónio de Almeida in As Artes entre as Letras

acta est fabulaEntrei no vol. V de Acta Esta Fabula, de Eugénio Lisboa (Memórias – V – Regresso a Portugal: 1995-2015, Opera Omnia, 2015) com ânsias de o devorar num ápice, embalado que vinha pelos três anteriores (não errei nas contas; o 2.º volume ainda não foi publicado). Para um apreciador de memórias e diários, esperava-me ali de novo uma festa. Além do mais, este vinha anunciado como misturando os dois géneros. Controlei a vontade de uma leitura a eito, sem interrupções, optando por fazê-la a conta-gotas, antes de adormecer. Em regra, tive mesmo que decidir fechar o livro e enfronhar-me entre len- çóis porque ficar horas seguidas acordado a virar páginas era o que verdadeiramente apetecia. Isto bastará para que o leitor conclua do prazer que foi ter por companhia as memórias de Eugé- nio Lisboa nuns quantos serões de inverno, refastelando-me regaladamente com uma escrita lúcida, límpida e luminosa, ouvindo a voz do autor relatar-nos dias cheios, variados, preenchidos frequentemente com prolongadas e proveitosas leituras nos intervalos de agitadas ocupa- ções por esse mundo. Nos já quatro volumes publicados, a viagem pelas décadas da vida de Eugénio, desde os seus impenitentemente lembrados com saudade de uma infância e adolescência na antiga Louren- ço Marques, somos expostos a uma voz que recua no tempo a limpar o pó da recordação e a recuperar do arquivo das suas memórias o que de mais salvável contêm. Eugénio conseguiu sempre recriar ambientes nítidos, retratando cenas e personagens da sua vida com uma vitalidade e acutilância só possíveis graças a uma memória espantosamente fresca. A maior novidade neste V volume é a abertura de janelas com vista para o seu apetitoso diário inédito. Sugerindo levemente no volume IV, aqui o espaço concedido ao diário é significativamente alargado. Se na escrita memorialista Eugénio Lisboa não deixa nunca a distância derrapar em sentimentalismos ou nostalgias românticas, na escrita diarística, traçada sobre o acontecimento, ele revela o seu agudo, fulminante olhar sobre o quotidiano. Na verdade, a prosa de Eugénio é vigorosa porque enxuta, limpa de toda a adiposidade pegajosa. Ela salta em cima dos dias acompanhando penetrantes relances sobre o quotidiano, oferecendo-lhe uma expressividade que cativa o leitor e o faz testemunha de cada acontecimento.

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Derrota ideológica e vitória política | José Pacheco Pereira in “Público” de 16-01-2016

jpachecopereiraUma coisa a esquerda deve compreender com toda a clareza: a direita venceu a batalha ideológica nos últimos anos. Mais: essa vitória tem profundas repercussões nos anos futuros e molda a opinião pública. É uma vitória muito perigosa e pegajosa, porque se coloca no terreno daquilo que os sociólogos chamam “background assumptions”, molda o nosso pensamento sem trazer assinatura, parece a “realidade” quando é uma construção ideológica. No entanto, convém não confundir duas coisas distintas, a ideologia e política. E a direita perdeu a batalha política, o que ajuda a ocultar a sua vitória ideológica. O problema é que a solidez da vitória ideológica é maior do que a solidez da vitória política.

Para começar, obrigou-me a contragosto a ter que retomar uma linguagem esquerda-direita, que de há muito penso estar ultrapassada e ter mais equívocos do que vantagens. Sim, já sei, conheço a frase de Alain sobre que quem pensa que não é de esquerda nem de direita é de direita, mas hoje a frase oculta mais do que revela.

Considero este retorno a um quadro de dualidades, que só pode ser usado numa perspectiva histórica ou sentimental, um dos estragos mais recentes sobre possibilidade de se sair de uma política do passado. Pode servir para dar identidade, mas explica cada vez menos o que se passa. Um exemplo, é a crítica ao consumismo oriunda da esquerda que preparou o terreno e encaixou perfeitamente na crítica da direita ao “viver acima das suas posses”, em ambos os casos centrando-se na culpabilização dos consumos típicos da classe média. Mais do que de esquerda e direita, estas posições são socialmente reaccionárias.

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Lulu Santos Transformou o Rock Groselha do Rei Roberto Carlos em Rock Raul | Silas Correa Leite

Silas Correa Leite 250Crítica
Lulu Santos Transformou o Rock Groselha do Rei Roberto Carlos em Rock Raul
(Cedê LULU CANTA & TOCA ROBERTO E ERASMO)

-Crescemos, parimos, regurgitamos, sonhamos amor & flor,  e amamos os Beatles e Tonico e Tinoco, ouvindo a Jovem Guarda do Rei Roberto, que gritava no auge que tudo mais fosse pro inferno, mora? Erasmo Carlos, lado a lado mas ele mesmo muito roqueiro de origem e mentalidade, era o parceiro-rock que gritava contra a banda dos contentes. O rei era o rei. Mas jovem, guarda, né não? Daquilo para tropicália, festival universitário, bossa nova, foi um pulo. Para não dizer que não falei de flores, ficamos com um rei na cabeça e o rei com o rei na barriga.  Os deuses quando querem detonar os reis, enlouquece-os, desde Shakespeare.
-Pois não é que o rei proibiu a biografia não autorizada, virou padrão global (o que não significa nada), cantou bregas e idolatrias, cristianizou-se, e, desde As Baleias não se viu um reinado tão coxinha-daslu e uma mesmice tão brega que perdeu a graça. Mas Roberto é Roberto.
-Elis cantou Roberto de arrepiar. Caetano abrilhantou Roberto, na veia. Agora, Lulu Santos botou as letras que o Roberto fez pra mim, e as músicas suaves, em arroubos de rock mesmo, e, falando sério, ficou bonito, tudo muito mais Jovem Guarda a la Rock Raul Seixas e Rita Lee do que Roberto Carlos rock groselha. Claro, aqui e ali Lulu botou um e outro para cantar, quando o cedê é dele e era ele quem queríamos ouvir com sua guitarra empolgante e forte e brilhante. Tampem podia tirar as tais vinhetas, e mesmo, a musica bobinha É preciso Saber Viver que já deu o que tinha de dar de falso pop, mas, no frigir dos ovos, Lulu acetou na maioria das escolhas entre tantas (não é fácil), embora devesse também ter gravado As Baleias,  Quando as Crianças Saíssem de Férias, Maria Carnaval e Cinzas, e, ainda, Quero Que Vá tudo pro Inferno, ou o rei refugou essa, de novo?

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Portugal é um país de escritores ricos | Alexandra Lucas Coelho in “Público”

alexandra lucas coelho

1. Há quase 20 anos um poema de Nuno Moura dizia Portugal é um país de poetas ricos. Hoje podemos dizer mais, Portugal é um país de escritores ricos. Ao contrário dos alemães, que não têm onde cair mortos e são pagos sempre que vão fazer uma leitura para poderem continuar a escrever, ou dos pelintras dos ingleses, que em 2015 bateram o recorde de candidaturas a subsídios de escrita, os portugueses são tão ricos que não precisam de dinheiro para pesquisar um livro, nem para viver enquanto o escrevem. Entretanto, dão o seu tempo a câmaras, bibliotecas, festivais, centros e demais instituições cada vez mais envolvidas na promoção da literatura. Em suma, se os escritores portugueses já não precisavam de dinheiro, em 2016 também já não precisam de tempo. Superaram a fase da criação, estão em pleno criacionismo: o livro é um PDF de Deus, vem já revisto e tudo.

2. Eis a ficção que tende a enredar estes abastados imortais que cada vez mais não escrevem a futura literatura portuguesa. Há dois motivos para falar deles agora: primeiro, Portugal voltou a ter Ministério da Cultura, e se o actual Governo fez disso bandeira há que cobrá-la na prática, ver como lidará com a falta de meios e equipas exauridas; segundo, nunca em Portugal tantas câmaras, bibliotecas e instituições com orçamentos se envolveram tanto na promoção da literatura. O Ministério da Cultura pode, por exemplo, retomar de alguma forma as bolsas de criação literária. Câmaras, bibliotecas e instituições com orçamento podem apoiar a criação. E esses apoios devem coexistir com meios novos na Internet, porque não asseguram o mesmo, como explicarei adiante.

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Lusofobia | Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias

Viriato-Soromenho-MarquesLula da Silva escolheu a Espanha para reativar um dos tiques culturais de alguma elite brasileira contra o colonizador português. Culpou Portugal pelo facto de a primeira universidade brasileira ter sido fundada apenas em 1922. Para além de ignorar as iniciativas lusas em matéria de ensino superior, em 1792, no Rio de Janeiro (Ciências Militares), e em 1808, na Bahia (Medicina), Lula fez cair para cima da herança lusa um século de independência brasileira (1822-1922). Como Pedro Calafate tem escrito, a procura de um paradigma não português para inspiração cultural alternativa atravessa todo o século XIX do país irmão. Não só o positivismo francês, imortalizado na bandeira nacional adotada em 1889, como um germanismo mítico, com Tobias Barreto, ou um indigenismo romântico em Gonçalves de Magalhães e Oswald de Andrade (tupi or not to be…). Contudo, Lula ignora os grandes vultos contemporâneos da Academia brasileira. Não só o luso tropicalismo de Gilberto Freyre, como os trabalhos monumentais de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Darcy Ribeiro. Lula ignora que em 1815 o Brasil ganhou o estatuto de reino. E que a história de Pedro I, imperador do Brasil, que foi também Pedro IV de Portugal, é uma singularidade irrepetível na história universal. Ignora que a Universidade de Coimbra (depois do fecho da de Évora) foi a única para todo um império pobre. Contudo, foi esse espírito coimbrão, que unia a elite brasileira, coeva de José Bonifácio, aliado à sábia estrutura administrativa portuguesa, que garantiu – em contraste com a total fragmentação da América Espanhola – a unidade do Brasil. Os pobres portugueses asseguraram a integridade desse chão que fará do Brasil uma das grandes potências mundiais do século XXI. Basta que o seu grande povo escolha líderes capazes de cultivar a história, em vez de a tratarem com os pés.

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/viriato-soromenho-marques/interior/lusofobia-4957487.html

A minha amiga é negra | Ferreira Fernandes | in DN 28-08-2015

ferreira-fernandesA minha amiga é negra. Ainda há pouco eu não me lembraria de o dizer. Nesta semana, ela obrigou-me. Claro, não foi do género “olha, escreve lá no teu jornal que sou negra”. Foi assim, ela estava a fazer uma coisa solene e ficou de cara levantada – dizia uma jura pública – olhando-nos, olhos nos olhos, a mim e a vocês também. Eu disse-me: está bem, Francisca, eu digo.

Ao João, seu irmão, ele morreu há dois anos, eu até já chamei “preto”. Ele, o mais cosmopolita dos meus amigos, apareceu-me com uns sapatos a que os americanos chamam spectators. E chamam bem, porque, de couro negro ou castanho e pala branca, os spectators atraem a atenção e só ficam bem a quem os ousa usar. Invejo-os, porque me sei disléxico de alfaiataria. Foi o que talvez me tenha levado a dizer ao João: “Pareces um preto de Nova Orleães…” Ele gostou, olhou para os sapatos e pôs-me a mão no ombro: “São bonitos, não são?” Acho que se permitiu a superioridade, a mão no ombro, porque se aproveitou da minha nítida desvantagem no vestir. Geralmente os irmãos Van Dunem tratam-me com menos sobranceria. Nem tanto por mim, suspeito, mas porque eu fui “o amigo do Zé”, o mais velho dos irmãos.

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Estabelecimento Prisional de Caxias – ala dos homens | Cristina Carvalho

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O que é que eu posso dizer sobre uma experiência tão marcante na vida de uma pessoa? Uma experiência que se alonga por aqueles corredores absolutamente inóspitos, despidos e secos de vida, sem tonalidades de nenhuma espécie, lisos e frios, compridos, sem fim.
O nosso encontro foi na Biblioteca. Havias umas mesas dispostas em rectângulo e à volta, sentados, os homens que me aguardavam. Cumprimentámo-nos. Sentei-me num dos topos da mesa. Fiquei, pois, de frente para todos. Foi assim que o meu olhar os encontrou, de frente, olhos nos olhos, sem sombra e sem barreiras de qualquer espécie. Naquele momento, eu senti-os totalmente, um por um. E percebi que, à minha frente, estavam sentados vários homens a cumprir penas umas mais longas que outras, uns preventivos a aguardar julgamento e outros já condenados a vários anos, muitos anos com muitos dias de muitos sóis a brilhar, com muitas luas de luar, com filhos a crescer, a idade sempre a avançar. Encontrei-me com homens uns novos, outros muito mais velhos punidos por variados cometimentos e incumprimentos sociais. Todos sentados ouvindo o Concerto nº 1 para piano e orquestra, 1º andamento, de Frédéric Chopin; todos aguardando sinal para começarmos a conversar sobre o livro. E conversámos muito. Muitos quiseram saber sobre Fryc, quem foi realmente, quem amou, que vida teve, como foi o seu génio, o que é o génio, o que é uma vida, como foi viver no século XIX, o que foi o século XIX, como foi viajar, como foi morrer, como é viver, ontem, hoje, como será, como será, como será?
Todas as perguntas rodaram sempre e só sobre o livro e como foi escrevê-lo, quanto tempo levou a escrever, o que é escrever, o que é ler, como, como, como?
Acabou a sessão de hora e meia. Um dos homens, numa ponta da mesa fez-me uma pergunta pessoal, a única pergunta pessoal: “O que é que os seus olhos vêem?”
Foi esta a pergunta que eu não soube responder.
Depois, despedimo-nos apertando as nossas mãos. Os guardas vieram. Abriram-me todas as portas com as suas grandes e preciosas chaves.
Eu saí para a estrada com o vento muito frio a varrer a folha prateada da água do mar que se vê ao longe. Mas não muito longe.
Cristina Carvalho
Nota: o convite foi-me feito pela tradutora e escritora TÂNIA GANHO

O riso, o sexo e os palavrões | HUGO GONÇALVES | DN 22-08-2015

Hugo GoncalvesPorque estou a traduzir o romance American Psycho, de Bret Easton Ellis, voltei a pensar em como a língua inglesa tem muito mais palavras do que a nossa para o verbo sorrir – to smile, to grin, to smirk, to simper – e para o verbo rir ou o ato de dar gargalhadas – to laugh, to chukle, to giggle, guffaw, to crack up. Em inglês, estes signos captam diferentes características e gradações. Um sorriso gozão, pretensioso: to smirk. Dar uns risinhos: to giggle. Uma gargalhada forte: guffaw.

De que forma, em Portugal, séculos de Inquisição, de pudor católico, da ideia de transgressão e castigo, e quase meio século de ditadura salazarista – uma polícia política, os bufos, o medo de falar, o “respeitinho é muito bonito” -, podem ter limitado a nossa habilidade de expressar felicidade e humor? Talvez se William Baskerville, protagonista de O Nome da Rosa, usasse o seu engenho neste mistério não se afastasse muito de um dos temas do romance de Umberto Eco: o riso como uma forma subversiva contra o poder. Ou, no nosso caso, a falta dele. Toda a gente faz comédia com Hitler, poucas vezes vi Salazar como protagonista de um sketch ou uma anedota.

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5 juillet 1845. Un commissaire dresse un constat d’adultère à Léonie Biard surpris avec Victor Hugo

La jeune femme, épouse d’un sculpteur célèbre, est jetée en prison, tandis que l’écrivain, pair de France rentre chez lui
FRÉDÉRIC LEWINO ET GWENDOLINE DOS SANTOS

Hugo

L’aube du 5 juillet 1845 ouvre un oeil sur un Paris alangui. Léonie Biard, 25 ans, et Victor Hugo, 43 ans, dorment tendrement enlacés dans la garçonnière que le tout nouveau pair de France vient de louer passage Saint-Roch. Pauvre poète, il lui faut bien se consoler : son épouse, Adèle, se refuse à lui depuis longtemps, et sa maîtresse, Juliette, lui est devenue aussi banale que Valérie Trierweiler à un certain président…. La nuit a été épuisante même pour un Victor à la quarantaine ardente.
Cette nuit encore, il a enchaîné de multiples orgasmes. Bref, Victor et Léonie dorment paisiblement quand ils sont réveillés en sursaut par une avalanche de coups contre la porte. Ils sont affolés. Est-ce juge Claire Thépaut qui débarque pour les mettre en examen ? “Au nom du roi, ouvrez la porte !” entendent-ils hurler. Ils se regardent de nouveau, cette fois consternés, car ils comprennent que celui qui frappe comme un sourd n’est autre que le commissaire du quartier. Ils ne peuvent qu’ouvrir la porte pour le faire entrer, accompagné du mari cocu, le peintre Auguste Biard. Ce dernier veut punir sa jeune épouse d’avoir entamé une procédure de séparation.
Victor Hugo a beau se faire connaître, répéter qu’il vient d’être nommé pair de France, le commissaire poursuit la procédure. “Vous seriez un ex-président de la République, ce serait le même tarif,” précise ce dernier… En fait, à l’époque, tromper son époux constitue un crime ! Heureuse époque… Léonie Biard est aussitôt arrêtée et emmenée à la prison Saint-Lazare, réservée “aux prostituées et aux femmes coupables d’adultère”. Victor Hugo ne peut lui éviter cette infamie. Quant à lui, son statut de pair de France le met à l’abri de toute poursuite. C’est déjà ça. “Ses lèvres se collent sur ma bouche”

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Da experiência nas esplanadas | Inês Salvador in Facebook

InesAcredito pouco na qualidade do silêncio. Quem não diz nada é porque não tem nada para dizer. É ver o desembaraço a falar dos sapatos da zara e das almofadas do ikea, do Benfica e da cor do carro. Sobre política, religião e sexo não se fala, porque disso não se fala. Está tudo dito. Nos Estados Unidos é tudo bom, a religião islâmica é toda má e só não vimos de Paris no bico de uma cegonha, porque as pessoas agora já fazem o que querem. Mas das pessoas também não se fala, não vá isso descambar para a política, religião ou sexo. Dos outros é que já se fala com o mesmo desembaraço com que se fala das almofadas do ikea, “essa gaja anda desaparecida, deve andar metida com algum”. E nisto continuam todos de acordo. Sobre o que suscite opinião diversa é que não se fala. Se não estiverem todos de acordo estraga-se a tarde. Este país, Portugal, é uma vergonha, só neste país é que isto acontece. “Isto” é uma abstração que serve para tudo neste Portugal que é de outros portugueses, nunca dos portugueses intervenientes na conversa. Ser português parece ter a fatalidade de uma visita de estudo da lição que não se estuda. Uma espécie de turismo conformado em que os outros é que sabem. Os outros, os políticos, que eles é que quiseram ir para lá. Os caracóis é que não estão maus. E a gaja que não atende o telefone, deve andar mesmo metida com algum. Chegam os cafés que se tomam em separado. Mulheres para um lado, homens para o outro, sentados à mesma mesa, porque a conversa tem género e fora do género não há nada para dizer.

Caiu o homem da cadeira, mas pouco.

Pompas Fúnebres, de Eduardo Pitta

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«Este volume colige uma parte significativa das crónicas que publiquei entre 2008 e 2013, na revista LER, a convite de Francisco José Viegas e João Pombeiro. Seleccionei as que me parecem poder resistir ao crivo do tempo. Eventuais rasuras ou alterações de pormenor não beliscam o espírito original. A que dá o título ao conjunto, Pompas Fúnebres, pode ser lida como um conto (nessa ambiguidade reside a sedução do género). O espectro de temas versados é muito amplo.» Eduardo Pitta

 

A mansa revolta da dor | José António Barreiros in Blog “A Revolta das Palavras”

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Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta não é mansa e gera o mal que se faz sofrer a partir do mal que se sofreu. E há sempre as vítimas sem razão.
Mas há um momento em que a violência brutal, que nos chega como quotidiana, já está para além da capacidade de a suportar.

Quando era miúdo não conseguia ver filmes que se diziam para a minha idade porque havia um nó na garganta, de dor, que me sufocava e as lágrimas contidas a tal ponto que os olhos pareciam implodir. Era uma forma, ouvia dizer, de, por esse meio, nos educarem a sensibilidade, gerando na nossa afectividade em formação, os bons sentimentos. E havia o cão que, morrendo, deixava o menino sozinho e o rapaz que, porque órfão, nunca seria menino. E a vida era um Natal gélido e faminto vivido do lado de cá da vidraça.

E depois era a mágoa dos amores quando ainda eram apenas ternuras inconsequentes, o medo dos adultos e da sua violência castigadora, os remorsos pelo tanto que se poderia ter feito ou por outra forma. E o pecado. E o dia em que as coisas de que gostávamos e as pessoas que amávamos começavam a morrer.
Hoje já não há muito disso que aleijou a alma. Torná-mo-nos adultos. Atentos ao mundo, há, porém, o que nos chega pelas notícias: a selvajaria das guerras entre povos e o mesmo povo, a cruel violência no seio da própria família. E, na dança macabra dos fins de festa, há a estupidez acéfala dos embriagados pela futilidade, a indiferença que nasce pela banalização do horror. Que não magoa menos.

Confesso que sinto de novo a surgir essa até agora longínqua incapacidade de suportar.
Quando, porque nascido em Malanje, me chegaram, tinha eu doze anos, os primeiros sinais da violência feroz que se tornou em guerra, vinda da revolta indígena na Baixa de Cassanje, mais a violência feroz da retaliação e a ferocidade angustiante do medo, quando, tudo tornado pavor e insónia, a ingenuidade infantil quebrou estilhaçada em cacos, senti que se me franqueara do mundo o horrível e o feio. E tentei encontrar então uma razão que ao menos me desse a paz de uma explicação.

Hoje, como insecto estonteado ante a luz, dói-me só de ouvir e dói também constatar que evito saber. Não nasce aí o regresso à inocência, sim o enfrentar o espelho acusador da má consciência.
É que foi este, afinal, o mundo que criámos e deixámos que surgisse.
Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta é connosco mesmo por causa daquilo em que nos tornámos.

José António Barreiros

http://revoltadaspalavras.blogspot.pt/2014/08/a-mansa-revolta-da-dor.html … (FONTE)

Foto: Hugo Simberg | The Wounded Angel | Google Art Project

O povo da televisão | ANTÓNIO GUERREIRO in Jornal Público

O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos.

O espírito popular desapareceu”, escreveu Pasolini num dos seus textos de crítica e resistência ao presente. Quarenta anos depois, esta proposição tornou-se um axioma, mas de onde se ausentou o sentido que tinha para Pasolini: o de uma catástrofe. Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco. O povo construído pela televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. E os seus criminosos construtores têm nomes publicamente conhecidos e sucesso alargado: são as Júlias, as Luísas, os Joões, os Manueis e os seus directores de programas, produtores, chefes, empresários, até ao topo da hierarquia. Há o “povo” que vem aos estúdios dos programas da televisão (quase sempre um “povo” suburbano que já conhece bem os códigos da televisão e sabe imitá-los); e há o povo que a televisão visita no seuhabitat natural, geralmente os recantos profundos do país onde se vai em busca de arquétipos. Um e outro são descaradas mentiras, falsas construções que deformam até à degradação. Qualquer que seja o sentido da palavra, tenha ela um sentido sociológico e político ou aponte na direcção utópica da criação artística para a qual há sempre “um povo que falta”, existe mais “povo” em qualquer filme de Pedro Costa (um povo que vem, isto é, venturo, como o nome de Ventura) do que em todos os programas de televisão. O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos. Quantas vezes não assistimos já às câmaras a fazerem um zoom sobre as mãos encarquilhadas, ou qualquer outra parte do corpo, do indivíduo do “povo” que se queixa de uma qualquer decisão — ou da ausência dela — dos governantes? Nesse momento, a pessoa é espoliada do seu estatuto político e ganha uma espécie de qualidade étnica. Já alguém deu por a televisão fazer um grande plano das mãos de um ministro? Já alguém viu, na televisão, as mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a não ser como instrumentos de gesticulação expressivo-didáctica? O povo da televisão não é representado como sujeito minoritário do populus, do corpo de todos os cidadãos. É visto, antes, como espécie castiça de um parque natural que fica longe, muito longe, da Comporta. Deste modo, este povo que a televisão reconstrói e deforma à medida das suas exigências tem alguns pontos de coincidência com o povo do populismo. Mas há uma diferença fundamental: o populismo dirige-se à classe geralmente excluída da política e que, por isso, não tem privilégios de sujeito político constitutivo, reclamando que essa classe é o único poder legítimo, é uma parte do populus, do povo como categoria política, detentor da soberania, que deve funcionar como a totalidade da comunidade. A televisão, pelo contrário, quer tudo muito bem arrumado nos seus lugares e que não se quebre a harmonia estabelecida no parque natural do povo.

António Guerreiro

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Construtores do caos | VIRIATO SOROMENHO MARQUES in “Diário de Notícias”

O caso GES-BES tem suscitado uma pergunta simples: como foi possível que gravíssimas práticas fraudulentas tivessem escapado durante anos à vigilância das autoridades de regulação, incluindo à vigilância da troika sobre o setor bancário? A resposta é tão dura quanto simples: nos últimos 30 anos muitos governos (de direita e de esquerda) foram responsáveis pela criação dos alçapões e das opacidades que transformaram o sistema financeiro europeu (e mundial) num campo minado onde aventureiros põem em perigo a segurança de milhões de pessoas. Em 1933, em plena Grande Depressão, o Congresso dos EUA produziu uma lei (Glass-Steagall Act) que restaurou a confiança no sistema financeiro: separou e protegeu os bancos comerciais, face aos bancos de investimento. Por outras palavras: os bancos que recebiam as poupanças dos depositantes e que emprestavam às empresas na economia real não podiam fazer operações especulativas com produtos financeiros. Durante décadas essa higiénica distância permitiu prosperidade económica, a par de visibilidade e eficácia no trabalho dos reguladores. Contudo, o lóbi financista, embalado pelo mantra do neoliberalismo, não descansou enquanto não meteu no bolso os governos e os parlamentos necessários para misturar tudo de novo. Em 1999, o Congresso americano revogou a lei de 1933, regressando à promiscuidade especulativa. Por todo o lado, incluindo a UE, as leis “liberalizaram-se”, no sentido de criar obscuridade, onde antes havia transparência. Criaram-se condições para mascarar a exposição da poupança das famílias, no labirinto arriscado das ações, das obrigações e de uma miríade de derivados toxicamente imaginativos. Os políticos que se queixam dos banqueiros deveriam ter vergonha. O caos habita nas leis que eles próprios assinaram. Seria interessante saber como e porquê…

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Tudo num fósforo | Rui Tavares in jornal Público

Rui TavaresNo início do século passado havia um homem chamado Ivar Kreuger, sueco de nacionalidade, que se especializou inicialmente em produzir fósforos.

Na raiz da sua fortuna havia uma inovação: os fósforos de segurança vermelhos, que conhecemos hoje, superiores aos anteriores de fósforo amarelo que podiam acender-se sozinhos acidentalmente. A procura e utilização de fósforos era naqueles tempos praticamente fixa, o que tornava aquele mercado muito apetecível como monopólio.

A outra parte da história é que, após a I Guerra Mundial, havia países para reconstruir e alguns que eram independentes pela primeira vez. Ivar Kreuger viu aí uma oportunidade. Era fácil para ele fazer um empréstimo soberano à Polónia, por exemplo, em troca do monopólio dos fósforos naquele país. E depois era fácil usar esse monopólio para subir o preço dos fósforos, uma vez que toda a gente precisava deles e não havia como substituí-los de maneira prática. Kreuger seria reembolsado duas vezes: pelos estados e pelos consumidores.

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Perdidos | VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

Viriato Soromenho MarquesPara onde quer que nos voltemos, os sinais de que Portugal é hoje um país à deriva são manifestos.

Com a saída da troika tornou-se ainda mais evidente que o Governo não tinha qualquer agenda que não fosse fazer a dobragem para português, por vezes com erros dolosos de tradução, das exigências dos nossos credores. Confundindo os efeitos com as causas, a austeridade falhou. Depois de três anos de destruição da economia, do emprego, dos direitos sociais, depois de a própria troika, através do FMI e da Comissão Europeia, ter admitido erros de conceção no memorando (algo que o Governo nunca fez com seriedade e de forma escrita), o País mergulha em cheio num novo turbilhão, que destrói ainda mais a confiança no sistema financeiro.

As causas da doença prevalecem sempre sobre os seus sintomas. Se o Governo emudece, deixando-se humilhar (e ao País) no processo da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, ou sacudindo os ombros perante o que parecem ser graves erros de gestão na TAP, do lado da oposição, o debate interno no PS desnuda um abismo entre o excesso de pompa retórica e a escassez de ideias alternativas operacionais. Ser oposição de esquerda não dispensa, antes exige o esforço de pensar. É verdade que ainda não temos petardos a rebentar nas ruas, como na I República, mas há algo de profundamente violento no modo como o improviso, a ausência de conhecimento e reflexão, ou a pura sanha destruidora (veja-se a “política de ciência”, desenhada com bazuca), tomaram conta dos destinos do País. Estamos no deserto, sem bússola. As nações também podem morrer de sede. Quando lhes falta a promessa líquida do futuro.

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A arrogância do futebol brasileiro | Fernando da Mota Lima

Alguém teve acaso a curiosidade de ler as frases escritas na fachada dos ônibus das seleções participantes da Copa do Mundo? O que atraiu minha curiosidade foi ver na quarta-feira numa reportagem do Jornal Nacional, ainda sobre a humilhante derrota do Brasil para a Alemanha, a que escolheram para o ônibus da seleção brasileira: “Preparem-se! O hexa está chegando!” Cotejei-a com as das demais seleções. Quase todas invocam o espírito de orgulho nacional, unidade nacional, exaltação mítica da nação, espírito competitivo e guerreiro, valores enfim previsíveis em um contexto de competição esportiva entre nações.

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Bem Hajam! – Apontamentos de Viagem à Arménia

Bem Hajam!

Poucos escritores foram confrontados com tantas das tragédias em massa do século XX como Vassili Grossman, e é provável que este seja lembrado, acima de tudo, pela terrível clareza com que escreveu sobre o Holocausto, a Batalha de Stalinegrado e a Grande Fome da Ucrânia. No entanto, Bem Hajam! ‒ Apontamentos de Viagem à Arménia, mostra-nos um Grossman muito diferente, notável pela sua ternura, pelo seu entusiasmo e sentido de humor. Este é, de longe, o seu livro mais pessoal e intimista, dotado de um ambiente de espontaneidade absoluta, em que Grossman parece estar simplesmente a conversar com o leitor acerca das suas impressões sobre a Arménia – as suas montanhas, igrejas antigas, gentes e costumes –, enquanto, ao mesmo tempo, examina os seus pensamentos e estados de espírito.

As três sílabas do nosso remorso | BAPTISTA-BASTOS

BaptistaBastos2013Vivemos de felicidades pequeninas, e inventamos esses instantes com a intuição secreta de que são precários e fugazes. Pouco temos a que nos pegar. Os amigos ou aqueles que estimamos vão-se embora, para outros sítios ou para sempre, encerrando o anel que parecia ligar-nos. Agarramo-nos, com o desespero de quem nada tem a perder e nada tem a ganhar, ao gosto de uma palavra, a um sonho ou, até, a um jogo de futebol, criando a ilusão de que somos felizes. Mas é sempre uma felicidade pequenina, e nós sabemo-lo com a noção dessa fatalidade irrevogável. Fomos alguma vez grandes? Inculcam-nos a ideia de que sim. Mas grandes para quem? Fomos nas caravelas, criámos um leito de nações deitando-nos com tudo o que era mulher. Talvez a nossa grandeza resida aí: no gosto e no apreço pela mulher.

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BISCATES – Manifestar e Protestar – o onanismo dos partidos de protesto – por Carlos de Matos Gomes

Texto retirado do blog “a viagem dos argonautas”, com a devida vénia.

BISCATES – Manifestar e Protestar – o onanismo dos partidos de protesto – por Carlos de Matos Gomes

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Manifestar e Protestar – o onanismo dos partidos de protesto

O protesto tanto pode ser uma faca – e neste caso de dois gumes – como um escudo. Tanto podemos protestar para atacar e alterar uma situação como apenas para nos defendermos. Para evitarmos a mudança fazendo de conta que a desejamos.

Esta ambiguidade é a base em que assenta a tática dos chamados partidos de protesto. Protestam para se defender, para esgotar em seu proveito as energias dos que têm razão para protestar. O protesto, na medida em que não se dispõem a colaborar em nenhuma solução que não seja a totalidade da sua, esgota-se nele mesmo, satisfá-los como se satisfazem os onanistas.

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Citando Pedro Marques Lopes

Deixemo-nos de tretas, Seguro é um político medíocre, tem mostrado uma confrangedora capacidade política, não consegue agregar, não consegue definir uma linha política coerente, mas é um especialista na arte da sobrevivência dentro do partido. Um verdadeiro exemplo do homem que nunca conheceu outra realidade que não fossem as lutas partidárias internas, os truques para preservar o poder. Seguro é um político frágil, fraco, indeciso e incoerente, mas é um leão da politiquice de máquina partidária.

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Seguro à espera que “gong” o salve | Ferreira Fernandes in Diário de Notícias

469448Costa saltou contra Seguro. Se calhar ele pensava que o secretário-geral se encolhia… Qual quê! António José Seguro subiu para o ringue, saltitando e dando ganchos no ar, com a pose de boxeur que se lhe conhece, queixo firme e discurso claro: “A minha consciência diz-me que eu tenho de continuar a lutar pelos valores e pelos princípios e habituem-se porque isto mudou.”

Juro, ele disse isto, ontem. Na mesma frase, “tenho de continuar a lutar pelos valores” e “habituem-se porque isto mudou”! No boxe chama-se a isso jabs, sucessão de golpes, esquerda-direita… Em discurso parece contraditório, mas agora António Rocky Seguro quer passar a imagem de durão. Ele adora desafios impossíveis, já antes queria passar por líder. O outro quis encostá-lo às cordas do congresso. Com um jogo de pernas notável, o nosso Belarmino do Rato lançou-se para as primárias. Eu explico o que isso quer dizer em boxe. Suponhamos que o pugilista receia um KO, porque reconhece que o adversário é mais forte. Então, refugia-se nas cordas, dança, enfim, compra tempo. Com um passado de ganhar por pouco, Seguro quer agora ganhar muito. Muito tempo. O outro atrás dele para uma luta leal e ele às voltinhas à espera que o gong o salve. Vocês vão dizer-me: “Mas ele vai ficar mal visto…” Não sei. O erro mais visível de Seguro era ter o título de líder e sê-lo pouco. Agora, a fugir à luta, ele já ganha coerência. Já é ele. Na política a coerência é importante.

Ferreira Fernandes, Diário de Notícias

100 anos de Cunhal

CunhalÁlvaro Cunhal foi uma figura misteriosa. Parece criação literária. Aliás, as histórias que contou em livro relevam sempre personagens que se confundem com ele próprio. A opção pela defesa de um ideal levou-o a viver, no tempo da ditadura, permanentemente em risco. Já tinha vivido mais de metade da sua vida quando conheceu a liberdade na terra onde nasceu. O mistério deve-se a essa constante resistência. Quem discordava de Salazar tinha que viver escondido. Ou estar calado. Cunhal não estava para aí virado. Fez da luta política maneira de existir. Vida difícil e complicada mas em permanente busca de conhecimento. Conheceu mundo e revelou o que conheceu. Ilustrou, pintou, escreveu, discutiu arte. Discordo de algumas opiniões sobre assuntos que também me são gratos. Mas realço, acima de tudo, nesta altura em que se comemora o centenário do seu nascimento, a capacidade de resistir à mediocridade fascista com cultura e com a coragem de acreditar em outros caminhos. Há quem, mesmo neste momento de comemoração, insista na ideia de que, como dirigente comunista, defendia outra ditadura. Acontece que Álvaro Cunhal esteve preso anos a fio, incomunicável, por combater o regime criminoso de Salazar. Os seus adversários políticos nunca viveram semelhante experiência. Dificilmente saberão do que falam. Há alturas em que deveriam ficar calados.

José Teófilo Duarte
(Imagem: Retrato por Eduardo Gageiro)
www.blogoperatorio.blogspot.com

 

Picasso – uma reflexão de Amélia Vieira

A ideia de que um Picasso era um garanhão fustigado por um Eros de predador é quase um insulto ao seu génio. Um homem como Picasso não é um D.Juan nem um ser lascivo. É outro coisa, bem mais rara, mais perigosa, mais fascinante. O que não faltam no mundo são falos andantes… Um homem da dimensão de Picasso sabe que a paixão não é fácil, que o sexo não é fácil, que o mundo não é essa esteira epicurista de nus e contra-nus. Picasso é um homem iminentemente trágico, que está nos locais mais perigosos nos momentos mais difíceis, é um perscrutador, um homem radical. Não brinca aos efeitos estéticos.

Talvez que um tempo desmagnetizado de todo como este confunda um Casanova com um Picasso, mas de facto, nada ha de comum. Estou certa que até para se ser vítima há que ter bons carrascos ou então não vale a pena o estatuto de sacrifício.

Picasso era uma força da natureza, um ser vivo melhorado, um vampiro, também. Mas era Picasso, não o vejo a cometer “crimes” contra o seu estatuto de semi-deus….O prazer? Quem sabe dele? Quem pode aferir que o grau de sadismo com que por vezes se revestiu não é voluptuoso?

Quanto aos genitais, qualquer homem os tem. E não são Picassos. São apêndices de algo que não interessa mais.

Amélia Vieira

 

Futuro escravo

Tra­bal­har num call cen­ter é viver num mundo de pobreza, insta­bil­i­dade, pressões e humilhações.

Para Nuno, o pior de tudo era ter de enga­nar os clientes. Tra­bal­hou no enorme call cen­ter da Por­tu­gal Tele­com em Coim­bra, antes de vir para a Teleper­for­mance, em Lis­boa. Em Coim­bra tra­bal­hou no sec­tor “out­bound” (quando é o oper­ador que faz a chamada, geral­mente para vender) da MEO. “Tín­hamos de dar a enten­der às pes­soas que, se não com­prassem o serviço MEO, ficariam sem tele­visão, o que era men­tira”, recorda Nuno, ao PÚBLICO. Era o período em que foi intro­duzida a Tele­visão Dig­i­tal Ter­restre (TDT). Quem não tinha qual­quer serviço por cabo, teria de insta­lar um descod­i­fi­cador para con­tin­uar a ter sinal de tele­visão. Não era necessário aderir ao MEO, mas os oper­adores só expli­cavam isto se o cliente o per­gun­tasse explici­ta­mente. As instruções que tin­ham eram claras quanto a isto.

Paulo Moura in repórter à solta,  blogues do Público

Num Café

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Sento num Café. Sozinho. Preciso pensar. Peço um com-leite. A garçonete é competente. Rápido me traz o que pedi. Divago. A vida está quieta. Um anúncio esotérico sem telefone de contato. Um jornal velho sem data de impressão.
Algum tempo se passa sem que eu toque no café. Ouço os burburinhos. Há um casal à minha direita. Também não toca no café. Ele gesticula tímido, agasalha a mão dela, dizendo palavras que não posso decifrar. Tem o olhar angustiado. Ela está triste; sombria. Nota-se que ele deseja esperançá-la com novos argumentos. Ela se incomoda; meneia a cabeça; se irrita. Crê que não a entende; que não a escuta. Ele a vê. Sabe que é inútil prosseguir. É agora uma boca sem rosto no meio de um Café.
Olha para ela: o olhar em funda agonia. De repente deixa que seus lábios coroem a sua mão. Infinitamente. A ternura lhe invade o olhar. Vê-se que a ama. Diz: “Tudo ficará bem”. Ela então o olha pela primeira vez. Dá em paga da ternura outra ternura. Depois, dorme o rosto em sua mão. Não há mais nada a dizer. Mais nada a pedir. Só o meu café permanece intacto.

Fechado para almoço

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Todos se espantam quando digo que aqui em Fartura as farmácias fazem plantão até às 22h. Perguntam-me e depois, como é que faz. Não faz. Pode-se bater à porta do farmacêutico. Pode-se também ir ao Pronto-Socorro, que está pronto a socorrer qualquer um. Só não garante cura. Sequer alívio. Mas a crônica é outra.

Em Apucarana há um restaurante que fecha pra almoço. O leitor não está a enxergar mal. Se se vai ao tal restaurante para almoçar, não almoça-se. Uma plaquinha atenta para o fechamento temporário.

Mas a gerência já providencia melhoras: especificando hora de retorno, construindo uma área de espera com uma recepcionista especialmente contratada para o serviço de recepcionar quaisquer famélicos clientes, estacionamento mais amplo dividido por categorias: 1ª) “Clientes da manhã” (que abarca os que querem frutas ao acordar); 2ª) “Clientes da espera” (àqueles que chegam ao restaurante entre meio-dia e duas da tarde); 3ª) “Clientes noturnos” (que podem ser tanto os que chegam para o almoço quanto os que vão jantar); e 4ª) “Clientes esporádicos” (àqueles que surgem de quando em vez apenas a petiscar), além de reformas para maior conforto da clientela.

Com toda essa preocupação, é de se considerar justificável a ausência da equipe do restaurante, pois, como ensinam os pais, para tudo tem hora.

Filomena, a famosa Leontina

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Em homenagem a Fabi, Renata, Desireé, Bianca, Camila e Sueli

Leontina ― eis o verdadeiro nome da empregada Filomena. Pobre Leontina… Infeliz a hora em que foste franca! Infeliz, Leontina, é o mundo em que vivemos.

Pobre Leontina… Que é feito de ti? Imagino-te noutra casa: novo emprego, nova família. Imagino-te quieta, soturna talvez, sabendo a rotina de teus novos patrões, entreouvindo a conversa de tua nova patroa. Mas calada. Sem dar um pio.

Pobre Leontina… Teu destino não é mais triste que o de Perséfone, nem mais inesperado que o de Eva.

Leontina, teu destino é o de todos nós.

Não é, mas parece…

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Para Fabi, Renata, Desireé, Bianca, Camila e Sueli

Filomena ― eis o nome da empregada. É certo que não fosse Filomena. Mas, na busca de um intróito, Filomena surgiu. Pois que seja Filomena um nome abençoado!

Filomena trabalhava na casa de minha esposa (Fabiana) na época em que esta era apenas a filha do seo Eduardo e da dona Sueli e mãe das pequenas Desireé e Bianca, hoje uma contradição da essência do pitagorismo. Mas enfim.

Filomena tinha pouco tempo de casa e por essa razão não viu perigo algum em falar da genealogia da família.Teria dito que Renata (irmã mais nova que minha esposa) tinha sorte em ter três lindas filhas (Fabiana, Desireé e Bianca). O mesmo para a dona Sueli ― avó das três.

O leitor deve imaginar um touro, bufando, preparando a investida e terá a imagem de Renata ao ouvir aquilo. Fabiana voara, como uma borboleta azul passeando pelo céu garbosa e despreocupada.

Reparado o equívoco, Filomena se desculpara, enrubescida, alegando que, pela aparência, não se percebia a inversão das idades. Talvez o cigarro fosse o culpado, tentou ainda.

Mas, fora a gota d’água.

Fabiana protestou contra a demissão da pobre Filomena: ela não sabia, pouco tempo de casa, boa empregada, não era, dona Sueli? Mas a ira de Renata foi mais forte.

Pobre Filomena… Maldize a franqueza que te veio à boca! O mundo é cheio de injustiças, Filomena, há muito privado da Razão e da Lealdade.

Pobre Filomena… Que teu caminho te seja leve, como o de João, o Felizardo.

Vai, Filomena… e adeus.

A República das Putas por João Magueijo * in “O Vento que Passa”

João Magueijo

João Magueijo

O livro de Skvorecky e o tempo da invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas são o ponto de partida para João Magueijo lembrar o“sentimento de um país traído, entregue ou vendido a uma ideologia questionável” e o valor dominante do dinheiro hoje. “Antes falar de tourada”, escreve o autor, no âmbito da série especial sobre os valores humanos

Ler aqui:

http://oventoquepassa.blogspot.pt/2013/01/a-republica-das-putas.html

Talvez uma crónica por António Paiva

Nascemos impregnados de uma estranha substância que nos deprime, e nos confere uma estranha apetência cultural para a infelicidade. E ao que parece só a inacção nos consola, porque nos preserva o gozo de sofrer.

Secretamente todas as mulheres desejam um homem que tenha em si algo de poeta. Durante o ritual de conquista todos eles ensaiam versos até no olhar. Elas encarnam o papel de musas. Mas a convivência prolongada acaba por provocar a erosão. O erotismo arrefece e inicia-se a terrível dança do suportar a presença do outro com mais ou menos subtileza. É terrível de dizer, é chocante ler, constrangedor falar, insuportável admitir. Mas é a realidade disseminada no lar doce lar comum. À noite vem a ânsia de apagar a luz, esconder suspiros na almofada e fixar o olhar na parede – vidas tão comuns como o respirar.

Habitamos um mundo de tal modo organizado que perdemos a liberdade, abdicamos das emoções e censuramos o desejo. A eficiência e a eficácia material anulam o saber do espírito, tornamo-nos autómatos como as máquinas que nos substituem nas tarefas. Dizem que crescemos intelectualmente, que nos tornámos mais inteligentes – não estou certo disso – o que sei é que perdemos a coragem e a determinação. Porque ligar uma máquina que nos substitui não carece de coragem nem de determinação. Basta um gesto vulgar; pressionar um botão. O homem delega e ao delegar demite-se – anula-se.

Passamos tanto tempo nos lugares e nunca lá estamos. Vamos mas não estamos. E às vezes bastava um pequeno gesto, uma carícia, para nos colocar lá, e tudo seria substancialmente diferente, substancialmente melhor. Temos muitas vidas terrenas antes da última, mais nenhuma depois dela – já escutei crenças – não mais do que isso. Em que acredito eu?, acredito que o medo corrompe e corrói, e temos tanto medo de nós, que culpamos terceiros. E porque ainda ninguém a escriturou notarialmente como propriedade sua – a culpa morre sempre solteira.

António Paiva