Desmistificar e compreender | uma perturbação da fluência partilhada por aproximadamente 1% da população
Nas últimas semanas, a gaguez ganhou uma rara exposição pública e mediática. Joacine Katar-Moreira surgiu aos microfones de rádios e em debates televisivos, como muito raramente uma pessoa que gagueja ousa fazer em Portugal. Entrevistadores e candidatos – dos mais distintos quadrantes políticos – concentraram-se nas suas ideias e não na forma como as transmitia. Souberam não interromper, nem completar palavras ou frases, demonstrando uma saudável cultura cívica.
Nas redes sociais, milhares de portugueses manifestam o seu apoio. Alguns, mais conhecedores do que consiste a gaguez, tentam combater os muitos estereótipos e mitos que lhe estão associados. Carlos Guimarães Pinto, candidato de outro partido, também ele uma pessoa que gagueja, assumiu esse papel, explicando, por exemplo, que a variabilidade dos momentos de gaguez é absolutamente normal. Afinal, o que qualquer pessoa que gagueja enfrenta diariamente são momentos em que a fala flui de forma natural, intercalados com outros, onde a gaguez se intromete, dificultando a comunicação.
Joacine Katar Moreira pode vir a fazer muito bem ao arejamento das cabeças deste país. Eu, apesar de tudo, acredito sempre na vitória das luzes sobre as trevas.
Francisco Seixas da Costa
O tempo está para temas quentes. Começou com a gaguez da nova deputada do Livre, agora é tempo de se falar da bandeira da Guiné-Bissau que, para escândalo de alguns, surgiu nas comemorações da sua eleição. Vamos a isso, sem receios. Não vou utilizar o léxico do politicamente correto, vou dizer as coisas com a linguagem da conversa comum, que é a minha.
Começo por notar que, se Portugal estivesse em conflito político aberto com um qualquer país, eu sentir-me-ia chocado que surgisse uma bandeira desse Estado num ato público português. Era, no mínimo, um gesto agressivo, por muito que preze a liberdade de expressão. E indignar-me-ia.
A Guiné-Bissau, porém, é um país amigo, de onde tem vindo para Portugal muita e boa gente, que aqui ajuda à nossa diversidade, que aqui honestamente trabalha, que aqui continua a habituar os portugueses a viverem com a diferença, o que muito contribui para a nossa riqueza cultural – embora, pelos vistos, ainda não o suficiente para convocar a tolerância em muitas cabeças.
Que uma cidadã oriunda da Guiné-Bissau consiga singrar na sociedade portuguesa e, para além de uma carreira académica de relevo, tenha conseguido ser uma das 230 pessoas que os portugueses escolheram para os representar, isso deveria, na minha modesta opinião, constituir um orgulho nacional, um preito à nossa política de integração. Um país que andou pelo mundo tem obrigação de ficar contente que esse mundo, onde também se fala a sua língua, aqui se acolha e viva.
A UBESC – União Baiana de Escritores promove na sexta-feira (11/10/2019), das 18:30 às 21:30 horas, na Livraria Saraiva – Espaço Glauber Rocha, no Shopping da Bahia (Av. Tancredo Neves 148, Caminho das Árvores – Iguatemi Salvador/BAHIA-Brasil), encontro com o objetivo de comemorar o “Dia Mundial do Escritor”, com a temática abrangente da Literatura negra e da periferia, do Brasil e de África. É 0 que promete o seminário “Literatura Negra – Laços literários entre Brasil & África”.
O evento será mediado pelo jornalista e escritor Carlos Souza Yeshua (idealizador do Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia), terá a participação da professora, crítica literária e escritora Jovina Souza, autora do livro de poesias negras “O amor não está” que trabalhará na abordagem de um dia de aprendizado no Quilombo mais antigo das Américas, o Quilombo que nunca foi vencido.
Os primeiros dias do Festival Materiais Diversos em Minde e Alcanena
Festival realiza-se de 27 de Setembro a 5 de Outubro e celebra 10 edições com mais de 60 actividades, 17 espectáculos, 5 em estreia absoluta e 4 em estreia nacional, envolvendo cerca de 150 artistas.
(1) L’existence de Dieu peut être démontrée : I. A priori. 1° Tout ce que nous concevons clairement et distinctement appartenir à la nature d’une chose 1 , peut être, avec vérité, affirmé de cette chose. Or l’existence appartient à la nature de Dieu. Donc –
(2) 2° Les essences des choses sont de toute éternité et demeureront immuables pendant toute éternité. Or l’existence de Dieu est son essence. Donc –
(3) II. A posteriori. Si l’homme a l’idée de Dieu, Dieu doit exister formellement. Or l’homme a l’idée de Dieu. Donc 2 –
Letras del Ecuador, revista de literatura lançada pela Casa de la Cultura Ecuatoriana Benjamín Carrión (CCE), de Quito, em abril de 1945, criou fama em toda a América Latina pela excepcional qualidade de seus artigos e ensaios. Em 74 anos de existência, a publicação, que teve anunciada sua última aparição em meados de 2012, com edição comemorativa por ter chegado ao seu número 200, ressurgiu em abril de 2015, em seu formato original, tablóide, para seguir ideia pioneira de seu fundador, Benjamin Carrión (1897-1979), escritor, diplomata, político, professor da Universidade Central do Equador, ex-ministro da Educação e promotor cultural, considerado o grande suscitador da cultura de seu país. Trata-se de uma revista que continua a brindar os seus refinados leitores com textos que surpreendem por suas reflexões no campo das Ciências Humanas, com temáticas que nunca envelhecem.
Para marcar essa trajetória que segue firme, a Casa de la Cultura Ecuatoriana Benjamín Carrión vem lançando também volumes que resgatam a presença da publicação em mais de sete décadas de produção literária e reúnem obras publicadas nos cem primeiros números da revista Letras del Ecuador. Em 2010, saiu o volume de número 3 que traz ensaios que vieram à luz entre dezembro de 1948 e maio de 1951 nos números de 39 a 67 da revista.
O Poeta com P de Preto (Rilton Junior) apresenta a primeira temporada do monólogo “Vitimistas Não, Vitimizados”, nos dias 17, 18, 24, 25 e 31 (sábados e domingos de Agosto de 2019), sempre às 18hs, em parceria com o Espaço Cultural Sobrado da Mouraria, Rua do Castanheda, 222, Nazaré, em Salvador-BA. A entrada é pague quanto puder +1kg de alimento não perecível. Os alimentos serão entregues a famílias que necessitem.
“E chega a hora do compartilhamento de nossas vivências, e por que não a partir da arte, né?”
*Vitimistas Não, Vitimizados* traz textos de Rilton Junior e um de Lucas Silva. Foi idealizado e escrito por Rilton Junior, a partir de uma vivência com a Organização Dandara Gusmão, que tem a proposta do Teatro Preto Anti-Racista na escola de Teatro da UFBA.
A peça fala sobre o embranquecimento forçado e a negação da humanidade da população negra e tenciona, através da veia teatral, uma releitura dos estereótipos impostos e a revalorização do negro na sociedade brasileira.
Direção de Gisele Soares e Rilton Junior.
*Poeta com P de Preto*
Além de Poeta, Rilton Junior também é Escritor, produtor cultural, Militante Anti-Racista, fazedor da Arte Negra e Ator.
Serviço
O quê: 1ª Temporada do monólogo “Vitimistas, Não. Vitimizados”
Quando: 17, 18, 24, 25 e 31 (sábados e domingos de Agosto de 2019), às 18hs
Onde: Rua do Castanheda, 222, Nazaré, em Salvador-BA (Espaço Cultural Sobrado da Mouraria)
Quanto: Pague quanto puder + 01kg de alimento não perecível
Em entrevista ao Expresso, Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, diz que é preciso recriar a Igreja, nomeadamente com a ordenação de mulheres e de padres casados.
Polémico, desassombrado, Anselmo Borges não se cansa de defender a ideia de uma Igreja mais próxima das origens e aberta a todos. Confrontado com a partida dos monges da Cartuxa de Évora, lamenta o desaparecimento de um espaço de silêncio em Portugal.
Num texto, afirmou que a Igreja tem dupla identidade e foi capaz de gerar Francisco de Assis e Torquemada. Atualmente está mais próxima de Assis ou da Inquisição?
Essa pergunta nem deveria sequer poder ser feita. Se a Igreja quiser ser de Jesus, só pode ser de Assis. A Igreja deve ser o sentido último da existência: Deus enquanto amor. O evangelho é uma notícia boa e a inquisição não é uma boa notícia.
Esta semana foi divulgado que os monges Cartuxos vão sair de Portugal. Saem porque são poucos. É um reflexo da falta de vocações? Com eles parte um espaço de silêncio?
É uma das crises maiores do nosso tempo, marcado pelo ruído, a pressa e por uma razão instrumental. Temos uma profunda crise de valores porque no meio do tsunami de informações vivemos cada vez mais na exterioridade de nós. Corremos o risco da alienação. Já não vamos ao mais íntimo nem apreciamos o silêncio nem o encontro com o mistério a que chamamos Deus, e que está no mais profundo de nós, a voz da consciência. A Cartuxa era um apelo ao silêncio. Com a partida deles fica um vazio, próprio do nosso modo de estar no mundo.
Deixamos de perceber aquela missão de recolhimento?
Não compreendemos mais a utilidade do inútil. O ser humano ascendeu a ser homem, de forma distinta de todos os animais, quando pela primeira vez um rapaz foi à procura de uma flor — que dá perfume sem porquê — para oferecer a quem amava. Para que serve este gesto? Quanto custa? Mas isso é que é o melhor da humanidade: o gratuito. Hoje tudo se vende. É preciso voltar ao Evangelho: não podeis servir a Deus e ao dinheiro, compreendido como um ídolo. E a saída dos monges é sinal desta profunda crise de humanidade.
Lançada em novembro de 2013 para tentar encurtar a distância que separa a literatura brasileira da do Equador (e, por extensão, dos demais países de hispano-americanos), a ViceVersa Revista Literária, mantida pela Embaixada do Brasil em Quito, com o apoio do Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), chegou ao seu terceiro número em agosto de 2018, com uma edição dedicada ao escritor brasileiro Dalton Trevisan (1925), hoje o maior contista vivo da Língua Portuguesa, Prêmio Camões de 2012 e Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras de 2012.
Como observou o diplomata Carlos Alfredo Lazary Teixeira, embaixador em Quito à época, na apresentação que escreveu para este número, tanto o Brasil publica poucos autores equatorianos como são raros os escritores brasileiros publicados no Equador. Por isso, ViceVersa surgiu como uma iniciativa que procura fomentar esse diálogo, pois, com os 13 autores publicados nesta edição, já são 37 os escritores conhecidos ou revisitados pelos leitores do Brasil e do Equador nas três edições: 18 equatorianos e 19 brasileiros, todos contistas.
Quand une femme devient indifférente, vous saurez que vous l’avez perdue. Là, il n’y a ni colère, ni haine, ni amour surtout. Quand l’indifférence s’installe, plus de retour, pas de regrets. Le contraire de l’amour n’est pas la haine, mais l’indifférence.
No “Livro I da Ética e no Tratado sobre a Religião e o Estado”, o filósofo holandês Baruch Spinoza delineia a sua concepção de um Deus despersonalizado e geométrico, contrária a todas as formas de se conceber Deus como uma espécie de entidade, oculta e transcendente, que age conforme os seus desígnios e a sua vontade suprema. De uma teoria que não compartilha da ideia de um Deus autocrático, que controla a tudo e a todos, e que se refugia em algum ponto distante da abóbada celeste — segundo a crença comumente aceita e bastante difundida, sobretudo entre os povos e as civilizações de origem indo-europeia. Motivo pelo qual, o filósofo Spinoza expôs, assim, em sua obra, a sua definição — considerada por ele a mais adequada —, de Deus, em contraposição a todas as doutrinas e dogmas religiosos até então existentes. E é Spinoza quem diz que as massas “supõem, mesmo, que Deus esteja inativo desde que a natureza aja em sua ordem costumeira; e vice-versa, que o poder da natureza, e as causas naturais, ficam inativas desde que Deus esteja agindo; assim, elas imaginam dois poderes distintos um do outro, o poder de Deus e o poder da natureza”. Spinoza ainda nos faz o alerta para o fato de que: “Deus fez todas as coisas em consideração do homem, e que criou o homem para que este lhe prestasse culto. (…) [Isto acontece porque toda] gente nasce ignorante das causas das coisas e que todos desejam alcançar o que lhes é útil e de que são cônscios”. Com efeito, a crença de Spinoza era em um Deus baseado no seguinte princípio: Deus e Natureza são a mesma coisa — Deus sive Natura (Deus ou Natureza).
Para se conhecer a alma do Rio de Janeiro do final do século XIX e início do XX, é fundamental ler a obra de Machado de Assis (1839-1908). Mas, com certeza, daqui a um século, para se conhecer a alma de Brasília, imprescindível será conhecer a obra do escritor João Almino (1950), que acaba de dar à luz Entre facas, algodão (Rio de Janeiro, Editora Record, 2018), o seu sétimo romance que tem a nova capital federal como um de seus cenários.
Com quase 60 anos de existência, Brasília precisava de um romancista que a explicasse, expondo sua vulgaridade e os sonhos e frustrações de seus moradores. E João Almino assumiu-se como seu intérprete, construindo um painel romanesco contemporâneo que colocou a capital do País no mapa da prosa literária brasileira, como bem observou o romancista, contista e ensaísta Cristóvão Tezza na apresentação que escreveu para este livro.
Escrito em forma de diário, este romance conta as vicissitudes da vida de um advogado, de 70 anos, que, vivendo em Taguatinga, região administrativa do distrito federal, onde fez a sua vida, separa-se da mulher e decide reencontrar as suas raízes, retornando a uma pequena fazenda nas proximidades de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde passara a infância.
Decidido a plantar algodão e viver dessa atividade, o retorno ao passado carrega também uma frustração – uma história de amor mal resolvida e simbolizada por um fio de cabelo guardado há muitos anos numa caixa de fósforo – e um sentimento de vingança, já que, quando menino, soubera que aquele que então supunha ser seu pai havia sido assassinado. Volta, então, com a intenção de acertar contas e honrar o nome do pai.
Em Quito, pesquisador Adelto Gonçalves discorre sobre a vida e a obra dos poetas em conferências para estudantes e acadêmicos
QUITO – A convite da Embaixada do Brasil no Equador, o jornalista e escritor Adelto Gonçalves fez na segunda semana de junho duas apresentações de sua obra literária em palestras dirigidas ao público estudantil e acadêmico de Quito. Sábado, dia 8, no Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), o pesquisador apresentou a um público formado por mais de 50 estudantes equatorianos de Português um alentado trabalho sobre sua trajetória literária que inclui nove livros publicados e uma nova obra a sair ainda neste ano pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
Na segunda-feira, à noite, dia 11, participou, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrión, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. Os dois encontros contaram com a presença e a participação do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa (1888-1935), Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.
De Fernando Pessoa, Gonçalves destacou que o ensaio “O ideal político de Fernando Pessoa”, que consta de seu livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória internacional interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.
Há um país que se sente mal neste país. Há um país que acha que o país o não segue ou, quando acaso episodicamente o faz, não consegue pôr o país a seu jeito. Há um país com uma infindável raiva, que acha que o país o não compreende, que vive num mal-estar endémico, em “blues” eternos. Há um país que acha que tem uma ideia salvífica para o país, a mezinha mágica para pôr isto direito, mas que o país, pateta, não consegue nunca entender. Há um país sobranceiro, arrogante, feito de gente que, afinal, apenas gostava que o país fosse aquilo que eles acham que o país devia ser. E que, talvez não por acaso, não é.
Esse país, que agora por aí anda com a bílis à solta, não gosta do país que tem, não gosta afinal do país que lhe deu a liberdade de não gostar do país. É o país tremendista do “nós” e do “eles”, em que estes últimos são o sujeito de todos os males, que só não são curados porque a “nós” não é dada a possibilidade de os corrigir. Esse país que agora anda muito vocal, mas que nunca fez nada pelo país, é filho incógnito daqueles a quem, em todas as épocas da nossa História, sempre desagradou o país que tinham. Para esses melancólicos iluminados pelas luzes da outra verdade, isto sempre foi uma “choldra”, uma “seca” feita país, a que urge abrir as portas e as janelas, deixando entrar o ar do tempo. O deles.
No passado, esse país indisposto com o país, era então o estrangeirado. Lá fora estavam todas as soluções, só era necessário importá-las para que a modernidade das ideias, afinal tão óbvia, pudesse aqui frutificar e dar-lhes, finalmente, a glória dos profetas. Com Abril, desembarcaram em Santa Apolónia, com livros e ambições de reconhecimento. O país, que tem da generosidade o sentido da medida, deu-lhes o que era devido. Não mais.
Mas a semente, qual OGM, mudou de qualidade, transmutou-se. O país do despeito mudou entretanto de geração, ilustrou-se nas Américas, leu Popper e, enterrando o latino, anglo-saxonizou o seu projeto. Andou os últimos anos a fazer livrinhos, acolhido em universidades da receita segura, colunizando-se pelas plataformas da moda. Nos partidos, onde se muda a política com a legitimidade do voto, entram e saem, nervosos, à medida das ambições, falhos de votos e reconhecimento. Cavalgando as inseguranças de muitos, as dúvidas de uns tantos, os temores de alguns, ei-los agora a adubar de populismo os seus dias, os seus discursos, tentando que os dias do país se confundam com os da sua raça.
Quem os topava bem era o O’Neill, que os citava, definitivos e, no entanto, tão tristemente provisórios: “Não, não é para mim este país!”. E era um poeta, imaginem!, de Portalegre, Régio de seu nome mas republicano de gema, quem lhes respondia, quem lhes responde, em nome do país: “Não vou por aí!”
Francisco Seixas da Costa
Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa
Depois de 22 anos, Politica e Profezia: Appunti e frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pellicani Editore, 1996), que reúne textos políticos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), traduzidos e anotados por Brunello Natale De Cusatis, professor de Língua Portuguesa e Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia, hoje aposentado, ganhou em 2018 pela Edizioni Bietti, de Milão, uma segunda edição, revista e aumentada, constituindo o 26º volume da coleção l´Archeometro. Na introdução que preparou para esta edição, entre outras argutas observações, De Cusatis recupera a polêmica travada à época da primeira edição com o escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), autor de Afirma Pereira (1994), na qual também teve participação (involuntária) este articulista.
Como se sabe, à época, o fato de ter mostrado que o pensamento político de Fernando Pessoa passava longe dos hostes esquerdistas, embora não se pudesse qualifica-lo de fascista, aparentemente, desagradou Tabucchi, antigo professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, diretor do Instituto Italiano de Cultura em Lisboa e tradutor de obras de Fernando Pessoa para o italiano. E o que se seguiu foi uma série de ataques pela imprensa, especialmente um artigo publicado no jornal Corriere dellaSera, de Milão, em 31 de maio de 2001.
Como escreveu o crítico José Almeida, no periódico impresso O Diabo, de Lisboa, na edição de 15 de janeiro de 2019, a polêmica mostrou, “de um lado, as calúnias, as mentiras e as infâmias de Tabucchi e respectivo séquito, de outro a verdade assente sobre os fatos, a honestidade intelectual e o profundo conhecimento de De Cusatis em relação à obra do modernista português”.
Depois de uma carreira de três décadas em grandes veículos de comunicação de São Paulo, como O Estado de S.Paulo, revista Placar (Editora Abril), Diário Popular e ESPN Brasil, entre outros, o jornalista Nelson Urt, 65 anos, voltou em 2004 para a sua Ladário natal, antigo distrito e hoje cidade vizinha a Corumbá, no Pantanal do Estado do Mato Grosso do Sul, onde continuou a exercer sua profissão nas redações do Diário Corumbaense e do Correio deCorumbá e como autônomo, além de dedicar-se aos estudos acadêmicos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
A par disso, em fevereiro de 2019, decidiu criar uma editora, a Maria Preta Cartonera, pela qual acaba de lançar Amor e Morte em Tempos de Chumbo, que reúne um conto inédito e crônicas, além de poesias e artigos escritos ao longo dos últimos dez anos. Juntamente com o livro de Urt, a Maria Preta Cartonera lançou Paixão e Morte no Bordel, com contos dos jornalistas e historiadores Luiz Fernando Licetti, Silas de Almeida e Nelson Urt.
O mergulho de Urt na ficção, porém, não deixa de ser um retrato bem acabado de uma realidade vivida por jornalistas e outros intelectuais, de modo geral, na cidade de São Paulo nos anos 60 e 70, durante os tempos de chumbo provocados pelo regime militar (1964-1985). Com um texto enxuto e pacientemente elaborado de quem dedicou os seus melhores anos à escrita de reportagens na área esportiva, o jornalista, agora ficcionista, reconstitui no conto que dá título ao livro as peripécias de Marcus, uma espécie de alter ego, fotógrafo do Diário da Noite, periódico do empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), dono do conglomerado Diários Associados, magnata das comunicações entre o final de 1930 e o começo da década de 1960.
A exemplo do que já fizera em Dicionário de personagens da obra de José Saramago (Blumenau-SC: Editora da Fundação Universidade Regional de Blumenau – EdiFurb, 2012), levantamento de 354 protagonistas que perpassam os romances e peças teatrais do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, feito a partir de pesquisa que durou 15 anos e contou com a colaboração de mais de oito dezenas de seus alunos, a professora, contista, ensaísta e crítica Salma Ferraz acaba de lançar Dicionário de personagens da obra de Paulina Chiziane (São Paulo: Todas as Musas, 2019), publicado com recursos do Ministério da Cultura, através da Lei de Incentivo à Cultura.
A obra é resultado de um trabalho coletivo que durou cinco anos e foi realizado por uma equipe coordenada pela professora Salma Ferraz, incluindo 53 alunos de graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o auxílio de duas alunas da Pós-Graduação em Literatura Brasileira da mesma UFSC, Patrícia Leonor Martins e Márcia Mendonça Alves Vieira. Como diz na apresentação que escreveu para este livro Tania Macedo, professora titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e diretora do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (USP), este trabalho constitui uma espécie de “mapa” da escrita da autora moçambicana Paulina Chiziane (1955) que vai muito além daquilo que o título da obra deixa entrever.
Além de relacionar personagens que aparecem em vários livros de Paulina, o Dicionário traz uma fortuna crítica e uma biografia da autora, bem como duas entrevistas concedidas por ela para órgãos de imprensa do Brasil e do exterior e dois ensaios de especialistas. Um dos responsáveis por um desses ensaios é este articulista, autor de “O feminismo negro de Paulina Chiziane”, originalmente publicado em Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macedo, organizadoras (Maputo: Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012, pp. 33-41). O outro ensaio é “Adão e Eva na obra de Paulina Chiziane”, de António Manuel Ferreira, professor associado com agregação do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Ao final, o livro traz ainda uma fortuna crítica de textos acadêmicos dedicados à obra da autora moçambicana.
Le Caire, 2011. Alors que la mobilisation populaire est à son comble sur la place Tahrir, Asma et Mazen, qui se sont connus dans une réunion politique, vivent leurs premiers instants en amoureux au sein d’une foule immense. Il y a là Khaled et Dania, étudiants en médecine, occupés à soigner les blessés de la manifestation. Lui est le fi ls d’un simple chauffeur, elle est la fille du général Alouani, chef de la Sécurité d’État, qui a des yeux partout, notamment sur eux. Il y a là Achraf, grand bourgeois copte, acteur cantonné aux seconds rôles, dont l’amertume n’est dissipée que par ses moments de passion avec Akram, sa domestique. Achraf dont les fenêtres donnent sur la place Tahrir et qui, à la suite d’une rencontre inattendue avec Asma, a été gagné par la ferveur révolutionnaire. Un peu plus loin, il y a Issam, ancien communiste désabusé, victime de l’ambition de sa femme, Nourhane, présentatrice télé, prête à tout pour gravir les échelons et s’ériger en icône musulmane, qu’il s’agisse de mode ou de mœurs sexuelles.
Chacun incarne une facette de cette révolution qui marque un point de rupture, dans leur destinée et dans celle de leur pays. Espoir, désir, hypocrisie, répression, El Aswany assemble ici les pièces de l’histoire égyptienne récente, frappée au coin de la dictature, et convoque le souffle d’une révolution qui est aussi la sienne. À ce jour, ce roman est interdit de publication en Égypte.
Umas das livrarias de que mais gosto em Lisboa é a Palavra de Viajante. Situada no nº 34 da Rua de São Bento, é especializada em livros de viagens, mas viagens no sentido lato, pelo que temos à nossa disposição uma ampla gama de literatura de primeira água em várias línguas: para além do português, há livros em inglês, francês, espanhol e, em menor quantidade, em italiano. Ou seja, em todas as línguas que tenho o privilégio de dominar (umas um pouco melhor do que outras, naturalmente). Nesta livraria, descobri, graças ao profissionalismo das suas proprietárias, Ana Coelho e Dulce Gomes, vários livros e autores que desconhecia. Uma das minhas últimas descobertas foi a tradução espanhola de um livro de um escritor albanês de que ouvira vagamente falar, de nome Bashkim Shehu. Da literatura albanesa, lera sobretudo inúmeros livros de Ismail Kadaré, mas também em tempos um de Fatos Kongoli e tenho memória de ter folheado algures – talvez na própria Palavra de Viajante ou numa outra livraria de culto para mim, a Nouvelle Librairie Française, dirigida pelo meu grande amigo Frédéric Strainchamps Duarte – um romance de Dritëro Agolli. Ultimamente, nalguma imprensa europeia, fala-se da escritora e artista plástica Ornela Vorpsi, nascida em Tirana e com livros escritos em três línguas: o albanês, a sua língua materna, o italiano, língua do país onde começou os estudos universitários e, mais recentemente, o francês, língua do país onde vive atualmente.
Sou o Yanis Varoufakis e tenho uma mensagem para ti. Escrevo isto porque estamos num momento decisivo. Uma encruzilhada.
Há alturas em que nos encontramos exaustos e desanimados à beira do desespero. Pode ser extremamente frustrante ver oestablishment da UE implementar políticas de austeridade que dão força aos movimentos misantropos e os fazem ganhar terreno, ver a nova extrema-direita espanhola, aliada à direita tradicional, chamar “feminazis” ao movimento feminista, ver Itália ser governada por homens autoritários de outros tempos, dispostos a deixar morrer pessoas no mar para ganharem as suas credenciais xenófobas, ou ainda ver a Europa numa corrida em direcção à próxima catástrofe económica – quando a maioria dos europeus ainda não recuperou da anterior.
Mas são pessoas como tu que trazem de volta a esperança. Dirijo-me a ti porque tu pertences a um número crescente de pessoas que compreendem verdadeiramente a necessidade de políticas de transformação na Europa.
Somos muitos mais do que pensas e em breve atingiremos a massa crítica. Se nos esforçarmos ainda mais e se avançarmos ainda antes das eleições europeias, poderemos talvez mover suficientemente a agulha para inverter o jogo. Mas para o conseguirmos precisamos de ser uma força coesa.Ninguém nos vai dar apoio financeiro para pagar os custos do nosso trabalho nesta encruzilhada – excepto tu e eu.
Dmitri Khvorostovski
Cantor de ópera
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DescriçãoDmitri Aleksandrovitch Khvorostovski foi um barítono russo. Hvorostovsky nasceu em Krasnoiarsk, na Sibéria. Estudou na Escola de Artes de Krasnoiarsk sob os ensinamentos de Ekaterina Yofel e fez sua estreia na Casa de Ópera de Krasnoiarsk no papel de Marullo, Rigoletto. Wikipédia
Nascimento: 16 de outubro de 1962, Krasnoyarsk, Rússia
Falecimento: 22 de novembro de 2017, Londres, Reino Unido
Filhos: Nina Hvorostovskaya, Daniel Hvorostovsky, Aleksandra Hvorostovskaya, Maxim Hvorostovsky
Cônjuge: Florence Illi (de 2001 a 2017), Svetlana Hvorostovskaya (de 1989 a 2001)
Filmes e programas de TV: Tchaikovsky: Eugene Onegin: The Metropolitan Opera, MAIS
«Leonardo da Vinci e as Mulheres», de Kia Vahland: Um novo olhar sobre a vida e obra do grande génio no 500.º aniversário da sua morte.
Em Leonardo da Vinci e as Mulheres, que chegará amanhã às livrarias portuguesas, a autora e historiadora da arte Kia Vahland dá-nos a conhecer que, séculos antes dos movimentos de emancipação femininos, Leonardo da Vinci desenvolveu na sua pintura a imagem da mulher moderna.
Este génio universal, e criador da lendária Mona Lisa, celebra nos seus quadros e desenhos a persistência, o intelecto, as emoções e a sensualidade femininas – e, com os seus modelos, revela a mulher moderna como a contrapartida do homem, em plena igualdade. Na realidade, Leonardo retratou as mulheres como o mundo ainda não as conhecia, inventando a imagem da mulher autónoma com ideias próprias, a mulher bela e autoconfiante mas também vulnerável que encara diretamente o homem a partir da tela.
Segundo Nicola Kuhn, do Der Tagesspiegel, «A linguagem de Kia Vahland é clara e direta. Recusando perder-se em formulações egocêntricas, trata as coisas pelos nomes, amiúde com um toque de ironia.»
Já Niklas Maak, do Frankfurter Allgemeine Zeitung, diz que «Kia Vahland movimenta-se no mundo académico e jornalístico e escreve sobre a história da arte como se de um romance policial se tratasse. Trabalha com a linguagem como um pintor com as tintas.»
Um livro de leitura obrigatória que chega até nós no ano em que se assinala o 500.º aniversário da morte deste artista.
VAMOS CURAR A TERRA, de Julian Lennon e Bart Davis e ilustrado por Smiljana Coh chega esta semana às livrarias
No seguimento de Vamos Ajudar a Terra publicado o ano passado pela ASA, Vamos Curar a Terra é uma nova história inspiradora e enraizada na vida e obra de Julian Lennon, filantropo, fotógrafo, músico e produtor musical.
Elogiado neste projeto por figuras como Bono ouLaurie Berkner, Julian Lennon, filho do lendário líder dos The Beatles, leva os jovens leitores numa viagem que os desafia a fazerem da Terra um sítio melhor para toda a Humanidade, protegendo o meio ambiente e ensinando todos a amar o nosso planeta.
Sobre o Livro
Coloca-te de novo aos comandos do Avião da Pena Branca, um avião mágico que pode levar-te até onde quiseres, e faz parte desta aventura para curares a Terra! Basta carregares nos botões das várias páginas e inclinares o livro nas direções indicadas.
O Avião da Pena Branca tem como missão transportar os leitores numa viagem pelo mundo fora e mostrar-lhes como podem fazer da Terra um sítio melhor para toda a Humanidade, protegendo o meio ambiente e ensinando todos a amar o nosso planeta.
JULIAN LENNON é cantor, compositor e músico (com uma nomeação para os Grammy Awards e outra para os MTV Video Music Awards), produtor musical, fotógrafo e filantropo. Nasceu em Liverpool, Reino Unido, e desde sempre se afirmou como um observador da vida em todas as suas vertentes, razão pela qual necessita de se expressar através das mais variadas formas de arte. Em 2007 fundou a organização The White Feather Foundation, que leva a cabo iniciativas ambientais e humanitárias, atuando nas áreas da preservação da natureza, educação, saúde pública e proteção das culturas indígenas.
BART DAVIS é autor tanto de romances ficcionados como de livros de não-ficção, em especial biografias, tendo obras suas sido traduzidas para múltiplas línguas. No seu currículo conta ainda com a escrita de dois filmes e também de múltiplos artigos de opinião, no âmbito da sua colaboração regular com a imprensa. Vive em Nova Iorque.
SMILJANA COH estudou animação para filmes e, no seu trabalho, combina técnicas de ilustração mais tradicionais com técnicas de ilustração digital. A sua criatividade emerge da atenção que dá a cada detalhe das suas ilustrações. Além de já ter ilustrado alguns livros infantis, também já se aventurou, ela própria, na escrita. Vive na Croácia.
Ficha do Livro: Título: Vamos Curar a Terra – Nº págs: 48 – ISBN: 9789892344850 – PVP C/ IVA: 11,90€
(Tese de doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e pela Universidade de Brasília)
Resumo
Apesar da língua e de um fundo histórico e cultural comuns, as relações entre Portugal e o Brasil têm sido reconhecidamente permeadas por um sentimento de estranhamento ou desconforto mútuo, mesmo quando no plano estatal – sobretudo em períodos de coincidência ideológica e política dos regimes que os governam – se registam avanços em termos de acordos e tratados celebrados em diversas áreas.
Esse estranhamento opera como fator inibitório do aprofundamento das relações, que estão aquém da intensidade registada noutros casos de relacionamento entre a ex-potência colonial e as ex-colónias, designadamente os Estados Unidos com a Inglaterra e a Espanha com os países latino-americanos. Essa situação de latência não inteiramente realizada entre Portugal e o Brasil já foi caracterizada como “parceria inconclusa”.
Paralelamente, regista-se entre os dois países um défice de comunicação, que tanto pode derivar desse sentimento de desajustamento mútuo como estar, até, na sua origem. Em qualquer caso, essa (in)comunicação tende a reforçar o estranhamento e vice-versa, num perpetuum mobile em que ambos mutuamente se alimentam.
Investigar as origens dessa realidade, sondar na História do passado comum as razões desse estranhamento e dessa (in)comunicação – este o objetivo do presente estudo.
Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais.
Provocado por desleixo ou acidente, o incêndio que destruiu pelo menos o pináculo e o teto da catedral de Notre-Dame é um choque civilizacional que emociona e magoa quem reconheça a cultura como ela é, uma expressão da História. História e cultura são isso mesmo, a diversidade dos olhares: alguns verão a catedral como um lugar de religião, outros recordarão Lutécia, alguns descobrirão a ousadia arquitetónica do gótico nascente, outros ainda a entrada para o Quartier Latin do outro lado da ponte, alguns lembrarão Joana d’Arc ou Napoleão Bonaparte, outros ainda evocarão Victor Hugo ou até a versão Disney da paixão de Quasimodo e de Esmeralda. Mas todos reconhecerão a solenidade do tempo, os vitrais e as torres desta nossa Notre-Dame.
Notava de manhã Sena Santos, na Antena Um, que outras catedrais foram feridas pelo desastre: a de Reims, glória gótica, bombardeada pelo exército alemão em 1917, a de Coventry, bombardeada em 1940 pela aviação hitleriana, a de Dresden, arrasada pelos Aliados em 1945, todas durante as tormentas das guerras europeias. Esta, a maior, terá ardido pela incúria. Mas a perda é a mesma, o fogo roubou-nos uma parte da memória da humanidade.
Não é de hoje mas continua hoje, a tragédia persegue a nossa História. Como os generais que nas guerras europeias escolheram aqueles alvos ou aceitaram que as bombas os atingissem, os talibãs dinamitaram no Afeganistão os Budas de Bamyan e o ISIS demoliu parte das ruínas de Palmira, na Síria. Em todos os casos, foram heranças comuns da humanidade que foram destroçadas. Estes não eram patrimónios caucasianos ou árabes, africanos ou asiáticos, eram e são de toda a humanidade. Por isso, perante a desgraça, evocar particularismos proprietários seria uma forma de racismo que nega a raiz universalista de toda a cultura.
Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais. Reconhecê-lo é o imenso ponto de convergência de quem se comove com estas perdas e quer defender e reconstruir o que é de toda a gente.
Pode-se por isso ceder à tentação de fazer desta tragédia um jogo (um candidato às eleições europeias não resistiu a exibir a sua mesquinhez alegando que a tristeza perante o incêndio comprova o seu discurso), ou pode-se tratar a perda como ela é: um desafio aos de hoje sobre como vivemos, respeitamos e preservamos o nosso passado comum. Um desafio a toda a gente, porque é de toda a gente.
Artigo publicado em expresso.pt a 16 de abril de 2019
Teólogo e biblista, Frei Fernando Ventura foi professor de Ciências Religiosas no ISCRA em Aveiro. É intérprete na Comissão Teológica Internacional da Santa Sé. Colabora, como tradutor, com diversos organismos internacionais. Pertence ao quadro de redatores da revista Bíblica, onde assina artigos de aprofundamento teológico. Autor do primeiro estudo sobre Maria no Islamismo, lançou o livro Roteiro de Leitura da Bíblia. Ministra cursos e retiros, percorre o mundo, de convite em convite ou de conferência em conferência, como tradutor. É assíduo comentador de atualidade social e religiosa em diversos canais de comunicação social em Portugal.
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Como é possível? Esta é a pergunta recorrente que qualquer pessoa de bem e de bom senso faz, sempre que as notícias chegam carregadas de sangue, injustiça, revolta, ódio… e sustentadas em supostas crenças religiosas. Frei Fernando Ventura é franciscano capuchinho. Foi a ele que recorremos para tentar entender o que nos parece inexplicável – como é possível alguém matar em nome de Deus?
Frei Fernando Ventura – O Prof. Agostinho da Silva dizia “eu não tenho religião, há uma religião que me tem a mim”. A pior coisa que pode acontecer a alguém é ter uma religião. Seja uma religião religiosa, seja uma religião política, seja uma religião futebolística, seja tudo aquilo que faz de mim o centro do mundo e não me permite passar para além de mim, em relação ao outro. Eu só sou capaz de encontrar Deus se for capaz de me desinquietar a mim. Eu digo sempre que há um momento zero de toda a revelação da Bíblia – quando Moisés ouve uma voz que o chama e ao mesmo tempo lhe diz tira as sandálias porque o espaço que pisas é sagrado. É a grande declaração formal da sacralidade do espaço do outro, da sacralidade do espaço de Deus e da sacralidade do meu espaço. É este o desafio. E é aqui que falham as pessoas que são gente da religião, mas não são gente de fé. São pessoas incapazes de perceber que a construção do “nós” se faz com a interseção dos dois “eu’s”
M.S. – O que me está a dizer é que devemos separar, de uma forma muito objetiva, a religião da fé.
F.F.V. – Sim. E quantas vezes são as religiões que incomodam a fé, vemos pessoas obrigadas a determinado tipo de comportamento, em nome de Deus, deixando de lado o outro. Dou sempre o exemplo do samaritano – está um homem caído na estrada a precisar de ajuda, passa o sacerdote, passa um levita e quem pára é o samaritano. Mas o sacerdote e o levita não param por serem maus, eles não param porque têm uma religião. Porque se eles tivessem tocado no cadáver ou no sangue ficavam impuros para entrar no templo. A religião tribalizada, o fanatismo religioso é isto, é quando eu sou o centro de mim próprio.
M.S. – E é o fanatismo que leva ao extremismo…
F.F.V. – Por isso é que todas as religiões têm as mãos manchadas de sangue. E a culpa não é das religiões, a culpa é de gente que não sabe ser gente com outra gente. Tenho dito tanto isto em tantos sítios… a nossa missão, independentemente da opção futebolística, sexual, clubística, gastronómica, política, seja o que for…, enquanto seres humanos a única missão que nos toca é ser gente com gente, para que cada vez mais gente seja gente e nunca ninguém deixe de ser pessoa. Na eternidade não há religiões. Deus não tem religião.
M.S. – Porque Deus será o mesmo para todas as religiões, não é?
F.F.V. – É o Deus que acima de tudo tem uma relação pessoal com cada um de nós. O drama é quando as religiões entendidas como articulações de comportamentos e normas de relações interpessoais não são momentos nem espaços de celebração da fé, mas são momentos de celebração da minha tribo. Isto acontece no futebol, acontece na política, acontece na vida social – a tribalização do eu. Nós vivemos numa sociedade, como eu costumo dizer, solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos. De relações fluídas, de utilidade… O que está em crise hoje em dia não é a fé. O que está em crise é a vida.
M.S. – As relações entre as pessoas…
F.F.V. – Entre os estados, entre os países. Temos muitos conflitos no mundo que não são mais do que conflitos políticos, geopolíticos e económicos mascarados de religião.
M. S. – Quando se fala desta temática – religião – usa-se muito um conceito que, eu sei, o Frei Fernando Ventura não gosta mesmo nada, que é a Tolerância.
F.F.V. –Tenho uma raiva danada à tolerância…
M.S. – Porque isto de tolerar alguém pode querer dizer que estamos a menosprezá-lo, não é?
F.F.V. – Completamente! Eu posso tolerar uma dor de cabeça, uma dor de dentes enfim, mas eu não tenho que tolerar ninguém. Eu não tenho o direito de dizer a ninguém “eu tolero-te”. Nós só temos o direito de olhar alguém de cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se. E há um outro mito que é preciso desconstruir – nós estamos todos convencidos, e ensinamos isso aos nossos filhos, nas escolas, nas catequeses…, que a minha liberdade termina quando começa a liberdade do outro – isto é uma estupidez.
M.S. – É?
F.F.V. – É, porque se o outro é o limite da minha liberdade eu tenho que o matar para ser livre. Os conflitos estão aqui também. Quando percebermos que na relação eu/tu a minha liberdade aumenta, na medida em que encontra a tua liberdade. Se eu for capaz de abrir o meu metro quadrado ao metro quadrado do outro, nós ficamos com dois metros quadrados. A minha liberdade alargou. O outro não é o limite.
M. S. – Mas quando se diz a minha liberdade termina quando começa a do outro é sinal de respeito pelo outro, pelo metro quadrado do outro…
M.S. – A propósito de dizer “nossos amigos muçulmanos”… eu sei que o Frei Fernando Ventura convive muito bem com outras religiões. O que poderemos fazer para haver cada vez mais pessoas assim… a olhar para os outros como iguais e respeitá-los na sua diferença?
F.F.V. – É perceber que o meu irmão judeu precisa que eu seja um bom cristão para ele ser um bom judeu. O meu irmão muçulmano precisa que seja um bom cristão para ele ser um bom muçulmano… e por adiante. A diferença do outro é aquilo que me completa. Se não eu morro sozinho.
M. S. – A religião hoje em dia é geradora de enormíssimas fortunas.
F.F.V. – São autênticos impérios.
M. S. – E isso, desde tempos imemoriais tem provocado guerra.
F.F.V. – E, desculpem a vulgaridade, sempre que o poder político e o poder religioso foram para a cama juntos, nasceram monstros. E o mundo de hoje continua com monstros destes. Com casamentos de conveniência. Por trás da geopolítica está sempre o calendário das guerras atuais e das guerras futuras, se quiser perceber onde vão acontecer os próximos conflitos tem que ver onde está o gás, o petróleo… ali vai ser montado um conflito. Ali vai ser montada uma guerra. Que vai ser uma guerra mascarada de religião, que de religião não tem nada.
M.S. – Como já teve oportunidade de dizer todas as religiões têm as mãos manchadas de sangue. E isso gera ódios. O que podem fazer hoje os líderes religiosos, as pessoas de bem, para resolver esta situação?
F.F.V. – É preciso que as pessoas de bem não se calem, independentemente da sua opção religiosa. A frase não é minha, mas “o que me assusta não é a voz dos maus, mas o silêncio dos bons”. Este é o tempo de passar da religião à fé, nas comunidades católicas, por exemplo, temos demasiadas missas e pouquíssimas eucaristias, temos demasiada gente que vai à missa, mas não vai à vida, temos gente “casada” com um Deus tirano que esmaga, mas que é gente que na vida real olha os outros de cima para baixo. A urgência é passar da religião à fé, da lógica do poder à lógica do serviço. Por aqui transformamos o mundo. Se não, não faremos mais do que construir muros e vamos morrer orgulhosamente sós. Agarrados a mitos. O Deus da violência não existe. E um homem ou uma mulher que diz que tem uma relação com Deus e não tem uma relação de horizontalidade com a vida, é só um fanático. É só um doente.
O recente Congresso Internacional da Língua Espanhola – que se realizou no final do passado mês de março na Argentina – ficou marcado pelo discurso inaugural do rei Felipe VI. Por lapso, o monarca espanhol, ao referir-se ao mais conhecido e universal dos escritores argentinos de todos os tempos, nascido em 1899 e falecido em 1986, trocou-lhe o nome e, em vez de o identificar como Jorge Luis Borges, chamou-lhe José Luis Borges. Muitos observadores glosaram sobre este equívoco de sua majestade, se seria sinónimo de desinteresse pela literatura ou resultado de uma mera distração. Afinal – afirmaram alguns – embora Jorge seja um nome comum, José é-o ainda mais e José Luis é no mundo hispânico – tal como no lusófono, aliás – mais corrente do que Jorge Luis (em castelhano Luis não leva acento na letra «i»). Em tempos, conversando com alguém que conheci e que, não sendo particularmente erudito, tinha a pretensão de saber alguma coisa de literatura, tive a surpresa de verificar que o dito cujo parecia nunca ter ouvido falar de Jorge Luis Borges, visto que me respondeu, perante uma citação que lhe fiz do génio argentino, que desconhecia que o padre José Luís Borga escrevesse livros, pois pensou que eu me referia a um tal padre cantor que, por acaso, entretanto, até já publicou um livro. Por conseguinte, a confusão entre Jorge Luís e José Luís é deveras vulgar. Que eu saiba, não existe nenhuma figura pública chamada Jorge Luís Gomes de Sá, pois correria o risco de ser confundido com uma reencarnação ou um descendente do famoso negociante de bacalhau e comerciante portuense José Luís Gomes de Sá Júnior (1851-1926) que deu origem à célebre receita de Bacalhau à Gomes de Sá.
Minhas amigas e meus amigos. Teria o maior prazer na vossa presença na apresentação do novo romance, que será feita pelo José Pacheco Pereira. Pela minha parte responderia `pergunta:
O livro é sobre quê?
Assim:
É sobre um homem a quem impuseram um destino que o ultrapassava e que, no fundo, ele não estava disposto a cumprir.
É um romance sobre a vaidade de ser um herói.
Sobre a ficção das histórias oficiais. Eu escrevi (tentei) uma história verdadeira sob a forma de ficção.
É sobre os salvadores das pátrias e dos povos.
É sobre a falsidade, a perversidade e a mentira
É sobre o clássico herói e salvador vencido pela história.
É um romance sobre mim.
O discurso histórico oficial é sempre uma conveniência.
Este romance é contra as conveniências do discurso oficial sobre um período recente e marcante da nossa história: o 25 de Abril, o 25 de Novembro e a violência revolucionária e contra revolucionária.
A ficção é a minha forma de transmitir a minha verdade.
Eu tenho uma verdade sobre o 25 de abril, sobre o 25 de novembro, sobre a nossa história. Este romance é o romance da minha verdade.
Os leitores poderão ver aqui quem quiserem, Otelo e Calvão, Eanes, Jaime Neves, o cónego Melo ou o Carlos Antunes, o ELP e as FP, mas o que está neste romance sou eu e a minha verdade sobre um período da nossa história.
É um romance sobre o outro que todos os sensatos têm de reserva.
Este é também um romance sobre loucos. Sobre os loucos que ocupam os marcos da História.
O que é um ex-revolucionário?
Como perdemos os ideais?
Ser generoso, dar a sua vida por uma causa é prova de quê? De inteligência? De estupidez! Só temos uma vida.
“Une femme libre est exactement le contraire d’une femme légère.”
“Personne n’est plus arrogant envers les femmes, plus agressif ou méprisant, qu’un homme inquiet pour sa virilité.” Le Deuxième Sexe (1949)
“On ne naît pas femme : on le devient.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Entre deux individus, l’harmonie n’est jamais donnée, elle doit indéfiniment se conquérir.” La Force de l’âge (1960)
“Je suis un intellectuel. Ça m’agace qu’on fasse de ce mot une insulte : les gens ont l’air de croire que le vide de leur cerveau leur meuble les couilles.” Les Mandarins (1954)
“Si l’on vit assez longtemps, on voit que toute victoire se change un jour en défaite.”
“Le principe du mariage est obscène parce qu’il transforme en droits et devoirs un échange qui doit être fondé sur un élan spontané :
il donne aux corps en les vouant à se saisir dans leur généralité un caractère instrumental, donc dégradant ; le mari est souvent glacé par l’idée qu’il accomplit un devoir, et la femme a honte de se sentir livrée à quelqu’un qui exerce sur elle un droit.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Une femme qui n’a pas peur des hommes leur fait peur, me disait un jeune homme.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Si l’œuvre de Dieu est tout entière bonne, c’est qu’elle est tout entière utile au salut de l’homme ; elle n’est donc pas en soi une fin, mais un moyen qui tire sa justification de l’usage que nous en faisons.” Pyrrhus et Cinéas (1944)
“La beauté se raconte encore moins que le bonheur.” La Force de l’âge (1960)
“La femme n’est victime d’aucune mystérieuse fatalité : il ne faut pas conclure que ses ovaires la condamnent à vivre éternellement à genoux.”
“Ça ne rapproche pas, le téléphone, ça confirme les distances.” La Femme rompue (1967)
“L’amour maternel n’a rien de naturel.” Le Deuxième Sexe (1949)
“Le principal fléau de l’humanité n’est pas l’ignorance, mais le refus de savoir.”
“Autour de moi on réprouvait le mensonge, mais on fuyait soigneusement la vérité.” Mémoires d’une jeune fille rangée (1958)
“La femme est tout ce que l’homme appelle et tout ce qu’il n’atteint pas.”
“Vivre, c’était vieillir, rien de plus.” L’Invitée (1943)
“Le secret du bonheur et le comble de l’art, c’est de vivre comme tout le monde, en n’étant comme personne.” Mémoires d’une jeune fille rangée (1958)
“La femme est vouée à l’immoralité parce que la morale consiste pour elle à incarner une inhumaine entité : la femme forte, la mère admirable, l’honnête femme etc.” Le Deuxième Sexe (1949)
“N’oubliez jamais qu’il suffira d’une crise politique, économique ou religieuse pour que les droits des femmes soient remis en question.
Ces droits ne sont jamais acquis. Vous devrez rester vigilantes votre vie durant.”
Creio que um fator crítico do sucesso das redes sociais é alimentar como nunca o ego dos que nelas participam. Quais amizades, quais colegas de escola, quais reencontros e futuros encontros, as redes sociais são, essencialmente, uma desvairada feira de egos. De pequenos egos a rebentar pelas costuras alinhavadas ao correr dos dias, de indignação em indignação, de heroísmo em heroísmo, rebenta-se um ponto, alinhava-se outro. Demagogos e pequenos pides, caçam likes como os políticos caçam votos, censuram a oposição, abatem-na por bloqueio. Nunca se lhes insinue uma ideia diversa, nunca se divirja do bem que os enaltece. Populistas atrasados da atrasada sociedade digital, publicam por “likes”, e, finalmente, pelo advento do “free wi-fi”, são populares. Geniais, eruditos, melómanos, cinéfilos, justiceiros para tudo o que de errado se passa no mundo, violentamente contra a violência, insultuosos contra o insulto, estúpidos contra a estupidez, têm a sua matilha e o seu rebanho. Os que enchem de likes o insulto contra o insulto e os que rejubilam em êxtase de aleluia a cada nova publicação. E belos, giros, com uma vida interessantíssima, super-heróis na projeção digital com sonhos de ramificação à vida real. Da compensação primitiva do sonho, à esperança da materialização do que projetam ser. Mais acessível do que a hipocrisia, só ter uma página numa rede social.
Sim, e depois há as excepções.
O futuro da democracia e da União Europeia reside na capacidade de os seus dirigentes estarem atentos aos ventos de mudança, de aceitarem que a Europa não é apenas um espaço para as velhas correntes da democracia-cristã e da social-democracia.
Se o “Brexit” foi a primeira grande vitória dos nacionais-populistas, as dificuldades para levarem a cabo o seu “Brexit”, apesar das concessões de Theresa May ao populista Boris Johnson, são um sinal de mudança.
A decisão de Theresa May de procurar um consenso com o líder dos trabalhistas é sinal de que começa a compreender o perigo de ficar refém dos nacionais-populistas.
Depois de anos de recessão democrática, surgem indícios de que emerge não apenas uma contracorrente progressista e social, que recusa o nacional-populismo de direita, mas também o nacionalismo da esquerda conservadora. São liberais nos valores e sociais nas políticas económicas, intransigentes na defesa dos direitos humanos, do ambiente e da hospitalidade. São uma força indispensável para a derrota dos Trumps, Jonhsons e Bolsonaros deste mundo.
Je me souviens que lorsque j’étais petit, ma mère m’a demandé si je savais quelle partie de mon corps était la plus importante.
Au fil des ans j’ai essayé de deviner et de trouver la bonne réponse.
Je me souviens de la première fois où je lui ai répondu ce qui me semblait à l’époque le membre le plus important : « mes oreilles, maman ? »
Elle me répondit « Beaucoup de gens sont sourds. Mais persévère, continue à y réfléchir. On en reparlera plus tard. »
Quelques années passèrent. Je n’avais pas oublié sa question, j’y avais réfléchi. Je pensais avoir une bonne réponse quand elle me reposa cette question. C’est alors qu’avec fierté je lui dis : « les yeux maman ! La vue est très importante ! »
Elle me regarda avec tendresse et me dit : « Je vois que tu as pris de la maturité. Mais ce n’est pas la bonne réponse. Il y a beaucoup de gens qui sont aveugles. »
J’étais déçu… Cependant, intrigué, j’ai continué à chercher. Je lui donnais mes réponses au fil des ans qui passèrent. Et à chaque fois sa réponse était la même : « Non…, tu progresses, mais ce n’est pas ça, continue à chercher. »
Puis, quelques années plus tard, mon grand-père nous a quittés. Nous étions tous très affectés par sa disparition. Tout le monde était en pleurs. Même mon père pleurait. C’était la deuxième fois de ma vie que je voyais mon père pleurer.
Amo-te porque sou dependente do teu odor.
Amo-te porque balanças nos ventos futuros.
Porque sou uma árvore que se abriga à tua sombra.
Amo-te porque só sei respirar na cidade de Eros.
Amo as marcas indecifráveis de todas as etnias
que produzem a beleza do teu rosto.
Bebo nas tuas coxas o linho molhado da minha infância.
Amo-te porque és alucinação e mulher real
no mesmo corpo volátil. Amo-te
porque também de noite és o meu sol quotidiano.
Amando-te não preciso de correr por montes e vales
em busca da mais antiga das mães. Tu, a irmã
da minha vagabundagem sempre inaugural. Amo-te
porque deixei de ter pressa. Um poema infinito,
uma cascata em cada sílaba. Uma lua que me engole
quando começo a ser sábio. A vegetação
no jardim que foi de pedra. Conheci na tua carne
a lama do meu reino luminoso. Amo-te
porque me fazes saltar o coração e lá vai ele
a caminho do país dos cedros. E assim renasço
no enigma da tua carne que no chão deitada, voa.
Amo-te porque dependo da tua cor do teu odor.
Amo-te porque me acolhes à tua sombra de árvore
para sempre iluminada. Amo-te
porque não tenho pressa e também as tuas águas
parecem um ribeiro por entre as colinas
da manhã. Amo-te mistura de linho e do mármore
macio da manhã. Amo-te porque os teus caracóis
se transformaram em carícia onde sou mais só.
Amo-te porque te vejo arder
como se desejasses que também eu ardesse
a teu lado.
Ao ler o novo – e de novo polêmico e de novo diferenciado – romance (místico, ecumênico, religioso?) “O MARCENEIRO, A última Tentativa de Cristo”, Editora Viseu, 2018, de Silas Corrêa Leite, a primeira coisa que nos vem à mente é uma frase de Friedrich Nietzche: “A verdadeira questão é: quanta verdade consigo suportar?”. Simples assim. O livro, segundo o autor, é do final do ano 2.000, com aquela história do tal bug do milênio, o mundo iria acabar, coisa assim, e ele escreveu este despojo para não dizer que não era capaz de escrever um romance, principalmente se mirando o livro Memorial de Maria Moura, de Raquel de Queiroz, quando então se decidiu que, se aquele era um romance contemporâneo, atual, também poderia bolar um. Deu nisso. Um desafio? Um braço quebrado, engessado, outro com problema, pois pegou uma velha maquina remington, botou papel de formulário contínuo, e, feito um surto-circuito – psicografado? Jorro neural? – por quinze dias, a média de doze horas por dia, de licença médica, macetou o começo, meio e fim do projeto então se formalizando. Às vezes, confessa, aqui e ali, numa parte emocionante e elevadora, do registro que punha para fora, sentia que, madrugada a dentro, a sala do apartamento da Alameda Barros onde morava no bairro de Santa Cecilia como se iluminava, e ele, que tem medo de fantasma, de espírito, feito um bobo, parava assustado e chamando a esposa, acendia todas as lâmpadas do lugar, quando ela assustada, mas já o conhecendo, perguntava:
-O que você está fazendo?
-Estava escrevendo sobre Jesus, dizia ele.
Ela então entendia, e respondia:
– E você quer escrever sobre Jesus sem iluminação de algum lugar? Quem procura, acha…
Entre les « masses » sinistres observées par Freud ou Canetti et le « peuple » objet de revendications démocratiques de nos jours, la notion de « multitude » offre une précieuse ressource à la pensée. (Christian RUBY)
« Multitudes » est désormais le titre d’une revue qui, justement, ne confond pas masses et multitudes. Mais c’est aussi un terme évoqué par beaucoup pour parler des explosions d’individus en foules dans le contexte de la mondialisation. Encore une chose n’est-elle jamais claire dans l’usage de cette notion : parle-t-on simplement de multitudes empiriques (et comptabilisables) ou de multitude au sens de la philosophie politique, celle qui veut parler de révoltes, d’affirmations critiques au sein de la politique ? Et que fait-on du vocabulaire des « masses », hérité du XXesiècle dans un sens positif (par les partis de gauche) ou négatif (par la police) ? D’autant que la différence entre les termes n’est pas sans nous laisser devant une question décisive : comment les actions de la multitude (foule, masse ou peuple) deviennent-elles politiques ?
Il fallait donc bien s’attacher à préciser que « multitude » de nos jours peut encore s’opposer à d’autres usages et références notoirement classiques. Pourquoi ? Sans doute parce que, durant longtemps, foules et masses semblaient désirer le fascisme, si l’on se réfère à ces débats du XXe siècle et aux grandes théories qui en ont proposé l’étude (Freud, Canetti). Reste la question de la notion de « peuple », qui ne peut s’utiliser avec moins de difficultés. Entre ceux pour qui le peuple renvoie à une ethnicité ou à une opération identitaire et ceux pour qui le peuple se définit comme l’institution de base de la démocratie, voire ceux pour qui le peuple ne saurait être autre chose qu’une promesse d’avenir, les partisans de telle ou telle politique se distribuent assez bien.
Pourtant, l’intérêt du nom de « peuple » n’est-il pas tout autre ? C’est ce qu’il fallait aussi vérifier, tout en prenant soin de penser la relation potentielle entre multitude et peuple. Or, là encore, les positions sont délicates à cerner, sinon en saisissant les deux logiques suivantes : pour les uns, le « peuple » est supérieur à la « multitude » en ce qu’il est organisé dans le but de dégager des choix collectifs, alors que la « multitude » est amorphe et manipulée ; mais pour d’autres, le « peuple » est au contraire l’objet de fantasmes d’unité dangereux, qui justifient de valoriser plutôt la « multitude » dans son irréductible diversité. Les phobies des premiers et des seconds ne se recoupent pas.
Com o fim da cultura religiosa aprendemos a pensar que os erros não são nossos, que são dos grupos, das sociedades ou das estruturas. O inferno são os outros.
Foi um dos inventos mais extraordinários que os manuais não registram: isso costuma acontecer com os inventos mais extraordinários. Antes dele, aqueles homens e mulheres viviam mais ou menos felizes. Ou preocupados, irritados, apavorados, mas sem o peso da culpa. Naqueles dias as coisas aconteciam e ninguém sabia por quê: a vida era assim ou, no máximo, eram assim caprichosos esses deusinhos que pululavam na árvore, na água, na lua distante ou no poderoso sol.
E então aconteceu. Não se sabe quando, quem, como, mas em algum momento, há quatro ou cinco mil anos, alguns homens e mulheres no Iraque, no Irã ou na Síria começaram a acreditar que a culpa era deles. Que se a sua colheita estava ferrada ou o quinto filho morresse ou o jumento estivesse mancando, não era por causa desses acasos da vida, mas porque tinham feito algo para merecer isso. E tudo, então, começou a mudar: tinha surgido, escreveu Bottéro, a ideia do pecado.
(Jean Bottéro nasceu pobre e provençal em 1914, estudou com os padres, foi ordenado dominicano, se dedicou a ensinar e foi demitido por não querer dizer que o Gênesis era um fato histórico. Então, dedicou-se à Mesopotâmia, aprendeu seus idiomas, casou-se, traduziu o Código de Hamurabi, foi sábio e, ainda assim, publicou vários livros).
Os primeiros deuses morais aparecem no antigo Egito, na Mesopotâmia, na Anatólia e na China.
Os deuses de astecas, maias ou incas não intervêm na moral das relações humanas.
FOTOGRAFIA | Uma menina às portas do santuário de Chak Chak, no Irã, lugar de peregrinação para os zoroastristas.KAVEH KAZEMIGETTY IMAGES
A ideia de um deus todo-poderoso que vigia os humanos a partir de cima e pune os que se desviam da norma surgiu depois que estes trocaram a tribo pela sociedade. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo que revê o surgimento das sociedades complexas e a ideia do deus moral. Dos antigos egípcios até o Império Romano, passando pelos hititas, os deuses morais só entram em cena quando as sociedades se tornam realmente grandes.
A crença no sobrenatural é tão antiga como os humanos. Mas a ideia de um ser onisciente vigilante da moral é mais recente. Antes das revoluções neolíticas, do surgimento da agricultura e das primeiras sociedades, os humanos viviam em grupos relativamente pequenos, baseados no parentesco. Na tribo, todos se conheciam e devia ser difícil ter uma conduta antissocial sem ser flagrado. O risco de ser apontado, castigado ou expulso do grupo bastava para controlar o indivíduo. Mas, à medida que as sociedades foram se tornando mais complexas, as relações com estranhos ao clã cresciam e, ao mesmo tempo, as possibilidades de escapar à sanção. Para muitos estudiosos das religiões, a aparição de um deus moral que tudo vê serviu como cola para a coesão social, facilitando a emergência de sociedades cada vez maiores.
“Mas o que vimos é que os deuses moralizantes não são nada necessários para que se estabeleçam sociedades em grande escala”, diz Harvey Whitehouse, diretor do Centro para o Estudo da Coesão Social da Universidade de Oxford (Reino Unido) e coautor do estudo. “De fato, só aparecem depois do forte aumento inicial da complexidade social, uma vez que as sociedades alcançam uma população de aproximadamente um milhão de pessoas”, acrescenta.
Quand une femme devient indifférente, vous saurez que vous l’avez perdue. Là, il n’y a ni colère, ni haine, ni amour surtout. Quand l’indifférence s’installe, plus de retour, pas de regrets. Le contraire de l’amour n’est pas la haine, mais l’indifférence.
Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.
Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.
Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.
A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.
Pensamento do dia : Com << As mulheres>> de Picasso e com os números de mortas como punhais que envergonham, declamo sangrando às mulheres do mundo, em celebração do seu (nosso) dia …
Voo de pássaro rasante,
epopeia heróica
hino de glória
canto de boa memória
seiva de vida
estóica.
Louca acendalha de fogo
és a ópera da boa esperança…
Bojadora,
que enfrenta as tormentas
e todas as horas de pranto….
fogueira que aquece os famintos….
Graça que abraça…
os enfermos
instintos….
Esperteza que desperta os amados…
musa que inspira os fados
diferentes….
Mulher,
dia como outro qualquer…
canto-te devoto
À mãe, à filha, à mulher….
a outra mãe qualquer,
em respeito….
pra alavancar o efeito
tão leve…
tão breve….
Saúdo as Mulheres,
em gratidão,
Sou um homem que olha de igual…
para cima,
para a dimensão….
para dentro,
para o coração…
para a mulher,
a revolução…..
Sempre desperta,
sempre em alerta….
almofada
humanidade
fada
humidade
desejo
alvor de caridade….
colo que encanta
de vida….
Mulher,
a quem devo quem sou,
altar
da eternidade…
bombom….
Deusa do amor
coragem,….
intrépida ternura
Esplendor !….
O Festival da Palavra estreia a sua primeira edição na capital, a realizar-se entre os dias 8 e 11 de Março. E a palavra de ordem é “fronteira”.
Lisboa vai ser o palco da primeira edição de um festival literário promovido pela Cabine de Leitura da Praça de Londres, em colaboração com as livrarias Barata, Tigre de Papel e Leituria, e terá lugar na freguesia de Alvalade a partir desta sexta-feira, dia 8, a estender-se até ao dia 11 do presente mês.
Na sequência de outros actos de cidadania e voluntariado, como é exemplo a Cabine de Leitura, que criou em 2014 na Praça de Londres, Carlos Moura-Carvalho, o único fundador desta iniciativa, decidiu avançar para a realização de um festival literário.
“Lisboa não realiza um festival literário à sua dimensão, de capital, de metrópole turística, de urbe com uma história única na Europa”, aponta. “Realizar um festival centrado numa palavra pareceu-nos ser uma opção criativa e desafiadora”.
Dia 23 de Março há Baile dos Morcegos no Centro Ciência Viva do Alviela, a partir das 19h30.
Num cenário fantástico decorre um jantar temático, não recomendado a vegetarianos, onde os comensais arriscam, atrevem-se e comem o que o Chef Rodrigo Anacleto lhes servir: são 5 pratos para degustar, encetando uma viagem que acompanha o voo dos morcegos desde que saem da gruta para caçar, até ao seu regresso. Entre pratos, osinvestigadores Jorge Palmeirim, Luísa Rodrigues, Ana Raínho e Hugo Rebelo revelam-nos algumas características dos morcegos. No início da noite os morcegos abandonam a gruta em direção à Praia Fluvial, onde os espera um maravilhoso espetáculo aéreo-acrobático e um baile ao som da banda Swing Na Guelra.
O programa completo tem um custo de 30? a partir dos 13 anos de idade, sendo que crianças dos 6 aos 12 anos pagam 15?. Faça já a sua reserva pois as vagas para o jantar são limitadas a 70 participantes.
Se pretender apenas assis! tir ao espetáculo na Praia Fluvial e participar no baile, a inscrição é 5? a partir dos 10 anos de idade, com oferta de uma bebida. Há street food na Praia Fluvial (Pão com Segredos e a carrinha da Miss Vinagretta), jogos tradicionais e atividades sobre morcegos. Aproveitem para conversar com o Pedro Alves (Plecotus) sobre o trabalho que desenvolve na área dos morcegos.
Este é um baile de máscaras alusivas aos morcegos mas traga um toque steampunk (sabia que o Conde Drácula, de Bram Stoker, foi escrito poucos anos após a Revolução Industrial?).
Seja criativo na fatiota e mergulhe no fantástico mundo dos morcegos. Acredite: não vai querer perder o baile do ano!
Inscrições até ao dia 20 de Março.
Há dias, entrei numa livraria para comprar um romance que tenho muita vontade de ler, A Capital (Dom Quixote), do escritor austríaco Robert Menasse. Recuei quando vi a capa do livro, achei que não iria conviver facilmente com ela, durante o tempo de leitura, e muito menos guardaria um livro que assim se apresenta. Menasse não merece este gesto de rejeição, mas o seu livro também não merece ser assim editado. Em casa, fui à Internet ver como eram as capas do mesmo livro, na edição alemã, inglesa, francesa, italiana e espanhola. Não gostei de todas, mas conviveria com todas pacificamente. Sobretudo, nenhuma delas sofria desse realismo ilustrativo tão em voga desde há bastante tempo na edição em Portugal, que faz um uso imoderado da fotografia.
Robert Menasse é um dos grandes autores austríacos contemporâneos, dispensa certamente que os seus livros sejam embrulhados desta maneira e que sobre a imagem da capa (não numa badana, não numa cinta, não na contracapa) venha aterrar, vinda do Financial Times, uma daquelas frases bem recheadas de adjectivos e advérbios que parecem engendradas por maus publicitários: “Uma sátira deliciosamente cruel — e oportuna — sobre a União Europeia e o significado da Europa nos dias de hoje”. No Financial Times podem ter gostado muito de A Capital, mas tenho a certeza que não é desses lados que Menasse busca aplausos e legitimações. Fácil é perceber que o editor português aplicou a este livro, e a quase todos os que saem das suas oficinas, a bitola gráfica e propagandística que julga adequada a leitores incautos e com pouca autonomia, que é preciso atrair com imagens, cores, sinais e frases de alto ruído, grande visibilidade e fraca elaboração. Seja dito, em boa verdade, que não é um caso excepcional, é até a regra editorial em que vivemos, e é por isso que o tomo aqui como um exemplo banal, já quase naturalizado. Se quisermos procurar as excepções, temos que frequentar algumas franjas do mercado editorial. Por isso é que é um pesadelo entrar hoje nas livrarias portuguesas, sobretudo nas que pertencem às grandes cadeias: é um mundo saturado de cores e volumes de grande porte, prontos para uma guerra comercial completamente insensata (não há livros maiores do que os portugueses: de um romance de 150 páginas, conseguem as editoras fazer um calhamaço com a lombada do Guerra e Paz), com uma paginação e uma mancha que em tempos só eram usadas em livros infantis. Instaurou-se a infantilização dos leitores, a ideia de que quem entra numa livraria precisa, logo à entrada, de tutela e só quando chega às secções do fundo é que começa a ter direito à ousadia de pensar e ganhar autonomia.
Porque o Bloco passou a representar politicamente a força de um ativismo social com memória e foi sempre fiel a essa raiz.
Porque encerrou uma pré-história em que grupos testemoniais se identificavam mais pelas ideias generosas do que pela capacidade de as disputar na sociedade.
Porque restabeleceu a política de esquerda como ela é: um programa que faz, que conhece a relação de forças, que aprende na ação social com os de baixo.
Porque detesta a vaidade de quem cria um grupo ou partido se tem ou uma diferença de opinião ou a pretensão de representar a verdade de uma versão literária da história.
Porque o caminho da convergência é o da aprendizagem e o da divergência é o da fraqueza.
Porque aprendeu com uma urgência, a do referendo perdido em 1998.
Porque a luta alterglobalização batia à porta e, logo depois, a independência de Timor Leste e a oposição à guerra da Jugoslávia e à ocupação do Iraque confirmaram tanto a ofensiva do império quanto a necessidade de lhe opor um internacionalismo militante.
Porque juntar capacidades, trajetos e vontades num grande partido é a forma da política de massas.
Porque correr por fora e por dentro exige saber para onde se vai.
Porque um partido é necessário e útil quando, podendo, consegue aumentar o salário mínimo e as pensões ou parar as privatizações.
Porque o Bloco, ao fazer o seu caminho, se torna mais combativo à medida que é capaz de formular alternativas e de as apresentar como fatores decisivos no debate nacional.
Porque o Bloco foi o primeiro e, até hoje, o mais consistente dos novos partidos à esquerda que, na Europa, mas também noutros continentes, o foram replicando ou seguindo caminhos paralelos.
Porque a luta das mulheres e homens que trabalham ou estão reformados fica mais forte com uma esquerda de confiança.
Porque os jovens precários precisavam de uma força política para os seus movimentos.
Porque as lutas feministas, anti-racistas, LGBT+, ou de quem estuda precisam de uma voz política que muda a agenda nacional.
Porque ganhamos muitas vezes e perdemos outras.
Porque a política militante de esquerda é continuidade e é persistência.
Porque nos lembramos do Miguel, do João, da Helena e de tantas e tantos outros e outras.
Porque na esquerda não desistimos de nada.
Très beau témoignage d’une reine pendant la guerre d’Algérie Izza Bouzekri Madame veuve Abbane Ramdane aujourd’hui Mme DEHILES
“Je suis née a la casbah,17 rue pyramide, en 1928 .A l’âge de trois ans j’ai perdu mon père qui gagnait péniblement sa vie.Nous avons déménagé a notre dame d’afrique, rue du Carmel ou j’ai fréquenté l’école communale jusqu’à l’obtention du certificat d’études puis j’ai continué a la Chabiba ou j’ai été impregnée et sensibilisée a la cause nationale par cheikh Tayeb el Okbi qui a eu une grande influence sur moi.Nous étions pauvres et ma mère ,veuve travaillait.Je l’aidais comme je pouvais.J’avais conscience de l’indigence des indigènes comparé au train de vie des colons .L’injustice était flagrante.
J’ai commencé a militer en 1947 au sein de l’AFMA (association des femmes musulmanes algeriennes ) sous l’égide du MTLD et présidée par Mamia Chentouf . J’y ai croisé Nafissa Hamoud future professeur Laliam .Nous faisions beaucoup de social et nous entrions dans des mariages a la casbah et a belcourt pour entonner des chants patriotiques ce qui nous valait de ressortir avec une petite cagnotte !
En 1949, atteinte de tuberculose, je suis envoyée a Marseille ou je suis sauvée in extrémis .Lors de mon séjour au sanatorium d’Annecy qui dura environ 15 mois j’ai été formée a la sténo -dactylo.
De retour a Alger, j’ai décidé de m’émanciper en enlevant le hayek au grand désespoir de ma mère ;de parfaire ma formation a l’école Pigier.
C’est grâce au MTLD que j’ai trouve un poste de secrétaire chez un avocat :maître Boyer, rue Duc des Cars.
Dés le déclenchement de la révolution j’ai cherché a rejoindre le FLN ,Nassima Hablal fût la première a y accéder et ce n’est qu’en Juillet 1955 que mon voeu se réalisa. Nous avions un voisin qui enseignait l’arabe, Hocine Belmili avec qui je discutais le matin avant d’aller a mon travail. Un jour ,il m’a dit :tu es sûre de vouloir entrer dans le FLN ? Oui ai-je répondu ,alors tiens toi prête demain.
Le lendemain par une belle journée de juillet , nous avons pris un taxi direction la Glacière a El Harrach. Un homme nous attendait.J’ai tout de suite compris que j’avais affaire a un élément important du FLN. Il m’a d’emblée tutoyer:
-Tu fais quoi?
– je suis la secrétaire d’un avocat
– Tu tapes a la machine
– oui
– tu as des contacts et des refuges surs ?
– oui
– Alors tu seras contactée a ton boulot.
Il a tourné les talons et a disparu.
Je venais de faire la connaissance de Abane Ramdane !
15 jours aprés,j’ai reçu la visite de Amara Rachid agent de liaison :Abane cherchait un refuge.
Je lui ai présenté Fatima Zekkal Benosmane qui l’a reçu chaleureusement.
J’ai profité de mon travail pour taper tout les tracts et autres documents que le FLN m’envoyait, parallelement a Nassima Hablal jusqu’à son l’arrestation en octobre 1955, arrestation a laquelle j’ai assisté ! J’ai cessé toute activité car j’étais fichée par la police qui me filait matin et soir, tout en continuant mon travail chez l’avocat.
Quelques temps aprés Abane m’envoie Mohamed Seddik Benyahia pour me demander d’entrer dans la clandestinité .Ce que je fis ,en m’installant dans la famille Alkama au 20 rue bastide;
J’ai eu l’honneur de taper les six premiers numéros d’El Moudjahed ainsi que la plate forme de la Soummam.
Aprés la grève des 8 jours, la répression policière a été telle que Abane a du fuir Alger pour Tunis en fevrier 1957, me laissant seule avec notre bébé .Ma vie de militante s’est arrêtée net. Je n’ai plus eu de ses nouvelles jusqu’en décembre 1957 date a laquelle je reçois un télégramme : “rejoins- moi “.
Arrivée a tunis début janvier 1958 il était trop tard il venait d’être assassiné mais je l’ignorais et on m’a laissé dans l’ignorance durant 5 longs mois…. Je l’ai recherché sans relâche jusqu’au jour ou j’ai croisé Slimane Dehiles son ami de toujours, le défenseur de la veuve et l’orphelin.
Nous avons pleuré Abane ensemble et je l’ai épousé en Novembre 1959
Et depuis ,je suis murée dans mon silence !” Izza Bouzekri
Veuve Abane Ramdane
épousé par Slimane DEHILES dit le Colonel Sadek
Je me suis mise à la peinture en mai 2016 et ce fut comme une révélation, un besoin immense de m’exprimer.
Je crée mes tableaux dans l’impulsion de mes émotions, de mes ressentis et de mes réflexions intérieures. Devant mes toiles vierges, jouant avec l’acrylique, l’huile et les matériaux qui m’interpellent, je laisse mes mains, mes pinceaux, mes couteaux et spatules et les couleurs se mêler, se superposer, se confondre ou se compléter pour suggérer des sujets à ceux qui regardent mes créations.
Dans mes abstractions intenses, pleines de forces contenues, ma constante dualité s’exprime dans une unité d’expression qui dévoile ma profession, thérapeute énergéticienne. Je me suis révélée au fil d’années de pratique et d’écoute axées sur l’amour de l’humanité, vers les âmes meurtries et les cœurs en souffrance.
Après de longues années en Suisse, je viens de choisir le Thoronet pour vivre mes passions.
A ce jour, plusieurs expositions privées et 2 tableaux primés à l’International Prize Caravaggio le 07/12/2018 et un tableau primé à l’International Prize Botticelli le 09/02/2019.
Actuellement une cinquantaine de mes œuvres est exposée au Casino Barrière à Sainte Maxime (France)
Isto de ser padre é uma responsabilidade gigantesca, um padre lida com a vida das pessoas e, no limite, até com a intimidade das pessoas, na confissão.
Anselmo Borges, padre e professor de filosofia da Universidade de Coimbra, não espera grandes anúncios do encontro entre o Papa e os presidentes das conferências episcopais do mundo inteiro, mas diz acalentar a esperança de ver os candidatos a padres sujeitos a um escrutínio psicológico e formados fora dos seminários. A ordenação de mulheres e de homens casados e o fim do celibato obrigatório – defende ainda – são imprescindíveis.
Criaram-se muitas expectativas relativamente a este encontro, num contexto em que a Igreja está fragilizada. O que poderá, na sua opinião, sair deste encontro?
Não vai sair nada de estrondoso para a opinião pública, porque, fundamentalmente, o objectivo do Papa Francisco com esta convocação é forçar uma tomada de consciência desta chaga na Igreja que não se imaginava fosse uma chaga tão extensa e vergonhosa. Eu não conheço condenação mais contundente e mais funda da pedofilia e do abuso de crianças do que a condenação de Jesus no Evangelho: “Deixai vir a mim as criancinhas”. Mas imediatamente a seguir, Jesus disse: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era preferível atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. É uma condenação terrível. E aconteceu este número ainda por determinar de casos de abusos e com este requinte brutal que é, aliás, um requinte com duas faces: abusava-se das crianças e depois (há relatórios disso) dizia-se-lhes que não dissessem a ninguém porque isso era pecado. Isso é abusar da consciência. É verdadeiramente inqualificável. Por outro lado, os bispos que tinham obrigação de atender às vítimas atenderam muito mais à salvaguarda da instituição, e por isso mesmo encobriram os abusos e os seus autores. Sei que o número de pedófilos é maior e muito mais extenso nas famílias, mas isso não me tranquiliza em relação à Igreja, porque as pessoas confiavam na Igreja e houve aqui uma traição a essa confiança. E neste momento a Igreja está profundamente fragilizada e descredibilizada. Portanto, este encontro é para que a Igreja toda, e também os fiéis, tomem consciência desta chaga, desta verdadeira tragédia. Em relação às medidas a tomar e à condenação canónica, o Código de Direito Canónico já foi renovado neste sentido da pedofilia. E, tratando-se ao mesmo tempo de um pecado e de um crime, é preciso colaborar com a justiça civil. Agora, evidentemente, também é preciso dar garantias reais de defesa àqueles que são acusados.
Chers membres de DiEM25, nous avons le plaisir de vous inviter à voter pour les candidats DiEM25 français aux élections européennes de mai 2019. Le vote est désormais ouvert. Il vous est demandé de retenir 6 femmes et 6 hommes de votre choix.
Nous attirons votre attention sur le fait que ces candidats seront proposés sur la liste française du Printemps Européen dans l’ordre de préférence que les membres de DiEM25 auront choisi. En revanche, dans la mesure où la liste Printemps Européen est constituée de plusieurs mouvements, il est possible que les candidats DiEM25 ne soient pas en position éligible voire que la liste soit réduite.
Nous vous remercions pour votre participation nombreuse et active. Parlez-en autour de vous. Carpe Diem ! »
« Dear Diem25 members, we have the pleasure to invite you to participate in the selection of the French candidates to the May 2019 European Elections. We hereby announce that the voting process is open. Please select 6 women and 6 men amongst the candidates.
We draw your attention to the fact that the 12 selected candidates will be proposed in the order of your preference to be placed on the list of the European Spring in France. Nevertheless since the European Spring in France is composed of several parties it is not guaranteed that the DiEM25 candidates be placed in the top of the list in elegible positions and/or that the DiEM25 list may not be reduced.
Thank you for your active participation. Please spread the vote about this vote because we want maximum participation throughout Europe.
A ironia é o sal da inteligência. O humor é a pimenta da crítica. A graça é o tempero do desconcerto. Leia-se Eça, Camilo, Jorge de Sena, Almada Negreiros. Mesmo Fernando Pessoa largava as suas graças e, aqui e acolá, mesmo as suas piadolas … “Salazar é feito de sal e azar …” Não entender a vida por este lado é estar no outro lado do mundo … em nenhures.
José Albergaria
Retirado do Facebook | Mural de Joaquim Silva Pinto
Saúdo as diligências do Papa Francisco, mais uma vez a colocar o dedo na ferida, com coragem, assumindo um feroz combate ao maior nojo de que padece a raça humana, do qual não se exclui a Igreja.
Violações sexuais e, por maioria de razão pedofilia, são crimes hediondos que precisamos combater com determinação, por imperativo de consciência e por dever de cidadania.
A Igreja não escapa a este nojo civilizacional e precisa reformar-se, na penalização adequada, que castigue culpados e iniba tentações que, com propriedade, emanam do diabo.
Importa ainda referir algumas notas ….
1. Esta imposição do celibato na igreja é hoje um absurdo. Na verdade a Igreja tem um papel fundamental na sociedade e os seus membros são homens e mulheres como os outros. Impor-lhes o celibato como se fossem extraterrestres é desafiar o diabo a corromper o domínio de Deus…. Qual é o problema se um dia destes os padres, por exemplo, puderem casar e ter filhos e, nesse formato humano, continuarem a proclamar o bem em nome da religião que professam ? Na minha opinião, essa liberdade melhoraria, em muito, o papel dos membros da igreja e o resultado espiritual do seu trabalho. Por exemplo, não tenho dúvidas que aumentariam quer o número de membros do clero, quer a adesão de fiéis na comunhão dessa normalidade.
A Igreja impõe o celibato desde 1059 por razões que se prendiam com a defesa do património da instituição. Todavia, nada justifica hoje a manutenção dessa imposição que deverá passar a ser facultativa…. com urgência.
2. Se a Igreja impõe o celibato, deduzo eu que tal deveria aplicar-se a opções homossexuais e a opções heterossexuais. Não consigo compreender como se disserta, quase em êxtase, sobre as estatísticas da opção homossexual no seio da Igreja, como se esta fosse a opção proibida…. Mas o celibato não se refere ao desejo, à variedade de opções de cada um ? Então porque não se fala e escreve acerca da opção heterossexual de cada um ?
Ainda recentemente foi editado um livro que conclui por uma determinada percentagem, elevada, de homossexuais na Igreja Católica…deduzindo assim que os restantes seriam heterossexuais e portanto cumpririam os preceitos da instituição.
Na verdade, os homens e mulheres, pela simples razão de o serem, têm sentimentos, desejos, emoções, amores…e nada prejudica mais uma instituição do que castrar essa dimensão Humana, afinal de contas, a principal riqueza da mesma instituição. Se piorarmos a situação, classificando as pessoas com rótulos inaceitáveis à luz do século em que vivemos, só podemos concluir que estamos no mau caminho….
3. A Igreja, tal como acima refiro, tem um papel fundamental na sociedade. É precisa, útil e incontornável. Mesmo aqueles que assumem uma rebeldia exibicionista, se tiverem a grandeza de reflectir um pouco, irão perceber que este lubrificante dos humanos é a razão que permite o funcionamento do motor da humanidade. Não sejamos hipócritas. Respeitemos e sejamos contributivos no sentido de encontrar o melhor desempenho para a humanidade….seja nos momentos de fé, nos momentos de dúvida ou nos momentos de descrença … Porque apreender o Humanismo, e difundi-lo, vai muito para além de convicções domésticas ou de dogmas sem sentido.
4. Uma homenagem final ao Papa Francisco, esse revolucionário que tanto tem cultivado os princípios da grandeza Humana.
Não há só uma luta pelos pagamentos da ADSE. Há antes uma luta por todo o SNS e pelo preço da saúde. Pois é, o que tivemos até há poucas semanas foi um mero entretenimento. Mas, de repente, tudo se precipita ao mesmo tempo. Temos uma persistente greve que se mede pelo número de cirurgias que consegue adiar nos grandes hospitais públicos e não se consegue saber quem paga a greve. Temos um governo nervoso que, tendo adiado por calendário político a solução que as enfermeiras exigiam, cede tarde e depois se precipita recorrendo a uma medida tão excepcional como a requisição civil. Temos uma discussão sobre a Lei de Bases de Saúde em que se movem as pressões que, do Presidente aos partidos de direita, visam assegurar que o privado mantém o seu quinhão nos pagamentos públicos, tudo dito muito ideológico, como é bom de ver. E, agora, temos os privados a ameaçar suspender os contratos com a ADSE se esta persistir em fazer pagar os 39 milhões cobrados em custos excessivos há um par de anos.
A questão resume-se a isto: há custos imputados à ADSE que variam de um para quatro no mesmo tratamento, num lado é cinco mil euros e noutro vinte mil. Os hospitais privados querem manter o seu poder de determinar o preço, a ADSE quer uma tabela restritiva e que, ainda assim, deixa uma margem que em alguns casos vai a 40% acima do preço de mercado. É milhão a milhão que se decide esta estranha negociação que ameaça os utentes do seguro público.
Em todo o caso, a jogada dos hospitais privados é arriscada. Fingem comprometer mais de 20% da sua faturação (e, com os pagamentos pelo SNS, o Estado paga a todos os privados mais de 50% da faturação), nos cinco maiores grupos hospitalares privados são 250 milhões, mas apostam em que os utentes da ADSE preferem evitar o SNS, ou que este está pelas costuras e não consegue responder a tal aumento súbito da procura. Ora, o SNS faz 42 milhões de consultas e a ADSE soma 2,8 milhões de consultas no privado; poder-se-ia portanto calcular que mais facilmente os hospitais e centros de saúde públicos, eventualmente com alguns privados que mantêm as convenções, aguentam mais utentes, do que os hospitais privados suportam a perda de receita. E, de facto, para tudo o que é mais complicado, é sempre ao SNS que o cidadão recorre e não aos hospitais privados.
Apesar disso, os grupos privados esperam que alguns utentes troquem o seguro ADSE, que é caro, por seguros privados que tenderão a ficar ainda mais caros. Provavelmente, haverá quem o faça, mesmo que ainda esteja indefinido o curso imediato deste jogo do empurra. A situação é muito apetitosa para as seguradoras de saúde, que já abrangerão um terço da população, em grande parte devido à promoção pelas empresas entre os seus trabalhadores.
Só que é tudo uma camuflagem. Uma parte dos médicos nos hospitais privados não tem convenção com a ADSE, cujos utentes são por vezes submetidos a tratos de poleiro. E a cobertura dos produtos oferecidos para substituir o seguro público esgota-se num ápice se a patologia for complicada, vai o doente recambiado para o hospital público. Parece portanto que os grupos privados só pretendem com esta manobra que não haja limite aos pagamentos pela ADSE e que as tabelas continuem a ser generosas, não tanto de romper relações – o privado não vive sem o dinheiro público.
Há depois o problema de fundo. A ADSE, criada 16 anos antes de existir o SNS, é paga pela maioria dos funcionários públicos e acrescenta aos impostos, com a contrapartida de um acesso facilitado a análises, consultas e tratamentos. Tem lucro e é portanto sustentável. Mas a convergência entre os sistemas públicos será sempre necessária num serviço nacional mais abrangente. Esse é o maior medo dos privados.
Nos dias 6 a 8 de Março de 2019 realiza-se na Escola Superior de Tecnologia e Gestão / Instituto Politécnico de Leiria, em Leiria, o II Simpósio Ibérico de Segurança Rodoviária (SIRS), iniciativa organizada em parceria por várias entidades portuguesas e espanholas: ASVDS – Associação Vertentes e Desafios da Segurança, Município de Leiria (Bombeiros Municipais), Escola Superior de Tecnologia e Gestão, Universidad de Extremadura, Guardia Civil e APREVEX – Asociación de Prevención Extremeña.
Para além dos representantes das várias entidades parceiras e co-organizadoras, para a sessão de abertura está confirmada a presença do Ministro da Administração Interna, do Presidente da Câmara Municipal de Leiria e de um representante das autoridades espanholas.
O programa do II Simpósio Ibérico de Segurança Rodoviária, que incorpora as Jornadas de Protecção Civil dos Bombeiros Municipais de Leiria, está definido e assenta em três tópicos principais relacionados com a Segurança Rodoviária: a Situação Actual da Sinistralidade, a Prevenção e o Futuro.
No primeiro tópico, durante o primeiro dia de trabalhos, serão apresentados factos e dados relativos à Sinistralidade Rodoviária em Portugal e em Espanha, e analisados os impactos da Sinistralidade nas empresas Seguradoras, de Transporte e nas Unidades Hospitalares.
No segundo dia do simpósio, a 7 de Março, estará em destaque a temática da Prevenção, observada sobre diversos prismas, nomeadamente, as Campanhas, os Projectos de Inovação e Sistema de Segurança, o Comportamento Humano e a importância da Formação em Segurança Rodoviária.
O futuro da Segurança Rodoviária será analisado no terceiro e último dia de trabalho, de manhã de forma mais teórica, com a reflexão sobre os temas da Prevenção, da Punição e das Infraestruturas, e, de tarde, com uma vertente iminentemente prática, com a realização de uma Simulação de um Acidente Rodoviário e com a apresentação de Práticas de Simuladores.
As inscrições no Simpósio são gratuitas, embora obrigatórias e limitadas (até 340 participantes). Apenas as refeições, se seleccionadas, serão pagas.
Para todos os participantes será emitido certificado SIGO.
Já o escrevi antes. Quando o colégio privado que frequentei entre os 3 e os 13 anos de idade ficou no topo dos rankings. Não saí de lá no topo. Saí de lá com uma visão fechada do mundo, saí de lá tendo por normal a separação do ensino por sexos, saí de lá sem saber o que era a diversidade étnica e social de Lisboa , saí de lá com uma visão terrífica da moral católica. No topo? Não. Cá em baixo. Com notas boas, pois claro.
Na escola pública que não ficou no topo nos rankings saí de lá com uma visão mais aberta do mundo, saí de lá sabendo de quem tem e de quem menos tem, saí de lá sabendo da diversidade religiosa, saí de lá com um único colega negro, mas nele vi o que é o racismo vivido diariamente, saí de lá com a saudável convivência entre rapazes e raparigas, saí de lá sem dar grande importância aos dias em que chovia dentro da minha sala de aula de filosofia, porque era o espaço da minha felicidade. Não saí pequena. E as notas foram ainda melhores.
Uma das mulheres que melhor me amou nunca a vi à luz do dia. Nem à luz de velas. Entrava no quarto (de um pequeno hotel) à noite, com a luz apagada, com todas as persianas cerradas, e com a luz apagada saía. Assim tínhamos combinado. Costumava dizer-me, como no mito, Nunca deverás olhar-me, se precisares de luz para me ver é porque és cego ou não tenho em mim luz bastante. Tinha. Um corpo perfeito, uma voz alcalina, uma arte indizível ou talvez só essa cantada pelos poetas do amor. “Não podes saber quem sou, nem sequer se te amo.” Amava-me, isso sim, amava-me porque fazia o que fazia com arte e entusiasmo, fundidos com fervor crescente um no outro. Nunca acendi a luz. Aceitei a desigualdade, e penso que só com ela a aceitei: sentindo que, ela, conhecendo-me embora o rosto e o percurso, também desejava desvendar os meus mistérios. Um dia senti que me estava a apaixonar por ela, e disse-lhe. Foi o fim. Disse-me apenas, “Isso seria a nossa desgraça. Vou partir.” E partiu, essa que devia ser a mulher de algum dos meus amigos. Nunca quis saber, nunca procurei saber nada, e talvez agora me leias. Mas conheci de ti fontes que outros não poderão conhecer — porque nesses momentos tu eras uma-comigo, a tua humidade derramava-se em mim, numa dor única e feliz e sei que nunca ninguém te amará como eu te amei. Nem imaginas o que eu daria, não para ver o teu rosto, não para saber quem és, mas para me sentir novamente afogado nas tuas fontes loucas, que nunca mais esquecerei. Onde estarás? O que sentirás quando passas por mim e não te vejo? O que sentirás quando leres isto? Talvez me telefones de novo.
— Bom dia, cavalheiro. Em que lhe posso ser útil?
— Bom dia. É aqui que vendem revoluções?
— É sim. De que tipo deseja?
— Olhe, nem sei bem como escolher.
— Bom, há quem as escolha por século, por ano, por mês…
— Muito bem. Pode ser uma de Outubro. É que o Outono é a minha estação favorita.
— Temos duas dessas. Prefere Republicana ou Vermelha?
— Qual é a diferença entre elas?
— A diferença geográfica é cerca de quatro mil e quinhentos quilómetros. A temporal é de sete anos e vinte dias.
— Estava a pensar na diferença de preço.
— Que importa isso, caro senhor? Uma revolução bem feita não tem preço.
— Já vi que conhece bem o produto que vende.
— Assim é, cavalheiro. Sou um profissional, e as nossas revoluções são de primeiríssima qualidade.
— Acho que vou levar uma vermelha, como os cravos. A minha mulher gosta de cravos.
— Aconselho-o, então, a levar uma de Abril e não de Outubro. Pode não ser boa ideia contrariar a sua mulher num assunto destes.
— Pois é… Se calhar é melhor não ligar ao mês e escolher baseado noutras características.
— Talvez queira ver por estilo. Temos a Liberal…
— Sou mais para o conservador, sabe…
— Deixe que lhe diga, cavalheiro, que é a primeira vez que tenho na loja um conservador a pedir uma revolução.
— Admito que tenho uma alma cheia de contradições…
— Quem não tem? Compreendo-o perfeitamente. Talvez precise de uma revolução interior.
— Não, obrigado. Sinto-me bem como sou.
— E que tal estilos menos agressivos? Temos, por exemplo, a Industrial…
— Hum… Tem ar de ser muito pesada.
— Nesse caso, porque não opta por algo mais leve como uma simples revolta?
— Isso não! Comigo é tudo a sério. Quero mesmo uma revolução. E à grande.
— Talvez o cavalheiro prefira escolher por nacionalidades. Temos a Americana, a Chinesa…
— A Chinesa é a Cultural, não é?
— Exacto. E o cavalheiro parece-me bastante culto. Olhe que é uma boa escolha. Garanto-lhe que vai bem servido.
— Também não. Temo que seja muito Mao para mim.
— Então, a Cubana, a Espanhola… Já sei. Se quer à grande, porque não leva uma Francesa?
— Não. Não gosto de guilhotinas. As lâminas arrepiam-me… Até as injecções… Nem lhe conto. Uma vez, nas urgências…
— Compreendo. Talvez o cavalheiro não seja talhado para isto das revoluções…
— Acha mesmo?
— Aqui entre nós, porque não fica simplesmente em casa a gritar contra o governo?
ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, Romance místico, romance religioso ou romance ecumênico? Depois de Goto, A Lenda do Reino Encantado do Barqueiro Noturno do Rio Itararé, pela Clube de Autores Editora, SC, romance pós-moderno (considerado a melhor obra do escritor); depois do gracioso Gute-Gute, Barriga Experimental de Repertório, Editora Autografia-RJ, e depois do revoltado Tibete-De quando você não quiser mais ser gente, Editora Jaguatirica, RJ, três romances de peso e agraciados por boas críticas literárias de renome, o escritor, ciberpoeta, ensaísta, crítico literário e então por isso mesmo romancista, Silas Correa Leite, de Itararé-SP, premiado em diversos concursos literários, lança finalmente o romance ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, primeiro de uma trilogia. Este livro começou a ser escrito em 1998, terminado em 2015, e só agora finalmente lançado pela Sendas Editora do grupo Kotter Editorial de Curitiba-PR.
Como todos os livros diferenciados do autor, polêmicos, críticos, ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS não foge à regra e ao estilo de Silas Correa Leite vai nesse fulcro literário. Desta feita, entrando num campo por assim dizer místico, ele narra a história de um cidadão de Itararé, claro – “Canta a tua aldeia e serás eterno”, disse Leon Tolstoi – (e isso o Silas faz como primeiro expoente da chamada Literatura Itarareense), e narra sobre um cidadão pobre, renegado pelo pai empresário rico da cidade de origem, que depois de décadas de muitos trabalhos e estudos em SP, vence na vida, feito um new rich da chamada alta sociedade paulistana. Menino sensível, camuflou seu lado sentidor, especial, para ganhar dinheiro. Ficando rico – e ninguém fica muito rico impunemente entre riquezas impunes e lucros injustos – o personagem (real, imaginário?), dr Paulo de Tarso Trigueiro um dia ao sair de um luxuoso jantar em point rico de área nobre da capital, tem uma visão que o alumbra.